16 de janeiro de 2016

Capítulo 19 - Despedidas

Parecia que Charlie estava me esperando. Todas as luzes da casa estavam acesas. Minha mente teve um branco quando tentei pensar numa maneira de resolver a situação.
Edythe parou a uma distância de um carro atrás da minha picape. Os três estavam empertigados em seus lugares, ouvindo cada som da floresta, vasculhando cada sombra ao redor da casa, procurando alguma coisa fora de lugar. O motor foi desligado e fiquei sentado, imóvel, enquanto eles escutavam.
— Ela não está aqui — sibilou Edythe. — Vamos.
Eleanor estendeu a mão para soltar o arnês.
— Não se preocupe, Beau — disse ela numa voz baixa embora animada. — Vamos resolver as coisas por aqui rapidamente.
Tive uma sensação estranha de tristeza ao olhar para o rosto lindo e apavorante de Eleanor. Eu mal a conhecia, mas, de certa forma, era angustiante não saber quando a veria depois dessa noite. Eu sabia que era a despedida mais fácil de todas que viriam em seguida, e a ideia provocou um nó no meu estômago.
— Archie, Eleanor. — A voz de Edythe era um comando. Eles deslizaram sem ruído para a escuridão e sumiram.
Saí atrás de Eleanor, e Edythe já estava lá.
— Quinze minutos — disse ela, entredentes.
Eu assenti e parei.
— Vá logo, Beau.
— Uma coisa. — Eu me inclinei e a beijei uma vez, com força. — Eu te amo. Independentemente do que acontecer, isso não vai mudar.
— Nada acontecerá a você, Beau.
— Mantenha Charlie seguro para mim.
— Pode deixar. Ande.
Eu assenti de novo, e, com um último olhar para ela, pulei na varanda e abri a porta com um estrondo. Entrei correndo e chutei a porta para fechá-la.
De repente, eu soube o que faria, e já estava horrorizado comigo mesmo.
O rosto de Charlie apareceu no corredor.
— Beau, é você?
— Me deixe em paz — falei, com rispidez.
Meus olhos estavam começando a ficar vermelhos e úmidos, e eu sabia que teria que me controlar se quisesse fazer aquilo direito: proteger Charlie, proteger os Cullen e fazer o plano dar certo. Seria mais fácil se eu não estivesse olhando para ele.
Eu me virei e corri escada acima, fechei a porta e tranquei-a. Joguei-me no chão para pegar minha bolsa de viagem debaixo da cama. Enfiei a mão rapidamente entre o colchão e o box para pegar a meia velha amarrada com minhas economias.
Charlie bateu na minha porta.
— Beau, você está bem? O que está acontecendo?
— Eu vou para casa! — gritei.
Eu me virei para a cômoda, e Edythe já estava ali, em silêncio, pegando roupas e jogando-as para mim. Peguei o que pude e enfiei na bolsa.
— Acho que seu encontro não foi bom. — Seu tom de voz estava confuso, porém mais calmo.
— Ugh, fique fora disso, Charlie — resmunguei.
— Ela terminou com você?
— Eu terminei com ela.
Edythe não reagiu ao que eu estava dizendo. Estava totalmente concentrada. Tirou minhas coisas de cima da cômoda e jogou na bolsa.
— Por quê? — perguntou Charlie, surpreso. — Pensei que você gostasse dessa garota.
— Eu gosto. Demais.
— Hã... não é assim que as coisas funcionam, filho.
Edythe fechou a bolsa; ao que parecia, o tempo de fazer as malas estava acabado. Ela pendurou a alça no meu ombro.
— Vou esperar na picape. Vá! — sussurrou ela, e me empurrou para a porta. Em seguida, sumiu pela janela.
Eu destranquei a porta e passei por Charlie. Minha bolsa derrubou uma foto da parede quando desci a escada.
Charlie correu atrás de mim e segurou a alça da minha bolsa, me puxando um degrau para trás.
— Você está usando drogas, Beau? — perguntou ele.
— Não!
— Vá devagar. Não estou entendendo. Me conte o que aconteceu.
Ele estava segurando a alça com força. Eu podia largar a sacola, mas isso deixaria um buraco na minha história. Eu teria que fazer do jeito mais difícil.
Eu me virei para olhar para ele, torcendo para que a vermelhidão dos meus olhos parecesse raiva.
— Vou contar o que aconteceu — falei, com a voz mais dura que consegui imaginar. — Tive uma noite maravilhosa com a garota mais bonita que já vi, e nós falamos sobre o futuro. A forma como ela vê as coisas... é como você. Ela vai ficar aqui o resto da vida. Vai se casar, ter filhos e não quer ir embora nunca. E, por um segundo, isso até fez sentido para mim. Estou me perdendo aqui, estou sendo sugado. Se eu não fugir agora, não vou sair nunca!
— Beau, você não pode ir embora agora — sussurrou ele. — Está de noite.
— Vou dormir na picape se ficar cansado.
— Espere só mais uma semana — pediu ele, ainda chocado. — Renée já estará de volta.
Isso me tirou completamente dos trilhos.
— O quê?
O alívio ficou evidente no rosto de Charlie quando hesitei.
— Ela ligou quando você estava fora. As coisas não estão indo bem na Flórida, e se Phil não assinar um contrato até o final da semana, eles vão voltar para o Arizona. O assistente técnico dos Sidewinders disse que eles podem ter um lugar para outro jogador de segunda base.
Balancei a cabeça, tentando reorganizar os pensamentos agora confusos. Cada segundo que passava colocava Charlie num perigo maior.
— Tenho uma chave — murmurei, girando a maçaneta.
Ele estava perto demais, a mão ainda segurando minha bolsa, o rosto confuso. Eu não podia perder mais tempo discutindo com ele. Eu teria que magoá-lo ainda mais.
— Me deixe ir, Charlie — falei, entre dentes. E abri a porta. — Não deu certo, está bem? Eu realmente odeio Forks!
Minhas palavras cruéis fizeram seu trabalho: Charlie soltou minha bolsa. Sua boca se abriu de surpresa enquanto uma dor profunda surgia em seus olhos. Dei as costas para ele e saí. Eu não podia deixar que ele visse meu rosto agora.
Tentei passar a raiva no meu jeito de andar, mas senti vontade de correr. O jardim escuro parecia cheio de sombras adicionais que eu tinha quase certeza de que eram só minha imaginação. Mas não absoluta. Joguei a bolsa na caçamba da picape e abri a porta. A chave esperava na ignição.
— Ligo para você amanhã! — gritei.
Eu jamais conseguiria explicar aquilo tudo para ele, jamais poderia acertar as coisas. Liguei o motor e arranquei.
Edythe pegou minha mão.
— Encoste — disse ela quando Charlie e a casa desapareciam atrás de nós.
Mantive os olhos na estrada, tentando controlar o rosto.
— Posso dirigir.
De repente, ela se sentou no meu colo, as mãos no volante e o pé tirando o meu do acelerador. Ela entrou no espaço entre minha perna e a porta e empurrou com o quadril. A picape não oscilou um centímetro, e ela de repente estava no banco do motorista.
— Você não conseguiria encontrar a casa — explicou ela.
De repente, luzes brilharam atrás de nós. Dei um pulo e olhei pelo vidro traseiro.
— É só Archie — garantiu-me ela. Pegou minha mão de novo.
Quando fechei os olhos, só consegui ver Charlie na soleira da porta.
— E a rastreadora?
— Ela ouviu o final de seu teatro. Está correndo atrás de nós agora. Está um quilômetro e meio atrás.
Meu corpo ficou gelado.
— Podemos escapar dela?
— Não. — Mas ela acelerou enquanto falava. O motor da picape gemeu.
Meu plano de repente não parecia mais tão brilhante. Eu estava olhando os faróis do carro de Archie quando a picape tremeu e uma sombra escura disparou do lado de fora da janela.
— E...!
A mão dela cobriu minha boca antes que eu pudesse terminar de gritar o aviso.
— É Eleanor!
Ela colocou a mão no meu joelho.
— Está tudo bem, Beau — prometeu ela.
Disparamos para fora da cidade, indo para o norte.
— Não percebi que você ainda estava tão entediado com a vida na cidade pequena — disse ela casualmente, e eu sabia que estava tentando me distrair. — Parecia que você estava se adaptando muito bem, em especial recentemente. Talvez eu só estivesse me iludindo que estava tornando a vida mais interessante para você.
— Isso foi golpe baixo — confessei, olhando meus joelhos. — Foi a mesma coisa que minha mãe disse quando o deixou. A dor teria sido menor se eu tivesse dado um soco nele.
— Ele vai perdoar você — prometeu ela.
Eu fechei os olhos.
— Beau, vai ficar tudo bem.
Olhei para ela.
— Mas não vai ficar tudo bem quando não estivermos juntos.
— São só alguns dias. Não se esqueça de que foi ideia sua.
— Isso piora tudo. Por que isso foi acontecer? Não entendo.
Ela ficou olhando para a estrada à frente, com as sobrancelhas contraídas sobre os olhos.
— A culpa é minha. Eu não devia tê-lo exposto desse jeito.
Eu segurei a mão dela.
— Não, não foi isso o que eu quis dizer. Tudo bem, eu estava lá. Grande coisa. Os outros dois não ficaram incomodados. Por que Joss decidiu me matar? Tem gente em toda parte, pessoas bem mais fáceis de se pegar. — Olhei por cima do ombro, para a sombra de Eleanor. — Por que todo esse transtorno por mim?
Edythe hesitou, pensando antes de responder.
— Dei uma boa olhada na mente dela hoje — começou Edythe, numa voz baixa. — Não tenho certeza de que havia alguma coisa que eu pudesse ter feito para evitar isso depois que ela sentiu seu cheiro. A culpa é parcialmente sua. — Ela olhou para mim de rabo de olho por um segundo. — Se você não tivesse um cheiro tão absurdamente delicioso, ela podia não ter nem ligado. Mas, quando eu defendi você... Bom, isso piorou as coisas. Ela não está acostumada a ser contrariada, por mais insignificante que seja o objeto. Ela se considera uma caçadora, a caçadora. A existência dela é consumida com a caça, e tudo de que ela mais gosta na vida é um desafio. De repente, oferecemos um incrível desafio, um grande clã de lutadores fortes, todos determinados a proteger o único elemento vulnerável. Você não sabe como ela está eufórica agora. É seu jogo preferido, e estamos tornando o jogo ainda mais empolgante. — Sua voz estava cheia de repulsa. Ele respirou fundo. — Mas, se eu tivesse ficado de fora, ela a teria matado lá mesmo! — sibilou ela com frustração.
— Eu pensei... que não tinha o mesmo cheiro para os outros... que tenho para você.
— Não tem. Mas isso não quer dizer que ainda não seja uma tentação para todos eles. Se você fosse atraente para o rastreador ou para qualquer um deles como é atraente para mim, isso teria significado uma luta lá mesmo.
Eu estremeci.
— Não acho que tenha alternativa a não ser matá-la agora — murmurou ela. — Carine não vai gostar.
— Eu também não gosto — sussurrei.
Ela olhou para mim, surpresa.
— Você quer que eu a poupe?
Eu pisquei.
— Não... quer dizer, sim. Não ligo se ela... morrer. Seria um alívio, não seria? Só não quero que você... E se você se machucar?
O rosto dela ficou rígido.
— Não precisa se preocupar comigo. Eu não luto de forma limpa.
Pude ouvir os pneus atravessando a ponte, embora não pudesse ver o rio no escuro. Eu sabia que estávamos chegando.
— Como se mata um vampiro? — perguntei, em voz baixa.
Ela olhou para mim com os olhos inescrutáveis.
Quando falou, sua voz soou ríspida.
— A única maneira de ter certeza é dilacerando-o e depois queimando os pedaços.
— E os outros dois vão lutar com ela?
— O homem vai. Não tenho certeza sobre Lauren. Eles não têm um vínculo muito forte, ela só está com os dois por conveniência. Ficou constrangida pelo comportamento de Joss na campina...
— Mas Joss e Victor, eles vão tentar matar você? — Minha voz saiu rouca, como se eu tivesse passado uma lixa no fundo da garganta.
— Pare. Concentre-se na sua segurança. E faça o que Archie mandar.
— Como posso não me preocupar com você? O que quer dizer quando você diz que não luta limpo?
Ela deu um meio sorriso. Mas seus olhos nem se moveram.
— Você já tentou agir sem pensar? Fora ações involuntárias como as musculares e a respiração, isso é muito difícil de fazer. Principalmente em uma briga. Vou ver tudo que ela planejar, cada buraco em sua defesa. O único que consegue usar isso contra mim é Archie, pois ele enxerga o que decido fazer, mas eu também posso ouvir como ele vai reagir. Costuma dar empate. Eleanor diz que é trapaça.
Ela parecia relaxada, como se a ideia de lutar com a caçadora e o amigo dela fosse a parte mais fácil dessa confusão. Meu estômago deu um nó e despencou.
— Então Archie não deveria ficar com você? — perguntei. — Se ele luta melhor do que os outros?
— Eleanor está ouvindo isso tudo, sabe. Ela está ofendida e não está empolgada com a ideia. Faz um tempo que ela não pode brigar sem restrição nenhuma. Ela planeja deixar eu e meu jogo sujo fora disso o máximo possível.
Isso me fez sentir um pouco melhor, o que não era justo com Eleanor. Olhei por cima do ombro de novo, mas não consegui ver a expressão dela.
— Ela ainda está nos seguindo? — perguntei.
Edythe sabia que eu não estava falando de Eleanor. Ela pegou o caminho escondido. Os faróis de Archie foram atrás. Seguimos direto para a casa. As luzes lá dentro eram fortes, mas pouco faziam para abrandar a escuridão da floresta ao redor. O pátio continuava negro.
Eleanor abriu minha porta antes que a picape tivesse parado. Ela me puxou do banco, se agachou por baixo do meu braço, passou o dela pela minha cintura e me levou correndo até a porta da frente com meus pés a trinta centímetros do chão, como se eu fosse uma boneca de pano gigante.
Ela irrompeu pela grande sala branca com Edythe e Archie nos ladeando. Todos estavam ali, já de pé. Lauren estava no meio do círculo. Pude ouvir rosnados baixos na garganta de Eleanor enquanto ela me baixou ao lado de Edythe.
— Ela está nos perseguindo — sibilou Edythe, olhando malignamente para Lauren.
A expressão de Lauren era infeliz.
— Era o que eu temia.
Archie correu para o lado de Jessamine e cochichou no ouvido dela. Eles dispararam escada acima juntos. Royal os observou e passou rapidamente para o lado de Eleanor.
Seus olhos estavam intensos e, quando se voltaram involuntariamente para o meu rosto, hostis.
— O que ela vai fazer? — perguntou Carine a Lauren.
— Eu lamento — respondeu Lauren. — Fiquei com medo, quando sua garota ali o defendeu, que isso fosse chamar a atenção de Joss.
— Pode impedi-la?
Lauren balançou a cabeça.
— Nada detém Joss depois que ela começa.
— Nós vamos detê-la — prometeu Eleanor. Não havia dúvida de suas intenções.
— Não podem derrotá-la — respondeu Lauren. — Jamais vi algo parecido com ela em meus 300 anos. Ela é absolutamente letal. Foi por isso que me juntei ao bando dela.
O bando dela, pensei, é claro. A exibição de liderança na clareira foi apenas isso, uma exibição.
Lauren estava balançando a cabeça. Olhou para mim, confusa.
— Tem certeza de que vale a pena?
O rugido enfurecido de Edythe encheu a sala; Lauren se encolheu.
Carine olhou para Lauren.
— Infelizmente, você vai ter que fazer uma escolha.
Lauren entendeu. Ela hesitou por um momento. Avaliou cada rosto e observou a sala iluminada.
— Estou intrigado com o modo de viver que vocês criaram por aqui. Mas não vou me intrometer. Não vejo um inimigo em nenhum de vocês, mas não me colocarei contra Joss. Acho que seguirei para o norte, para aquele clã em Denali. — Ela fez uma pausa. — Não subestimem Joss. Ela tem uma mente brilhante e sentidos incomparáveis. Parece selvagem, mas fica tão à vontade no mundo humano quanto vocês parecem estar. Ela não os enfrentará diretamente... Lamento pelo que foi desencadeado aqui. Eu realmente lamento. — Ela baixou a cabeça, mas eu a vi disparar outro olhar confuso para mim.
— Vá em paz — disse Carine.
Lauren lançou outro demorado olhar ao redor e desapareceu pela porta.
O silêncio durou menos de um segundo.
Carine olhou para Edythe.
— A que distância?
Earnest já estava se mexendo; sua mão tocou um teclado oculto na parede e, com um rangido, persianas de metal começaram a selar a parede de vidro. Fiquei boquiaberto.
— A uns cinco quilômetros depois do rio. Está rondando para se reunir ao homem.
— Qual é o plano?
— Vamos despistá-la, depois Archie e Jessamine o levarão para o sul.
— E depois?
A voz de Edythe ficou gelada.
— Assim que Beau estiver longe, vamos caçá-la.
— Acho que ela não nos deixou alternativa — concordou Carine, a expressão sombria.
Edythe se virou para Royal.
— Leve-o para cima e troquem as roupas.
Royal ficou olhando para ela, incrédulo.
— Por que eu faria isso? — perguntou ele. — O que ele é para mim?
— Roy... — murmurou Eleanor, colocando a mão em seu ombro. Ele a afastou.
Meus olhos estavam em Edythe, com medo de que aquilo a irritasse, mas ela me surpreendeu. Desviou os olhos de Royal como se ele não tivesse falado, como se ele não existisse.
— Earnest? — perguntou ela calmamente.
— É claro.
Enquanto falava, ele surgiu ao meu lado, se abaixando para me pegar no colo. Subimos a escada antes que eu pudesse registrar o que estava acontecendo.
— O que estamos fazendo? — perguntei quando ele me colocava no chão em um quarto escuro em algum lugar no segundo andar.
— Tentando confundir o cheiro. Não vai funcionar por muito tempo, mas pode dar certa vantagem. — A voz dele soou abafada enquanto ele puxava a blusa pela cabeça.
Arranquei o suéter e entreguei para ele, que me deu o dele. Tentei enfiar as mãos nos buracos certos, depois tirei a calça jeans. Nós trocamos. A calça dele ficou um pouco curta, mas deu em mim. Ele me empurrou para o corredor. Earnest parecia menor com as minhas roupas; tinha dobrado a barra da minha calça jeans. Archie apareceu de repente, uma bolsa de couro pendurada no braço. Cada um deles pegou um cotovelo meu, e me carregaram voando escada abaixo.
Parecia que tudo tinha sido resolvido. Edythe e Eleanor estavam prontas para partir, Eleanor com uma mochila grande no ombro. Carine entregou alguma coisa pequena a Earnest. Ela se virou para Archie e entregou para ele a mesma coisa, um pequeno celular prateado.
— Earnest e Royal levarão sua picape, Beau — disse ela enquanto passava.
Eu assenti, olhando com cautela para Royal. Ele fitava Carine com uma expressão ressentida.
— Archie, Jess, peguem o Mercedes. Vão precisar do vidro com película no sul.
Eles também assentiram.
— Vamos levar o Jeep.
Carine parou ao lado de Edythe. Percebi que era o grupo de caça e senti vontade de vomitar. Como chegou a esse ponto? Por que eles ouviram minha ideia? Era tão obviamente errada.
— Archie, eles vão morder a isca?
Todos olharam para Archie enquanto ele fechava os olhos e ficava incrivelmente imóvel. Alguns segundos depois, seus olhos se abriram.
— Ela vai perseguir você. O homem seguirá a picape. Vamos conseguir partir depois disso. — Ele falou com segurança.
— Vamos — disse Carine, indo para a cozinha.
Mas Edythe voltou até mim. Ela me olhou de baixo, com os olhos dourados enormes e profundos e cheios de um milhão de palavras que ela não tinha tempo de dizer e levou as mãos ao meu rosto. Eu me inclinei para baixo, com as mãos já no cabelo dela. Pelo mais curto dos segundos, os lábios dela, gelados e duros, tocaram os meus.
E acabou. Ela empurrou meus ombros. Os olhos ficaram vazios, mortos, na hora que ela deu as costas para mim.
E eles partiram.
Ficamos ali, sem ninguém me olhar enquanto eu olhava o lugar onde eles estavam antes. Parecia que tinham arrancado a pele do meu rosto. Meus olhos estavam ardendo.
O momento de silêncio se arrastou. Os olhos de Archie estavam fechados de novo. O telefone de Earnest vibrou em sua mão, e Archie assentiu uma vez. Earnest levou o celular ao ouvido.
— Agora — disse Earnest.
Royal saiu pela porta da frente sem olhar na minha direção, mas Earnest tocou meu rosto ao passar.
— Tenha cuidado. — Seu sussurro perdurou enquanto eles saíam. Ouvi minha picape trovejar e depois desaparecer.
Jessamine e Archie esperavam. O celular de Archie parecia estar em sua orelha antes mesmo de tocar.
— Edythe disse que o homem está na trilha de Earnest. Vou pegar o carro. — Ele desapareceu nas sombras, na direção na qual Edythe partira.
Jessamine e eu nos olhamos. Ela se postou entre mim e a entrada.
— Você está enganado, sabe — disse ela.
— Hã?
— Posso sentir o que está sentindo agora. E você vale tudo isso.
A sensação de estar sendo esfolado lentamente não diminuiu.
— Se alguma coisa acontecer a eles, terá sido em vão.
Ela deu um sorriso gentil.
— Está enganado — repetiu ela.
Archie passou pela porta da frente e veio na minha direção com um braço estendido.
— Posso? — perguntou ele.
— É o primeiro a pedir permissão — murmurei.
Archie me pegou no colo como Earnest tinha feito e, com Jessamine nos protegendo, saiu correndo pela porta, deixando as luzes acesas para trás.

9 comentários:

  1. Que constrangedor p o ego masculino. Kkk

    ResponderExcluir
  2. "É o primeiro a pedir permissão" HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA
    Adoro essa cena kkkkkkkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  3. Urrul!! Uma Di Angelo ><
    Também adoro! Kkkkk

    ResponderExcluir
  4. Sinceramente, eu estou adorando como esse "ego masculino" está sendo ferido. Mulheres não são sexo fragil, e é maravilhoso a Step estar mostrando isso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. finalmente um que entendo o que sinto.

      Excluir
  5. Há um erro nessa parte
    "e me levou correndo até a porta da frente com meus pés a trinta centímetros do chão, como se eu fosse uma boneca de pano gigante"... Estou amando ❤❤❤❤

    ResponderExcluir
  6. No "boneca" no caso seria boneco de pano

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!