28 de dezembro de 2015

Anjos Duplamente Caídos


A cerimônia de Ascensão de Simon se aproxima neste brilhante desfecho dos Contos da Academia dos Caçadores de Sombras.


— Acho que devemos fazer um funeral — George Lovelace falou, a voz tremendo na última palavra. — Um que seja digno.
Simon Lewis fez uma pausa em seu trabalho e olhou o seu companheiro de quarto. George era o tipo de cara que Simon teria detestado à primeira vista, presumindo que qualquer pessoa com aquela aparência bronzeada, o tanquinho e o sotaque escocês enlouquecedor e sexy (pelo menos de acordo com todas as garotas e os poucos rapazes com quem Simon verificara), ele deveria ter um cérebro do tamanho de um coco de rato e uma personalidade tão atraente quanto isto. Mas George mudou as suposições de Simon na vida diária deles. Como ele estava fazendo neste exato momento, enxugando algo que parecia suspeitamente como uma lágrima.
— Você está... chorando? — Simon perguntou, incrédulo.
— Claro que não — George enxugou furiosamente os seus olhos. — Em minha defensa — ele adicionou parecendo só um pouco envergonhado — morte é algo terrível.
— É a morte de um rato — Simon apontou — um rato morto que estava no seu sapato, eu poderia adicionar.
Simon e George descobriram que a chave para um relacionamento feliz entre companheiros de quarto era uma divisão clara dos trabalhos. Então George ficava encarregado da eliminação de todas as criaturas – ratos, lagartos, baratas e ocasionais estranhas misturas dos três cujos ancestrais provavelmente insultaram um feiticeiro um dia – achadas dentro do guarda-roupa ou debaixo das camas. Simon tratava de todas as coisas que entravam nos items de vestir e – ele estremeceu ao se lembrar do momento em que eles perceberam que o seu trabalho precisava ser feito – sob os travesseiros.
— E também para registro, só um de nós foi um rato literalmente – e percebe-se que não é ele que está chorando.
Este poderia ser o último rato que encontraremos para sempre! — George fungou. — Pense sobre isto, Si. Este poderia ser o último rato que encontramos juntos pelo resto da nossa vida.
Simon suspirou. Enquanto o Dia da Ascensão se aproximava, o dia em que eles oficialmente deixariam de ser estudantes e começariam a ser Caçadores de Sombras, George pensava pesarosamente que tudo o que eles faziam seria pela última vez. Agora, enquanto a lua se tornava rosa na última noite deles na Academia, ele aparentemente perdeu a cabeça. Um pouco de nostalgia parecia ter sentido para Simon: aquela manhã, na última aula do eterno treinamento físico, Delaney Scarsbury o chamara de espaguete com armas, quatro olhos, pernas tortas e aperitivo de demônio pela última vez, Simon quase tinha respondido Obrigado. E aquela noite a última tigela de “carne temperada” com certeza os chocara um pouco.
Mas perder a cabeça por causa de um rato com os membros enrijecidos e pé de atleta? Isso já era demais.
Usando a capa rasgada do seu velho livro de demonologia, Simon conseguiu tirar o rato do sapato sem tocá-lo. Ele o deixou cair dentro de um dos sacos plásticos que pedira especificamente a Isabelle para trazer para esse propósito, amarou o saco fortemente e então – aplausos – jogou-o no lixo.
— RIP, Jon Cartwright o XXXIV — George falou singelamente.
Eles nomearam todos os ratos de Jon Cartwright – o que deixava o Jon Cartwright original louco. Simon sorriu ao pensar sobre isso, a cabeça do irritante e pretensioso companheiro de turma ficando vermelha de raiva, aquela veia em seu repugnante pescoço musculoso começando a pulsar. Talvez George estivesse certo. Talvez, algum dia, eles sentiriam falta até dos ratos.

* * *

Simon nunca tinha pensando muito sobre o dia da sua graduação, muito menos na noite anterior. Tal como o baile e o regresso ao lar, parecia um ritual para todos os adolescentes – o espírito escolar, os esportistas populares de casaco de couro, as líderes de torcida que ele conhecia dos filmes ruins. Nada de festas com barris de cerveja para ele, nada de despedidas com lágrimas ou ficadas mal aconselhadas influenciadas por nostalgia e cerveja barata. Dois anos atrás, se ele tivesse pensando sobre o assunto, imaginaria que passaria essa noite como todas as outras no Brooklyn, com Eric e o rapazes no Java Jones, empanturrando-se de café e pensando em nomes para a banda (Petisco de Rato Morto, Simon meditou por hábito. Ou talvez Funeral de um Roedor).
Mas é claro, tudo isso era de quando ele ainda pensava que terminaria o ensino médio e depois iria para a universidade, ou seria uma estrela do rock... ou pelo menos teria um emprego moderadamente legal em uma gravadora moderadamente legal. Antes de ele sequer saber que demônios existiam, antes de saber que existia uma raça superpoderosa, com o sangue do Anjo, que eram guerreiros lutando eternamente contra demônios – e definitivamente antes de ter se voluntariado para ser um deles.
Assim, em vez do Java Jones, ele estava na sala de estudantes da Academia, fitando o candelabro e espirrando por causa do pó que deveria estar alir há dois seculos, esquivando-se dos olhares dos nobres Caçadores de Sombras cujos retratos estavam alinhados nas paredes, as expressões deles parecendo dizer Como você sequer consegue imaginar que poderia ser um de nós? Em vez de Eric, Matt e Kirk, que ele conhecia desde o primário, ele estava com amigos que conhecia fazia apenas dois anos, um dos quais desenvolvera uma intensa afeição por ratos e outro que compartilhava o seu nome com eles. Em vez de pensar em seus futuros no Rock and Roll, eles pensavam sobre a vida batalhando contra demônios de outras dimensões. Isto assumindo que eles sobreviriam à graduação.
O que não seria seguro assumir.
— Como vocês imaginam que será? — Marisol Garza perguntou, aninhada sob o braço musculoso de Jon Cartwright e parecendo como se estivesse quase feliz de estar lá. — A cerimônia, quero dizer, o que vocês acham que teremos que fazer?  
Jon, como Julie Beauvale e Beatriz Mendoza, descendia de uma longa linhagem de Caçadores de Sombras. Para eles, o dia seguinte seria tal como outro qualquer, as despedidas oficias da vida deles de estudante. Hora para parar de treinar e começar a lutar. Mas para George, Marisol, Simon, Sunil Sadasivan e uma mão cheia de estudantes mundanos, o amanhã que se aproximava seria o dia em que eles Ascenderiam.
Ninguém tinha certeza do que isso significava: Ascensão.
Muito menos o que implicava. Lhe foi dito muito pouco: que eles beberiam do Cálice Mortal.  Que seriam como o primeiro da raça de guerreiros, Jonathan Caçador de Sombras, beberiam do sangue de um anjo. Que eles seriam, se fossem sortudos, transformados em verdadeiros Caçadores de Sombras com o sangue do Anjo. Que dariam adeus às suas vidas mundanas para sempre e se comprometeriam a uma vida sem medos servindo a humanidade.
Ou, se eles fossem muito azarados, morreriam de imediato e teriam presumivelmente uma morte macabra.
Não era como se esse pensamento desse vontade de festejar.
— Eu me pergunto o que há dentro do Cálice — Simon disse. — Vocês não acham que é sangue de verdade, acham?
— Sangue não é a sua especialidade, Lewis? — Jon zombou.
George suspirou melancolicamente.
— Esta é a última vez que Jon faz uma piada estúpida de vampiro.
— Eu não contaria com isto — Simon murmurou.
Marisol bateu no ombro de Jon.
— Cale a boca, idiota — ela mandou.
Mas ela falou com demasiado amor para o gosto de Simon.
— Eu aposto que é agua — Beatriz disse, sempre a pacificadora. — Água que devemos fingir que é sangue, ou que o Cálice transforma em sangue, alguma coisa desse gênero.
— Não importa o que está no Cálice — Julie falou naquele tom dela de sabe-tudo, mesmo que claramente ela não soubesse mais do que os outros. — O Cálice é mágico. Você provavelmente poderia beber ketchup dele e funcionaria igualmente.
— Espero que seja café, então — Simon observou com um suspiro melancólico. A Academia era um lugar sem nenhum café. — Eu seria um Caçador de Sombras muito melhor se Ascendesse com cafeína.
— Sunil disse ter ouvido que é água do Lago Lyn — Beatriz comentou ceticamente.
Sua última experiência com a água do Lago Lyn fora, no mínimo, inquietante. E sendo que uma porcentagem desconhecida de mundanos morriam durante a Ascensão, parecia-lhe que o Cálice não precisava mais de ajuda na parte fatal dela.
— Onde está Sunil mesmo? — Simon perguntou.
Eles não fizeram exatamente planos para se encontrarem esta noite, mas a Academia lhes dava opções de lazer – pelo menos se você gostasse de passar o seu tempo livre preso nas masmorras ou perseguindo a lesma gigante mágica que deslizava nos corredores durantes as horas que antecediam o amanhecer. Na maioria das noites nos últimos meses, Simon e seus amigos se encontravam ali, conversando sobre os seus futuros, e ele esperava que esta fosse igual. Marisol, que conhecia melhor Sunil, deu de ombros.
— Talvez ele esteja repensando as suas opções — ela balançou o dedo enquanto falava. Este foi o jeito com que a reitora Penhallow aconselhara estudantes a corrente mundana a passarem sua última noite, garantindo que não havia vergonha em desistir no último minuto.
— Humilhação. Uma vida de constrangimento com sua covarde mundana e culpa por ter desperdiçado nosso valioso tempo — Scarsbury rosnara para eles, e depois que a reitora disparou um olhar de desaprovação para ele, ele continuou: — Mas sim, claro, nenhuma vergonha.
— Bem, ele não deveria considerar? — Julie perguntou. — Todos vocês não deveriam? Não é como se estivessem indo para faculdade de doutores fazer um juramento hipócrita ou alguma coisa assim. Vocês não poderão mudar de ideia.
— Primeiramente, é chamado Juramento de Hipócrates — Marisol corrigiu.
— E é chamada de faculdade de medicina — Jon adicionou, parecendo orgulhoso de si mesmo. Marisol o tinha ensinado sobre a vida mundana. Contra a sua vontade, ou pelo menos era o que Jon dizia.
— E em segundo lugar — Marisol continuou — porque você pensa que algum de nós mudaria de ideia? Você está pensando em mudar de ideia sobre ser uma Caçadora de Sombras?
Julie parecia afrontada pela ideia.
— Eu sou uma Caçadora de Sombras. Você poderia ter perguntado também se estou planejando mudar de ideia sobre estar viva.
— Então o que te faz pensar que é diferente para nós? — Marisol devolveu ferozmente.
Ela era dois anos mais nova e menor em vários centímetros com relação a ele mas às vezes Simon achava que ela era a mais corajosa. Seria nela quem ele teria apostaria em uma briga (Marisol sabia lutar bem – e, quando necessário, jogar sujo).
— Ela não quis dizer nada disso — Beatriz disse gentilmente.
— Eu realmente não queria — Julie emendou rapidamente.
Simon sabia que era verdade. Julie não podia evitar parecer como uma pessoa que detesta os mundanos e que pensa ser melhor que eles, tanto quanto Jon não podia evitar de parecer... bem, como idiota, Às vezes.
Aquilo era o que eles eram, e Simon percebeu que inexplicavelmente ele não mudaria nada. Para o bem e para o mal, eles eram os seus amigos. Nesses dois anos, eles sobreviveram a muitas coisas juntos: demônios, fadas, Delaney Scarsbury, a “comida” do refeitório. Eram quase como uma família, Simon pensou. Você nem sempre gostava de todos, mas sabia que se precisasse, os defenderia até a morte.
Mesmo que ele esperasse muito que não precisasse.
— Por favor, você não está nem um pouco nervosa? — Jon perguntou. — Quem se lembra da última vez que alguém Ascendeu? Parece totalmente ridículo quando se pensa sobre o assunto: um gole do Cálice e – puff – Lewis vira um Caçador de Sombras?
— Não parece ridículo para mim — Julie falou suavemente, e todos ficaram em silêncio.
A mãe de Julie fora transformada durante a Guerra Maligna. Um gole do Cálice Infernal de Sebastian, e ela se tornou uma Crepuscular. Em parte humana, mas nada mais do que uma escrava veneradora dos comandos de Sebastian.
Todos eles sabiam o que um gole do cálice poderia fazer.
George limpou a garganta. Ele não conseguia suportar mau humor por mais de 30 segundo – era uma das razões pela qual Simon sentiria falta de viver com ele.
— Bem, estou totalmente preparado para reivindicar o meu direito de nascença — ele disse, contente. — Vocês acham que vou me tornar insurportavelmente arrogante no primeiro gole, ou precisarei de algum tempo para acompanhar Jon?
— Não é arrogância, se é a verdade — Jon respondeu, sorrindo, e assim a noite se endireitou novamente.
Simon tentou prestar atenção nas brincadeiras dos seus amigos, e fez o seu melhor para não pensar nas perguntas de Jon, sobre se ele estava ou não nervoso – se ele deveria passar esta noite pensando em suas “opções”.
Que opções? Como depois de dois anos na Academia, depois de todos os seus treinos e estudos, depois de ter jurado várias vezes que ele queria ser um Caçador de Sombras, poderia sair disto tudo assim? Como poderia desapontar Clary e Isabelle assim, e se fizesse isso, como poderiam elas amá-lo novamente?
Ele tentou não pensar em como seria ainda mais difícil para elas o amarem – ou pelo menos para ele apreciar isto – se alguma coisa desse errado na cerimonia e ele morresse.
Tentou não pensar em todas as outras pessoas que o amavam, aquelas que de acordo com a Lei dos Caçadores de Sombras, ele nunca mais deveria ver. A sua mãe. A sua irmã.
Marisol e Sunil não tinham ninguém esperando por eles em casa, algo que sempre parecera insuportavelmente triste para Simon. Mas talvez fosse mais fácil, ir embora sem deixar ninguém para trás. E depois tinha George, o sortudo – os seus pais adotivos eram Caçadores de Sombras, mesmo que nunca tivessem pego uma espada. Ele ainda poderia ir para casa para os jantares de domingo; nem precisava escolher um novo nome.
George o provocara ultimamente, dizendo que ele não teria muito trabalho para escolher um nome, também.
— Lightwood soa bem, não acha? — ele gostava de dizer.
Simon estava ficando muito bom em fingir que era surdo.
Secretamente, na verdade, ele ficava vermelho, pensando: Lightwood... Talvez um dia. Se ele se deixasse ter esperança.
Enquanto isso, na verdade, ele tinha que escolher um novo nome de Caçador de Sombras para si próprio – o que era tão incomensurável quando todo o resto deste processo.
— Posso entrar? — uma menina magricela de óculos, que parecia ter treze anos, estava na porta. Simon imaginava que o seu nome fosse Milla, mas ele não tinha certeza – a nova turma da Academia era tão grande e inclinada a estudar Simon à distancia, que ele acabou por conhecer muitos deles. Esta daqui tinha o olhar ansioso e confuso de uma mundana, mesmo depois de tantos meses, não conseguia acreditar que estava aqui.
— É uma propriedade publica — Julie respondeu com uma nota de arrogância mais do que a usual em sua voz. Julie adorava fazer isso com as novas crianças.
A menina passou por eles rapidamente. Simon começou a pensar em como alguém como ela teria entrado na Academia – e depois percebeu. Ele sabia mais do que isso em jugar as pessoas pelas aparências. Especialmente do jeito que ele tinha aparecido na Academia dois anos atrás, tão magro que tinha que usar os uniformes das meninas. Você está pensando como um Caçador de Sombras, ele se repreendeu.
Estranho como isso quase nunca soava como uma coisa boa.
— Ele me disse para entregar para você — a menina sussurrou, entregando um papel enrolado para Marisol, e depois recuando para trás rapidamente.
Marisol era um tipo de heroína para as jovens mundanas, Simon pensou.
— Quem disse? — Marisol perguntou, mas a menina já tinha ido embora.
Marisol deu de ombros e abriu o bilhete, a sua boca se abrindo enquanto lia.
— O que foi? — Simon perguntou, preocupado.
Marisol abanou a cabeça.
Jon pegou a mão dela, e Simon pensou que ela fosse bater nele, mas em vez disso, ela o apertou mais forte.
— É de Sunil — ela disse com um tom de raiva em sua voz. Ela passou ao bilhete para Simon. — Acho que ele “considerou as suas opções”.
Eu não posso fazer isto, ele leu. Sei que isso provavelmente me torna um covarde, mas não posso beber do Cálice. Eu não quero morrer. Me desculpe. Diga adeus para todos por mim? E boa sorte.
Ele passou o papel para todos, um por um, como se precisassem de ver as palavras preto no branco antes de poderem acreditar. Sunil fugira.
— Não podemos culpá-lo — Beatriz falou finalmente. — Todos têm que tomar sua própria decisão.
— Eu posso culpá-lo — Marisol respondeu, com raiva. — Ele está fazendo com que todos pareçamos ruins.
Simon não pensava que era por isso que ela estava com raiva, não exatamente. Ele estava com raiva também – não porque pensava que Sunil era um covarde ou porque os tinha traído. Simon estava com raiva porque tinha colocado muito esforço em não pensar no que poderia acontecer ou sobre como esta era a sua última chance de desistir, e agora Sunil fez com que fosse impossível.
Simon se levantou.
— Acho que preciso de um pouco de ar.
— Quer companhia, amigo? — George perguntou.
Simon balançou a cabeça, sabendo que George não se ofenderia. Esta era outra coisa que os tornavam tão bons companheiros de quarto. Cada um sabia quando deixar o outro sozinho.
— Vejo vocês de manhã — Simon disse.
Julie e Beatriz sorriram e acenaram um boa-noite, e até Jon lhe dera um boa-noite silencioso. Mas Marisol nem sequer olhou para ele, e Simon imaginou se ela estava pensando que ele seria o próximo fugir.
Ele queria assegurá-la de que não havia chance de isso acontecer. Queria prometer que, de manhã, estaria lá junto com eles no salão do Conselho, pronto para levar o Cálice Mortal até a boca, sem hesitações. Mas juramento era uma coisa séria para os Caçadores de Sombras. Você nunca fazia um juramento sem ter certeza absoluta. Então Simon apenas deu boa-noite pela última vez, e deixou os seus amigos para trás.

* * *

Simon pensou se alguma vez na história alguém falou “Preciso de um pouco de ar”, e realmente quis dizer isso. Com certeza era um apenas um código para “Preciso estar em outro lugar”, que era o que Simon realmente precisava. O problema era que nenhum lugar parecia o lugar certo para estar – então, com falta de ideias, ele decidiu que o dormitório teria que servir. Pelo menos lá ele poderia ficar sozinho.
Pelo menos era o plano.
Mas quando ele entrou no quarto, encontrou menina sentada em sua cama. Uma menina pequena de cabelos vermelhos, que cuja cabeça se ergueu quando o viu.
De todas as coisas mais estranhas que aconteceram a Simon nesses últimos anos, isto – garotas bonitas avidamente esperando por ele em seu quarto – já não parecia nada estranho.
— Clary — ele falou enquanto se aproximava, em um abraço feroz. Era tudo o que ele precisava dizer, porque era assim com a sua melhor amiga.
Ela sabia exatamente quando ele mais precisava dela e quão grato e aliviado ele estava – sem ele ter que dizer nada.
Clary sorriu para ele e colocou a estela de volta no bolso. O Portal que ela tinha criado ainda brilhava na parede rochas decrépitas, de longe a coisa mais brilhante do seu quarto.
— Surpreso?
— Queria me ver uma última vez antes de eu me tornar todo musculoso e matador de demônios? — Simon brincou.
— Simon, você sabe que Ascender não é como ser picado por uma aranha radioativa ou algo assim, não é?
— Então quer dizer que não vou poder pular prédios em um só salto? E não vou poder ter o meu próprio batmóvel? Quero meu dinheiro de volta.
— Não, sério, Simon...
— Sério, Clary. Eu sei o que Ascender quer dizer.
A frase caiu pesadamente entre eles, e como sempre, Clary ouviu o que ele não disse: que isto era grande demais para falar seriamente. Que brincar sobre isso era, no momento, o melhor que ele podia fazer.
— Além do mais, Lewis, eu diria que você já esta musculoso o suficiente — ela tocou os seus bíceps, que, ele não podia deixar de notar, estavam muito perto de serem notados. — Mais um pouco e você vai precisar comprar roupas novas.
— Nunca! — ele respondeu indignamente, e alisou a sua camiseta, que tinha uma dúzia de buracos no algodão macio e onde se lia Estou fazendo um cosplay de mim mesmo em letras quase desbotadas demais para entender.
— Você, por acaso, não trouxe Isabelle junto? — ele tentou esconder a esperança de sua voz.
Era difícil de acreditar que dois anos atrás ele viera para a Academia escapar de Clary e Isabelle, escapar da maneira como elas olhavam para ele, como se o amassem mais do que qualquer coisa no mundo – mas também como se ele tivesse afogado o cachorrinho delas em uma banheira.  Elas tinha amado outra versão dele, aquela da qual ele já não se lembrava, a versão que as tinha amado também. Sem dúvida nenhuma ele já não conseguia sentir-se assim. Elas eram estranhas para ele. Estranhas terrivelmente bonitas que queriam que ele fosse algo que ele não era.
Parecia outra vida. Simon não sabia se conseguiria recuperar suas memórias – mas mesmo assim, apesar de tudo, ele conseguira encontrar o seu caminho de volta para Clary e Isabelle. Ele encontrara uma melhor amiga que parecia ser a sua outra metade, que algum dia seria a sua parabatai. E ele encontrara Isabelle Lightwood, um milagre em forma de mulher, que dizia “Eu te amo” cada vez que o via – incompreensivelmente, parecia ser verdade.
— Ela queria vir — Clary respondeu — mas ela teve que resolver um problema com uma fada trapaceira em Chinatown, alguma coisa sobre bolinhos para sopa e uma menina com cabeça de cabra. Eu não fiz muitas perguntas e... — ela sorriu com conhecimento para Simon. — Eu te perdi em “bolinhos para sopa”, não foi?
O estomago de Simon roncou com barulho o suficiente para responder a sua pergunta.
— Bem, talvez possamos pegar um pouco pelo caminho — Clary disse. — Ou pelo menos uns pedaços de pizza e um latte.
— Não zoe comigo, Fray — Simon andava muito sensível ultimamente quanto ao assunto pizza, ou a falta dela. Ele suspeitava que qualquer dia o seu estômago pararia de funcionar em protesto. — No caminho para onde?
— Oh, esqueci de te explicar motivo de eu estar aqui, Simon — Clary pegou a sua mão. — Eu vim para te levar para casa.

* * *

Simon ficou ali parado, olhando para a frente da casa de sua mãe, o seu estômago revirando.
Viajar pelo Portal sempre o fazia querer vomitar, mas desta vez ele achava que não podia culpar a mágica interdimensional. Não inteiramente, pelo menos.
— Tem certeza de que esta é uma boa ideia? — ele perguntou. — Está tarde.
— São onze da noite, Simon. Você sabe que ela ainda está acordada. E mesmo que não esteja, você sabe que...
— Eu sei.
A sua mãe gostaria de vê-lo. A sua irmã também estava em casa para o fim de semana, porque, de acordo com Clary, uma ruiva bem intencionada talvez tivesse ligado para a sua irmã e dito que Simon passaria para uma visita.
Ele apoiou-se contra Clary durante um momento, e, pequena como era, aguentou o seu peso.
— Eu não sei como fazer — ele disse. — Não sei como dizer adeus para elas.
A mãe de Simon pensava que ele estava em uma escola militar. Ele se sentira culpado por mentir para ela, mas sabia que não havia outra opção; sabia, até muito bem, o que aconteceria se ele contasse a verdade para a sua mãe. Mas isto... isto outra coisa. Ele era proibido pela Lei dos Caçadores de Sombras de falar sobre a sua Ascensão, sobre a sua nova vida. A Lei também o proibia de contatá-la depois que ele se tornasse um Caçador de Sombras, e mesmo que não existisse nenhuma lei que o impedisse de estar aqui no Brooklyn para lhes dizer adeus para sempre, a Lei o proibia de explicar o motivo.
Sed lex, dura lex. A Lei é dura, mas é a Lei.
Lex é uma merda, Simon pensou.
— Quer que eu vá com você? — Clary perguntou.
Ele queria, mais que tudo – mas alguma coisa lhe dizia que isto era algo que ele deveria fazer sozinho.
Simon balançou a sua cabeça.
— Mas obrigado. Por ter me trazido até aqui, por saber que eu precisava disto, por... bem, por saber tudo.
— Simon... — Clary pareceu hesitante, e Clary nunca hesitava.
— O que foi?
Ela suspirou.
— Tudo o que te aconteceu, Simon, tudo... — ela fez uma pausa, só o suficiente para ele pensar no quanto ele tinha sobrevivido: transformado em um rato e depois em vampiro; encontrado Isabelle; salvado o mundo umas tantas vezes – pelo menos foi o que lhe disseram – preso em uma jaula e atormentado por todas as criaturas supernaturais; matado demônios: enfrentado um anjo; perdido as suas memorias; e agora estava de pé no limiar da única casa que conhecera, preparando-se para deixá-la para trás. — Não posso evitar pensar que foi tudo por minha causa — Clary falou suavemente.  — Que a razão fui eu. E...
Ele a parou antes que ela fosse mais longe, por que ele não conseguia suportar que ela pensasse que precisava se desculpar.
— Você está certa — ele disse. — Você é a razão, por tudo — Simon deu um pequeno beijo em sua testa. — E é por isso que eu lhe agradeço.

* * *

— Você tem certeza que não quer que eu esquente para você? — a mãe de Simon perguntou enquanto ele colocava outra garfada da massa fria em sua boca.
— Hm? O quê? Não, está tudo bom.
Estava muito mais que bom. Tinha tomate picante, alho fresco, pimenta e queijo, era melhor do que sobras de bordas de pizza tinham o direito de ser. Tinha sabor de comida de verdade, o que já era mil vezes melhor do que ele comera nos últimos messes. Mas não era só isso. Comida do Giuseppi’s era tradição para Simon e sua mãe – depois que seu pai faleceu e sua irmã foi para a universidade, quando eram só os dois no apartamento que parecia uma caverna com apenas eles ali, eles perderam o hábito de cozinhar diariamente. Era mais fácil pegar alguma comida quando tinham vontade a caminho do apartamento, sua mãe esquentando comida depois do trabalho e assistindo TV, Simon comendo uma sanduiche ou algo assim quando ia para o ensaio da banda. Talvez, fosse mais fácil não ver as cadeiras vazias na mesa todas as noites.
Mas tinham uma regra de comer juntos pelo menos uma vez por semana, jantando espaguete e bolinhos com molho de alho picante do Giuseppi’s.
Essas sobras frias tinham o sabor de casa, de família, e Simon detestava pensar em sua mãe sentada no apartamento vazio, semana após semana, comendo sozinha.
Supõe-se que crianças crescem e partem, ele disse a si mesmo. Não estava fazendo nada de ruim; só fazia o que tinha que fazer.
Mas havia uma parte de si mesmo que se perguntava. Talvez se supusesse que crescessem e partissem. Mas não para sempre. Não assim.
— Sua irmã tentou ficar acordada para te esperar — a mãe dizia — mas aparentemente ela tem estudado a semana inteira direto para os exames. Ela adormeceu às nove.
— Talvez devêssemos acordá-la — Simon sugeriu.
Ela balançou sua cabeça.
— Deixe a pobre garota dormir. Ele o verá de manhã.
Ele não dissera exatamente que ficaria para dormir. Mas a deixara acreditar nisso, o que supostamente era o mesmo: outra mentira.
Ela se sentou na cadeira ao seu lado dele e pegou um pouco da massa fria com o seu garfo.
— Não fale da minha dieta — ela avisou, baixinho, e depois colocou a comida na boca.
— Mãe, existe uma razão pela qual estou aqui... Eu queria conversar sobre algo com senhora.
— Engraçado, eu também queria lhe falar algo.
— Sério? Que bom! Pode falar primeiro.
Sua mãe suspirou.
— Você se lembra da Ellen Klein? A sua professora na escola judaica?
— Como poderia esquecer? — Simon respondeu ironicamente.
A Sra. Klein tinha sido a ruína de sua existência do segundo ao quinto ano. Toda terça depois da escola, eles lutavam uma guerra silenciosa, tudo por que, em um incidente no recreio, Simon acidentalmente tirara a sua peruca e mandou voando para um ninho de pombos.
Ela passou os próximos três anos determinada em arruinar a vida dele.
— Você sabe que ela era apenas uma velhinha gentil tentando fazê-lo prestar atenção — sua mãe falou com um sorriso sábio.
— Velhinhas gentis não jogam os seus cards de Pokémon no lixo — Simon apontou.
— Elas o fazem quando você os troca por vinho branco atrás do santuário — ela devolveu.
— Eu nunca faria isso!
— Uma mãe sempre sabe, Simon.
— Ok. Tudo bem. Mas era um card muito raro. O único Pokémon que...
— De qualquer maneira, a filha da Ellen Klein acabou de se casar com sua namorada, uma mulher encantadora, você iria gostar dela... todos nós gostamos dela. Mas...
Simon revirou os seus olhos.
— Mas deixe-me adivinhar: a Sra. Klein é homofóbica.
— Não, não é isso... a namorada é católica. Ellen não quis ir ao casamento, e agora está vestindo luto e dizendo a todos que sua filha estaria melhor morta.
Simon abriu a boca para dizer que ele estava certo desde sempre, que a Sra. Klein era na verdade uma pessoa horrível, mas a sua mãe o parou antes que ele pudesse começar.
Uma mãe aparamente, sempre sabe.
— Sim, sim, é horrível, mas não estou te contando isso para que você se sinta vingado. Estou contando... — ela juntou os dedos, parecendo nervosa. — Eu tive esse sentimento estranho quando ouvi a história, Simon como se eu soubesse que ela iria se arrepender... por que eu me arrependi. Não é estranho? — ela deixou escapar um sorrisinho nervoso, mas não parecia estar brincando. — Sentir-se culpado por algo que você nunca fez? Eu não consigo dizer por que, mas sinto como se eu o tivesse traído de uma forma terrível e não consigo me lembrar.
— É claro que não, mãe. Isso é ridículo.
— É claro que é. Eu nunca faria isto. Uma mãe sempre deve amar incondicionalmente o seu filho — os seus olhos brilhavam por causa das lágrimas que não caíram. — Você sabe que é assim que eu te amo, Simon, não sabe? Incondicionalmente?
— É claro que sei.
Ele confirmou porque queria acreditar nisso, queria responder com uma afirmativa.
Mas é claro, era apenas outra mentira. Porque naquela outra vida, naquela que oi apagada das memórias dos dois, ela o tinha traído. Ele lhe contara a verdade, que ele fora transformado em um vampiro, e ela o expulsara de casa. Dissera que ele não era mais o seu filho. Que o filho dela estava morto. Ela tinha provado, para os dois, que o seu amor tinha condições.
Ele não conseguia se lembrar de ter acontecido, mas em algum nível mais profundo de seu subconsciente, lembrava-se do sentimento – a dor, a traição, a perda. Nunca lhe ocorrera que ela se lembrasse também.
— Isto é estúpido — ela enxugou as suas lagrimas, e se sacudiu. — Não sei porque estou tão sentimental sobre isso; eu só... eu tive este sentimento que precisava te dizer, e depois você apareceu aqui como se fosse o destino, e...
— Mãe.
Simon puxou a sua mãe da sua cadeira e a abraçou com força. De repente ela parecia tão pequena m comparação a ele, e ele pensou em como ela trabalhara todos aqueles anos para protegê-lo, e em como ele faria qualquer coisa para protegê-la também. Ele era uma pessoa diferente agora da pessoa que era dois anos atrás, um Simon diferente daquele que confessara à sua mãe e fora expulso de casa – e talvez a sua mãe talvez fosse uma pessoa diferente também.
Talvez fazer aquela escolha uma vez tivesse sido o suficiente para ter a certeza de que não a faria nunca mais; talvez fosse hora de abandonar esse sentimento contra ela, essa traição de que nenhum dos dois se lembrava claramente.
— Mãe, eu sei. E eu te amo, também.
Ela se afastou o suficiente para perguntar:
— E você? Não tinha algo para me dizer?
Oh, nada de mais, só estou me juntado a um grupo supernatural de caçadores de demônios que me proibiram de te ver para sempre, mas eu te amo.
Não soava exatamente muito bem.
— Eu falo de manhã. A senhora parece exausta.
Ela sorriu, exaustão preenchendo seu rosto.
— De manhã — ela repetiu. — Bem-vindo de volta ao seu lar, Simon.
— Obrigada, mãe — ele respondeu, e milagrosamente conseguiu não se engasgar.
Ele esperou que ela sumisse atrás da porta de seu quarto, e esperou escutar os seus roncos começarem. Depois escreveu um bilhete pedindo desculpa por ter saído tão abruptamente. Sem ter dito adeus.
Sua irmã também roncava – mas assim como a mãe, também negava. Ele conseguia, se ficasse em silêncio, escutar da cozinha.
Ele poderia acordá-la, se quisesse, e provavelmente poderia lhe contar a verdade, ou pelo menos uma versão dela. Podia confiar em Rebecca – não só para guardar os seus segredos, mas para entendê-los. Ele poderia fazer o que estava lá para fazer, o que se supõe que faria, dar adeus a ela e dizer que  amava e para proteger a mãe pelos dois.
— Não — ele disse suavemente, mas a palavra pareceu ecoar pela cozinha vazia.
A Lei é dura, mas também tinha alguns furos. Clary não lhe tinha ensinado isto? Eles eram Caçadores de Sombras que conseguiram achar um jeito de manter os seus amados mundanos em suas vidas – o próprio Simon era a prova. Talvez fosse por isso que Clary o trouxera ali esta noite – não para dizer adeus, mas para entender que ele não podia. Não daria adeus.
Isto não é para sempre, Simon prometeu a sua mãe e irmã enquanto passava pela porta de entrada. Ele prometeu que não estava sendo covarde, saindo sem dizer nada. Era uma promessa silenciosa – que este não era o fim. Ele encontraria uma maneira. E mesmo que não tivesse ninguém para ouvir o seu sotaque perfeito do Schwarzenegger, ele prometeu em voz alta:
— Eu voltarei.

* * *

Clary lhe dissera para ligar quando ele estivesse pronto para voltar para a Academia, mas ele ainda não estava pronto. Era estranho: em mais um dia, não haveria nada impedindo-o de voltar a Nova York se quisesse. Depois de sua Ascensão, ele seria um Caçador de Sombras de verdade. Sem mais escola, sem mais missões de treinamento, sem mais longos dias e noites em Idris sentindo falta de seu café de manhã. Ele não pensara muito no que aconteceria, mas sabia que voltaria para o seu lar, para a sua cidade e ficaria no Instituto, pelo menos temporariamente. Não havia razão para que sentisse saudades de Nova York quando ele estava tão perto de voltar para sempre.
Só que ele não tinha certeza de que ficaria quando voltasse. Quando ele Ascendesse. E se Ascendesse, se nada de terrível acontecesse quando ele bebesse do Cálice Mortal.
O que significaria se tornar um Caçador de Sombras, realmente? Ele seria mais forte e mais rápido, era o que sabia. Seria capaz de suportar runas em sua pele, ver através de encantamentos sem a ajuda de um feiticeiro. Sabia muito sobre o que seria capaz de fazer, mas não sobre como se sentiria.
Sobre quem ele seria quando osse um Caçador de Sombras.
Não é que ele pensasse que uma bebida vinda de um cálice mágico o transformaria imediatamente num egocêntrico extraordinariamente bonito, descontroladamente esnobe e imprudente como... bem, como quase todos os Caçadores de Sombras que ele conhecia e  gostava. Ele também não esperava que se transformar em um Caçador de Sombras o faria desdenhar automaticamente D&D, Star Trek e toda a tecnologia e cultura pop inventados após o século dezenove. Mas quem poderia saber ao certo?
E não era apenas a transformação confusa de humano para guerreiro à imagem do Anjo. Ele fora assegurado que, com toda a probabilidade, se ele sobrevivesse à Ascensão, receberia de volta todas as suas memórias. Todas as memórias do Simon original, o Simon “real”, a quem ele trabalhara tanto para convencer as pessoas de que tinha ido para sempre, viria à tona em seu cérebro. Ele supôs que isso devia torná-lo feliz, mas Simon descobriu que sentia um pouco territorial quanto a seu cérebro agora. E se esse Simon – o Simon que tinha salvado o mundo, o Simon a quem Isabelle caíra de amores pela primeira vez – não fosse parecido com o que Simon se tornou? E se ele bebeu do Cálice e perdesse tudo de novo?
Deu-lhe uma dor de cabeça pensar em si mesmo com tantas personalidades diferentes.
Ele queria uma noite na cidade apenas sendo assim: Simon Lewis, míope, mundano que adorava mangás. Além disso, ainda queria alguns daqueles bolinhos para sopa.
Simon foi para Flatbush, absorvendo os familiares ruídos noturnos de Nova York, sirenes, brocas de construção, buzinas raivosas de estrada – juntamente com o ligeiramente menos familiar som de cães de caça das fadas latindo para as pombas. Ele cruzou a Manhattan Bridge, o metal chacoalhando sob seus pés enquanto o metrô rugia em sua passagem, as luzes do Distrito Financeiro brilhando em meio à neblina. Até antes de saber sobre demônios e seres do Submundo, Simon sempre soube que Nova York era cheia de magia.
Talvez fosse por isso que foi tão fácil para ele aceitar a verdade sobre o Mundo das Sombras: em sua cidade, tudo era possível.
Convenientemente, a ponte deixou-o no coração de Chinatown. Enquanto ele surgia perto seu restaurante favorito e costurava por inúmeras barraquinhas de rua vendendo bolinhos para sopa, a mente de Simon desviou para Isabelle, perguntando-se se ela estava por perto, dividindo malfeitores com seu chicote de electrum. Isso espantou sua mente – se você pensasse bem, ele estava basicamente namorando uma super-heroína.
É claro, a coisa sobre namorar uma super-heroína era que você não podia exatamente pedir que ela fizesse uma pausa em salvar o mundo só porque você estava no clima para um encontro de última hora. Então Simon continuou andando, imerso no ritmo da cidade à meia-noite, deixando sua mente vagar sem rumo assim como seus pés. Pelo menos, ele pensava que estava vagando sem rumo, até que se encontrou em um quarteirão familiar de Avenida D, passando por uma loja onde o leite era sempre azedo, mas o cara atrás do balcão lhe daria um café acompanhado de uma rosquinha se você soubesse o suficiente para pedir.
Espere, como eu sabia disso? Simon pensou. A resposta veio com ele logo após a questão. Ele sabia disso porque, em alguma outra vida esquecida, viera aqui. Ele e Jordan Kyle compartilharam um apartamento no edifício de tijolos vermelhos em ruínas na esquina. Um vampiro e um lobisomem vivendo juntos, soava como o início de uma piada ruim, mas a única piada de mau gosto era que Simon praticamente esquecera o que aconteceu.
E Jordan estava morto.
Isso atingiu-o agora quase tão forte como ele quando ele ouviu pela primeira vez: Jordan estava morto. E não apenas Jordan. Raphael estava morto. O irmão de Isabelle, Max, estava morto. O irmão de Clary, Sebastian, estava morto. A irmã de Julie. O avô, o pai e o irmão de Beatriz, os pais de Julian Blackthorn, os pais de Emma Carstairs – estavam todos mortos, e esses eram apenas os que Simon tinha conhecimento. Quantas outras pessoas de quem ele gostava, ou pessoas que tinham outras pessoas, se perderam para uma guerra de Caçadores de Sombras ou outra?
Ele era ainda um adolescente, não deveria conhecer muitas pessoas que tinham morrido.
E eu, ele pensou de repente. Não se esqueça desse.
Porque era verdade, não era? Antes da vida como um vampiro, houvera morte. Frio, falta de sangue e enterro.
Então, mais tarde, houve o esquecimento, que era uma espécie de morte também.
Simon ainda nem era um Caçador de Sombras, e esta vida já tinha tomado tanto dele.
— Simon. Achei que você estaria aqui.
Simon se virou e foi lembrado que por todas as perdas, houveram também alguns ganhos muito significativos.
— Isabelle — ele respirou e, em seguida, por um bom tempo, os lábios estiveram demasiado ocupados para falar.

* * *

Eles foram para o apartamento de Magnus e Alec.
O casal tinha levado seu novo bebê de férias para Bali, o que significava que Simon e Isabelle poderiam ter o lugar para eles.
— Você tem certeza que está tudo bem nós ficarmos aqui? — Simon perguntou, olhando nervosamente ao redor do apartamento.
Da última vez que ele estivera ali, a decoração tinha caráter parte Studio 54, parte bordel: um monte de bolas de discoteca, cortinas de veludo e alguns espelhos terrivelmente colocados.
Agora, a sala parecia algo decorado por uma loja de bebês – cobertores, fraldas, móbiles e coelhinhos de pelúcia para onde quer que se olhasse.
Ele ainda não podia acreditar Magnus Bane era pai de alguém.
— Tenho certeza — disse Isabelle, tirando o vestido em um movimento suave para revelar os intermináveis trechos de pele lisa e pálida que estavam abaixo. — Mas se você quer sair...
— Não — Simon interrompeu, buscando fôlego o suficiente para falar. — Definitivamente não. Aqui está bom. Muito bom.
— Bem...
Isabelle varreu uma família de gatinhos de pelúcia para fora do sofá, então esticou-se como uma felina muito satisfeita e perigosa. Ela olhou diretamente para a camiseta de Simon, que ainda estava em seu corpo.
— Bem. — Simon ficou de pé perto dela, inseguro sobre o que fazer a seguir.
— Simon.
— Sim?
— Eu estou olhando incisivamente para a sua camiseta.
— Uh. Uhum.
— Que ainda está em seu corpo.
— Oh. Certo — ele teve percebeu isso. Deitou ao lado dela no sofá.
— Simon.
— Sim? Oh. Certo.
Simon se inclinou na direção dela e puxou-a para um beijo, que ela retribuiu por cerca de trinta segundos antes de se afastar.
— O que há de errado?
— Me diga você. Eu, a sua namorada incrivelmente sexy, estou prostrada seminua aqui, e você parece como se estivesse assistindo um jogo de baseball.
— Eu odeio baseball.
— Exatamente — Isabelle sentou-se, embora, felizmente, não tenha colocado as roupas de volta. Ainda. — Você sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, certo?
Simon assentiu.
— Então, se, hipoteticamente, você estivesse se sentindo um pouco nervoso sobre toda essa coisa de Ascensão amanhã, e quisesse pensar um pouco, poderia falar comigo sobre isso.
— Hipoteticamente.
— Basta escolher um tema ao acaso — Isabelle disse. — Também poderia falar sobre Avatar: O Último Teste do Ar, se quiser.
— É O Último Mestre do Ar — corrigiu Simon, suprimindo um sorriso — e eu te amo, mesmo que você seja uma nerd sem jeito.
— E eu te amo, mesmo que você seja um mundano. Mesmo que você permaneça mundano. Você sabe disso, certo?
— Eu... — era fácil para ela dizer, e ele pensava que ela provavelmente se sentia assim mesmo. Mas isso não o tornava realidade. — Você acha que amaria? Sério?
Isabelle soltou a respiração em um bufo irritado.
— Simon Lewis, está se esquecendo que você era um mundano quando comecei a te namorar? Um mundano magricela com um terrível senso de moda, eu gostaria de salientar. E então se transformou num vampiro, e ainda continuei com você. Aí virou mundano novamente, mas desta vez com pirando amnésia. E ainda, inexplicavelmente, eu te amei mais uma vez. O que poderia te faz pensar que ainda tenho qualquer padrão restando quando se trata de você?
— Uh, obrigado, eu acho?
— “Obrigado” é a resposta correta. E “Eu também te amo, Isabelle, e eu te amaria mesmo se você perdesse a memória ou crescesse um bigode ou algo assim” também.
— Bem, obviamente — Simon ergueu o queixo. — Embora eu tiraria a parte sobre a barba.
— Evidentemente — então ela ficou séria novamente. — Você acredita em mim, certo? Não pode estar fazendo isso por mim.
— Eu não estou fazendo isso por você — Simon disse, o que era verdade. Ele pode ter ido para a Academia, em parte, por causa dela, mas ficara por si mesmo. Quando ele Ascendesse, não seria porque precisava provar algo para ela. — Mas... se eu desistisse, o que eu nunca faria, mas se eu o fizesse, não faria de mim um covarde? Você namoraria um mundano, talvez. Mas eu te conheço, Izzy. Você não namoraria um covarde.
— E você, Simon Lewis, não seria um covarde. Não se você tentou. Não é covardia fazer uma escolha sobre o que você quer para a sua vida. Escolher o que é certo para você talvez seja a coisa mais corajosa que você pode fazer. Se escolher ser um Caçador de Sombras, eu vou te amar por isso. Mas se optar por permanecer mundano, eu vou te amar por isso, também.
— E se eu simplesmente optar por não beber do Cálice Mortal porque tenho medo que isso vai me matar? — perguntou Simon. Foi um alívio finalmente falar em voz alta. — E se não tiver nada a ver com a forma como quero passar o resto da minha vida? E se for apenas medo?
— Bem, então você é um idiota. Porque o Cálice Mortal nunca poderia machucá-lo. Se há uma coisa que sei, é que você faria um Caçador de Sombras incrível. O sangue do Anjo nunca poderia machucá-lo — disse ela, intensidade brilhando em seus olhos. — Não seria possível.
— Você realmente acredita nisso?
— Sim.
— Então o fato de nós estarmos aqui, e você estar, você sabe...
— Parcialmente despida e se perguntando por que nós ainda estamos tendo essa conversinha?
—... não tem nada a ver com o fato de você achar que esta pode ser a nossa última noite juntos?
Isso lhe valeu outro suspiro exasperado.
— Simon, você sabe quantas vezes tive certeza de que um de nós não sobreviveria nas próximas quarenta e oito horas?
— Hm, várias?
— Várias — ela confirmou. — E em nenhuma dessas ocasiões nós tivemos qualquer tipo de sexo desesperado de despedida.
— Espere... nós não tivemos?
Ao longo dos últimos meses, Simon e Isabelle tinham chegado muito perto. Mais perto, ele pensou, do que alguma vez tinha estado antes, desde que conseguia se lembrar. Pelo menos conversando. Quanto ao outro tipo de chegar perto – falar o telefone e escrever cartas não era exatamente propício para perder sua virgindade.
Em seguida, houve o fato excruciante de que Simon não tinha certeza se ainda tinha uma virgindade para perder. Todo esse tempo ele estivera envergonhado demais para perguntar.
— Você está brincando comigo? — perguntou Isabelle.
Simon podia sentir suas bochechas queimando.
— Você não está brincando comigo!
— Por favor, não fique brava — pediu Simon.
Isabelle riu.
— Eu não estou brava. Se tivéssemos feito sexo e você tivesse esquecido – o que, de qualquer forma, garanto que não seria possível, com amnésia de demônio ou não – aí talvez eu estivesse louca.
— Então, nós nunca realmente...?
— Nós nunca realmente — confirmou Isabelle. — Sei que você não se lembra, mas as coisas foram um pouco agitadas por aqui, com a guerra e todos tentando nos matar e tal. E como eu disse, não acredito em “sexo de despedida”.
Simon sentiu como se aquela noite – possivelmente a noite mais importante de sua jovem e tristemente inexperiente vida – pendesse no equilíbrio, e ele estava com muito medo de dizer a coisa errada.
— Então, uh, em que tipo de sexo que você acredita?
— Acho que deveria ser o início de algo — disse Isabelle. — Como, digamos, hipoteticamente, se toda a sua vida estivesse prestes a mudar amanhã, se ele fosse o primeiro dia do resto de sua vida, eu quero ser parte disso.
— Do resto da minha vida.
— Sim.
— Hipoteticamente falando.
— Hipoteticamente falando.
Ela tirou os óculos dele e beijou-o fortemente nos lábios, em seguida, muito suavemente no pescoço. Exatamente onde um vampiro afundaria suas presas, alguma parte dele refletiu. A maior parte dele, porém, pensava, Isto realmente vai acontecer. Vai acontecer hoje à noite.
— Além disso, mais do que tudo, eu acredito em fazer isso porque eu quero — Isabelle falou claramente. — Assim como qualquer outra coisa. Eu quero. Suponho que você também queira.
— Você não tem ideia de quanto — Simon respondeu honestamente, e agradeceu a Deus que sangue de Caçador de Sombras não concedesse telepatia. — Eu apenas devo adverti-la que eu não, quero dizer, eu não tenho, quero dizer, esta seria a primeira vez que eu, então...
— Será naturalmente — ela beijou seu pescoço novamente, em seguida, sua garganta. Em seguida, seu peito. — Eu prometo.
Simon pensou em todas as oportunidades aqui para a humilhação, já que ele não tinha absolutamente nenhuma ideia do que estava fazendo, e quando ele não tinha ideia do que estava fazendo, acabava fazendo besteira. Montar um cavalo, empunhar uma espada, saltar de uma árvore, todas essas coisas.
As pessoas continuavam dizendo que viria naturalmente, porém geralmente vinha com solavancos, contusões e, mais de uma vez, um rosto cheio de estrume.
Mas ele não tentara nenhuma dessas coisas com Isabelle ao seu lado. Ou em seus braços. Como se viu, isso fez toda a diferença.

* * *

— Bom dia! — Simon cantarolou, saindo do Portal direto em seu quarto na Academia – apenas a tempo para pegar Julie deslizando porta afora.
— Er, bom dia — George murmurou, aninhado sob as cobertas. — Não tinha certeza se você voltaria.
— Eu acabei de ver...?
— Um cavalheiro não beija e fala sobre isso — George sorriu. — Falando nisso, devo perguntar onde você esteve a noite toda?
— Não deveria — disse Simon, com firmeza.
Enquanto ele atravessava o quarto até o armário para encontrar algo limpo para vestir, tentou o seu melhor para manter o sorriso bobo, sonhador e de coração longe do rosto.
— Você está saltitando — George falou em tom acusador.
— Não estou.
— E você estava cantarolando — acrescentou George.
— Eu definitivamente não estava.
— Será que esse é um bom momento para dizer-lhe que Jon Cartwright Trigésimo Quinto parece ter feito o seu negócio em sua gaveta de camisetas?
Mas nada nesta manhã poderia diminuir o humor de Simon. Não quando ele ainda podia sentir o fantasma do toque de Isabelle. Sua pele zumbia com isso. Seus lábios estavam inchados. Sentia o coração inchado.
— Eu sempre posso arranjar novas camisetas — Simon disse alegremente. Ele imaginou que deste ponto em diante, podia responder a tudo alegremente.
— Penso que este lugar oficialmente tirou o seu juízo — George suspirou então, parecendo um pouco deprimido. — Você sabe, eu realmente vou sentir falta daqui.
— Você não vai chorar de novo, não é? Acho que há bolor suficiente crescendo nos fundos da minha gaveta de meias se você quiser ficar realmente com falta de ar.
— Será que a gaveta de meias vai se transformar em uma máquina de combate super-humana meio angelical? — George meditou.
— Não com chinelos — disse Simon prontamente. Ele não tinha saído com Isabelle todos esses meses sem aprender algo sobre calçados adequados. — Nunca com chinelos.
Eles se vestiram para a cerimônia – escolhendo, depois de alguma deliberação, suas roupas que mais os refletiam. O que significava, para George, jeans e uma camiseta de rúgbi; e para Simon, uma camiseta desbotada que ele tinha havia feito quando a banda era chamada de Pelotão da Morte Porquinhos-da-índia (esse nome, felizmente, durou uma semana, por isso o maldito roedor estava livre. Então, sem muita conversa, eles começaram a arrumar seus pertences. A Academia não era muito de grandes celebrações – provavelmente algo bom, Simon pensou, uma vez que na última festa toda a escola um dos calouros errara a direção da sua besta flamejante e acidentalmente deixou o telhado em chamas. Haveria a cerimônia de formatura, nada de pais orgulhosos com câmeras, nada de fotos para o álbum do ano ou chapéus de formatura sendo atirados. Apenas o ritual de Ascensão, seja lá o que quisesse dizer, e seria isso. O fim da Academia; o começo do resto de suas vidas.
— Não é como se nós não fôssemos nos ver de novo — disse George de repente, em um tom que sugeria que ele estava se preocupando exatamente com isso.
Simon voltaria para Nova York, e George iria para o Instituto Londres, onde, segundo eles, um Lovelace era sempre bem-vindo. Mas o que era um oceano de distância quando você poderia usar um Portal? Ou, pelo menos, e-mail?
— É claro que não — Simon concordou.
— Mas não será o mesmo — apontou George.
— Não, acho que não.
George ocupou-se em colocar ordenadamente suas meias em um compartimento da mala, o que Simon achou alarmante, uma vez que era a primeira vez em dois anos que George fazia algo ordenadamente.
— Você é meu melhor amigo, sabe — George falou sem olhar para cima. Depois, rapidamente, como se para evitar uma negativa: — Não se preocupe, eu sei que não sou o seu melhor amigo, Si. Você tem Clary. E Isabelle. E os seus companheiros de banda. Entendi. Apenas pensei que você deveria saber.
Em algum nível, Simon já sabia. Ele nunca se preocupou em pensar muito nisso, não pensou muito sobre George, porque essa era a beleza de George. Simon nunca teve que pensar nele, decifrar o que ele faria, ou como ele reagiria. Ele apenas era o estável, confiável George, sempre lá, sempre cheio de alegria e ansioso para espalhá-la ao redor. Agora Simon pensou sobre ele, sobre quão bem George o conhecia, e vice-versa, não apenas nas coisas maiores: seus medos mortais da noite, de tomar banho do lado de fora da Academia, a infelicidade de Simon por causa de Isabelle, o George mais infeliz, senão indiferente, ansiando pela maior parte das meninas que cruzavam o seu caminho. Eles se conheciam nas pequenas maneiras – George era alérgico a castanha de caju, ao que Simon era alérgico a lição de casa de Latim, George tinha um medo paralisante de aves grandes – e de alguma forma, isso pareceu importar ainda mais. Nos últimos dois anos, eles tinham desenvolvido uma forma abreviada de gestos de companheiro de quarto, quase uma linguagem silenciosa. Não é exatamente como um parabatai, Simon pensou, e não exatamente como um melhor amigo. Mas não algo menos que isso. Não era algo que ele desejasse deixar para trás sempre.
— Você está certo, George. Eu tenho melhores amigos o suficiente.
A expressão de George caiu, apenas ligeiramente que só alguém que o conhecia bem, como Simon, teria notado.
— Mas há outra coisa que eu nunca tive — acrescentou Simon. — Pelo menos até agora.
— O quê?
— Um irmão.
A palavra lhe parecia certa. Não alguém que você escolheu – alguém que o destino lhe atribuiu, alguém que, ao abrigo de qualquer outra circunstância, poderia nunca ter-lhe dado um segundo olhar, nem você a ele. Alguém por quem você morreria e mataria sem pensar por um segundo, porque ele era da família. Julgando pelo sorriso radiante de George, a palavra soava certa para ele também.
— Nós teremos que nos abraçar agora ou alguma coisa assim? — George perguntou.
— Penso que é inevitável.

* * *

O Salão do Conselho era intimidantemente bonito à luz da manhã que entrava por uma janela na cúpula alta. O que fez Simon se lembrar das fotos que ira do Panteão, mas aqui parecia mais antigo, mais antigo do que Roma. O que o fez se sentir fora do tempo.
Os alunos da Academia estavam amontoados em pequenos grupos, todos parecendo muito nervosos e distraídos (que, como sempre em Idris, era perfeito). Marisol deu um sorriso brilhante para Simon quando o viu entrar na câmara, como se dissesse: Eu nunca duvidei de você... quase nunca.
Simon e George foram os últimos a chegar, e pouco depois isso, todos tomaram os seus lugares para a cerimônia. Os sete mundanos foram dispostos em ordem alfabética na parte da frente da câmara. Eram para ser dez, mas, aparentemente, Sunil não foi o único que a reconsiderar no último momento. Leilana Jay, uma menina muito alta e branca, de Memphis, e Boris Kashkoff, um musculoso de bochechas vermelhas do Leste Europeu, fugiram no meio da noite. Ninguém falou sobre eles, nem os professores e nem os alunos. Era como se eles nunca tivessem existido, Simon pensou, e em seguida, imaginou Sunil, Leilana e Boris lá fora em algum lugar do mundo, vivendo sozinhos com o seu conhecimento do mundo das sombras, consciente do mal, mas sem a vontade ou a capacidade de combatê-lo.
Há mais de uma maneira de lutar contra o mal neste mundo, Simon pensou, e era como se fosse a voz de Clary em sua cabeça, e também a de Isabelle e sua mãe também. Não faça isso só porque você acha que tem que fazer. Faça porque você quer.
Apenas se você quiser.
Os Caçadores das Sombras alunos da Academia – Simon nunca mais pensou neles como a “elite” assim como não pensava mais em si mesmo e nos outros mundanos como a “escória” – sentaram-se nas duas primeiras fileiras da plateia. Os alunos não estavam mais divididos, eles eram um só corpo. Uma unidade.
Mesmo Jon Cartwright parecia estar orgulhoso e um pouco nervoso por causa dos mundanos que estavam na frente da câmara – e quando Simon o pegou olhando para Marisol e pressionando dois dedos os lábios e, em seguida, no peito, isso pareceu certo (ou, pelo menos, não era um crime contra a natureza, o que já era um começo). Não havia membros da família na plateia – os mundanos com parentes vivos (deprimentemente, eram só alguns deles) tinham, é claro, os laços já cortados. Os pais de George, que também eram Caçadores de Sombras de sangue, poderiam ter participado, mas ele pediu-lhes que não fizessem isso.
— Apenas para o caso de eu explodir, companheiro — ele confidenciou a Simon. — Não me interprete mal, os Lovelace são resistentes, mas não acho que eles vão gostar de ver um George se desfazendo.
No entanto, a sala estava quase completamente cheia.
Esta era a primeira classe de mundanos da Academia a Ascenderem em décadas, e mais do que alguns Caçadores das Sombras queriam vê-los por si próprios. A maioria deles era de estranhos para Simon, mas não todos. Estava lotado, mas atrás das fileiras que continham os estudantes conhecidos estavam Clary, Jace, Isabelle, Magnus e Alec – que retornaram em surpresa de Bali para a ocasião – com seu bebê azul. Todos eles, até mesmo o bebê, olhavam fixamente para Simon, como pudessem fazê-lo Ascender apenas com a sua força de vontade.
Isso fez Simon perceber o que significava Ascender. Era o que significava ser um Caçador de Sombras. Não apenas arriscar sua vida, não apenas desenhar runas e lutar contra demônios e ocasionalmente salvar o mundo. Não apenas se juntar à Clave e concordar em seguir suas regras draconianas. Significava juntar-se a seus amigos. Significava ser uma parte de algo maior que si mesmo, algo tão maravilhoso quanto aterrorizante. Sim, a vida era muito menos segura do que tinha sido há dois anos – mas também era muito mais completa. Tal como o Salão do Conselho estava cheio com todas as pessoas que ele amava, pessoas que o amavam também.
Você quase podia chamá-los de uma família.

* * *

E então começou. Um por um, todos os mundanos foram convocados a subir no palco, onde seus professores estavam em uma fila, esperando para apertar a mão deles e desejar-lhes boa sorte.
Um por um, os mundanos se aproximariam dos círculos duplos desenhados no estrado e se ajoelhariam dentro deles, cercados por runas. Dois Irmãos do Silêncio estavam ali, apenas para o caso de algo dar errado. Cada vez que um mundano tomava a sua posição, eles inclinavam para as runas e escreviam um novo nome para simbolizar o aluno. Então voltavam para as bordas e faziam tudo novamente. Esperando.
Simon esperou enquanto seus amigos, um por um, levavam o Cálice Mortal até seus lábios. Enquanto uma chama ofuscante azul aparecia e em seguida desaparecia.
Um por um.
Gen Almodovar. Thomas Daltrey. Marisol Garza.
Cada estudante bebeu.
Cada estudante sobreviveu.
A espera era interminável.
Mas quando a Consulesa chamou o seu nome, ele sentiu que era cedo demais. Os pés de Simon pareciam blocos de cimento. Ele se forçou a subir no estrado, um passo de cada vez, seu coração batendo fortemente, fazendo todo o seu corpo tremer. Os professores apertaram a sua mão, mesmo Delaney Scarsbury, que murmurou:
— Sempre soube que você conseguiria chegar aqui, Lewis — uma mentira descarada.
Catarina Loss agarrou sua mão com força e o puxou para perto, seu brilhante cabelo branco varrendo seu ombro enquanto seus lábios roçaram seu ouvido.
— Termine o que começou, Diurno. Você tem o poder de mudar essas pessoas para melhor. Não desperdice essa chance.
Como a maioria das coisas que Catarina disse a ele, esta não fez sentido, mas uma parte dele conseguiu entender. Simon se ajoelhou no centro do círculo e se lembrou de respirar.
A Consulesa estava em cima dele, seu manto vermelho tradicional tocando o chão. Ele tentou manter seus olhos nas runas, mas podia sentir que Clary estava lá fora torcendo por ele; podia ouvir o eco da risada de George; podia sentir o toque quente do fantasma de Izzy em sua pele. No centro desses círculos, rodeado por runas, esperando que o sangue do divino atravessasse suas veias e  mudasse de alguma forma incompreensível, Simon se sentiu profundamente sozinho – e, no entanto, ao mesmo tempo, menos sozinho do que já esteve em toda a sua vida.
Sua família estava aqui, apoiando-o. Eles não o deixariam cair.
— Você jura, Simon Lewis, abandonar a vida mundana e seguir o caminho dos Caçadores das Sombras? — perguntou a Consulesa Penhallow.
Simon já vira a Consulesa antes, quando ela deu uma palestra na Academia, e novamente no casamento de sua filha com Helen Blackthorn. Em ambas as ocasiões ela basicamente parecia uma mãe: viva, eficiente, boa e nem um pouco surpreendente. Mas agora ela parecia temível e poderosa, um indivíduo da tradição dos Caçadores das Sombras.
— Você tomará para si o sangue do anjo Raziel e honrará esse sangue? Jura servir a Clave, seguir a Lei, conforme estabelecido pelo Pacto, e obedecer à palavra do Conselho? Defenderá o que é humano e mortal, sabendo que ao seu serviço não haverá recompensa, apenas honra?
Para os Caçadores das Sombras, um juramento era uma questão de vida ou morte. Se ele fizesse essa promessa, não havia como voltar atrás para a vida que ele tinha antes, como Simon Lewis, um nerd mundano aspirante a astro do rock. Não havia mais opções a considerar. Havia apenas o seu juramento, e o esforço de toda uma vida para cumpri-la.
Simon sabia que se olhasse para cima, poderia encontrar os olhos de Isabelle, ou de Clary, e tirar força delas. Ele podia perguntar silenciosamente para elas se este era o caminho certo, e elas o tranquilizariam.
Mas esta escolha não poderia ser delas. Tinha que ser dele, e só dele.
Ele fechou os olhos.
— Eu juro — sua voz não tremeu.
— Você será um escudo para os fracos, uma luz na escuridão, uma verdade entre falsidades, uma fortaleza na inundação, um olho para enxergar quando todos os outros estiverem cegos?
Simon imaginou toda a história por trás dessas palavras, todos os cônsules antes de Jia Penhallow que estiveram lá ao longo de décadas e séculos, erguendo este mesmo cálice diante de um mundano após o outro, assim fazendo muitos mortais se voluntariarem para se juntar à luta. Eles sempre pareceram tão corajosos para Simon, arriscando suas vidas – sacrificando seu futuro para uma causa maior – não porque nasceram em uma grande batalha entre o bem e o mal, mas porque tinham escolhido não viver apenas pelo superficial, permitindo que outros lutassem por eles.
Ocorreu-lhe que se eles tiveram a coragem para fazer a escolha, talvez ele pudesse ter também. Mas ele não se sentiu tão corajoso, não agora. Ele simplesmente sentiu que tinha que dar o próximo passo. Simples assim, era inevitável.
- Eu posso! - Respondeu Simon.
- E quando você morrer, seu corpo será dado para Nephilim para ser queimado, e suas cinzas serão usadas para construir a cidade dos Ossos ?
Mesmo que pensar sobre isso o assustava, parecia, que de repente, seria uma honra que seu corpo teria uma utilidade após a morte, que a partir deste momento em diante, o mundo dos Caçadores das Sombras teria uma reivindicação sobre ele, para a eternidade.
— Eu serei — respondeu Simon.
— Então beba.
Simon tomou o Cálice em suas mãos. Era ainda mais pesado do que parecia e curiosamente quente. O que quer que estivesse lá dentro, não se parecia muito com sangue, felizmente, mas não parecia com qualquer outra coisa que ele reconhecesse também. Se ele não soubesse melhor, Simon teria dito que o cálice estava cheio de luz. Quando olhou para baixo, para o cálice, o líquido estranho quase parecia pulsar com um brilho suave, como se dissesse, Vá em frente, beba-me.
Ele não conseguia se lembrar da primeira vez que tinha visto o Cálice Mortal, era uma das memórias que ele havia perdido, mas sabia o papel que tinha em sua vida, sabia que se não fosse pelo cálice, ele e Clary nunca teriam descoberto a existência dos Caçadores de Sombras em primeiro lugar. Tudo começou com o Cálice Mortal; parecia apropriado que tudo terminasse aqui também.
Não terminar, Simon pensou rapidamente, Espero que não seja o término.
Dizia-se que quanto mais jovem você fosse, mais provável era que não morreria quando bebesse do cálice. Simon tinha dezenove anos, mas aprendera recentemente que pelas regras dos Caçadores de Sombras, ele só tinha dezoito. Os meses que ele passou como um vampiro aparentemente não contavam. Ele só podia esperar que o cálice entendesse isso.
— Beba — a Consulesa repetiu em voz baixa, uma nota da humanidade rastejando em sua voz.
Simon ergueu o cálice até sua boca. E então bebeu.

* * *

Ele estava envolvido nos braços de Isabelle, acariciava o cabelo de Isabelle, tocava o corpo de Isabelle, ele estava apaixonado por Isabelle, pelo seu cheiro, pelo seu sabor e pela sua pele macia. Estava no palco, as batidas da música, o chão tremendo, o público aplaudindo, seu coração batendo, batendo, batendo no tempo com a batida.
Ele estava rindo com Clary, dançando com Clary, comendo com Clary, correndo pelas ruas de Brooklyn com Clary, eles eram um só, estavam de mãos dadas, apertando para que nunca se soltassem.
Ele estava frio, duro, a vida estava se esvaindo dele, ele estava caído, no escuro, a luz arranhava, se ouviam unhas arranhando a terra e essa terra enchia na boca dele e seus olhos estavam se enchendo de terra também, ele estava se arrastando, se esforçando para chegar ao céu, e quando chegou, ele abriu a boca e não conseguia respirar, porque não precisa mais respirar, apenas se alimentar, mesmo sem estar com fome.
Ele estava afundando os dentes no pescoço do filho de um anjo, estava bebendo a luz. Estava com uma marca, uma marca que queimava. Ele tentou levantar o rosto para olhar para um anjo, estava desolado pela fúria do Anjo de Fogo, e ainda assim, imprudente e sem derramar nenhum sangue, ele acabou vivo. Ele estava em uma gaiola. Ele estava no inferno.
Ele estava dobrado sobre o corpo quebrado de uma menina bonita, orava para qualquer deus esperando que o ouvisse, “Por favor, deixe-a viver, faço qualquer coisa para ela viver”. Ele estava dando o que era mais precioso para ele, e fazia isso de boa vontade, de modo que seus amigos pudessem sobreviver.
Ele estava, novamente, com Isabelle, sempre com Isabelle, a chama sagrada do seu amor envolvia os dois, e não havia dor, não havia alegria mentirosa, e suas veias queimavam como o fogo de um anjo, e ele era o Simon que ele foi um dia, e então era o Simon que deveria se tornar, ele resistiu e depois renasceu, ele era de carne e osso e em seguida uma centelha divina. Ele era um Nephilim.

* * *

Simon não viu o flash de luz que esperava – só viu a enxurrada de lembranças, uma onda gigante que ameaçava afogá-lo no passado. Não era simplesmente uma vida que passou diante de seus olhos; era uma eternidade, todas as versões de si mesmo que jamais poderia ter sido, que nunca seria. E então tudo estava acabado. Sua mente se acalmou. Sua alma acalmou. E suas memórias se acalmaram – as partes de si mesmo que ele temia estarem perdidas para sempre – e ele tinha voltado para casa.
Ele passou dois anos tentando se convencer que estava tudo bem ele nunca se lembrar, que ele poderia viver com os fragmentos de seu passado contados pelos outros. Mas nunca fazia sentido. O buraco vazio em sua memória era como falta de um membro do seu corpo; ele aprendera a parar de se preocupar com isso, mas a falta dessas memórias doía.
E agora, finalmente, estava inteiro novamente. Ele estava mais do que completo, e ouviu enquanto a Consulesa dizia com orgulho:
— Você é um Nephilim agora. Eu nomeio você, Simon Caçador de Sombras, do sangue de Jonathan Caçador de Sombras, filhos dos Nephilim.
Era um nome temporário até que ele escolhesse um novo para si mesmo. Momentos antes, parecia impensável, mas agora ele simplesmente sentia ser verdadeiro. Ele era a mesma pessoa que sempre tinha sido... ainda era a mesma pessoa. Ele não era mais Simon Lewis. Era alguém novo.
— Levante-se!
Ele se sentiu... ele não sabia como se sentia, apenas que estava atordoado. Cheio de alegria, confusão e do que parecia uma luz trêmula, mais brilhante a cada segundo. Ele se sentia forte. Ele se sentia pronto.
Sentiu como se seu abdômen estivesse definido, e supôs que o cálice poderia ter feito isso nele. A Consulesa engoliu em seco e disse novamente:
— Levante-se!
E em seguida, ela baixou a voz para apenas um sussurro.
— Isso significa que você tem que se levantar e dar a vez para o próximo.
Simon ainda tentava sacudir seu torpor alegre pelo caminho de volta aos outros. George era o próximo, e quando eles se cruzaram no caminho, levantaram as mãos e fizeram seu toque.
Simon se perguntou o que George veria no interior da luz, se ela seria tão maravilhosa. Ele se perguntou se, eles comparariam suas visões depois – ou se esse era o tipo de coisa que deviam guardar apenas para si mesmos. Supôs que provavelmente havia algum tipo de protocolo dos Caçadores de Sombras a seguir – os Caçadores de Sombras tinham um protocolo para tudo.
Nós, ele se corrigiu ironicamente. Nós temos um protocolo para tudo. Deveria demorar algum tempo para ele se acostumar. George estava de joelhos dentro dos círculos, o Cálice Mortal em suas mãos. Era estranho ser um Caçador de Sombras enquanto George ainda era mundano, como se houvesse agora uma divisão invisível entre eles. Este é o mais distante que estariam, Simon pensou, e pediu silenciosamente que seu companheiro de quarto se apressasse a beber.
A Consulesa disse as palavras tradicionais. George fez seu juramento de lealdade pelos Caçadores de Sombras sem hesitação, respirou fundo e ergueu alegremente o Cálice Mortal como se estivesse fazendo um brinde.
Slàinte! — ele gritou, e depois que seus amigos caíram na gargalhada, ele tomou um gole.
Simon ainda estava rindo quando a gritaria começou. A sala ficou em um silêncio mórbido, mas dentro de Simon, houve um berro de dor. Um grito sobrenatural.
O grito de George.
Sobre o estrado, George e a Consulesa estavam envoltos em uma luz que cegava a escuridão. Quando ela desapareceu, a Consulesa estava de pé, os Irmãos do Silêncio ao seu lado, todos olhando para baixo, para algo que parecia horrível, algo com a forma de uma pessoa, mas sem o seu rosto e a pele. Algo com veias pretas salientes e rachaduras através da carne, algo com o Cálice Mortal ainda apertado em seu punho rígido, algo murchando e se contorcendo, desintegrando, a criatura com o cabelo do George e tênis do George, mas no lugar do sorriso de George, uma expressão de tortura, escorrendo algo preto demais para ser sangue.
George não!, Simon pensou furiosamente e então a coisa parou de se contrair e tremer e então caiu. E de alguma forma, na cabeça de Simon, George parecia estar gritando.
A câmara estava como uma tempestade de movimentos – adultos responsáveis apressando os alunos a saírem da sala, suspiros, gritos e mais gritos – mas Simon mal conseguia ver isso acontecer ao seu redor. Ele caminhava para frente, em direção à coisa que não poderia ser George, sendo pressionado a sair, empurrando os outros Caçadores de Sombras da sua frente com força. Simon ia salvar seu companheiro de quarto, porque ele era um Caçador das Sombras agora, e isso era o que Caçadores das Sombras faziam. Ele não notou que Catarina Loss vinha atrás dele, não até que ela segurou seus ombros. Ele deveria ser capaz de se libertar, mas não conseguiu se mexer.
— Me solta! — Simon se enfureceu.
Os Irmãos do Silêncio estavam ajoelhados junto à forma agora, o corpo, mas não faziam nada. Eles não estavam ajudando. Estavam apenas olhando fixamente para a teia de veias escuras que se espalhavam na pele de George.
— Eu tenho que ajudá-lo!
— Não! — Catariana colocou a mão em sua testa e os gritos em sua mente se silenciaram. Ela ainda segurava seu ombro e ele ainda não podia se mover. Ele era um Caçador de Sombras, mas ela era uma feiticeira. Ele estava indefeso. — Já é tarde demais.
Simon não conseguia ficar assistindo aquelas veias negras comendo o rosto dele e os olhos vazios derretendo em seu crânio. Ele se concentrou nos tênis. Nos tênis de George. Um deles estava desamarrado, como sempre. Naquela manhã George tropeçara nos cadarços, e Simon o ajudou a não cair.
— A última vez que você vai me salvar — George dissera com outro de seus suspiros saudosos e Simon respondeu:
— Não acho isso provável.
As veias estavam surgindo, com cereal no leite. O corpo começava a derreter. Agora Simon estava segurando Catarina também. Ele a segurou firme.
— Qual é o sentido? — ele perguntou em desespero, porque o seu amigo estava a ponto de morrer e não era no campo de batalha, não era por uma boa causa, não para salvar um guerreiro ou um companheiro ou o mundo, mas por nada? E qual era o sentido de viver como um Caçador de Sombras, para que ter habilidade, bravura e poderes sobre-humanos, quando não se podia fazer nada, apenas ficar olhando?
— Às vezes, não existe sentido — Catarina falou suavemente. — Apenas é do jeito que é.
Do jeito que é, pensou Simon, e a onda de raiva, frustração e horror quase o consumiu. Ele não se deixaria ser consumido; não perderia este momento, se era tudo o que tinha. Ele passou dois anos tentando ser forte, e ele seria forte por George, agora, a única coisa que lhe restava. Ele testemunharia.
Simon pensou em qual seria a vontade dele. Do jeito que é. Ele forçou-se a não desviar o olhar. Do jeito que é: George. Corajoso, gentil e bom. George estava morto. George se foi. E embora ele não soubesse o que a Lei dizia sobre morrer pelo Cálice Mortal, se a Clave considerasse George um deles e lhe desse o direito de ser enterrado como um Caçador de Sombras, na verdade ele não se importava. Ele sabia o que George era, o que era para ser, e o que ele merecia.
Ave atque vale, George Lovelace, filho de Nephilim — ele sussurrou. — Para agora e sempre, meu irmão, eu o saúdo e me despeço.

* * *

Simon passou um dedo sobre a pequena placa de pedra, traçando as letras gravadas: GEORGE LOVELACE.
— É bonito, não? — comentou Isabelle atrás dele.
— E simples — Clary acrescentou. — Ele teria gostado disso, você não acha?
Simon pensou que George teria preferido ser enterrado na Cidade dos Ossos, como um Caçador de Sombras que ele era (mas na verdade ele preferiria não ter morrido, acima de tudo). A Clave se recusou. Ele morreu no ato da Ascensão, o que a seus olhos o tornava indigno. Simon tentava muito não ficar com raiva por causa disso. Ele passou muito tempo tentando não ficar com raiva.
— Foi legal o Instituto de Londres ter um lugar para ele, não acha? — perguntou Isabelle.
Simon podia ouvir em sua voz o quanto ela estava tentando ajudá-lo, pois estava preocupada com ele. Me disseram que um Lovelace sempre será bem-vindo no Instituto de Londres, George lhe falara uma vez, e após a sua morte, isso realmente fazia sentido.
Houve um funeral, o que fez Simon sofrer muito. Houvera uma variedade de reuniões, grandes e pequenas, com seus amigos da Academia, onde Simon e os outros contavam histórias e memórias, e tentavam não pensar no funeral desse último dia, mas Jon quase sempre chorava.
Em seguida, houve um pouco de tudo: a vida como um Caçador de Sombras, felizmente ocupando-o com o treinamento e a experimentação do seu físico e energia recém-descobertos, juntamente com a luta contra um demônio ocasional ou vampiro quebrador de leis. Houve longos dias com Clary deleitando-se com o fato de que ele agora podia se lembrar de cada segundo de sua amizade, preparando-se para sua cerimônia de parabatai, que seria em apenas alguns dias. Houve numerosas sessões de treinamento com Jace, geralmente terminando com Simon deitado de costas enquanto Jace estava sobre ele, exultante sobre sua habilidade superior, porque essa era a maneira de Jace demonstrar afeição. Houve noites de ser babá do filho de Magnus e Alec, aconchegando o menino azul em seu peito e cantando para ele dormir, e nesses momentos ele sentia algo precioso, quase uma paz.
Teve também Isabelle, que o amava, e fazia com que o dia dele brilhasse. Houve tantas coisas que o fez pensar que valia a pena viver, e assim Simon vivia, e passava seu tempo – e George ainda estava morto.
Ele pedira a Clary para abrir um Portal até Londres para ele, por razões que ele não entendeu muito bem. Ele dissera adeus a George tantas vezes, mas de alguma forma nada disso o fazia sentir que George tinha realmente ido – ele não se sentia bem.
— Eu farei um para você — Clary respondera. — Mas vou com você.
Isabelle tinha insistido também, e Simon estava contente com isso. Uma brisa suave soprava no jardim do Instituto, a brisa e os sons das folhas carregavam o cheiro fraco das orquídeas. Simon pensou que George ficaria feliz – pelo menos, passaria a eternidade em um lugar onde não havia nenhuma ameaça de ovelhas.
Simon se pôs de pé, com Clary e Isabelle ao seu lado. Cada uma delas segurou uma mão dele e permaneceram em silêncio. Agora que Simon recuperara seu passado, ele conseguia se lembrar de todas as vezes que ele quase perdeu uma delas – como conseguia se lembrar agora, vividamente, todas as pessoas que tinha perdido. Para a batalha, para o assassinato, para a doença. Sendo um Caçador das Sombras, ele sabia o que significava estar numa posição de intimidade com a morte. Mas então, assim era ser humano.
Algum dia ele perderia Clary e Isabelle, ou elas o perderiam. Nada poderia impedir isso. Então qual é o sentido?, ele perguntara a Catarina, mas ele sabia melhor do que isso. A questão não era você tentar viver para sempre; o ponto era o que você vivia, e fazia tudo o que podia para viver bem. A questão era as opções feitas e as pessoas que você amava. Simon engasgou.
— Simon? — Clary perguntou, assustada. — O que foi?
Mas Simon não conseguia falar, ele apenas encarava a lápide, onde o ar estava cintilante, a luz translúcida que foi se moldando em duas figuras. Uma delas era uma menina que parecia ter a sua idade, tinha longos cabelos loiros, olhos azuis e as velhas anáguas de uma duquesa de época. O outro era George, e ele sorria para Simon. A mão da menina estava em seu ombro, e havia algo sobre aquele gesto, algo quente e familiar.
— George — Simon sussurrou. Em seguida, ele piscou, e as figuras desapareceram.
— Simon, o que você está vendo? — perguntou Isabelle num tom apertado, ela parecia irritada, um tom que só usava quando tentava não ter medo.
— Nada.
O que ele deveria dizer? Que ele tinha visto o fantasma de George através da névoa? Que vira não apenas George, o que talvez fizesse algum sentido, mas também uma bela moça da moda antiga? Ele sabia que Caçadores de Sombras podiam ver fantasmas quando esses fantasmas queriam ser vistos, mas também sabia que muitas vezes o luto fazia as pessoas verem o que queriam ver.
Simon não sabia o que pensar. Mas ele sabia o que queria pensar. Ele queria pensar naquela bela moça como um espírito das sombras do passado, talvez até mesmo uma Lovelace morta há muito tempo, e pensou em George se afastando com ela, para onde quer que os espíritos fossem. Ele queria acreditar que George tinha sido recebido bem nos braços de seus ancestrais, onde uma parte dele ainda estaria vivo.
Pouco provável, Simon lembrou a si mesmo. George foi adotado, portanto não era um Lovelace de sangue. E para os Caçadores de Sombras – presumivelmente mesmo os mortos que assombravam os jardins britânicos – tudo se resumia ao sangue.
— Simon... — Isabelle apertou seus lábios contra a bochecha dele. — Sei o quanto você... sei que ele era como um irmão. Eu gostaria de tê-lo conhecido melhor.
Clary apertou a mão dele e disse:
— Eu também.
Ambas, Simon se lembrou, também tinham perdido um irmão.
E ambas se preocupavam mais com apenas linhagens, ambas entendiam que a família poderia ser uma questão de escolha – uma questão de amor.
Assim como fizeram Alec e Magnus, que adotaram um filho de coração. Assim fizeram os Lightwood, que adotaram Jace quando ele não tinha mais ninguém.
E assim fez Simon, já que agora ele próprio era um Caçador de Sombras. Que poderia mudar o que significava ser um Caçador de Sombras apenas fazendo novas escolhas. Escolhas melhores.
Ele entendeu agora por que sentia essa necessidade de vir aqui, quase como se tivesse sido convocado. Não era para dizer adeus a George, mas para encontrar uma maneira de ter um pedaço dele.
— Acho que sei que nome de Caçador de Sombras quero ter.
— Simon Lovelace — Clary falou, como sempre, sabendo o que se passava por sua mente, assim como ele sempre fazia. — Precisamos de um certo anel para isso.
Os lábios de Isabelle se curvaram.
— Um anel sexy.
Simon riu, e quando piscou, uma lágrima caiu. Por um momento seus olhos se escureceram e ele pensou ter visto George sorrindo através da névoa de novamente, e então ele se foi. George Lovelace se fora.
Mas Simon Lovelace ainda estava aqui, e era hora de fazer isso valer.
— Eu estou pronto — ele falou para Clary e Isabelle, as duas maravilhas que mudaram sua vida, as duas guerreiras que arriscavam tudo e qualquer coisa por aqueles que amavam, as duas garotas que vieram a ser suas heroínas e sua família. — Vamos para casa.

104 comentários:

  1. George (。•́︿•̀。) (っ╥╯﹏╰╥c)

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    1. Vc eh a melhor karina

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    2. Vc sabe se a hitória de Simon e Izzy vai continuar ou aparecer em outro livro

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    3. Muito triste pelo George não e justo a autoria não devia ter feito isso com ele primeiro Jordan depois george

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    4. CASSANDRA MALVADA

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    5. kkkkkk obrigada :)
      Acredito que eles devam aparecer sim... assim como Malec, Jessa e Clace

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  2. Simon Lovelace <3

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  3. Jessamine não tem olhos castanhos???

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    1. Pior! Ela tem mesmo olhos castanhos

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    2. Aí diz que ela tem olhos azuis!!

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    3. É! Ela tem olhos castanhos! Mas aí tá dizendo azuis!

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  4. Cassandra, mais malvada que Gaia! T-T

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    1. Néee tanta gente pra morrer e ela mata o George?? :o

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    2. Você tem "Dama da Meia Noite" para postar ou em PDF para me mandar? Geralmente eu leio em PDF até comprar o livro ou até ele chegar. Tenho todos os livros dela e adoro as histórias.

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  5. Oh Meu Deus.
    Não Acredito Que Ele Morreu.
    Cassandra Clare numca dá um The End totalmente Happy.

    ♡♡♡

    :'(

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  6. to me cortando...
    OMG...
    George morreu...
    T.T

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  7. gente nunca senti tanto medo de ler um conto na minha vida fiquei o tempo todo com medo do Simon desistir de pois fiquei com medo dele morrer e quando eu percebi que todos estavam bem e que o george era o próximo travei enchi o olho de lágrimas e ja não queria ler mais nada LUTO :´(

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  8. Acho que bunca fiquei tão perto de lágrimas igual agora

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  9. Ohhh pelo anjo Geoge nao ...
    Simplismente amei .

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  10. Oh my god! Morri!!! T___T George encontrou a Jessie!!! Simon é um Amor! Izzy e Clary sabem msm cuidar dele!Deprê, quero mais :{

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  11. George 0: porqueeeeeeeee?
    Simon lovelace
    Final foi triste:,/

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  12. Fofo a jessamine e o George terem visto o Simon uma ultima vez.

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  13. Meu Deus. Por que Cassandra, por que vc tevi que matar o pobre George ?. Eu tou chorando aqui, uns dos melhores personagens desse livro. Nao aguento. Que mundo cruel. .

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  14. Ah não George, porque tinha que ser o George, eu sabia que a Cassie ia matar alguém, mas logo o George, que maldade droga. Mas amei o que Simon fez escolhendo Lovelace como nome. E George e Jess juntos, perfeito

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    1. Pois é.... o George não!
      Mas quando isso aconteceu, eu soube que Simon ia pegar o nome dele haha

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  15. Primeira a comentar hehe. Valeu Karina, não saberia o que eu faria sem vc <3

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  16. Alessandra Ferreira8 de janeiro de 2016 20:57

    Cassandra Clare vc me ataca me esfaqueia me atropela me espanca e me deixa em pedaços com seus finais vc deixa meu coração ao mesmo tempo feliz e triste. Seus finais são perfeitos... mesmo vc sempre matando alguém que eu gosto.Ñ imaginei que seria possivel amar mais ainda esses personagens mais acabei de descobrir que sim. Karina obrigado por nos oferecer essa experiência incrível que sem o se blog eu ñ teria. Agora vou ter que recompor todos os litros de água que perdi neste conto

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    1. De nada, Alessandra!
      E realmente, esse final foi de matar...

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  17. Eu não acredito que George morreu 😢
    E não sei se fico feliz por Simon estar com suas memórias de volta ou se choro por George

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  18. Cara nem da pra acreditar :,( love George
    Gabbe

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  19. Chorando muito com tudo, mas amei de coração o sobrenome do Simon... Lovelace. Tantas,mas tantas memórias com esse nome... Cassie acabou de me matar agora e a morte do George acabou comigo :( Obrigada por ter postado os contos!

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  20. Poxa! Que final triste!
    ass: Bina.

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  21. Aaaaaaiiii meu Raziel!!!! Chorei pra caramba!! Meu coraçauuummm!!!!!

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  22. Eu sou tão estranha, ou mais alguém também queria q cassandra escrevesse um livro sobre o sebastian/jonathan ? Tipo,a infância dele sabendo do jace ficava em uma outra casa perto e não sabia dele , como valentin castigava ele por quase tudo como ele foi crescendo, tipo tudo do ponto de vista dele, queria ter um livro assim...

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    1. Tambem queria um livro assim. Eu amo o Sabs e quando ele morreu eu chorei muito....

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  23. Já tinham me contado que o George iria morrer, mas isso não impediu que eu chorasse rios de lágrimas quando li o conto. Gostei muito da Jess ter ficado ao lado dele e ainda mais do Simon ter escolhido o nome Lovelace! Foi perfeito ....

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  24. Eu estou em prantos!
    Eu ñ acredito na morte de George, eu quase ñ consigo terminar de ler. Foi muito triste, pobre Simon.
    Eu amei e odiei esse capítulo!!!!
    Mais como sempre vlw Karina!
    Bjs linda!

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  25. Karina, parabéns pelo texto e estou impressionado pelo rico trabalho que você fazem em engajar seus fãs, parabéns!
    Eu estou passando por aqui para tentar sua ajuda para divulgar meu livro em folhetins, publicado através do site http://atoboga.com/ , que narra a história de uma garota que vai enlouquecendo no último ano de seu ensino médio. Seria muito legal, se você pudesse dar seu feedback! Abraços

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  26. No fundo, eu sabia que o George ia morrer ;( Foi legal ele ser enterrado no Instituto de Londres
    Simon Lovelace <3
    E ah, Karina, eu quase nunca comento aqui, mas queria te agradecer pelo blog, já li um monte de livros por aqui, se não fosse por vc eu não teria a oportunidade de ler nem metade deles. Obrigada, linda!

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  27. Karinaaaaaaa, esse livro é depois de qual???

    Aline

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    1. Esses extras são depois dos Instrumentos Mortais! Este é o décimo conto da Academia dos Caçadores de Sombras

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  28. Ela podia matar qualquer um mas nãooo tinha q ser o George né. E claro q eu não estava sofrendo com o fato de "linhas pretas" estarem consumindo o George ele tinha q ser enterrado lá Instituto de Londres e tinha q encontrar a Jessie.
    A Cassandra só pode estar querendo me matar, ainda to chorando aqui

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  29. O Simon não tem sorte com companheiros de quarto :'(
    Eu sinceramente acho que ele deveria se tornar Cônsul, ele seria ótimo nesse trabalho.
    Bem que podia ter um epílogo pra esses contos, tipo, como ele se saiu na primeira runa dele e o primeiro trabalho dele oficialmente como Caçador de Sombras.


    Ah, Karina, você vai postar The Last Hours e Os Artifícios das Trevas? E também o livro sobre Apolo que o tio Rick vai lançar... e pelamor, Magisterium, vai lançar o terceiro já, e sinceramente, desembolsar 50 pila todo outubro é foda! Principalmente agr que Magnus Chase e Magisterium basicamente têm lançamentos simultâneos :v kkkkk

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    1. Pretendo postar TLH e TDA quando lançarem sim, Mih! Assim como The Trials of Apollo ^^
      Magisterium está na enquete para os Projetos 2016, veremos se postarei ou não depois do resultado ^^

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    2. Valeu, só nisso economizei uns 100 reais

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  30. Serio isso nao pode ter acontecido:'(... fiquei apreensiva o livro todo pelo Si e a Classandra me mata George chorando horroresT-T
    Sem acreditar

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  31. Ah.. faltou a Cerimônia do Simon e da Clary...

    Ahhh.. George... o que será de nós sem você? :'(

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    1. Né... pensei que fosse mostrar a cerimônia deles. Mas é que como falou bastante da de Emma e Jules, pra não ficar repetitivo, ela pulou essa parte

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  32. Talvez, um dia, Cassie não faça um final que destrua meus sentimentos

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  33. Achei estranho o George ser o último, eles não estavam em ordem alfabética??? Muito triste, parece que a Cassandra não se cansa de partir os corações...

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    1. Ordem alfabética de sobrenome... Almodovar... Daltrey... Garza... Lewis... Lovelace

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  34. Eu estou pasma muita maldade da tia Cass fazer isso com a gente poxa véio logo o George!!Chorando rios!!

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  35. Pelo titulo espetava q alguém morre-se mas o George poxa chorei muito,Karina qual será o próximo q vc vai postar da Cassandra tem outros livros sem ser dos cacadores de sombra bjus vc eh demais

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  36. George... 😢😢
    Meu Deus...chorei muito!!!

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  37. Karina vai ter mais contos da Academia???

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  38. Cassandra o que foi isso? LUTO ;(

    Simon <3

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  39. Karina, é verdade que depois de Os Artifícios da Trevas ainda vai ter Os Poderes Perversos?

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    1. Na verdade depois dos Artifícios das Trevas ela vai lançar As Últimas Horas, mas sim, Os Poderes Perversos também será escrito :D

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  40. <3 choremos por George <3 <3 <3

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  41. MDS pq matar George ??? '-' ele não merecia já não bastava o Jordan 😞😢😢😢

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  42. Uma pergunta... George não ascendeu pq não era merecedor? Pq não foi por falta de treinamento

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    1. Então, não sei como isso acontece.. como é essa seleção. Parece que é por sorte, pq realmente George merecia :(

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    2. Na verdade, a propria autora disse que 'matou' George porque ele era muito puro para uma vida de Nephilim (?). Tem quem diz que era para fazer Simon ficar bravo com a Clave... Enfim, a resposta da autora nao me convenceu.

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    3. Talvez os dois estejam certos, num ponto de vista dentro da história do livro, ele realmente é meio "puro" para uma vida de Caçador de Sombras, mas num ponto de vista do autor, serviria também para relembrar o Simon que nem tudo é justo, que as leis são falhas e é um incentivo para ele se empenhar e realmente ser o mais justo possível.
      Mas eu fico pensando se não foi o próprio George que estava inseguro sobre isso e consequentemente o cálice ou quem quer que seja o julgou "indigno", por exemplo, a maneira que ele falava "esta é a última vez que a gente faz tal coisa" me fez pensar se isso apenas não escondia uma insegurança gigantesca dentro dele, mas ele não desistiu por vergonha de ser tachado de covarde, de ter que se afastar do Simon e conviver com o que ele falara no princípio que "Lovelaces são desistentes" acho que ele queria provar que não seria assim, mas acabou falhando, infelizmente.

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    4. Nossa, Mih, oq vc falou faz muito sentido!

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  43. Certo, desde os primeiros contos estava claro que algo assim aconteceria, que foi com o pobre George, isso foi muito triste. Mas eu entendo porque teve que ser o George. Ele era amigo de Simon, e virou uma espécie de irmão, mas como ele morreu durante a ascensão não era um Caçador de Sombras, não teve as honras de um Caçador de Sombras e ir para a cidade dos ossos. Isto, mais as memórias do Simon de volta é um lembrete de que as leis são falhas. George morreu sendo visto, mas não assistido por conta de alguma lei da Clave. E isto é uma marca, tanto para Simon quanto para os outros de sua classe, alguém que que treinou com eles, brincou com eles, de certa forma os amou morreu, mas os que seriam seus o viraram as costas no momento de sua morte.
    Acho que é isso que queriam mostrar, esse outro lado das leis dos Caçadores de Sombras, o quanto os aprisionam e o quanto são falhas.

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  44. Não chorei quando Max, ou Hodge se foram. Nem pisquei quando achei que Jace era o próximo. Senti um aperto enorme no coração quando achei que era a vez da Izzy. E meus olhos brilharam quando pude conhecer por instantes o verdadeiro Jonathan Christopher Morgenstern. Mas, lágrimas rolaram seriamente quando as luzes se apagaram para George Lovelace. T.T

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    1. Q dramatico, vc poderia fazer teatro hein...

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  45. meus sentimentos estão: NJSVOHAIENCAIODHEIVNQHEUCUHNSJCPQJVNIQIJDINICQUIJINVIRWIHNVISRINVFJ

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  46. Não consigo descrever e palavras a dor que senti quando George se foi, é tao terrível e cruel. foi lindo Simon adotar o sobrenome dele. quando estava lendo esse ultimo capitulo eu senti que alguém iria morrer, pensei que poderia ser Marisol, mas nunca pensei que fosse o precioso George. nunca em mil anos eu pensei que ele morreria. Cassandra sempre arranja um novo jeito de quebrar nossos corações. obrigada por postar Karina, você é maravilhosa e agora vou ficar de luto por George.

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  47. Pelo Anjo, que coisa desnecessária. George...mais um na minha lista. Ainda bem que não leio em público, não ia conseguir explicar o motivo de tantas lágrimas. Simon Lovelace, mas isso não compensa!! Pode parecer idiota, mas parece que perco um amigo real, sempre que um personagem morre.

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  48. Eu tinha visto aqui um conto q falava da cerimônia de Parabatai de Emma e Jules , mas agora não to achando mais. Tem ainda ???

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    1. Tem sim! É na Prova de Fogo: http://www.bloglivroson-line.com/2015/12/a-prova-de-fogo.html

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  49. Chorei tô chorando e vou continuar chorando meu deus George :( luto vc ta com a jessamine pelo menos na hora que o george gritou ja chorei pq ficou um apertk no coração vem memórias dele na minha cabeça.vai em paz "ave atque vale"

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  50. Nossa, pra que matar o George? Tô bem puta ;_; (e chorando muito também).

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  51. A fala serio tanta gente pra morrer,e ela vai matar logo um dos personagens mais carismaticos e fofos,não chorei muito,logo Geoger,porque? Nam
    Ela sempre mata um personagem que a gente se apaixona, will,sebastian(porque ele era mal,mais era o melhor dos vilões), e agora o Geoger aveh
    To chorando,mais pelo menos ele tem a companhia da Jessie
    E eu gostei do jeito que ela arrumou pra fazer com que o nome Lovelace continuar na liagem dos cacadores de sombras no final todos os sobre nomes das Peças Infernais continuaram

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  52. Sem palavras...
    Meus personagens favoritos sempre morrem ou não ficam com quem tem de ficar no fim.
    Ainda não tinha nem superado a morte do Jordan, cara.
    Isso foi cruel.
    George Lovelace + Luto

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  53. Chorando por uma morte desnecessária e esperando que ela não estinhase nossos corações na proxima série :(

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  54. Sério tinha quer ser George
    Cassadra sempre destrói meu coração :'(

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  55. Cassandra insiste em destruir meu coração. É possível amar e odiar tanto quanto eu a amo/odeio?

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  56. Que contos incríveis, todos os personagens do presente, passado e futuro sendo relacionados, ela não deixou praticamente pontas soltas, perfeito, para os fãs de instrumentos mortais, esse foi nosso epílogo de 10 capítulos,kkk e com certeza ela estava nos preparando para o futuro dos caçadores, como vai ser interessante Magnus e Alec sendo conselheiros de Lilly e Maia, muito bem bolado, o bebê azul, acredito que ele vai ser um dia um dos principais personagens de algum livro da Cassandra, tudo muito bem relacionado, Simon é um dos meus personagens favoritos junto com Izzy, eles formam o casal perfeito, e tiveram nesses contos toda a atenção merecida,Simon com certeza terá um espaço considerável nas próximas histórias da escritora, ele é diferenciado, vai mudar a forma de agir dos caçadores, com certeza e ainda tem o amor da deusa guerreira. Magnus falando para Simon se preparar para futuros eventos de guerra contra o povo fada, crise que se aproxima, excelente leitura. A ligação dele com Clary foi lindo, tudo muito bem encaixado, só tenho uma crítica, Simon nunca tem um final 100% feliz, é foda, kkk, já perceberam isso? Sempre acontece algo. Bj pra vc Karina e obrigado por postar esses contos.

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    1. Realmente, é muito um epílogo de TMI. Um que estou adorando <3
      Achei muito legal Magnus, Alec, Maia e Lily trabalhando em conjunto, eles com certeza serão muito importantes para a Clave e os Seres do Submundo, funcionando como uma ligação entre eles. E Simon também...
      Verdade, coitado do Simon eaheuaheuaheu

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  57. Foi horrível a forma como George morreu :(((((
    Logo ele,o precioso, gentil, amoroso e bondoso George. Ele não merecia, cara. Não me conformo, e nunca vou perdoar você dona Cassie.

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  58. Tia Cassie quebrando os nossos corações como de costume. Nossa!!! Ela me matou nesse conto, enfiou uma estaca no meu coração. Mas não posso negar que apesar de tudo amei, amei, amei, amei, amei, amei, amei ♥♥♥♥.
    PS: Vou começar Dama da meia noite imediatamente. Temho certeza que ela vai destruir meu coração.

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  59. EU NÃO ACREDITOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!! GEORGE NÃO PODE? COMO ASSIM?
    ME RECUSO A ACREDITAR!!!!!!
    SIMON LOVELACE FUTURO CÔNSUL

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  60. posso dizer uma coisa? se ñ puder vou dizer assim mesmo PIOR final de todos os tempos odiei. tudo o tempo eu sabia que alguem iria morre pq ela nunca deixa de matar alguem mais poxa poderia ter matado ele assim tive pesadelo de noite é como se ele não fosse digno de se tornar umm caçador de sombras? pelo que eu li ele era mais que merecedor então pra mim foi frustrante decepcionante triste e acabou comigo. :(

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  61. AMOOOOOOOOOOOOOOO O GEORGE!!!!! ESPERO QUE ELE APAREÇA NOS PRÓXIMOS LIVROS <3
    "— Bem, estou totalmente preparado para reivindicar o meu direito de nascença — ele disse, contente. — Vocês acham que vou me tornar insurportavelmente arrogante no primeiro gole, ou precisarei de algum tempo para acompanhar Jon?"

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  62. CARAMBAAAAAAAAAAAAA EU GOSTO TANTO DO GEORGE QUE FIZ ESSE COMENTÁRIO ASSIM QUE COMECEI A LER O CONTO... NUNCA IMAGINEI ESSE FINAL... ESTOU DE CORAÇÃO PARTIDO E DE BOCA ABERTA, CASSANDRA CLARE EU AMO SEUS LIVROS, MAS NESSA VC PISOU FORA... AINDA NÃO ACREDITEI.==================================================
    AMOOOOOOOOOOOOOOO O GEORGE!!!!! ESPERO QUE ELE APAREÇA NOS PRÓXIMOS LIVROS <3
    "— Bem, estou totalmente preparado para reivindicar o meu direito de nascença — ele disse, contente. — Vocês acham que vou me tornar insurportavelmente arrogante no primeiro gole, ou precisarei de algum tempo para acompanhar Jon?"

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  63. Eu amei os contos!!! George não precisava morrer!!!! Só senti falta da cerimônia parabatai da Clary e do Simon!!!

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  64. Simplesmente desnecessário matar o George né Cassandra Clare??!
    Fiquei muito triste :(

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  65. Só eu sabia que a sádica que eu mais agradeço por escrever livros maravilhosos ia matar o George Lovegato

    Ass.:Guilherme

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  66. Chateada. ...contos perfeitos...mas manchado pela morte de George...pq ela não manteve o Sunil e o matou caramba....Q raiva...nada a ver...aff

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  67. Nossa, por quê a tia Cassie faz isso comigo?
    É o segundo Lovelace que eu gosto e ela mata!
    Esse final aparecendo a Jessie e o George ♥
    Sem palavras!
    Simon Lovelace ♥ Como não amar?

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  68. Estou chorando até agora, o George não podia morrer! T-T

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  69. Desnecessário matar o George :/ Nem esse final com a Jessie, que até mudou a cor dos olhos, amenizou isso.

    Mas ok né :/ Ela sempre escolhe algum personagem pra morrer ;-; To até com medo de quem ela vai matar em Os Artifícios Das Trevas T_T

    Muito obrigada por postar tudo Karina *-*

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  70. Pelo anjo :o o que....? Como...? George morreu??? Uma CRUELDADE imperdoável!!
    Mas.... eu amoei o Simon ter se tornado um Nephilim. Simplesmente PERFEITOOOOOOO

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