15 de janeiro de 2016

Capítulo 10 - Interrogações

Foi diferente de manhã.
Todas as coisas que pareceram possíveis na noite anterior, no escuro, pareciam piadas ruins com o sol no céu, mesmo dentro da minha cabeça.
Aquilo aconteceu mesmo? Eu me lembrava das palavras direito? Ela tinha mesmo dito aquelas coisas para mim? Eu fui mesmo corajoso o bastante para dizer as coisas que achei que tinha dito?
O cachecol dela, roubado do irmão, estava dobrado em cima da minha mochila, e tive que ir até ali para tocar nele. Aquela parte era real, pelo menos.
Do lado de fora da minha janela, havia neblina e estava escuro, absolutamente perfeito. Ela não tinha motivos para não ir à escola hoje. Coloquei camadas de roupas, lembrando que não estava com o casaco e torcendo para não ficar encharcado até conseguir recuperá-lo.
Quando desci, Charlie já havia saído; eu estava mais atrasado do que tinha percebido. Engoli uma barra de cereal em três dentadas, empurrei para dentro com leite bebido direto da caixa e corri porta afora. Com sorte, a chuva daria um tempo até eu poder encontrar Jeremy. Com sorte, meu casaco ainda estaria no carro dele.
A neblina estava muito densa; o ar era quase fumarento. A bruma era gelada onde tocava no meu rosto, e eu mal podia esperar para ligar o aquecimento da minha picape. Era uma neblina tão densa que eu estava a pouca distância da entrada de veículos antes de reparar que havia outro carro ali; um carro prata familiar. Meu coração deu aquele salto duplo esquisito, e torci para não estar desenvolvendo nenhum problema na aorta.
A janela do passageiro estava abaixada, e ela estava inclinada na minha direção, tentando não rir da minha cara de posso estar tendo um ataque cardíaco.
— Quer uma carona para a escola? — perguntou ela.
Apesar de estar sorrindo, havia incerteza na voz dela. Ela não queria que eu fizesse nada por ímpeto, queria que eu pensasse no que estava fazendo. Talvez até quisesse que eu dissesse não. Mas isso não ia acontecer.
— Quero, obrigado — eu disse, tentando parecer casual. Quando entrei no carro, percebi uma jaqueta caramelo pendurada no banco do carona.
— O que é isso?
— A jaqueta de Royal. Eu não queria que você pegasse um resfriado nem nada.
Coloquei a jaqueta com cuidado no banco de trás. Ela não parecia se importar de pegar as coisas dos irmãos, mas quem sabia o que eles achavam? Uma das imagens confusas que eu lembrava do acidente de carro, mesmo tendo sido semanas antes, era dos rostos dos irmãos olhando de longe. A palavra que melhor resumia a expressão de Royal era fúria.
Eu podia ter dificuldade de ter medo de Edythe, mas achava que não teria o mesmo problema com Royal.
Peguei o cachecol na mochila e coloquei em cima da jaqueta.
— Estou bem — falei, e bati com o punho no peito duas vezes. — Meu sistema imunológico está em ótima forma.
Ela riu, mas eu não sabia se por me achar engraçado ou ridículo. Ah, tudo bem. Desde que eu a fizesse rir. Ela dirigiu pelas ruas envoltas de névoa, sempre rápido demais, mal olhando para a pista. Também não estava de casaco, só com um suéter lilás com as mangas puxadas. O suéter era grudado no corpo, e tentei não ficar olhando. O cabelo estava preso em um nó na base da nuca, desgrenhado, com mechas caídas para todo lado, e a forma como exibia o pescoço esguio também era uma distração.
Senti vontade de passar os dedos por aquele pescoço... Mas eu tinha que tomar mais cuidado, como ela me avisou na noite anterior. Eu não sabia direito o que ela quis dizer, mas faria o melhor que pudesse, porque era uma coisa que ela precisava de mim. Eu não faria nada que fosse assustá-la.
— E aí, não tem jogo das vinte perguntas hoje? — perguntou ela.
— Foi incômodo ontem à noite?
— Não incômodo, só... confuso.
Fiquei surpreso de ela achar isso. Parecia que a pessoa no escuro era ela.
— O que isso quer dizer?
— Suas reações. Eu não entendo.
— Minhas reações?
Ela me olhou e ergueu uma sobrancelha.
— É, Beau. Quando alguém conta que bebe sangue, você tem que ficar nervoso. Fazer uma cruz com os dedos, jogar água benta, sair correndo e gritando, esse tipo de coisa.
— Ah. Hã... vou me esforçar da próxima vez, que tal?
— Por favor, melhore suas expressões de pavor.
— Pavor não está na minha descrição de ontem à noite.
Ela expirou pelo nariz, irritada. Eu não sabia o que dizer. Nada poderia me fazer vê-la como algo de que fugir.
— E onde está a sua família?
Eu não queria pensar na família dela. Não queria lidar com a ideia de mais vampiros, vampiros que não eram Edythe. Vampiros que pudessem inspirar pavor de verdade.
Mas o fato era que normalmente o carro dela estava cheio, e hoje não estava. Claro que fiquei grato. Era difícil imaginar uma coisa que me deixaria fora de um carro se Edythe me convidasse, mas um bando de vampiros furiosos no banco de trás podiam complicar as coisas.
Ela estava entrando no estacionamento da escola. Já.
— Eles usaram o carro de Royal. — Ela indicou um conversível vermelho com a capota suspensa ao parar ao lado. — Chamativo, não é?
— Se ele tem isso , por que pega carona com você?
— Como eu disse, é chamativo. Nós tentamos nos misturar.
Eu ri e abri a porta do carro.
— Sem querer ofender, mas vocês estão fazendo isso muito errado.
Ela revirou os olhos.
Eu não estava mais atrasado. O jeito lunático dela de dirigir me levou à escola com tempo de folga.
— Por que Royal dirigiu hoje se chama mais atenção?
— Minha culpa. Como sempre, Royal diria. Você não percebeu, Beau? Estou violando todas as regras agora.
Ela se juntou a mim na frente do carro, ficando bem perto, ao meu lado, ao andarmos para o campus. Eu queria estreitar essa pequena distância, estender a mão e tocar na dela, passar o braço pelos ombros dela, mas tive medo de isso não ser cuidadoso o bastante para ela.
— Por que vocês têm carros assim, então? — perguntei a mim mesmo em voz alta. — Se procuram ter privacidade, há muitos Hondas usados disponíveis.
— É um prazer — admitiu ela com um sorrisinho. — Todos gostamos de correr.
— Claro — murmurei.
Sob o abrigo da marquise do refeitório, Jeremy esperava, os olhos quase saltando da cara de novo. No braço estava meu casaco.
— Oi, Jer — falei quando estávamos a alguns metros de distância. — Obrigado por trazer isso.
Ele me passou o casaco sem dizer nada.
— Bom dia, Jeremy — disse Edythe educadamente.
Consegui perceber que ela não estava tentando sufocá-lo, mas mesmo o menor dos seus sorrisos era difícil de encarar.
— É... oi. — Jeremy desviou os olhos arregalados para mim, tentando organizar os pensamentos confusos. — Acho que vejo você na trigonometria.
— É, a gente se vê lá.
Ele se afastou, parando duas vezes para nos espiar por sobre o ombro.
— O que vai dizer a ele? — murmurou ela.
— Hã? — Olhei para ela e para as costas de Jeremy. — Ah. O que ele está pensando?
Ela repuxou a boca para o lado.
— Não sei se é ético da minha parte contar isso...
— O que não é ético é você usar suas vantagens injustas só a seu favor.
Ela deu um sorriso malicioso.
— Ele quer saber se estamos namorando escondido. E até onde você foi comigo.
O sangue subiu ao meu rosto tão rápido que tive certeza de estar vermelho-beterraba depois de um segundo.
Ela afastou o olhar, de repente com o rosto tão desconfortável quanto o meu. Deu um pequeno passo para longe de mim e trincou os dentes.
Demorei um minuto para perceber que a vermelhidão que me constrangia tanto devia ser uma coisa bem diferente para ela.
Isso me ajudou a me acalmar.
— Hã. O que devo dizer?
Ela começou a andar, e fui atrás, sem prestar atenção em para onde ela estava indo.
Depois de um segundo, ela olhou para mim, com o rosto relaxado e sorrindo de novo.
— Boa pergunta. Mal posso esperar para ouvir o que você vai inventar.
— Edythe...
Ela sorriu, e a mãozinha dela voou e afastou uma mecha de cabelo da minha testa. Com a mesma rapidez, a mão voltou para o lado do corpo. Meu coração pulou como se eu tivesse levado um susto.
— A gente se vê no almoço — disse ela, mostrando as covinhas.
Fiquei parado ali, como se tivesse levado um choque, enquanto ela girava e saía andando na outra direção.
Depois de um segundo, me recuperei o bastante para ver que estava em frente à sala de aula de inglês. Três pessoas tinham parado na porta e ficaram olhando para mim com graus variados de surpresa e assombro. Baixei a cabeça e passei por elas para entrar na sala.
Jeremy ia mesmo me perguntar aquilo? Edythe realmente ficaria prestando atenção a como eu reagiria?
— Bom dia, Beau.
McKayla já estava na carteira de sempre. O cumprimento não foi tão entusiasmado quanto costumava ser. Ela estava sorrindo, mas parecia por educação, não que ela estivesse feliz em me ver.
— Oi, McKayla. Como está?
— Bem. Como foi o filme ontem?
— Ah, sim, é. Eu não vi o filme. Me perdi e...
— É, eu soube — disse ela.
Eu pisquei, sem entender.
— Como?
— Encontrei Jeremy antes da aula.
— Ah.
— Ele disse que você não perdeu muita coisa. O filme era ruim.
— Que bom, eu acho.
De repente, ela ficou interessada nas próprias unhas. Começou a descascar o esmalte roxo.
— Você tinha planos antes de ir? Jeremy achou que talvez tivesse, e me perguntei... pra que fingir tudo, sabe?
— Não, não, eu estava planejando ver o filme. Eu não esperava que... fosse me perder e... essas coisas.
McKayla fungou uma vez, como se não acreditasse em mim, e olhou para o relógio. A Sra. Mason estava fazendo alguma coisa na mesa e não pareceu com pressa para começar a aula.
— Foi legal você ter saído com Jeremy na segunda — falei, mudando de assunto. — Ele disse que foi ótimo.
Ou eu tinha certeza que teria dito se eu tivesse perguntado.
Ela olhou para as unhas de novo, mas as orelhas começaram a ficar cor-de-rosa.
— É mesmo? — perguntou ela, em um tom totalmente diferente.
— Com certeza. — Baixei a voz a um sussurro. — Lembre-se, eu não disse nada. Tipo, não contei que ele acha você a garota mais legal que ele conhece.
As orelhas dela ficaram mais cor-de-rosa ainda.
— Código masculino. Certo.
— Eu não falei nada.
Ela finalmente deu um sorriso de verdade.
A Sra. Mason se levantou e pediu que abríssemos nossos livros.
Achei que estava bem com McKayla agora, mas, quando a aula acabou, eu a vi trocar um olhar com Erica, e McKayla começou a futucar as unhas de novo quando saímos da sala.
— Então — disse ela.
— O quê?
— Eu só fiquei curiosa para saber se, você sabe, vamos ver você no baile, afinal. Você pode ficar com nosso grupo se quiser.
— No baile? — Olhei para ela sem entender. — Não. Não, ainda vou a Seattle.
Ela pareceu surpresa, mas relaxou.
— Tudo bem. Então tá. Talvez a gente possa se juntar para o baile. Dividir uma limusine.
Eu parei de andar.
— Eu não estava mesmo planejando ir ao baile...
— É mesmo? Que chocante! — McKayla riu. — Mas acho que você devia contar para Taylor. Ela disse que você vai levá-la.
Senti meu queixo cair. McKayla morreu de rir.
— Foi o que pensei — disse ela.
— Você está falando sério? — perguntei quando recuperei o controle do rosto. — Ela devia estar brincando.
— Logan e Jeremy estavam conversando sobre se arrumarem cedo e fazer alguma coisa legal pro baile, e Taylor disse que estava fora porque já tinha planos. Com você. É por isso que Logan está sento tão... você sabe... com você. Ele tem uma queda pela Taylor. Acho que você merecia saber. Afinal, violou o código masculino por mim.
— O que devo fazer?
— Diga que não vai levá-la.
— Não posso... O que eu diria?
Ela sorriu como se estivesse se divertindo.
— Seja homem, Beau. Ou alugue um smoking. A escolha é sua.
Não prestei muita atenção à aula depois disso. Era mesmo minha responsabilidade desconvidar Taylor para o baile? Tentei me lembrar do que disse para ela no estacionamento quando ela me convidou. Eu tinha quase certeza de que não tinha concordado com nada.
O céu parecia chumbo quando fui para a aula de trigonometria, tão cinza e pesado. Na semana anterior, eu teria achado deprimente. Hoje, sorri. Havia alguma coisa melhor do que o sol.
Quando vi Jeremy sentado ao lado de uma cadeira vazia na fileira de trás, observando a porta e me esperando, lembrei que Taylor não era o único problema que eu tinha no momento. Meu pescoço começou a ficar quente, e desejei ter ficado com o cachecol.
Havia outra cadeira vazia duas fileiras na frente... mas devia ser melhor acabar logo com aquilo e pronto. A Sra. Varner ainda não estava na sala. Por que tantos professores estavam atrasados hoje? Parecia que ninguém ligava se aprendíamos alguma coisa ou não.
Eu me sentei ao lado de Jeremy. Ele nem me deixou esperar.
— Caramba, filho — disse ele. — Quem imaginaria que você jogava tão alto.
Eu revirei os olhos.
— Eu não jogo.
— Por favor. — Ele deu um soco no meu braço. — Edythe Cullen. Caramba. Como você conseguiu isso?
— Eu não fiz nada.
— Há quanto tempo está rolando? É segredo? Ela não quer que a família saiba? Foi por isso que você fingiu que ia ao cinema com a gente?
— Eu não fingi nada. Eu não fazia ideia de que ela estava em Port Angeles ontem à noite. Ela era a última pessoa que eu esperava ver.
Ele pareceu murchar com minha sinceridade óbvia.
— Você tinha saído com ela antes da noite de ontem?
— Nunca.
— Hã. Foi pura coincidência?
— Foi.
Era óbvio quando eu estava falando a verdade. E óbvio quando estava tentando desviar dela. O olhar desconfiado e esperto voltou ao rosto dele.
— Porque, você sabe, não é segredo que você anda obcecado por ela desde que chegou aqui.
Eu fiz uma careta.
— Não é?
— Eu tive que questionar como você virou o jogo. Você tem um gênio da lâmpada? Encontrou alguma coisa pra fazer chantagem com ela? Ou vendeu a alma para o diabo?
— Sei lá, cara.
— O que você ganhou na troca? Aposto que foi uma noite muito louca, hein?
Eu estava começando a ficar aborrecido, mas sabia que ele distorceria qualquer reação que eu tivesse para fazer parecer outra coisa.
Eu respondi calmamente:
— Encerramos cedo. Voltei às oito.
— É sério?
— Foi só um jantar e uma carona para casa, Jeremy.
— Mas e hoje de manhã? Você ainda estava com ela.
— Ainda? Não! O que... você achou que ela ficou comigo a noite toda?
— Não ficou?
— Não.
— Mas você estava no carro dela...
— Ela me pegou antes da escola hoje cedo.
— Por quê?
— Não faço ideia. Me ofereceu carona. Eu não ia dizer não.
— E só isso?
Eu dei de ombros.
— É sério? Me diga que você ao menos deu uns amassos nela. Qualquer coisa.
Olhei de cara feia.
— Não é assim.
Ele fez cara de nojo.
— Essa é de longe a história mais decepcionante que já ouvi na minha vida toda. Retiro tudo que disse sobre como você joga. Obviamente, ela só deve sentir pena.
— É, deve ser.
— Acho que vou tentar parecer mais patético. Se é disso que Edythe gosta.
— Manda ver.
— Não vai demorar para ela cansar de você, aposto.
Minha fachada desmoronou por um segundo. Ele percebeu a mudança e sorriu com certa arrogância.
— É — falei. — Acho que você deve estar mesmo certo.
A Sra. Varner chegou nessa hora, e a falação geral começou a morrer quando ela começou a escrever equações no quadro.
— Mas quer saber? — disse Jeremy baixinho. — Acho que prefiro ficar com uma garota normal.
Eu já estava irritado. Não gostei do jeito como ele falava de Edythe em geral, e a forma como ele disse normal me aborreceu. Não, Edythe não era normal, mas isso não era porque, como o tom dele parecia insinuar, ela era alguma coisa... de errado. Ela era acima do normal, além. Passava tanto disso que normal e Edythe não estavam nem na mesma esfera de existência.
— Acho melhor assim — murmurei com a voz dura. — Mantenha suas expectativas baixas.
Ele me lançou um olhar de susto, mas me virei para olhar para a professora. Eu conseguia senti-lo me olhando novamente com desconfiança, até a Sra. Varner reparar e chamá-lo para dar uma resposta. Ele começou a folhear o livro com desespero para tentar descobrir o que ela tinha perguntado.
Jeremy foi andando na minha frente a caminho da aula de espanhol, mas não me importei. Eu ainda estava irritado. Ele só falou comigo no final da aula, quando comecei a guardar os livros na mochila com um pouco de entusiasmo demais.
— Você não vai se sentar com a gente no almoço, vai?
O rosto dele estava desconfiado de novo e mais defensivo agora. Obviamente, ele achou que eu estaria ansioso para me exibir, para contar tudo sobre Edythe e bancar o descolado. Afinal, Jeremy e eu éramos amigos havia um tempo. Os homens contavam essas coisas uns para os outros. Devia ser parte do tal código masculino que inventei. Ele supôs que minha lealdade seria com ele... mas agora, sabia que estava enganado.
— Hã, não sei — falei.
Não havia sentido em ser confiante demais. Eu lembrava claramente como era quando ela desaparecia. Eu não queria atrair mau agouro.
Ele saiu andando sem me esperar, mas deu uma paradinha na porta da sala.
— Falando sério, que ridículo — disse Jeremy, alto o bastante para que eu pudesse ouvi-lo, além de todo mundo em um raio de três metros.
Ele olhou para mim, balançou a cabeça e saiu andando.
Eu estava com pressa para sair pela porta, para ver do que ele estava falando, mas todo mundo também. Um a um, todos pararam para olhar para mim antes de sair.
Quando saí, eu não sabia o que esperar. Irracionalmente, eu estava esperando ver Taylor de vestido cintilante de baile e tiara na cabeça.
Mas, do lado de fora de nossa sala de espanhol, encostada na parede, mil vezes mais linda do que qualquer um teria direito, Edythe me esperava. Os olhos grandes e dourados pareciam achar graça, e os cantos dos lábios estavam a ponto de sorrir. O cabelo ainda estava preso naquele coque desgrenhado, e tive uma estranha vontade de esticar a mão e soltar o que o prendia.
— Oi, Beau.
— Oi.
Parte de mim estava ciente de que tínhamos plateia, mas eu não estava me importando.
— Com fome? — perguntou ela.
— Claro.
Na verdade, eu não fazia ideia se estava com fome. Meu corpo todo parecia estar sendo eletrocutado de um jeito muito estranho e prazeroso. Meus nervos não conseguiam absorver mais do que aquilo.
Ela se virou na direção do refeitório, colocando a bolsa no lugar.
— Me deixe levar isso para você — ofereci.
Ela me olhou com olhos de gazela.
— Parece pesada demais para mim?
— Bem, quer dizer...
— Claro — disse ela.
Deslizou a bolsa pelo braço e entregou para mim, usando deliberadamente apenas o dedo mindinho.
— Er, obrigado — falei, e ela deixou a tira cair na minha mão.
Acho que eu devia saber que estaria pesando o dobro da minha. Peguei-a antes que pudesse bater na calçada, depois coloquei no meu ombro livre.
— Você sempre traz seus blocos de concreto para a escola?
Ela riu.
— Archie me pediu para trazer umas coisas para ele hoje de manhã.
— Archie é seu irmão favorito?
Ela olhou para mim.
— Não é legal ter favoritos.
— Filho único — falei. — Sou o favorito de todo mundo.
— Dá para ver. Mas por que você acha isso?
— Parece que você fala dele com mais facilidade.
Ela pensou sobre isso por um momento, mas não comentou.
Quando chegamos no refeitório, eu a segui até a fila da comida. Não consegui deixar de olhar para o canto do refeitório, como fazia todos os dias. A família dela estava toda presente, prestando atenção só uns nos outros. Ou eles não repararam em Edythe comigo ou não ligavam.
Pensei na ideia que Jeremy teve, que Edythe e eu estávamos namorando em segredo para que a família não soubesse. Não parecia que ela estava escondendo nada deles, mas não consegui deixar de imaginar o que eles pensavam de mim.
Eu me perguntei o que eu pensava deles. Nesse momento, Archie ergueu o olhar e sorriu para mim. Automaticamente, sorri para ele, depois olhei para baixo para ver se o sorriso era dirigido a Edythe. Ela estava ciente dele, mas não respondeu do mesmo jeito.
Parecia meio zangada. Fiquei olhando de um para o outro enquanto eles tinham um tipo de conversa silenciosa. Primeiro, Archie abriu um grande sorriso, mostrando dentes tão brancos que brilhavam mesmo do outro lado do salão. Edythe ergueu as sobrancelhas em uma espécie de desafio, o lábio superior se curvando só um pouco. Ele revirou os olhos para o teto e levantou as mãos como se dissesse eu me rendo. Edythe deu as costas para ele e andou na fila. Ela pegou uma bandeja e começou a encher de comida.
— Sou bem próxima de toda a minha família, mas Archie e eu temos mais coisas em comum — disse ela, finalmente respondendo em voz baixa. Precisei baixar a cabeça para ouvir. — Mas às vezes ele é muito irritante.
Olhei para ele; ele estava rindo agora. Apesar de não estar olhando para nós, achei que podia estar rindo dela.
Eu estava prestando tanta atenção a essa interação que só reparei no que ela tinha colocado na bandeja quando nossa soma estava sendo feita.
— São vinte e quatro dólares e trinta e três centavos — disse a funcionária.
— O quê? — Olhei para a bandeja e levei um susto.
Edythe já estava pagando, depois saiu andando na direção da mesa onde nos sentamos juntos na semana anterior.
— Ei — falei, correndo alguns passos para alcançá-la. — Não consigo comer tudo isso.
— Metade é para mim, claro.
Ela se sentou e empurrou a bandeja lotada para o centro da mesa.
Eu levantei as sobrancelhas.
— Sério.
— Pegue o que quiser.
Eu me sentei na cadeira em frente à dela, deixando que o peso morto da bolsa deslizasse até o chão com a minha mochila.
— Estou curioso. O que você faria se alguém a desafiasse a comer comida?
— Você está sempre curioso.
Ela fez uma careta pegou com ousadia um pedacinho de fatia de pizza, colocou na boca e começou a mastigar com expressão martirizada. Depois de um segundo, engoliu e me olhou com superioridade.
— Se alguém desafiasse você a comer terra, você comeria, não é? — perguntou ela.
Eu sorri para ela.
— Eu comi uma vez... num desafio. Não foi tão ruim.
— Por acaso, não estou surpreso. Aqui. — Ela empurrou o resto da pizza na minha direção.
Dei uma mordida. Perguntei-me se tinha mesmo gosto de terra para ela. Não era a melhor pizza que já comi, mas era boa. Enquanto eu mastigava, ela olhou por cima do meu ombro e riu.
Eu engoli rápido.
— O quê?
— Você deixou Jeremy tão confuso.
— É difícil.
— Ele imaginou mil coisas quando viu você sair do meu carro.
Eu dei de ombros e dei outra mordida.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Você concorda com ele?
Precisei engolir rápido de novo e quase engasguei. Ela começou a se levantar, mas ergui a mão e me recuperei.
— Estou bem. Concordo sobre o quê?
— Sobre o motivo de eu estar aqui com você.
Demorei um minuto para repensar a conversa. Eu me lembrava de coisas que torcia para que ela não tivesse prestado atenção, como o fato de que, aparentemente, todo mundo sabia que eu estava obcecado por ela desde o primeiro dia.
— Não sei o que você quer dizer.
Ela franziu a testa.
— Obviamente, ela só deve sentir pena? — citou ela.
Fiquei surpreso por ela parecer irritada.
— É uma explicação tão boa quanto qualquer outra.
— E vou me cansar de você logo, é?
Isso magoou um pouco, pois era meu maior medo e parecia provável demais, mas tentei esconder com outro movimento de ombros.
— Beau, você está sendo idiota de novo.
— Estou?
Ela deu um meio sorriso de testa franzida que foi engraçado.
— Tem várias coisas com que estou preocupada. O tédio não é uma delas. — Ela inclinou a cabeça para o lado e olhou bem nos meus olhos. — Você não acredita em mim?
— Hã, claro, eu acho. Se você diz isso.
Ela apertou os olhos.
— Nossa, que afirmativa sufocante.
Dei outra mordida na pizza e mastiguei lenta e deliberadamente dessa vez. Ela esperou e ficou me olhando com aquela expressão intensa que eu sabia que queria dizer que estava tentando entrar na minha mente.
Quando dei uma segunda mordida sem falar, ela bufou com irritação.
— Odeio quando você faz isso.
Demorei um segundo para engolir.
— O quê? Não conto cada pensamento idiota que passa pela minha cabeça?
Consegui perceber que ela ficou com vontade de sorrir, mas não cedeu.
— Precisamente.
— Não sei o que dizer. Se eu acho que você vai ficar entediada comigo? Acho. Sinceramente, não sei por que você ainda está aqui. Mas estava tentando não dizer isso em voz alta, porque não queria chamar atenção para uma coisa na qual você podia não ter pensado.
O sorriso se alargou.
— É muito verdade. Eu jamais teria percebido sozinha, mas, agora que você mencionou, acho que devo mesmo seguir em frente. Aquele Jeremy de repente parece atraentemente patético... — Ela parou de falar e o sorriso sumiu. — Beau, você sabe que estou brincando.
Eu me perguntei o que meu rosto estava demonstrando. E assenti.
A testa dela se enrugou. Depois de um segundo, ela esticou o braço com hesitação na minha direção, deixando a mão ao meu alcance.
Eu a cobri com a minha.
Ela sorriu, mas fez uma careta.
— Desculpe — falei, afastando o braço.
— Não — protestou ela. — Não foi você. Aqui.
Com o cuidado que teria se minha mão fosse feita do cristal mais fino, ela colocou os dedos na minha palma.
Imitando a cautela dela, dobrei a mão delicadamente ao redor.
— O que acabou de acontecer? — Eu meio que sussurrei.
— Muitas reações diferentes. — A testa dela se franziu de novo. — Royal tem uma voz mental muito estridente.
Não consegui evitar; olhei automaticamente para o outro lado do salão, mas lamentei ter feito isso.
Royal estava disparando facas com o olhar para as costas desprotegidas de Edythe, e Eleanor, na frente dele, estava virada para olhar de cara feia para ela. Quando o encarei, Royal desviou o olhar furioso para mim.
Olhei para Edythe, com os pelos dos braços eriçados, mas ela estava olhando com raiva para Royal agora, o lábio superior repuxado sobre os dentes em uma expressão ameaçadora. Para minha surpresa, Eleanor se virou na mesma hora, e Royal abandonou a expressão ameaçadora.
Ele olhou para a mesa com uma expressão emburrada de repente.
Archie parecia estar se divertindo com tudo. Jessamine nem se mexeu.
— Eu acabei de irritar... — Engoli antes que pudesse terminar. — Um bando de vampiros?
— Não — disse ela com intensidade, e suspirou. — Mas eu, sim.
Olhei para Royal de novo por uma fração de segundo. Ele não tinha se mexido.
— Olha, você está encrencada por minha causa? O que eu posso fazer?
A lembrança dos olhos lívidos dele apontados para o corpo pequeno dela fez uma onda de pânico me percorrer.
Ela balançou a cabeça e sorriu.
— Não precisa se preocupar comigo — garantiu ela com certa arrogância. — Não estou dizendo que Royal não poderia me vencer em uma luta justa, mas estou dizendo que eu nunca lutei de forma justa e não pretendo começar agora. Ele sabe que não deve se meter comigo.
— Edythe...
Ela riu.
— É piada. Não é nada, Beau. Coisa normal entre irmãos. Um filho único não teria como entender.
— Se você diz.
— Digo.
Olhei para nossas mãos, ainda unidas. Foi a primeira vez que segurei a mão dela de verdade, mas junto com a maravilha disso estava a lembrança de por que ela me ofereceu a mão.
— Voltando ao que você estava pensando — disse ela, como se pudesse ler meus pensamentos.
Eu suspirei.
— Ajudaria se você soubesse que não foi o único acusado de obsessão?
Eu grunhi.
— Você ouviu isso também. Que ótimo.
Ela riu.
— Fiquei hipnotizada do começo ao fim.
— Me desculpe.
— Por que você está pedindo desculpas? Me sinto melhor de saber que não sou a única.
Fiquei olhando para ela com ceticismo.
— Me deixe elaborar assim. — Ela repuxou os lábios, pensativa. — Apesar de você ser a única pessoa sobre quem não posso ter certeza, eu ainda estaria disposta a apostar alto que passo mais tempo pensando em você do que você em mim.
— Ha. — Eu ri, assustado. — Você perderia essa aposta.
Ela ergueu uma sobrancelha e falou tão baixo que precisei me inclinar para ouvir.
— Ah, mas você só fica consciente umas dezesseis horas a cada período de vinte e quatro. Isso me dá uma boa vantagem, você não acha?
— Mas você não está contando sonhos.
Ela suspirou.
— Pesadelos contam como sonhos?
Meu pescoço começou a ficar vermelho.
— Quando sonho com você... não é pesadelo.
Ela abriu a boca um pouco surpresa, e seu rosto ficou vulnerável de repente.
— É mesmo? — perguntou ela.
Ficou claro que ela estava satisfeita, então falei:
— Todas as noites.
Ela fechou os olhos por um minuto, mas, quando voltou a abri-los, o sorriso estava provocador de novo.
— Os ciclos REM são os mais curtos do sono profundo. Ainda estou horas à frente.
Eu franzi a testa. Aquilo era difícil de absorver.
— Você pensa mesmo em mim?
— Por que é tão difícil de acreditar?
— Ah, olhe para mim — falei desnecessariamente, pois ela já estava olhando. — Sou totalmente comum... bem, exceto pelas coisas ruins, como todas as experiências de quase morte e por eu ser tão descoordenado que mal consigo andar. E olhe para você. — Eu apontei a mão livre para ela e para a perfeição perturbadora dela.
Ela deu um sorriso lento. Começou pequeno, mas terminou com uma série completa de covinhas, como o grand finale em um show de fogos do Quatro de Julho.
— Não posso discutir com você sobre as coisas ruins.
— Está vendo.
— Mas você é a pessoa menos comum que já conheci.
Nossos olhares se sustentaram por um longo momento. O meu examinava o dela enquanto eu tentava acreditar que ela podia ver alguma coisa importante o bastante para ficar comigo. Sempre pareceu que ela estava prestes a sumir, desaparecer, como se fosse apenas um mito.
— Mas por que... — Eu não sabia como formular.
Ela inclinou a cabeça para o lado, esperando.
— Ontem à noite... — Eu parei e balancei a cabeça.
Ela franziu a testa.
— Você faz isso de propósito? O pensamento não terminado é uma forma de me enlouquecer?
— Não sei se consigo explicar direito.
— Tente, por favor.
Eu respirei fundo.
— Tudo bem. Você está alegando que não entendo você e que não pensa em partir para cima de Jeremy tão cedo.
Ela assentiu enquanto lutava contra um sorriso.
— Mas ontem à noite... foi como... — Ela estava ansiosa agora. O resto saiu de uma vez. — Como se você já estivesse procurando um jeito de dizer adeus.
— Perceptivo — sussurrou ela. E lá estava a angústia de novo, vindo à tona com a confirmação dela do meu maior medo.
Os dedos dela apertaram o meu delicadamente.
— Mas as duas coisas não estão relacionadas.
— Que duas coisas?
— A profundeza dos meus sentimentos por você e a necessidade de me afastar. Bem, estão relacionadas, mas inversamente.
A necessidade de me afastar. Meu estômago despencou.
— Não entendi.
Ela olhou nos meus olhos de novo, com os dela ardendo, hipnotizantes. A voz estava quase inaudível.
— Quanto mais eu gosto de você, mais crucial é encontrar um jeito de... manter você em segurança. De mim. Me afastar seria a coisa certa a fazer.
Eu balancei a cabeça.
— Não.
Ela respirou fundo, e os olhos pareceram escurecer de um jeito estranho.
— Bem, não fui muito boa em deixar você sozinho quando tentei. Não sei como fazer isso.
— Quer me fazer um favor? Pare de tentar descobrir como fazer isso.
Ela deu um meio sorriso.
— Acho que, considerando a frequência das suas experiências de quase morte, acaba sendo mais seguro eu ficar por perto.
— Verdade. Nunca se sabe quando outra van desgovernada pode atacar.
Ela franziu a testa.
— Você ainda vai a Seattle comigo, né? Tem muitas vans em Seattle. Esperando em emboscada a cada esquina.
— Na verdade, tenho uma pergunta para você sobre isso. Você precisava mesmo ir a Seattle neste sábado ou era só uma desculpa para não ter que dizer não a todas as suas admiradoras?
— Ah.
— Foi o que pensei.
— Sabe, você me deixou em posição difícil com Taylor com aquela história toda do estacionamento.
— Você está falando porque vai ter que levá-la ao baile agora?
Meu queixo caiu, mas depois eu trinquei os dentes.
Ela estava tentando não rir.
— Ah, Beau.
Consegui ver que havia mais.
— O quê?
— Ela já tem vestido.
Eu não tive palavras para isso.
Ela deve ter lido o pânico nos meus olhos.
— Podia ser pior. Ela o comprou antes de convidá-lo para ir com ela. Era usado e não foi caro. Ela não podia perder a oportunidade.
Continuei sem conseguir falar. Ela apertou minha mão de novo.
— Você vai resolver.
— Eu não vou a bailes — falei, com tristeza.
— Se eu tivesse convidado você para ir ao baile de primavera, você teria dito não?
Olhei para os olhos dourados e tentei me imaginar recusando qualquer coisa que ela quisesse.
— Provavelmente não, mas encontraria um motivo para cancelar depois. Eu quebraria a perna se precisasse.
Ela pareceu intrigada.
— Por que você faria isso?
Sacudi a cabeça com tristeza.
— Pelo visto, você nunca me viu na educação física, mas eu achava que entenderia.
— Está se referindo ao fato de que você não consegue andar numa superfície plana e estável sem encontrar alguma coisa em que tropeçar?
— É óbvio.
— Sou ótima professora, Beau.
— Acho que coordenação não é uma habilidade que se aprende.
Ela balançou a cabeça.
— Voltando à pergunta. Você tem que ir a Seattle ou se importaria se fizéssemos alguma coisa diferente?
Enquanto a parte do nós ainda estivesse ali, eu não me importava com mais nada.
— Estou aberto a alternativas — cedi. — Mas tenho outro favor a pedir.
Ela me olhou cautelosa, como sempre acontecia quando eu fazia uma pergunta aberta.
— O que é?
— Posso dirigir?
Ela franziu a testa.
— E por quê?
— Bom, principalmente porque você é uma motorista apavorante. Mas também porque eu disse a Charlie que ia sozinho, e não quero que ele fique curioso.
Ela revirou os olhos.
— De todas as coisas sobre mim que podem assustá-lo, você se preocupa com meu jeito de dirigir. — Ela balançou a cabeça de desgosto, mas depois seus olhos estavam sérios de novo. — Não quer contar a seu pai que vai passar o dia comigo? — Havia alguma coisa por trás da pergunta dela que eu não entendi.
— Com Charlie, menos é sempre mais. — Eu sabia muito bem disso. — Aonde vamos, aliás?
— Archie diz que o tempo estará bom, então vou ficar longe dos olhares públicos... e você pode ficar comigo, se quiser. — Novamente, ela estava deixando a decisão nas minhas mãos.
— E você vai me mostrar o que quis dizer sobre o sol? — perguntei, animado com a ideia de descobrir outro de seus aspectos desconhecidos.
— Vou. — Ela sorriu, depois hesitou. — Mas, se você não quiser ficar... sozinho comigo, ainda prefiro que não vá a Seattle sem companhia. Eu tremo só de pensar em todas aquelas vans.
— Por acaso, não me importo de ficar sozinho com você.
— Eu sei — disse ela, suspirando. — Mas você devia contar ao Charlie.
Eu balancei a cabeça perante a ideia de explicar minha vida pessoal para Charlie.
— Por que diabos eu faria isso?
Seus olhos ficaram de repente ameaçadores.
— Para me dar um pequeno incentivo para trazê-lo de volta.
Esperei que ela relaxasse. Como ela não relaxou, eu disse:
— Vou correr o risco.
Ela expirou com raiva e desviou os olhos.
— Então está resolvido. Novo assunto?
Minha tentativa de mudar de assunto não ajudou muito.
— Sobre o que você quer falar? — perguntou ela, entredentes, ainda irritada.
Olhei em volta de nós, certificando-me de que estávamos fora do alcance de ouvidos alheios. No canto, Archie estava inclinado para a frente, falando com Jessamine. Eleanor estava ao lado dela, mas Royal tinha sumido.
— Por que você foi àquele tal de Goat Rocks no fim de semana passado... para caçar? Charlie disse que não era um bom lugar para caminhadas por causa dos ursos.
Ela me encarou como se eu tivesse deixado escapar alguma coisa muito óbvia.
— Ursos? — arfei
Ela sorriu com malícia.
— Sabe de uma coisa, não é temporada de ursos — acrescentei, com austeridade, para esconder meu choque.
— Se ler com cuidado, vai ver que a lei só diz respeito a caça com armas — informou ela.
Ela observou meu rosto com prazer enquanto a ficha caía.
— Ursos? — repeti com dificuldade.
— Os pardos são os preferidos de Eleanor. — Sua voz ainda era descuidada, mas os olhos analisavam minha reação.
Tentei me recompor.
— Hmmm — falei, dando outra dentada na pizza como desculpa para olhar para baixo. Mastiguei devagar e engoli. — E aí — continuei, depois de um momento. — Qual é o seu preferido?
Ela ergueu uma sobrancelha e os cantos da boca se viraram para baixo em desaprovação.
— O leão da montanha.
— Claro, faz sentido. — Eu assenti como se ela tivesse dito uma coisa totalmente normal.
— É claro — o tom dela espelhava o meu, nada fora do comum — que precisamos ter o cuidado de não causar impacto ambiental com uma caçada imprudente. Tentamos nos concentrar em áreas com uma superpopulação de predadores, na maior extensão que precisarmos. Sempre há muitos cervos e veados por aqui, e eles servem, mas que diversão há nisso?
Ela sorriu.
— Então não é divertido — murmurei com outra dentada na pizza.
— O início da primavera é a temporada de ursos preferida de El, eles estão saindo da hibernação, então são mais irritadiços. — Ela sorriu de alguma piada que lembrou.
— Não há nada melhor do que um urso pardo irritado — concordei, assentindo.
Ela riu baixinho, sacudindo a cabeça.
— Me diga o que realmente está pensando, por favor.
— Estou tentando imaginar, mas não consigo — admiti. — Como vocês caçam um urso sem armas?
— Ah, nós temos armas. — Ela faiscou os dentes brilhantes em um sorriso largo que não era realmente sorriso. — Mas não do tipo que consideram quando redigem as leis de caça. Se já viu um ataque de urso pela televisão, deve poder visualizar Eleanor caçando.
Espiei pelo refeitório na direção de Eleanor, grato por ela não estar olhando para mim. As faixas largas de músculos que envolviam seus braços e pernas ficaram bem mais intimidantes. Imaginei-a segurando a base de uma montanha e levantando...
Edythe acompanhou meu olhar e riu. Eu olhei para ela, temeroso.
— É perigoso? — perguntei em voz baixa. — Vocês se machucam?
A gargalhada dela soou como um sino.
— Ah, Beau. Tão perigoso quanto sua pizza.
Olhei para a casca da pizza e disse:
— Eca. Então... você é... como um ataque de urso?
— Mais como o leão, é o que me dizem — disse ela levemente. — Talvez nossas preferências sejam indicativas.
— Talvez — repeti. Tentei sorrir, mas minha mente estava lutando para juntar as imagens paradoxais e falhando. — É uma coisa que eu poderia ver?
— Nunca! — sussurrou ela.
Seu rosto ficou ainda mais branco do que o de costume, e seus olhos de repente estavam horrorizados. Ela afastou a mão da minha e abraçou o corpo.
Minha mão ficou sozinha na mesa, dormente por causa do frio.
— O que eu disse? — perguntei.
Ela fechou os olhos por um momento e recuperou o controle. Quando olhou nos meus olhos, parecia zangada.
— Eu quase queria que fosse possível. Você parece não compreender as realidades do momento. Poderia ser benéfico você ver exatamente o quanto sou perigosa.
— Tudo bem, então, por que não? — insisti, tentando ignorar a expressão rígida dela.
Ela me olhou por um bom tempo.
— Depois — disse ela, por fim. Ela ficou de pé em um movimento leve. — Vamos nos atrasar.
Olhei em volta, sobressaltado ao ver que ela tinha razão e o refeitório estava quase vazio. Quando eu estava com ela, o tempo e o lugar eram detalhes tão pequenos que eu perdia a noção dos dois. Pulei de pé e peguei minha mochila e a bolsa no chão.
— Depois, então — concordei. Eu não ia me esquecer.

5 comentários:

  1. — É muito verdade. Eu jamais teria percebido sozinha, mas, agora que você mencionou, acho que devo mesmo seguir em frente. Aquele Jeremy de repente parece atraentemente patético...
    Ri muito aqui

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  2. Olhei em volta,----sobressaltada---- ao ver que ela tinha razão e o refeitório estava quase vazio.

    Acho que é sobressaltado.

    Estou gostando muito! ^__^

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  3. Está ficando melhor identificar mais cada personagem, estou adorando!
    Obrigado Karina por postar o livro ! ^^

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