16 de janeiro de 2016

Capítulo 21 - Telefonema

Quando acordei, percebi que era cedo demais. Eu estava invertendo meus horários, trocando o dia pela noite. A TV estava ligada, a única luz no aposento, mas o som estava mudo. O relógio da TV dizia que eram duas e pouco da madrugada. Consegui ouvir o som de vozes baixas falando rápido demais e concluí que foi o que me acordou. Fiquei imóvel no sofá por um minuto, esperando meus olhos e ouvidos se ajustarem.
Percebi que era estranho eles estarem falando alto o bastante para me acordar e me sentei.
Archie estava inclinado sobre a mesa, com Jessamine ao lado com a mão nas costas dele. Ele estava desenhando de novo.
Eu me levantei e andei até eles. Nenhum dos dois olhou para mim, os dois absortos no trabalho de Archie.
— Ele viu mais alguma coisa? — perguntei baixinho para Jessamine.
— Algo levou a rastreadora de volta à sala com o videocassete, mas está iluminada agora.
Observei Archie desenhar uma sala quadrada com vigas escuras no teto baixo. As paredes eram revestidas de madeira, um pouco escura demais, fora de moda. O piso tinha um carpete escuro com uns desenhos. Havia uma janela grande na parede sul, e uma abertura na parede oeste levava à sala de estar. Um lado dessa entrada era de pedra, uma grande lareira de pedra caramelo que se abria para os dois cômodos. Dessa perspectiva, o foco da sala, a TV e o videocassete, equilibrados em um rack de madeira pequeno demais, estavam no canto sudoeste da sala. Um sofá modulado envelhecido se curvava em torno da frente da TV, uma mesa de centro diante dele.
— O telefone fica aqui — sussurrei, apontando.
Os dois me olharam.
— Essa é a casa da minha mãe.
Archie já estava do outro lado do aposento, o telefone na mão, teclando. Olhei o retrato exato da sala de estar da minha mãe. Jessamine, de forma nada característica, deslizou para mais perto de mim. Tocou de leve em meu ombro, e o contato físico parecia intensificar sua influência tranquilizadora. O pânico permaneceu sufocado, sem foco.
Os lábios de Archie tremiam com a velocidade de suas palavras, o zumbido baixo impossível de decifrar.
— Beau — disse Archie.
Olhei para ele, entorpecido.
— Beau, Edythe está vindo. Ela, Eleanor e Carine o levarão para algum lugar, para escondê-lo por algum tempo.
— Edythe está vindo?
— Sim, ela vai pegar o primeiro voo em Seattle. Vamos nos encontrar com ela no aeroporto e você partirá com ela.
— Mas... minha mãe! Ela veio atrás da minha mãe, Archie! — Apesar de Jessamine estar me tocando, consegui sentir o pânico tomando meu peito.
— Jess e eu ficaremos até que ela esteja segura de novo.
— Não podemos vencer, Archie! Você não pode proteger todo mundo que eu conheço para sempre. Não vê o que ela está fazendo? Ela não está mais me rastreando. Vai encontrar alguém, vai machucar alguém que eu amo! Archie, eu não posso...
— Nós vamos pegá-la, Beau.
— E se você se ferir, Archie? Acha que está tudo bem para mim? Acha que é só a minha família humana que ela pode usar para me atingir?
Archie ergueu as sobrancelhas para Jessamine. Fui dominado por uma névoa de letargia intensa e pesada, e meus olhos se fecharam sem minha permissão. Lutei contra a névoa, percebendo o que acontecia. Forcei meus olhos a se abrirem e me afastei da mão de Jessamine.
— Não preciso dormir — rebati.
Fui até o quarto e bati a porta. Archie não me seguiu, como eu meio que esperava que fizesse. Talvez conseguisse ver qual seria minha reação.
Durante quase quatro horas, fiquei sentado no chão olhando a parede, com as mãos apertadas. Minha mente andava em círculos, tentando encontrar uma saída daquele pesadelo. Não havia escapatória, só um final possível. A única pergunta era quantas outras pessoas seriam feridas antes que eu chegasse lá.
A única esperança que me restava era saber que veria Edythe em breve. Talvez, se pudesse apenas ver seu rosto novamente, eu fosse capaz de enxergar uma solução. As coisas sempre ficavam mais claras quando estávamos juntos.
Quando o telefone tocou, voltei à sala, um pouco envergonhado por meu comportamento. Eu esperava não ter ofendido ninguém. Esperava que eles soubessem como eu estava grato pelos sacrifícios que faziam por mim.
Archie falava rapidamente ao telefone de novo. Olhei ao redor, mas Jessamine tinha sumido. O relógio dizia que eram cinco e meia da manhã.
— Eles estão embarcando no avião — disse Archie. — Vão pousar às nove e quarenta e cinco.
Eu só precisava ficar controlado por algumas horas, até que ela estivesse aqui.
— Onde está Jessamine?
— Foi pagar a conta.
— Vocês não vão ficar aqui?
— Não, vamos ficar mais perto da casa da sua mãe.
Senti vontade de vomitar, mas o celular tocou novamente. Archie olhou para o número e esticou a mão para mim. Arranquei o aparelho da mão dele.
— Mãe?
— Beau? Beau? — Era a voz da minha mãe, aquele tom familiar que ouvi mil vezes em minha infância, cada vez que chegava perto demais da beira da calçada ou quando ela me perdia de vista em um lugar abarrotado. Era o som do pânico.
— Calma, mãe — falei na voz mais tranquilizadora que pude, afastando-me lentamente de Archie, voltando ao quarto. Não tinha certeza de que conseguiria mentir de forma convincente com os olhos dele em mim. — Está tudo bem, tá? Só me dê um minuto e vou explicar tudo, eu prometo.
Parei, surpreso que ela ainda não tivesse me interrompido.
— Mãe?
— Tome muito cuidado para não dizer nada até eu mandar.
A voz que ouvi agora era desconhecida e inesperada. Era uma voz de mulher, mas não da minha mãe. Era uma voz de contralto, genérica e agradável, o tipo de voz que se ouve ao fundo dos comerciais de carros de luxo. Ela falava com muita rapidez.
— Escute, não preciso machucar sua mãe, então faça exatamente o que eu disser e ela ficará bem. — Ela parou por um minuto enquanto eu ouvia, num pavor emudecido. — Muito bom — elogiou. — Agora repita comigo e procure parecer natural. Diga: “Não, mãe, fique aí onde está.”
— Não, mãe, fique aí onde está. — Minha voz mal passava de um sussurro.
— Estou vendo que será difícil. — A voz revelava diversão, ainda leve e amistosa. — Por que não vai para outro cômodo agora, para que sua cara não estrague tudo? Não há motivos para que sua mãe sofra. Enquanto estiver andando, diga: “Mãe, por favor, me ouça.” Diga isso agora.
— Mãe, por favor, me ouça — pedi.
Andei muito devagar para o quarto, sentindo o olhar preocupado de Archie nas minhas costas. Fechei a porta depois de entrar, tentando pensar com clareza através do terror que imobilizava meu cérebro.
— E agora, está sozinho? Responda apenas sim ou não.
— Sim.
— Mas eles ainda podem ouvi-lo, tenho certeza.
— Sim.
— Muito bem, então — continuou a voz agradável — diga: “Mãe, confie em mim.”
— Mãe, confie em mim.
— Isso foi melhor do que eu esperava. Eu estava preparada para esperar, mas sua mãe chegou antes do programado. É mais fácil assim, não acha? Menos suspense, menos ansiedade para você.
Esperei.
— Agora, quero que ouça com muito cuidado. Vou precisar que se afaste de seus amigos; acha que pode fazer isso? Responda sim ou não.
— Não.
— Lamento ouvir isso. Esperava que você fosse um pouco mais criativo. Acha que pode se afastar deles se a vida da sua mãe depender disso? Responda sim ou não.
Tinha de haver um jeito.
— Sim.
— Muito bem, Beau. O que você tem que fazer é o seguinte. Quero que vá para a casa da sua mãe. Ao lado do telefone, haverá um número. Ligue para ele e eu lhe direi aonde ir em seguida. — Eu já sabia aonde iria e onde isso terminaria. Mas seguiria suas instruções com exatidão. — Pode fazer isso? Responda sim ou não.
— Sim.
— Antes do meio-dia, por favor, Beau. Não tenho o dia todo — disse ela.
— Onde está Phil? — sibilei.
— Ah, cuidado agora, Beau. Espere até que eu lhe peça para falar, por favor.
Eu esperei.
— É importante que você não deixe seus amigos desconfiados quando voltar a eles. Diga-lhes que sua mãe telefonou e que você a convenceu a não voltar para casa por enquanto. Agora, repita comigo: “Obrigado, mãe.”
Diga isso agora.
— Obrigado, mãe. — Era difícil entender as palavras.
Minha garganta estava se fechando.
— Diga: “Eu te amo, mãe. A gente se vê em breve.” Diga isso agora.
— Eu te amo, mãe — falei, engasgado. — A gente se vê em breve — prometi.
— Adeus, Beau. Estou ansiosa para vê-lo novamente — ela desligou.
Segurei o telefone na orelha. Minhas articulações estavam congeladas de pavor, eu não conseguia desdobrar os dedos para largá-lo.
Eu sabia que precisava pensar, mas minha cabeça estava cheia do som do pânico da minha mãe. Os segundos passaram enquanto eu lutava para me controlar.
Devagar, lentamente, meus pensamentos começaram a furar o muro de dor. A planejar. Porque agora eu não tinha alternativa: precisava ir para a sala de espelhos e morrer. Eu não tinha garantias de que fazer o que ela queria fosse manter minha mãe viva. Só podia esperar que Joss se satisfizesse com a vitória no jogo, que derrotar Edythe fosse o bastante. O desespero parecia uma forca apertando meu pescoço; não havia como barganhar, nada que eu pudesse oferecer ou esconder que pudesse influenciá-la. Mas, ainda assim, eu não tinha alternativas. Precisava tentar.
Sufoquei o terror ao máximo que pude. Minha decisão estava tomada. Não fazia nenhum bem perder tempo me torturando. Eu precisava pensar com clareza, porque Archie e Jessamine me esperavam, e enganá-los era absolutamente essencial e absolutamente impossível.
De repente fiquei grato por Jessamine ter saído. Se ela estivesse aqui para sentir minha angústia nos últimos cinco minutos, como eu poderia evitar que eles suspeitassem? Lutei com o medo, com o horror, tentei abafá-los. Agora eu não podia me permitir isso. Não sabia quando ela voltaria.
Tentei me concentrar em minha fuga, mas percebi na mesma hora que não podia planejar nada. Eu tinha que estar indeciso. Sem dúvida Archie veria logo a mudança, se já não tivesse visto. Eu não podia deixá-lo ver como aconteceu. Se aconteceu. Como eu conseguiria fugir?
Principalmente quando nem podia pensar no assunto.
Eu queria conferir o que Archie entendera de tudo aquilo, se já tinha visto alguma mudança, mas sabia que tinha que lidar com mais uma coisa antes de Jessamine voltar.
Eu tinha que aceitar que não veria Edythe novamente.
Nem mesmo um último vislumbre do seu rosto para levar comigo para a sala de espelhos. Eu ia magoá-la e não podia dizer adeus. Era como ser torturado. Fui consumido nessa sensação por um minuto, deixei que me arrasasse. Depois, tive que recompor as aparências para enfrentar Archie.
A única expressão que pude fazer foi um olhar apagado e vazio, mas achava que era compreensível. Entrei na sala com o roteiro pronto.
Archie estava inclinado sobre a mesa, segurando as beiradas com as duas mãos. O rosto dele... Primeiro, o pânico quebrou minha máscara, e pulei ao redor do sofá para chegar a ele. Enquanto ainda estava em movimento, percebi o que ele devia estar vendo. Parei a pouca distância dele.
— Archie — falei com voz seca.
Ele não reagiu quando chamei seu nome. A cabeça se movimentou lentamente de um lado para outro. Sua expressão trouxe o pânico de volta; talvez não fosse por minha causa, talvez ele estivesse vendo a minha mãe.
Dei mais um passo para a frente e estiquei a mão para tocar o braço dele.
— Archie! — A voz de Jessamine soou na porta, e ela logo estava ao lado de Archie, as mãos sobre as dele, que soltavam a mesa. Do outro lado da sala, a porta se fechou com um clique baixo.
— O que foi? — perguntou ela. — O que você viu?
Ele virou o rosto vazio para longe de mim e olhou cegamente nos olhos de Jessamine.
— Beau — disse ele.
— Estou bem aqui.
Ele virou a cabeça e olhou nos meus olhos, ainda com expressão vazia. Percebi que não estava falando comigo, estava respondendo a pergunta de Jessamine.

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