16 de janeiro de 2016

Capítulo 20 - Impaciência

Quando acordei, estava confuso. Demorei mais tempo do que devia para lembrar onde estava.
O quarto era neutro demais para pertencer a um lugar que não fosse um hotel. Os abajures estavam presos às mesas de cabeceira e as cortinas eram feitas do mesmo tecido da colcha.
Tentei me lembrar de como tinha chegado ali, mas de início nada me ocorreu.
Lembrei-me do carro preto, o vidro das janelas mais escuro do que os de uma limusine. O motor era quase silencioso, embora disparássemos pelas estradas negras com o dobro da velocidade permitida.
E me lembrei de Archie sentado comigo em vez de na frente com Jessamine. Lembrei-me de perceber de repente que ele estava ali como meu guarda-costas, que o banco da frente não era perto o suficiente, ao que parecia.
Devia ter feito o perigo parecer mais real, mas tudo parecia a um milhão de quilômetros. O perigo que eu corria não era o perigo com o qual me preocupava.
Fiz Archie montar uma vigília estranha de fluxo de consciência futura durante toda a noite. Não havia detalhes pequenos demais para mim. Ele me contou passo a passo como Edythe, Carine e Eleanor se deslocariam pela floresta, e apesar de eu não conhecer nenhum dos locais que ele mencionou, fiquei hipnotizado pelas palavras.
Depois, ele voltava e descrevia a mesma sequência de outro jeito, conforme algumas decisões alteravam o futuro. Isso aconteceu várias vezes, e era impossível acompanhar, mas não me importei. Enquanto o futuro não colocasse Edythe e Joss no mesmo lugar, eu conseguiria continuar respirando.
Às vezes, ele mudava para Earnest para mim. Earnest e Royal estavam na minha picape, seguindo para o leste. O que queria dizer que o homem ruivo ainda estava atrás deles.
Archie teve mais dificuldade para ver Charlie.
— Os humanos são mais difíceis do que os vampiros — disse ele.
E lembrei que Edythe tinha me falado alguma coisa sobre isso uma vez. Parecia anos antes, mas foram apenas alguns dias. Eu me lembrava de ficar desorientado por não conseguir entender o tempo. Eu me lembrava do sol surgindo acima de um pico baixo em algum lugar da Califórnia. A luz machucou meus olhos, mas tentei não fechá-los. Quando eu os fechava as imagens que piscavam por trás das minhas pálpebras como fotografias eram demais. Eu preferia que meus olhos queimassem a vê-las de novo. A expressão arrasada de Charlie... os dentes à mostra de Edythe... o olhar furioso de Royal... os olhos vermelhos da rastreadora me encarando... o olhar mortal no rosto de Edythe quando ela deu as costas para mim...
Mantive os olhos abertos, e o sol se moveu pelo céu. Eu me lembrei da cabeça ter ficado pesada e leve ao mesmo tempo conforme passávamos por uma montanha, e o sol, atrás de nós agora, se refletia nos telhados da minha cidade. Não me sobravam emoções para que eu sentisse surpresa de termos feito a viagem de três dias em um. Olhei sem expressão para a cidade que se espalhava à nossa frente, percebendo lentamente que era para significar alguma coisa para mim. O raquítico chaparral, as palmeiras, os campos de golfe, as manchas turquesa que eram as piscinas, tudo isso era para parecer familiar. Eu devia sentir que estava voltando para casa.
As sombras dos postes de luz formavam na estrada marcas mais agudas do que eu me lembrava. Tão pouca escuridão. Não havia lugar para se esconder naquelas sombras.
— Qual é o caminho para o aeroporto? — perguntou Jessamine, na primeira vez que falou desde que entramos no carro.
— Fique na I-10 — respondi, automaticamente. — Vamos passar já por lá.
Demorei mais alguns segundos para absorver as implicações da pergunta dela. Meu cérebro estava enevoado de exaustão.
— Vamos pegar algum avião? — perguntei a Archie.
Eu não conseguia pensar no plano. Mas aquilo não parecia certo.
— Não, mas é melhor ficar perto, só por garantia.
Lembrei-me de começar o retorno para o Aeroporto Internacional Sky Harbor... mas não de terminá-lo. Acho que deve ter sido nessa hora que meu cérebro falhou.
Mas, agora que recuperara as lembranças, eu tinha uma vaga impressão de ter saído do carro, o sol atrás do horizonte, meu braço em torno do ombro de Archie, o dele me arrastando enquanto eu cambaleava pelas sombras quentes e secas.
Eu não tinha lembrança deste quarto.
Olhei o relógio digital na mesa de cabeceira. Os números vermelhos afirmavam que eram três horas, mas eu não tinha como saber se era noite ou dia. Nenhum fiapo de luz escapava ao redor das grossas cortinas, mas o quarto estava iluminado pela luz dos abajures.
Levantei-me com o corpo rígido e cambaleei até a janela, puxando as cortinas. Estava escuro lá fora. Três da manhã, então. Meu quarto dava para uma parte deserta da rodovia e para o novo estacionamento de mensalistas do aeroporto. Senti-me um pouquinho melhor ao conseguir situar tempo e lugar.
Olhei para baixo. Eu ainda estava com a camisa e a calça curta demais de Earnest. Olhei o quarto e fiquei feliz por encontrar minha bolsa de viagem em cima da cômoda baixa.
Uma leve batida na porta me fez pular.
— Posso entrar? — perguntou Archie.
Respirei fundo.
— Claro.
Ele entrou e me olhou.
— Você parece precisar dormir mais.
Eu balancei a cabeça.
Ele foi em silêncio até a janela e fechou as cortinas.
— Vamos precisar ficar aqui dentro — disse ele.
— Tudo bem. — Minha voz rouca falhou.
— Com sede? — perguntou ele.
Dei de ombros.
— Estou bem. E você?
Ele sorriu.
— Nada que não possa administrar. Pedi comida para você, está na sala da frente. Edythe me lembrou de que você precisa comer com muito mais frequência do que nós.
Imediatamente, fiquei mais alerta.
— Ela ligou?
— Não. — Ele observou minha expressão desmoronar. — Foi antes de partirmos. Ela me deu muitas instruções. Venha comer alguma coisa.
Ele saiu do quarto antes que eu pudesse protestar que não estava com fome. Pude ouvir um zumbido baixo de vozes vindo da TV. Jessamine estava sentada à mesa no canto, os olhos na TV, mas sem o menor sinal de interesse. Archie foi até ela e passou a mão pelo cabelo cor de mel dela.
— Qual é a notícia mais recente? — perguntei.
— Earnest e Royal estão de volta a Forks. O ruivo parou de caçá-los.
Abri a boca, mas Archie foi mais rápido.
— Eles estão vigiando seu pai. O ruivo não vai passar por eles.
— O que o ruivo está fazendo?
— Andando pela cidade, procurando você, pelo que consigo perceber. Ele passou um tempo na escola.
Meus olhos se esbugalharam.
— Ele machucou alguém?
Archie fez que não.
— Eles parecem bem comprometidos à caçada que começaram.
— E Edythe?
— Frustrada, ao que parece. Eles se viraram na direção da rastreadora, mas ela já estava fugindo. Está indo para o norte. Eles estão atrás dela.
Fiquei ali parado, sem saber o que fazer.
Edythe estava caçando Joss. É claro que ela estava com Carine e Eleanor, mas Edythe era a mais rápida...
— Coma alguma coisa, Beau. Edythe fica muito difícil quando acha que suas instruções não são seguidas ao pé da letra.
Havia uma bandeja na mesa de centro, com algumas tampas de aço inoxidável em cima dos pratos nela. Não consegui pensar em nada além de seguir a ordem de Archie. Sentei no chão ao lado da mesa e tirei a tampa do primeiro prato. Não olhei para a comida, só peguei e comecei a comer. Eu devia estar com fome. Não paramos para comer durante o percurso.
Eles ficaram em silêncio e imóveis enquanto eu comia.
Olhei para a TV, mas não consegui entender o que estava acontecendo. Era um noticiário? Era um comercial? Eu não sabia. Comi até os pratos ficarem vazios. Não senti o gosto de nada.
Quando não havia mais nada para comer, olhei para a parede.
Só conseguia ver Edythe na floresta, mais rápida do que um guepardo, mais rápida do que uma bala. Era óbvio que ela alcançaria a rastreadora primeiro. As palavras de Lauren ecoavam na minha cabeça. Não podem derrotá-la. Ela é absolutamente letal.
De repente, Jessamine estava de pé ao meu lado, mais perto do que de costume.
— Beau — disse ela numa voz tranquilizadora. — Você não tem motivos para se preocupar. Está completamente seguro aqui.
— Sei disso.
— Então por que está com medo? — Ela pareceu confusa. Podia sentir minhas emoções, mas não conseguia entender os motivos por trás delas.
— Você ouviu o que Lauren disse. Joss é letal. E se alguma coisa der errado e elas foram separadas? Se alguma coisa acontecer, se Carine ou Eleanor... ou Edythe... — Minha voz falhou. — Se aquele ruivo maluco machucar Earnest... Como vou viver sabendo que a culpa é minha? Nenhum de vocês devia estar arriscando a vida por...
— Pare, Beau, pare — interrompeu ela, as palavras jorrando tão rapidamente que era difícil entendê-las. — Você está se preocupando com as coisas erradas, Beau. Confie em mim, nenhum de nós está em risco. Você está sob uma tensão muito grande; não a aumente com preocupações imaginárias. Ouça o que eu digo! — ordenou ela, porque eu desviei os olhos. — Nossa família é forte. Nosso único medo é perder você.
— Mas por que vocês...
Archie se aproximou e passou o braço pela cintura de Jessamine.
— Faz quase um século que Edythe está sozinha. Agora, ela encontrou você. Você não consegue ver as mudanças que nós, que estamos com ela há tanto tempo, vemos. Acha que algum de nós vai querer olhar nos olhos dela pelos próximos cem anos se ela perder você?
Minha culpa começou a ceder. Mas, apesar de a calma que se espalhava por mim parecer totalmente natural, como se viesse de dentro, eu sabia que não era assim.
— Você sabe que eu faria isso de qualquer modo — acrescentou Archie. — Mesmo que Edythe não tivesse pedido.
— Por quê?
Ele sorriu.
— É difícil explicar sem parecer meio esquizofrênico... O tempo não significa para mim a mesma coisa que para você. Nem para Jess e nem para mais ninguém. — Jessamine riu e beliscou a orelha dele. — Então, isso não vai fazer sentido para você. Mas, para mim, é como se já fôssemos amigos há bastante tempo, Beau. No segundo que você se tornou parte da vida de Edythe, foi como se já tivéssemos passado centenas de horas juntos. Nós rimos das reações exageradas de Edythe juntos, irritamos Royal até ele sair de casa juntos, ficamos acordados a noite toda conversando com Carine juntos...
Fiquei olhando fixamente, e ele deu de ombros.
— É assim que eu vivencio o mundo.
— Nós somos amigos? — perguntei com a voz impressionada.
— Melhores amigos — disse ele. — Um dia. Foi legal minha irmã favorita se apaixonar por meu melhor amigo, você não acha? Acho que devo uma a ela.
— Hã — foi tudo que consegui dizer.
Archie riu.
Jessamine revirou os olhos.
— Muito obrigada, Archie. Eu tinha acabado de fazê-lo ficar calmo.
— Não, estou bem — jurei.
Archie podia estar mentindo para fazer com que eu me sentisse melhor, mas, fosse como fosse, funcionou. Não era ruim Archie também querer me ajudar. Se ele não estivesse fazendo só por Edythe.
— E o que fazemos agora? — perguntei.
— Esperamos que alguma coisa mude.


Foi um dia muito longo.
Ficamos no quarto. Archie ligou para a recepção e pediu que não mandassem mais a camareira. As janelas continuaram fechadas, a TV, ligada, embora ninguém estivesse assistindo. A intervalos regulares, a comida era entregue a mim.
Era engraçado como passei a me sentir à vontade com Archie de repente. Parecia que a visão dele da nossa amizade, depois de dita em voz alta, tornou tudo real. Ele ficava sentado na cadeira ao lado do sofá em que eu me deitava e respondia todas as perguntas que antes eu estava nervoso demais para fazer. Às vezes, respondia antes de eu perguntar. Era meio estranho, mas concluí que devia ser como as pessoas se sentiam com Edythe o tempo todo.
— Sim — disse ele quando pensei em perguntar isso.
— É exatamente a mesma coisa. Ela se esforça para não ser chata por causa disso.
Ele me contou sobre quando acordou.
— Só me lembrei de uma coisa, mas nem tenho certeza de que era uma lembrança. Eu achei que me lembrava de alguém dizendo meu nome, me chamando de Archie. Mas talvez estivesse lembrando uma coisa que ainda não tinha acontecido, vendo que um dia alguém me chamaria de Archie. — Ele sorriu por causa da minha expressão. — Eu sei, é um dilema circular, não é?
Ele passou a mão pela cabeça num gesto inconsciente.
— O cabelo? — Estava tão curto que só dava para ver que o cabelo seria castanho-escuro, quase preto, como suas sobrancelhas. — Era um visual meio extremo para os anos 1920. Meio cedo para eu ser um skinhead, graças aos céus. Meu melhor palpite é doença ou mau comportamento.
— Mau comportamento? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Eu talvez estivesse na prisão.
— Você não podia ser muito mais velho do que eu — protestei.
Ele uniu os dedos, pensando.
— Gosto de acreditar que, se eu era criminoso, era ao mesmo tempo gênio do crime e um prodígio.
Jessamine, sentada à mesa e em silêncio, riu comigo.
— Não foi confuso do jeito que provavelmente devia ter sido — disse Archie quando perguntei como foram as primeiras visões. — Parecia normal, eu sabia que o que estava vendo não tinha acontecido. Acho que talvez já visse coisas antes de ser transformado. Ou talvez só me adapte com rapidez. — Ele sorriu, já sabendo a pergunta que eu estava esperando para fazer. — Foi Jess. Ela foi a primeira coisa que vi. — E então: — Não, eu só a conheci pessoalmente bem depois.
Alguma coisa no tom dele me deixou curioso.
— Quanto tempo?
— Vinte e oito anos.
— Vinte e oito... Você teve que esperar vinte e oito anos? Mas você não podia...?
Ele assentiu.
— Eu poderia tê-la encontrado antes. Sabia onde ela estava. Mas ela ainda não estava pronta para mim. Se eu tivesse chegado cedo demais, ela teria me matado.
Eu fiz um ruído de surpresa e olhei para ela, que ergueu uma sobrancelha para mim, e então olhei para Archie. Ele riu.
— Mas Edythe disse que você era o único capaz de enfrentá-la...?
Jessamine sibilou, não como se estivesse com raiva, mas sim irritada. Olhei para ela de novo, e ela estava revirando os olhos.
— Nunca vamos saber — disse Archie. — Se Jess estava mesmo tentando matar Edythe, e não brincando...? Bem, Jess tem muita experiência. Ver o futuro não é o único motivo de eu conseguir acompanhar Edythe, também é porque Jess me ensinou a lutar. O grupo de Lauren estava todo olhando para Eleanor, ela é espetacular, eu concordo. Mas, se aquilo virasse uma luta, Eleanor não teria sido o problema deles. Se eles tivessem olhado a minha querida melhor — ele jogou um beijo para ela — eles teriam esquecido a garota forte.
Eu me lembrei da primeira vez que vi Jessamine, no refeitório com a família. Linda, como os outros, mas com um jeito ousado. Antes mesmo de eu formular em palavras ou em pensamento, senti que havia alguma coisa nela que batia com o que Archie estava dizendo agora.
Olhei para Archie.
— Pode perguntar para ela — disse ele. — Mas não vai rolar.
— Ele quer saber minha história? — conjecturou Jessamine. Ela riu uma vez, fazendo um som sombrio. — Você não está pronto para isso, Beau. Pode acreditar.
E, apesar de ainda estar curioso, eu acreditei nela.
— Você disse que os humanos eram mais difíceis... mas parece me ver com facilidade — observei.
— Estou prestando atenção, e você está bem aqui — disse Archie. — Além do mais, dois segundos de vantagem são mais simples. É o prazo mais longo que não fica parado. Até mesmo uma hora complica as coisas.
Archie me manteve atualizado sobre o que estava acontecendo com os outros, o que era praticamente nada. Joss era boa em fugir. Havia truques, Archie disse. Cheiros não podiam ser farejados pela água, por exemplo. Joss parecia conhecer os truques. Umas seis vezes, o rastro os levou de volta a Forks, para depois sair em uma direção diferente de novo. Duas vezes, Archie ligou para Carine para dar instruções. Uma vez foi por causa da direção na qual Joss tinha pulado de um penhasco, a outra vez foi onde eles encontrariam o cheiro dela do outro lado de um rio. Pela forma como descreveu, ele não estava vendo a caçadora, estava vendo Edythe e Carine. Achei que ele devia ver a família de forma mais clara. Eu quis pedir o telefone, mas sabia que não era hora de ouvir a voz de Edythe. Elas estavam caçando.
Eu também sabia que devia estar torcendo para que Edythe e o resto do grupo tivesse sucesso, mas só consegui sentir alívio conforme a distância entre ela e Joss foi ficando maior, apesar da ajuda de Archie. Se significasse que eu ficaria preso ali naquele quarto de hotel para sempre, eu não reclamaria. O que a deixasse em segurança.
Havia uma pergunta que eu queria fazer mais do que as outras, mas hesitei. Acho que, se Jessamine não estivesse presente, eu talvez tivesse falado antes. Não me sentia tão à vontade na presença dela quanto na de Archie agora. E isso devia ser só porque ela não estava tentando fazer com que eu me sentisse assim.
Quando eu estava comendo... era o jantar? Talvez, eu não conseguia identificar qual era a refeição. Nessa hora, comecei a pensar em formas diferentes de perguntar. Então, vi uma expressão no rosto de Archie e soube que ele já sabia o que eu queria perguntar, e, diferentemente das minhas dezenas de outras perguntas, estava escolhendo não responder àquela.
Eu apertei os olhos.
— Estava na lista de instruções de Edythe? — perguntei com voz azeda.
Pensei ouvir um leve suspiro vindo do canto de Jessamine. Devia ser irritante ouvir meia conversa. Mas ela devia estar acostumada. Eu apostaria que Edythe e Archie não precisavam falar em voz alta quando conversavam.
— Ficou subentendido — respondeu Archie.
Pensei na briga deles no Jeep. Teria sido por isso?
— E nossa futura amizade não basta para você mudar sua lealdade?
Ele franziu a testa.
— Edythe é minha irmã.
— Mesmo você discordando dela quanto a isso?
Ficamos nos olhando por um minuto.
— Foi isso que você viu — percebi. Senti meus olhos se arregalando. — E ela ficou chateada. Você já viu, não foi?
— Foi só um futuro dentre muitos. Também vi você morrer — lembrou ele.
— Mas você viu. É uma possibilidade.
Ele deu de ombros.
— Você não acha que mereço saber? Mesmo só havendo uma pequena chance?
Ele ficou me olhando enquanto decidia.
— Merece — disse, por fim. — Você tem o direito de saber.
Eu esperei.
— Você não conhece fúria como a de Edythe quando é contrariada — avisou ele.
— Não é da conta dela. Isso é entre mim e você. Como seu amigo, eu imploro.
Ele hesitou e decidiu.
— Posso contar a mecânica, mas eu mesmo não me lembro, e nunca fiz nem vi ninguém fazer, então tenha em mente que só posso lhe contar a teoria.
— Como alguém vira vampiro?
— Ah, é só isso? — murmurou Jessamine atrás de mim.
Eu tinha esquecido que ela estava ouvindo.
Eu esperei.
— Como predadores — começou Archie — temos uma profusão de armas em nosso arsenal físico... muito, muito mais do que o realmente necessário. A força, a velocidade, os sentidos aguçados, para não falar daqueles de nós como Edythe, Jessamine e eu, que também têm sentidos a mais. E então, como uma planta carnívora, somos fisicamente atraentes para nossa presa.
Eu estava muito quieto, lembrando-me da clareza com que Edythe demonstrou o mesmo conceito para mim na campina.
Ele deu um sorriso largo e seus dentes brilharam.
— Temos outra arma bastante supérflua. Também somos venenosos. O veneno não mata, é apenas incapacitante. Age lentamente, espalhando-se pela corrente sanguínea de modo que, depois de mordida, nossa presa sente uma dor física forte demais para escapar de nós. Mas é supérfluo, como eu disse. Se chegamos tão perto, a presa não escapa. A não ser que a gente queira.
— Carine — falei, baixinho. Os buracos na história que Edythe me contou estavam se preenchendo. — Então... se o veneno vai se espalhando...?
— Leva alguns dias para que a transformação seja completa, dependendo da quantidade de veneno na corrente sanguínea e da proximidade entre o veneno e o coração. O criador de Carine a mordeu na mão de propósito, para tornar tudo pior. Desde que o coração continue batendo, o veneno se espalha, curando, transformando o corpo ao se movimentar por ele. Por fim o coração para e a conversão é concluída. Mas em todo esse tempo, em cada minuto dele, a vítima desejaria estar morta, gritaria pedindo isso.
Estremeci.
— Não é agradável, não.
— Edythe disse que era muito difícil fazer... mas isso parece bem simples.
— De certa forma, também somos como tubarões. Depois que sentimos o gosto de sangue, ou o cheiro dele, fica muito difícil evitar o alimento. Às vezes é impossível. Então entenda, morder alguém, sentir o gosto de sangue é o começo do frenesi. É difícil para ambas as partes. A sede de sangue de um lado, a dor medonha do outro.
— Parece uma coisa da qual você se lembraria — observei.
— Para todos os outros, a dor da transformação é a lembrança mais forte que têm da vida humana. Não sei por que sou diferente.
Archie ficou olhando para trás de mim, em silêncio. Eu me perguntei como seria não saber quem você era. Olhar no espelho e não reconhecer a pessoa olhando para você. Mas eu tinha dificuldade de acreditar que Archie podia ter sido um criminoso; havia alguma coisa intrinsecamente boa no rosto dele. Royal era o exibido, para quem as garotas da escola olhavam, mas havia alguma coisa melhor do que perfeição no rosto de Archie. Era totalmente puro.
— Há aspectos positivos em ser diferente — disse Archie de repente. — Não me lembro de ninguém que deixei para trás. Também pude não ter essa dor. — Ele olhou para mim e apertou um pouco os olhos. — Carine, Edythe e Earnest perderam gente que era importante para eles antes de deixarem a humanidade para trás. Portanto, houve dor, mas não arrependimento. Foi diferente para os outros. A dor física é uma coisa rápida em comparação, Beau. Há jeitos mais lentos de sofrer...
“Royal tinha pais que o amavam e contavam com ele, duas irmãzinhas que adorava. Jamais pôde vê-los depois que foi transformado. E viveu mais do que todos. Esse tipo de dor é muito, muito lenta.
Eu me perguntei se ele estava tentando fazer com que eu me sentisse mal por Royal, dar um desconto para o sujeito mesmo ele me odiando. Bem... estava dando certo.
Ele balançou a cabeça, como se soubesse que eu não estava entendendo.
— Faz parte do processo, Beau. Eu não vivenciei isso. Não posso dizer como é. Mas é parte do processo.
E então, eu entendi o que ele estava me dizendo. Ele estava totalmente imóvel de novo. Coloquei o braço atrás da cabeça e fiquei olhando para o teto.
Se... se, um dia, Edythe me quisesse assim... o que significaria para mamãe? O que significaria para Charlie?
Havia tantas coisas em que pensar. Coisas que eu nem sabia que não devia pensar. Mas algumas coisas pareceram óbvias. Por algum motivo, Edythe não me queria pensando nessas coisas.
Por quê? Eu sentia uma dor no estômago quando tentava pensar em alguma resposta a essa pergunta.
De repente, Archie ficou de pé.
Eu olhei para ele, assustado pelo movimento repentino, mas fiquei alarmado ao ver o rosto dele. Estava totalmente branco, vazio, com a boca entreaberta.
Jessamine foi para o lado dele e o empurrou delicadamente para a cadeira.
— O que você está vendo? — perguntou ela, a voz baixa e tranquilizadora.
— Alguma coisa mudou — disse Archie, a voz ainda mais baixa.
Eu me inclinei para perto.
— O que foi?
— Um quarto. É comprido, há espelhos em toda parte. O chão é de madeira. A rastreadora está na sala, esperando. Há uma listra vermelha nos espelhos.
— Onde fica a sala?
— Não sei. Falta alguma coisa... Uma decisão que ainda não foi tomada.
— Quanto tempo?
— Logo. Ela estará na sala de espelhos hoje, ou talvez amanhã. Depende. Ela está esperando alguma coisa. — O rosto dele ficou vazio de novo. — E agora, está no escuro.
A voz de Jessamine era calma e metódica.
— O que ela está fazendo?
— Está vendo televisão... não, está passando um vídeo, no escuro, em outro lugar.
— Pode ver onde ela está?
— Não, está escuro demais.
— E a sala de espelhos, o que mais há nela?
— Só os espelhos e o ouro. É uma faixa, em volta da sala. E há uma mesa preta com um aparelho de som grande e uma tv. Ela está tocando o vídeo ali, mas não assiste como faz na sala escura. Esta é a sala onde ela espera. — Seus olhos vagaram, depois focalizaram o rosto de Jessamine.
— Não há mais nada?
Ele balançou a cabeça. Eles se olharam, imóveis.
— O que isso significa? — perguntei.
Nenhum dos dois respondeu por um momento, depois Jessamine olhou para mim.
— Significa que os planos da rastreadora mudaram. Ela tomou uma decisão que a levará à sala de espelhos e à sala escura.
— Mas não sabemos onde ficam essas salas?
— Não.
— Mas sabemos que ela não vai estar nas montanhas ao norte de Washington sendo caçada. Ela vai enganá-los — a voz de Archie era inexpressiva.
Ele atendeu o telefone na hora que vibrou.
— Carine — disse. E olhou para mim. — Sim. — Ele ouviu por um longo momento e disse: — Acabo de vê-la. — Ele descreveu a visão como tinha feito para Jessamine. — O que quer que a tenha feito pegar esse avião... está levando a essas salas. — Ele parou. — Sim.
Ele esticou o celular para mim.
— Beau.
Eu arranquei o aparelho da mão dele.
— Alô.
— Beau — sussurrou Edythe.
— Ah, Edythe — falei. — Onde você está?
— Perto de Vancouver. Me desculpe, Beau, nós a perdemos. Ela parece suspeitar de nós, fica longe o bastante para eu não poder ouvi-la. Ela sumiu agora, parece que roubou um pequeno avião. Achamos que está voltando a Forks para recomeçar.
Pude ouvir Archie informando Jessamine atrás de mim.
— Eu sei. Archie viu que ela fugiu.
— Mas não precisa se preocupar. Você não deixou rastro. Só precisa ficar com Archie e esperar até que a encontremos novamente. Archie vai ter alguma informação sobre ela em breve.
— Eu vou ficar bem. Earnest está com Charlie?
— Está. O homem estava na cidade. Foi até a casa, mas enquanto Charlie estava no trabalho. Não chegou perto do seu pai. Não se preocupe, Charlie está seguro com Earnest e Royal vigiando-o.
De certa forma, a presença de Royal não me consolou muito.
— O que você acha que Victor está fazendo?
— Tentando pegar o rastro. Ele andou por toda a cidade durante a noite. Royal o seguiu até o aeroporto de Port Angeles, por todas as ruas da cidade, pela escola... Ele está cavando, Beau, mas não há nada para ser encontrado.
— E tem certeza de que Charlie está seguro?
— Sim, Earnest não vai perdê-lo de vista. E chegaremos lá em breve. Se a rastreadora chegar perto de Forks, eu a pego.
Eu engoli em seco.
— Tome cuidado. Fique com Carine e Eleanor.
— Eu sei o que estou fazendo.
— Estou com saudade — falei.
— Eu sei, acredite. Parece que você levou metade de mim com você.
— Venha pegar, então.
— Assim que for possível. Primeiro vou consertar a situação. — A voz dela ficou seca.
— Eu te amo — lembrei.
— Você acreditaria que, apesar de tudo o que fiz você passar, eu também te amo?
— Sim, acredito.
— Vou buscá-lo em breve.
— Vou ficar esperando.
O telefone ficou mudo, e uma onda repentina de depressão desabou sobre mim. Jessamine ergueu o rosto com rapidez, e o sentimento se dissipou.
Jessamine voltou a observar Archie. Ele estava no sofá, inclinado sobre a mesa com a caneta do hotel na mão.
Andei até lá para ver o que ele estava fazendo.
Ele estava desenhando em um papel de carta do hotel. Eu me inclinei nas costas do sofá e olhei por cima do ombro dele.
Ele desenhou uma sala: comprida, retangular, com uma parte mais fina e quadrada ao fundo. Fez linhas para mostrar as tábuas de madeira que compunham o piso e se estendiam pelo ambiente. Pelas paredes havia linhas denotando as interrupções nos espelhos. Eu não os estava visualizando dessa forma, cobrindo a parede toda daquele jeito. E depois, envolvendo as paredes, na altura da cintura, uma faixa comprida. A faixa que Archie disse ser dourada.
— É um estúdio de balé — falei, reconhecendo de repente as formas familiares.
Eles olharam para mim, surpresos.
— Conhece essa sala? — A voz de Jessamine parecia calma, mas havia alguma coisa disfarçada nela.
Archie chegou mais perto do papel, a mão agora voando pela superfície. Uma saída de emergência ganhou forma na parede dos fundos, onde eu sabia que estaria; o aparelho de som e a TV ocupavam o canto direito na frente da sala.
— Parece um lugar onde minha mãe dava aulas de dança. Ela não ficou muito tempo lá. Tinha o mesmo formato. — Eu toquei o papel onde se destacava a parte quadrada, estreitando os fundos da sala. — Ali ficavam os banheiros, as portas davam para outra sala de dança. Mas o aparelho de som ficava aqui — apontei o canto esquerdo — era mais antigo e não tinha uma TV. Havia uma janela na sala de espera, dava para ver a sala desta perspectiva se olhasse por ela.
Archie e Jessamine me encaravam.
— Tem certeza de que é a mesma sala? — perguntou Jessamine, com a mesma calma nada natural.
— Não, não tenho certeza. Acho que a maioria dos estúdios de dança deve ser parecida, os espelhos, a barra — inclinei-me no sofá e passei o dedo pela barra de balé junto aos espelhos. — É só o formato que me pareceu familiar.
— Você teria algum motivo para ir lá agora? — perguntou Archie.
— Não. Não vou lá desde que minha mãe parou de dar aulas. Deve ter uns dez anos.
— Então não há como relacionar este lugar a você? — perguntou Archie com atenção.
Eu balancei a cabeça.
— Acho que nem pertence mais ao mesmo dono. Tenho certeza de que é outro estúdio de dança, em algum outro lugar.
— Onde ficava o estúdio em que sua mãe dava aulas? — perguntou Jessamine, numa voz bem mais casual do que a de Archie.
— Bem na esquina da nossa casa. Foi por isso que ela aceitou o emprego, para eu me encontrar com ela lá quando voltasse a pé da escola... — Minha voz sumiu quando vi o olhar que eles trocaram.
— Aqui em Phoenix, então? — perguntou ela, ainda casual.
— É — sussurrei. — Rua Cinquenta e Oito com Cactus.
Todos olhamos o desenho em silêncio.
— Archie, este telefone é seguro? — perguntei.
— O número é identificado como de Washington — disse ele.
— Então posso usar para ligar para minha mãe.
— Ela está na Flórida, não está? Vai ficar em segurança lá.
— Está... Mas volta para casa logo, e não pode voltar para aquela casa enquanto... — Um tremor percorreu minha voz. Eu estava pensando em Victor procurando na casa de Charlie, na escola de Forks onde ficavam meus registros.
— Qual é o número dela? — perguntou Archie. Ele estava com o celular na mão.
— Eles não têm número permanente, a não ser o de casa. Ela deve verificar os recados regularmente.
— Jess? — perguntou Archie.
Ela pensou no assunto.
— Não acho que isso possa fazer algum mal, mas não diga onde está, é claro.
Eu assenti e peguei o telefone. Liguei para o número familiar e esperei tocar quatro vezes até a voz leve da minha mãe começar a dizer para deixar um recado.
— Mãe — falei, depois do sinal —, sou eu. Escute, preciso que você faça uma coisa. É importante. Assim que receber este recado, me ligue neste número — Archie apontou para o número, já escrito embaixo de seu desenho. Eu li com cuidado, duas vezes. — Por favor, não vá a lugar nenhum antes de falar comigo. Não se preocupe, eu estou bem, mas tenho que conversar com você imediatamente, não importa a hora que você receber esta mensagem, está bem? Eu te amo, mãe. Tchau.
Fechei os olhos e rezei com todas as forças para que nenhuma mudança de planos imprevista levasse minha mãe para casa antes de ela receber meu recado.
E assim, voltamos a esperar.
Pensei em ligar para Charlie, mas não sabia direito o que podia dizer. Vi o noticiário, concentrado agora, procurando matérias sobre a Flórida ou sobre a temporada de treinos, greves ou furacões ou ataques terroristas, qualquer coisa que pudesse mandar os dois para casa antes da hora.
Parecia que a imortalidade concedia também uma paciência interminável. Nem Jessamine nem Archie pareciam sentir necessidade de fazer qualquer coisa. Por algum tempo, Archie desenhou o contorno vago da sala escura de sua visão, o máximo que podia enxergar à luz da TV. Mas, quando terminou, ele simplesmente se sentou e olhou as paredes vazias. Jessamine também parecia não ter o impulso de andar, nem olhar pelas cortinas, nem de abrir buracos na parede aos socos, como eu tinha.
Devo ter dormido no sofá, esperando que o telefone tocasse.

3 comentários:

  1. Sempre imaginei que a Alice/Archie Tinha levado um bom tempo para encontrar Jasper/Jessamine, ficava pensando em não mais que duas décadas. Quase acertei, mas é bom saber de fato. A historia de Jasper e Alice sempre me chamou atenção, é bom saber mais.

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    1. Oiie
      No Foforks tem duas fanfics de como a Alice teria sido transformada e como encontrou o Jazz, eu li e adorei

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  2. Mesmo sabendo o que vai acontecer ainda possuo um certo receio.

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