15 de janeiro de 2016

Capítulo 11 - Complicações

Todo mundo nos viu andando juntos para nosso lugar no laboratório. Percebi que ela não virou a cadeira para se sentar o mais distante possível de mim. Em vez disso, sentou-se bem ao meu lado, nossos braços quase se tocando. O cabelo dela roçava na minha pele.
A Sra. Banner entrou na sala naquele momento, puxando uma TV e um videocassete ultrapassados, apoiados em um carrinho. Pareceu que todo mundo na sala relaxou ao mesmo tempo. Também fiquei aliviado. Eu sabia que não conseguia prestar atenção à aula hoje. Eu já tinha muito em que pensar.
A Sra. Banner enfiou a fita velha no videocassete e foi até a parede para apagar a luz. E então, assim que a sala escureceu, as coisas ficaram estranhas.
Eu já estava hiperconsciente de que Edythe estava bem ali, a menos de três centímetros de mim. Eu não achava que podia ficar mais consciente disso. Mas, no escuro, de alguma forma... Parecia que uma corrente elétrica fluía do corpo dela para o meu, como se os relâmpagos em miniatura que pulam entre circuitos estivessem dançando pela distância curta entre nossos corpos. Quando o braço dela tocava no meu braço, eu sentia quase dor.
Um impulso forte e louco de esticar a mão e tocar nela, de acariciar o rosto perfeito uma vez na escuridão, quase me sufocou. Qual era o meu problema? Não se podia sair por aí tocando nas pessoas porque as luzes estavam apagadas. Cruzei os braços com força sobre as costelas e apertei bem as mãos.
Começaram os créditos de abertura, iluminando a sala um pouquinho. Não consegui me impedir de dar uma espiada nela.
Ela estava sentada exatamente como eu, com os braços cruzados, as mãos fechadas, olhando para mim. Quando me viu olhando também, ela sorriu quase com constrangimento. Mesmo no escuro, os olhos dela ainda ardiam. Precisei afastar o olhar antes de fazer alguma besteira, uma coisa que não se conformaria à ideia dela de cuidado.
A hora pareceu muito longa. Não consegui me concentrar no filme. Eu nem fazia ideia de qual era o tema. Tentei agir normalmente, fazer meus músculos relaxarem, mas a corrente elétrica não se atenuou. De vez em quando, eu me permitia uma olhada rápida na direção dela, que também não parecia relaxar. A sensação de que eu tinha que tocar no rosto dela também se recusava a diminuir. Mantive os punhos apertados nas costelas até que meus dedos doeram do esforço.
Soltei um suspiro de alívio quando a Sra. Banner acendeu a luz no fundo da sala e estiquei os braços nas laterais do corpo e flexionei os dedos enrijecidos. Edythe deu uma gargalhada.
— Bom, isso foi... interessante — murmurou ela. Sua voz estava baixa e os olhos, cautelosos.
— Hmmm — foi só o que consegui responder.
— Vamos? — perguntou ela, levantando-se facilmente.
Ela pegou a bolsa com um dedo.
Eu me levantei com cuidado, com medo de não conseguir andar direito depois disso tudo.
Ela me acompanhou em silêncio até a aula de educação física e parou na porta. Olhei para baixo para me despedir, mas engasguei com as palavras. Seu rosto... estava abalado, quase de dor, e tão terrivelmente lindo que a dor para tocá-la voltou mais intensamente do que antes. Tive que me controlar para não ficar encarando.
Ela ergueu a mão, hesitante, o conflito evidente no olhar, e afagou rapidamente meu maxilar com a ponta dos dedos. A pele estava gelada, como sempre, mas o rastro que deixou na minha foi quase como uma queimadura que ainda não estava doendo.
Ela se virou sem dizer nada e se afastou depressa de mim.
Entrei no ginásio, tonto e instável, e troquei de roupa em transe, quase sem perceber as pessoas em volta de mim. Só caí na realidade quando me deram uma raquete.
Não era pesada, mas eu sabia que não importava. Nas minhas mãos, era perigosa. Consegui ver alguns alunos olhando para mim e para a raquete. E então, a treinadora Clapp nos mandou formar duplas, e concluí que seria o último cara a ser escolhido.
Mas subestimei a lealdade de McKayla. Ela veio se postar ao meu lado na mesma hora.
— Você não precisa fazer isso, sabe — falei.
Ela sorriu.
— Não se preocupe, vou me manter fora de seu alcance.
Às vezes era tão fácil gostar de McKayla.
Não foi assim tão tranquilo. Não sei como, mas consegui bater a raquete na minha própria cabeça e golpear o ombro de McKayla num mesmo movimento.
Passei o resto do tempo no fundo da quadra, a raquete colocada com segurança às minhas costas. Apesar de levar desvantagem por minha causa, McKayla era muito boa; venceu três jogos de quatro jogando sozinha, depois deu um tapa na minha mão quando a treinadora finalmente tocou o apito, encerrando a aula.
— E aí — disse ela enquanto saíamos da quadra.
— E aí o quê?
— Você e Edythe Cullen, hein? — O tom dela foi ligeiramente hostil.
— É, eu e Edythe Cullen — respondi. Tive certeza de que ela ouviu bem o tom impressionado na minha voz.
— Não gosto disso — murmurou ela.
— Ah, você não precisa gostar.
— Então ela estala os dedos e você vai correndo atrás?
— Acho que é.
Ela fez cara feia para mim. Dei as costas para ela e saí andando. Eu sabia que seria o único a sobrar amanhã, mas não me importei. Quando estava vestido, já tinha esquecido McKayla.
Edythe estaria esperando lá fora ou eu devia esperá-la no carro? E se a família dela estivesse lá? Ela tinha estacionado ao lado do carro de Royal. Só de pensar no rosto de Royal no refeitório, me perguntei se devia ir andando para casa. Ela teria contado que eu sabia? Eu devia saber que eles sabiam que eu sabia? Qual era a etiqueta para cumprimentos vampiros? Um aceno funcionaria?
Mas, quando saí do ginásio, Edythe estava lá. Estava nas sombras do prédio, apesar de as nuvens ainda estarem pretas, com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. O rosto estava pacífico agora, com um pequeno sorriso erguendo os cantos dos lábios. O suéter fino não parecia suficiente, e apesar de eu saber que era burrice, senti vontade de tirar o casaco e envolvê-la com ele. Quando andei para perto dela, senti uma harmonia estranha, como se tudo estivesse certo no mundo enquanto eu estivesse perto dela.
— Oi. — Consegui sentir o sorriso enorme e bobo na minha cara.
— Olá. — Seu sorriso de resposta foi reluzente. — Como foi na educação física?
Fiquei desconfiado de repente.
— Bem.
— É mesmo? — Ela levantou as sobrancelhas. — Como está sua cabeça?
— Você não fez isso.
Ela saiu andando devagar na direção do estacionamento. Acompanhei o passo dela automaticamente.
— Foi você que disse que eu nunca o vi na educação física. Fiquei curiosa.
— Que ótimo — falei. — Fantástico. Bem, lamento por isso. Não me importo de ir andando para casa se você não quiser ser vista comigo.
Ela deu uma risada musical.
— Foi divertido. Mas eu não teria me importado se você tivesse batido com mais força naquela garota.
— O quê?
Quando ela olhou para trás, a boca formou uma linha fina. Eu me virei para ver o que ela estava olhando: era o cabelo louro de McKayla balançando conforme ela se afastava.
— Faz um tempo que alguém além da minha família não pensa palavras desse tipo sobre mim. Acho que não gostei.
Senti uma pontada de ansiedade por McKayla.
Edythe leu minha expressão e riu de novo.
— Não se preocupe, eu não machucaria sua amiga. Se machucasse, quem aceitaria ser sua parceira de badminton?
Foi difícil raciocinar. Edythe era tão... delicada. Mas, quando disse isso, ficou claro que confiava e muito nas próprias habilidades. Se ela quisesse McKayla ou qualquer outra pessoa ferida, a coisa ficaria feia para essa pessoa. Ela era perigosa, eu sabia, mas ficava dando de cara em um muro cada vez que tentava acreditar. Mudei de assunto.
— Que tipos de palavras sua família anda pensando sobre você?
Ela balançou a cabeça.
— Não é justo julgar as pessoas pelos pensamentos que têm. Eles foram feitos para serem particulares. São as ações que contam.
— Não sei... Se você sabe que alguém está ouvindo, não é a mesma coisa que falar em voz alta?
— É fácil para você dizer. — Ela sorriu. — Controlar os pensamentos é muito difícil. Quando Royal e eu brigamos, penso coisas bem piores sobre ele, e digo essas palavras em voz alta.
Ela deu a gargalhada ressonante de novo.
Eu não estava olhando para onde estávamos indo, então levei um susto quando tivemos que ir mais devagar por estarmos bloqueados do carro de Edythe por alguns alunos. Havia um círculo em volta do conversível vermelho de Royal, uma fila dupla e quase toda de meninos. Alguns pareciam quase estar babando. Ninguém da família dela estava ali, e me perguntei se ela tinha pedido para eles darem espaço.
Nenhum dos admiradores do carro olhou quando passei por eles para chegar à porta do caro de Edythe.
— Chamativo — murmurou ela ao passar por mim.
Dei a volta correndo até o lado do passageiro e entrei.
— Que carro é esse?
— Um M3 — disse ela enquanto tentava sair da vaga sem acertar ninguém.
— Eu não falo a língua dos carros.
Ela fez uma manobra cuidadosa para sair.
— É um BMW.
— Tudo bem, isso eu conheço.
Saímos da escola e ficamos só nós dois. A privacidade tinha gosto de liberdade. Não havia ninguém olhando e nem ouvindo.
— Já é depois? — perguntei.
Ela não deixou de perceber meu tom. E franziu a testa.
— Acho que é.
Fiquei com expressão neutra enquanto esperava que ela explicasse. Ela olhou para a estrada, fingindo que precisava, e eu observei o rosto dela. Algumas expressões diferentes surgiram ali, mas mudaram tão rápido que não consegui interpretar. Eu estava começando a me perguntar se ela ia ignorar minha pergunta quando ela parou o carro. Olhei para a frente, surpreso. Já estávamos na casa de Charlie, parados atrás da minha picape. Concluí que era mais fácil andar com ela quando eu só olhava no final.
Ela estava me olhando quando olhei para ela, parecendo me medir com os olhos.
— E você quer saber por que não pode me ver caçar? — perguntou ela. A voz estava séria, mas a expressão era meio divertida. Nem um pouco como ficou no refeitório antes.
— Quero. E por que você pareceu tão... zangada quando perguntei.
Ela levantou as sobrancelhas.
— Assustei você? — A pergunta pareceu cheia de esperanças.
— Você queria?
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Talvez.
— Tudo bem, então é claro que fiquei apavorado.
Ela sorriu, balançou a cabeça e ficou séria de novo.
— Peço desculpas por ter reagido daquele jeito. Foi a ideia de que você estivesse lá... enquanto nós caçávamos. — Seu maxilar se contraiu.
— Seria ruim?
Ela falou entredentes.
— Extremamente.
— Por quê...?
Ela respirou fundo e olhou pela janela para as nuvens carregadas que rolavam e pareciam pesar, quase ao alcance da mão.
— Quando caçamos — disse ela lentamente, sem nenhuma vontade — nós nos entregamos aos nossos sentidos... funcionamos menos com a mente. Em especial o olfato. Se você estivesse perto de mim quando eu perdesse o controle desse jeito... — Ela balançou a cabeça, ainda encarando sombriamente as nuvens pesadas.
Mantive a expressão vazia, esperando pelo rápido lampejo em seus olhos que avaliaria minha reação e que veio logo em seguida. Mas sustentamos o olhar e o silêncio se aprofundou, mudou. As ondas de eletricidade que senti naquela tarde começaram a carregar a atmosfera enquanto ela fitava insistentemente meus olhos. Foi só quando minha cabeça começou a girar que percebi que eu não estava respirando. Quando puxei o ar numa respiração entrecortada, quebrando o silêncio, ela fechou os olhos.
— Beau, acho que devia entrar agora. — Sua voz baixa não estava mais suave, parecia seda áspera agora, e os olhos estavam nas nuvens de novo.
Abri a porta, e a lufada ártica que irrompeu para dentro do carro ajudou a clarear minha mente. Com medo de tropeçar com minha vertigem, saí do carro com cuidado e fechei a porta, sem olhar para trás. O zumbido do vidro elétrico baixando fez com que eu me virasse.
— Ah, Beau — chamou ela. Estava inclinada para a janela aberta com um sorrisinho nos lábios.
— O quê?
— Amanhã é a minha vez.
— Sua vez de quê?
Ela abriu um sorriso largo, os dentes reluzentes faiscando.
— De fazer as perguntas.
E foi embora, o carro veloz pela rua, desaparecendo na esquina antes que eu pudesse organizar os pensamentos.
Eu sorri ao andar até em casa. Estava claro que ela pretendia me ver amanhã, no mínimo.
Naquela noite, Edythe apareceu em meus sonhos, como sempre. Mas o clima da minha inconsciência mudara. Fiquei arrepiado com a mesma eletricidade que senti naquela tarde e me virei na cama sem parar, acordando com frequência. Eram as primeiras horas da manhã quando finalmente afundei em um sono exausto e sem sonhos.
Quando meu despertador tocou, eu ainda estava cansado, mas também animado. Depois do banho, me olhei no espelho do banheiro enquanto penteava o cabelo molhado. Eu estava com a mesma aparência de sempre, mas havia alguma coisa diferente. Meu cabelo estava escuro e grosso demais, minha pele, pálida demais, e meus ossos estavam com a mesma forma dentro do corpo, sem terem mudado nada. Meus olhos continuavam azul-claros olhando para mim... mas percebi que eram os culpados. Eu sempre achei que era a cor que os faziam, e, por extensão, todo o meu rosto, parecerem tão inseguros, mas apesar de a cor não ter mudado, a falta de segurança, sim. O garoto que estava me olhando agora estava determinado, seguro de suas ações. Eu me perguntei o que tinha acontecido. Eu achava que tinha palpite.
O café da manhã foi o de sempre, silencioso, como eu esperava. Charlie fritou ovos para si mesmo; eu comi uma tigela de cereal. Perguntei-me se ele tinha se esquecido do sábado.
— Sobre este sábado... — começou ele, como se pudesse ler meus pensamentos. Eu estava ficando paranoico sobre esse assunto.
— Sim, pai?
Ele atravessou a cozinha e abriu a torneira.
— Ainda está determinado a ir a Seattle?
— O plano era esse. — Fiz uma careta, querendo que ele não tivesse levantado o assunto para eu não ter que compor cuidadosas meias verdades.
Ele espremeu um pouco de detergente no prato e o esfregou com uma esponja.
— E tem certeza de que não pode voltar a tempo para o baile?
— Eu não vou ao baile, pai.
— Ninguém convidou você? — perguntou ele, com os olhos concentrados no prato.
— Não é o tipo de coisa de que eu gosto — lembrei a ele.
— Ah. — Ele franziu a testa enquanto secava o prato.
Eu me perguntei se ele estava com medo de eu ser um pária social. Talvez eu devesse ter contado sobre os convites. Mas isso sairia pela culatra. Ele não ficaria muito feliz se soubesse que recusei todos. Aí, eu teria que contar para ele que havia uma garota... que não me convidou... e eu não queria ter que falar disso.
Isso me fez pensar no baile e em Taylor e no vestido que ela já tinha e na atitude de Logan comigo e toda aquela confusão. Eu não sabia o que devia fazer. Em qualquer universo, eu não ia ao baile. Em um universo em que Edythe Cullen existia, eu não me interessaria por nenhuma outra garota. Não era justo seguir de acordo com os planos de Taylor se meu coração não queria isso.
O problema era decidir como...
Charlie então saiu, com um aceno de despedida, e eu subi para escovar os dentes e pegar meus livros. Quando ouvi a radiopatrulha arrancar, só precisei esperar alguns segundos para olhar por minha janela. O carro prata já estava ali, esperando na vaga de Charlie, na entrada de carros. Desci a escada três degraus de cada vez e saí pela porta da frente, perguntando-me quanto tempo mais duraria essa rotina estranha. Eu não queria que tivesse um fim.
Ela estava esperando no carro e não pareceu ver quando fechei a porta sem me incomodar em passar a chave.
Andei até o carro e hesitei por um segundo, antes de abrir a porta e entrar. Ela estava sorrindo, relaxada – e, como sempre, tão perfeita que chegava a doer.
— Bom dia. Como está hoje? — Seus olhos vagaram por meu rosto, como se a pergunta fosse algo mais do que mera cortesia.
— Bem, obrigado. — Eu estava sempre bem, muito mais do que bem, quando estava perto dela.
Seu olhar se demorou nas minhas olheiras.
— Parece cansado.
— Não consegui dormir — admiti.
Ela riu.
— Nem eu.
O motor ganhou vida. Eu estava me acostumando com o som. O rugido de minha picape provavelmente me assustaria quando eu voltasse a dirigi-la.
— Acho que tem razão — falei. — Devo ter dormido mais do que você.
— Posso apostar que dormiu.
— E o que você fez na noite passada?
Ela riu.
— Sem chances. É meu dia de fazer perguntas.
— Ah, é verdade. — Eu franzi a testa. Não conseguia imaginar nada sobre mim que pudesse ser de algum interesse para ela. — O que quer saber?
— Qual é a sua cor preferida? — perguntou ela, a cara séria.
Eu dei de ombros.
— Vive mudando.
— Qual é a de hoje?
— Hã, acho que... dourado.
— Tem alguma coisa material por trás da sua escolha ou é aleatória?
Limpei a garganta, sem jeito.
— É a cor dos seus olhos hoje. Se você me perguntasse em uma semana, eu provavelmente diria preto.
Ela me olhou de um jeito que não entendi, mas, antes que eu pudesse perguntar, ela seguiu para a próxima pergunta.
— Que música está em seu CD player agora?
Precisei pensar por um segundo, mas lembrei que a última coisa que ouvi foi o CD que Phil me dera. Quando disse o nome da banda, ela deu um sorriso e abriu um compartimento sob o CD player do carro. Tirou um das dezenas de CDs enfiados no pequeno espaço e passou a mim. Era o mesmo CD.
— De Debussy a isto? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha.
Continuou assim pelo resto do dia. Enquanto caminhávamos de uma aula para a outra e durante a hora do almoço, ela me fez perguntas sem parar. Queria saber cada detalhe insignificante da minha existência. Os filmes de que gostei e os que odiei, os poucos lugares em que estive e os muitos lugares aonde queria ir, e livros – muitas perguntas sobre livros.
Não conseguia me lembrar da última vez que falei tanto. Fiquei sem graça o tempo todo, certo de que só podia estar sendo entediante. Mas ela sempre parecia ansiosa enquanto esperava minhas respostas, sempre tinha uma pergunta seguinte e sempre queria mais. Portanto, deixei a psicanálise seguir em frente, pois parecia importante para ela.
Quando o primeiro sinal tocou, dei um suspiro profundo. Estava na hora.
— Tem uma pergunta que você ainda não fez.
— Mais do que uma, na verdade, mas de que pergunta específica você está falando?
— A coisa mais constrangedora que já fiz.
Ela sorriu.
— É uma história espetacular?
— Ainda não sei. Conto em cinco minutos.
Eu me afastei da mesa. Os olhos dela cintilavam de curiosidade.
Na minha mesa de sempre, meus amigos estavam se levantando. Eu andei até eles.
Pontos vermelhos surgiram nas minhas bochechas, mas não tinha problema. Eu tinha que parecer envolvido. Ao menos, o cara bonitão da novela melodramática que minha mãe via religiosamente sempre parecia agitado quando fazia essa cena. Graças a ele, eu ao menos tinha um contorno geral para o meu roteiro, incrementado por uma coisa que pensei uma vez sobre Edythe; eu queria que tudo fosse lisonjeiro.
Jeremy reparou em mim primeiro, e seus olhos estavam especulativos. Avaliou meu rosto vermelho, depois Edythe. E olhou para mim de novo.
— Taylor, posso falar com você? — pedi enquanto andava até ela.
Eu não falei baixo. Ela estava no meio de todo mundo. Logan se virou para olhar para mim de cara feia com os olhos verdes e frios.
— Claro, Beau — disse Taylor, parecendo confusa.
— Olhe — falei — não posso mais fazer isso.
Todo mundo ficou em silêncio. Jeremy olhou ao redor. Allen pareceu constrangida. McKayla me lançou um olhar crítico, como se não conseguisse acreditar que eu estava fazendo daquele jeito. Mas ela não sabia exatamente o que eu estava fazendo, nem por que precisava daquela plateia.
Taylor estava chocada.
— O quê?
Eu fiz cara feia. Era fácil; eu estava com raiva no momento por não ter me convencido de não fazer aquilo ou por não ter pensado em um jeito melhor. Mas era tarde demais para improvisar agora.
— Estou cansado de ser peão do seu jogo, Taylor. Sabia que tenho sentimentos? E a única coisa que posso fazer é olhar enquanto você me usa para deixar outra pessoa com ciúmes. — Meus olhos se viraram rapidamente para Logan, cuja boca estava boquiaberta, e para Taylor de novo. — Você não liga se parte meu coração. Foi a beleza que tornou você tão cruel?
Taylor estava com os olhos arregalados e a boca aberta em um pequeno O.
— Não vou mais brincar. Sabe a palhaçada toda do baile? Estou fora. Vá com a pessoa com quem quer realmente ir.
Lancei um olhar mais longo para Logan agora.
Saí andando e bati a porta do refeitório de um jeito que esperava ter sido dramático.
Isso jamais seria esquecido.
Mas, pelo menos, eu estava livre. Provavelmente valeria a pena.
De repente, Edythe estava ao meu lado, acompanhando o passo como se estivéssemos andando juntos o tempo todo.
— Aquilo foi espetacular — disse ela.
Eu respirei fundo.
— Talvez um pouco exagerado. Deu certo?
— Perfeitamente. Taylor está se sentindo a femme fatale e nem sabe por quê. Se Logan não a convidar para o baile até segunda, vou ficar surpresa.
— Que bom — grunhi.
— Agora, voltando a você...
Edythe continuou com o interrogatório até estarmos na aula de biologia e a Sra. Banner entrar na sala, arrastando de novo o rack audiovisual. Quando terminou a preparação e se virou para o interruptor de luz, percebi que Edythe deslizou a cadeira um pouco para longe de mim. Isso não ajudou. Assim que a sala ficou escura, houve a mesma tensão elétrica, o mesmo desejo impaciente de estender a mão pelo curto espaço e tocar sua pele fria e macia.
Parecia uma coceira que ia ficando mais e mais intensa. Eu não conseguia prestar atenção a mais nada. Eu torcia para o filme exibido não estar nas provas finais. Depois de um tempo, talvez quinze minutos (ou talvez fossem só dois, mas a sensação era de mais tempo por causa da eletricidade), eu mexi a cadeira e me inclinei lentamente para o lado até meu braço estar tocando no ombro dela. Ela não se afastou.
Achei que o pequeno contato ajudaria, que acabaria com a vontade irritante, mas deu errado. O pequeno frisson de eletricidade ficou mais forte, virou raios maiores. De repente, fiquei doido para botar o braço ao redor dela, puxá-la para o meu lado e abraçá-la. Eu queria passar os dedos pelo cabelo dela, enfiar o rosto ali. Queria acompanhar o contorno dos lábios, a linha do maxilar, o pescoço...
Nada apropriado para uma sala cheia de gente.
Inclinei-me para a frente, cruzei os braços sobre a mesa e me segurei na beirada com os dedos escondidos, tentando me segurar no lugar. Não olhei para ela, com medo de que, se ela estivesse olhando para mim, fosse muito mais difícil manter o autocontrole. Tentei ver o filme, mas as manchas coloridas não se definiam em forma de imagens coerentes.
Suspirei de alívio de novo quando a Sra. Banner acendeu as luzes e eu finalmente olhei para Edythe; ela estava me olhando com olhos ambivalentes.
Como ontem, fomos para o ginásio em silêncio. E, também como ontem, ela tocou meu rosto sem dizer nada, dessa vez com as costas da mão fria, da têmpora até o queixo, antes de se virar e se afastar.
A aula de educação física passou rapidamente. Para poupar tempo, a treinadora Clapp nos mandou ficar com os mesmos parceiros, então McKayla foi obrigada a ser minha companheira de time de novo. Assisti ao show de badminton solitário dela sem participar, para a segurança de nós dois. Ela não falou comigo, mas eu não sabia se foi por causa da cena no refeitório, da nossa confusão de ontem ou porque minha expressão estava tão vazia. Em algum lugar, em um canto da minha mente, eu me senti mal por isso. Mas não consegui me concentrar nela tanto quanto não consegui entender o filme de biologia.
Tive a mesma sensação de harmonia quando passei pela porta do ginásio e vi Edythe na sombra. Tudo estava certo no meu mundo. Um sorriso largo se espalhou automaticamente por meu rosto. Ela reagiu com um sorriso antes de se atirar a outro interrogatório.
Mas agora suas perguntas foram diferentes, não eram de resposta tão fácil. Ela queria saber do que eu sentia falta em minha cidade, insistindo nas descrições de qualquer coisa que não conhecesse. Ficamos sentados em frente à casa de Charlie por horas, à medida que o céu escurecia e a chuva descia em volta de nós num dilúvio repentino.
Tentei descrever coisas impossíveis, como o cheiro de creosoto – amargo, meio resinoso, mas ainda agradável – o som alto e agudo das cigarras em julho, as árvores murchas e secas, o céu enorme, estendendo-se azul esbranquiçado de um canto a outro do horizonte. A coisa mais difícil de explicar era por que aquilo era tão bonito para mim – justificar a beleza que não dependia da vegetação esparsa e espinhosa que sempre parecia meio morta, uma beleza que tinha mais a ver com o formato exposto da terra, com as bacias rasas de vales entre as colinas escarpadas e o modo como resistiam ao sol. Eu me vi usando as mãos ao tentar descrever isso para ela.
Suas perguntas em voz baixa me mantiveram falando livremente, esquecendo-me de ficar constrangido por monopolizar a conversa. Por fim, quando tinha terminado de detalhar meu quarto abarrotado em casa, ela parou em vez de responder com outra pergunta.
— Terminou? — perguntei com alívio.
— Nem cheguei perto... mas seu pai vai chegar logo.
— Que horas são? — perguntei em voz alta ao olhar o relógio. Fiquei surpreso ao ver a hora.
— É a hora do crepúsculo — murmurou Edythe, olhando o horizonte a oeste, obscurecido pelas nuvens.
Sua voz estava pensativa, como se sua mente estivesse em um lugar distante. Olhei para ela enquanto ela fitava sem ver pelo para-brisa.
Eu ainda a estava encarando quando seus olhos de repente se voltaram para os meus.
— É a hora do dia mais segura para nós — disse ela, respondendo à pergunta em meus olhos. — A hora mais fácil. Mas também a mais triste, de certa forma... O fim de outro dia, a volta da noite. A escuridão é tão previsível, não acha? — Ela deu um sorriso tristonho.
— Eu gosto da noite. Sem o escuro, nunca veríamos as estrelas. — Franzi a testa. — Não que a gente veja muitas por aqui.
Ela riu, e o clima ficou mais leve de repente.
— Charlie chegará daqui a alguns minutos. Então, a não ser que queira dizer a ele que vai sair comigo no sábado... — Ela me olhou com esperança.
— Ah, não, obrigado. — Peguei meus livros, percebendo que estava duro de ficar sentado por tanto tempo. — Então amanhã é a minha vez?
— Claro que não! — Ela fingiu estar ultrajada. — Não falei que não tinha acabado?
— O que mais pode haver?
Ela mostrou as covinhas.
— Você vai descobrir amanhã.
Fiquei olhando para ela, meio atordoado, como sempre.
Eu sempre achei que não tinha um tipo meu; o pessoal de Phoenix todo tinha preferências: um gostava de louras e outro só ligava para pernas, e um exigia garotas de olhos azuis. Eu achava que era menos seletivo; uma garota bonita era uma garota bonita. Mas percebi agora que eu devia ser o mais difícil de agradar. Aparentemente, meu tipo era extremamente específico, eu só não sabia. Eu não sabia que minha cor favorita de cabelo era aquele tom metálico de bronze porque nunca o tinha visto antes. Não sabia que estava procurando olhos da cor de mel, porque também nunca tinha visto. Eu não sabia que os lábios de uma garota tinham que fazer uma curva assim e que as maçãs do rosto tinham que ser altas sob uma fileira longa de cílios pretos. O tempo todo, só havia uma forma, um rosto que mexia comigo.
Como um idiota, esquecendo os avisos, estiquei a mão para o rosto dela e me inclinei.
Ela se encolheu.
— Descul... — comecei a dizer quando baixei a mão.
Mas ela virou a cabeça para a frente e olhou para a chuva de novo.
— Ah, não — disse ela.
— Que foi?
O maxilar estava contraído, as sobrancelhas baixadas em uma linha sobre os olhos. Ela olhou para mim por um breve segundo.
— Outra complicação — disse, mal-humorada.
Ela se inclinou na minha frente e abriu a porta num movimento rápido (a proximidade deixou meu coração disparado em um galope irregular) e depois se afastou de mim, quase encolhida.
Faróis brilharam na chuva. Ergui o rosto esperando ver Charlie e ter que dar um monte de explicações, mas era um sedã escuro que não reconheci.
— Vá logo — disse ela.
Ela estava olhando pelo temporal para o outro veículo.
Saltei para fora rapidamente, apesar de não entender. A chuva bateu no meu rosto e eu puxei o capuz.
Tentei identificar as formas no banco da frente do outro carro, mas estava escuro demais. Pude ver Edythe iluminada pelo brilho dos faróis do novo carro; ainda olhava à frente, seu olhar preso em alguma coisa ou alguém que eu não conseguia ver. Sua expressão era uma mistura estranha de frustração e desafio.
Ela acelerou o motor, e os pneus cantaram no asfalto molhado. O Volvo sumiu de vista em segundos.
— Ei, Beau — gritou uma voz conhecida e rouca do lado do motorista no carro preto.
— Jules? — perguntei, semicerrando os olhos com a chuva.
Nesse exato momento, a radiopatrulha de Charlie virou a esquina, os faróis iluminando os ocupantes do carro diante de mim.
Jules já estava saindo, o sorriso largo visível apesar da escuridão. No banco do carona havia uma mulher muito mais velha, uma figura imponente com um rosto incomum, severo e estoico, com rugas que percorriam a pele curtida como uma jaqueta velha de couro. E os olhos eram surpreendentemente familiares, fundos sob sobrancelhas pesadas, olhos pretos que pareciam ao mesmo tempo jovens e antigos demais para combinar com o rosto. A mãe de Jules, Bonnie Black. Eu a reconheci de imediato, embora, nos mais de cinco anos em que não a via, tivesse esquecido seu nome quando Charlie falou dela em meu primeiro dia aqui. Ela me encarava, analisando meu rosto, então eu sorri, inseguro.
Percebi mais um pouco, seus olhos estavam arregalados, como se de choque ou medo e as narinas se dilataram. Meu sorriso esmaeceu.
Outra complicação, dissera Edythe. Bonnie ainda me fitava com olhos intensos e angustiados. Teria Bonnie reconhecido Edythe com tanta facilidade? Ela realmente podia acreditar nas lendas impossíveis que a filha ridicularizava?
A resposta estava clara nos olhos de Bonnie. Sim. Sim, ela acreditava.

7 comentários:

  1. Me pergunto qual o motivo por trás dessa mudança...

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  2. como assim "deu para ver nus olhos dela"?

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  3. bem eu li num site em que ela fez essas mudanças foi por causa q os fãs estavam criticando o jeito q os personagens faziam pareciam ser gay d+ então ela fez a mudança .

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    1. Na verdade ela fez a mudança pq muitos criticavam dizendo que bella era uma donzela em apuros entao ela mudou dizendo que bella é uma pessoa normal com inumeros perigos ao seu redor e ela quis provar isso trocando os personagens

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  4. Sabe cara... Eu adorei o que ele fez.. Kkkkk

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  5. Nenhum dos admiradores do carro olhou quando passei por eles para chegar à porta do ---caro--- de Edythe.

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  6. Estou amando, definitivamente amando o livro.

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