15 de janeiro de 2016

Capítulo 13 - Confissões

De olhos fechados, Edythe andou cegamente para a luz.
Meu coração pulou na garganta e saí correndo na direção dela.
— Edythe!
Só quando os olhos dela se abriram e cheguei perto o bastante para começar a entender o que estava vendo foi que percebi que ela não estava pegando fogo. Ela levantou a mão de novo, com a palma voltada para mim, e eu parei cambaleando, quase caindo de joelhos.
A luz ardia na pele dela, dançava em arco-íris prismáticos pelo rosto e pescoço, pelos braços. Ela brilhava tanto que precisei apertar os olhos, como se estivesse tentando olhar para o sol.
Pensei em cair de joelhos de propósito. Esse era o tipo de beleza que se venerava. O tipo pela qual templos eram construídos e sacrifícios eram oferecidos. Desejei ter alguma coisa nas mãos vazias para dar para ela, mas o que uma deusa queria de um mortal medíocre feito eu?
Demorei um tempo para ver além da incandescência e enxergar a expressão no rosto dela. Ela estava me observando com olhos arregalados; quase parecia que estava com medo de alguma coisa. Dei um passo na direção dela, que se encolheu de leve.
— Isso machuca você? — sussurrei.
— Não — sussurrou ela, em resposta.
Dei outro passo em sua direção; ela era o ímã de novo, e eu era só um pedaço inerte de metal. Ela baixou a mão ao lado do corpo. Enquanto ela se mexia, o brilho cintilou pelo braço. Lentamente, andei ao redor dela, mantendo certa distância, só precisando absorver isso, vê-la de todos os ângulos. O sol brincava na pele dela, refletia e ampliava cada cor que a luz podia abrigar. Meus olhos estavam se ajustando e se arregalaram, maravilhados. Eu sabia que ela tinha escolhido as roupas com cautela, que estava determinada a me mostrar isso, mas a forma como ela estava agora, com os ombros tensos, as pernas firmes, fez com que eu fosse me perguntasse se ela não estava em dúvida da decisão agora.
Terminei meu círculo e atravessei os poucos metros entre nós. Não conseguia parar de olhar, não conseguia nem piscar.
— Edythe — murmurei.
— Está com medo agora? — sussurrou ela.
— Não.
Ela olhou com curiosidade nos meus olhos, tentando ouvir o que eu estava pensando.
Estiquei a mão para ela, deliberadamente devagar, observando o rosto dela em busca de permissão. Seus olhos se abriram ainda mais, e ela ficou paralisada.
Cuidadosa e lentamente, rocei os dedos na pele cintilante do braço dela. Fiquei surpreso de ver que continuava fria, como sempre. Enquanto meus dedos tocavam nela, os reflexos brilharam na minha pele, e, de repente, minha mão não era mais medíocre. Ela era tão impressionante que conseguia até me deixar menos comum.
— O que você está pensando? — sussurrou ela.
Eu me esforcei para encontrar palavras.
— Estou... Eu não sabia... — Respirei fundo, e as palavras finalmente saíram. — Nunca vi nada tão bonito, nunca imaginei que uma coisa tão bonita pudesse existir.
Seus olhos ainda estavam cautelosos. Como se ela achasse que eu estava dizendo o que achava que ela queria ouvir. Mas era a pura verdade, talvez a coisa mais verdadeira e não censurada que já disse na vida. Eu estava impressionado demais para filtrar ou fingir.
Ela começou a levantar a mão, mas a baixou. O brilho tremeu.
— Mas é muito estranho — murmurou ela.
— Incrível — sussurrei.
— Você não sente repulsa por minha evidente falta de humanidade?
Eu balancei a cabeça.
— Repulsa, não.
Ela apertou os olhos.
— Mas deveria.
— Estou achando que a humanidade é valorizada demais.
Ela puxou o braço de debaixo dos meus dedos e o levou às costas. Em vez de seguir a dica, dei meio passo para mais perto dela, consegui sentir o brilho refletido no meu rosto.
De repente, ela estava a três metros de mim, com a mão de alerta levantada de novo e o maxilar trincado.
— Desculpe — falei.
— Preciso de um tempo — disse ela.
— Vou tomar mais cuidado.
Ela assentiu, andou para o meio da campina, fazendo um pequeno arco quando passou por mim, mantendo os três metros entre nós. Sentou-se de costas para mim, com a luz do sol incandescente nas omoplatas, me fazendo pensar em asas de novo. Cheguei mais perto lentamente, depois me sentei de frente para ela a um metro e meio de distância.
— Assim está bom?
Ela assentiu, mas não pareceu ter certeza.
— Só me deixe... me concentrar.
Fiquei em silêncio, e, depois de alguns segundos, ela fechou os olhos de novo. Não me incomodei com isso. Vê-la assim não era algo de que eu podia me cansar. Eu a observei, tentando entender o fenômeno, e ela me ignorou.
Meia hora depois, ela se deitou de repente na grama com a mão atrás da cabeça. A grama estava longa o bastante para obscurecer minha vista parcialmente.
— Posso...? — perguntei.
Ela bateu no chão ao lado do corpo.
Cheguei um pouco mais perto, e, como ela não protestou, cheguei ainda mais alguns centímetros. Os olhos dela ainda estavam fechados, as pálpebras cintilando em um lilás pálido sobre os cílios escuros. O peito subia e descia regularmente, quase como se ela estivesse dormindo, só que havia uma certa ideia de esforço e controle no movimento. Ela parecia muito ciente do processo de inspirar e expirar.
Sentei-me com as pernas cruzadas, os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. Estava muito quente, a sensação do sol na minha pele estava estranha agora que eu estava tão acostumado com a chuva, e a campina continuava linda, mas era só pano de fundo agora. Não se destacava. Eu tinha uma nova definição de beleza.
Os lábios dela se mexeram, e a luz cintilou neles enquanto quase... tremiam. Achei que ela estava falando, mas as palavras estavam baixas e rápidas demais.
— Você... disse alguma coisa? — sussurrei.
Ficar sentado ao lado dela assim, vendo-a brilhar, me fez sentir necessidade de silêncio. De reverência até.
— Só estou cantando sozinha — murmurou ela. — Me acalma.
Não nos movemos por muito tempo, exceto pelos lábios dela, de vez em quando cantando baixo demais para que eu ouvisse. Uma hora se passou, talvez mais. Gradualmente, a tensão que não percebi totalmente no começo foi sumindo, até que tudo ficou tão pacífico que quase senti sono. Cada vez que eu mexia o corpo, acabava um centímetro mais próximo dela.
Eu me inclinei para perto, observei a mão dela e tentei encontrar as facetas na pele lisa. Sem nem pensar, estiquei um dedo e acariciei as costas da mão, impressionado de novo com a textura lisa de cetim, fria como pedra. Senti os olhos dela em mim e ergui o rosto, o dedo congelado.
Os olhos dela estavam pacíficos e ela ainda estava sorrindo.
— Continuo não assustando você, não é?
— Não. Desculpe.
Ela abriu o sorriso ainda maior. Os dentes brilharam no sol.
Cheguei mais perto ainda, estiquei a mão inteira e acompanhei a forma do antebraço com as pontas dos dedos. Vi que meus dedos estavam tremendo. Os olhos dela se fecharam de novo.
— Você se importa? — perguntei.
— Não. Você não pode imaginar qual é a sensação.
Passei a mão de leve na estrutura delicada do braço dela, seguindo o padrão claro de veias azuladas dentro da dobra do cotovelo. Fui virar a mão dela, e quando ela percebeu o que eu queria, virou a palma para cima em um movimento tão rápido que não existiu. Meus dedos pararam.
— Desculpe — murmurou ela, e sorriu porque a fala era minha. Suas pálpebras se fecharam de novo. — É fácil demais ser eu mesma com você.
Eu levantei a mão dela, virei de um lado para o outro enquanto olhava o sol cintilar na palma. Levantei bem perto do rosto, tentando de novo encontrar as facetas.
— Me conte o que está pensando — sussurrou ela. Estava me olhando de novo, os olhos mais claros do que eu já tinha visto. Cor de mel pálido. — Ainda é estranho para mim essa coisa de não saber.
— O resto de nós sente isso o tempo todo, sabe.
— Que vida difícil — disse ela, e havia uma nota de desamparo no tom dela. — Mas você não me contou.
— Eu estava desejando saber o que você estava pensando...
— E?
— E desejando conseguir acreditar que você é real. Tenho medo...
— Não quero que você tenha medo. — A voz dela foi um murmúrio. Nós dois ouvimos o que ela não disse, que eu não precisava ter medo, que não havia nada a temer.
— Não é desse tipo de medo que estou falando.
Tão rápido que não vi o movimento, ela se apoiou no braço direito, ainda com a palma esquerda nas minhas mãos. O rosto de anjo estava a poucos centímetros do meu. Eu devia ter me inclinado para longe. Era para eu tomar cuidado.
Os olhos de mel ardiam.
— Então de que você tem medo? — sussurrou ela.
Não consegui responder. Senti o hálito doce e frio no rosto, como só tinha sentido uma vez antes. Sem pensar, me inclinei para mais perto e inspirei.
E ela sumiu, arrancando a mão das minhas tão rápido que ardeu. No tempo que meus olhos levaram para focalizar, ela estava a seis metros de distância, na beirada da pequena campina, à sombra de um pinheiro. Ficou me olhando com os olhos escuros nas sombras, a expressão ilegível.
Consegui sentir o choque no meu rosto e minhas mãos ardendo.
— Edythe. Me... desculpe. — Minha voz saiu só um sussurro, mas eu sabia que ela conseguia me ouvir.
— Me dê um momento — pediu ela, alto o bastante para meus ouvidos menos sensíveis.
Fiquei bem parado.
Depois de dez longos segundos, ela voltou, bem devagar para os padrões dela. Parou quando ainda estava a alguns metros e se sentou graciosamente no chão, cruzando as pernas. Os olhos não desviaram dos meus. Ela respirou fundo duas vezes e sorriu em um pedido de desculpas.
— Lamento muito. — Ela hesitou. — Você entenderia o que quero dizer se eu dissesse que fui apenas humana?
Assenti uma vez, sem conseguir sorrir com a piada dela. A adrenalina pulsava em minhas veias enquanto eu me dava conta do que tinha acabado de acontecer. Ela era capaz de sentir o cheiro de onde estava sentada. Seu sorriso ficou debochado.
— Sou o melhor predador do mundo, não sou? Tudo em mim é convidativo para você... minha voz, meu rosto, até meu cheiro. Como se eu precisasse de qualquer uma dessas coisas!
De repente, ela não passava de uma mancha. Eu pisquei e ela sumiu; em seguida, estava debaixo da mesma árvore de antes, depois de contornar a campina toda em uma fração de segundo.
— Como se pudesse correr mais rápido do que eu — disse ela, amargamente.
Pulou três metros e meio de altura, pegou um galho de sessenta centímetros de espessura e arrancou do tronco sem sinal de esforço. Estava de volta ao chão no mesmo instante, balançando a lança enorme e retorcida na mão por um momento. Depois, com velocidade cegante, o girou com uma das mãos, como um taco, acertando a árvore da qual o tinha arrancado.
Com um bum explosivo, o galho e a árvore se partiram ao meio.
Antes mesmo que eu tivesse tempo de me encolher por causa do barulho, antes mesmo de a árvore cair no chão, ela estava na minha frente de novo, parada a meio metro, imóvel como uma escultura.
— Como se pudesse lutar comigo — disse ela delicadamente.
Atrás dela, o som da árvore caindo no chão ecoou pela floresta.
Eu nunca a tinha visto tão completamente livre da cuidadosa fachada humana. Ela nunca esteve menos humana... nem mais linda. Não consegui me mexer, como uma ave presa pelos olhos de uma serpente.
Seus olhos pareciam brilhar de empolgação. Depois, com o passar dos segundos, o brilho diminuiu. Sua expressão aos poucos se transformou em uma máscara de tristeza. Ela parecia prestes a chorar, e me esforcei para ficar de joelhos e esticar uma das mãos para ela.
Ela esticou a mão em sinal de alerta.
— Espere.
Eu parei de novo.
Ela deu um passo na minha direção.
— Não tenha medo — murmurou, a voz de veludo involuntariamente sedutora. — Eu prometo... — Ela hesitou. — Eu juro que não vou machucar você.
Ela parecia mais preocupada em convencer a si mesma do que a mim.
— Não precisa ter medo — sussurrou ela novamente enquanto se aproximava, com uma lentidão exagerada.
Ela parou a trinta centímetros e tocou delicadamente a minha mão que ainda estava esticada. Envolvi a dela, com firmeza.
— Perdoe-me, por favor — pediu, formalmente. — Eu consigo me controlar. Você me pegou desprevenida. Mas agora estou me comportando melhor.
Ela esperou que eu respondesse, mas só fiquei ajoelhado na frente dela, olhando, com o cérebro totalmente confuso.
— Hoje não estou com sede, é sério. — Ela piscou.
Com essa, eu tive que rir, embora o som saísse meio ofegante.
— Você está bem? — perguntou ela, estendendo o braço lenta e cuidadosamente para colocar a outra mão em cima da minha.
Olhei a mão macia de mármore e depois os olhos dela. Estavam suaves e arrependidos, mas ainda consegui ver tristeza neles.
Abri um sorriso tão largo que minhas bochechas doeram. Seu sorriso em resposta foi estonteante.
Com um movimento deliberadamente lento e sinuoso, ela se sentou no chão e cruzou as pernas. Desajeitado, eu a imitei, até estarmos de frente um para o outro, os joelhos se tocando e as mãos ainda unidas entre nós.
— Então onde estávamos mesmo, antes de eu me comportar de forma tão rude?
— Sinceramente, não faço ideia.
Ela sorriu, mas sua expressão era de vergonha.
— Acho que estávamos falando sobre por que você tinha medo, além do motivo óbvio.
— Ah, sim.
— E então?
Olhei para nossas mãos e virei a minha para que a luz brilhasse pela dela.
— Como me frustro com facilidade. — Ela suspirou.
Olhei em seus olhos, de repente entendendo que tudo isso era tão novo para ela como era para mim. Mesmo com os muitos anos de experiência que ela teve antes de nos conhecermos, também era difícil para ela. Isso me deu coragem.
— Eu estava com medo... porque, bom, por motivos óbvios, não posso ficar com você, posso? E é o que quero, muito mais do que deveria.
— Sim — concordou ela lentamente. — Ficar comigo não é vantajoso para você.
Franzi a testa.
— Eu devia ter ido embora naquele primeiro dia e não ter voltado. Devia ir embora agora. — Ela balançou a cabeça. — Eu talvez conseguisse naquele momento. Não sei como conseguir agora.
— Não vá. Por favor.
O rosto dela se crispou.
— Não se preocupe. Sou essencialmente uma criatura egoísta. Desejo demais sua companhia para fazer o que deveria.
— Que bom!
Ela fez uma expressão irritada, soltou minhas mãos com cuidado e cruzou os braços. A voz soou mais áspera quando ela voltou a falar.
— Nunca esqueça que não é só sua companhia que eu desejo. Jamais esqueça que sou mais perigosa para você do que para qualquer outra pessoa. — Ela ficou com um olhar perdido voltado para a floresta.
Pensei por um momento.
— Acho que não entendo exatamente o que você quer dizer com essa última parte.
Ela olhou para mim e sorriu, seu humor imprevisível mudando novamente.
— Como posso explicar? E sem horrorizar você?
Sem parecer pensar, ela pegou minha a mão novamente. Eu a segurei com força. Ela olhou nossas mãos.
— É incrivelmente agradável, o calor.
Passou-se um minuto enquanto ela parecia estar organizando os pensamentos.
— Todo mundo gosta de sabores diferentes, certo? — começou ela. — Algumas pessoas adoram sorvete de chocolate, outras preferem morango.
Eu assenti.
— Desculpe pela analogia com comida. Não consegui pensar em outra forma de explicar.
Eu sorri. Ela também sorriu, mas com tristeza.
— Veja bem, cada pessoa tem um cheiro próprio, tem uma essência própria... Se você trancar uma alcoólatra em uma sala cheia de cerveja choca, ela beberia. Mas poderia resistir, se quisesse, se fosse uma alcoólatra em recuperação. Agora digamos que você colocasse naquela sala uma taça de conhaque de cem anos, o conhaque mais raro e mais refinado, e enchido a sala com seu aroma quente. Como pensa que nossa alcoólatra se comportaria?
Ficamos sentados em silêncio por um minuto, nos encarando, tentando ler os pensamentos um do outro.
Ela foi a primeira a romper o silêncio.
— Talvez essa não seja a comparação correta. Talvez seja fácil demais rejeitar o conhaque. Talvez eu deva fazer de nossa alcoólatra uma viciada em heroína.
— Então o que está dizendo é que sou seu tipo preferido de heroína? — questionei num tom de brincadeira, tentando deixar o clima mais leve.
Ela sorriu rapidamente, parecendo gostar do meu esforço.
— Sim, você é exatamente meu tipo preferido de heroína.
— Isso acontece com frequência? — perguntei.
Ela olhou para a copa das árvores, pensando na resposta.
— Falei com minhas irmãs sobre isso. — Ele ainda olhava fixamente a distância. — Para Jessamine, todos vocês são a mesma coisa. Ela é a mais nova em nossa família. É uma luta para ela se privar de tudo isso. Não teve tempo para desenvolver a sensibilidade às diferenças de cheiro, de sabor. — Ela olhou rapidamente para mim. — Desculpe.
— Tudo bem. Olhe, não tenha medo de me ofender, nem de me horrorizar, o que for. É assim que você pensa. Consigo entender, ou pelo menos posso tentar. Só explique da forma que faz sentido para você.
Ela respirou fundo e olhou para trás de mim.
— Então Jessamine não tem certeza se já se deparou com alguém que fosse tão... — Ela hesitou, procurando a palavra certa — Atraente como você é para mim. O que me faz pensar que não. — Ela olhou para mim. — Ela se lembraria disso.
Ela afastou o olhar de novo.
— Eleanor está na estrada há mais tempo, por assim dizer, e entendeu o que eu quis dizer. Disse que foram duas vezes com ela, uma mais forte do que a outra.
— E com você?
— Nunca até agora.
Ficamos nos olhando de novo. Dessa vez, eu quebrei o silêncio.
— O que Eleanor fez?
Foi a pergunta errada. Ela se encolheu, e seu rosto pareceu torturado de repente. Esperei, mas ela não acrescentou nada.
— Tudo bem, acho que foi uma pergunta idiota.
Ela ficou me olhando de um jeito que suplicava por compreensão.
— Até o mais forte de nós fraqueja, não é?
— Você... está pedindo minha permissão? — sussurrei. Um arrepio percorreu minha espinha, e não teve nada a ver com minhas mãos geladas.
Ela arregalou os olhos em choque.
— Não!
— Mas você está dizendo que não há esperança, certo?
Eu sabia que não era normal encarar a morte assim sem nenhum sentimento de medo. Não que eu fosse supercorajoso, eu sabia que não era. Mas minha escolha não seria diferente, mesmo sabendo que terminaria assim.
Ela fez cara de raiva de novo, mas eu achava que não era comigo.
— Claro que há esperança. Claro que não vou... — Ela deixou a frase no ar. Os olhos pareciam estar queimando os meus fisicamente. — É diferente para nós. Eleanor... foram estranhos que ela encontrou por acaso. Foi há muito tempo. Ela não tinha tanta prática, tanto cuidado, como tem agora. E ela nunca foi tão boa nisso quanto eu sou.
Ela fez silêncio e me observou intensamente enquanto eu pensava.
— Então, se tivéssemos nos encontrado... hã, em um beco escuro ou coisa parecida...
— Precisei de tudo que eu tinha, de todos os anos de prática e sacrifício e esforço, para não pular no meio daquela sala cheia de jovens e... — Ela parou de falar, desviando os olhos. — Quando você passou por mim, eu podia ter estragado tudo o que Carine construiu para nós naquele exato momento. Se não tivesse renegado minha sede pelos últimos... muitos anos, eu não teria sido capaz de me refrear.
Ela olhou para mim melancolicamente, nós dois nos lembrando.
— Você deve ter pensado que eu estava possuída.
— Eu não entendi o motivo. Como você podia me odiar, do nada...
— Para mim, foi como se você fosse uma espécie de demônio, conjurado de meu inferno pessoal para me arruinar. A fragrância que vinha de sua pele... Pensei que me enlouqueceria naquele primeiro dia. Naquela hora, pensei em cem maneiras diferentes de atrair você para fora da sala comigo, para ficar sozinha com você. E combati cada uma delas, pensando em minha família, no que eu estaria fazendo a eles. Tive que fugir, sair dali antes que pudesse pronunciar as palavras que o fariam me seguir...
Ela olhou para mim, seus olhos dourados ardendo sob os cílios, hipnótica e mortal.
— Você teria ido — garantiu ela.
Tentei falar calmamente.
— Sem dúvida nenhuma.
Ela olhou com a testa franzida para as nossas mãos.
— E depois, enquanto eu tentava reorganizar meu horário numa tentativa insensata de evitá-lo, você apareceu ali. Naquela sala quente e apertada, o cheiro foi enlouquecedor. Foi por muito pouco que não o peguei ali mesmo. Só havia outro ser humano frágil na sala. Teria sido tão fácil.
Foi tão estranho ver minhas lembranças novamente, mas dessa vez com legendas. Compreendendo pela primeira vez o que tudo queria dizer, compreendendo o perigo. Coitado do Sr. Cope. Tremi novamente ao pensar em como estive perto de ser inadvertidamente responsável por sua morte.
— Mas resisti. Não sei como. E me obriguei a não esperar você, não o seguir na saída da escola. Era mais fácil do lado de fora, quando não conseguia mais sentir seu cheiro, pensar com clareza, tomar a decisão certa. Deixei os outros perto de casa. Senti vergonha demais para dizer a eles como eu era fraca, eles só souberam que alguma coisa estava errada. E fui direto procurar Carine no hospital, para lhe dizer que iria embora.
Eu a encarei, surpreso.
— Troquei de carro com ela. Ela estava com o tanque cheio de gasolina e eu estava com medo de parar. Não ousei ir para casa e enfrentar Earnest. Ele não me deixaria ir sem brigar. Tentaria me convencer de que não era necessário... Na manhã seguinte, eu estava no Alasca.
Ela pareceu envergonhada, como se estivesse admitindo uma grande covardia.
— Passei dois dias lá, com alguns velhos conhecidos... mas fiquei com saudade de casa. Odiava saber que tinha aborrecido Earnest, e o resto deles, minha família adotiva. No ar puro das montanhas era difícil acreditar que você fosse tão irresistível. Convenci a mim mesma de que era fraqueza fugir. Eu havia lidado com tentações antes, não dessa magnitude, nem perto disso, mas eu era forte. Quem era você, um garoto humano insignificante — ela sorriu de repente — para me tirar do lugar em que eu queria estar? Ah, o pecado mortal do orgulho. — Ela balançou a cabeça. — Então, eu voltei...
Eu não consegui falar.
— Tomei precauções, caçando, me alimentando mais do que de costume antes de ver você de novo. Tinha certeza de que era forte o bastante para tratá-lo como trataria qualquer outro ser humano. Fui arrogante com relação a isso. Foi uma complicação inquestionável eu não conseguir simplesmente ler seus pensamentos para saber qual era sua reação a mim. Não estava acostumada a ter que chegar a medidas tão tortuosas, ouvir suas palavras na mente de Jeremy... A mente dele não é muito original, e era irritante ter que condescender com isso. E eu não tinha como saber se você realmente queria dizer o que dizia ou se estava dizendo o que achava que a plateia queria ouvir. Era tudo extremamente irritante.
Ela franziu o cenho ao se lembrar disso.
— Eu queria que você esquecesse meu comportamento naquele primeiro dia, se possível, então tentei falar com você como falaria com qualquer pessoa. Estava ansiosa, na verdade, esperando decifrar parte de seus pensamentos. Mas você era interessante demais. Eu me vi vítima de suas expressões... e, de vez em quando, você se mexia, e o ar se agitava ao seu redor... O aroma me atordoava de novo...
“É claro que depois você quase morreu esmagado diante de meus olhos. Mais tarde, pensei em uma desculpa perfeita para eu ter agido naquele momento; porque, se eu não tivesse salvado você, se seu sangue fosse derramado na minha frente, acho que eu não conseguiria me impedir de expor o que nós somos. Mas só pensei nessa desculpa depois. Na hora, só no que eu pensava era: Ele não.
Ela fechou os olhos, com expressão angustiada. Por bastante tempo, ficou em silêncio. Esperei com ansiedade, o que não devia ser a reação mais inteligente. Mas foi um alívio finalmente entender a outra metade da história.
— No hospital? — perguntei.
Seus olhos lampejaram para os meus.
— Eu fiquei atordoada. Não conseguia acreditar que afinal havia nos colocado em risco, havia colocado a mim mesma em seu poder... Justo você. Como se eu precisasse de outro motivo para matá-lo. — Nós dois nos encolhemos à menção da palavra, e ela continuou rapidamente. — Mas o desastre teve o efeito contrário. Eu briguei com Royal, Eleanor e Jessamine quando eles sugeriram que estava na hora... a pior briga que tivemos. Carine ficou do meu lado, e Archie também. — Ela franziu a testa quando disse o nome dele. Não consegui entender por quê. — Earnest me disse para fazer o que fosse preciso para ficar.
Ela sacudiu a cabeça com condescendência.
— Por todo o dia seguinte, ouvi a mente de todos que falaram com você, chocada por você ter cumprido sua palavra. Eu não o entendia. Mas sabia que não podia me envolver mais com você. Fiz o máximo que pude para ficar o mais longe possível. E, todo dia, o perfume de sua pele, de seu hálito... me atingia com a mesma intensidade do primeiro dia.
Ela encontrou meus olhos de novo, e os dela estavam surpreendentemente ternos.
— E, por tudo isso — continuou ela —, eu teria feito melhor se tivesse mesmo exposto a nós todos naquele primeiro momento, do que se agora, aqui, sem testemunhas nem nada que me impeça, eu viesse a machucar você.
— Por quê?
— Ah, Beau. — Ela tocou na minha bochecha de leve com as pontas dos dedos. Um choque percorreu meu corpo com esse toque despreocupado. — Beau, eu não sobreviveria se o ferisse. Você não sabe como isso me tortura. — Ela baixou os olhos, novamente envergonhada. — Pensar em você, imóvel, lívido, frio... nunca mais vê-lo corar de novo, nunca mais ver esse lampejo de intuição em seus olhos quando você enxerga através de meus fingimentos... Seria insuportável. — Ela ergueu os gloriosos olhos angustiados para os meus. — Você é, agora, a coisa mais importante do mundo para mim. A mais importante de toda a minha vida.
Minha cabeça girava com a mudança rápida de direção.
Minutos antes, eu achava que estávamos falando sobre minha morte iminente. Agora, de repente, estávamos nos declarando.
Segurei a mão dela com mais força e olhei nos olhos dourados.
— Você já sabe o que eu sinto. Estou aqui porque prefiro morrer com você a viver sem você. — Percebi o quanto isso soava melodramático. — Me desculpe, sou um idiota.
— Você é mesmo um idiota — concordou ela com uma risada, e ri junto.
A situação toda era idiotice. E impossibilidade e magia.
— E então, o leão se apaixonou pelo cordeiro — murmurou ela. A palavra foi como outro choque elétrico no meu corpo.
Tentei disfarçar minha reação.
— Que cordeiro imbecil.
Ela suspirou.
— Que leão masoquista e doentio.
Ela olhou a floresta por um longo momento e eu me perguntei o que estava pensando.
— Por quê...? — comecei, mas parei, sem ter certeza de como continuar.
Ela olhou para mim e sorriu; o sol reluzia em seu rosto, em seus dentes.
— Sim?
— Diga por que fugiu de mim antes.
O sorriso dela desapareceu.
— Você sabe por quê.
— Não, quer dizer, exatamente o que eu fiz de errado? Preciso aprender a tornar isso mais fácil para você, tenho que saber o que devo e o que não devo fazer. Isto, por exemplo — eu afaguei o pulso dela com o polegar — parece não fazer mal nenhum.
— Você não fez nada de errado, Beau. A culpa foi minha.
— Mas eu quero ajudar.
— Bom... — Ela pensou por um momento. — Foi a proximidade. A maioria dos humanos se afasta por instinto, se sente repelida por nossa estranheza... Eu não esperava que você chegasse tão perto. E o cheiro de seu pescoço... — Ela parou de repente, olhando para verificar se tinha me perturbado.
— Tudo bem. — Eu baixei o queixo. — Nada de exposição de pescoço.
Ela sorriu.
— Não, é sério, foi mais a surpresa do que qualquer outra coisa.
Ela ergueu a mão livre e a colocou delicadamente em meu pescoço. Fiquei imóvel, reconhecendo que o arrepio de seu toque era para ser um alerta natural e me perguntando por que não conseguia sentir isso. O que eu sentia era bem diferente.
— Está vendo? — disse ela. — Tudo está perfeitamente bem.
Meu sangue estava disparado, e eu queria poder reduzir a velocidade. Devia tornar tudo muito mais difícil para ela, o martelar de minha pulsação nas veias.
— Adoro isso — murmurou ela.
Ela soltou gentilmente a outra mão. Minhas mãos caíram inertes no colo. Suavemente, ela passou a mão no ponto quente na minha bochecha, depois segurou meu rosto entre as mãos pequenas e frias.
— Fique completamente parado — sussurrou ela.
Fiquei paralisado quando ela se inclinou para cima de mim de repente, encostou a bochecha no meu peito e ouviu meu coração. Consegui sentir o gelo da pele dela pela camiseta fina. Com lentidão deliberada, as mãos dela foram até meus ombros e seus braços envolveram meu pescoço, me segurando com firmeza. Escutei o som da respiração cuidadosa e regular, que parecia estar acompanhando meus batimentos. Uma inspiração para cada três batidas, uma expiração para cada outras três.
— Ah — disse ela.
Não sei quanto tempo ficamos sentados sem nos mexer. Podiam ter sido horas. Por fim, o latejar da minha pulsação se aquietou. Eu sabia que a qualquer momento isso podia ser demais e minha vida chegaria ao fim, tão rapidamente que eu talvez nem sequer percebesse. Mas ainda não sentia medo. Não conseguia pensar em nada, a não ser que ela estava me tocando.
E então, cedo demais, ela soltou os braços do meu pescoço e se afastou. Seus olhos estavam tranquilos de novo.
— Não vai ser mais tão difícil — disse ela com satisfação.
— Foi muito difícil para você?
— Não tanto quanto eu imaginei. E para você?
— Não, não foi... ruim para mim.
Nós sorrimos um para o outro.
— Aqui. — Ela pegou minha mão, com facilidade, como se não precisasse nem pensar, e a colocou em seu rosto. — Sente como me deixou quente?
E estava quase quente, sua pele normalmente gélida. Mas mal percebi, porque tocava seu rosto, algo com que sonhava e fantasiava constantemente desde o primeiro dia que a vi.
— Não se mexa — sussurrei.
Ninguém ficava parado como um vampiro. Ela fechou os olhos e virou uma estátua.
Eu me mexi ainda mais lentamente do que ela, com o cuidado de não fazer nenhum movimento inesperado.
Acariciei sua bochecha, passei com as pontas dos dedos pelas pálpebras lilás, nas sombras na cavidade debaixo dos olhos. Acompanhei o formato do nariz perfeito e depois, com muito cuidado, seus lábios perfeitos. Os lábios se separaram e pude sentir o hálito frio na ponta dos dedos.
Eu queria me inclinar, inspirar o cheiro dela, mas sabia que talvez fosse demais. Se ela podia se controlar, eu também podia, ainda que numa escala bem menor.
Tentei me mover em câmera lenta para que ela pudesse adivinhar tudo que eu ia fazer antes que eu fizesse. Passei a palma da mão pelas laterais do pescoço fino, apoiei-a nos ombros enquanto meus polegares seguiam a curva impossivelmente frágil das clavículas.
Ela era tão mais forte do que eu, de tantas formas. Eu pareci perder o controle das mãos enquanto passavam pelas pontas dos ombros e pelas omoplatas afiadas. Não consegui me segurar quando a envolvi com os braços e a puxei contra o peito de novo. Cruzei as mãos atrás dela e envolvi a cintura dela pelos dois lados.
Ela se inclinou para mim, mas foi o único movimento.
Não estava respirando.
Isso me dava um limite de tempo.
Eu me inclinei para encostar o rosto no cabelo dela por um longo segundo, inspirando profundamente o aroma dela. Em seguida, me obriguei a tirar as mãos dela e me afastar. Uma das minhas mãos não quis obedecer completamente; desceu pelo braço dela e pousou no pulso.
— Desculpe — murmurei.
Ela abriu os olhos, e estavam famintos. Não de uma forma que me desse medo, mas de modo a estreitar os músculos na boca do estômago e fazer minha pulsação martelar nas veias de novo.
— Eu queria... — sussurrou ela — queria que você pudesse sentir a... complexidade... a confusão... que eu sinto. Que você pudesse entender.
Ela levantou a mão até meu rosto, depois passou os dedos rapidamente pelo meu cabelo.
— Me conte — sussurrei.
— Não sei se consigo. Sabe, por um lado, tem a fome, a sede que, sendo o que sou, eu sinto por você. E penso que você pode entender isso, até certo ponto. Mas — ela deu um meio sorriso — como você não é viciado em nenhuma substância ilícita, provavelmente não pode ter uma empatia completa. Mas... — Seus dedos tocaram meus lábios de leve, e meu coração disparou. — Existem outras coisas que quero, outras fomes. Fomes que eu não entendo.
— Posso entender isso melhor do que você pensa.
— Não estou acostumada a me sentir tão humana. É sempre assim?
— Para mim? — Hesitei. — Não, nunca. Pelo menos, até agora.
Ela colocou as mãos dos dois lados do meu rosto.
— Não sei como ficar perto de você. Não sei se consigo.
Coloquei as mãos sobre as dela e me inclinei lentamente para a frente, até nossas testas se tocarem.
— Isso basta. — Eu suspirei, fechando os olhos.
Ficamos sentados assim por um momento, e ela colocou os dedos no meu cabelo. Virou o rosto e encostou os lábios na minha testa. O ritmo da minha pulsação explodiu, ficando disparado e irregular.
— Você é muito melhor nisso do que acha — eu disse quando consegui falar de novo.
Ela se inclinou para longe e segurou minhas mãos de novo.
— Nasci com instintos humanos. Podem estar enterrados lá no fundo, mas existem.
Ficamos nos olhando por mais um momento imensurável; eu me perguntei se ela estava tão sem vontade de se mexer quanto eu. Mas a luz desaparecia, as sombras da floresta estavam quase nos tocando.
— Você tem que ir.
— Achei que não pudesse ler minha mente.
Ela sorriu.
— Está ficando mais clara.
Uma empolgação repentina surgiu nos olhos dela.
— Posso lhe mostrar uma coisa?
— O que quiser.
Ela sorriu.
— Que tal voltarmos mais rápido até a picape?
Olhei para ela com cautela.
— Você não quer ver como eu ando pela floresta? — insistiu ela. — Juro que é seguro.
— Você vai... se transformar em morcego?
Ela caiu na gargalhada.
— Como se eu não tivesse ouvido essa antes!
— Tudo bem, tenho certeza de que ouve o tempo todo.
Ela se levantou em outro movimento veloz invisível. Estendeu a mão para mim, e pulei ao lado dela. Ela se virou e olhou para mim por cima do ombro.
— Suba nas minhas costas.
Eu fiquei olhando para ela.
— Hã?
— Não seja covarde, Beau. Prometo que não vai machucar.
Ela ficou ali, esperando, de costas para mim, totalmente séria.
— Edythe, eu não... quer dizer, como?
Ela se virou para mim com uma sobrancelha levantada.
— Você deve conhecer o conceito de montar nas costas.
Eu dei de ombros.
— Claro, mas...
— Qual é o problema, então?
— Bem... você é tão pequena.
Ela expirou com exasperação e sumiu. Dessa vez, senti o vento da passagem dela. Um segundo depois, ela estava de volta com uma rocha na mão.
Uma rocha de verdade. Que deve ter arrancado do chão, porque a parte de baixo estava coberta de terra e raízes. Seria da altura da cintura dela se ela a colocasse no chão.
Ela inclinou a cabeça para um lado.
— Não foi isso o que eu quis dizer. Não estou dizendo que você não é forte o bastante...
Ela jogou a rocha com leveza por cima do ombro, que voou para além da beirada da floresta e caiu na terra com o som de madeira e pedra se estilhaçando.
— Obviamente — prossegui. — Mas eu... Como eu caberia? — Olhei para minhas pernas longas demais e para o corpo delicado.
Ela se virou de costas para mim de novo.
— Confie em mim.
Sentindo-se a pessoa mais idiota e mais desajeitada da história, passei os braços com hesitação pelo pescoço dela.
— Ande — disse ela com impaciência.
Ela esticou uma das mãos para trás e segurou minha perna, puxando meu joelho para cima do quadril dela.
— Opa!
Mas ela já estava com minha outra perna, e em vez de cair para trás, aguentou meu peso com facilidade. Ajeitou minhas pernas ao redor da cintura. Meu rosto estava quente, e eu sabia que devia parecer um gorila montado em um galgo.
— Estou machucando você?
— Por favor, Beau.
Ainda que constrangido, eu estava bem ciente de que meus braços e pernas estavam bem apertados no corpo magro dela.
De repente, ela segurou minha mão e apertou a palma no rosto. E inspirou profundamente.
— Fica cada vez mais fácil — murmurou ela.
E então, saiu correndo.
Pela primeira vez, senti medo pela minha vida. Pavor.
Ela disparou pela floresta como uma bala, como um fantasma. Não havia nenhum som, nenhuma prova de que seus pés tocavam o chão. Sua respiração não mudou, não indicou esforço nenhum. Mas as árvores voavam a uma velocidade mortal, passando a centímetros de nós.
Fiquei chocado demais para fechar os olhos, embora o ar frio batesse no meu rosto e os fizesse arder. Senti como se estivesse colocando a cabeça para fora da janela de um avião em pleno voo.
De repente, acabou. Tínhamos andado por horas esta manhã até a campina de Edythe, e agora, em questão de minutos (nem mesmo minutos, segundos), estávamos de volta ao carro.
— Extasiante, não? — Sua voz estava alta e animada.
Ela ficou imóvel, esperando que eu soltasse as pernas e me afastasse dela. Eu tentei, mas não consegui fazer meus músculos descongelarem. Meus braços e pernas ficaram travados enquanto a cabeça girava de um jeito desagradável.
— Beau? — chamou ela, agora ansiosa.
— Acho que preciso me deitar — revelei, arfando.
— Ah, me desculpe.
Demorei alguns segundos para lembrar como abria os dedos. E então, tudo pareceu se soltar ao mesmo tempo, e meio que caí dela e cambaleei para trás, até perder o equilíbrio e terminar a queda.
Ela esticou a mão e tentou não rir, mas recusei a ajuda. Fiquei no chão e coloquei a cabeça entre os joelhos. Meus ouvidos estavam apitando e minha cabeça girava em círculos irregulares.
Senti um toque frio na nuca. Ajudou.
— Acho que não foi a melhor ideia — refletiu ela.
Tentei ser positivo, mas minha voz saiu vazia.
— Não, foi muito interessante.
— Rá! Você está branco feito um fantasma. Não, pior, está branco feito eu!
— Acho que devia ter fechado os olhos.
— Lembre-se disso da próxima vez.
Olhei para ela, assustado.
— Próxima vez?
Ela riu, o humor ainda radiante.
— Exibida — murmurei e baixei a cabeça de novo.
Depois de meio minuto, minha cabeça quase havia parado de girar.
— Olhe para mim, Beau.
Levantei a cabeça, e ela estava bem ali, o rosto a centímetros do meu. Sua beleza foi como um soco que me deixou atordoado. Eu não conseguia me acostumar.
— Fiquei pensando, enquanto estava correndo...
— Em não bater nas árvores, espero — interrompi, sem fôlego.
— Beau bobinho. Correr faz parte da minha natureza. Não é uma coisa na qual tenha que pensar.
— Exibida — murmurei de novo.
Ela sorriu.
— Não, eu estava pensando que há uma coisa que quero experimentar. — Ela colocou as mãos no meu rosto de novo.
Eu não consegui respirar.
Ela hesitou. Parecia um teste, para ter certeza de que era seguro, de que ela ainda estava sob controle.
E então seus lábios frios e perfeitos se encostaram bem levemente nos meus.
Nenhum de nós estava preparado para minha reação.
O sangue ferveu sob minha pele, ardendo em meus lábios. Minha respiração assumiu um ofegar louco. Meus dedos se emaranharam em seu cabelo, puxando-a para mim. Meus lábios se separaram enquanto eu respirava seu cheiro inebriante.
Imediatamente, ela se transformou numa pedra inanimada sob meus lábios. Suas mãos empurraram meu rosto para trás delicadamente, mas com firmeza. Abri os olhos e vi a expressão de cautela.
— Ops — falei.
— Ops é pouco.
Seus olhos estavam arredios, o queixo trincado. Meu rosto estava a centímetros do dela, os dedos entrelaçados no cabelo.
— Devo...? — Tentei me soltar, dar algum espaço.
Suas mãos não me soltaram.
— Não, é tolerável. Espere um momento, por favor. — A voz saiu educada e controlada.
Mantive os olhos nela, assistindo neles à excitação que diminuía e se suavizava.
Ela deu um sorriso, satisfeita consigo mesma.
— Pronto.
— Tolerável? — perguntei.
Ela riu.
— Sou mais forte do que eu pensava. É bom saber disso.
— E eu, não. Desculpe.
— Você é apenas humano, afinal de contas.
Eu suspirei.
— É.
Ela soltou o cabelo dos meus dedos e se levantou em um dos movimentos leves e quase invisíveis. Ela estendeu a mão de novo, e dessa vez a peguei para me levantar. Eu precisava da ajuda; meu equilíbrio ainda não tinha voltado. Oscilei de leve ao dar um passo para longe dela.
— Ainda está tonto por causa da corrida ou foi minha perícia no beijo?
Ela pareceu muito humana enquanto ria agora, relaxada e tranquila. Era uma nova Edythe, diferente daquela que conheci, e fiquei ainda mais inebriado por ela. Eu sentiria dor física de ter que me separar dela.
— Os dois.
— Talvez deva me deixar dirigir.
— Hã, acho que já vivenciei sua necessidade de velocidade além da conta hoje...
— Posso dirigir melhor do que você em seu melhor dia — disse ela. — Você tem reflexos muito mais lentos.
— Acredito em você, mas não acho que minha picape possa aguentar você na direção.
— Um pouco de confiança, por favor, Beau.
Minha mão se fechou ao redor da chave no bolso. Repuxei os lábios, como se estivesse pensando, depois balancei a cabeça com um sorriso apertado.
— Nada disso. Nem pensar.
Ela ergueu as sobrancelhas, segurou minha camiseta e puxou. Eu quase tropecei nela, mas me apoiei com a mão no ombro dela.
— Beau, já gastei muito esforço pessoal a essa altura para manter você vivo. Não vou deixar você se sentar ao volante de um carro quando nem consegue andar direito. Amigos não deixam amigos dirigirem bêbados.
— Bêbado? — objetei.
Ela ficou nas pontas dos pés para que o rosto ficasse perto do meu. Consegui sentir a fragrância insuportavelmente doce do hálito dela.
— Está embriagado com minha presença.
— Não posso contestar isso. — Suspirei. Não havia como escapar; não podia resistir a ela em nada. Ergui a chave e a larguei, para ver sua mão voar como um raio para pegá-la sem fazer nenhum som. — Vá com calma. Meu carro é um cidadão idoso.
— Muito prudente.
Ela soltou minha camisa e tirou minha mão de seu ombro.
— E você não está nada afetada? Com minha presença?
Ela se virou e esticou a mão para pegar a minha, levando-a ao rosto de novo. Apoiou-se na palma e fechou os olhos. Inspirou lenta e profundamente.
— Não importa... — murmurou ela. Seus olhos se abriram e ela deu um sorriso. — Tenho reflexos melhores.

10 comentários:

  1. Bonitinho e esquisito...

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  2. O carro também mudou de sexo?

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  3. Ate gostei do personagem Beau ... Mas ele nas costas dela ficou no mínimo ridículo. Kkkk nossa que estranho. Gostei dessa parte com a Bella e o Edward.

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  4. kkkkkkkkkk Demais! Estranho, mas bem legal!
    T.J. Também pensei nisso hahahaha

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  5. Sabe... Eu curti esse cap e ri... Feito louca....

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  6. To Amando muito esse livro!!!!!

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  7. acho interessante os dois mas a autora deveria ter adaptado a historia e n apenas trocado os sexos. O beau é tao coisado e essa cena dele nas costas dela foi tao estranha e surreal

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  8. Extremamente estranho, mas ainda sim muito fofo, bonitinho e legal.
    PS: Amando o livro ♥♥♥

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  9. Talvez a estranha seja eu por não ter estranhado a cena de Beau sendo carregado por Edithe, tava achando que essa cena nem ia acontecer e ka entre nós eu AMEI... não tava dando nada pelo livro, mas, porém, com tudo e toda via voltei a mim apaixonar pela saga.

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