16 de janeiro de 2016

Capítulo 15 - Os Cullen

A luz sufocada de outro dia nublado acabou me acordando. Fiquei deitado com o braço nos olhos, grogue e confuso. Algo, um sonho tentando ser lembrado, lutava para irromper em minha consciência. Eu gemi e rolei de lado, esperando que o sono voltasse. Mas o dia anterior inundou minha consciência.
— Ah! — Sentei-me tão rápido que minha cabeça girou.
— Seu cabelo tem a capacidade de desafiar a gravidade — a voz divertida vinha da cadeira de balanço no canto. — É como se fosse um superpoder só seu.
Automaticamente, levantei a mão para ajeitar o cabelo.
Ela estava sentada de pernas cruzadas na cadeira, com o sorriso perfeito no rosto perfeito.
— Você ficou. — Parecia que eu não tinha acordado, afinal.
— É claro. Era o que você queria, certo?
Eu assenti. Ela deu um sorriso maior.
— Era o que eu queria também.
Cambaleei para fora da cama, sem saber aonde ia, só que precisava chegar mais perto dela, que me esperou, e não houve surpresa no rosto dela quando me ajoelhei à sua frente. Estiquei a mão lentamente e coloquei a palma na lateral do rosto dela. Ela se inclinou na direção da minha mão, fechando os olhos.
— E Charlie? — perguntei. Nós dois estávamos falando em um volume normal.
— Ele saiu há uma hora, com uma quantidade absurda de equipamentos.
Ele ficaria fora o dia todo. Então só estávamos eu e Edythe, em uma casa vazia, sem necessidade de ir a lugar nenhum. Tanto tempo. Eu me sentia como um velho avarento maluco, vibrando com suas pilhas de moedas de ouro, só que, em vez de moedas, eram segundos que eu acumulava.
Só nessa hora, percebi que ela tinha mudado de roupa. Em vez do top de alcinhas, estava com um suéter pêssego.
— Você saiu? — perguntei.
Ela abriu os olhos e sorriu, levantando uma das mãos para manter a minha em seu rosto.
— Não podia sair com as roupas com que eu vim. O que os vizinhos iam pensar? De qualquer modo, fiquei fora só alguns minutos, e você estava dormindo profundamente na hora, então não perdi nada.
Eu grunhi.
— O que eu disse?
Seus olhos ficaram um pouco mais agitados e seu rosto, mais vulnerável.
— Você disse que me amava — sussurrou ela.
— Você já sabia disso.
— Mas ouvir as palavras foi diferente.
Eu olhei nos olhos dela.
— Eu te amo — falei.
Ela se inclinou e apoiou a testa com cuidado na minha.
— Agora, você é a minha vida.
Ficamos sentados assim por muito tempo, até que meu estômago roncou. Ela se empertigou e riu.
— A humanidade é tão supervalorizada — reclamei.
— Devemos começar com o café da manhã?
Coloquei a mão na jugular e arregalei os olhos.
Ela se encolheu; depois, apertou os olhos e fez cara feia.
Eu ri.
— Pare com isso, você sabe que foi engraçado.
Ela ainda estava de cara feia.
— Eu discordo. Devo reformular? É hora do café da manhã para o humano.
— Tudo bem. Preciso de outro minuto humano primeiro, se você não se importa.
— Claro.
— Fique.
Ela sorriu.
Eu escovei os dentes duas vezes de novo, depois tomei um banho correndo. Passei um pente no cabelo molhado para tentar fazê-lo ficar no lugar, mas fui solenemente ignorado. E aí, percebi a besteira. Eu tinha me esquecido de levar as roupas.
Hesitei por um minuto, mas estava impaciente demais para ficar muito tempo em pânico. Não tinha jeito. Prendi a toalha na cintura e andei pelo corredor com o rosto vermelho. Melhor ainda, o vermelho no meu peito também estava exposto. Coloquei a cabeça pelo batente da porta.
— Hã...
Ela ainda estava na cadeira de balanço. E riu da minha cara.
— Devemos nos encontrar na cozinha, então?
— Sim, por favor.
Ela passou por mim em um sopro de ar frio e desceu a escada antes de um segundo se passar. Eu mal consegui seguir o movimento; ela foi só uma mancha de cor clara e depois, nada.
— Obrigado — falei para o nada e corri até a cômoda.
Eu sabia que devia pensar no que vestir, mas estava com pressa para descer. Mas me lembrei de pegar um casaco, para ela não se preocupar de eu sentir frio. Passei os dedos pelo cabelo para ajeitar de novo e desci a escada correndo.
Ela estava encostada na bancada, parecendo sentir-se em casa.
— O que tem para o café? — perguntei.
Isso a abalou por um minuto. Ela uniu as sobrancelhas.
— Não sei bem... O que você quer?
Eu ri.
— Tudo bem, eu me viro bem sozinho. Você pode me olhar caçar.
Peguei uma tigela e uma caixa de cereal. Ela voltou para a cadeira onde se sentou na noite anterior e ficou me olhando servir o leite e pegar uma colher. Coloquei a comida na mesa e parei. O espaço vazio na frente dela na mesa fez com que eu me sentisse grosseiro.
— Hã, posso... lhe servir alguma coisa?
Ela revirou os olhos.
— Apenas coma, Beau.
Sentei à mesa, observando-a enquanto começava a comer. Ela me fitava, analisando cada movimento. Isso me deixou constrangido. Engoli para falar, querendo distraí-la.
— Tem alguma programação para hoje?
— Talvez — disse ela. — Depende se você vai gostar ou não da minha ideia.
— Eu vou gostar — prometi ao comer uma segunda colherada.
Ela repuxou os lábios.
— O que diria de conhecer minha família?
Eu engasguei com o cereal.
Ela deu um pulo, com uma das mãos esticada na minha direção inutilmente, provavelmente pensando que poderia esmagar meus pulmões se tentasse fazer a manobra de Heimlich. Balancei a cabeça e fiz sinal para ela se sentar enquanto eu tossia para desengasgar.
— Estou bem, estou bem — eu disse quando consegui falar.
— Por favor, não faça isso comigo de novo, Beau.
— Desculpe.
— Talvez seja melhor conversarmos depois que você acabar de comer.
— Tudo bem. Preciso mesmo de um minuto.
Ela estava falando sério. E eu já tinha mesmo conhecido Archie, e nem foi tão ruim. E a Dra. Cullen também. Mas foi antes de eu saber que a Dra. Cullen era uma vampira, o que mudava as coisas. E, apesar de eu ter conhecido Archie, eu não sabia se ele tinha consciência de que eu sabia, e me parecia uma diferença importante. Além do mais, Archie era o mais favorável, de acordo com Edythe. Havia outros que não eram tão generosos.
— Eu finalmente consegui — murmurou ela quando engoli o restinho do cereal e afastei a tigela.
— Conseguiu o quê?
— Deixar você com medo.
Pensei nisso por um momento, levantei a mão com os dedos abertos e balancei de um lado para o outro, o símbolo internacional do mais ou menos.
— Eu não deixaria ninguém machucar você — garantiu ela.
Mas isso só me fez ter mais medo de que alguém, Royal, fosse querer me machucar, e que ela fosse ter que entrar no meio para me salvar. Eu não me importava com o que ela dizia sobre cuidar dos que lhe pertenciam e não lutar de forma justa, a ideia realmente me apavorava.
— Ninguém tentaria, Beau. Foi brincadeira.
— Não quero causar problemas. Eles sabem que eu sei?
Ela revirou os olhos.
— Ah, eles já sabem de tudo. Não é muito fácil guardar segredos na minha casa considerando nossos truques variados. Archie já tinha visto que era uma possibilidade você dar uma passada lá.
Consegui sentir uma variedade de expressões surgindo no meu rosto antes de conseguir me controlar. O que Archie viu? Ontem... a noite de ontem... Meu rosto ficou quente.
Eu a vi apertar os olhos da forma que fazia quando estava tentando ler meus pensamentos.
— Só estava pensando no que Archie pode ter visto — expliquei antes que ela pudesse perguntar.
Ela assentiu.
— Pode parecer invasivo. Mas ele não faz de propósito. E vê tantas possibilidades diferentes... que não sabe qual vai acontecer. Por exemplo, ele viu mais de cem jeitos diferentes para como o dia de ontem poderia ter sido, e você sobrevivia em setenta e cinco por cento deles. — A voz dela ficou dura na última parte, a postura rígida. — Eles apostaram, sabe, se eu mataria você.
— Ah.
A expressão dela continuou rígida.
— Quer saber quem achou que sim e quem achou que não?
— Hã, acho que não. Me conte depois que eu conhecer todo mundo. Não quero ir com preconceito.
A surpresa apagou a raiva do olhar dela.
— Ah. Então você vai?
— Parece... a coisa respeitável a se fazer. Não quero que pensem que sou obscuro.
Ela deu uma gargalhada longa como o tinir de um sino.
Não consegui evitar um sorriso.
— Isso quer dizer que posso conhecer Charlie também, então? — perguntou ela com ansiedade. — Ele já está desconfiado, e prefiro não ser obscura também.
— Claro, mas o que vamos dizer para ele? Como vou explicar...?
Ela deu de ombros.
— Duvido que ele tenha muita dificuldade com a ideia de você ter uma namorada. Embora seja uma interpretação livre da palavra.
— Namorada — murmurei. — Não parece... suficiente.
Basicamente, soava transitório. Uma coisa que não duraria.
Ela passou um dedo pela lateral do meu rosto.
— Bem, não sei se precisamos dar a ele todos os detalhes sórdidos, mas ele vai precisar de alguma explicação para o motivo de eu vir tanto aqui. Não quero o chefe Swan faça um mandado de segurança contra mim.
— Você vai mesmo estar aqui? — perguntei, ansioso de repente. Parecia bom demais para ser verdade, uma coisa com a qual só um tolo contaria.
— Enquanto você me quiser.
— Eu sempre vou querer você — avisei. — Estou falando de para sempre.
Ela colocou os dedos nos meus lábios e fechou os olhos. Quase parecia desejar que eu não tivesse dito aquilo.
— Isso a deixa... triste? — perguntei, tentando dar um nome à expressão no rosto dela. Triste pareceu perto.
Ela abriu os olhos devagar. Não respondeu, só olhou nos meus olhos por um tempo. Finalmente, suspirou.
— Vamos?
Olhei automaticamente para o relógio do micro-ondas.
— Não está meio ced... espere, esqueça que perguntei isso.
— Já esqueci.
— Isso está bom? — perguntei, mostrando minhas roupas. Eu devia me arrumar mais?
— Você está... — De repente, seu rosto exibiu as covinhas. — Delicioso.
— Então você está dizendo que devo mudar?
Ela riu e balançou a cabeça.
— Não mude nunca, Beau.
Ela se levantou e deu um passo na minha direção, até ficar com os joelhos encostando nos meus. Colocou as mãos dos dois lados do meu rosto e se inclinou até estar a dois centímetros de mim.
— Com cuidado — ela me lembrou.
Ela inclinou a cabeça para o lado e diminuiu a distância entre nós. Com a mais leve das pressões, tocou meus lábios com os dela.
Com cuidado!, eu gritei em pensamento. Não se mexa.
Minhas mãos se fecharam. Eu sabia que ela conseguia sentir o sangue pulsando no meu rosto.
E então, do nada, um apito vertiginoso e seco surgiu nos meus ouvidos. Primeiro, não consegui me concentrar em nada além dos lábios dela, mas aí comecei a cair pelo túnel, e os lábios dela foram ficando mais e mais distantes.
— Beau! Beau!
— Ei — tentei dizer.
— O que aconteceu? Você está bem?
O som da ansiedade dela ajudou a me trazer de volta. Não desmaiei completamente, então foi relativamente fácil. Respirei fundo duas vezes e abri os olhos.
— Estou bem — respondi. Ela estava inclinada para longe, mas os braços estavam esticados para mim; uma das mãos estava na minha testa, fria, e a outra, atrás do meu pescoço. O rosto dela estava mais pálido do que o habitual. — Só... meio que me esqueci de respirar por um minuto. Me desculpe. — Eu respirei fundo de novo.
Ela me olhou com dúvida.
— Você se esqueceu de respirar?
— Eu estava tentando ser cuidadoso.
De repente, ela ficou com raiva.
— O que devo fazer com você, Beau? Ontem, eu beijo você e você me ataca! Hoje, você desmaia!
— Desculpe.
Ela suspirou profundamente, depois deu um pulo para beijar minha testa.
— Que bom que é fisicamente impossível eu ter um ataque cardíaco — resmungou ela.
— Isso é bom — concordei.
— Não posso levar você em lugar nenhum assim.
— Não, estou bem, de verdade. Já voltei ao normal. Além do mais, sua família vai me achar maluco mesmo, qual vai ser a diferença se eu estiver meio abalado?
Ela franziu a testa.
— Você quer dizer mais abalado do que o habitual?
— Claro. Olhe só, estou tentando não pensar no que vamos fazer agora, então ajudaria se pudéssemos ir logo.
Ela balançou a cabeça, mas segurou minha mão e me puxou da cadeira.
Dessa vez, ela nem perguntou, foi direto para o lado do motorista da picape. Achei que não fazia sentido discutir depois do meu último episódio constrangedor, e, de qualquer modo, eu não fazia ideia de onde ela morava.
Ela dirigiu respeitosamente, sem reclamar sobre o que minha picape aguentaria. Levou-nos para o norte da cidade, passando pela ponte sobre o rio Calawah, e prosseguindo até termos passado por todas as casas e cercados de árvores densas. Eu estava começando a me perguntar até onde iríamos quando ela entrou abruptamente em uma estrada sem pavimentação. Não tinha placa, mal era visível em meio às samambaias. As árvores se inclinavam dos dois lados, e só dava para ver poucos metros à frente antes de cada curva da estrada.
Seguimos assim por alguns quilômetros, quase sempre para o leste. Eu estava tentando encaixar o caminho ao mapa vago que tinha na cabeça, mas sem conseguir, quando a floresta começou de repente a ficar menos densa. Ela entrou em uma campina... ou seria um gramado? Mas não ficou muito mais claro. Havia seis cedros enormes, talvez as maiores árvores que já vi, cujos galhos encobriam meio hectare. Inclinavam-se na direção da casa no meio do gramado, escondendo-a.
Não sei o que eu esperava, mas definitivamente não era isso. A casa devia ter uns cem anos, tinha três andares e era meio... graciosa, se essa palavra pode ser usada para se referir a uma casa. Estava pintada de um branco delicado e desbotado, e todas as janelas e portas pareciam originais, mas estavam em condições boas demais para que isso fosse verdade. Minha picape era o único carro à vista. Quando Edythe desligou o motor, consegui ouvir o som de um rio ali perto.
— Caramba.
— Gostou?
— É... impressionante.
De repente, ela estava do lado de fora, na minha porta.
Eu a abri devagar, começando a sentir o nervosismo que vinha tentando sufocar.
— Pronto?
— Não. Vamos nessa.
Ela riu, e tentei rir com ela, mas o som pareceu preso na minha garganta. Eu ajeitei o cabelo.
— Você está lindo — disse ela, e pegou minha mão casualmente, como se nem precisasse mais pensar. Não era uma coisa grande, mas me distraiu, me deixou sentindo um pouco menos de pânico.
Andamos pelas sombras densas até a varanda. Eu sabia que ela podia sentir minha tensão. Ela esticou a mão livre até meu antebraço por um segundo. Depois, seguida, abriu a porta da frente e entrou, me puxando junto.
O interior era ainda menos parecido com o que eu esperava do que o exterior. Era muito iluminado, muito aberto e muito grande. Originalmente, devia ter tido muitos cômodos, mas a maioria das paredes do primeiro andar fora derrubada, criando um único espaço amplo. A parede de trás, voltada para o sul, fora inteiramente substituída por vidro. Para além dos cedros, o gramado era aberto e se estendia até o rio largo. Uma enorme escada em curva dominava o lado oeste da sala. As paredes, o teto alto, o piso de madeira e os tapetes grossos eram de tons variados de branco.
Os pais de Edythe estavam nos esperando. Estavam um pouco à esquerda da porta em uma pequena plataforma em frente a um piano de cauda enorme. Também era branco.
É claro que eu já tinha visto a Dra. Cullen, mas me impressionei de novo com o quanto era jovem e o quanto era absurdamente linda. Estava de mãos dadas com Earnest, imaginei; Ele era o único da família que eu nunca vira. Parecia ter a mesma idade da Dra. Cullen, talvez alguns anos mais, e as mesmas feições pálidas e perfeitas do resto deles. Tinha cabelo ondulado da cor de caramelo, um pouco mais comprido do que o meu. Havia algo muito... gentil no rosto dele, mas não consegui identificar o que me fez pensar isso. Ambos estavam com roupas informais de cores claras que combinavam com o interior da casa.
Eles sorriram, mas não se aproximaram de nós. Achei que estavam tentando não me assustar.
— Carine, Earnest, este é Beau — disse Edythe.
— É muito bem-vindo aqui, Beau.
Carine deu um passo à frente, lenta e cuidadosa. Ergueu a mão com hesitação. Dei um passo à frente para cumprimentá-la, e fiquei meio surpreso com o quanto foi tranquilo fazer aquilo. Talvez fosse por ela me lembrar Edythe de muitas formas.
— É bom vê-la novamente, Dra. Cullen.
— Por favor, chame-me de Carine.
Eu sorri para ela, surpreso com minha súbita confiança.
— Carine — repeti.
Edythe apertou minha mão de leve.
Earnest também se aproximou e estendeu a mão para mim. Seu aperto frio e pétreo era exatamente o que eu esperava.
— É muito bom conhecer você — disse ele com sinceridade.
— Obrigado. Fico feliz por conhecê-lo também. — E estava mesmo. A sensação era de coisa certa. Aquela era a casa de Edythe, a família dela. Era bom fazer parte daquilo.
— Onde estão Archie e Jess? — perguntou Edythe.
Ninguém respondeu, pois eles tinham acabado de aparecer no alto da escada.
— Ei, Edy está em casa! — gritou Archie, e correu escada abaixo, uma mancha de pele branca, vindo parar subitamente diante de nós. Vi Carine e Earnest lançaram olhares de alerta para ele, mas até que gostei. Era natural para ele, era como eles se moviam quando não tinham que se preocupar com estranhos olhando.
— Beau! — disse ele, me cumprimentando, como se fôssemos velhos amigos. Ele esticou a mão e, quando fui apertar, me puxou para um daqueles abraços de um braço só e bateu de leve nas minhas costas.
— Oi, Archie — falei. Minha voz saiu sem fôlego.
Fiquei chocado e também um pouco satisfeito de ele realmente parecer favorável. Mais do que isso, já gostava de mim.
Quando deu um passo para trás, vi que eu não era o único chocado. Carine e Earnest estavam olhando meu rosto com olhos arregalados, como se estivessem esperando que eu saísse correndo. O maxilar de Edythe estava travado, mas não consegui perceber se era preocupação ou raiva.
— Seu cheiro é mesmo bom, eu nunca tinha reparado — comentou Archie.
Meu rosto ficou quente, e mais quente ainda quando pensei em como isso devia ser para eles, e ninguém pareceu saber o que dizer.
E então, Jessamine apareceu. Edythe tinha se comparado a um leão caçando, o que tive dificuldade de visualizar, mas consegui imaginar com facilidade Jessamine dessa forma. Havia alguma coisa de leoa nela agora, só parada ali. Mas, apesar disso, fiquei totalmente à vontade de repente. Parecia que eu estava em um lugar familiar e cercado de gente que conhecia bem. Era tranquilo, como quando Jules estava por perto. Era estranho sentir isso ali, mas me lembrei do que Edythe me contou sobre o que Jessamine podia fazer. Foi estranho pensar. Não parecia que alguém estava usando magia em mim.
— Olá, Beau — disse Jessamine. Ela não se aproximou nem ofereceu um aperto de mãos, mas não foi constrangedor.
— Oi, Jessamine. — Sorri para ela e depois para os outros. — É ótimo conhecer vocês todos. Vocês têm uma bela casa — acrescentei, convencionalmente.
— Obrigado — disse Earnest. — Ficamos felizes por você ter vindo. — Ele falava com sentimento, e percebi que me considerava corajoso.
Também percebi que Royal e Eleanor não estavam em lugar nenhum à vista e, apesar de estar aliviado, também fiquei decepcionado. Teria sido bom fazer logo isso com Jessamine ali, me deixando calmo.
Reparei em Carine encarando Edythe com intensidade. Pelo canto do olho, vi que Edythe assentiu de leve. Senti que estava xeretando e afastei o olhar. Meus olhos vagaram novamente para o belo piano no tablado. De repente, me lembrei de uma fantasia de infância na qual, quando fosse mais velho e milionário, compraria um piano de cauda para minha mãe. Ela não era muito boa, só tocava para si mesma em nosso piano de armário de segunda mão, mas eu adorava vê-la tocar. Ela ficava tão feliz e absorta, parecia um ser novo e misterioso para mim. Ela me pagou algumas aulas, mas, como a maioria das crianças, eu choraminguei até que ela me deixou largar.
Earnest percebeu meu olhar.
— Você toca? — perguntou ele.
Eu balancei a cabeça.
— Nem um pouco. Mas é lindo. É seu?
— Não. — Ele riu. — Edythe não contou que gostava de música?
— Hã, ela não disse nada. Mas acho que eu devia ter percebido, não é?
Earnest ergueu as sobrancelhas, confuso.
— Tem alguma coisa que ela não faz bem? — perguntei retoricamente.
Jessamine deu uma gargalhada, Archie revirou os olhos e Earnest olhou para Edythe com expressão paternal, o que foi impressionante considerando o quanto parecia jovem.
— Espero que não tenha se exibido — disse ele. — É grosseria.
— Ah, só um pouco. — Edythe riu, e o som foi contagioso.
Todo mundo sorriu, inclusive eu. Earnest deu um sorriso maior, e ele e Edythe trocaram um olhar rápido.
— Edythe, você devia tocar para ele — disse Earnest.
— Você acabou de dizer que me exibir era grosseria.
— Abra uma exceção. — Ele sorriu para mim. — Estou sendo egoísta. Ela não toca muito, e adoro ouvi-la.
— Gostaria de ouvir você tocar — falei.
Ela deu um olhar longo e exasperado para Earnest, depois para mim. Em seguida, soltou minha mão e foi até o banquinho. Bateu no lugar ao lado e olhou para mim.
— Ah — murmurei, e fui me sentar com ela.
Assim que me sentei, os dedos dela começaram a fluir pelas teclas, enchendo a sala com uma composição tão complexa e intensa que era impossível acreditar que só uma pessoa a tocava. Senti meu queixo cair e ouvi risinhos baixos atrás de mim.
Edythe olhou para mim casualmente, a música ainda em volta de nós sem pausa.
— Gostou?
Percebi na mesma hora. Claro.
— Você compôs.
Ela assentiu.
— É a preferida de Earnest.
Eu suspirei.
— Qual é o problema?
— Só estou... me sentindo meio insignificante.
Ela pensou sobre isso por um minuto, e a música mudou lentamente para algo mais suave... familiar. Era a cantiga de ninar que ela cantarolava para mim, só que mil vezes mais complexa.
— Pensei nesta — disse ela baixinho — enquanto via você dormir. É a sua música.
A música ficou ainda mais suave e doce. Não consegui falar.
A voz dela voltou ao normal.
— Eles gostaram bastante de você, sabia? Especialmente Earnest.
Olhei para trás, mas agora a sala imensa estava vazia.
— Aonde eles foram?
— Nos deram privacidade. Sutis, não?
Eu ri, mas franzi a testa.
— É legal eles gostarem de mim. Eu gostei deles. Mas Royal e Eleanor...
A expressão dela ficou tensa.
— Não se preocupe com Royal. Ele é sempre o último a chegar.
— E Eleanor?
Ela riu.
— Ela acha que sou louco, é verdade, mas não tem problemas com você. Está tentando ponderar com Royal agora.
— O que eu fiz? — Eu tive que perguntar. — Quer dizer, nunca falei com...
— Você não fez nada, Beau, sinceramente. Royal é o que mais tem dificuldade com o que somos. É difícil para ele que alguém de fora saiba a verdade. E ele tem um pouco de inveja.
— Rá!
Ela deu de ombros.
— Você é humano. Ele também queria ser.
Isso me fez pensar.
— Ah.
Prestei atenção à música, a minha música. Ficava mudando e evoluindo, mas a base permanecia igual. Eu não sabia bem como ela fazia. Ela não parecia estar prestando muita atenção às mãos.
— Aquela coisa que Jessamine faz é bem... não estranha, eu acho. Foi bem incrível.
Ela riu.
— Palavras não fazem justiça ao que ela faz, não é?
— Não mesmo. Mas... ela gosta de mim? Ela pareceu...
— A culpa é minha. Eu lhe falei que ela era a mais recente a tentar nosso jeito de viver. Alertei-a para ficar longe.
— Ah.
— Pois é.
Esforcei-me para não tremer.
— Carine e Earnest acham você maravilhoso — disse ela.
— Ah. Eu não fiz nada de empolgante. Só apertei algumas mãos.
— Eles ficam felizes por me verem feliz. Earnest provavelmente não se importaria se você tivesse três olhos e pés de pato. Em todo esse tempo, ele se preocupou comigo, com medo de que eu fosse jovem demais quando Carine me transformou, de haver alguma coisa faltando na minha constituição básica. Ele está aliviado. Cada vez que toco você, ele praticamente bate palmas.
— Archie está entusiasmado.
Ela fez uma careta.
— Archie tem uma perspectiva própria da vida.
Olhei para ela por um momento, avaliando sua expressão.
— O quê? — perguntou ela.
— Você não vai me explicar o que quer dizer com isso, não é?
Ela apertou os olhos enquanto me olhava, e um momento de comunicação sem palavras se passou entre nós, quase como vi entre ela e Carine antes, só que sem a vantagem da leitura de pensamentos. Eu sabia que ela não estava me contando alguma coisa sobre Archie, uma coisa que a atitude dela em relação a ele indicava havia muito tempo. E ela sabia que eu sabia, mas não ia soltar nada. Não agora.
— Tudo bem — falei, como se tivéssemos dito tudo isso em voz alta.
— Humm — disse ela.
E como eu tinha acabado de pensar no assunto...
— Então, o que Carine estava dizendo a você antes?
Ela estava olhando para as chaves agora.
— Você percebeu, não foi?
Dei de ombros.
— Claro que sim.
Ela me olhou pensativamente por um momento antes de responder.
— Ela queria me contar algumas novidades. Não sabia se era algo que eu quisesse partilhar com você.
— E você quer?
— Acho que seria uma boa ideia. Meu comportamento pode ficar... meio esquisito nos próximos dias. Ou semanas. Meio obcecado. Então é melhor eu me explicar logo.
— Qual é o problema?
— Não há nenhum problema, exatamente. Archie só vê alguns visitantes chegando logo. Eles sabem que estamos aqui e estão curiosos.
— Visitantes?
— Sim... como nós, mas ao mesmo tempo não. Seus hábitos de caça não são como os nossos. Não devem entrar na cidade, mas não vou perder você de vista até irem embora.
— Uau. Não devíamos... quer dizer, existe algum jeito de avisar as pessoas?
O rosto dela estava sério e triste.
— Carine vai pedir que não cacem por aqui, como cortesia, e eles provavelmente não vão criar caso por isso. Mas não podemos fazer mais, por vários motivos. — Ela suspirou. — Eles não vão caçar aqui, mas vão caçar em algum lugar. É assim que as coisas são quando se vive em um mundo com monstros.
Eu tremi.
— Enfim, uma reação racional — murmurou ela. — Estava começando a pensar que você não tinha nenhum senso de autopreservação.
Deixei essa passar, virando a cara, meus olhos vagando novamente pela sala espaçosa.
Ele seguiu meu olhar.
— Não era o que esperava, não é? — perguntou ela, a voz divertida de novo.
— Não — admiti.
— Não tem caixões, nem crânios empilhados nos cantos; acho que nem temos teias de aranha... Que decepção deve estar sendo para você.
Ignorei o escárnio.
— Eu não esperava que fosse tão claro e tão... aberto.
Ela estava mais séria quando respondeu.
— É o único lugar que nunca precisamos esconder.
Minha música chegou ao fim, os últimos acordes passando para um tom mais melancólico. A última nota pairou por um longo momento, e alguma coisa no som daquela única nota foi tão triste que um nó se formou na minha garganta.
Eu me recompus e disse:
— Obrigado.
Parecia que a música também a tinha afetado. Ela me olhou com atenção por um tempo, depois balançou a cabeça e suspirou.
— Quer ver o resto da casa? — perguntou ela.
— Vai haver crânios empilhados em algum canto?
— Lamento decepcionar.
— Ah, tudo bem, mas minhas expectativas estão bem baixas agora.
Subimos a enorme escada de mãos dadas. Minha mão livre acompanhou o corrimão, macio como cetim. O corredor no alto da escada era revestido de madeira da mesma cor clara do piso de tábua corrida.
Ela foi indicando conforme passávamos por portas.
— O quarto de Royal e Eleanor... O escritório de Carine... O quarto de Archie...
Ela teria continuado, mas estaquei no final do corredor, olhando com sobrancelhas erguidas o ornamento pendurado no alto da parede. Edythe riu ao ver minha expressão.
— Irônico, eu sei — disse ela.
— Deve ser muito antiga — conjecturei. Senti vontade de tocar, de ver se a pátina escura era tão macia quando parecia, mas consegui perceber que era bem valiosa.
Ela deu de ombros.
— Mais ou menos do início dos anos 1630.
Desviei os olhos da cruz para encará-lo.
— Por que vocês têm isso aqui?
— Nostalgia. Pertenceu ao pai de Carine.
— Ele colecionava antiguidades?
— Não. Ele mesmo entalhou. Ficava pendurada na parede acima do púlpito da paróquia em que ele pregava.
Virei-me para olhar a cruz enquanto fazia uma conta de cabeça. A cruz tinha mais de 370 anos. O silêncio se prolongou enquanto eu lutava para apreender o conceito de tantos anos.
— Você está bem? — perguntou ela.
— Que idade tem Carine? — perguntei, baixinho, ainda olhando para cima.
— Ela acabou de comemorar o aniversário de 362 anos — disse Edythe. Ela observou minha expressão com atenção enquanto continuava, e tentei absorver a informação. — Carine nasceu em Londres por volta de 1640, segundo ela acredita. O tempo não era marcado com precisão na época, pelo menos pelas pessoas comuns. Mas foi pouco antes do governo de Cromwell.
O nome despertou alguns fatos desconexos na minha mente, de uma aula de história do mundo que tive no ano anterior. Eu devia ter prestado mais atenção.
— Ela era filha única de um pastor anglicano. A mãe morreu dando à luz. Seu pai era... um homem difícil. Acreditava fortemente na realidade do mal. Ele liderou perseguições a bruxas, lobisomens... e vampiros.
Era estranho como a palavra mudava as coisas, deixava a história menos com cara de aula de história.
— Eles queimaram muita gente inocente. É claro que não era tão fácil pegar as criaturas reais que procuravam. Carine fez o que pôde para proteger esses inocentes. Ela sempre acreditou no método científico e tentou convencer o pai a olhar além da superstição e procurar evidências reais. Ele desencorajou o envolvimento dela. Ele a amava, e quem defendia os monstros costumavam ser tratadas como eles.
“O pai dela era persistente... e obsessivo. Apesar de tudo, conseguiu encontrar provas de monstros de verdade. Carine implorou para que ele tomasse cuidado, e ele ouviu, até certo ponto. Em vez de atacar cegamente, ele esperou e observou por um longo tempo. Espionou um esconderijo de vampiros de verdade que viviam nos esgotos da cidade, e alguns saíam à noite para caçar. Naquela época, quando os monstros não eram só mitos e lendas, era assim que muitos viviam.
“As pessoas reuniram seus forcados e archotes, é claro — Edythe riu de forma sombria —, e esperaram no local onde o pastor tinha visto os monstros saírem para a rua. Havia dois pontos de acesso. O pastor e alguns de seus homens jogaram um barril de piche em chamas em um enquanto os outros esperavam que os monstros emergissem pelo segundo.
Percebi que estava prendendo a respiração de novo e me obriguei a expirar.
— Não aconteceu nada. Eles esperaram muito tempo e foram embora, decepcionados. O pastor ficou muito zangado. Devia haver outras saídas, e os vampiros tinham fugido de medo. É claro que os homens com suas lanças e machados rudimentares não ofereciam perigo para um vampiro, mas ele não sabia disso. Agora que eles tinham sido avisados, como ele encontraria os monstros de novo?
A voz dela ficou mais baixa.
— Não foi difícil. Ele devia tê-los irritado. Os vampiros não podem se dar ao luxo da notoriedade, senão aqueles provavelmente teriam massacrado o grupo todo. Mas o que aconteceu foi que um deles o seguiu até em casa.
“Carine se lembra da noite com clareza, considerando que é uma lembrança humana. Era o tipo de noite que ficaria na memória. O pai voltou para casa bem tarde, ou melhor, bem cedo. Carine esperou acordada, preocupada. Ele estava furioso, reclamando e resmungando pelo que perdera. Carine tentou acalmá-lo, mas ele a ignorou. E apareceu um homem no meio da pequena sala deles.
“Carine diz que estava maltrapilho, vestido como um mendigo, mas o rosto era lindo e ele falava latim. Por causa da vocação do pai e de sua própria curiosidade, Carine tinha muita informação e estudo para uma mulher daquela época; ela entendeu o que o homem disse. Ele falou para o pai dela que ele era um tolo e que pagaria pelo mal que fez. O pastor se jogou na frente da filha na tentativa de protegê-la...
“Eu sempre penso nesse momento. Se ele não tivesse revelado o que mais amava, será que nossa história teria sido diferente?
Ela ficou pensativa por alguns segundos, mas prosseguiu.
— O vampiro sorriu. Ele disse para o pastor: “Vá para o seu inferno sabendo do seguinte: o que você ama vai se tornar tudo que você odeia.” Ele jogou o pastor para o lado e pegou Carine...
Edythe parecera perdida na história, mas então, parou. Seus olhos voltaram para o presente, e ela olhou para mim como se tivesse dito alguma coisa errada. Ou talvez tenha achado que me chateou.
— O que aconteceu? — sussurrei.
Quando ela falou, parecia que estava escolhendo cada palavra cuidadosamente.
— Ele quis que o pastor soubesse o que aconteceria com Carine, depois matou o pastor muito devagar com Carine olhando, se contorcendo de dor e horror.
Eu me encolhi. Ela assentiu em solidariedade.
— O vampiro foi embora. Carine sabia qual seria seu destino se alguém a encontrasse naquelas condições. Qualquer coisa infectada pelo monstro teria que ser destruída. Ela agiu por instinto, para salvar a própria vida. Apesar da dor que estava sentindo, rastejou até o porão e se enterrou em uma pilha de batatas podres por três dias. É um milagre ela ter conseguido ficar em silêncio e não ser descoberta. Depois de três dias, o processo acabou, e ela se deu conta do que tinha se tornado.
Eu não sabia como estava meu rosto, mas de repente ela parou de falar de novo.
— Como está se sentindo? — perguntou ela.
— Estou bem. O que aconteceu depois?
Ela deu um meio sorriso por causa da minha intensidade, depois deu meia-volta no corredor e me puxou junto.
— Venha — disse ela. — Eu vou lhe mostrar.

2 comentários:

  1. Também me perguntava sobre isso... Se teria que mudar a historia de Carine/Carlesle. Gostei dessa versão também...

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  2. "Ela riu.
    — Ela acha que sou louco, é verdade, mas não tem problemas com você. Está tentando ponderar com Royal agora." Acho que seria "...ela achou que sou louca..."

    "Ele seguiu meu olhar.
    — Não era o que esperava, não é? — perguntou ela, a voz divertida de novo.
    — Não — admiti."
    Acho que seria "Ela seguiu meu olhar."

    Amei, amei, amei ♥♥♥

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