16 de janeiro de 2016

Capítulo 14 - A mente domina a matéria

Eu tinha que admitir que ela dirigia bem, quando mantinha a velocidade razoável. Como em muitas coisas, parecia não exigir esforço nenhum. Ela mal olhava a estrada, e, no entanto, a picape sempre ficava perfeitamente centralizada na pista. Ela dirigia com uma só mão, porque eu estava segurando a outra dela entre nós. Às vezes, ela olhava o sol poente, que cintilava na pele dela em brilhos de tom de rubi. Às vezes, olhava para mim, olhava nos meus olhos ou para nossas mãos entrelaçadas.
Ela ligara o rádio em uma estação de música antiga e cantava uma canção que eu nunca tinha ouvido. A voz era perfeita, como tudo nela, indo um oitavo acima da melodia. Ela sabia toda a letra.
— Gosta de música dos anos 1950? — perguntei.
— A música dos anos 1950 era boa. Muito melhor do que a dos anos 1960, ou dos 1970, ugh! — Ela estremeceu. — A dos anos 1980 era suportável.
— Vai me dizer um dia qual é a sua idade?
Eu me perguntei se minha pergunta atrapalharia o bom humor dela, mas ela só sorriu.
— Isso importa muito?
— Não, mas quero saber tudo sobre você.
— Eu me pergunto se vai perturbar você. — Ela refletiu para si mesmo. Ficou olhando diretamente para o sol; um minuto se passou.
— Experimente — sugeri, por fim.
Ela olhou nos meus olhos, parecendo se esquecer completamente da estrada por um tempo. O que quer que tenha visto a encorajou. Ela se virou para olhar os últimos raios vermelho-sangue do sol poente e suspirou.
— Nasci em Chicago em 1901. — Ela parou e olhou para mim pelo canto do olho. Meu rosto estava cuidadosamente composto, sem surpresa, esperando pacientemente pelo resto. Ela deu um sorrisinho e continuou. — Carine me encontrou em um hospital no verão de 1918. Eu tinha 17 anos e estava morrendo de gripe espanhola.
Ela ouviu meu arfar e olhou nos meus olhos de novo.
— Não lembro muito bem. Foi há muito tempo, e a memória humana vai acabando. — Ela pareceu perdida em pensamentos por um minuto, mas, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, prosseguiu. — Mas lembro como foi quando Carine me salvou. Não é fácil, não é uma coisa de que se possa esquecer.
— E seus pais?
— Eles já haviam morrido da doença. Eu estava sozinha. Foi por isso que ela me escolheu. Em todo o caos da epidemia, ninguém perceberia que eu tinha desaparecido.
— Como foi que ela... salvou você?
Alguns segundos se passaram, e, quando ela falou de novo, parecia escolher as palavras com cuidado.
— Foi difícil. Não há muitos de nós com o controle necessário para conseguir isso. Mas Carine sempre foi a mais humana, a mais compassiva de todos nós... Não acredito que se possa encontrar alguém igual a ela em toda a história. — Ela hesitou. — Para mim, foi apenas muito, muito doloroso.
Ela firmou o maxilar, e consegui perceber que não falaria mais nada sobre o assunto. Guardei para depois. Minha curiosidade não era pouca. Havia muitos ângulos pelos quais eu precisava pensar sobre aquela questão em particular, coisas que só agora começavam a me ocorrer. Sua voz suave interrompeu meus pensamentos.
— Ela agiu por solidão. Este em geral é o motivo por trás da decisão. Fui a primeira da família de Carine, embora ela tenha encontrado Earnest logo depois. Ele havia caído de um penhasco. Levaram-no diretamente para o necrotério do hospital mas, de alguma forma, seu coração ainda batia.
— Então você precisa estar morrendo...
— Não, Carine que é assim. Ela nunca faria isso com alguém que tivesse alternativas, qualquer alternativa. — O respeito em sua voz era profundo sempre que falava da mãe adotiva. — Diz ela que é mais fácil, porém, se o coração estiver fraco. — Ela olhou a estrada agora escura, e pude sentir que o assunto se encerrava de novo.
— E Eleanor e Royal?
— Carine trouxe Royal à nossa família em seguida. Só bem mais tarde percebi que esperava que ele fosse para mim o que Earnest é para ela. Ela era cautelosa com os pensamentos perto de mim. — Ela revirou os olhos. — Mas ele nunca foi mais do que um irmão. Apenas dois anos depois ele encontrou Eleanor. Ele estava caçando, estávamos nos Apalaches naquela época, e encontramos um urso prestes a acabar com a vida dela. Ele a levou para Carine, mais de 150 quilômetros de distância, com medo de não conseguir fazer. Mal consigo imaginar como a viagem deve ter sido difícil para ele.
Ela me lançou um olhar penetrante e ergueu nossas mãos, ainda entrelaçadas, para afagar meu rosto.
— Mas ele conseguiu.
— Conseguiu. Ele viu alguma coisa no rosto dela que lhe deu forças. E eles estão juntos desde então. Às vezes, eles moram separados de nós, como um casal. Mas, quanto mais jovens fingimos ser, mais tempo podemos ficar em um determinado lugar. Forks é perfeita de muitas formas, então todos nos matriculamos no colégio — ela riu. — Imagino que tenhamos que ir ao casamento deles daqui a alguns anos, de novo.
— Archie e Jessamine?
— Archie e Jessamine são duas criaturas muito raras. Os dois desenvolveram uma consciência, como dizemos, sem nenhuma orientação externa. Jessamine pertencia a outra... família, um tipo muito diferente de família. Estava deprimida e começou a vagar sozinha. Archie a encontrou. Como eu, ele tem certos dons.
— É mesmo? — interrompi, fascinado. — Mas você disse que era a única que podia ouvir os pensamentos das pessoas.
— E é verdade. Ele sabe outras coisas. Ele vê coisas, coisas que podem acontecer, coisas que estão chegando. Mas é muito subjetivo. O futuro não está gravado em pedra. As coisas mudam.
Seu queixo travou quando ela disse isso, e os olhos dispararam para meu rosto e se desviaram tão rapidamente que não tive certeza se havia só imaginado.
— Que tipo de coisas ele vê?
— Ele viu Jessamine e entendeu que ele procurava antes de saber de sua existência. Ele viu Carine e nossa família, e eles se uniram para nos encontrar. Ele é mais sensível a não humanos. Sempre vê, por exemplo, quando outro grupo de nossa espécie está se aproximando. E qualquer ameaça que possam representar.
— E existem muitos de... sua espécie? — Fiquei surpreso. Quantos deles podiam estar andando entre nós sem ser detectados?
Minha mente travou em uma palavra que ela disse. Ameaça. Era a primeira vez que ela dizia qualquer coisa que indicasse que o mundo dela era perigoso não só para humanos. Isso me deixou nervoso, e eu estava prestes a fazer uma nova pergunta, mas ela já estava respondendo minha primeira.
— Não, não são muitos. Mas a maioria não se acomoda em um lugar. Só os que são como nós, que desistiram de caçar pessoas — um olhar malicioso em minha direção — podem viver junto dos humanos por um determinado tempo. Só descobrimos uma família como a nossa em uma pequena aldeia do Alasca. Moramos juntos por um tempo, mas éramos tantos que ficamos visíveis demais. Aqueles de nós que vivem... de forma diferente tendem a ficar juntos.
— E os outros?
— Nômades, em sua maioria. Todos nós vivemos desse jeito por alguns períodos. Fica tedioso, como qualquer outra coisa. Mas nos deparamos uns com os outros de vez em quando, porque a maioria de nós prefere o norte.
— Por que isso?
Agora, estávamos estacionados na frente da minha casa, e ela desligou o motor. Estava muito silencioso e escuro; não havia luar. A luz da varanda estava apagada, então eu sabia que meu pai ainda não chegara.
— Você estava de olhos abertos esta tarde? — zombou ela. — Acha que eu poderia andar pela rua à luz do sol sem provocar acidentes de trânsito?
Pensei que ela era capaz de parar o trânsito mesmo sem toda a pirotecnia.
— Há um motivo para que tenhamos escolhido a península de Olympic, um dos lugares mais desprovidos de sol do mundo. É bom poder sair à luz do dia. Você não acreditaria em como pode ser cansativo viver à noite por oitenta anos.
— Então é daí que vêm as lendas?
— Provavelmente.
— E Archie veio de outra família, como Jessamine?
— Não, e isso é mesmo um mistério. Archie não se lembra de nada da vida humana. E não sabe quem o criou. Ele despertou sozinho. Quem o criou desapareceu, e nenhum de nós entende por quê, ou como, ele pôde fazer isso. Se Archie não tivesse aquele outro sentido, se não tivesse visto Jessamine e Carine e soubesse que um dia se tornaria um de nós, provavelmente teria se transformado num completo selvagem.
Havia tanta coisa em que pensar, tanto que eu ainda queria perguntar. Mas meu estômago roncou. Eu estava tão interessado que nem havia notado que estava com fome. Percebi então que estava faminto.
— Desculpe, estou impedindo você de jantar.
— Eu estou bem, verdade.
— Nunca passo tanto tempo com alguém que se alimenta de comida. Eu esqueço.
— Quero ficar com você. — Era mais fácil dizer isso no escuro, sabendo que minha voz me trairia, trairia meu vício irremediável nela.
— Não posso entrar? — perguntou ela.
— Gostaria de entrar? — Eu não conseguia imaginar isso, uma deusa sentada na cadeira velha de cozinha do meu pai.
— Sim, se você não se importar.
Eu sorri.
— Não me importo.
Saí da picape e ela já estava lá, mas saiu correndo e desapareceu. As luzes se acenderam lá dentro.
Ela me encontrou na porta. Era tão surreal vê-la dentro da minha casa, emoldurada pelos detalhes físicos chatos da minha vida prosaica. Lembrei-me de um jogo que minha mãe fazia comigo quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Uma dessas coisas não é como as outras.
— Deixei a porta destrancada?
— Não, usei a chave que estava embaixo da calha.
Eu achava que não tinha usado aquela chave na frente dela. Lembrei que ela encontrou a chave da minha picape e dei de ombros.
— Você está com fome, certo?
E foi na frente para a cozinha, como se tivesse frequentado minha casa um milhão de vezes antes. Acendeu a luz da cozinha e se sentou na mesma cadeira onde tentei imaginá-la. A cozinha não parecia mais tão sem graça. Mas talvez fosse porque eu não conseguia olhar para mais nada além dela. Fiquei ali por um momento, tentando absorver a presença dela no meio do mundo comum.
— Coma alguma coisa, Beau.
Eu assenti e fui procurar. Havia sobra de lasanha da noite anterior. Coloquei um quadrado no prato, mudei de ideia e acrescentei o resto que estava na forma, depois coloquei o prato no micro-ondas. Lavei a travessa enquanto o micro-ondas girava, enchendo a cozinha com o aroma de tomate e orégano. Meu estômago roncou de novo.
— Hummm — disse ela.
— O que foi?
— Vou ter que me sair melhor no futuro.
Eu ri.
— O que você poderia fazer melhor do que já faz?
— Lembrar que você é humano. Eu devia ter levado alguma coisa para um piquenique hoje.
O micro-ondas apitou e eu peguei o prato, depois coloquei rapidamente na bancada quando queimou minha mão.
— Não se preocupe.
Peguei um garfo e comecei a comer. Eu estava com muita fome. A primeira garfada queimou minha boca, mas continuei mastigando.
— Está gostoso? — perguntou ela.
Engoli.
— Não tenho certeza. Acho que queimei minhas papilas gustativas. Estava gostoso ontem.
Ela não pareceu convencida.
— Você sente falta de comida? De sorvete? De creme de amendoim?
Ela balançou a cabeça.
— Nem me lembro direito de comida. Não saberia nem dizer quais eram as minhas favoritas. Não tem cheiro... comestível agora.
— Isso é meio triste.
— Não é um sacrifício tão grande — falou, com tristeza, como se houvesse outras coisas na mente, sacrifícios que eram enormes.
Usei o pano de prato para levar o prato até a mesa e me sentar ao lado dela.
— Você sente falta de outras coisas da vida de humana?
Ela pensou por um segundo.
— Não sinto falta de nada, porque eu teria que me lembrar para sentir falta, e, como falei, é difícil me lembrar da minha vida humana. Mas há coisas de que acho que gostaria. Acho que você poderia dizer que há coisas das quais sinto inveja.
— Como o quê?
— Dormir é uma delas. A consciência infinita fica tediosa. Acho que eu gostaria de um apagamento temporário. Parece interessante.
Comi um pouco e pensei no que ela disse.
— Parece difícil. O que você faz a noite toda?
Ela hesitou e repuxou os lábios.
— Você quer dizer em geral?
Eu me perguntei por que ela pareceu não querer responder. Era uma pergunta vaga demais?
— Não, não precisa falar de um modo geral. Tipo, o que você vai fazer hoje depois que for embora?
Foi a pergunta errada. Consegui sentir meu ânimo começar a murchar. Ela teria que ir embora. Não importava o quanto a separação seria breve, eu a temia.
Ela também pareceu não gostar da pergunta, e primeiro achei que fosse pelo mesmo motivo. Mas ela virou os olhos para o meu rosto e depois para longe, como se estivesse pouco à vontade.
— O quê?
Ela fez uma careta.
— Você quer uma mentira agradável ou uma verdade possivelmente perturbadora?
— A verdade — respondi, rapidamente, embora não tivesse certeza absoluta.
Ela suspirou.
— Vou voltar para cá depois que você e seu pai dormirem. Faz parte da minha rotina ultimamente.
Eu pisquei. E pisquei de novo.
— Você vem pra ?
— Quase todas as noites.
— Por quê?
— Você é interessante quando dorme — disse ela casualmente. — Você fala.
Meu queixo caiu. Calor subiu pelo meu pescoço até meu rosto. Eu sabia que falava dormindo, claro; minha mãe pegava no meu pé por isso. Eu não achei que fosse uma coisa com a qual eu precisasse me preocupar ali.
Ela observou minha reação com apreensão debaixo dos cílios.
— Está com muita raiva de mim?
Estava? Eu não sabia. O potencial de humilhação era alto. E eu não entendia; ela ficava me ouvindo falar dormindo de onde? Da janela? Eu não conseguia entender.
— Como você... Onde você... O que eu...? — Eu não conseguia concluir nenhum dos meus pensamentos.
Coloquei a mão dela na minha bochecha. O sangue nos dedos dela pareceu ferver em comparação à mão fria.
— Não fique chateado. Eu não tive má intenção. Juro que fiquei muito controlada. Se eu achasse que havia perigo, teria ido embora na mesma hora. Eu só... queria estar onde você estava.
— Eu... Não é com isso que estou preocupado.
— Com o que você está preocupado?
— O que eu disse?
Ela sorriu.
— Você sente falta da sua mãe. Quando chove, o barulho o deixa inquieto. Você costumava falar muito da sua cidade, mas agora é menos frequente. Uma vez, você disse: “É verde demais.” — Ela riu baixinho para não me ofender ainda mais.
— Mais alguma coisa? — perguntei.
Ela sabia aonde eu queria chegar.
— Você disse meu nome — admitiu ela.
Suspirei, derrotado.
— Muito?
— Defina “muito”.
— Ah, não — resmunguei.
Como se fosse fácil, natural, ela passou os braços ao redor dos meus ombros e apoiou a cabeça no meu peito. Automaticamente, meus braços subiram e a envolveram. Para segurá-la ali.
— Não fique constrangido — sussurrou ela. — Você já tinha me dito que sonha comigo, lembra?
— É diferente. Eu sabia o que estava dizendo.
— Se eu pudesse sonhar, seria com você. E não tenho vergonha disso.
Acariciei o cabelo dela. Acho que, no fundo, eu não me importava. Eu não esperava que ela seguisse as regras humanas normais mesmo. As regras que ela criou para si mesma já pareciam bastar.
— Não tenho vergonha — sussurrei.
Ela fez um zumbido, quase um ronronar, a bochecha no meu coração.
Nessa hora, nós dois ouvimos o som de pneus na entrada de carros e vimos os faróis lampejarem nas janelas da frente, descendo pelo corredor até nós. Dei um pulo e baixei os braços enquanto ela se afastava.
— Você quer que seu pai saiba que estou aqui? — perguntou ela.
Tentei pensar rapidamente.
— Hã...
— Em outra ocasião, então...
E eu estava só.
— Edythe? — sibilei.
Ouvi uma risada espectral, depois mais nada.
A chave do meu pai girou na porta.
— Beau? — chamou ele.
Eu achava isso engraçado antes; quem mais poderia ser? De repente, não parecia tão despropositado.
— Aqui.
Minha voz estaria agitada demais? Comi outra garfada de lasanha para estar mastigando quando ele entrasse. Os passos soaram barulhentos demais depois de eu passar o dia com Edythe.
— Você pegou toda a lasanha? — perguntou ele, olhando para o meu prato.
— Ah, desculpe. Aqui, tome um pouco.
— Não tem problema, Beau. Faço um sanduíche.
— Desculpe — murmurei de novo.
Charlie fez uma barulheira na cozinha para pegar as coisas de que precisava. Continuei comendo meu prato gigantesco de comida com a maior rapidez humanamente possível sem morrer engasgado. Estava pensando no que Edythe tinha acabado de dizer: Você quer que seu pai saiba que estou aqui? Que não era a mesma coisa que Você quer que seu pai saiba que estive aqui?, no passado. Isso queria dizer que ela não foi embora? Eu esperava que sim.
Com o sanduíche na mão, Charlie se sentou na cadeira à minha frente. Era difícil imaginar Edythe sentada no mesmo lugar minutos antes. Charlie combinava. A lembrança dela era como um sonho que não podia ter sido real.
— Como foi seu dia? Fez tudo que queria?
— Hã, não exatamente. Estava... um dia bonito demais para ficar dentro de casa. Os peixes morderam a isca?
— Morderam. Eles também gostam do tempo bom.
Raspei o resto da lasanha em uma garfada enorme e comecei a mastigar.
— Tem planos para esta noite? — perguntou ele de repente.
Eu balancei a cabeça, talvez enfaticamente demais.
— Você parece meio agitado — comentou ele.
Claro que ele prestaria atenção logo esta noite.
Eu engoli.
— É mesmo?
— É sábado — refletiu ele.
Não respondi.
— Acho que vai perder o baile de hoje...
— Como eu pretendia.
Ele assentiu.
— Claro, dançar, eu entendo. Mas talvez semana que vem... você pudesse levar a garota Newton para jantar, quem sabe. Para sair de casa. Socializar.
— Já falei, ela está namorando meu amigo.
Ele franziu a testa.
— Ah, tem muitos outros peixes no mar.
— Não nesse ritmo que você anda pescando.
Ele riu.
— Eu me esforço... Então você não vai sair hoje? — perguntou ele de novo.
— Não tenho para onde ir — respondi. — Além do mais, estou cansado. Vou dormir cedo de novo.
Eu me levantei e levei o prato para a pia.
— Aham — disse ele, mastigando e pensando. — Nenhuma das garotas da cidade faz seu tipo, é?
Eu dei de ombros enquanto lavava o prato.
Consegui senti-lo olhando para mim e me esforcei para impedir que o sangue subisse ao pescoço. Eu não sabia se estava conseguindo.
— Não seja tão duro com uma cidade pequena — disse ele. — Sei que não temos a variedade de uma cidade grande...
— Tem bastante variedade, pai. Não se preocupe comigo.
— Tudo bem, tudo bem. Não é da minha conta mesmo. — Ele pareceu meio rejeitado.
Eu suspirei.
— Bom, acabei aqui. Vejo você de manhã.
— Boa noite, Beau.
Tentei fazer com que meus passos parecessem lentos e cansados ao subir para o quarto, como se eu estivesse exausto. Perguntei-me se ele tinha caído na minha atuação ruim. Eu não menti para ele nem nada. Não estava mesmo planejando sair naquela noite.
Fechei a porta com um barulho alto o bastante para que ele ouvisse, depois corri na ponta dos pés até a janela. Eu a abri e me inclinei para a noite. Não consegui ver nada, só as sombras das copas das árvores.
— Edythe? — sussurrei, sentindo-me um completo idiota.
A resposta baixa e risonha veio de trás de mim.
— Sim?
Eu girei tão rápido que derrubei um livro da mesa. Caiu com um baque no chão.
Ela estava deitada em minha cama, as mãos na nuca, os tornozelos cruzados, um sorriso enorme cheio de covinhas no rosto. Tinha a cor de gelo na escuridão.
— Ah! — sussurrei, esticando a mão para me apoiar na mesa.
— Desculpe — disse ela.
— Me dê um segundo para reiniciar meu coração.
Ela se sentou devagar, como fazia quando estava tentando agir como humana ou não me assustar, e passou as pernas pela beirada da cama. E bateu no espaço ao lado dela.
Andei oscilante até a cama e me sentei. Ela colocou a mão na minha.
— Como está seu coração?
— Me diga você, sei que o ouve melhor do que eu.
Ela riu baixinho.
Ficamos sentados ali por um momento em silêncio, os dois ouvindo meus batimentos desacelerarem. Pensei em Edythe no meu quarto... e nas perguntas desconfiadas do meu pai... e no meu bafo de lasanha.
— Posso ter um minuto como ser humano?
— Certamente.
Eu me levantei e olhei para ela, sentada toda perfeita na beirada da cama, e pensei que talvez estivesse tendo uma alucinação.
— Você vai estar aqui quando eu voltar, não vai?
— Não vou mexer um músculo — prometeu ela.
E ficou completamente imóvel, uma estátua de novo, empoleirada na beirada da cama.
Peguei meu pijama na gaveta e corri para o banheiro, batendo a porta para Charlie saber que estava ocupado.
Escovei os dentes duas vezes. Depois, lavei o rosto e troquei de roupa. Eu sempre usava uma calça de moletom furada e uma camiseta velha para dormir; era de uma churrascaria de que minha mãe gostava e tinha um porco sorrindo entre dois pedaços de pão. Eu queria ter uma coisa que fosse menos... a minha cara. Mas não esperava convidados, e devia ser besteira me preocupar. Se ela vinha para cá à noite, já sabia o que eu usava para dormir. Escovei os dentes mais uma vez.
Quando abri a porta, tive outro pequeno ataque cardíaco. Charlie estava no alto da escada. Quase esbarrei nele.
— Ah! — falei.
— Ah, desculpe, Beau. Não queria dar um susto em você.
Eu respirei fundo.
— Estou bem.
Ele olhou para o meu pijama e pigarreou, como se estivesse surpreso.
— Também vai dormir?
— É, acho que vou. Vou sair cedo amanhã de novo.
— Tudo bem. Boa noite.
— Boa noite.
Entrei no meu quarto, feliz de a cama não ser visível de onde Charlie estava, depois fechei a porta com firmeza.
Edythe não havia se mexido nem um milímetro. Sorri, e seus lábios tremeram; ela relaxou e voltou a ser humana. Ou quase. Fui me sentar ao lado dela de novo.
Ela se virou para me olhar, puxou as pernas e as cruzou.
— Não sei bem o que acho dessa camiseta — disse ela. A voz soou tão baixa que não precisei ter medo de Charlie nos ouvir.
— Posso trocar.
Ela revirou os olhos.
— Não de você estar usando. Da existência toda dela. — Ela esticou a mão e passou os dedos pelo porco sorridente. Minha pulsação disparou, mas ela ignorou educadamente. — Ele deveria ficar tão feliz de ser comida?
Eu tive que sorrir.
— Bom, a gente não sabe o lado dele da história, né? Pode ser que ele tenha um motivo para sorrir.
Ela olhou para mim como se duvidando da minha sanidade.
Estiquei a mão para segurar a dela. Parecia muito natural, mas, ao mesmo tempo, não consegui acreditar que tive tanta sorte. O que fiz para merecer aquilo?
— Charlie acha que você talvez vá sair escondido — disse ela.
— Eu sei. Aparentemente, pareço agitado.
— E está?
— Um pouco mais do que isso, eu acho. Obrigado. Por ficar.
— Era o que eu queria também.
Meu coração começou a bater... não exatamente mais rápido, porém mais forte. Por algum motivo que eu jamais entenderia, ela queria ficar comigo. Movendo-se em velocidade humana, ela descruzou as pernas e as colocou ao redor da minha. Em seguida, se encolheu contra o meu peito de novo, da forma que parecia preferir, com o ouvido no meu coração, que estava reagindo provavelmente mais do que o necessário. Passei os braços em volta dela e apertei os lábios no seu cabelo.
— Humm — murmurou ela.
— Isso... — murmurei no cabelo dela — ... é muito mais fácil do que eu achei que seria.
— Parece fácil para você?
Pareceu que ela estava sorrindo. Ela virou o rosto para cima, e senti seu nariz traçar uma linha fria pela lateral do meu pescoço.
— Bem — falei, sem fôlego. Os lábios dela estavam roçando meu maxilar. — Parece mais fácil do que esta manhã, pelo menos.
— Humm — disse ela.
Os braços deslizaram pelos meus ombros e envolveram meu pescoço. Ela se levantou até os lábios estarem roçando meu ouvido.
— E por que — minha voz tremeu, me deixando constrangido — você acha que é assim?
— A mente domina a matéria — sussurrou ela, no meu ouvido.
Um tremor percorreu meu corpo. Ela congelou, depois se afastou cuidadosamente. Uma das mãos roçou na pele debaixo da manga da minha camisa.
— Você está com frio — disse ela. Consegui sentir os arrepios surgirem debaixo das pontas dos dedos dela.
— Estou bem.
Ela franziu a testa e voltou à posição original. Meus braços não estavam dispostos a soltá-la. Quando ela deslizou para longe deles, minhas mãos ficaram em seus quadris.
— Seu corpo todo está tremendo.
— Acho que não é de frio — falei.
Nós nos olhamos por um segundo na escuridão.
— Não sei o que posso fazer — admiti. — O quanto preciso tomar cuidado?
Ela hesitou.
— Não está mais fácil — disse ela por fim, respondendo minha pergunta anterior. A mão passou pelo meu antebraço, e senti arrepios de novo. — Mas, hoje à tarde... eu ainda estava indecisa. Lamento, foi imperdoável me comportar como me comportei.
— Eu perdoo você — murmurei.
— Obrigada. — Ela sorriu, mas ficou séria quando olhou para meu braço arrepiado. — Sabe... eu não tinha certeza de que era forte o bastante... — Ela levantou minha mão e encostou na bochecha, ainda olhando para baixo. — E, enquanto ainda havia a possibilidade de eu poder ser... derrotada — ela inspirou o aroma no meu pulso —, eu estava... suscetível. Até eu tomar a decisão de que era forte o bastante, de que não havia possibilidade de eu... de que eu...
Nunca a vi lutar tanto com as palavras. Era tão humano .
— E não existe essa possibilidade agora?
Ela olhou para mim e sorriu.
— A mente domina a matéria.
— Parece fácil — falei, sorrindo para que ela soubesse que era provocação.
— Em vez de fácil, eu diria... hercúleo, mas possível. E assim... em resposta à sua outra pergunta...
— Me desculpe — falei.
Ela riu baixinho.
— Por que você pede desculpas? — Era uma pergunta retórica, e ela prosseguiu rapidamente, levando o dedo aos meus lábios para o caso de eu sentir a necessidade de explicar. — Não é fácil, e assim, se for aceitável para você, eu preferiria que você... seguisse minha deixa? — Ela baixou o dedo. — É justo?
— Claro — falei, rapidamente. — O que você quiser.
Como sempre, eu quis dizer literalmente.
— Se passar dos... limites, tenho certeza de que vou conseguir ir embora.
Eu franzi a testa.
— Vou cuidar para que não passe.
— Será mais difícil amanhã — disse ela. — Fiquei com seu cheiro na cabeça o dia todo e acabei ficando incrivelmente dessensibilizada. Se ficar longe de você por qualquer período de tempo, terei que começar de novo. Mas não do zero, imagino.
— Não vá embora nunca — sugeri.
O rosto dela relaxou em um sorriso.
— Está bom para mim. Pegue os grilhões. Sou sua prisioneira. — Enquanto falava, ela entrelaçou os dedos frios no meu pulso como uma algema. — E agora, se você não se importa, posso pegar um cobertor emprestado?
Demorei um segundo.
— Ah, hã, claro. Aqui.
Estiquei a mão para trás dela, peguei a colcha velha que estava dobrada no pé da minha cama e ofereci para ela. Ela soltou meu pulso, pegou o cobertor e o abriu, depois entregou para mim.
— Eu ficaria mais feliz se soubesse que você está confortável.
— Estou muito confortável.
— Por favor.
Rapidamente, joguei a colcha nas costas, como uma capa.
Ela riu baixinho.
— Não era bem o que eu estava pensando.
Ela já estava de pé, arrumando a colcha sobre as minhas pernas e puxando até os meus ombros. Mas, antes que eu pudesse entender o que ela estava fazendo, ela tinha subido no meu colo e se aninhado contra meu peito. A colcha era uma barreira para qualquer ponto no qual nossa pele pudesse se encostar.
— Melhor? — perguntou ela.
— Não tenho certeza disso.
— Bom o bastante?
— Melhor do que isso.
Ela riu. Eu acariciei o cabelo dela. Pareceu um gesto cuidadoso.
— É tão estranho — disse ela. — Você lê sobre uma coisa... ouve sobre isso nas mentes das outras pessoas, vê acontecer com elas... e isso não prepara você nem um pouco para a experiência em si. A glória do primeiro amor. É mais do que eu esperava.
— Bem mais — concordei com fervor.
— E as outras emoções também. O ciúme, por exemplo. Eu achava que entendia claramente. Já li sobre isso umas cem mil vezes, vi atores o retratarem em mil peças e filmes, ouvi nas mentes ao meu redor diariamente. Até senti de forma superficial, desejando ter o que não tinha... Mas fiquei chocada. — Ela fez expressão de irritação. — Lembra o dia em que McKayla o convidou para o baile?
Assenti, embora me lembrasse do dia por um motivo diferente.
— Quando você começou a falar comigo de novo.
— Fiquei surpresa com o surto de ressentimento, quase de fúria, que senti. Inicialmente, não reconheci o que era. Eu não sabia que o ciúme podia ser tão poderoso... tão doloroso. E aí, você recusou, e eu não sabia por quê. Foi pior do que de costume não conseguir ouvir o que você estava pensando. Haveria outra pessoa? Foi por causa de Jeremy? Eu sabia que não tinha o direito de me importar nem com uma coisa, nem com outra. Tentei não me importar. E depois a fila começou a se formar.
Eu grunhi, e ela riu.
— Eu esperei — prosseguiu ela —, mais ansiosa do que deveria para ouvir o que você diria a elas, para tentar decifrar sua expressão. Não pude negar o alívio que senti ao ver a irritação em seu rosto. Mas não podia ter certeza. Eu não sabia qual seria sua resposta se eu tivesse convidado...
Ela olhou para mim.
— Foi a primeira noite em que vim aqui. Eu lutei a noite toda, vendo você dormir, com o abismo entre o que eu sabia que era certo, moral, ético, honrado, e o que eu queria. Sabia que, se continuasse a ignorá-lo, como deveria, ou se me afastasse por alguns anos, até que você fosse embora, um dia você encontraria alguém que quereria, alguém humano como McKayla. Isso me deixou triste.
A voz dela baixou a um sussurro ainda mais baixo.
— E então, enquanto você estava dormindo, disse meu nome. Falou com tanta clareza que no começo pensei que estivesse acordado. Mas você se virou inquieto e murmurou meu nome mais uma vez, e suspirou. A emoção que me tomou depois foi enervante... perturbadora. E eu sabia que não podia mais ignorar você.
Ela ficou em silêncio por um minuto, provavelmente ouvindo o martelar irregular do meu coração.
— Mas o ciúme... é tão irracional. Agora há pouco, quando Charlie perguntou sobre aquela garota irritante...
— Aquilo deixou você com raiva. Sério?
— Sou nova nisso. Você está ressuscitando a humana em mim, e tudo parece mais forte porque é novidade.
— Mas, sinceramente, isso incomodar você, depois de eu ter que ouvir que Royal... Royal, o modelo do ano, o Sr. Perfeito, Royal era para ser seu. Com ou sem Eleanor, como posso competir com isso?
Os dentes dela brilharam e os braços envolveram meu pescoço de novo.
— Não existe competição.
— É disso que tenho medo. — Com hesitação, passei os braços ao redor dela. — Está bom assim? — Verifiquei.
— Muito. — Ela suspirou. — É claro que Royal é mesmo lindo à maneira dele, mas mesmo que não fosse como um irmão para mim, mesmo que o lugar dele não fosse ao lado de Eleanor, ele não exerceria nem um décimo, não, nem um centésimo da atração que você exerce sobre mim. — Ela agora estava séria e pensativa. — Por quase noventa anos, andei entre os meus, e entre os seus... o tempo todo pensando que eu era completa comigo mesma, sem perceber o que procurava. E sem encontrar nada, porque você ainda não estava vivo.
— Não parece justo — sussurrei no cabelo dela. — Não tive que esperar nada. Por que as coisas foram tão mais fáceis para mim?
— Tem razão — concordou ela. — Eu devia dificultar as coisas para você, sem dúvida. — Sua mão acariciou minha bochecha. — Você só tem que arriscar a vida a cada segundo que passa comigo, claro que não é muito. Tem que dar as costas para sua natureza, sua humanidade... que valor tem isso?
— Não me sinto privado de nada.
Ela virou o rosto para o meu peito e sussurrou:
— Ainda não.
— O quê...? — comecei a dizer, mas o corpo dela ficou imóvel de repente. Fiquei paralisado, mas ela sumiu, e meus braços ficaram abraçando o nada.
— Deite-se — sibilou ela, mas não consegui saber onde ela estava no escuro.
Deitei na cama de novo, abri a colcha e rolei para o lado, como costumava dormir. Ouvi a porta se abrir um pouco. Charlie estava dando uma espiada em mim.
Respirei tranquilamente, exagerando o movimento.
Passou-se um longo minuto. Prestei atenção no barulho da porta se fechando. De repente, Edythe estava ao meu lado. Ela levantou meu braço e o colocou em cima dos ombros enquanto se aninhava em mim.
— Você é péssimo ator. Eu diria que é uma carreira vetada para você.
— Lá se vão meus planos — murmurei.
Meu coração estava sendo irritante. Ela devia conseguir sentir além de ouvir, pulando dentro das minhas costelas como se pudesse escapar dali.
Ela cantarolou uma melodia que não reconheci. Parecia uma cantiga de ninar. Mas parou.
— Quer que eu cante para você dormir?
— Certo. — Eu ri. — Como se eu pudesse dormir com você aqui!
— Você faz isso o tempo todo — lembrou-me ela.
— Não com você aqui — discordei, apertando o braço ao redor dela.
— Faz sentido. Então, se não quer dormir, o que quer fazer?
— Sinceramente? Muitas coisas. Nenhuma delas é cuidadosa.
Ela não disse nada; não parecia que estava respirando.
Prossegui rapidamente.
— Mas, como prometi ser cuidadoso, eu gostaria de... saber mais sobre você.
— Me pergunte qualquer coisa. — Consegui ouvir que ela estava sorrindo agora.
Procurei a mais importante entre minhas perguntas.
— Por que você faz isso? — perguntei. — Ainda não entendo por que se esforça tanto para resistir ao que você... é. Não me entenda mal, é claro que fico feliz que resista. Nunca estive tão feliz de estar vivo. Só não vejo por que você se daria a esse trabalho.
Ela respondeu lentamente.
— É uma boa pergunta, e você não é o primeiro a fazê-la. Os outros, a maioria dos da nossa espécie que se satisfazem com o que são, eles também se perguntam como vivemos. Mas, veja bem, não é porque recebemos... um golpe do destino... que não podemos nos erguer acima disso, conquistar as fronteiras de um destino que nenhum de nós quis. Tentar reter a humanidade essencial que pudermos.
Fiquei deitado sem me mexer, meio impressionado.
Ela era uma pessoa melhor do que eu seria na vida.
— Dormiu? — sussurrou ela, baixinho depois de alguns minutos.
— Não.
— Estava curioso só sobre isso?
Revirei os olhos.
— Não.
— O que mais quer saber?
— Por que você consegue ler mentes, e só você? E Archie, que vê o futuro... Por que é assim?
Senti que ela dava de ombros debaixo do meu braço.
— Não sabemos realmente. Carine tem uma teoria... Ela acredita que todos trazemos para esta vida algumas de nossas características humanas mais fortes, e que elas se intensificam, como nossa mente e nossos sentidos. Ela acha que eu já devia ser muito sensível aos pensamentos dos que me cercavam. E que Archie já tinha algumas premonições, onde quer que estivesse.
— O que ela trouxe para a nova vida, e os outros?
— Carine trouxe sua compaixão. Earnest trouxe sua capacidade de amar apaixonadamente. Eleanor trouxe sua força, Royal, sua... tenacidade. Ou você pode chamar de teimosia. — Ele riu. — Jessamine é muito interessante. Ela foi muito carismática em sua primeira vida, capaz de influenciar quem estivesse por perto a ver as coisas da maneira dela. Agora, ela é capaz de manipular as emoções dos que o cercam, acalmar uma sala cheia de pessoas irritadas, por exemplo, ou excitar uma turba letárgica. É um dom muito sutil.
Pensei nas impossibilidades que ela descreveu, tentando apreendê-las. Ela esperou pacientemente enquanto eu pensava.
— Então, onde tudo começou? Quer dizer, Carine transformou você e antes alguém deve tê-la transformado, e assim por diante...
— Bom, de onde você veio? Da evolução? Da criação? Não podemos ter evoluído da mesma maneira que as outras espécies, predador e presa? Ou, se não acredita que tudo neste mundo simplesmente aconteceu sozinho, o que eu mesma tenho dificuldade de aceitar, é tão difícil acreditar que a mesma força que criou o delicado peixe-anjo e o tubarão, o bebê foca e a baleia assassina, possa ter criado nossas espécies juntas?
— Me deixe ver se entendi... Eu sou o bebê foca, não é?
— É. — Ela riu, e seus dedos tocaram meus lábios. — Você não está cansado? Foi um longo dia.
— Só tenho mais um milhão de perguntas.
— Temos amanhã, e depois de amanhã, e o dia seguinte...
Uma sensação de euforia, de alegria pura, encheu meu peito, até eu achar que poderia explodir. Não conseguia imaginar que houvesse um viciado em drogas no mundo que não trocaria a droga favorita por aquela sensação.
Demorei um minuto para conseguir falar de novo.
— Tem certeza de que não vai desaparecer de manhã? Afinal de contas, você é mítica.
— Não vou deixá-lo — prometeu ela, solenemente, e aquela mesma sensação, ainda mais forte do que antes, tomou conta de mim.
Quando consegui falar, eu disse:
— Mais uma, então, esta noite... — E o sangue subiu pelo meu pescoço. A escuridão não ajudou. Eu tinha certeza de que ela conseguia sentir o calor.
— O que é?
— Não, deixa pra lá. Mudei de ideia.
— Beau, pode me perguntar qualquer coisa.
Não respondi e ela gemeu.
— Fico achando que vai passar a ser menos frustrante não ouvir seus pensamentos. Mas está ficando cada vez pior.
— Já é bem ruim que você me ouça falar dormindo — murmurei.
— Por favor, me fale — murmurou ela, com a voz aveludada assumindo aquela intensidade hipnotizante à qual nunca consegui resistir.
Eu tentei. Balancei a cabeça.
— Se não me disser, vou supor que é algo muito pior do que é na realidade — ameaçou ela.
— Eu não devia ter tocado no assunto — falei, e travei os dentes.
Por favor. — Mais uma vez, a voz hipnótica.
Eu suspirei.
— Você não vai... se ofender?
— Claro que não.
Respirei fundo.
— Bem... obviamente, não sei muito o que é verdade sobre vampiros. — A palavra saiu acidentalmente. Eu estava tão concentrado em como fazer a pergunta, mas percebi o que disse e parei.
— Sim?
Ela parecia normal, como se a palavra não significasse nada.
Eu expirei de alívio.
— Tudo bem, quer dizer, só sei as coisas que você me contou, e parece que somos bastante... diferentes. Fisicamente. Você parece humana, só que melhor, mas não come nem dorme, sabe. Não precisa das mesmas coisas.
— É discutível em alguns níveis, mas há verdades no que você está dizendo. Qual é sua pergunta?
Eu respirei fundo.
— Me desculpe.
— Pergunte.
Eu falei de repente.
— Eu sou só um cara humano comum, e você é a garota mais bonita que já vi, e fico... inebriado por você, e parte disso, naturalmente, vem do fato de eu estar loucamente atraído por você, o que tenho certeza de que já reparou, considerando que você é superciente do meu sistema circulatório, mas o que não sei é se é assim com você também. Ou se é como dormir e comer, coisas de que você não precisa e eu, sim, apesar de eu não querer essas coisas tanto quanto quero você. Você disse que Eleanor e Royal se afastam e vivem como casados, mas isso quer dizer a mesma coisa para os vampiros? E essa pergunta é totalmente imprópria, inadequada para um primeiro encontro, e peço desculpas, não precisa responder.
Eu inspirei fundo.
— Humm... eu diria que é nosso segundo encontro.
— Você está certa.
Ela riu.
— Você está me perguntando sobre sexo, Beau?
Meu rosto ficou quente de novo.
— Estou. E não deveria ter perguntado.
Ela riu de novo.
— Eu subi na sua cama, Beau. Acho que torna sua linha de questionamento bem compreensível.
— Mas continua não precisando responder.
— Eu falei que você podia perguntar qualquer coisa. — Ela fez uma pausa, e sua voz ficou diferente. Meio formal, como uma professora dando aula. — Então... no sentido geral, Sexo e Vampiros nível básico. Todos nós começamos como humanos, Beau, e a maioria dos desejos humanos ainda está presente, só oculta por trás de desejos poderosos. Mas não sentimos sede o tempo todo e costumamos formar... laços muito fortes. Físicos e emocionais. Royal e Eleanor são como qualquer casal humano atraído um pelo outro, e com isso quero dizer que é muito, muito irritante para os que precisam morar com eles e ainda mais para quem consegue ouvir o que pensam.
Eu ri baixinho, e ela também.
— Constrangedor — murmurei.
— Você não faz ideia — disse ela de forma sóbria, e suspirou. — E agora, no sentido específico... Sexo e Vampiros, nível intermediário, Beau e Edythe. — Ela suspirou de novo, mais devagar dessa vez. — Acho... que não vai ser possível para nós.
— Porque eu teria que chegar... perto demais? — deduzi.
— Isso seria um problema, mas não o principal. Beau, você não sabe o quanto... você é frágil. Não falo como insulto à sua masculinidade, qualquer pessoa humana é frágil para mim. Tenho que calcular meus atos a cada momento em que estamos juntos para não machucá-lo. Eu poderia matá-lo com facilidade, simplesmente por acidente.
Pensei nas primeiras vezes que ela me tocou, no quanto se moveu com cautela, como pareceu assustá-la. Que ela me pedia para mover a mão em vez de puxar a dela... Agora, ela colocou a palma da mão na minha bochecha.
— Se eu me precipitasse demais... se estivesse distraída, poderia estender a mão querendo tocar seu rosto e esmagar seu crânio por engano. Você não percebe como é incrivelmente quebradiço. Não posso me dar ao luxo de perder o mínimo controle quando estou com você.
Se a vida dela estivesse nas minhas mãos assim, eu já a teria matado? Encolhi-me com a ideia.
— Acho que eu poderia perder a concentração com facilidade com você — murmurou ela.
— Eu nunca não perco a concentração com você.
— Posso perguntar uma coisa agora, uma coisa potencialmente ofensiva?
— É sua vez.
— Você tem alguma experiência com sexo e humanos?
Fiquei um pouco surpreso do meu rosto não ficar quente de novo. Parecia natural contar tudo para ela.
— Nem um pouco. Tudo isso é primeira vez para mim. Já falei, nunca senti isso por ninguém antes, nem perto disso.
— Eu sei. É que fico ouvindo o que outras pessoas pensam. Sei que o amor e o desejo nem sempre andam de mãos dadas.
— Para mim, andam.
— Que bom. Temos isso em comum, pelo menos.
— Ah.
Quando ela estava falando antes que costumamos formar laços muito fortes, físicos e emocionais, não consegui deixar de me perguntar se estava falando por experiência. Percebi que fiquei surpreendentemente aliviado de saber que não era esse o caso.
— Então você perde a concentração comigo?
— Sem dúvida. — Ela estava sorrindo de novo. — Você quer que eu diga o que me faz perder a concentração?
— Não precisa.
— Foram seus olhos primeiro. Você tem olhos lindos, Beau, como um céu sem nuvens. Passei a vida toda em climas chuvosos e costumo sentir falta do céu, mas não quando estou com você.
— Hã. Obrigado?
Ela riu.
— Não estou sozinha. Seis das suas dez admiradoras começaram com seus olhos também.
— Dez?
— Nem todas são tão desinibidas quanto Taylor e McKayla. Quer uma lista? Você tem opções.
— Acho que você está tirando sarro com a minha cara. E, de qualquer modo, não há opções. — E jamais haveria.
— Depois, foram seus braços. Eu gosto muito dos seus braços, Beau. Isso inclui seus ombros e suas mãos. — Ela passou a mão pelo meu braço, depois até o ombro e de volta até a mão. — Ou talvez tenha sido o seu queixo a segunda coisa... — Ela levou os dedos ao meu rosto, como se achasse que eu podia não saber o que ela queria dizer. — Não tenho certeza absoluta. Isso tudo me pegou de surpresa quando percebi que, além de achar você delicioso, também acho você lindo.
Meu rosto e meu pescoço ficaram quentes. Eu sabia que não podia ser verdade, mas, no momento, ela foi bem convincente.
— Ah, e eu nem falei do seu cabelo. — Ela passou os dedos pela minha cabeça.
— Tudo bem, agora eu sei que você está debochando.
— Não estou mesmo. Você sabia que seu cabelo é do mesmo tom de um teto coberto de teca em um monastério no qual fiquei uma vez? Acho que fica no que agora é o Camboja.
— Hã, não, não sabia. — Bocejei involuntariamente.
Ela riu.
— Respondi a sua pergunta satisfatoriamente?
— Er, sim.
— Então você devia dormir.
— Não sei se consigo.
— Quer que eu vá embora?
— Não! — falei, um pouco alto demais.
Ela riu, depois começou a cantarolar a mesma cantiga desconhecida. A voz dela era como a de um anjo, suave em meu ouvido.
Mais cansado do que tinha percebido, exausto de um dia de estresse mental e emocional que nunca sentira antes, resvalei para o sono com o corpo frio dela nos braços.

7 comentários:

  1. Gostei dessa parte. Estranho mais legal.

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  2. Desculpa, mas só eu lendo essa conversa pensei como seria a versão deles de Amanhecer?
    www.vitoriacholanda.com

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    1. hahahhahaha... Estou pedindo mentalmente por essa versão!!!! Pense!

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  3. Está começando a melhorar, q bom q n parei de ler :)

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  4. Gente, eu to aq m perguntando: se o corpo das vampiras n muda pr poder gerar um filho, como é q eles dois vão tr uma filha hibrida (axo q é filho hibrido nesse caso)? Axo q altora vai tr q cortar essa parte e a batalha cntr os volturi... q coisa... vamos perder metade da historia de amanhecer...

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    1. Pois é, não haverá Renesmee nesta versão. A história é diferente

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