16 de janeiro de 2016

Capítulo 17 - O jogo

Estava começando a chover quando Edythe entrou na minha rua. Até aquele momento, eu não tinha dúvidas de que ela ia ficar comigo enquanto eu passava algumas poucas horas no mundo real.
Mas vi o carro preto velho estacionado na entrada de carros de Charlie e ouvi Edythe murmurar alguma coisa ininteligível numa voz baixa e rouca.
Fugindo da chuva na pequena varanda da frente, Jules Black estava atrás da cadeira de rodas da mãe. O rosto de Bonnie era impassível como pedra enquanto Edythe estacionava minha picape junto ao meio-fio. Jules olhou para baixo com expressão mortificada.
A voz baixa de Edythe soou furiosa.
— Isso está passando dos limites.
— Ela veio alertar Charlie? — conjecturei, mais apavorado do que irritado.
Edythe limitou-se a assentir, respondendo ao olhar de Bonnie com os olhos semicerrados.
Pelo menos, Charlie ainda não estava em casa. Talvez o desastre pudesse ser evitado.
— Deixe que eu cuido disso — sugeri.
O olhar de Edythe parecia... sério demais.
Para minha surpresa, ela concordou.
— Acho que é melhor. Mas tome cuidado. A criança não faz ideia.
— Criança? Sabe, Jules não é muito mais nova do que eu.
Ela olhou para mim, a raiva desaparecendo. Sorriu.
— Ah, eu sei.
Eu suspirei.
— Leve-as para dentro, para eu ir embora — disse ela. — Voltarei ao anoitecer.
— Pode ir com a picape — sugeri.
Ela revirou os olhos.
— Andando consigo ir até em casa mais rápido do que esta picape.
Eu não queria me separar dela.
— Você não precisa ir embora.
Ela tocou na minha testa franzida e sorriu.
— Na verdade, preciso. Depois que se livrar delas — ela lançou um olhar sombrio na direção das Black — você ainda terá que preparar Charlie para conhecer sua nova namorada.
Ela riu da minha cara. Acho que conseguia perceber o quanto eu estava animado com isso.
Não era que eu não quisesse que Charlie soubesse sobre Edythe. Eu sabia que ele gostava dos Cullen, e como poderia não gostar de Edythe? Provavelmente ficaria tão impressionado que chegaria a ser insultante.
Mas parecia abusar da sorte. Tentar arrastar essa fantasia linda demais pela lama da vida comum e tediosa não parecia algo seguro. Como as duas coisas poderia coexistir por muito tempo?
— Volto logo — prometeu ela.
Seus olhos voltaram à varanda, e ela se inclinou para me dar um beijo rápido na lateral do pescoço, embaixo. Meu coração quicou na caixa torácica e também olhei a varanda. A cara de Bonnie não estava mais impassível e suas mãos se fecharam nos braços da cadeira.
— Logo — falei enquanto abria a porta e saía para a chuva.
Pude sentir os olhos dela nas minhas costas enquanto quase corria até a varanda.
— Oi, Jules. Oi, Bonnie. — Cumprimentei-as do modo mais animado que pude. — Charlie está passando o dia fora. Espero que não estejam aguardando há muito tempo.
— Não muito — disse Bonnie num tom de derrota. Seus olhos escuros eram penetrantes. — Eu só queria trazer isto. — Ela indicou um saco de papel pardo em seu colo.
— Obrigado — eu disse automaticamente, mas não fazia ideia do que podia ser. — Por que não entram por um minuto e se secam?
Fingi não perceber sua análise cuidadosa enquanto eu destrancava a porta e acenava para que passassem na minha frente. Jules deu um meio sorriso ao passar.
— Deixe que eu leve isso — ofereci, virando-me para fechar a porta.
Troquei um último olhar com Edythe. Ela estava perfeitamente imóvel enquanto esperava, os olhos solenes.
— Vai precisar colocar na geladeira — instruiu Bonnie enquanto me passava o pacote. — É peixe frito caseiro de Holly Clearwater. O preferido de Charlie. A geladeira o mantém mais seco.
— Obrigado — repeti, com mais emoção. — Eu estava ficando sem novas maneiras de preparar peixe, e ele deve trazer mais para casa hoje.
— Foi pescar de novo? — perguntou Bonnie. Ela ficou atenta de repente. — No lugar de sempre? Talvez eu passe por lá para vê-lo.
— Não — menti, rapidamente. — Ele ia a um lugar novo... Mas não faço ideia de onde fica.
Ela olhou meu rosto e apertou os olhos. Era tão óbvio quando eu tentava mentir.
— Julie — disse ela, ainda me olhando. — Por que você não vai pegar aquela foto nova de Aaron no carro? Vou deixar para o Charlie também.
— Onde está? — perguntou Jules. A voz soou meio desanimada. Olhei para ela, mas ela estava olhando para a porta, as sobrancelhas pretas unidas.
— Acho que vi na mala — disse Bonnie. — Talvez tenha que procurar.
Jules voltou curvada para a chuva.
Bonnie e eu nos encaramos em silêncio. Depois de alguns segundos, a quietude começou a parecer estranha, então eu me virei e fui à cozinha. Pude ouvir suas rodas molhadas guinchando no linóleo enquanto ela me seguiu.
Coloquei o saco em um espaço na prateleira de cima da geladeira e me virei devagar para olhar os olhos que conseguia sentir grudados em mim.
— Charlie vai demorar a voltar. — Minha voz era quase rude.
Ela assentiu, concordando, mas não disse nada.
— Obrigado novamente pelo peixe frito — falei.
Ela continuou balançando a cabeça. Eu suspirei e me encostei na bancada.
— Beau — disse ela, e depois hesitou.
Esperei.
— Beau — falou, novamente —, Charlie é um dos meus melhores amigos.
— Sim.
Ela pronunciava cada palavra com cuidado com sua voz grave.
— Percebi que você anda passando seu tempo com a filha dos Cullen.
— Sim — repeti.
Seus olhos se estreitaram.
— Talvez não seja da minha conta, mas não acho que seja uma boa ideia.
— Tem razão — concordei. — Não é da sua conta.
Ela ergueu as sobrancelhas grossas ao ouvir meu tom de voz.
— Você não deve saber disso, mas a família Cullen tem uma fama ruim na reserva.
— Na verdade, eu sei disso — afirmei com voz dura. Ela pareceu surpresa. — Mas essa fama pode ser infundada, não é? Porque os Cullen nunca colocaram os pés na reserva, colocaram? — Pude ver que meu recado nada sutil do acordo que ambos fizeram para proteção da sua tribo a fez parar.
— É verdade — concordou ela, os olhos em guarda. — Você parece... bem informado sobre os Cullen. Mais do que eu esperava.
Olhei-a de cima.
— Talvez ainda mais bem informado do que você.
Ela repuxou os lábios grossos ao pensar no assunto.
— Talvez — admitiu ela, mas os olhos eram astutos. — Charlie também está bem-informado?
Ela encontrou uma brecha em minha armadura.
— Charlie gosta muito dos Cullen — observei.
Ela entendeu minha evasiva. Sua expressão era infeliz, mas não trazia surpresa.
— Não é problema meu — disse ela. — Mas pode ser problema de Charlie.
— Mas seria problema meu pensar se é ou não problema de Charlie, não é?
Perguntei-me se ela entendeu minha pergunta confusa enquanto eu me esforçava para não dizer nada de comprometedor. Mas ela pareceu entender. Pensou no assunto enquanto a chuva batia no telhado, o único som que quebrava o silêncio.
— Sim. — Ela se rendeu, por fim. — Acho que também é problema seu.
Eu suspirei de alívio.
— Obrigado, Bonnie.
— Mas pense no que está fazendo, Beau — pediu ela.
— Tudo bem — concordei, rapidamente.
Ela franziu o cenho.
— O que eu queria dizer era: não faça o que está fazendo.
Olhei nos olhos dela, cheios apenas de preocupação por mim, e não havia nada que eu pudesse dizer.
A porta da frente bateu com um estrondo alto.
— Não tem foto nenhuma no carro.
A voz queixosa de Jules chegou a nós antes dela. Ela entrou na cozinha. Os ombros da camiseta estavam manchados de chuva e o cabelo pingava.
— Hmmm — grunhiu Bonnie, distante de repente, girando a cadeira para olhar a filha. — Acho que deixei em casa.
Jules revirou os olhos dramaticamente.
— Que ótimo.
— Bem, Beau, diga ao Charlie — Bonnie hesitou antes de continuar — que passamos por aqui.
— Vou dizer — murmurei.
Jules ficou surpresa.
— Já estamos indo embora?
— Charlie vai chegar tarde — explicou Bonnie ao passar por Jules.
— Ah. — Jules parecia decepcionada. — Bom, acho que a gente se vê depois, Beau.
— Claro — concordei.
— Cuide-se — alertou-me Bonnie.
Não respondi.
Jules ajudou a mãe a sair pela porta. Dei um aceno breve, olhando rapidamente para minha picape agora vazia, e depois fechei a porta antes que elas tivessem ido.
E então, não tive nada para fazer além de esperar.
Depois de alguns segundos olhando a cozinha vazia, eu suspirei e comecei a limpar as coisas. Pelo menos, minhas mãos ficaram ocupadas. Meus pensamentos, nem tanto.
Agora que eu estava longe das alterações de humor provocadas por Jessamine, comecei a me estressar pelo que tinha aceitado fazer. Mas não poderia ser difícil. Edythe disse que eu não teria que jogar. Tentei me convencer de que eu ficaria bem, mas esfreguei a louça que estava lavando com força demais.
Eu estava terminando o banheiro quando ouvi o carro de Charlie chegando. Arrumei os produtos de limpeza em ordem alfabética debaixo da pia enquanto o ouvia entrar pela porta. Ele começou a fazer barulho debaixo da escada, guardando o equipamento.
— Beau! — chamou ele.
— Oi, pai — gritei.
Quando cheguei no andar de baixo, ele estava lavando as mãos na pia da cozinha.
— Onde estão os peixes? — perguntei.
— Coloquei no freezer.
— Vou separar uns dois enquanto ainda estão frescos. Bonnie deixou um pouco do peixe frito de Holly Clearwater esta tarde. — Tentei parecer entusiasmado.
— Deixou, é? — Os olhos de Charlie se iluminaram. — São meus favoritos!
Charlie foi tomar banho enquanto eu preparava o jantar. Em pouco tempo, estávamos sentados à mesa, comendo em silêncio. Charlie gostou da comida. Eu me perguntava como tocaria no assunto da minha nova... namorada.
— O que fez hoje? — perguntou ele, arrancando-me dos meus devaneios.
— Bom, hoje à tarde só fiquei em casa... — Só a parte mais recente da tarde, na verdade. Tentei manter a voz tranquila, mas meu estômago estava oco. — E hoje de manhã fui à casa dos Cullen.
Charlie largou o garfo.
— À casa da Dra. Cullen? — perguntou ele, surpreso.
Fingi não perceber a reação dele.
— É.
— O que foi fazer lá? — Ele não pegou o garfo de novo.
— Bom, eu tenho uma espécie de encontro com Edythe Cullen esta noite, e ela queria me apresentar aos pais...
Ele ficou me olhando como se eu tivesse anunciado que passei o dia assaltando lojas de bebida.
— O quê, pai? Você não disse que queria que eu socializasse?
Ele piscou algumas vezes e pegou o garfo.
— É, eu disse. — Ele comeu outro pedaço de comida, mastigou devagar e engoliu. — Mas você não me disse que nenhuma das garotas da cidade faz seu tipo?
— Eu não disse isso, você disse.
— Não venha me enrolar, garoto, você sabe o que quero dizer. Por que você não contou nada? Fui xereta demais?
— Não, pai, é que... é tudo meio novo, tá? Eu não queria estragar.
— Ah. — Ele pensou por um minuto enquanto comia mais um pouco. — Então você foi conhecer os pais dela, é?
— Er, é. Quer dizer, eu já conhecia a Dra. Cullen. Mas conheci o pai dela.
— Earnest Cullen é ótimo. É meio quieto, mas muito... gentil, eu acho que é a melhor palavra. Tem alguma coisa nele.
— É, reparei nisso.
— Mas conhecer os pais... não é meio sério? Isso quer dizer que ela é sua namorada?
— É. — Não foi tão difícil quanto achei que seria. Tive uma sensação estranha de orgulho de poder reivindicá-la assim. Coisa do meu eu neandertal, mas era bem isso. — É, ela é minha namorada.
— Uau.
— Nem me fale.
— Também vou ganhar uma visita?
Eu ergui uma sobrancelha.
— Você vai se comportar?
Ele levantou as duas mãos.
— O quê, eu? Já constrangi você alguma vez?
— Eu já trouxe alguma garota aqui?
Ele bufou e mudou de assunto.
— Que horas você vai buscá-la?
— Ah, ela vem me encontrar aqui. Sabe, você vai ter sua visita. Ela chega daqui a pouco, na verdade.
— Aonde você vai levá-la?
— Bom, acho que o plano é que vamos... jogar beisebol com a família dela.
Charlie ficou me olhando por um segundo e caiu na gargalhada. Eu revirei os olhos e esperei que ele terminasse. Ele acabou fingindo limpar lágrimas dos olhos.
— Espero que esse ataque já tenha acabado.
— Beisebol, é? Você deve gostar muito dessa garota.
Pensei em deixar isso de lado, mas achei que ele enxergaria de qualquer jeito.
— É — falei. — Gosto, sim.
Ouvi um motor nada familiar rugir na porta de casa e levantei o olhar com surpresa.
— É ela?
— Talvez...
Depois de alguns segundos, a campainha tocou e Charlie deu um pulo. Corri ao redor dele e cheguei à porta primeiro.
— Dá para ser menos agressivo? — murmurou ele, baixinho.
Eu não tinha percebido como estava chovendo lá fora.
Edythe estava parada no halo de luz da varanda, parecendo uma modelo de anúncio de capas de chuva.
Ouvi Charlie inspirar de surpresa. Perguntei-me se ele já a tinha visto de perto. Era meio tenso. Mesmo quando se estava acostumado.
Fiquei olhando para ela, estupefato.
Ela riu.
— Posso entrar?
— Pode! Claro. — Dei um pulo para trás e esbarrei em Charlie.
Depois de alguns segundos desajeitados, pendurei sua capa de chuva e fui com ela e Charlie me sentar na sala de estar. Ela estava na poltrona, então me sentei ao lado de Charlie no sofá.
— E então, Edythe, como estão seus pais?
— Muito bem, obrigada, chefe Swan.
— Pode me chamar de Charlie. Não estou de serviço.
— Obrigado, Charlie. — Ela exibiu as covinhas, e o rosto dele ficou atordoado.
Ele demorou um segundo para se recuperar.
— Então, hã, vocês vão jogar beisebol, hoje?
Não pareceu passar na cabeça de nenhum dos dois que os baldes e baldes de água que estavam caindo do céu no momento teriam algum impacto nos planos. Só mesmo em Washington.
— Sim. Espero que Beau não se importe de passar tempo demais com a minha família.
Charlie falou antes que eu pudesse responder.
— Eu diria que ele se importaria mais com o beisebol.
Os dois riram, e olhei de cara feia para o meu pai. Onde estava o bom comportamento que ele prometeu?
— Não devíamos ir? — sugeri.
— Não estamos com pressa — disse Edythe com um sorriso.
Eu cutuquei Charlie com o cotovelo. O sorriso de Edythe se abriu.
— Ah, hã, é — disse Charlie. — Podem ir, crianças. Tenho... um monte de coisas para...
Edythe se levantou em um movimento fluido.
— Foi ótimo ver você, Charlie.
— Sim. Venha nos visitar quando quiser, Edythe.
— Obrigada. Você é muito gentil.
Charlie passou a mão pelo cabelo, sem graça. Eu achava que nunca o tinha visto tão perturbado.
— Vocês vão voltar muito tarde?
Eu olhei para ela.
— Não, vamos ser razoáveis.
— Mas não espere acordado — acrescentei.
Entreguei a capa para ela e segurei a porta. Quando ela passou, Charlie me olhou com olhos arregalados. Dei de ombros e ergui as sobrancelhas. Eu também não sabia como tive tanta sorte.
Eu a segui para a varanda e parei.
Ali, atrás da minha picape, estava um Jeep monstruoso.
Seus pneus eram da altura da minha cintura. Havia grades de metal sobre os faróis e as lanternas traseiras, e quatro refletores grandes presos no para-choque. A capota rígida era vermelho-vivo.
Charlie soltou um assovio baixo.
— Coloquem o cinto.
Fui até o lado do motorista para abrir a porta para Edythe. Ela entrou com um pulinho eficiente, mas fiquei feliz de estarmos no lado mais distante de Charlie, porque não pareceu totalmente natural. Fui até o meu lado e subi desajeitadamente. Ela já estava com o motor ligado, e reconheci o rugido que me surpreendeu antes.
Não era tão alto quanto o da minha picape, mas parecia bem mais poderoso.
Por hábito (ela não começaria a dirigir enquanto eu não colocasse o cinto), estiquei o braço para o cinto de segurança.
— O que... er... o que é tudo isso? Como eu...?
— É um arnês de off-road — explicou ela.
— Ah.
Tentei encontrar os lugares certos para todas as fivelas, mas não estava sendo muito rápido. De repente, as mãos dela estavam ali, voando em velocidade quase invisível, e sumiram de novo. Fiquei feliz que a chuva estivesse pesada demais para que Charlie enxergasse com clareza da varanda, porque isso significava que também não conseguia me ver com clareza.
— Er, obrigado.
— De nada.
Eu sabia que não devia perguntar se ela não colocaria o arnês dela.
Ela se afastou da casa.
— Mas é um... hã... Jeep bem grande o que você tem.
— É de Eleanor. Ela me emprestou para a gente não ter que correr o caminho todo.
— Onde vocês guardam essa coisa?
— Reformamos um dos anexos da casa e fizemos uma garagem.
De repente, a resposta anterior voltou à minha mente.
— Espere. Correr o caminho todo? Querendo dizer que ainda vamos ter que correr parte do caminho? — perguntei.
Ela repuxou os lábios como se estivesse tentando não sorrir.
— Você não vai correr.
Eu grunhi.
— Vou vomitar na frente da sua família.
— Mantenha os olhos fechados e vai ficar bem.
Balancei a cabeça, suspirei e estiquei a mão para segurar a dela.
— Oi, senti saudade.
Ela riu, um som agudo, não exatamente humano.
— Também senti. Não é estranho?
— Estranho por quê?
— Era de se pensar que eu teria aprendido a ser mais paciente nos últimos cem anos. E aqui estou, com dificuldade de passar uma tarde sem você.
— Que bom que não sou só eu.
Ela se inclinou para dar um beijo na minha bochecha, e depois recuou rapidamente e suspirou.
— Você cheira ainda melhor na chuva.
— De um jeito bom ou de um jeito ruim?
Ela franziu a testa.
— Sempre os dois.
Não sei como ela encontrou o caminho no temporal, pois parecia que havia uma cortina cinza líquida ao redor do Jeep, mas de algum modo achou uma estrada vicinal que era menos uma estrada e mais uma trilha montanhosa.
Foi impossível conversar por algum tempo, porque fiquei quicando no banco como uma britadeira. Mas ela parecia gostar da viagem, com um sorriso enorme o caminho todo.
E então, chegamos ao final da estrada; as árvores formavam muralhas verdes dos três lados do Jeep. A chuva era apenas um chuvisco, diminuindo a cada segundo, o céu mais claro através das nuvens.
— Desculpe, Beau, temos que ir a pé a partir daqui.
— Sabe de uma coisa? Vou esperar por aqui mesmo.
— O que aconteceu com toda a sua coragem? Você foi extraordinário hoje de manhã.
— Ainda não me esqueci da última vez. — Tinha sido mesmo só ontem?
De repente, ela estava do meu lado do carro e começou a me desafivelar.
— Eu cuido disso, pode ir em frente — protestei.
Ela terminou antes que eu terminasse de dizer as primeiras palavras.
Fiquei sentado no carro olhando para ela.
— Você não confia em mim? — perguntou, magoada, ou fingindo estar magoada, pensei.
— Essa não é a questão. Confiança e enjoo não têm relação nenhuma.
Ela me olhou por um minuto, e me senti bem idiota sentado ali no Jeep, mas só conseguia pensar no passeio de montanha-russa mais nauseante que já fiz.
— Lembra o que falei sobre a mente dominar a matéria? — perguntou ela.
— Lembro...
— E se você se concentrasse em outra coisa?
— Tipo o quê?
De repente, ela estava no Jeep comigo, um joelho no banco ao lado da minha perna. O rosto estava a centímetros do meu. Tive um leve ataque cardíaco.
— Continue respirando — disse ela.
— Como?
Ela sorriu, e seu rosto ficou sério de novo.
— Quando estivermos correndo, e essa parte não é negociável, quero que você se concentre nisso.
Lentamente, ela se aproximou e virou o rosto de lado para que ficássemos bochecha com bochecha, os lábios dela no meu ouvido. Uma das mãos deslizou pelo meu peito até minha cintura.
— Só se lembre da gente... assim...
Os lábios dela puxaram o lóbulo da minha orelha de leve, depois se moveram lentamente pelo meu maxilar e pescoço.
— Respire, Beau — murmurou ela.
Eu inspirei profundamente.
Ela beijou debaixo do meu maxilar, depois minha bochecha.
— Ainda preocupado?
— Hã?
Ela riu. As mãos estavam segurando meu rosto agora, e ela beijou de leve uma pálpebra e depois a outra.
— Edythe — sussurrei.
Os lábios dela pousaram nos meus, e não foram tão delicados e cautelosos como sempre foram antes. Moveram-se com urgência, frios e firmes, e apesar de eu saber como eram as coisas, não consegui pensar de forma coerente para tomar boas decisões. Não mandei minhas mãos se moverem, mas meus braços envolveram a cintura dela, tentando puxá-la para mais perto. Minha boca se moveu com a dela e fiquei ofegante, inspirando o aroma dela a cada lufada.
— Caramba, Beau!
E ela sumiu, deslizou com facilidade para fora do meu abraço, já a três metros e fora do carro quando pisquei e voltei à realidade.
— Desculpe — falei, arfando.
Ela olhou para mim com cautela, olhos tão arregalados que os braços apareciam ao redor do dourado. Eu meio que caí desajeitadamente para fora do carro, depois dei um passo na direção dela.
— Acho que você vai ser a minha morte, Beau — disse ela, baixinho.
Eu fiquei paralisado.
— O quê?
Ela respirou fundo e apareceu do meu lado.
— Vamos sair daqui antes que eu faça uma grande besteira — murmurou ela.
Ela virou as costas para mim e olhou por cima do ombro com uma expressão de anda logo.
— Fique de olhos fechados — alertou ela, e saiu correndo.
Apertei bem os olhos, tentando não pensar na velocidade do vento que pressionava a pele sobre meu crânio. Fora esse sinal, era difícil acreditar que estávamos mesmo voando pela floresta como antes. O movimento do corpo dela era tão suave que eu acharia que ela estava andando por uma calçada com um gorila nas costas. A respiração dela ia e vinha regularmente.
Eu não tinha certeza de que tínhamos parado quando ela estendeu a mão para trás e tocou meu rosto.
— Acabou, Beau.
Abri os olhos e realmente estávamos parados. Na minha pressa de sair de cima dela, perdi o equilíbrio. Ela se virou a tempo de me ver cair de bunda com os braços girando.
Por um segundo, ela ficou me olhando como se não tivesse certeza se ainda estava irritada demais para me achar engraçado, mas deve ter concluído que não estava irritada demais.
Ela caiu na gargalhada, com a cabeça virada para trás e os braços sobre a barriga.
Eu me levantei devagar e tirei a lama e as plantas da calça jeans o máximo que consegui enquanto ela continuava rindo.
— Sabe, seria mais humano você me largar agora — falei, com aborrecimento. — Não vai ficar mais fácil para mim com o tempo.
Ela respirou fundo algumas vezes, tentando se controlar.
Eu suspirei e saí andando na direção que mais se assemelhava a um caminho.
Alguma coisa segurou a parte de trás do meu suéter, e eu sorri. Olhei por cima do ombro. Ela estava me segurando do mesmo jeito que me segurou em frente à enfermaria.
— Aonde você vai, Beau?
— Não tinha um jogo de beisebol acontecendo?
— É para o outro lado.
Eu me virei.
— Tudo bem.
Ela segurou minha mão e saímos andando devagar na direção de uma área escura da floresta.
— Me desculpe por ter rido.
— Eu também teria rido de mim.
— Não, eu fiquei só um pouco... agitada. Precisava da catarse.
Andamos em silêncio por alguns segundos.
— Ao menos me diga que deu certo, a experiência da mente domina a matéria.
— Bem... eu não fiquei enjoado.
— Ótimo, mas...?
— Eu não estava pensando sobre... dentro do carro. Estava pensando em depois.
Ela não disse nada.
— Sei que já pedi desculpas, mas... me desculpe. De novo. Vou aprender a me comportar melhor, eu sei.
— Beau, pare. Por favor. Você me faz sentir mais culpa quando pede desculpas.
Eu olhei para ela. Nós dois tínhamos parado de andar.
— Por que você devia sentir culpa?
Ela riu de novo, mas dessa vez havia quase histeria na gargalhada.
— Ah, realmente! Por que eu devia sentir culpa?
A escuridão nos olhos dela me deixou ansioso. Havia dor ali, e eu não sabia como ajudar. Coloquei a mão na bochecha dela.
— Edythe, não entendo o que você está dizendo.
Ela fechou os olhos.
— Não consigo parar de botar você em perigo. Eu penso que estou me controlando, mas aí chega tão perto... Não sei como não ser mais isso. — De olhos ainda fechados, ela apontou para si mesma. — Minha própria existência o coloca em risco. Às vezes, eu me odeio verdadeiramente. Eu devia ser mais forte, devia ser capaz de...
Coloquei a mão em sua boca.
— Pare.
Ela abriu os olhos. Afastou minha mão, mas a colocou na bochecha de novo.
— Eu te amo — disse ela. — É uma desculpa ruim para o que estou fazendo, mas ainda assim é verdadeira.
Foi a primeira vez que ela disse que me amava, com todas as letras. Como ela dissera de manhã, era diferente ouvir as palavras em voz alta.
— Eu te amo — falei para ela quando recuperei o fôlego. — Não quero que você seja diferente do que é.
Ela suspirou.
— Agora, seja um bom menino — disse ela, e se esticou nas pontas dos pés.
Fiquei muito parado enquanto ela roçava os lábios nos meus.
Ficamos nos olhando por um minuto.
— Beisebol? — perguntou ela.
— Beisebol — concordei, com bem mais confiança do que sentia.
Ela segurou minha mão e me levou alguns metros pelas samambaias altas ao redor de um abeto enorme e lá estávamos, na beira de um enorme campo aberto na lateral de uma montanha. Tinha duas vezes o tamanho de qualquer estádio de beisebol.
Todos os outros estavam ali. Earnest, Eleanor e Royal estavam sentados em um afloramento de rocha nua, talvez a uns cem metros. A uma distância muito maior pude ver Archie e Jessamine, pelo menos a quatrocentos metros de distância um do outro. Era quase como se estivessem jogando bola um para o outro, mas não consegui ver bola nenhuma. Parecia que Carine estava preparando as bases, mas não podia estar certo. Estavam muito distantes uma da outra.
Quando entramos em seu campo de visão, os três na pedra se levantaram. Earnest veio na nossa direção. Royal se afastou e foi na direção de Carine. Eleanor seguiu Earnest depois de olhar por um tempo para as costas de Royal.
Eu também estava olhando para Royal. Estava nervoso.
— Foi você que ouvimos, Edythe? — perguntou Earnest.
— Parecia uma hiena sufocando — acrescentou Eleanor.
Eu sorri hesitante para Earnest.
— Foi ela.
— Beau foi engraçado — explicou Edythe.
Archie tinha largado o jogo e corria na nossa direção. Parecia que os pés dele não tocavam no chão. Em meio segundo, ele estava ali, parando de repente na nossa frente.
— Está na hora — anunciou.
Assim que falou, um estrondo grave de trovão sacudiu a floresta atrás de nós e explodiu a oeste, na direção da cidade.
— Sinistro, não é? — comentou Eleanor. Quando me virei para olhar para ela, surpreso de ela estar agindo com tanta casualidade comigo, ela piscou.
— Vamos!
Archie segurou a mão de Eleanor, e eles saíram correndo para o campo gigantesco. Archie quase... saltitava, como um cervo, só que mais perto do chão. Eleanor era igualmente rápida e quase tão graciosa, mas parecia uma coisa bem diferente. Algum animal que atacava, não que saltitava.
— Está pronto para um jogo de bola? — perguntou Edythe, os olhos brilhantes.
Era impossível não sentir entusiasmo por uma coisa que a deixava tão feliz.
— Vai nessa!
Ela riu, passou rapidamente os dedos pelo meu cabelo e saiu correndo atrás dos outros dois. Sua corrida era mais agressiva do que a dos outros, como um guepardo atrás de uma gazela, mas ainda ágil e emocionantemente linda.
Ela rapidamente os alcançou e ultrapassou.
— Vamos assistir? — perguntou Earnest com sua voz suave de tenor.
Percebi que estava olhando todos eles boquiaberto. Rapidamente recompus minha expressão e assenti. Earnest mantinha uma distância entre nós maior do que o normal para duas pessoas andando juntas, e achei que ainda estava tomando cuidado para não me assustar.
Ele acompanhou meus passos sem aparentar impaciência com meu ritmo.
— Você não joga com eles? — perguntei.
— Não, prefiro fazer a arbitragem. Gosto de mantê-los honestos.
— Eles trapaceiam?
— Ah, sim. Você devia ouvir as discussões em que se metem! Na verdade, espero que não ouça, você pensaria que foram criados por uma matilha de lobos.
— Você parece meu pai — falei, e ri.
Ele também riu.
— Bem, eu os vejo como meus filhos de muitas maneiras. Jamais consegui superar... Edythe lhe contou que perdi minha filha?
— Er, não — murmurei, atordoado, tentando entender de que vida ele estava se lembrando.
— Minha única filha, minha Grace. Não tinha nem dois anos quando morreu. Isso me destruiu. Foi por essa razão que pulei do penhasco, sabe — acrescentou ele calmamente.
— Ah, hã, Edythe disse que você caiu...
— Sempre tão educada. — Earnest sorriu. — Edythe foi a primeira dos meus novos filhos. Minha segunda filha. Sempre pensei nela desta forma, embora ela seja mais velha do que eu, pelo menos de certa maneira. E sempre me perguntei se minha Grace teria se tornado uma pessoa tão incrível. — Ele olhou para mim e sorriu calorosamente. — Estou muito feliz que ela tenha encontrado você, Beau. Ela está sozinha há muito tempo. Dói em mim vê-la tão só.
— Não se importa, então? — perguntei, hesitante de novo. — Que eu seja... completamente errado para ela?
— Não — disse ele, pensativo. — É você o que ela quer. Vai dar certo, de algum jeito. — Mas sua testa se franziu de preocupação.
Começou outro estrondo de trovão.
Earnest parou então; aparentemente, tínhamos chegado à beira do campo. Parecia que tinham formado equipes. Edythe estava à esquerda, Carine, entre a primeira e a segunda bases, e Archie segurava a bola, posicionado no local que devia ser o montinho do lançador.
Eleanor girava um bastão de alumínio; sibilava quase invisível no ar. Esperei que se aproximasse da base do batedor, mas depois percebi, enquanto ela assumia a posição, que já estava lá – mais distante do lançador do que eu achava possível. Jessamine estava vários metros atrás dela, pegando para a outra equipe. É claro que nenhum deles estava usando luvas.
— Tudo bem — gritou Earnest numa voz clara, que eu sabia que até Edythe podia ouvir, embora estivesse muito longe. — Podem bater.
Archie se endireitou, imóvel como uma estátua. Seu estilo parecia ser cauteloso, e não um movimento circular intimidador. Ele segurava a bola com as duas mãos à altura da cintura e depois, como o bote de uma cobra, a mão direita voou e a bola bateu na mão de Jessamine. Com o som de um tiro.
— Foi um strike? — sussurrei para Earnest.
— Se não rebaterem, é strike — explicou ele.
Jessamine devolveu a bola à mão de Archie, que aguardava. Ele se permitiu um sorriso breve. E então, sua mão girou novamente.
Dessa vez, o bastão de algum jeito conseguiu girar a tempo de se chocar na bola invisível. O som do impacto foi estilhaçante, trovejante; ecoou nas montanhas, e imediatamente entendi a necessidade da tempestade.
Quase não consegui acompanhar a bola, que voava como um meteoro acima do campo e voava fundo na floresta ao redor.
— Home run — murmurei.
— Espere — disse Earnest.
Ele estava ouvindo com atenção, a mão erguida. Eleanor era um borrão pelas bases, Carine lhe fazia sombra. Percebi que Edythe tinha sumido.
— Fora! — gritou Earnest.
Olhei, sem acreditar, enquanto Edythe disparava da margem das árvores, a bola na mão erguida, o sorriso grande visível até para mim.
— Eleanor é quem bate com mais força — explicou Earnest — mas Edythe é a que corre mais rápido.
Era como ver super-heróis jogando. Era impossível acompanhar a velocidade com que a bola voava, o ritmo de seus corpos disparando pelo campo.
Entendi outro motivo para que eles esperassem uma tempestade com trovões para jogar quando Jessamine, tentando evitar a infalível defesa de Edythe, bateu uma bola para Carine. Carine correu para a bola e competiu com Jessamine para chegar à primeira base. Quando elas se chocaram, o som foi como o esmagar da queda de duas pedras enormes. Pulei de preocupação, mas elas de algum modo estavam ilesas.
— Salva — gritou Earnest numa voz calma.
O time de Eleanor vencia por um ponto, pois Royal conseguiu flutuar pelas bases depois de seguir um dos longos voos de Eleanor, quando Edythe pegou a terceira bola fora. Ela correu para o meu lado, sorrindo de empolgação.
— O que está achando? — perguntou.
— De uma coisa eu tenho certeza, nunca mais vou conseguir ficar sentado vendo um jogo da liga principal de beisebol.
— Até parece que você já fez muito isso. — Ela riu.
— Estou meio decepcionado — provoquei.
— Por quê?
— Bom, seria ótimo se eu pudesse encontrar só uma coisa em que você não seja melhor do que todo mundo do planeta.
Ela exibiu as covinhas, deixando-me sem fôlego.
— Estou pronta — disse ela, indo para a base.
Ela jogava com inteligência, mantendo a bola baixa, fora do alcance da mão sempre preparada de Royal, conquistando duas bases como um raio antes que Eleanor pudesse recolocar a bola em jogo. Carine bateu uma tão longe do campo, com uma explosão que feriu meus ouvidos, que tanto ela quanto Edythe chegaram na bola.
Archie os cumprimentou com tapas na mão.
O placar mudava constantemente com o decorrer do jogo, e eles implicavam uns com os outros como jogadores de rua enquanto se alternavam na liderança. De vez em quando, Earnest chamava a atenção deles. Os trovões continuaram ribombando, mas ficamos secos, como Archie havia previsto.
Carine estava com o bastão, Edythe pegando, quando Archie de repente ofegou. Meus olhos estavam em Edythe, como sempre, e vi sua cabeça virar para olhá-lo.
Os olhos dos dois se encontraram e alguma coisa fluiu entre eles em um segundo. Ela estava ao meu lado antes que os outros pudessem perguntar a Archie o que havia de errado.
— Archie? — perguntou Earnest, tenso.
— Eu não vi — sussurrou Archie. — Não sabia.
Todos estavam reunidos a essa altura.
Carine estava calma e autoritária.
— O que é, Archie?
— Eles estavam viajando muito mais rápido do que eu pensava. Posso ver que tive a perspectiva errada antes — murmurou ele.
Jessamine passou o braço ao redor dele, a postura protetora.
— O que mudou? — perguntou ela.
— Eles nos ouviram jogando, e isso alterou seu rumo — disse Archie, pesaroso, como se se sentisse responsável pelo que aconteceu.
Sete pares de olhos rápidos dispararam para mim e se desviaram.
— Quanto tempo? — perguntou Carine.
Um olhar de concentração intensa atravessou seu rosto.
— Menos de cinco minutos. Estão correndo. Querem jogar. — Ela fechou a cara.
— Acha que consegue? — perguntou Carine a Edythe, os olhos disparando para mim de novo.
— Não, não carregando... — Edythe se interrompeu. — Além disso, a última coisa de que precisamos é que eles sintam o cheiro e comecem a caçar.
— Quantos? — perguntou Eleanor a Archie.
— Três.
— Três! — zombou ela. — Que venham. — Os músculos se flexionaram em seus braços.
Por uma fração de segundo que pareceu muito maior do que era, Carine refletiu. Só Eleanor parecia relaxada; os demais fitavam Carine com os olhos ansiosos.
— Vamos continuar o jogo — decidiu por fim Carine. Sua voz estava fria e inalterada. — Archie disse que estavam simplesmente curiosos.
A conversa toda durou apenas alguns segundos, mas eu ouvi com atenção e achava que tinha captado a maior parte dela. Não consegui ouvir o que Earnest agora perguntava a Edythe só com um olhar intenso. Só vi o leve tremor na cabeça dela e o olhar de alívio no rosto dele.
— Você pega, Earnest — disse ela. — Agora eu sou a juíza.
Ela parou ao meu lado enquanto os outros voltavam ao campo, varrendo a floresta com os olhos intensos. Archie e Earnest pareciam orientados para onde eu estava.
Eu declarei o óbvio.
— Os outros estão chegando agora.
— Sim, fique muito parado, quieto e não saia do meu lado, por favor. — Consegui ouvir o nervosismo em sua voz, apesar de ela tentar esconder.
— Isso não vai ajudar — murmurou Archie. — Posso sentir o cheiro dele do outro lado do campo.
— Eu sei — disse Edythe rispidamente.
Carine se posicionou na base, e os outros se juntaram ao jogo sem muita disposição.
— O que Earnest perguntou a você? — sussurrei.
Ela hesitou por um segundo antes de responder.
— Se eles estavam com sede.
Os segundos se arrastaram enquanto o jogo continuava, agora de forma apática. Ninguém ousava rebater com força, e Eleanor, Royal e Jessamine pairavam pelo campo.
De vez em quando, eu percebia os olhos de Royal em mim. Estavam inexpressivos, mas alguma coisa em sua boca me fazia pensar que estava com raiva.
Edythe não prestou atenção ao jogo, os olhos e a mente vagando pela floresta.
— Desculpe, Beau — murmurou com ferocidade. — Foi idiotice, uma irresponsabilidade, expor você desta forma. Desculpe-me.
Ouvi sua respiração parar e os olhos estacaram no lado direito do campo. Ela deu um meio passo, postando-se entre mim e o que estava chegando. Isso me fez começar a entrar em pânico, como antes, imaginando-a entre mim e Royal: Edythe em perigo. Eu tinha certeza de que o que estava chegando agora era pior do que Royal.

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