16 de janeiro de 2016

Capítulo 16 - Carine

Ela me levou ao cômodo que me apontara como o escritório de Carine. Parou do lado de fora da porta por um instante.
— Entrem — convidou Carine lá de dentro.
Edythe abriu a porta de um cômodo de pé-direito alto com janelas longas que ocupavam toda a altura das paredes. Havia estantes até o teto em todos os lados, com mais livros do que eu já vira fora de uma biblioteca.
Carine estava sentada atrás de uma enorme mesa, colocando um marcador nas páginas de um livro que segurava. A sala era como sempre imaginei que seria um gabinete de reitor de universidade, só que Carine parecia jovem demais para o papel.
Saber tudo pelo que ela passou, depois de ter assistido na minha imaginação, mesmo tendo noção de que minha imaginação não era suficiente e que tudo devia ter sido bem pior do que visualizei, acabou me fazendo olhar para ela de um jeito diferente.
— O que posso fazer por vocês? — perguntou ela com um sorriso, levantando-se.
— Eu queria mostrar a Beau um pouco da nossa história — disse Edythe. — Bom, da sua história, na verdade.
— Não queríamos incomodá-la — falei, me desculpando.
— De forma alguma — disse ela para mim. E, para Edythe: — Por onde vai começar?
— Pelo cocheiro — respondeu Edythe. Ela me girou para ficarmos de frente para a porta pela qual tínhamos entrado.
Aquela parede era diferente das outras. Em vez de ter uma estante, era abarrotada de dezenas e dezenas de quadros emoldurados. Eram todos de tamanhos e estilos diferentes, alguns monocromáticos e opacos, outros de cores vibrantes. Procurei alguma lógica, alguma coisa que todos tivessem em comum, mas não consegui encontrar ligação.
Edythe me puxou para o canto esquerdo, colocou as mãos nos meus braços e me posicionou diante de um dos quadros. Meu coração reagiu da forma que sempre reagia quando ela tocava em mim, mesmo do jeito mais casual. Era mais constrangedor sabendo que Carine também era capaz de ouvir.
O quadro que ela queria que eu visse era uma pequena tela quadrada em uma moldura de madeira simples; não se destacava entre as peças maiores e mais brilhantes. Pintada em tons de sépia, retratava uma pequena cidade cheia de telhados escarpados. Um rio largo enchia o fundo, atravessado por uma ponte coberta de estruturas que pareciam pequenas catedrais.
— Londres nos anos 1650 — disse Edythe.
— A Londres da minha juventude — acrescentou Carine, a pouca distância de nós.
Eu levei um pequeno susto; não havia ouvido sua aproximação. Edythe segurou minha mão e apertou de leve.
— Você pode contar a história? — pediu Edythe.
Eu me virei para ver a reação de Carine.
Ela encontrou meu olhar e sorriu.
— Eu contaria, mas estou um pouco atrasada. O hospital ligou esta manhã. O Dr. Snow tirou o dia de licença. Mas Beau não vai perder nada. — Ela sorriu para Edythe agora. — Você conhece as histórias tão bem quanto eu.
Era uma estranha associação a ser assimilada, a rotina de uma médica de cidade pequena no meio de uma discussão do começo de sua vida na Londres do século XVII. Também era inquietante perceber que ela só devia estar falando em voz alta para que eu pudesse ouvir.
Com outro sorriso caloroso, Carine saiu da sala.
Olhei a pequena tela da cidade natal dela por um longo momento.
— O que aconteceu depois? — perguntei, de novo. — Quando ela percebeu o que havia lhe ocorrido?
Ela me fez andar meio passo, com os olhos em uma paisagem maior. Foi toda pintada em cores de outono e mostrava uma campina vazia em uma floresta sombria, com o pico de uma montanha negra à distância.
— Quando ela entendeu no que tinha se transformado — disse Edythe, em voz baixa — entrou em desespero... e se rebelou. Tentou destruir a si mesma. Mas não é tão fácil fazer isso.
— Como? — Eu não queria dizer isso em voz alta, mas a palavra saiu devido a meu choque.
Edythe deu de ombros.
— Ela pulou de grandes alturas. Tentou se afogar no mar. Mas era jovem na nova vida, e muito forte. É incrível que tenha conseguido resistir... a se alimentar... enquanto ainda era tão nova. O instinto é mais forte nesse período, controla tudo. Mas ela sentia tanta repulsa de si mesma que teve forças para tentar se matar de inanição.
— Isso é possível? — perguntei, baixinho.
— Não, há poucas maneiras de nos matar.
Abri a boca para perguntar, mas antes disso ela falou.
— Então ela ficou com muita sede e por fim enfraqueceu. Afastou-se o máximo que pôde dos humanos, reconhecendo que sua força de vontade também se enfraquecia. Durante meses, vagou à noite, procurando os lugares mais solitários, abominando a si mesma.
“Numa noite, um bando de cervos passou por seu esconderijo. Ela estava tão louca de sede que atacou sem pensar. Sua força voltou, e ela percebeu que havia uma alternativa a ser a monstra vil que temia. Já não tinha comido carne de veado na vida anterior? Nos meses seguintes, nasceu sua nova filosofia. Ela podia existir sem ser um demônio. Ela se reencontrou.
“Começou a fazer melhor uso de seu tempo. Ela sempre foi inteligente, ansiosa por aprender. Agora, tinha um tempo ilimitado diante de si. Estudava à noite, planejava durante o dia. Nadou até a França e...
— Ela nadou até a França?
— As pessoas atravessam o canal a nado o tempo todo, Beau — lembrou-me ela, pacientemente.
— Acho que é verdade. Só pareceu engraçado no contexto. Continue.
— Nadar é fácil para nós...
— Tudo é fácil para vocês — provoquei.
Ela esperou com as sobrancelhas erguidas.
— Desculpe. Não vou interromper de novo, eu prometo.
Ela deu um sorriso sombrio e terminou a frase.
— Porque, tecnicamente, não precisamos respirar.
— Vocês...
— Não, não, você prometeu. — Ela riu, colocando o dedo de leve sobre meus lábios. — Quer ouvir a história ou não?
— Você não pode jogar uma coisa dessas em mim e depois esperar que eu não diga nada — murmurei, contra o dedo dela.
Ela levantou a mão e colocou no meu pescoço. A velocidade do meu coração reagiu, mas eu ignorei.
— Você não precisa respirar? — perguntei.
— Não, não é necessário. É só um hábito. — Ela deu de ombros.
— Quanto tempo você pode ficar... sem respirar?
— Indefinidamente, imagino; não sei. É um tanto desconfortável... ficar sem o olfato.
— Um tanto desconfortável — repeti.
Eu não estava prestando atenção à minha própria expressão, mas alguma coisa nela a deixou mais séria. Ela baixou a mão até a lateral do corpo e ela ficou imóvel, observando meu rosto. O silêncio se prolongou. Suas feições viraram pedra.
— Que foi? — sussurrei, tocando seu rosto congelado.
O rosto dela voltou à vida, e ela deu um sorrisinho fraco.
— Sei que, a certa altura, algo que direi a você ou algo que você verá será demais. E você vai fugir de mim, aos gritos. — O sorriso sumiu. — Não vou impedi-lo quando acontecer. Quero que aconteça, porque quero que você fique em segurança. E, no entanto, quero ficar com você. É impossível conciliar os dois desejos... — Ela hesitou e ficou olhando meu rosto.
— Não vou fugir para lugar nenhum — prometi.
— Veremos — disse ela, sorrindo novamente.
Eu franzi a testa.
— Voltando à história: Carine estava nadando para a França.
Ela parou, voltando para sua história. Por reflexo, seus olhos passaram a outro quadro, o mais colorido de todos, o de moldura mais ornamentada e o maior; tinha duas vezes a largura da porta ao lado da qual pendia. A tela transbordava de figuras de cores vivas em mantos rodopiantes, em volta de pilares longos e em sacadas de mármore. Eu não sabia se representavam a mitologia grega, ou se os personagens que flutuavam nas nuvens do alto deviam ser bíblicos.
— Carine nadou para a França e continuou pela Europa, nas universidades de lá. À noite estudava música, ciências, medicina... e descobriu sua vocação, sua penitência, isto é, salvar vidas humanas. — Sua expressão tornou-se reverente. — Não consigo descrever adequadamente a luta; Carine levou dois séculos de esforço torturante para aperfeiçoar o autocontrole. Agora, ela é imune inclusive ao cheiro de sangue humano e é capaz de fazer o trabalho que ama sem nenhum sofrimento. Ela encontra muita paz lá, no hospital...
Edythe olhou ao longe por um longo momento. De repente, pareceu se lembrar da história. Bateu o dedo na tela enorme diante de nós.
— Ela estava estudando na Itália quando descobriu os outros lá. Eram muito mais civilizados e mais instruídos do que os espectros dos esgotos de Londres.
Ela apontou para um grupo comparativamente sereno de figuras pintadas na sacada mais alta, olhando calmamente para o tumulto abaixo. Examinei o grupo com cuidado e percebi, com um riso de sobressalto, que reconheci a mulher de cabelo dourado mais para o lado.
— Solimena foi muito inspirado pelos amigos de Carine. Em geral, os pintava como deuses. — Edythe riu. — Sulpicia, Marcus e Athenodora — disse ela, indicando os outros três. — Os patronos noturnos das artes.
A primeira mulher e o homem tinham cabelo preto, a segunda mulher era pálida e loura. Todos usavam roupas muito coloridas, enquanto Carine estava pintada de branco.
— E aquela? — perguntei, apontando para uma garota pequena e comum com cabelo e roupas castanho-claros. Estava de joelhos, agarrada às saias da outra mulher, a que tinha cachos pretos elaborados.
— Mele — disse ela. — Uma... serva, acho que podemos chamar assim. A ladrazinha de Sulpicia.
— O que aconteceu com eles? — perguntei alto, a ponta do meu dedo pairando a um centímetro das figuras na tela.
— Ainda estão lá. — Ela deu de ombros. — Como sempre, por milênios. Carine ficou com eles apenas por um breve tempo, só algumas décadas. Ela admirava sua civilidade, seu refinamento, mas eles insistiam em tentar curar sua aversão à sua fonte natural de alimento, como diziam. Tentaram convencê-la, e ela tentou persuadi-los, sem proveito algum. Carine acabou decidindo tentar o Novo Mundo. Sonhava encontrar outros iguais a ela. Estava muito solitária, sabe.
“Não encontrou ninguém por um bom tempo. Mas, à medida que os monstros se tornavam tema de contos de fadas, ela descobriu que podia interagir com humanos alheios como se fosse um deles. Começou a trabalhar como enfermeira; embora seu aprendizado e habilidade fossem maiores do que dos cirurgiões da época, como mulher, ela não podia ser aceita no papel. Fazia o que podia para salvar pacientes de médicos menos capazes quando ninguém estava olhando. Mas, embora trabalhasse com humanos, a companhia pela qual ansiava lhe escapava; ela não podia se arriscar à familiaridade.
“Quando a epidemia de gripe atacou, ela trabalhava à noite em um hospital de Chicago. Revirava na mente uma ideia havia muitos anos, e quase decidira agir: como não conseguia encontrar uma companhia, criaria uma. Ela não sabia direito que partes da sua transformação eram necessárias e quais foram por prazer do criador sádico, então ficou hesitante. E relutava em roubar a vida de alguém como a sua fora roubada. Foi nesse contexto mental que ela me encontrou. Não havia esperanças para mim; fui largada em uma enfermaria com os moribundos. Ela tinha cuidado dos meus pais e sabia que eu estava só. Decidiu tentar...
Sua voz, agora quase um sussurro, falhou. Ela olhou sem ver as janelas altas. Perguntei-me que imagens lhe enchiam a mente agora, as lembranças de Carine ou as suas próprias. Esperei.
Ela se virou para mim com um sorriso delicado.
— E assim, voltamos ao presente.
— Então sempre ficou com Carine?
— Quase sempre.
Ela segurou minha mão de novo e me puxou para o corredor. Olhei para trás, para os quadros que não conseguia mais ver, perguntando-me se um dia ouviria as outras histórias.
Ela não disse mais nada enquanto andávamos pelo corredor, então eu perguntei:
— Quase?
Edythe suspirou, repuxou os lábios e olhou para mim com o canto de olho.
— Você não quer responder isso, quer? — indaguei.
— Não foi minha melhor época.
Começamos a subir outro lanço de escadas.
— Você pode me contar qualquer coisa.
Ela parou quando chegamos ao topo da escada e olhou nos meus olhos por alguns segundos.
— Acho que devo isso a você. Você precisa saber quem eu sou.
Tive a sensação de que o que ela estava dizendo agora tinha ligação direta com o que dissera antes, sobre eu sair correndo e gritando. Recompus o rosto e me preparei com cuidado.
Ela respirou fundo.
— Tive um ataque típico de rebeldia adolescente, uns dez anos depois que eu... nasci... fui criada, como quiser chamar. Não concordava com a vida de abstinência de Carine e me ressentia dela por restringir meu apetite. Então... me afastei para ficar sozinha por algum tempo.
— É mesmo? — Isso não me chocou como ela achava que chocaria. Só me deixou mais curioso.
— Isso não lhe dá repulsa?
— Não.
— E por que não?
— Acho que... parece lógico.
Ela soltou uma risada intensa e saiu me puxando de novo, por um corredor parecido com o de baixo, andando devagar.
— Desde a época do meu novo nascimento, tive a vantagem de saber o que todos em volta de mim pensavam, tanto humanos como não humanos. Foi por isso que precisei de dez anos para desafiar Carine. Eu conseguia ler sua sinceridade total, entender exatamente por que vivia daquela maneira.
“Precisei de poucos anos para voltar para Carine e me comprometer novamente com seu modo de viver. Pensei que estaria isenta da... depressão... que acompanha a consciência. Como eu sabia dos pensamentos das minhas presas, podia descartar os inocentes e perseguir somente os maus. Se eu seguisse um assassino por uma viela escura, onde ele atacaria uma jovem, e a salvasse, certamente eu não seria tão horrível.
Tentei imaginar o que ela descreveu. Como ela estaria ao sair silenciosa e pálida das sombras? O que o assassino pensaria quando a visse, perfeita, linda, mais do que humana? Perceberia que deveria sentir medo?
— Mas, à medida que o tempo passava, comecei a ver o monstro em meus olhos. Não podia escapar da dívida de tantas vidas humanas roubadas, mesmo sendo justificado. E voltei para Carine e Earnest. Eles me receberam de volta como a filha pródiga. Era mais do que eu merecia.
Paramos diante da última porta do corredor.
— Meu quarto — disse ela, abrindo-a e me puxando para dentro.
O quarto dava para o sul, com uma janela de parede inteira, como o salão embaixo. Toda a parte dos fundos da casa devia ser de vidro. A vista do quarto dava para o rio largo e sinuoso, que concluí que devia ser o Sol Duc, e para o outro lado da floresta intocada até a cadeia de montanhas Olympic. As montanhas ficavam muito mais perto do que eu achava.
A parede oeste era completamente coberta de prateleiras de CDs. O quarto era mais bem abastecido do que uma loja de música. No canto havia um aparelho de som sofisticado, do tipo que eu tinha medo de tocar porque tinha certeza de que quebraria alguma coisa. Não havia cama, só um grande sofá de couro preto. O chão era coberto de um tapete dourado grosso, e as paredes eram forradas com um tecido pesado num tom um pouco mais escuro.
— Acústica boa? — deduzi.
Ela riu e concordou.
Pegou um controle remoto e ligou o aparelho de som. Estava baixo, mas o jazz suave dava a impressão de que a banda estava no quarto conosco. Fui olhar a estonteante coleção de música.
— Como organiza tudo? — perguntei, incapaz de encontrar uma ordem nos títulos.
— Hmmm, por ano, e depois por preferência pessoal dentro dessa categoria — disse ela, distraída.
Eu me virei, e ela estava olhando para mim com uma expressão que não consegui identificar.
— Que foi?
— Eu estava preparada para sentir... alívio. Você, sabendo de tudo, sem que eu precise guardar segredos. Mas não esperava sentir mais do que isso. Gosto disso. Me faz... feliz. — Ela deu de ombros e sorriu.
— Que bom — falei, sorrindo também.
Estava com medo de que ela se arrependesse de me contar aquelas coisas. Era bom saber que não era o caso. Mas então, enquanto seus olhos dissecavam minha expressão, o sorriso desapareceu e sua testa se enrugou.
— Você ainda está esperando que eu fuja aos gritos, não é? — perguntei.
Ela assentiu, lutando contra um sorriso.
— Odeio romper sua bolha, mas você não é tão assustadora quanto pensa. Não consigo imaginar sentir medo de você — falei, casualmente.
Ela ergueu as sobrancelhas, e um sorriso lento começou a se espalhar em seu rosto.
— Você não devia ter dito isso — disse ela.
E ela rosnou, um som baixo do fundo da garganta, que não pareceu nada humano. Seu sorriso cresceu até virar uma exibição de dentes. Seu corpo mudou, ela ficou meio agachada, as costas esticadas e curvadas, como um felino prestes a atacar.
— Hã... Edythe?
Eu não a vi atacar, foi rápido demais. Não consegui nem entender o que estava acontecendo. Por meio segundo, fiquei no ar, e o quarto girou ao meu redor, ficando de cabeça para baixo e voltando para a posição normal. Não senti o pouso, mas de repente eu estava de costas no sofá preto e Edythe estava em cima de mim, com os joelhos nos meus quadris e as mãos dos dois lados da minha cabeça, de forma que eu não conseguisse me mexer. Os dentes à mostra estavam a centímetros do meu rosto. Ela fez outro barulho baixo que era algo entre um rosnado e um ronronar.
— Uau — sussurrei.
— O que você estava dizendo? — perguntou ela.
— Hã, que você é um monstro muito, muito apavorante?
Ela sorriu.
— Bem melhor.
— E que estou completamente apaixonado por você.
O rosto dela se suavizou, os olhos se arregalaram e as defesas despencaram de novo.
— Beau — sussurrou ela.
— Podemos entrar? — perguntou uma voz suave no corredor.
Eu me encolhi e teria batido com a testa na de Edythe se ela não fosse tão mais rápida do que eu. Em outra fração de segundo, ela me puxou para que eu ficasse sentado no sofá com ela ao meu lado, as pernas sobre as minhas.
Archie estava na porta, com Jessamine atrás, no corredor. Meu pescoço começou a ficar vermelho, mas Edythe estava totalmente relaxada.
— Entrem — disse ela para Archie.
Archie pareceu não ter reparado que estávamos fazendo alguma coisa de incomum. Andou até o meio do quarto e se sentou no chão com um movimento tão gracioso que foi meio surreal. Jessamine ficou na porta e, ao contrário de Archie, parecia meio chocada. Ficou olhando para o rosto de Edythe, e eu me perguntei que sensação captava no quarto.
— Parecia que você estava almoçando o Beau — disse Archie — e viemos ver se podíamos dividir.
Eu enrijeci até ver Edythe sorrir, embora não conseguisse saber se por causa do comentário de Archie ou da minha reação.
— Desculpe — respondeu ela, passando um braço possessivo pelo meu pescoço. — Não estou a fim de dividir.
Archie deu de ombros.
— Tudo bem.
— Na verdade — disse Jessamine, dando um passo hesitante para dentro do quarto — Archie disse que vai haver uma tempestade esta noite, e Eleanor quer jogar bola. Está dentro?
As palavras eram bem comuns, mas o contexto me confundiu. No entanto, parecia que Archie era um pouco mais confiável do que o meteorologista.
Os olhos de Edythe se iluminaram, mas ela hesitou.
— É claro que deve trazer Beau — disse Archie.
Pensei ter visto Jessamine lançar um olhar rápido para ele.
— Quer ir? — perguntou Edythe. Sua expressão estava tão ansiosa que eu teria concordado com qualquer coisa.
— Claro. Hã, aonde vamos?
— Precisamos esperar os trovões para jogar bola. Você verá por quê — prometeu ela.
— Devo levar um guarda-chuva?
Todos riram alto.
— Deve? — perguntou Jessamine a Archie.
— Não. — Archie pareceu seguro. — A tempestade vai cair na cidade. Vai estar seco o bastante na clareira.
— Que bom — disse Jessamine, e o entusiasmo na voz dela foi contagiante, naturalmente.
Eu me vi ansioso com a ideia, apesar de nem saber qual era.
— Vamos ligar para Carine e ver se ela está dentro — disse Archie, se levantando em outro movimento fluido que tive que ficar olhando.
— Como se você não soubesse — brincou Jessamine, e eles saíram.
— E então... o que vamos jogar? — perguntei.
— Você vai assistir — esclareceu Edythe. — Nós vamos jogar beisebol.
Olhei para ela com ceticismo.
— Vampiros gostam de beisebol?
Ela sorriu para mim.
— É o típico passatempo americano.

Um comentário:

  1. Amei. Amo a forma como tudo está ocorrendo desta nova perspectiva.
    PS: Acho muito fofo ♥

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