15 de janeiro de 2016

Capítulo 1 - À primeira vista

17 de janeiro de 2005

Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas. Apesar de ser janeiro em todos os lugares, fazia 24 graus em Phoenix, e o céu era de um azul intenso. Eu estava usando minha camiseta preferida – a do Monty Python, com as andorinhas e o coco, que minha mãe me deu dois Natais antes. Não cabia mais direito, mas isso não importava. Eu não precisaria mais de camisetas em pouco tempo.
Na península Olympic, no noroeste do estado de Washington, há uma cidadezinha chamada Forks, quase constantemente debaixo de uma cobertura de nuvens. Chove mais nessa cidade insignificante do que emqualquer outro lugar dos Estados Unidos. Foi desse lugar e de suas sombras melancólicas que minha mãe fugiu comigo quando eu tinha apenas alguns meses de idade. Nessa cidade, eu fui obrigado a passar um mês a cada verão até ter 14 anos. Foi então que finalmente dei um ultimato. Nos últimos três verões, meu pai, Charlie, passou duas semanas de férias comigo na Califórnia. Mas, de alguma forma, acabei exilado em Forks pelo resto dos meus dias de escola. Um ano e meio. Dezoito meses. Parecia uma sentença de prisão. Dezoito meses, em um presídio de segurança máxima. Quando bati a porta do carro ao sair, o barulho foi como o das grades sendo trancadas.
Eu sei, estou sendo meio melodramático. Tenho imaginação hiperativa, como minha mãe gostava de dizer. E, claro, a escolha foi minha. Exílio autoimposto.
O que não tornava as coisas mais fáceis.
Eu adorava Phoenix. Adorava o sol, o calor seco e a cidade grande e esparramada. E adorava morar com minha mãe, onde eu era necessário.
— Você não precisa fazer isso — disse ela pela centésima vez antes de eu chegar ao posto de segurança.
Minha mãe diz que somos tão parecidos que eu poderia usá-la como espelho para me barbear. Não é totalmente verdade, apesar de eu não me parecer em nada com meu pai. O queixo dela é pontudo e os lábios são grossos, bem diferente dos meus, mas temos exatamente os mesmos olhos. Nela, são infantis, grandes e azul-claros, o que a faz parecer minha irmã, em vez de mãe. Ouvimos isso o tempo todo e, apesar de fingir não gostar, ela adora. Em mim, o azul-claro fica menos juvenil e mais... indeciso.
Ao olhar para aqueles olhos grandes e preocupados, tão parecidos com os meus, senti pânico. Eu cuidava da minha mãe desde sempre. Ah, claro que deve ter havido uma época, provavelmente quando eu ainda usava fralda, em que eu não era responsável pelas contas e nem pela papelada e nem pela cozinha e nem pelo equilíbrio de um modo geral, mas eu não conseguia me lembrar desse tempo.
Abandonar minha mãe cuidando de si mesma sozinha era mesmo a coisa certa a fazer? Pareceu ser, ao menos durante os meses em que lutei para chegar a essa decisão.
Mas agora parecia completamente errado.
É claro que de uns tempos para cá ela tem o Phil, então as contas provavelmente serão pagas na data de vencimento, haverá comida na geladeira, gasolina no carro e alguém para quem ela vai poder ligar quando se perder... Ela não precisa mais tanto de mim.
— Eu quero ir — menti. Nunca menti bem, mas vinha contando essa mesma mentira com tanta frequência ultimamente que agora parecia quase convincente.
— Diga a Charlie que mandei lembranças.
— Vou dizer.
— Verei você em breve — prometeu ela. — Pode vir para casa quando quiser... Eu volto assim que você precisar de mim.
Mas eu sabia o quanto lhe custaria fazer isso.
— Não se preocupe comigo — insisti. — Vai ser ótimo. Eu te amo, mãe.
Ela me abraçou com força por um minuto, depois passei pelos detectores de metal e ela se foi.
De Phoenix até Seattle são três horas de voo, mais uma hora em um pequeno avião até Port Angeles, e depois uma hora de carro até Forks. Voar nunca me incomodou; a hora no carro com Charlie, porém, era meio preocupante.
Charlie foi bem legal com tudo. Parecia realmente satisfeito que eu, pela primeira vez, fosse morar com ele por um período mais longo. Já tinha feito minha matrícula na escola e ia me ajudar a comprar um carro.
Mas ia ser estranho. Não éramos o que se chamaria de extrovertidos – talvez essa seja uma característica necessária para alguém conviver com minha mãe. Além do mais, o que havia para ser dito? Eu nunca escondi o que achava de Forks.
Quando pousei em Port Angeles, estava chovendo. Não foi um presságio, só era inevitável. Eu já tinha dado adeus ao sol.
Charlie me aguardava na radiopatrulha. Eu também esperava por isso. Charlie é o chefe de polícia Swan para o bom povo de Forks. Minha principal motivação por trás da compra de um carro, apesar da verba extremamente escassa, era que eu odiava andar pela cidade em um carro com luzes vermelhas e azuis no teto. Nada deixa o trânsito mais lento do que um policial.
Saí cambaleando do avião direto para Charlie e um desajeitado abraço de um braço só.
— É bom ver você, Beau — disse ele, sorrindo enquanto automaticamente me ajudava a me firmar. Demos tapinhas nas costas um do outro, constrangidos, depois demos um passo para trás. — Você não mudou muito. Como está a Renée?
— Mamãe está ótima. É bom ver você também, pai. — Eu não podia chamá-lo de Charlie na frente dele.
— Você está bem mesmo com a ideia de deixá-la?
Nós dois entendíamos que essa pergunta não era sobre minha felicidade pessoal. Era para saber se eu estava desviando da responsabilidade de cuidar dela. Foi por esse motivo que Charlie nunca brigou com minha mãe pela minha guarda; ele sabia que ela precisava de mim.
— Estou. Eu não estaria aqui se não tivesse certeza.
— Tudo bem.
Eu tinha só duas bolsas esportivas. A maior parte das minhas roupas do Arizona era leve demais para o clima de Washington. Minha mãe e eu havíamos juntado nossos recursos para complementar meu guarda-roupa de inverno, mas ainda não era muita coisa. Eu podia carregar as duas bolsas, mas Charlie insistiu em levar uma.
Isso tirou um pouco meu equilíbrio; não que eu tivesse muito, principalmente depois do pico de crescimento. Meu pé se prendeu na beirada da porta de saída, e a bolsa acertou o cara que estava tentando entrar.
— Ah, desculpe.
O cara não era muito mais velho do que eu e era bem mais baixo, mas veio para cima de mim com o queixo erguido. Consegui ver tatuagens nos dois lados do pescoço. Uma mulher pequena com o cabelo tingido de preto olhou para mim de forma ameaçadora ao lado dele.
— Desculpe? — repetiu ela, como se meu pedido de desculpas tivesse sido ofensivo.
— Hã, é.
E então, a mulher reparou em Charlie, que estava de uniforme. Charlie não precisou nem dizer nada. Ele só olhou para o sujeito, que deu meio passo para trás e de repente pareceu bem mais jovem, e depois para a garota, cujos lábios vermelhos grudentos faziam beicinho. Sem dizer uma palavra, eles desviaram de mim e entraram no pequeno terminal.
Charlie e eu demos de ombros ao mesmo tempo. Era engraçado como tínhamos alguns maneirismos iguais mesmo não passando muito tempo juntos. Talvez fosse genético.
— Achei um bom carro para você, baratinho — anunciou Charlie quando já estávamos de cinto e a caminho de casa.
— Que tipo de carro? — perguntei, desconfiado do modo como ele disse “um bom carro para você” em vez de simplesmente “um bom carro”.
— Bom, na verdade é uma picape, um Chevy.
— Onde o achou?
— Se lembra da Bonnie Black, de La Push?
La Push é a pequena reserva indígena no litoral próximo.
— Não.
— Ela e o marido costumavam pescar com a gente no verão — incentivou Charlie.
Isso explicava por que eu não me lembrava dela. Eu era bastante competente em bloquear da minha memória coisas dolorosas.
— Ela agora está numa cadeira de rodas — continuou Charlie quando eu não respondi — não pode mais dirigir, e ofereceu a picape por um preço baixo.
— De que ano é? — Pude ver, pela mudança na expressão dele, que era a pergunta que ele esperava que eu não fizesse.
— Bom, a Bonnie mandou fazer muita coisa no motor... Na realidade, só tem alguns anos.
Ele achava que eu desistiria com tanta facilidade?
— Quando foi que ela comprou?
— Comprou em 1984, eu acho.
— Ela a comprou nova?
— Bom, não. Acho que era nova no início dos anos 60... Ou final dos anos 50, no máximo — admitiu ele timidamente.
— Cha... Pai, eu não entendo nada de carros. Não conseguiria consertar nada que quebrasse, e não posso pagar um mecânico...
— Falando sério, Beau, o troço funciona muito bem. Não fazem mais carros assim.
O troço, pensei comigo mesmo... A palavra vinha carregada de possibilidades, como apelido, na melhor das hipóteses.
— É barata, barata mesmo? — Afinal, essa era a parte determinante.
— Bom, filho, já está meio que comprado para você. Como um presente de boas-vindas. — Charlie me olhou de lado com uma expressão esperançosa.
Caramba. De graça.
— Não precisava fazer isso, pai. Eu mesmo ia comprar um carro.
— Tudo bem. Quero que você seja feliz aqui.
Ele estava olhando para a estrada à frente ao dizer isso.
Charlie nunca ficava à vontade quando se tratava de externar as emoções em voz alta. Mais uma coisa que tínhamos em comum. Então fiquei olhando para a frente quando respondi.
— Isso é demais, pai. Eu agradeço muito.
Não era necessário acrescentar que ele estava falando sobre impossibilidades. Não ajudaria em nada fazê-lo sofrer junto comigo. E a picape dada não se olham os dentes, nem o motor.
— Não foi nada — murmurou ele, constrangido com minha gratidão.
Trocamos mais alguns comentários sobre o clima, que estava úmido, e a maior parte da conversa não passou disso. Ficamos olhando pela janela.
Acho que o lugar devia ser lindo. Tudo era verde: as árvores cobertas de musgo, tanto os troncos quanto os galhos, a terra coberta de samambaias. Até o ar ficava verde ao ser filtrado pelas folhas.
Era verde demais – um planeta alienígena.
Por fim chegamos à casa de Charlie. Ele ainda morava na casinha de dois quartos que comprara com minha mãe nos primeiros tempos de seu casamento. Aqueles foram os únicos tempos que o casamento teve – os primeiros.
Ali, estacionada na rua na frente da casa que nunca mudava, estava minha nova – bom, nova para mim – picape. Era de um vermelho desbotado, com para-lamas grandes e arredondados e uma cabine bulbosa.
E eu adorei. Eu não era o tipo de cara que curtia carros, então fiquei meio surpreso com minha própria reação. Eu nem sabia se ia funcionar, mas podia me ver nela. Além disso, era um daqueles monstros sólidos que não quebram nunca – do tipo que se vê na cena de um acidente, a pintura sem um arranhão, cercado pelas peças do carro importado que foi destruído.
— Caramba, pai, é incrível! Obrigado!
Entusiasmo de verdade agora. Além de a picape ser estranhamente legal, eu agora não teria que andar três quilômetros na chuva até a escola de manhã. Nem teria que aceitar uma carona na radiopatrulha, que era a pior perspectiva de todas.
— Que bom que você gostou — disse Charlie rudemente, de novo sem graça.
Apenas uma viagem foi necessária para levar minhas coisas para cima. Fiquei com o quarto do lado oeste, que dava para o jardim da frente. O quarto era familiar; me pertencia desde que nasci. O piso de madeira, as paredes azul-claras, o teto pontiagudo, as cortinas surradas quadriculadas azuis e brancas na janela – tudo isso fazia parte da minha infância. As únicas mudanças que Charlie fizera foram trocar o berço por uma cama e acrescentar uma escrivaninha, à medida que eu crescia. A mesa agora tinha um computador de segunda mão, com a linha telefônica para o modem grampeada pelo chão até a tomada de telefone mais próxima. Isso foi uma das exigências da minha mãe, assim poderíamos manter contato facilmente. A cadeira de balanço de meus tempos de bebê ainda estava no canto.
Só havia um banheiro pequeno no segundo andar, que eu teria que dividir com Charlie, mas eu já dividia com minha mãe antes, e sem dúvida era pior. Ela tinha bem mais coisas, e resistia bravamente às minhas tentativas de organizar tudo.
Uma das melhores coisas em Charlie é que ele não fica rondando a gente. Deixou-me sozinho para desfazer as malas e me acomodar, o que teria sido impossível para minha mãe. Era legal ficar sozinho, sem ter que sorrir e parecer à vontade; um alívio olhar pela janela para a chuva forte e deixar os pensamentos ficarem sombrios.
A Forks High School tinha apenas 357 – agora 358 – alunos; em Phoenix, havia mais de setecentas pessoas só do meu ano. Todos os jovens daqui foram criados juntos – seus avós engatinharam juntos. Eu seria o garoto novo da cidade grande, para quem todos olhariam fixamente e sobre quem cochichariam.
Talvez, se fosse um garoto descolado, eu pudesse fazer com que isso funcionasse a meu favor. Se chegasse com jeitão popular, de rei do baile. Mas não dava para esconder o fato de que eu não era esse cara, nem o astro do futebol americano, nem o presidente da turma, nem o bad boy de moto. Eu era o garoto com cara de que devia ser bom no basquete, mas só até eu começar a andar. O garoto que era empurrado em armários até crescer vinte centímetros de repente no primeiro ano. O garoto que era quieto demais e branco demais, que não sabia nada sobre videogames e sobre carros e nem estatísticas de beisebol e nem nada que deveria conhecer.
Diferentemente dos outros caras, eu não tinha um monte de tempo livre para hobbies. Eu tinha um orçamento para controlar, um ralo entupido para desbloquear e compras da semana para fazer.
Ou costumava ter.
Por isso, não me relacionava bem com as pessoas da minha idade. Talvez a verdade fosse que eu não me relacionava bem com as pessoas, ponto final. Até a minha mãe, de quem eu era mais próximo do que de qualquer outra pessoa do planeta, nunca me entendeu de verdade.
Às vezes eu me perguntava se via as mesmas coisas que o resto do mundo. Se o que eu via como verde era o que todo mundo via como vermelho. Talvez eu sentisse cheiro de vinagre quando as pessoas estivessem sentindo cheiro de coco. Talvez houvesse um problema no meu cérebro. Mas não importava a causa. Só o que importava era o efeito. E amanhã seria só o começo.


Não dormi bem naquela noite, mesmo depois de conseguir fazer a cabeça parar de trabalhar. Ao fundo o ruído constante da chuva e do vento no telhado não desaparecia. Puxei o velho cobertor sobre a cabeça e mais tarde coloquei também o travesseiro. Mas só consegui dormir depois da meia-noite, quando a chuva finalmente se aquietou num chuvisco mais silencioso.
Só o que eu conseguia ver pela minha janela de manhã era uma neblina densa, e sentia a claustrofobia rastejando em minha direção. Nunca dava para ver o céu aqui; era como a cela de prisão que imaginei.
O café da manhã com Charlie foi silencioso. Ele me desejou boa sorte na escola. Agradeci, sabendo que as esperanças dele eram perda de tempo. A boa sorte geralmente me evitava. Charlie saiu primeiro para a delegacia, que era sua esposa e sua família. Depois que ele partiu, fiquei sentado à velha mesa quadrada de carvalho, em uma das três cadeiras que não combinavam, e observei a pequena cozinha, com as paredes escuras revestidas de madeira, armários de um amarelo vivo e piso de linóleo branco. Nada havia mudado. Minha mãe tinha pintado os armários dezoito anos antes numa tentativa de colocar algum raio de sol na casa. Acima da pequena lareira na microscópica sala adjacente, havia uma fileira de fotos. Primeiro, uma foto do casamento de Charlie e minha mãe em Las Vegas; depois, uma de nós três no hospital em que nasci, tirada por uma enfermeira prestativa, seguida pela procissão das minhas fotos de escola até aquele ano.
Era constrangedor olhar aquilo: os cortes feios de cabelo, os anos de aparelho, a acne que finalmente sumiu. Eu teria de pensar no que poderia fazer para que Charlie as colocasse em outro lugar, pelo menos enquanto eu morasse aqui.
Ao observar a casa, era impossível não perceber que Charlie jamais superou a perda da minha mãe. Isso me deixou pouco à vontade.
Eu não queria chegar cedo demais na escola, mas não conseguia mais ficar ali. Vesti meu casaco – de plástico grosso e não respirável, como um traje de biossegurança – e saí para a chuva.
Ainda estava chuviscando, não o suficiente para me ensopar, enquanto peguei a chave da casa, sempre escondida debaixo do beiral, e tranquei a porta. O chapinhar das minhas novas botas impermeáveis era estranho. Senti falta do habitual esmagar de cascalho enquanto andava.
Dentro da picape estava agradável e seco. Bonnie, ou Charlie, obviamente tinha feito uma limpeza, mas os bancos com estofado caramelo ainda cheiravam levemente a tabaco, gasolina e hortelã. Para meu alívio, o motor pegou rapidamente, mas era barulhento, rugindo para a vida e depois rodando em um volume alto. Bom, uma picape daquela idade teria suas falhas.
O rádio antigo funcionava, um bônus que eu não esperava.
Não foi difícil encontrar a escola; como a maioria dos lugares, ficava perto da rodovia. De cara, não pareceu que era uma escola; o que me deu a dica foi a placa, que dizia Forks High School. Era um conjunto de casas iguais, construídas com tijolos marrons. Havia tantas árvores e arbustos que no início não consegui calcular seu tamanho.
Onde estava o espírito da instituição?, eu pensei. Onde estavam as cercas de tela, os detectores de metal?
Estacionei perto do primeiro prédio, que tinha uma plaquinha acima da porta dizendo SECRETARIA. Ninguém mais havia estacionado ali, então eu certamente estava em local proibido, mas decidi me informar lá dentro em vez de ficar dando voltas na chuva feito um idiota.
Lá dentro, o ambiente era bem iluminado e mais quente do que eu imaginava. O escritório era pequeno; com uma salinha de espera com cadeiras dobráveis acolchoadas, carpete laranja manchado, recados e prêmios atravancando as paredes, um relógio grande tiquetaqueando alto. Havia plantas por toda parte em vasos grandes de plástico, como se não houvesse verde suficiente do lado de fora. A sala era dividida ao meio por um balcão comprido, abarrotado de cestos de arame cheios de papéis e folhetos de cores vivas colados na frente. Havia três mesas atrás do balcão; um homem redondo e careca de óculos estava sentado atrás de uma. Ele vestia uma camiseta, o que de imediato fez com que eu me sentisse vestido demais para aquele tempo.
O homem careca olhou para mim.
— Posso ajudá-lo?
— Sou Beau Swan — informei-lhe, e vi o reconhecimento imediato nos olhos dele. Eu era esperado, já assunto de fofoca. O filho do chefe de polícia, que tinha uma mãe desequilibrada, finalmente voltava para casa.
— É claro — disse ele. E cavucou uma pilha instável de documentos na mesa até encontrar o que procurava. — Seu horário está bem aqui, Beaufort, e há um mapa da escola. — Ele trouxe várias folhas ao balcão para me mostrar.
— Hã, só Beau, por favor.
— Ah, claro. Beau.
Ele indicou minhas salas de aula, destacando no mapa a melhor rota para cada uma delas, e me deu uma caderneta que cada professor teria que assinar e que eu teria que levar de volta no final do dia. Sorriu para mim e disse, como Charlie, que desejava que eu gostasse de Forks. Sorri também, da maneira mais convincente que pude.
Quando voltei à picape, outros alunos começavam a chegar. Dirigi pela escola, seguindo o trânsito. A maioria dos carros eram mais velhos que o meu, nada chamativos. Em Phoenix, eu morava em um dos poucos bairros de baixa renda incluídos no distrito de Paradise Valley. Era comum ver um Mercedes ou um Porsche novo no estacionamento dos alunos. O carro mais legal aqui era um Volvo prateado novinho, que se destacava. Ainda assim, desliguei o motor logo que cheguei a uma vaga, para que o barulho estrondoso não chamasse a atenção para mim.
Olhei o mapa na picape, tentando agora memorizá-lo; esperava não ter que andar com ele diante do nariz o dia todo. Enfiei tudo na mochila, passei a alça no ombro e respirei bem fundo. Não vai ser tão ruim, menti para mim mesmo. Mas, falando sério, nem era uma situação de vida ou morte, era só a escola. Ninguém ia me morder. Por fim, soltei o ar e saí da picape.
Puxei o capuz por cima do rosto ao andar para a calçada, apinhada de adolescentes. Meu casaco preto e simples não chamava a atenção, como percebi com alívio, embora não houvesse muito que eu pudesse fazer em relação à minha altura. Encolhi os ombros e mantive a cabeça baixa.
Depois de chegar ao refeitório, foi fácil localizar o prédio três. Um grande “3” estava pintado em preto num quadrado branco no canto leste. Segui duas capas de chuva unissex pela porta.
A sala de aula era pequena. As pessoas na minha frente pararam junto à porta para pendurar os casacos em uma longa fileira de ganchos. Imitei-as. Havia duas meninas, uma loura com a pele cor de porcelana, a outra igualmente pálida, com cabelo castanho-claro. Pelo menos minha pele não se destacaria aqui.
Entreguei a caderneta à professora, uma mulher magra com pouco cabelo cuja mesa tinha uma placa identificando-a pelo nome, “Sra. Mason”. Ela me encarou com surpresa quando viu meu nome – não foi uma reação que me encorajasse – e consegui sentir o fluxo sanguíneo subir todo para o rosto, sem dúvida formando manchas horríveis nas minhas bochechas e no meu pescoço. Mas pelo menos ela me mandou sentar numa carteira vazia no fundo da sala, sem me apresentar à turma. Tentei me encolher atrás da mesinha da forma mais discreta possível.
Era mais difícil meus novos colegas ficarem me encarando lá atrás, mas de algum jeito eles conseguiram. Mantive os olhos baixos na bibliografia que a professora me dera. Era bem básica: Brontë, Shakespeare, Chaucer, Faulkner. Eu já tinha lido tudo. Isso era reconfortante... e entediante. Imaginei se minha mãe me mandaria minha pasta com os trabalhos antigos, ou se ela pensaria que isso era cola. Tive várias discussões com ela em minha cabeça enquanto a professora falava monotonamente.
Quando tocou o sinal, uma garota magricela com problemas de pele e cabelo preto feito uma mancha de óleo se inclinou para falar comigo.
— Você é Beaufort Swan, não é? — Ela parecia direitinho o tipo prestativo de clube de xadrez.
— Beau — corrigi.
Todo mundo num raio de três carteiras se virou para me olhar.
— Qual é a sua próxima aula? — perguntou ela.
Tive que olhar na mochila.
— Hmmm, educação cívica, com Jefferson, no prédio seis.
Para onde quer que eu me virasse, encontrava olhos curiosos.
— Vou para o prédio quatro, posso mostrar o caminho. — Sem dúvida, superprestativa. — Meu nome é Erica — acrescentou ela.
Eu forcei um sorriso.
— Obrigado.
Pegamos nossos casacos e fomos para a chuva, que tinha aumentado. Eu podia jurar que várias pessoas atrás de nós se aproximavam o bastante para ouvir o que dizíamos.
Esperava não estar ficando paranoico.
— E aí, aqui é bem diferente de Phoenix, não é? — perguntou ela.
— Muito.
— Não chove muito lá, não é?
— Três ou quatro vezes por ano.
— Puxa, como deve ser isso? — comentou ela, maravilhada.
— Ensolarado — retruquei.
— Você não é muito bronzeado.
— Minha mãe é meio albina.
Apreensiva, ela examinou meu rosto, e eu sufoquei um grunhido. Parecia que nuvens e senso de humor não se misturavam. Alguns meses disso e eu esqueceria como usar o sarcasmo.
Voltamos pelo refeitório até os prédios do sul, perto do ginásio. Erica me levou à porta, embora tivesse uma placa bem evidente.
— Então, boa sorte — disse ela enquanto eu pegava a maçaneta. — Talvez a gente tenha mais alguma aula juntos. — Ela parecia esperançosa.
Sorri para ela de um jeito que torci para que não parecesse encorajador e entrei.
O resto da manhã se passou do mesmo jeito. Minha professora de trigonometria, a Sra. Varner, que de qualquer forma eu teria odiado por causa da matéria que ensinava, foi a única que me fez parar diante da turma para me apresentar. Eu gaguejei, fiquei cheio de manchas vermelhas e tropecei em minhas próprias botas ao seguir para a carteira.
Depois de duas aulas, comecei a reconhecer alguns rostos em cada turma. Sempre havia alguém mais corajoso do que os outros, que se apresentava e me perguntava se eu estava gostando de Forks. Tentei ser diplomático, mas na maioria das vezes apenas menti. Pelo menos não precisei do mapa.
Em todas as aulas, os professores começavam me chamando de Beaufort, e apesar de eu corrigi-los na mesma hora, era deprimente. Demorei anos para superar Beaufort; muito obrigado, vovô, por morrer meses antes de eu nascer e fazer minha mãe se sentir obrigada a homenageá-lo. Ninguém em casa lembrava mais que Beau era apelido. Agora, eu tinha que começar tudo de novo.
Um garoto se sentou ao meu lado nas aulas de trigonometria e espanhol e me acompanhou até o refeitório na hora do almoço. Era baixinho, não chegava nem ao meu ombro, mas o cabelo escuro, rebelde e cacheado compensava um pouco a diferença de altura entre nós. Não conseguia me lembrar do nome dele, então eu sorria e assentia enquanto ele tagarelava sobre professores e aulas. Não tentei acompanhar a falação.
Sentamos à ponta de uma mesa cheia de vários de seus amigos, que ele me apresentou; eu não podia reclamar da educação ali. Esqueci o nome de todos assim que ele os enunciou. Eles pareceram achar legal ele ter me convidado. A menina da aula de inglês, Erica, acenou para mim do outro lado do salão, e todo mundo riu. Eu já era motivo de piada. Devia ser um novo recorde para mim.
Mas ninguém pareceu estar rindo com crueldade.
Foi ali, tentando conversar com sete estranhos curiosos, que eu os vi pela primeira vez.
Estavam sentados no canto do refeitório, à maior distância possível de onde eu me encontrava no salão comprido. Eram cinco. Não estavam conversando e nem comendo, embora cada um deles tivesse uma bandeja de comida diante de si. Não me encaravam, ao contrário da maioria dos outros alunos, por isso era seguro observá-los.
Mas não foi nada disso que atraiu minha atenção.
Eles não eram nada parecidos.
Havia três garotas; dava para ver que uma era superalta, até mesmo sentada, talvez da minha altura, com pernas que não acabavam nunca. Ela provavelmente poderia ser capitã do time de vôlei, e eu tinha certeza de que ninguém gostaria de ficar no caminho de uma cortada dela. Tinha cabelo escuro e ondulado, preso em um rabo de cavalo descuidado.
Outra tinha cabelo cor de mel na altura dos ombros; não era tão alta quanto a morena, mas devia ser mais alta do que a maioria dos outros garotos da minha mesa. Havia algo de intenso nela, de ousado. Era meio estranho, mas, por algum motivo, ela me fez pensar em uma atriz que vi em um filme de ação algumas semanas antes, que matou mais de dez caras com uma machete. Eu me lembrava de ter pensado que não acreditava, que não havia como a atriz encarar tantos caras maus e vencer. Mas agora estava começando a achar que talvez tivesse acreditado, se a personagem tivesse sido interpretada por aquela garota.
A última garota era menor, o cabelo um meio termo entre ruivo e castanho, mas diferente dessas duas cores, meio metálico, tipo cor de bronze. Ela parecia mais nova do que as outras duas, que podiam facilmente estar na faculdade.
Os dois garotos eram opostos. O mais alto, que era mais alto do que eu, eu diria que com um metro e noventa e cinco ou até mais, era o atleta da escola. E rei do baile. E o cara que tinha prioridade no aparelho que quisesse na sala de musculação. O cabelo louro e liso estava preso em um coque na nuca, mas não havia nada de feminino no penteado; de alguma forma, fazia com que parecesse mais homem. Ele era descolado demais para aquela escola e qualquer outra que eu pudesse imaginar.
O cara mais baixo era magro, com cabelo escuro cortado tão curto que não passava de uma sombra no couro cabeludo.
Eram totalmente diferentes, mas, ao mesmo tempo, eram todos tão parecidos. Cada um deles era pálido como giz, os alunos mais brancos que viviam nesta cidade sem sol. Mais brancos do que eu, o albino. Todos tinham olhos muito escuros (de onde eu estava, pareciam pretos), apesar da variação de cor dos cabelos. Também tinham olheiras – arroxeadas, em tons de hematoma. Talvez os cinco estivessem chegando de uma noitada. Ou estivessem se recuperando de um nariz quebrado. Mas os narizes, todos os seus traços, eram retos, angulosos.
Só que não era por isso que eu não conseguia desgrudar os olhos.
Fiquei olhando porque seus rostos, tão diferentes, tão parecidos, eram completa, arrasadora e inumanamente lindos. As garotas e os garotos, lindos. Eram rostos que não se via na vida real, só em páginas de revista ou outdoors. Ou em um museu, pintados por um antigo mestre como a face de um anjo. Era difícil acreditar que eles eram de verdade.
Concluí que a mais bonita de todas era a garota menor com o cabelo cor de bronze, embora eu presumisse que a metade feminina do corpo estudantil votaria no sujeito louro com cara de ator de cinema. Mas elas estariam enganadas. Todos eram lindos, mas a garota era mais do que bonita. Ela era simplesmente perfeita. Era um tipo de perfeição perturbadora e incômoda. Deixou meu estômago embrulhado.
Todos estavam olhando para longe; para longe uns dos outros, para longe do resto dos alunos, para longe de qualquer coisa em particular, pelo que eu podia notar. Pensei em modelos posando de forma muito artística para propagandas, em tédio estético. Enquanto eu observava, o garoto magro e quase careca se levantou com a bandeja – o refrigerante fechado, a maçã sem nenhuma dentada – e se afastou com passos longos, rápidos e graciosos apropriados para uma passarela. Fiquei olhando, me perguntando se havia uma companhia de dança na cidade, até que ele largou a bandeja no lixo e seguiu para a porta dos fundos, mais rápido do que eu teria considerado possível. Meus olhos dispararam de volta aos outros, que não tinham se mexido.
— Quem são eles? — perguntei ao cara da minha turma de espanhol, cujo nome eu esquecera.
Enquanto ele olhava para verificar de quem eu estava falando – embora já soubesse, provavelmente, pelo meu tom de voz – de repente ela olhou para nós, a garota perfeita. Ela olhou para o meu vizinho só por uma fração de segundo, e depois seus olhos escuros fulguraram para mim. Eram olhos longos, curvados nos cantos, com cílios grossos.
Ela desviou os olhos rapidamente, mais rápido do que eu, que baixei o olhar assim que ela se virou para nós. Consegui sentir as manchas vermelhas surgindo no meu rosto. Naquele breve instante, seu rosto não transmitiu nenhum interesse – era como se ele tivesse chamado o nome dela, e ela olhasse numa reação involuntária, já tendo decidido não responder.
Meu vizinho riu uma vez, sem graça, olhando a mesa como eu.
Ele murmurou a resposta bem baixinho.
— São os Cullen e os Hale. Edith e Eleanor Cullen, Jessamine e Royal Hale. O que saiu é Archie Cullen. Todos moram com a Dra. Cullen e o marido.
Olhei de lado para a garota perfeita, que agora fitava a própria bandeja, desfazendo um pãozinho em pedaços com os dedos pálidos e finos. Sua boca se movia muito rapidamente, os lábios carnudos mal se abrindo. Os outros três continuavam olhando para longe, mas eu ainda achava que ela estava falando em voz baixa com eles.
Nomes estranhos. Antigos. O tipo de nome que têm os avós, como o meu nome. Mas talvez fosse moda por aqui? Nomes de cidade pequena? Finalmente me lembrei de que meu vizinho se chamava Jeremy. Era um nome perfeitamente comum. Havia dois meninos que se chamavam Jeremy na minha turma de história, na minha cidade.
— Eles são todos... muito bonitos. — Que minimização da verdade.
— É — concordou Jeremy com outra risada. — Mas todos estão juntos... Royal e Eleanor, Archie e Jessamine. Tipo namorando, sabe? E eles moram juntos. — Ele deu uma risadinha e balançou as sobrancelhas de forma sugestiva.
Eu não sabia por quê, mas essa reação me deu vontade de defendê-los. Talvez só por ele ter falado com um tom tão crítico. Mas o que eu podia dizer? Eu não sabia nada sobre eles.
— Quem são os Cullen? — perguntei, querendo mudar o tom, mas não o assunto. — Eles não parecem parentes... quer dizer, mais ou menos...
— Ah, eles não são. A Dra. Cullen é muito nova. Tem trinta e poucos anos. Os filhos Cullen são todos adotados. Os Hale, os louros, são mesmo irmãos, gêmeos, eu acho, e são filhos de criação.
— Parecem meio velhos para filhos de criação.
— Agora, são. Royal e Jessamine têm 18 anos, mas estão com o Sr. Cullen desde que eram pequenos. Ele é tio dos dois, eu acho.
— Isso é bem legal... eles cuidarem de todas essas crianças, quando eram tão novos e tudo isso.
— Acho que sim — disse Jeremy, apesar de parecer que ele preferia não dizer nada positivo. Como se não gostasse da médica e do marido por algum motivo... e, pelo jeito como olhava para os filhos adotivos, eu imaginava que podia haver certa inveja. — Mas acho que a Dra. Cullen não pode ter filhos — acrescentou ele, como se isso tornasse menos admirável o que eles faziam.
Durante toda essa conversa, não consegui afastar os olhos da estranha família por mais de poucos segundos. Eles continuavam a olhar para as paredes e não comiam.
— Eles sempre moraram em Forks? — perguntei.
Como eu podia não os ter notado em um dos meus verões aqui?
— Não. Só se mudaram há dois anos, vieram de algum lugar do Alasca.
Senti uma onda estranha de pena e também alívio. Pena porque, apesar de lindos, eles ainda eram de fora, não eram aceitos. Alívio por eu não ser o único recém-chegado por aqui, e certamente não o mais interessante, por qualquer padrão.
Enquanto eu os examinava, a garota perfeita, uma dos Cullen, virou-se e encontrou meu olhar, dessa vez com uma expressão de evidente curiosidade. Quando desviei os olhos rapidamente, me pareceu que o olhar dela trazia uma espécie de expectativa frustrada.
— Quem é a garota de cabelo avermelhado? — perguntei.
Tentei olhar casualmente na direção dela, como se estivesse dando uma avaliada no refeitório; ela ainda estava me encarando, mas não com cara espantada, como os outros alunos hoje. Ela tinha uma expressão meio frustrada, que não entendi. Olhei para baixo novamente.
— É Edith. Ela é gata, é claro, mas não perca seu tempo. Ela não sai com ninguém. Ao que parece, nenhum dos caras daqui é bom o bastante para ela. — Jeremy falou com amargura, depois grunhiu.
Eu me perguntei quantas vezes ela o tinha rejeitado.
Apertei os lábios para esconder um sorriso. Depois, olhei para ela de novo. Edith. Seu rosto estava virado para o outro lado, mas achei, pelo formato do pescoço, que ela também podia estar sorrindo.
Depois de mais alguns minutos, os quatro saíram da mesa juntos. Todos eram muito elegantes – até o rei do baile dourado. Era estranho vê-los juntos em movimento.
Edith não voltou a olhar para mim.
Fiquei sentado à mesa com Jeremy e os amigos dele por mais tempo do que teria ficado se eu estivesse sozinho. Eu não queria me atrasar para as aulas no meu primeiro dia. Um de meus novos conhecidos, que me lembrou educadamente de que seu nome era Allen, tinha biologia II comigo no próximo tempo. Seguimos juntos em silêncio para a sala. Ele devia ser tímido como eu.
Quando entramos na sala, Allen foi se sentar em uma carteira de tampo preto de laboratório exatamente como as que eu costumava usar. Ela já tinha parceiro. Na verdade, todas as cadeiras estavam ocupadas, exceto uma.
Ao lado do corredor central, reconheci Edith Cullen, por seu cabelo metálico incomum, sentada ao lado daquele único lugar vago.
Meu coração começou a bater um pouco mais rápido do que o normal.
Enquanto eu andava pelo corredor para me apresentar ao professor e conseguir que assinasse minha caderneta, eu a observava, tentando disfarçar. Assim que passei, ela de repente ficou rígida em seu lugar. Ela me olhou tão rápido que fui pego de surpresa, encontrando meus olhos com a expressão mais estranha do mundo – era mais do que zangada, era furiosa, hostil. Desviei o olhar, chocado, ruborizando de novo. Tropecei em um livro no caminho e tive que me apoiar na beira de uma mesa. A menina sentada ali riu.
Eu estava certo sobre os olhos. Eram pretos – pretos como carvão.
A Sra. Banner assinou minha caderneta e me passou um livro, sem nenhum dos absurdos das apresentações e sem mencionar meu nome completo. Consegui perceber que íamos nos dar bem. É claro que ela não teve alternativa a não ser me mandar para o lugar vago no meio da sala.
Mantive os olhos baixos enquanto fui me sentar ao lado dela, querendo saber o que podia ter feito para ganhar o olhar hostil que ela me lançara.
Não olhei para cima ao colocar os livros na carteira e tomar meu lugar, mas, pelo canto do olho, vi sua postura mudar. Ela estava inclinada para longe de mim, sentada na ponta da cadeira, e desviava o rosto como se sentisse algum fedor. Discretamente, dei uma fungada. Minha camisa estava com cheiro de sabão em pó. Como isso podia ser ofensivo? Puxei a cadeira para a direita, dando o máximo de espaço possível a ela, e tentei prestar atenção à professora.
A aula era sobre anatomia celular, uma coisa que eu já estudara. De qualquer modo, tomei notas cuidadosamente, sempre olhando para baixo.
Eu não conseguia deixar de espiar a garota estranha ao meu lado de vez em quando. Durante toda a aula, ela não relaxou um minuto da postura rígida na ponta da cadeira, sentando-se o mais distante possível de mim. A mão estava fechada em punho em cima da coxa esquerda, os tendões sobressaindo por baixo da pele clara. Isso também ela não relaxou. Estava com as mangas compridas da blusa branca puxadas até os cotovelos, e os antebraços eram surpreendentemente rijos e musculosos sob a pele clara. Não consegui deixar de reparar no quanto a pele era perfeita. Não havia nenhuma sarda, nenhuma cicatriz.
A aula parecia se arrastar mais do que as outras. Seria porque o dia finalmente estava chegando ao fim, ou porque eu esperava que o punho dela relaxasse? Não aconteceu: ela continuou sentada tão imóvel que nem parecia respirar. Qual era o problema dela? Será que era seu comportamento normal? Questionei a avaliação que fiz da amargura de Jeremy no almoço. Talvez não fosse só ressentimento.
Isso não podia ter nada a ver comigo. Ela nunca tinha me visto na vida.
A Sra. Banner devolveu alguns testes quando a aula estava quase acabando. Entregou um para mim, para eu passar para a garota. Olhei para o alto automaticamente, cem por cento... e eu estava soletrando o nome dela errado em pensamento. Era Edythe, não Edith. Eu nunca tinha visto aquele nome escrito daquele jeito, mas combinava mais com ela.
Olhei para ela quando fui entregar o teste e me arrependi na mesma hora. Ele estava me olhando de cara feia, os olhos pretos e longos cheios de repugnância. Enquanto eu me encolhia para longe do ódio que irradiava dela, a expressão se um olhar matasse passou pela minha cabeça.
Naquele momento, o sinal tocou alto, fazendo-me pular, e Edythe Cullen saiu da carteira. Ela se movia como uma dançarina, com cada linha perfeita do corpo magro em harmonia com o resto, de costas para mim, e saiu pela porta antes que qualquer outro tivesse saído da carteira.
Fiquei paralisado no meu lugar, com um olhar vazio voltado para o local por onde ela saiu. Ela era tão grosseira. Comecei a pegar minhas coisas devagar, tentando bloquear a confusão e a culpa que se espalhavam em mim. Por que eu devia sentir culpa? Não fiz nada de errado. Como poderia? Eu nem fui apresentado a ela.
— Você não é Beaufort Swan? — perguntou uma voz de mulher.
Olhei para cima e vi uma garota bonitinha com cara de bebê, o cabelo cuidadosamente alisado em uma cortina louro-clara, sorrindo para mim de maneira simpática. Ela obviamente não achava que eu cheirava mal.
— Beau — corrigi com um sorriso.
— Meu nome é McKayla.
— Oi, McKayla.
— Precisa de ajuda para encontrar sua próxima aula?
— Vou para a educação física. Acho que consigo encontrar o caminho.
— É minha próxima aula também. — Ela pareceu animada, mas não era uma coincidência assim tão grande numa escola tão pequena.
Fomos para a aula juntos; ela era muito falante, alimentou a maior parte da conversa, o que facilitou minha vida. Tinha morado na Califórnia até os 10 anos, então sabia como eu me sentia com relação ao sol. Por acaso, também era minha colega na aula de inglês. Foi a pessoa mais legal que conheci nesse dia.
Mas, quando estávamos entrando no ginásio, ela perguntou:
— E aí, você furou a Edythe Cullen com um lápis ou o quê? Nunca a vi agir daquele jeito.
Eu me encolhi. Então não fui o único a perceber. E, ao que parecia, aquele não era o comportamento habitual de Edythe Cullen. Decidi me fazer de burro.
— Era a garota do meu lado na aula de biologia?
— Era — disse ela. — Parecia que estava sentindo alguma dor, sei lá.
— Não sei — respondi. — Nunca falei com ela.
— Ela é estranha. — McKayla se demorou ao meu lado em vez de ir para o vestiário. — Se eu tivesse a sorte de me sentar do seu lado, conversaria com você.
Eu sorri para ela antes de ir para a porta do vestiário masculino. Ela era simpática e parecia gostar de mim. Mas não foi suficiente para me fazer esquecer aquela hora estranha.
A professora de educação física, treinadora Clapp, encontrou um uniforme para mim, mas não me fez vesti-lo para aquela aula. Em Phoenix, só exigiam dois anos de educação física. Aqui, a matéria era obrigatória nos quatro anos. Minha versão particular do inferno.
Fiquei assistindo a quatro partidas de vôlei que aconteciam simultaneamente. Lembrando quantas lesões eu sofri – e infligi – jogando vôlei, e me senti meio nauseado.
O último sinal finalmente tocou. Andei devagar para a secretaria para entregar minha caderneta. A chuva tinha ido embora, mas o vento estava forte e mais frio. Fechei o casaco e enfiei a mão livre em um bolso.
Quando entrei no escritório aquecido, quase me virei e saí.
Edythe Cullen estava parada junto à mesa na minha frente. Era impossível não reconhecer o cabelo bronze revolto. Ela não pareceu reparar no som da minha entrada. Fiquei encostado na parede de trás, torcendo para que o recepcionista ficasse livre.
Ela estava discutindo com ele numa voz baixa e aveludada. Logo peguei a essência da discussão. Ela tentava trocar a aula de biologia para qualquer outro horário – qualquer outro.
Não podia ser por minha causa. Tinha de ser outra coisa, algo que acontecera antes de eu entrar na sala. A expressão dela devia ter sido por outro problema. Era impossível que uma estranha pudesse ter uma repulsa tão súbita e intensa por mim. Eu não era interessante o bastante para provocar uma reação tão forte.
A porta se abriu de novo, e o vento frio soprou pela sala, balançando os papéis na mesa, balançando meu cabelo. A menina que entrou limitou-se a ir até a mesa, colocou um bilhete na cesta de arame e saiu novamente.
Mas Edythe Cullen enrijeceu as costas e se virou lentamente para olhar para mim – o rosto era ridiculamente perfeito, sem nenhuma marca que a fizesse parecer humana – com olhos penetrantes e cheios de ódio. Por um momento, senti um arrepio de medo genuíno, que eriçou os pelos dos meus braços. Como se ela fosse puxar uma arma e atirar em mim. O olhar só durou um segundo, mas foi mais gelado do que o vento frio. Ela se virou para o recepcionista.
— Então deixa pra lá — disse, rapidamente, numa voz de seda. — Estou vendo que é impossível. Muito obrigada pela ajuda. — Então, virou-se sem olhar para mim, e desapareceu porta afora.
Fui roboticamente até a mesa, minha cara pela primeira vez branca no lugar de vermelha, e entreguei a caderneta assinada.
— Como foi seu primeiro dia, filho? — perguntou o recepcionista.
— Bom — menti, a voz falhando. Consegui ver que não o convenci.
Quando fui para a picape, era quase o último carro no estacionamento. Parecia um abrigo, a coisa mais próxima de uma casa que eu tinha nesse buraco verde e úmido.
Fiquei sentado lá dentro por um tempo, olhando sem enxergar pelo para-brisa. Mas logo fiquei com bastante frio, a ponto de precisar do aquecedor, então virei a chave e o motor rugiu. Voltei para a casa de Charlie, tentando não pensar em nada.

37 comentários:

  1. Acho que estou gostando desse livro...

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  2. Ta muito estranho não sei se gostei 😒
    Mari

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  3. Achei meio engraçado, mas não ruim, só ta bugando um pouco a minha cabeça mas eu achei bem legal e interessante. Ta tudo invertido, é maneiro : )

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  4. É muito estranho toda hora penso que é a Bella narrado _Na verdade é ela... ah vocês entenderam!_ A única coisa realmente diferente foi aquela garota do aeroporto... humm...Ai tem...
    Enfim, estou muito curisa, pois tem coisas que não consigo imaginar acontecendo o mesmo que aconteceu com a Bella (versão feminina)Vamos ver o que acontece...

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    1. Ne tipo nas paetes em que ele pega ela no colo pra correr, e meio estranho imaginar um garoto sendo carregado por uma garota, e to loca pra ver o jacob...


      Ass: filhafavoritadeposeidon

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  5. Ta estranho mesmo,esse menino e bem detalhista em,na parte 2,do livro amamhecer,a gnt ver na perspectiva do jake,e n é tao intenso a maneira d um garoto pensa e ver as coisas,claro q cada caso é um caso cada pessoa pensa d uma maneira diferente mas mesmo assim

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  6. Eu estou é rindo, isso tá parecendo aqueles livros paródias, sabe?! Tá muito comédia, não sei se é pq eu reli pela centésima vez Crepúsculo faz uns 2 dias, ou pq eu não curto livros narrados por homens, sei lá, não tá nada favorável.
    É a mesma narração da Bella, isso é cansativo, dá aquela sensação de deja vu e deixa o protagonista, Beau, parecendo um frutinha. Sei lá, já li alguns livros que tem partes narradas pelos homens e eles não são tão mulherzinhas assim. Até o protagonista/narrador de "Quem é Você, Alasca?" que era um loser como o Beau, não era tão frutinha desse jeito.
    A autora pecou fazendo a narração dele com as mesmas palavras da Bella, não dá pra imaginar um rapaz como personagem, só consigo ver a Bella.

    Esse livro tá escrotinho, sorry, não tá favorável. A Stephenie podia caprichar na criatividade, vê se pode fazer um livro desses só com as alterações de gêneros auhsuahsuh é claro que terá algumas alteraçõezinhas, espero, pois tem cenas da Bella que não iriam ornar se fosse o Beau quem reproduzisse. Nem sei se vou conseguir aturar os próximos capítulos aushaus

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    1. kkkkkkkkk ta muito engraçado, parece a bella msm, e olha q nem li o livro, so vi o filme msm... e que diabos de nome é beau? como se pronuncia isso? asuhsauashhsaushuhsa

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    2. É francês, então não tenho muita ideia. Mas leio "Bô"

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    3. Eu leio como "Bil"

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    4. Eu leio Bel!
      Tipo Belfort...k
      Não achei ruim não. .. Só que a minha cabeça da umas bugadas de vez em quando por causa dos nomes dos personagens... Até agora eu estpu gostando...

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  7. Cara, to rindo muito disso. É muito estranho, tento lembrar a outra versão de cada personagem, é confuso.

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    1. Concordo com você. Fiquei toda atrapalhada quando ele descreveu a família Cullen, tive que parar de ler para entender melhor quem é quem e tô meio confusa até agora.

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    2. É eu também tive que reler para distinguir os personagens, mas até que to gostando deste livro...

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  8. Primeiro livro que leio.
    Espero não me arrepender de ser esse. Até agora tá bom

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  9. Alguém reparou que tem uma Jessamine aqui também?! Como em As Peças Infernais!!! ♡♡♡

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    1. Também lembrei da Jess de TID, Isabelle! E agora, vendo o seu nome, lembrei da Izzy heuaheuaehuahe

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  10. TO É MOOOORTA COM ISSO 😂😂
    Kkkkkkkkk
    Gente, ele dando os detalhes de tudo, descrevendo os meninos... Que presepada KAKAKAKAKA
    Ficou bem aboiolado

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  11. Na vdd, a autora propôs uma inversão de papéis, a história de bella agora acontece com beau, simples, edhit faz o papel de Edward, fantástico, pra ele ta fácil, to gostando, quero ver como fica edhit como vampira, para um livro bem, para um filme acho q teria q ser um extraordinário diretor, vamos ver!!!!

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  12. Na vdd, a autora propôs uma inversão de papéis, a história de bella agora acontece com beau, simples, edhit faz o papel de Edward, fantástico, pra ele ta fácil, to gostando, quero ver como fica edhit como vampira, para um livro bem, para um filme acho q teria q ser um extraordinário diretor, vamos ver!!!!

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  13. achei um pouco estranho por estar tudo invertido, mas também achei bem legal :v

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  14. nossa buguei com os nomes! Tive q ficar assimilando as coisas parecidas com os nomes reais pra poder entender, e poxa, ela escolheu uns nomes tão complicados...fora isso:TÔ AMANDO!

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  15. tipo como fã de crepúsculo acho que a autora pecou um pouco... a historia está muito gay.. muito estranho. n se consegue assimilar quem são os personagens ... sei lá mais vou continuar lendo quem sabe la pra frente Beau deixe de ser meio gay porque ta super esquisito ...

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  16. Afffff.... Ridículo isso. Sem mais...

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  17. Nao gostei acho que n vou ler esse mais n eu achei meio chato

    ass Malu

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  18. de início já não gostei então não vou ler!

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  19. nossa com todo o respeito deixou de escrever sol da meia noite na perspectiva do Edward pra colocar esse livro escroto kkkkkk fala serio

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  20. Como será que vai ficar as cenas em que Edward ficava no quarto da Bella invertidas? Fica meio esquisito kkkkkkkkkkk

    Ps: achei que o nome do do Emmett ia ficar Emma e da Alice ia ficar Alex. Fica meio estranho tentando imaginar eles meio invertidos, só sei que imaginei a Bella transformada do Amanhecer pt. 2 no lugar de Edyth e o Edward menos musculoso e com as lentes que ele usava no começo, como se fossem naturais.

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  21. Eu estou gostando, mas às vezes minha cabeça trava e confundo os nomes. O livro esta sendo... interessante.

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  22. Não gostei, nem acabei de ler de tão chato que estava.

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  23. minha bisavó chama edyth man kkkkkkkkkk e ela é branquinha, descendente de italianos... e ela tá viva.. ela ja tem duas tataranetas '-'
    acho q ela é vampira aushusahuhasuhusah

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  24. vou confessar, buga um pouco a cabeça. eu fico aqui tentando imaginar os personagens com gêneros trocados, e não vai. eu acho que a steph pecou em muitas coisas, ela não precisava deixar a narração do beau tão idêntica a da bella. tem coisas que ele diz que na minha concepção um garoto nunca diria, ou pensaria. vi algumas pessoas comentando que os homens não costumam ser tão detalhistas, é verdade. só da uma olhada na narração do jake em amanhecer por exemplo, ou alguma outra narrativa feita por um garoto, não é dessa forma. é impossível vc ler e não imaginar a bella, ou ate mesmo uma menina. a imagem que o beau passa, é de um garoto delicadinho e sensível. to louca pra ver o que ela vai fazer em algumas cenas do edward salvando a bella, ou carregando ela por exemplo. só que acho meio ridículo dizer que o livro é horrível, sendo que é praticamente crepúsculo narrado por outra pessoa. mas confesso, ela ganharia muito mais se tivesse lançado sol da meia noite.

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  25. Kkkkk taça divertido. Bem que também poderia ter uma versão gay com dois garotos.
    Eu também leria esse

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  26. Kkkkk taça divertido. Bem que também poderia ter uma versão gay com dois garotos.
    Eu também leria esse

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