16 de janeiro de 2016

Capítulo 22 - Esconde-esconde

— O que foi? — eu tinha perdido o controle da voz. Estava sem inflexão, indiferente.
Jessamine ficou me olhando. Mantive a expressão vazia e esperei. Os olhos dela se desviaram do rosto de Archie para o meu, sentindo o caos. Eu sabia o que Archie tinha visto.
Uma atmosfera de paz surgiu ao meu redor. Eu não lutei contra. Usei-a para manter as emoções sob controle. Archie também se recuperou. O rosto dele voltou à expressão normal.
— Nada — disse ele, a voz incrivelmente calma e convincente. — Só a mesma sala de antes. — Ele olhou para mim e se concentrou pela primeira vez. — Você quer café da manhã?
— Vou comer no aeroporto.
Eu também estava calmo. Quase como se estivesse pegando o sentido adicional de Jessamine, consegui sentir o desespero escondido de Archie para me tirar da sala para que ele pudesse ficar sozinho com ela. Para contar a ela que eles estavam fazendo alguma coisa de errado, que iam fracassar.
Archie ainda estava concentrado em mim.
— Sua mãe está bem?
Tive que engolir uma onda de bile. Eu só podia seguir o roteiro que planejei mais cedo.
— Minha mãe estava preocupada — falei, a voz monótona. — Queria voltar para casa. Tudo bem. Eu a convenci de ficar na Flórida por enquanto.
— Que bom.
— É — concordei roboticamente.
Eu me virei e andei lentamente até o quarto, sentindo os olhos deles me seguindo por todo o caminho. Fechei a porta e fiz o que podia. Tomei banho e me vesti com roupas que cabiam. Vasculhei minha bolsa até achar a meia cheia de dinheiro. Eu a esvaziei no meu bolso.
Fiquei ali por um minuto, olhando para o nada, tentando pensar em coisas que podia pensar. Tive uma ideia.
Eu me ajoelhei ao lado da mesinha de cabeceira e abri a gaveta de cima. Por baixo do exemplar da Bíblia, havia folhas de papel de carta e uma caneta. Peguei uma folha de papel e um envelope na gaveta.
Edythe”, eu escrevi. Minha mão estava tremendo. As letras estavam quase ilegíveis.

Eu te amo.
Desculpe de novo. Desculpe.
Ela está com a minha mãe e eu tenho que tentar. Sei que pode não dar certo. Lamento tanto.
Não fique com raiva de Archie e nem de Jessamine. Se eu conseguir me livrar deles, vai ser um milagre. Diga a eles que agradeço. Principalmente a Archie.
E, por favor, não vá atrás dela. É o que ela quer. Não consigo suportar a ideia de mais alguém se machucar por minha causa, principalmente você. É a única coisa que posso pedir agora. Por mim. Não lamento ter conhecido você. Nunca vou lamentar amar você.
Me perdoe.
Beau.

Dobrei o papel em três partes e guardei no envelope.
Ela acabaria encontrando. Eu esperava que ela entendesse.
Esperava que perdoasse. E, mais do que tudo, esperava que ouvisse.
Quando voltei para a sala, eles estavam prontos.
Fiquei sentado sozinho dessa vez no banco traseiro do carro. Jessamine me olhou pelo espelho quando achou que eu não repararia. Ela me manteve calmo, e gostei disso.
Archie estava encostado na porta do passageiro, o rosto virado para Jessamine, mas eu sabia que estava me olhando pela visão periférica. O quanto ele viu? Estava esperando que eu tentasse alguma coisa? Ou estava concentrado nos gestos da rastreadora?
— Archie? — perguntei.
Ele estava cauteloso.
— Sim?
— Escrevi um bilhete para minha mãe — falei, lentamente. — Você daria para ela? Deixaria na casa dela?
— Claro, Beau. — A voz dele estava cautelosa, da forma como se falava com alguém de pé em um peitoril.
Os dois conseguiam me ver desmoronando. Eu tinha que me controlar melhor.
Chegamos ao aeroporto rapidamente. Jessamine estacionou no centro do quarto andar da garagem; o sol não chegava tão fundo do prédio de concreto. Não precisamos sair das sombras enquanto seguíamos para o terminal. Era no terminal quatro, o maior, o mais confuso. Talvez isso ajudasse.
Eu os conduzi pela primeira vez, por conhecer mais o ambiente do que eles. Pegamos o elevador para o terceiro pavimento, onde os passageiros desembarcavam. Archie e Jessamine passaram um longo tempo olhando o quadro de embarque. Eu podia ouvi-los discutindo os prós e contras de Nova York, Atlanta, Chicago. Lugares que eu não conhecia. E jamais conheceria.
Tentei não pensar na minha fuga. Ficamos sentados em uma fila comprida de cadeiras perto dos detectores de metal, e meu joelho não parava de balançar. Jessamine e Archie fingiam olhar as pessoas, mas só estavam me olhando. Cada centímetro que eu me mexia na cadeira era seguido de um olhar rápido de canto do olho deles. Era impossível. Eu devia correr? Eles ousariam me deter fisicamente com tanta gente em volta? Ou só iriam atrás?
O que quer que eu fizesse, teria que decidir a hora certa. Se aguardasse até Edythe e Carine estarem perto, Archie teria que esperá-las, certo? Mas eu não podia deixar que chegassem perto demais. Eu tinha certeza de que Edythe não se importaria com as testemunhas humanas quando começasse a correr atrás de mim.
Parte de mim conseguiu fazer essas avaliações calculadas. A outra parte estava muito ciente de que Edythe estava quase chegando. Como se todas as células do meu corpo estivessem me puxando para ela. Isso tornou tudo pior.
Vi-me tentando pensar em desculpas para ficar, para vê-la primeiro e depois fugir. Mas isso era impossível se eu quisesse ter chance de fugir.
Por várias vezes, Archie ofereceu-se para me acompanhar ao café da manhã. Mais tarde, eu disse. Agora não.
Olhei o quadro de chegadas, observando enquanto um voo depois de outro pousava no horário. O voo de Seattle se aproximava cada vez mais do alto do quadro.
E então, quando eu só tinha trinta e cinco minutos para escapar, os números mudaram. O avião dela estava dez minutos adiantado. Eu não tinha mais tempo.
Peguei o envelope em branco no bolso e entreguei para Archie.
— Você entrega isso para ela?
Ele assentiu, pegou a carta e botou na mochila.
— Acho que vou comer agora — falei.
Archie se levantou.
— Vou com você.
— Você se importa se Jessamine for comigo? — perguntei. — Estou me sentindo meio... — Não terminei a frase. Meus olhos eram turbulentos o bastante para transmitir o que não falei.
Jessamine se levantou. Os olhos de Archie estavam confusos, mas, como vi, para meu alívio, não havia suspeita neles. Ele devia estar atribuindo a mudança em sua visão a alguma manobra da rastreadora e não a uma traição minha. Ele não estava me observando, estava observando Joss.
Jessamine andou em silêncio ao meu lado, a mão na base de minhas costas, como se me guiasse. Fingi não ter interesse nas primeiras lanchonetes do aeroporto, minha cabeça procurando alguma coisa, qualquer coisa. Tinha que haver uma janela, uma oportunidade que eu pudesse usar.
Vi uma placa e tive uma ideia. Inspirada no desespero.
Havia um lugar para onde Jessamine não me seguiria.
Eu tinha que ir rápido, antes que Archie visse alguma coisa.
— Importa-se? — perguntei a Jessamine, indicando a porta. — Volto logo.
— Estarei aqui — prometeu ela.
Assim que passei pela entrada sem porta e sumi, eu saí correndo.
Era uma solução ainda melhor do que a primeira em que pensei. Eu me lembrava daquele lugar. Meus passos aceleraram.
O único lugar para onde Jessamine não me seguiria: o banheiro masculino. Eles costumavam ter duas entradas, que normalmente eram próximas. Meu primeiro plano, entrar atrás de outra pessoa, jamais teria dado certo.
Mas aquele lugar, eu já estivera ali. E me perdi uma vez, porque a outra saída era do outro lado, em um corredor diferente. Eu não podia ter planejado melhor.
Eu já estava no corredor agora, disparando até os elevadores. Se Jessamine ficasse onde disse que estaria, eu nunca entraria em sua linha de visão. Não olhei para trás enquanto corria. Era minha única chance e, mesmo que ela estivesse atrás de mim, eu precisava continuar. As pessoas olhavam, mas não pareciam chocadas demais. Havia muitos motivos para alguém correr em um aeroporto.
Disparei até os elevadores e enfiei a mão entre as portas que se fechavam de um elevador cheio que estava descendo. Eu me espremi entre passageiros irritados e olhei para ter certeza de que o botão para o primeiro andar fora pressionado. Já estava aceso, e as portas se fecharam.
Assim que as portas se abriram novamente, eu saí, causando murmúrios irritados atrás de mim. Diminuí o passo enquanto passava pela segurança perto da esteira de bagagem e voltei a correr devagar quando as portas de saída entraram em meu campo de visão. Eu não tinha como saber se Jessamine já estava me procurando. Eu só teria segundos se ela estivesse seguindo meu cheiro. Pulei para as portas automáticas, quase me chocando contra o vidro quando elas se abriram devagar demais.
Junto ao meio-fio abarrotado de gente, não havia nenhum táxi à vista.
Eu não tinha tempo. Archie e Jessamine ou estavam prestes a perceber que eu sumira ou já haviam se dado conta disso. Eles me encontrariam num piscar de olhos.
Um micro-ônibus branco estava fechando as portas a pouca distância de mim.
— Espere! — gritei, correndo, acenando para o motorista.
— Este é o micro-ônibus para o Hyatt — disse o motorista numa confusão enquanto abria as portas.
— Sim — gritei — é para lá que eu vou. — Subi correndo a escada.
Ele ergueu a sobrancelha para mim por causa da minha falta de bagagem, mas deu de ombros, sem se incomodar em perguntar.
A maioria dos lugares estava vaga. Sentei o mais distante possível dos outros passageiros e olhei pela janela primeiro para a calçada, depois para o aeroporto, que se afastava. Não conseguia parar de imaginar Edythe, onde ela pararia, na beira da estrada, quando descobrisse o final do meu rastro.
Não se descontrole ainda, eu disse para mim mesmo. O caminho a percorrer é longo.
Minha sorte continuava. Na frente do Hyatt, um casal que parecia cansado pegava a última mala no porta-malas de um táxi. Pulei para fora do micro-ônibus e corri para o táxi, deslizando para o banco de trás. O casal cansado e o motorista do micro-ônibus me olharam.
Dei o endereço da minha mãe à taxista surpresa.
— Preciso chegar lá o mais rápido possível.
— Isso fica em Scottsdale — reclamou ela.
Atirei quatro notas de vinte no banco da frente.
— Isso basta?
— Claro, garoto, sem problema.
Encostei no banco e cruzei os braços. A cidade começou a passar por mim, mas não olhei pela janela. Eu tinha que lutar para manter o controle. Não havia sentido em desmoronar agora, não ajudaria em nada. De forma improvável, eu fugi. Agora faria tudo possível pela minha mãe. Meu caminho estava determinado. Eu só precisava segui-lo.
Assim, em vez de entrar em pânico, fechei os olhos e passei a viagem de vinte minutos com Edythe. Imaginei que eu estava no aeroporto para recebê-la. Visualizei como eu ficaria bem no limite da linha amarela, a primeira pessoa que ela veria quando entrasse no longo corredor depois dos portões. Ela andaria rápido demais no meio dos outros passageiros, e eles ficariam olhando porque ela era graciosa demais. Ela dispararia pelos últimos metros, de um jeito nada humano, e jogaria os braços ao redor da minha cintura. E eu não me daria ao trabalho de tomar cuidado.
Perguntei-me aonde nós iríamos. Para algum lugar ao norte, para que ela pudesse sair durante o dia. Ou talvez para algum lugar muito afastado, para que pudéssemos nos deitar ao sol juntos de novo. Imaginei-a na praia, sua pele cintilando como o mar. Não importaria por quanto tempo tivéssemos de nos esconder. Ficar preso em um quarto de hotel com ela seria o paraíso. Eram tantas coisas que eu ainda queria saber sobre ela. Eu podia ouvi-la falar para sempre, jamais dormir, jamais deixar de estar a seu lado.
Podia ver seu rosto com tanta clareza agora... quase ouvir a voz dela. E, apesar de tudo, por um segundo me senti feliz. Estava tão envolvido em meus devaneios escapistas que perdi a noção dos segundos.
— Ei, qual era mesmo o número?
A pergunta da taxista destruiu minha fantasia. O medo que controlei por alguns minutos voltou a assumir o controle.
— Cinquenta e oito, vinte e um. — Minha voz parecia estrangulada.
A taxista olhou para mim como se estivesse com medo de que eu estivesse tendo um ataque ou coisa assim.
— Então, chegamos. — Ela estava ansiosa para me ver fora de seu carro, provavelmente esperando que eu não pedisse o troco.
— Obrigado — sussurrei. Não havia necessidade de ter medo, lembrei a mim mesmo. A casa estava vazia. Eu tinha que correr; minha mãe me esperava, apavorada, dependendo de mim.
Corri para a porta, pegando automaticamente a chave na calha. Estava escuro lá dentro, vazio, normal. O cheiro era tão familiar que quase me deixou incapacitado. Parecia que minha mãe devia estar perto, no outro aposento, mas eu sabia que não era verdade.
Corri até o telefone, acendendo a luz da cozinha ao passar. Ali, no quadro branco, havia um número de dez dígitos escrito com uma caligrafia pequena e elegante.
Meus dedos se atrapalharam com o teclado, cometendo erros. Tive que desligar e discar novamente. Dessa vez, concentrei-me somente nos botões, apertando com cuidado cada um deles. Consegui. Segurei o fone no ouvido com a mão trêmula. Só tocou uma vez.
— Alô, Beau — atendeu a voz tranquila. — Que rapidez. Estou impressionada.
— Minha mãe está bem?
— Perfeitamente bem. Não se preocupe, Beau, não tenho problema com ela. A não ser que você não tenha vindo sozinho, é claro. — A voz leve, divertida.
— Estou sozinho. — Nunca estivera mais só em toda a minha vida.
— Muito bom. Agora, sabe o estúdio de balé bem na esquina da sua casa?
— Sim. Sei como chegar lá.
— Bem, então o verei em breve.
Eu desliguei.
Corri da sala, passei pela porta e saí para o calor matinal.
Pelo canto do olho, quase pude ver minha mãe de pé na sombra do eucalipto grande onde eu brincava quando criança. Ou ajoelhada junto ao pequeno trecho de terra em volta da caixa de correio, o cemitério de todas as flores que ela tentou cultivar. As lembranças eram melhores do que qualquer realidade que eu veria hoje. Mas corri para longe delas.
Eu me sentia lento, como se estivesse correndo em areia molhada; não parecia conseguir impulso suficiente no concreto. Tropecei várias vezes, caí uma vez, equilibrando-me com as mãos, arranhando-as na calçada, e depois me levantando e caindo de novo. Mas enfim consegui chegar à esquina. Só mais uma rua agora; eu corri, o suor escorrendo por meu rosto, arfando. O sol estava quente em minha pele, brilhante demais enquanto se refletia no concreto branco e me cegava.
Quando virei a última esquina e entrei na Cactus, pude ver o estúdio, como eu me lembrava. O estacionamento em frente estava vazio, as persianas das janelas, arriadas. Não consegui correr mais. Eu não conseguia respirar; o esforço e o medo levaram a melhor sobre mim. Pensei em minha mãe para manter meus pés em movimento, um à frente do outro.
À medida que me aproximava, pude ver a placa do lado de fora da porta. Era manuscrita num papel rosa shocking; dizia que o estúdio estava fechado para as férias de primavera. Toquei a maçaneta, girando-a com cuidado. Estava destrancada. Lutei para tomar fôlego e abri a porta.
O saguão estava escuro e vazio, frio, o ar-condicionado zumbindo. As cadeiras de plástico moldado estavam empilhadas junto às paredes e o carpete estava úmido. O salão de dança a oeste estava escuro, pude ver pela janela de observação aberta. O salão de dança a leste, o maior, o da visão de Archie, estava iluminado. Mas as persianas estavam fechadas nas janelas.
O terror se apoderou de mim com tanta força que fiquei aprisionado nele. Não consegui fazer com que meus pés avançassem.
E então, a voz da minha mãe me chamou.
— Beau? Beau?
O mesmo tom de pânico histérico. Corri para a porta, para o som da sua voz.
— Beau, você me assustou! Nunca mais faça isso comigo! — A voz continuava enquanto eu entrava na sala comprida de teto alto.
Olhei à minha volta, tentando descobrir de onde vinha sua voz. Eu a ouvi rir e girei para a direção do som.
Ali estava ela, na tela da TV, afagando meu cabelo, aliviada. Era o Dia de Ação de Graças e eu tinha 12 anos. Tínhamos ido visitar minha avó na Califórnia, no ano antes de ela morrer. Um dia fomos à praia e eu me curvei demais na beira do píer. Ela viu meus pés agitados, tentando recuperar o equilíbrio. “Beau? Beau?”, gritou para mim, com medo.
E depois, a tela da TV ficou azul.
Virei-me lentamente. A rastreadora estava imóvel perto da saída dos fundos, então eu ainda não a havia notado. Na mão, tinha um controle remoto. Nós nos encaramos por um longo momento e ela sorriu.
Ela veio na minha direção, ficou a bem poucos metros e passou por mim para colocar o controle ao lado do vídeo. Virei-me com cuidado para observá-la.
— Desculpe por isso, Beau, mas não é melhor que sua mãe realmente não tenha que se envolver? — A voz dela era gentil.
E, de repente, eu entendi. Minha mãe estava segura.
Ainda estava na Flórida. Não recebera meu recado. Nunca ficara apavorada por causa dos olhos vermelho-escuros que me encaravam agora. Não estava sofrendo. Estava segura.
— Sim — respondi, minha voz saturada de alívio.
— Não parece com raiva por eu tê-lo enganado.
— Não estou.
Meu súbito surto de adrenalina me deu coragem. O que importava agora? Logo estaria terminado. Charlie e minha mãe nunca seriam prejudicados, nunca teriam nada a temer. Eu me sentia quase tonto de alívio. Uma parte analítica de minha mente me alertou que eu estava perigosamente perto de surtar de estresse, mas enlouquecer parecia uma boa opção no momento.
— Que estranho. Você está mesmo falando sério. — Seus olhos escuros me avaliaram com interesse. As íris eram quase pretas, só com um toque de rubi nas bordas. Com sede. — Em uma coisa tenho que concordar com esse seu bando esquisito, vocês, humanos, podem ser bem interessantes. Acho que entendo o que é tão atraente em observar vocês. É incrível, alguns parecem não ter nenhum senso de egoísmo.
Ela estava parada a pouca distância de mim, os braços cruzados, me olhando com curiosidade. Não havia ameaça em seu rosto nem em sua atitude. Ela era de aparência muito comum, sem nada de extraordinário no rosto ou no corpo. Só a pele branca, as olheiras a que eu estava acostumado. Vestia uma camisa azul-clara de mangas compridas e jeans desbotados.
— Imagino que vá me dizer que seus amigos o vingarão, não é? — perguntou ela, com esperança, ao que me pareceu.
— Eu pedi para não fazerem isso.
— E o que sua garota achou disso?
— Não sei. — Era estranhamente fácil conversar com ela. — Eu lhe deixei uma carta.
— Mas que romântico, uma última carta. E acha que ela vai honrá-la? — Sua voz agora era um pouco mais dura, uma sugestão de sarcasmo desfigurando o tom educado.
— Espero que sim.
— Hmm. Bem, nossas esperanças então diferem. Veja bem, tudo isso foi meio fácil demais, rápido demais. Para ser franca, estou decepcionada. Esperava um desafio muito maior. E, afinal, só precisei de um pouco de sorte.
Esperei em silêncio.
— Quando Victor não conseguiu pegar seu pai, fiz com que descobrisse mais sobre você. Não tinha sentido correr pelo planeta perseguindo-o quando eu podia confortavelmente esperar em um lugar da minha preferência. Depois que Victor me deu as informações de que eu precisava, decidi vir para Phoenix para fazer uma visita à sua mãe. Eu tinha ouvido você dizer que ia para casa. De início, nunca imaginei que estivesse falando sério. Mas então pensei bem. Os humanos podem ser muito previsíveis; eles gostam de estar em lugares familiares.
“E não seria a trama perfeita ir para o último lugar que deveria quando estivesse se escondendo, para o lugar onde você disse que estaria?
“Mas é claro que eu não tinha certeza, era só um palpite. Em geral tenho uma sensação sobre a presa que estou caçando, um sexto sentido, se preferir assim. Ouvi seu recado quando fui à casa da sua mãe, mas é claro que eu não podia saber de onde você tinha ligado. Foi muito útil ter seu número, mas você podia estar na Antártida, pelo que eu sabia, e o jogo não daria certo a não ser que você estivesse por perto.
“Depois, suas amigas pegaram um avião para Phoenix. Victor os estava monitorando para mim, naturalmente; em um jogo com muitos participantes, eu não podia trabalhar sozinha. E então, eles me disseram o que eu esperava, o que senti, que você estava aqui, afinal de contas. Eu estava preparada; já tinha visto seus encantadores filmes caseiros. E assim, foi simplesmente uma questão de blefe.
“Muito fácil, entende, nada à altura dos meus padrões. Então, veja bem, estou esperando que você esteja errado sobre a garota. Edythe, não é?
Não respondi. A bravata diminuía. Senti que ela estava chegando ao fim do monólogo, cujo objetivo não entendi. Por que explicar para mim? Qual era a glória em vencer um humano fraco? Eu não sentia necessidade de me vangloriar para cada cheesebúrguer que conquistava.
— Você se importaria muito se eu deixasse uma carta minha para Edythe?
Ela deu um passo para trás e tocou numa pequena câmera de vídeo digital equilibrada cuidadosamente no alto do aparelho de som. Uma luzinha vermelha indicava que já estava rodando. Ela a ajustou algumas vezes, ampliando o quadro.
— Acho que ela não vai resistir a me perseguir depois que vir isto.
Isso explicava a cena toda. Não era para mim.
Olhei para a lente da câmera. Minha mãe estava em segurança, mas Edythe, não. Tentei pensar em qualquer coisa que eu pudesse fazer para impedir que isso acontecesse, para impedir que o vídeo chegasse às mãos dela, mas eu sabia que não era rápido o bastante para chegar à câmera sem que ela me pegasse.
— Posso estar errada sobre o nível de interesse dela — prosseguiu Joss. — Obviamente, você não é interessante o bastante para ela decidir ficar com você. Então... vou ter que tornar isso muito ofensivo, não vou?
Ela sorriu para mim e se virou para sorrir para a câmera.
Ela deu um passo na minha direção, ainda sorrindo.
— Antes de começarmos...
Eu sabia que ia morrer. Achei que estivesse preparado. Não considerei nenhuma outra versão além de que ela me mataria, beberia meu sangue e fim.
Havia uma versão diferente, afinal.
Senti-me entorpecido, congelado.
— Vou contar uma história, Beau. Uma vez, muito tempo atrás, minha presa fugiu de mim. Chocante, eu sei! Só aconteceu uma vez, então você pode imaginar o quanto isso me assombra. Foi uma situação parecida, de muitas formas. Havia um garoto humano delicioso, que tinha um cheiro até melhor que o seu, sem querer ofender, mas só uma vampira o protegia. Devia ter sido uma refeição bem fácil. No entanto, subestimei a protetora do garoto. Quando ela soube que eu estava atrás do amiguinho dela, roubou-o do sanatório onde trabalhava, você consegue imaginar a degradação? Ter um emprego humano para ter comida? — Ela balançou a cabeça, decrescente. — Como eu dizia, ela o tirou do sanatório, e quando o libertou, deixou-o em segurança. Ele era bem importante para ela, mas era muito especial por si só. Cem anos antes, teria sido queimado pelas visões que tinha. Nos anos 1920, esse tipo de gente era levado para sanatórios para tratamentos de choque. Pobre garoto, ele nem pareceu reparar na dor da transformação. Quando ele abriu os olhos, parecia que nunca tinha visto o sol. A velha vampira o tornou um novo vampiro forte, e então não havia mais motivos para que eu tocasse nele, não havia mais sangue para eu apreciar. — Ela suspirou. — Eu destruí a velha por vingança.
— Archie! — sussurrei.
— Sim, seu amigo. Eu fiquei tão surpresa ao vê-lo na clareira. Foi por isso que contei minha história, para dar conforto a eles. Eu vou ter você, mas eles estão com ele. A única vítima que me escapou, na verdade, uma honra. Ainda lamento nunca ter sentido o sabor...
Ela deu outro passo na minha direção. Agora, estava a centímetros de distância. Inclinou o rosto para perto de mim, esticando-se na ponta dos pés para roçar o nariz na lateral do meu pescoço. O toque da pele fria me deu vontade de me encolher, mas eu não podia me mexer.
— Acho que você serve — disse ela. — Mas ainda não. Vamos nos divertir primeiro, depois ligo para os seus amigos e lhes digo onde podem encontrá-lo, junto com meu recadinho.
Eu ainda estava entorpecido. A única coisa que estava começando a conseguir sentir era meu estômago, dando um nó de tanto enjoo. Olhei para a câmera, e era como se Edythe já estivesse assistindo.
A rastreadora recuou um passo e começou a circular, despreocupadamente, como se estivesse tentando ter uma visão melhor de uma estátua em um museu. Seu rosto ainda estava amistoso enquanto ela decidia por onde começar. O sorriso foi crescendo até a boca ser um rasgo cheio de dentes. Ela se inclinou para a frente e se agachou.
Não vi que parte dela me acertou, foi rápido demais. Ela virou uma mancha, houve um estalo alto e meu braço direito de repente ficou pendurado como se não estivesse mais ligado ao cotovelo. A última coisa foi a dor, subiu pelo meu braço um longo segundo depois.
A caçadora estava olhando de novo agora, mas o rosto não tinha voltado ao normal, era basicamente todo dentes. Ela esperou que a dor me atingisse, viu-me ofegar e me encolher ao redor do braço quebrado.
Antes mesmo que eu pudesse sentir todo o começo da dor, enquanto ainda estava aumentando, ela virou outra mancha, e, com mais estalos, alguma coisa me derrubou contra a parede; a barra oscilou nas minhas costas e os espelhos se estilhaçaram.
Um choramingo estranho e animalesco escapou por entre meus dentes. Tentei inspirar, e foi como se dez facas perfurassem meus pulmões.
— É um belo efeito, não acha? — perguntou ela, o rosto amistoso novamente. Tocou em uma das linhas que seguia do ponto onde bati na parede. — Assim que vi este lugar, eu soube que era o local certo para meu filme. Visualmente dinâmico. E com tantos ângulos; eu não ia querer que Edythe perdesse nada.
Não a vi se mover, mas houve outro estalo, e meu indicador esquerdo começou a latejar.
— Ainda de pé — disse ela, e riu.
O estalo seguinte foi bem mais alto, como uma detonação abafada. A sala parece voar por mim, como se eu estivesse caindo por um buraco. A dor me atingiu na mesma hora que bati no chão.
Engasguei com o grito que estava tentando sair pela minha garganta, lutando com a bile que inundava meu esôfago. Não havia ar suficiente, não consegui encher os pulmões. Um gemido estranho e sufocado pareceu vir do fundo do meu tronco.
Meu corpo cuspiu automaticamente o vômito para eu conseguir respirar, ainda que respirar parecesse estar rasgando minhas entranhas. A dor do meu braço quebrado latejava ao fundo agora; minha perna era o palco. Essa dor ainda estava aumentando. Eu estava caído no chão em uma poça de vômito, mas não conseguia mexer nada.
Ela estava de joelhos ao lado da minha cabeça agora, e a luz vermelha brilhava na mão dela.
— Hora do seu close, Beau.
Eu tossi mais ácido da garganta, chiando.
— Agora eu gostaria de uma retratação. Você pode fazer isso por mim? Se me fizer um favor, eu acelero tudo. Parece justo?
Meus olhos não conseguiam se concentrar no rosto dela. A luz vermelha piscante parecia muito enevoada.
— Diga para Edythe o quanto dói — disse ela. — Diga que quer vingança. Você merece. Ela botou você nisso. De um jeito muito real, é ela quem está machucando você aqui. Tente convencê-la.
Meus olhos se fecharam.
Ela levantou minha cabeça com uma delicadeza surpreendente, embora o movimento tenha gerado pontadas lancinantes de tortura pelos meus braços e costelas.
— Beau — disse ela, suavemente, como se eu estivesse dormindo e ela, tentando me acordar. — Beau, você consegue fazer isso. Diga para Edythe vir atrás de mim.
Ela me sacudiu de leve, e um som como um suspiro vazou dos meus pulmões.
— Beau, querido, você ainda tem tantos ossos, e os grandes podem ser quebrados em tantos lugares. Faça o que quero, por favor.
Olhei para o rosto fora de foco dela. Não era realmente uma proposta. Nada que eu dissesse agora me salvaria. E havia tanto em jogo.
Com cuidado, balancei a cabeça uma vez. Talvez Edythe soubesse o que eu queria dizer.
— Não quer gritar — disse ela com uma voz cantarolada esquisita. — Devemos fazer com que grite?
Esperei o estalo seguinte.
Mas ela levantou delicadamente meu braço bom e levou minha mão aos lábios. A dor seguinte quase não foi dor em comparação ao resto. Ela poderia ter arrancado meu dedo, mas só mordeu. Os dentes nem foram fundo.
Eu nem reagi, mas ela deu um pulo e voou longe.
Minha cabeça bateu no chão, e minhas costelas quebradas gritaram. Eu a vi, estranhamente alheia enquanto andava pelo outro lado da sala, rosnando e balançando a cabeça de um lado para outro. Ela tinha deixado a câmera ao lado da minha cabeça, ainda ligada.
A primeira dica do que ela tinha feito foi o calor. Meu dedo estava tão quente. Fiquei surpreso de conseguir sentir isso em comparação às dores maiores. Mas me lembrei da história de Carine. Eu sabia o que já tinha sido começado. Eu não tinha muito tempo.
Ela ainda estava tentando se acalmar; o sangue, esse era o problema. Ela estava com um pouco do meu sangue na boca, mas não queria me matar ainda, então tinha que lutar contra o frenesi. Estava distraída, mas não seria difícil chamar a atenção dela.
O calor estava aumentando rápido. Tentei ignorar, ignorar a pontada no peito. Estiquei a mão e peguei a câmera. Levantei o mais alto que consegui e bati no chão.
E saí voando para trás, na direção dos espelhos quebrados. O vidro perfurou meus ombros, meu couro cabeludo. O impacto pareceu quebrar novamente todos os meus ossos. Mas não foi por isso que gritei.
Fogo ardia no meu dedo mordido; chamas explodiam na palma da minha mão. Calor subia pelo meu pulso. Era um fogo que era mais do que fogo, uma dor que era mais do que dor.
As outras dores não eram nada. Ossos quebrados não eram dor. Não assim.
O grito pareceu vir de algum lugar fora do meu corpo; era um uivo de animal de novo.
Meus olhos estavam fixos, grudados, e vi a luz vermelha piscando na mão da rastreadora. Ela foi rápida e eu falhei.
Mas não me importava mais.
Sangue corria pelo meu braço e se acumulava debaixo do cotovelo.
As narinas da rastreadora estavam dilatadas, os olhos, enlouquecidos, os dentes, à mostra. O sangue pingava no chão, mas não consegui ouvir em meio aos gritos. Aquele era meu último fragmento de esperança. Ela não conseguiria se controlar agora. Teria que me matar. Finalmente.
Ela abriu bem a boca.
Eu esperei, gritando.

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