25 de dezembro de 2015

Reis e Príncipes Pálidos


Como um ex-vampiro, Simon sempre foi solidário com os seres do Submundo. A Clave, não. Mas depois que uma aula dá errada, ele tem um vislumbre do preconceito dos Caçadores de Sombras enquanto aprende sobre a origem da Helen e Mark Blackthorn, personagens principais nos Artifícios das Trevas.


O que eu fiz em minhas férias de verão
Por Simon Lewis

Passei este verão no Brooklyn. Todas as manhãs eu corri e treinei através do parque. Certo dia, encontrei uma nixie que vivia e, uma piscina para cães. Ela tinha cabelo...

Simon Lewis fez uma pausa para consultar o seu dicionário de Cthoniano/Inglês para a palavra “loiro”, mas não havia o termo. Aparentemente, palavras relativas à cor do cabelo não eram importantes para as criaturas das dimensões demoníacas. Assim como, ele descobrira, palavras relacionadas a família, amizade ou assistir TV. Ele mordeu a borracha, suspirou, então se inclinou sobre a folha novamente. Quinhentas palavras sobre como ele passou o verão foi o que seu professor de Cthoniano pediu pela manhã, e depois de uma hora trabalhando, ele tinha escrito aproximadamente... trinta.

Ela tinha cabelo. E...
uma enorme prateleira.

— Só estou tentando ajudar — disse George Lovelace, colega de quarto de Simon, passando por sobre o ombro de Simon para escrever um final para a frase.
— E falhando miseravelmente — Simon apontou, mas não pôde reprimir um sorriso.
Ele sentira falta de George neste verão, mais do que esperava. Sentiu falta de tudo mais do que esperava, e não apenas dos seus novos amigos, mas da Academia dos Caçadores de Sombras em si, os ritmos previsíveis do dia, todas as coisas de que ele passou meses reclamando. O lodo, a umidade, os exercícios matinais, o barulho das criaturas entre as paredes... sentiu falta até da sopa. Simon passou a maior parte de seu primeiro ano na Academia se preocupando que estava deslocado – que a qualquer momento, alguém importante perceberia que tinha cometido um erro terrível e o mandaria de volta para casa.
Não foi até que ele estava de volta no Brooklyn, tentando dormir sob lençóis do Batman com sua mãe roncando no quarto ao lado, que ele percebeu que a casa não era mais sua casa.
Casa, inesperadamente, era a Academia dos Caçadores de Sombras.
O Parque Slope não era exatamente o mesmo de que ele se lembrava, não com os filhotes de lobisomem brincando na pista de corrida para cães do Prospect Park, o feiticeiro vendendo queijo artesanal e poções de amor no mercado dos agricultores do Grand Army, com os vampiros relaxando nas margens do Gowanus, atirando bitucas de cigarro em passeios descolados. Simon tinha que continuar se lembrando que eles estiveram lá o tempo todo – o Parque Slope não havia mudado; Simon sim. Simon era quem tinha a Visão agora. Simon era o único que se encolhia ao menor movimento das sombras, e quando Eric teve a infelicidade de esgueirar-se por trás dele, instintivamente arrancou seu velho amigo dos pés e atirou-o ao chão com um golpe de judô sem esforço.
— Cara — Eric engasgou, arregalando os olhos para ele deitado na grama de agosto ressecada — descansar, soldado.
Eric, claro, pensava que ele tinha passado o ano na escola militar, como pensava o resto dos caras, tal qual a mãe e a irmã de Simon. Mentir a quase todos que amava: essa era outra coisa diferente sobre sua vida no Brooklyn agora, e talvez a única coisa que o deixava mais ansioso para escapar. Era uma coisa mentir sobre onde esteve o ano inteiro, enfeitar histórias meia-boca sobre deméritos e sargentos bravos, a maioria delas plagiada de filmes ruins dos anos oitenta. Outra coisa era mentir sobre quem ele era. Ele teve que fingir ser o cara de que eles lembravam, o Simon Lewis que pensava que demônios e feiticeiros estavam confinados às páginas dos quadrinhos, aquele cujo encontro mais próximo com a morte envolveu uma falta de ar por causa do chocolate coberto com amêndoas. Mas ele não era mais o mesmo Simon, nem mesmo passava perto. Talvez não fosse um Caçador de Sombras, ainda não, mas não era exatamente mais um mundano, e estava cansado de fingir ser.
A única pessoa com quem ele não tinha que fingir era com Clary, e com o passar das semanas, ele gastava mais e mais tempo com ela, explorando a cidade e ouvindo histórias do menino que ele costumava ser. Simon ainda não conseguia se lembrar do que eles foram um para o outro na outra vida, a que tinha sido encantado para esquecer, mas o passado parecia importar cada vez menos.
— Você sabe, eu não sou a pessoa que costumava ser, também — Clary lhe dissera um dia, enquanto eles esvaziavam o seu quarto copo de café no Java Jones.
Simon estava fazendo o seu melhor para transformar o seu sangue em cafeína, em preparação para setembro. A Academia era uma zona livre de café.
— Às vezes, aquela antiga Clary parece tão distante de mim como o velho Simon de você.
— Você sente falta dela? — Simon perguntou, mas ele queria dizer Você sente falta do velho Simon?
O outro Simon. O melhor, mais corajoso Simon, sobre quem ele sempre se preocupava em não tê-lo mais dentro de si.
Clary balançara a cabeça, os cachos vermelhos impetuosos saltando em seus ombros, os olhos verdes brilhando com certeza.
— E eu não sinto falta sua também, não mais — ela respondeu, com aquele estranho dom de saber o que estava acontecendo em sua cabeça. — Porque eu o tenho de volta. Finalmente, espero...
Ele apertou a mão dela. Era resposta suficiente para ambos.
— Falando do que você fez em suas férias de verão — falou George agora, caindo pesadamente de volta em seu colchão torto — você nunca vai me contar?
— Contar o quê? — Simon recostou-se na cadeira, em seguida, ao som sinistro de madeira quebrando, de repente se inclinou para frente novamente. Como segundanistas, ofereceram a Simon e George a oportunidade de reivindicar um quarto acima do solo, mas os dois decidiram ficar no calabouço. Simon tinha se ligado ao sombrio e úmido e descobrira que havia certas vantagens de ficar longe dos olhos curiosos do corpo docente.
Para não mencionar os olhares de julgamento do estudantes da corrente da elite. Enquanto as crianças Caçadoras de Sombras de sua turma, na sua maior parte, aceitaram a possibilidade de que seus colegas mundanos poderiam ter algo a oferecer, havia uma classe totalmente nova agora, e Simon não queria ensinando-lhes a lição mais uma vez. Ainda assim, enquanto sua cadeira decidia se queria ou não quebrar ao meio e algo peludo e cinza avançou por seus pés, ele se perguntou se era tarde demais para mudar de ideia.
— Simon. Companheiro. Atire-me um osso aqui. Você faz ideia de como eu passei minhas férias de verão?
— Tosquiando ovelhas?
George tinha-lhe enviado um punhado de cartões postais nos últimos dois meses. A frente de cada um deles tinha uma fotografia do interior idílico da Escócia. E na parte de trás, uma série de mensagens circundando um único tema:

Tédio.
Tão tedioso.
Mate-me agora.
Tarde demais, já estou morto.

— Tosquiando ovelhas — confirmou George. — Alimentando ovelhas. Pastoreando ovelhas. Limpando sujeira de ovelha. Enquanto você estava... fazendo-quem-sabe-o-quê com certa superguerreira de cabelos negros. Você não vai me deixar viver indiretamente?
Simon suspirou. George tinha se restringido por quatro dias e meio. Simon supôs que era mais do que ele poderia ter pedido.
— O que o faz pensar que eu estava fazendo algo com Isabelle Lightwood?
— Oh, eu não sei, talvez porque da última vez que o vi, você não parava de falar dela? — George imitou um péssimo sotaque americano. — O que devo fazer no meu encontro com Isabelle? O que devo dizer no meu encontro com Isabelle? O que devo vestir no meu encontro com Isabelle? Oh, George, querido deus escocês bronzeado, diga-me o que fazer com Isabelle.
— Não me lembro dessas palavras saírem da minha boca.
— Eu estava parafraseando a sua linguagem corporal — George devolveu. — Agora abra a boca.
Simon deu de ombros.
— Não deu certo.
— Não deu certo? — as sobrancelhas de George quase dispararam para fora de sua testa. — Não deu certo?
— Não deu certo — confirmou Simon.
— Você está me dizendo que a sua épica história de amor com a Caçadora de Sombras mais quente da sua geração, que se estendeu por várias dimensões e envolveu diversos incidentes para salvar o mundo acabou com um encolher de ombros e um — sua voz adquiriu novamente um sotaque americano monótono — “não deu certo”?
— Sim. Isto é o que eu estou dizendo.
Simon tentou parecer casual, mas deve ter falhado, porque George se levantou e delicadamente bateu no ombro de seu colega de quarto.
— Desculpe, companheiro — disse George calmamente.
Simon suspirou novamente.
— Sim.

O que eu fiz em minhas férias de verão
Por Simon Lewis

Eu estraguei todas as minhas chances com a menina mais incrível do mundo.
Não uma nem duas, mas três vezes.
Ela me levou em um encontro em sua boate favorita, onde fiquei andando como um bronco idiota a noite toda e uma vez literalmente tropecei em meus próprios pés.
Então a deixei no Instituto e apertei a mão dela desejando boa-noite.
Sim, você leu certo: apertei. A mão. Dela.
Então eu a levei no encontro número dois, na minha sala de cinema favorita, onde eu a fiz assistir Star Wars: A Guerra dos Clones e não notei quando ela adormeceu, então acidentalmente insultei seu gosto, porque como eu ia saber que ela uma vez teve um encontro com algum feiticeiro que tinha uma cauda que eu não esperava saber de qualquer maneira e, em seguida: ainda outro bom aperto de mão de despedida.
Encontro de número três, outra das minhas ideias geniais: encontro duplo com Clary e Jace. Que talvez teria sido bom, exceto que Clary e Jace são mais apaixonados do que qualquer um na história do amor, e eu tenho certeza de que eles estavam namorando debaixo da mesa, porque houve aquele momento em que Jace começou a esfregar o seu pé contra a minha perna por acidente. (Eu acho que por acidente)
(É melhor ter sido por acaso.)
E então nós fomos atacados por demônios, porque Clary e Jace são aparentemente algum tipo de ímã de demônio, e fui derrubado em cerca de trinta segundos e meio que fiquei caído lá no canto enquanto o resto deles salvava o dia e Isabelle fazia a sua coisa de deusa guerreira incrível. Porque ela é uma deusa guerreira incrível, e eu sou um bebezinho.
Depois todos saíram em alguma cruzada superincrível para perseguir os demônios que enviaram os outros demônios atrás de nós, e não me deixaram ir. (Veja acima novamente: porque sou um bebezinho) Então quando eles voltaram, Isabelle não me ligou, provavelmente porque que tipo de deusa guerreira quer namorar com um bebê que fica encolhido num canto? E eu não liguei para ela pela mesma razão... e também porque pensei que talvez ela devesse me ligar.
O que ela não fez.
Fim

Simon resolveu perguntar ao seu professor de Cthoniano se podia escrever uma continuação.

* * *

A grade do segundo ano, verificou-se, era a mesma que a do primeiro, com uma exceção.
Neste ano, os meses tinham uma contagem regressiva para o dia da Ascensão, os alunos da Academia dos Caçadores de Sombras deviam aprender os eventos atuais. Embora a julgar pelo o que eles aprenderam até agora, Simon pensou, os eventos da classe atual podiam facilmente ser intitulados “Por que as Fadas são más”.
Todos os dias Caçadores de Sombras e mundanos do segundo ano lotavam uma das salas de aula que estavam bloqueadas um ano antes (alguma coisa sobre uma infestação de besouros demoníacos). Cada combinação enferrujada de cadeira e mesa parecia planejada para estudantes com metade do tamanho deles, e eles ouviam enquanto o professor Freeman Mayhew explicava sobre a Paz Fria.
Freeman Mayhew era um homem magro e careca, com um bigode grisalho de Hitler, e embora ele começasse a maioria de suas frases com “Quando eu lutava com demônios...” era difícil imaginá-lo batalhando, tão frio quanto era. Mayhew acreditava que era responsabilidade sua para convencer seus alunos que fadas eram astutas, indignas de confiança, de coração frio e – não que os “políticos covardes” da Clave admitiriam isso tão cedo – dignas de extinção.
Os alunos rapidamente perceberam que qualquer discordância – ou até mesmo interrupções para fazer uma pergunta – aumentava a pressão sanguínea de Mayhew, uma mancha vermelha de raiva florescendo em seu crânio enquanto ele retrucava:
— Você estava lá? Eu acho que não!
Esta manhã Mayhew cedeu a sala de aula para uma menina um pouco mais velha do que Simon. Seu cabelo loiro-branco caía em cachos ao redor de seus ombros, seus olhos azul-esverdeados brilhavam, e a boca formava uma linha sombria que sugeria que ela preferiria estar em qualquer outro lugar. O professor Mayhew estava ao seu lado, mas Simon notou a maneira como ele mantinha distância e tomava cuidado para não virar as costas para ela.
Mayhew tinha medo.
— Vá em frente — disse o professor rispidamente. — Diga-lhes o seu nome.
A menina manteve os olhos no chão e murmurou algo.
— Mais alto — Mayhew estalou.
Agora, a menina levantou a cabeça e olhou para a classe em cheio, e quando ela falou, sua voz era alta e clara.
— Helen Blackthorn — ela disse. — Filha de Andrew e Eleanor Blackthorn.
Simon lançou-lhe um olhar mais atento. Helen Blackthorn era um nome que ele conhecia bem a partir das histórias que Clary lhe contou sobre a Guerra Maligna. Os Blackthorns tinham todos perdido nessa luta, mas ele pensava que Helen e seu irmão Mark perderam mais que todos.
— Mentirosa! — gritou Mayhew. — Tente novamente.
— Se eu posso mentir, isso não significa alguma coisa para você? — ela perguntou, mas era claro que ela já sabia a resposta.
— Você conhece as condições da sua presença aqui — ele retrucou. — Diga-lhes a verdade ou vá para casa.
— Aquela não é a minha casa — disse Helen calmamente, mas com firmeza.
Após a Guerra Maligna, ela fora exilada – não que alguém usasse oficialmente esse termo – para a Ilha de Wrangel, um posto avançado do Ártico que era o berço de todas as barreiras que protegiam o mundo. Era também, Simon tinha ouvido falar, um deserto desolado e gelado. Oficialmente, Helen e sua namorada, Aline Penhallow, estavam estudando as barreiras, que tiveram que ser reconstruídas após a Guerra Maligna. Extraoficialmente, Helen estava sendo punida pelo acidente do seu nascimento. A Clave decidira que, apesar de sua bravura na Guerra Maligna, apesar de sua história impecável, apesar do fato de que seus irmãos mais novos eram órfãos e não tinham ninguém para cuidar deles, apenas um tio que mal conheciam, ela não era confiável em seu meio. A Clave pensava que, apesar de sua pele poder suportar as runas do Anjo, ela não era uma verdadeira Caçadora de Sombras.
Simon pensava que eles eram todos idiotas.
Não importava que ela não tivesse armas, que estivesse vestida com uma camiseta amarelo clara e jeans, e não tivesse runas visíveis. Ficava claro, simplesmente a partir de sua postura e o controle que ela exercia sobre si mesma, transformando a raiva em dignidade, que Helen Blackthorn era uma Caçador de Sombras. Uma guerreira.
— Última chance — Mayhew rosnou.
— Helen Blackthorn — a menina disse novamente, e colocou o cabelo para trás, revelando delicadas orelhas pálidas, ambas afuniladas como a de um elfo nas pontas. — Filha de Andrew Blackthorn Caçador de Sombras e Lady Nerissa. Da Corte Seelie.
Naquele momento Julie Beauvale levantou-se e, sem uma palavra, saiu da sala.
Simon sentia muito por ela, ou tentou. Durante as horas finais da Guerra Maligna, um guerreiro das fadas assassinara a irmã de Julie bem na frente dela. Mas isso não era culpa de Helen. Helen era apenas meio fada, e não era a metade que contava.
Não que qualquer um da Clave ou da sala de aula parecesse acreditar. Os estudantes murmuravam, insultos sobre fadas saltando entre eles. Na parte da frente da sala de aula, Helen ficou muito quieta, as mãos cruzadas atrás das costas.
— Oh, calem a boca — Mayhew disse em voz alta. Simon se perguntou, não pela primeira vez, porque o homem havia se tornado um professor quando parecia que a única coisa que ele detestava mais do que jovens era a obrigação de ensiná-los. — Eu não espero que qualquer um de vocês respeite essa... pessoa. Mas ela está aqui para oferecer-lhes uma história de advertência. Você vão escutar.
Helen limpou a garganta.
— Meu pai e seu irmão foram os alunos daqui uma vez, assim como vocês — ela falou baixinho, com tom afetado, como se estivesse falando sobre estranhos. — E talvez como vocês, eles não perceberam quão perigoso o Povo Belo poderia ser. Isso quase os destruiu.

* * *

Meu pai, Andrew, estava no segundo ano da Academia, Helen continuou, e Arthur, no primeiro. Normalmente, apenas segundanistas seriam enviados em uma missão para a terra das fadas, mas todos sabiam que Arthur e Andrew lutavam melhor lado a lado. Isso foi muito antes da Paz Fria, obviamente, quando as fadas estavam vinculadas aos Acordos. Mas isso não as impediu de quebrar as regras onde pensaram que poderiam escapar delas. Uma criança Caçadora de Sombras tinha sido tomada. Dez estudantes da Academia, acompanhados por um dos seus professores, foram enviados para recuperá-la.
A missão foi um sucesso, ou teria sido, se uma fada astuta não tivesse enlaçado as mãos de meu pai em um espinheiro de bagas. Sem pensar, ele chupou o sangue de uma pequena ferida e, com ele, tomou um pouco do suco.
Bebeu algo do Reino Encantado, amarrando-o aos caprichos da Rainha, e ela o mandou ficar. Arthur insistiu em ficar com ele, que é o quanto os irmãos cuidavam entre si.
O professor da Academia rapidamente fez uma barganha com a Rainha: sua prisão duraria apenas um dia.
Os professores da Academia são, é claro, sempre bastante inteligentes. Mas as fadas eram mais ainda. O que se passava num único dia no resto do mundo, durava muito mais no Reino Encantado.
Durava anos.
Meu pai e meu tio sempre foram tranquilos, meninos livres. Eles serviam bravamente no campo de batalha, mas preferiam a biblioteca. Não estavam preparados para o que lhes aconteceu em seguida.
O que aconteceu com eles em seguida foi que encontraram Lady Nerissa, da Corte Seelie, a fada que se tornou minha mãe, uma fada cuja beleza era superada somente por sua crueldade.
Meu pai nunca falou comigo do que aconteceu com ele nas mãos de Nerissa, nem meu tio. Mas após o seu regresso, ambos fizeram relatórios completos para o Inquisidor. Eu fui... Convidada a ler estes relatórios na íntegra para transmitir os detalhes para você.
Os detalhes são estes: durante sete longos anos, Nerissa fez de meu pai o seu brinquedo. Ela o amarrou a ela, não com correntes, mas com magia negra das fadas. Enquanto seus servos o seguravam, ela fechou uma gargantilha de prata em seu pescoço. Ele estava encantado. Fez o meu pai vê-la não como ela era, um monstro, mas como um milagre. Enganou seus olhos e seu coração, transformou o ódio por seu captor em amor.
Ou melhor, a versão das fadas do amor coalhado. A adoração claustrofóbica. Ele faria qualquer coisa por ela. Ele fez, ao longo desses sete anos, tudo por ela.
E então houve Arthur, seu irmão, mais jovem do que Andrew e pequeno para sua idade. Bom, dizem eles. Gentil.
Lady Nerissa não tinha uso para Arthur, exceto como um brinquedo, uma ferramenta com a qual torturar meu pai e afirmar a sua lealdade.
Nerissa forçou meu pai a viver todos aqueles anos no amor;  forçou Arthur viver em dor.
Arthur foi queimado vivo, muitas vezes, com um fogo das fadas corroendo sua carne e ossos, mas sem matar.
Arthur foi chicoteado, uma corrente de espinhos abrindo feridas em suas costas que nunca se curariam.
Arthur era acorrentado ao chão, algemas prendendo seus pulsos e tornozelos como se fosse uma fera, e era forçado a assistir o seu pior pesadelo encenado diante de seus olhos, o encantamento do Povo das Fadas representando as pessoas que ele mais amava morrendo excruciantemente diante de seus olhos.
Arthur foi deixado acreditando que seu irmão o abandonara, escolhendo o amor das fadas acima da carne e do sangue, o que foi a pior tortura de todas.
Arthur estava quebrado. Assim se passou apenas um ano. As fadas passaram os próximos seis pisoteando e rindo sobre os escombros de sua alma.
E mesmo assim, Arthur era um Caçador de Sombras, e estes nunca devem ser subestimados. Um dia, meio louco de dor e tristeza, ele teve uma visão de seu futuro, de milhares de dias de agonia, décadas, séculos que se passam no Reino Encantado à medida que envelheceria em uma criatura quebrada e encarquilhada, e finalmente retornaria ao seu mundo para descobrir que apenas um dia tinha passado. Que todos que ele conhecia estariam jovens e todos. Que rezariam por sua morte, para que não tivessem que viver com o que havia acontecido com ele. O Povo das Fadas viviam em uma terra além do tempo; eles poderiam roubar sua a vida inteira aqui, podiam dar-lhe dez vidas de tortura e dor – e ainda permanecer fiéis à sua palavra.
O terror deste destino era mais poderoso que a dor, e isso lhe deu a força necessária para se libertar de suas amarras. Ele foi forçado a lutar contra seu próprio irmão, que tinha sido encantado a acreditar que ele deveria proteger Lady Nerissa a todo custo. Arthur derrubou meu pai no chão e usou a própria adaga de Lady Nerissa para cortá-la do pescoço ao esterno. Com a mesma adaga, cortou a gargantilha de prata encantada do meu pai. E em conjunto, ambos finalmente ficaram livres, escaparam do País das Fadas e voltaram para o mundo. Ambos ainda com suas cicatrizes.
Depois que fizeram o seu relatório ao Inquisidor, deixaram Idris, e deixaram um ao outro. Estes irmãos, uma vez tão próximos quanto parabatai, não podiam ficar à vista um do outro. Um era o lembrete do que o outro tinha sofrido e perdido. Um não poderia perdoar o outro onde eles haviam falhado, e onde eles tinham conseguido.
Talvez eles tivessem se reconciliado, eventualmente.
Mas Arthur foi para Londres, enquanto o meu pai voltou para casa, para Los Angeles, onde rapidamente se apaixonou por uma das Caçadoras de Sombras em formação no Instituto de LA. Ela também o amava e o ajudou a esquecer aqueles anos de pesadelo. Eles casaram. Tiveram um filho. Ficaram felizes e então, um dia, sua campainha tocou. Minha mãe alimentava o Julian bebê e o colocava para dormir. Meu pai estaria enterrado em seus livros. Um deles teria atendido a porta e descoberto duas cestas em sua porta, cada uma contendo uma criança dormindo. Meu irmão Mark e eu.
Meu pai, em seu estado enfeitiçado, nunca percebeu que Lady Nerissa tinha dado à luz a duas crianças.
Meu pai e sua esposa, Eleanor, nos ergueram como se nós fôssemos repletos de sangue de Caçador de Sombras. Como se fôssemos filhos deles. Como se nós não fôssemos monstros meio-sangue deixados no meio deles por seu inimigo. Como se não fôssemos lembretes constantes de destruição e tortura, do longo pesadelo que meu pai trabalhou por tanto tempo para esquecer. Eles fizeram o seu melhor para nos amar. Talvez até tenham nos amado, tanto quanto qualquer um poderia. Mas tenho certeza de que Andrew e Eleanor Blackthorn foram os melhores Caçadores de Sombras. Então eles teriam sido inteligentes o suficiente para saber, no fundo, que nós nunca poderíamos realmente ser confiáveis.
Confie em uma fada por seu próprio risco, porque elas não se importam com nada além de si mesmos. Não semeiam nada além de destruição. E a sua arma preferida é o amor humano.
Esta é a lição que fui convidada a ensinar a vocês. E foi o que fiz.

* * *

— Que diabos foi isso? — Simon explodiu assim que eles foram expulsos da sala.
— Eu sei! — George se recostou na parede de pedra do corredor, em seguida, rapidamente reconsiderou enquanto algo verde e lento se contorcia atrás de seu ombro. — Quero dizer, eu sabia que as fadas eram pequenas bastardas, mas quem sabia que elas eram más?
— Eu sabia — disse Julie, seu rosto mais pálido do que o habitual.
Ela estava esperando por eles do lado de fora da sala de aula, ou melhor, à espera de Jon Cartwright, com quem ela agora parecia ser bastante próxima. Julie era ainda mais bonita do que Jon e quase tão esnobe quanto ele, mas ainda assim Simon imaginara que ela tivesse um gosto melhorzinho.
Jon colocou o braço ao redor dela, e ela enroscou-se em seu abdômen musculoso.
Eles fazem parecer tão fácil, Simon pensou. Mas então, essa era a coisa sobre Caçadores de Sombras, eles faziam tudo parecer tão fácil.
Isso foi um pouco nojento.
— Eu não consigo acreditar que eles torturaram aquele pobre rapaz durante sete anos — disse George.
— E o irmão dele?! — exclamou Beatriz Mendoza. — Isso é ainda pior.
George olhou para ela, incrédulo, e disse:
— Você acha que ser forçado a se apaixonar por uma princesa sexy das fadas é pior do que ser queimado vivo algumas centenas de vezes?
— Acho.
Simon engoliu em seco.
— Uh, na verdade eu queria dizer que diabos havia de errado com a Helen Blackthorn, vindo até aqui como uma espécie de aberração de circo, sendo obrigada a nos contar essa história horrível sobre sua própria mãe?
Assim que Helen terminou a sua história, o professor Mayhew praticamente a expulsara da sala. Parecia que ela ia decapitá-lo, mas em vez disso, ela baixou a cabeça e obedeceu. Ele nunca tinha visto um Caçador de Sombras se comportar daquela maneira, tão... domesticada. Parecia asquerosamente errado.
— Mãe é um detalhe técnico nesta situação, vocês não acham? — perguntou George.
— Você quer dizer que acha que aquilo foi divertido para ela? — perguntou Simon, incrédulo.
— Eu acho que um monte de coisas não são divertidas — disse Julie friamente. — Penso que assistir a sua irmã ser cortada ao meio não é tão divertido também. Então me desculpe se não me importo com essa fadinha ou seus... supostos sentimentos — a voz dela tremeu na última palavra, e muito abruptamente ela tirou o braço de Jon de seus ombros e saiu correndo.
Jon olhou para Simon e disse:
— Ótimo, Lewis. Muito bem. — Ele correu atrás de Julie, deixando Simon, Beatriz, e George a ficar desajeitadamente em sua vigília silenciosa.
Depois de um momento de silêncio tenso, George coçou o queixo mal barbeado e disse:
— Mayhew foi muito duro lá atrás. Agindo como se ela fosse algum tipo de criminosa. Você podia ver que ele estava apenas esperando que ela o atacasse com um pedaço de giz ou algo assim.
— Ela é uma fada — Beatriz ressaltou. — Você não pode simplesmente baixar a guarda com eles.
— Meio fada… — corrigiu Simon.
— Mas você não acha que isso é suficiente? A Clave deve ter pensado assim — disse Beatriz. — Por que mais mandá-la para o exílio?
Simon bufou.
— Sim, porque a Clave está sempre certa.
— O irmão dela cavalga com a Caçada Selvagem — argumentou Beatriz. — Quantas fadas mais quer defender?
— Isso não é culpa dele — Simon protestou.
Clary tinha lhe contado toda a história da captura, a maneira como as fadas tinham sequestrado Mark Blackthorn durante o massacre no Instituto de Los Angeles. A forma como a Clave se recusou a se preocupar em tentar trazê-lo de volta.
— Ele está lá contra vontade.
Beatriz estava começando a olhar atravessado.
— Você não sabe disso. Ninguém pode saber disso.
— Da onde isso está vindo, mesmo? — perguntou Simon. — Você nunca comprou nada desse lixo contra seres do Submundo.
Simon não podia se lembrar dos dias de vampiros muito bem, mas continuava com esse negócio de não fazer amizade com alguém que apostava primeiro, perguntava depois.
— Eu não sou contra seres do Submundo — Beatriz insistiu, cheia de justiça própria. — Não tenho nenhum problema com lobisomens ou vampiros. Ou feiticeiros, obviamente. Mas as fadas são diferentes. Seja o que for que a Clave está fazendo com eles, ou para eles, é para o nosso benefício. É para nos proteger. Você não acha que é possível que a ela saiba um pouco mais sobre eles do que você?
Simon revirou os olhos.
— Falou como uma verdadeira Caçadora de Sombras.
Beatriz olhou para ele com um olhar estranho.
— Simon, você percebe que quase sempre diz “Caçador de Sombras” como se fosse um insulto?
Isso o fez paralisar. Beatriz raramente falava com alguém bruscamente assim, especialmente com ele.
— Eu...
— Se você acha que é tão terrível ser um Caçador de Sombras, não sei o que está fazendo aqui.
Ela saiu pelo corredor em direção ao seu quarto, que era como o resto dos quartos do segundo ano da elite, em uma das torres com uma vista agradável do sul e do prado.
George e Simon se viraram para o outro lado, em direção às masmorras.
— Não se fazem muitos amigos como antigamente — disse George alegremente, em voz baixa apoiando seu companheiro de quarto. Isso equivalia a um “não se preocupe, isso vai passar”.
Eles caminharam lado a lado pelo corredor. A limpeza de verão não fizera nada para resolver o teto gotejante ou as poças fedidas de lodo que marcavam o caminho para as masmorras, ou talvez a zeladoria da Academia simplesmente não fez a limpeza dos quartos da escória. De qualquer maneira, Simon e George podiam andar por esse corredor de olhos vendados, já estavam acostumados a evitar as poças e a passar por baixo dos tubos que gotejavam.
— Eu não queria incomodar ninguém — disse Simon. — Só não acho que isso seja certo.
— Confie em mim, companheiro, você demonstrou perfeitamente. E, obviamente, eu concordo com você.
— Concorda? — Simon sentiu uma onda de alívio.
— Claro que sim — disse George. — Você não pode cercar um rebanho inteiro só porque uma ovelha pastou no lugar errado, certo?
— É... certo.
— Eu só não entendo por que você está ficando tão agitado com isso — George não era do tipo que se preocupava com qualquer coisa, ou pelo menos, não era do tipo que admitiria isso. Ele alegou que a apatia era um mal de família. — É a coisa de vampiro? Você sabe que ninguém pensa em você desse jeito.
— Não, não é isso.
Ele sabia que nos dias de hoje seus antigos amigos não tinham um pensamento ruim por ele ter sido vampiro, por isso considerava irrelevante. Às vezes, Simon não tinha tanta certeza. Ele esteve morto... como poderia ser irrelevante? Mas não tinha nada a ver com isso.
Aquilo simplesmente não estava certo, o modo que o professor Mayhew ordenou Helen como se ela fosse um cão treinado, ou como os outros falaram do Povo das Fadas, como se, porque alguns elfos traíram os Caçadores de Sombras, todos eles eram culpados, agora e para sempre.
Talvez fosse isso: a questão da culpa transmitida através das linhagens, os pecados dos pais sombreavam não apenas seus filhos, mas nos amigos, vizinhos e conhecidos que passaram a ter as orelhas de forma semelhante. Você não podia simplesmente indiciar um povo inteiro do Submundo só porque não gostava de como alguns deles se comportaram. Ele passou tempo suficiente na escola judia para saber como esse tipo de coisa acaba. Felizmente, antes que ele pudesse formular uma explicação para George que não envolvesse o nome de Hitler, percebeu que a professora Catarina se materializou diante deles.
Materializou-se, literalmente, em uma nuvem de fumaça teatral. Feiticeira privilegiada, Simon supôs, embora se mostrar não fosse o estilo de Catarina. Normalmente ela se misturava com o resto do corpo docente da Academia, tornando-se fácil esquecer que ela era uma bruxa (pelo menos se você ignorasse a pele azul). Mas ele tinha notado que sempre que outro ser do Submundo estava no campus, Catarina incorporava seu papel feiticeira de ser.
Não que Helen fosse um ser do Submundo, Simon lembrou a si mesmo.
Por outro lado, Simon não era do Submundo também – ou não o fosse há mais de um ano agora, apesar de Catarina ainda insistir em chamá-lo de Diurno. Segundo ela, uma vez ser do Submundo, sempre, em algum minúsculo subconsciente, incorporado numa parte da alma, ser do Submundo. Ela sempre parecia tão certa disso, como se soubesse algo que ele não. Depois de falar com ela, Simon muitas vezes encontrou-se passando a língua por seus caninos, só para ter certeza de que presas não haviam brotado.
— Eu poderia falar com você por um momento, Diurno? — ela perguntou. — Em particular?
George, que ficava um pouco nervoso perto Catarina desde que ela, muito brevemente, o transformou em uma ovelha, estivera claramente esperando por uma desculpa para fugir. Ele concordou.
Simon encontrou-se surpreendentemente feliz por estar a sós com Catarina; ela, pelo menos, certamente estaria do seu lado.
— Professora Loss, você não vai acreditar no que aconteceu na aula com o professor Mayhew...
— Como foi o seu verão, Diurno? — ela lhe deu um leve sorriso. —Agradável, confio? Não muito sol?
Em todo o tempo que ele tinha conhecido Loss Catarina, ela nunca se preocupou com conversa fiada. Parecia um momento estranho para começar.
— Você sabia que Helen Blackthorn estava aqui, certo? — Simon perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
— Eu sei da maior parte das coisas que se passa por aqui. Pensei que você imaginasse isso.
— Então suponho que você sabe como o professor Mayhew a tratou.
— Como algo menos que humano, eu imaginaria?
— Exatamente! — exclamou Simon. — Como algo grudado na sola de seu sapato.
— Na minha experiência, assim é como o professor Mayhew trata a maioria das pessoas.
Simon balançou a cabeça.
— Se você tivesse visto... foi pior. Talvez eu devesse dizer à reitora Penhallow? — A ideia surgiu-lhe apenas enquanto saía de sua boca, mas ele gostou de como ela soava. — Ela pode, eu não sei... — não era como se ela pudesse lhe dar uma detenção. — Fazer alguma coisa.
Catarina franziu os lábios.
— Você deveria fazer o que acha certo, Diurno. Mas posso lhe dizer que a reitora Penhallow tem pouca autoridade sobre o tratamento de Helen de Blackthorn.
— Mas ela é a reitora. Ela deve... oh.
Lenta mas seguramente, as peças encaixaram-se em lugar. A reitora Penhallow era primo de Aline Penhallow. A namorada de Helen. A mãe de Aline, Jia, a Consulesa, era supostamente tendenciosa quanto ao assunto Helen, e tinha se recusado a determinar sua punição. Se até mesmo a Consulesa não podia interceder em nome de Helen, então, presumivelmente, a reitora tinha ainda menos esperança de fazê-lo. Parecia terrivelmente injusto para Simon, que as pessoas que mais se importavam com Helen fossem as menos envolvidas em decidir seu destino.
— Por que Helen veio para cá? — Simon perguntou. — Sei que a Ilha de Wrangel deve ser tediosa, mas poderia ser pior do que ficar desfilando por aqui, onde todos parecem odiá-la?
— Você pode perguntar por si mesmo — disse Catarina. — É por isso que eu queria falar com você. Helen me pediu para enviá-lo até ela após o término das aulas de hoje. Ela tem algo para você.
— Tem? O quê?
— Você terá que perguntar por si mesmo também. Você encontrará seus aposentos na borda do quadrante ocidental.
— Ela vai ficar no campus? — perguntou Simon, surpreso. Ele não conseguia entender por que Helen viria aqui, em primeiro lugar, mas foi ainda mais difícil imaginar porque ela quereria ficar. — Ela deve ter amigos em Alicante com quem pode ficar.
— Tenho certeza de que ela tem, mesmo agora — Catarina disse, uma nota gentil e triste em sua voz, como se estivesse gentilmente negando algo a uma criança. — Mas, Simon, você está presumindo que ela tinha uma escolha.

* * *

Simon hesitou na porta dos aposentos, prestes a bater. Era a sua coisa menos favorita, encontrar alguém que ele conhecia em sua vida anterior, agora que parou para pensar sobre isso. Havia sempre o medo de esperar algo que ele não podia dar, ou assumir que ele sabia algo que ele tinha esquecido. Havia, também, muitas vezes, um brilho de esperança nos olhos que era extinto tão logo ele abria a boca.
Pelo menos, ele disse a si mesmo, ele mal conhecia Helen. Ela não poderia esperar muito dele. A menos que houvesse algo que ele não sabia.
E devia haver algo que ele não sabia... Por que mais ela o teria chamado?
Há apenas uma maneira de descobrir, Simon pensou, e bateu à porta.
Helen usava um vestido leve estampado de bolinhas e parecia muito mais jovem do que parecera na sala de aula. Também muito mais feliz. Seu sorriso se alargou substancialmente quando viu quem estava à porta.
— Simon! Estou tão feliz. Venha, sente-se, gostaria de algo para comer ou beber? Talvez uma xícara de café?
Simon se acomodou no único sofá da pequena sala de estar. Era desconfortável e esfarrapado, bordado com um padrão de flor desbotado que sua avó poderia ser dona. Ele se perguntou quem geralmente vivia ali, ou se a Academia simplesmente mantinha os aposentos em ruínas para os visitantes da escola. Embora ele não pudesse imaginar que havia muitos membros do corpo docente visitantes que queriam viver em uma cabana na borda da floresta que parecia um lugar onde a bruxa de João e Maria poderia ter vivido antes que de descobrir a arquitetura baseada em doces.
— Não, obrigado, estou be... — Simon parou enquanto a última palavra dela era registrada. — Você disse café?
Metade de uma semana no novo ano escolar, e Simon já estava com uma grave abstinência de cafeína.
Antes que ele pudesse dizer “sim, por favor, uma xícara”, Helen já tinha colocado uma caneca fumegante em suas mãos.
— Eu pensei assim — ela disse.
Simon engoliu avidamente, a cafeína zumbido através de seu sistema. Ele não sabia como um ser humano – no caso dos Caçadores de Sombras, super-humanos – podiam viver sem uma dose diária.
— Onde você arrumou isso?
— Magnus me presenteou com uma cafeteira não-elétrica — disse Helen, sorrindo. — Mais ou menos um presente de despedida antes de sairmos para a Ilha de Wrangel. Agora eu não posso viver sem ela.
— Como é lá? — perguntou Simon. — Na Ilha?
Helen hesitou, e ele se perguntou se tinha cometido um erro. Era rude perguntar a alguém que estava em exílio como eles estavam desfrutando do deserto siberiano?
— Frio — respondeu ela finalmente. — Solitário.
— Oh — o que ele poderia dizer sobre isso? — Sinto muito.
Não parecia o bastante para se desculpar, e ela não pareceu querer a sua piedade.
— Mas estamos juntas, pelo menos. Aline e eu. Isso é alguma coisa. Isso é tudo, suponho. Ainda não posso acreditar que ela concordou em se casar comigo.
— Você vai se casar? — exclamou Simon. — Isso é incrível!
— É, não é? — Helen sorriu. — É difícil acreditar na quantidade de luz que você pode encontrar na escuridão, quando tem alguém que te ama.
— Ela veio com você? — perguntou Simon, olhando ao redor da pequena cabana.
Havia apenas outro cômodo, o quarto, ele assumiu, sua porta fechada. Ele não conseguia se lembrar de Aline na reunião, mas de tudo o que Clary tinha lhe dito, ele estava curioso.
— Não — Helen disse rispidamente. — Isso não foi parte do acordo.
— Que acordo?
Em vez de responder, ela abruptamente mudou de assunto.
— Então, você gostou da minha palestra, esta manhã?
Agora foi Simon quem hesitou, sem saber como responder. Ele não queria sugerir que achara sua palestra maçante, mas parecia igualmente errado sugerir que ele desfrutara da sua terrível história ou de ser o professor Mayhew humilhá-la.
— Fiquei surpreso que você quisesse dar a palestra — falou finalmente. — Não pode ser fácil, contar essa história.
Helen deu um sorriso irônico.
— “Querer” é um palavra forte — ela se levantou para servir-lhe outra xícara de café, em seguida, começou a movimentar uma pilha de pratos na pequena cozinha. Simon tinha a sensação de que ela estava apenas tentando manter as mãos ocupadas. E talvez evitar encontrar o seu olhar. — Eu fiz um acordo com eles. A Clave. — Ela passou as mãos nervosamente através dos cabelos loiros, e Simon teve um breve vislumbre de suas orelhas pontudas. — Eles disseram que se eu viesse para a Academia por alguns dias e os deixassem desfilar em torno de mim como se eu fosse uma espécie de fada de zoológico, Aline e eu poderíamos voltar.
— Para sempre?
Ela riu amargamente.
— Por um dia e uma noite, para nos casar.
Simon pensou, de repente, no que Beatriz tinha-lhe dito mais cedo naquele dia. Por que ele queria se tornar um Caçador de Sombras. Às vezes, ele não conseguia se lembrar.
— Eles não queriam nem mesmo nos deixar voltar apesar de tudo — Helen falou amargamente. — Queriam que nosso casamento fosse na Ilha Wrangel. Se é que se pode chamar de um casamento, num inferno congelado sem ninguém que você ama  lá com você. Acho que eu deveria me sentir com sorte por poder sair de lá.
Ela parecia se sentir com menos sorte do que nojo, ou talvez fúria, Simon pensou, mas seria útil dizer isso em voz alta.
— Estou surpreso que eles se importam tanto sobre uma palestra — ele disse ao invés. — Quero dizer, não que não tenha sido educacional, mas o professor Mayhew poderia ter nos contado a história.
Helen se afastou da cozinha e encontrou o olhar de Simon.
— Eles não se importam com a palestra. Isto não é sobre a educação de vocês. Trata-se de me humilhar. Isso é tudo.
Ela balançou um pouco a cabeça, depois sorriu alegremente, com os olhos brilhando.
— Esqueça tudo isso. Você veio aqui para obter algo de mim, aqui está.
Helen tirou um envelope do bolso e lhe entregou.
Curioso, ele o abriu e tirou um pequeno e espesso papel de carta cor de marfim, escrito com uma letra familiar.
Simon parou de respirar.
Caro Simon, Izzy escreveu. Sei que tenho desenvolvido o hábito de emboscar você na Academia.
Isso era verdade. Isabelle tinha aparecido mais de uma vez quando ele menos esperava. Toda vez que ela apareceu no campus, eles brigaram; e cada vez ele ficava triste por vê-la ir.

Prometi a mim mesma que não farei mais isso. Mas há algo que eu gostaria de falar com você. Portanto, esta sou eu dando-lhe um aviso. Se estiver tudo bem eu fazer uma visita, você dizer a Helen, e ela vai passar o recado para mim. Se não estiver bem, pode dizer a ela também.
Tanto faz.
– Isabelle

Simon leu o curto bilhete várias vezes, tentando intuir o tom por trás das palavras. Carinhoso? Ansioso? Eficiente?
Até esta semana não houvera sequer um e-mail ou um telefonema à distância, por que esperar que ele estivesse de volta à Academia? Por quê estender a mão em tudo?
Talvez porque seria mais fácil rejeitá-lo para sempre quando ele estava em segurança em outro continente?
Mas, nesse caso, pegar um Portal todo o caminho até Idris para fazê-lo cara a cara?
— Talvez você precise de algum tempo para pensar sobre isso? — Helen sugeriu finalmente.
Ele tinha esquecido que ela estava lá.
— Não! — Simon exclamou. — Quero dizer, não, eu não preciso de tempo para pensar, mas sim, sim, ela pode fazer a visita. É claro. Por favor, diga a ela.
Pare de tagarelar, ordenou a si mesmo. Era ruim o suficiente que ele se transformasse em um tolo cada vez que Isabelle estava no quarto com ele estes dias – agora começaria ficar assim à menção de seu nome?
Helen riu.
— Veja, eu te falei — ela disse em voz alta.
— Er, você me falou o quê? — perguntou Simon.
— Você me ouviu, saia! — Helen chamou ainda mais alto, e a porta do quarto se abriu.
Isabelle Lightwood não parecia envergonhada. Mas seu rosto estava fazendo o seu melhor.
— Surpresa?
Quando Simon tinha recuperado seu poder de discurso, havia apenas uma palavra disponível em seu cérebro.
— Isabelle.
O que quer que estalava e chiava entre eles era aparentemente tão palpável que Helen podia sentir isso também, porque ela rapidamente deslizou por trás de Isabelle para o quarto e fechou a porta.
Deixando os dois sozinhos.
— Oi, Simon.
— Oi, Izzy.
— Você, hã, provavelmente está se perguntando o que estou fazendo aqui — não era como se ela soasse tão incerta.
Simon assentiu.
— Você nunca me ligou — ela falou. — Eu te salvei de ser decapitado por um demônio Eidolon, e você nem sequer ligou.
— Você nunca me ligou, também — Simon apontou. — E... hã... também, eu meio que senti que eu deveria ter sido capaz de me salvar.
Isabelle suspirou.
— Achei que você talvez estivesse pensando isso.
— Porque eu deveria ter sido capaz, Izzy.
— Porque você é um idiota, Simon — os olhos dela brilharam. — Mas este é o seu dia de sorte, porque decidi que não vou desistir ainda. Isso é importante demais para desistir só por causa de um encontro ruim.
— Três encontros ruins — ressaltou. — Encontros muito ruins.
— O pior — ela concordou.
— O pior? Jace me disse uma vez que você saiu com um tritão que fez você jantar no rio — disse Simon. — Certamente os nossos encontros não foram tão ruins ass...
— O pior — ela confirmou, e caiu na risada.
Simon pensou que seu coração fosse estourar ao som – havia algo tão despreocupado, tão alegre na música de sua risada, era quase como uma promessa. Que, se pudessem navegar um caminho através de todo o constrangimento e dor e o fardo das expectativas, se eles pudessem encontrar seu caminho de volta um para o outro, algo puro e alegre os aguardava.
— Eu não quero desistir também — Simon falou, e o sorriso com que ela o recompensou foi ainda melhor do que o riso.
Isabelle sentou ao lado dele no pequeno sofá. Simon estava de repente extremamente consciente dos centímetros separando suas coxas. Ele deveria fazer um movimento agora?
— Eu decidi que Nova York estava muito cheio — ela disse.
— De demônios?
— De memórias — Isabelle esclareceu.
— Muitas lembranças não é exatamente o meu problema.
Isabelle lhe deu uma cotovelada. Que soltou faíscas.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Ele deu uma cotovelada em suas costas.
Tocá-la assim, tão casualmente, como se não fosse grande coisa... Tê-la de volta, tão perto, tão disposta...
Ela o queria.
Ele a queria.
Deveria ter sido tão fácil.
Simon limpou a garganta e, sem saber porquê, pôs-se de pé. Então, como a distância ainda não era suficiente, recuou com segurança para o outro lado da sala.
— Então o que nós fazemos agora? — ele perguntou.
Ela pareceu perdida, mas apenas por um momento.
Em seguida, ela ergueu a cabeça.
— Vamos a outro encontro — disse ela. Não era um pedido; era uma afirmação. — Em Alicante. Território neutro.
— Quando?
— Eu estava pensando... agora.
Não era o que ele esperava, mas então, por que não? As aulas foram de manhã, e os alunos do segundo ano tinham autorização para sair do campus. Não havia nenhuma razão para não sair com Isabelle imediatamente. Só que ele tivera tempo para se preparar, para chegar a um plano de ação, sem tempo para ficar obcecado com o cabelo e a aparência – casualmente amassada dele – sem tempo para pensar em uma lista mental de tópicos de discussão para conversar... mas, em seguida, nenhuma dessas coisas tinha salvado seus três encontros anteriores do desastre. Talvez fosse hora de experimentar a espontaneidade.
Especialmente desde que não parecia que Isabelle estava lhe dando muita escolha.
— Agora está ótimo — Simon concordou. — Devemos convidar Helen?
— Para o nosso encontro?
Idiota. Ele deu a si mesmo um tapa mental na cabeça.
— Helen, você quer ir ao nosso encontro romântico? — Isabelle chamou.
Helen saiu do quarto.
— Não há nada que eu gostaria mais do que segurar vela — ela respondeu. — Mas na verdade não tenho permissão para sair.
— Desculpe-me? — os dedos de Isabelle tocaram o chicote de electrum que envolvia seu pulso esquerdo. Simon não podia culpá-la por querer golpear algo. Ou alguém. — Por favor diga que você está brincando.
— Catarina colocou um círculo de proteção em torno da cabana — disse Helen. — Ela não vai me impedir de ir e vir, mas me disseram que será bastante eficaz se eu tentar sair antes de ser convocada.
— Catarina não faria isso! — Simon protestou, mas Helen estendeu a mão para acalmá-lo.
— Eles não lhe deram muita escolha — Helen falou — e pedi-lhe que concordasse. Foi parte do acordo.
Isso é inaceitável — disse Isabelle com fúria mal disfarçada. — Esqueça o encontro, nós vamos ficar aqui com você.
Ela estava iluminada com um brilho de fúria que a deixava mais linda, e Simon queria, de repente, desesperadamente, puxá-la para seus braços e beijá-la até o fim do mundo.
— Você certamente não vai esquecer o encontro — disse Helen. — Não vai ficar aqui um único segundo a mais. Sem discussão.
Houve, de fato, mais discussão, mas Helen finalmente convenceu-os de que ficar presa lá com eles, sabendo que ela tinha arruinado seu dia, seria ainda pior do que ficar presa sozinha.
— Agora, por favor, e digo isto com amor, deem o fora.
Ela deu um abraço em Izzy, e em seguida abraçou Simon, por sua vez.
— Não estrague tudo — ela sussurrou em seu ouvido, em seguida, empurrou os dois para fora da porta e fechou-a atrás deles.
Havia dois cavalos brancos relinchando na trilha da frente, como se estivessem esperando por Isabelle. Simon supôs que estavam, os animais de Idris comportavam-se de forma diferente dos que haviam em casa, quase como se pudessem entender o que seus seres humanos queriam, e se você pedisse bem o suficiente, estavam dispostos a obedecer.
— Então, onde exatamente estamos indo neste encontro? — perguntou Simon.
Não havia lhe ocorrido que teria que montar até Alicante, mas é claro, ali era Idris. Sem carros. Sem trens. Nada além de transporte medieval ou mágico, e ele supôs que um cavalo era melhor do que uma motocicleta vampira. Bem melhor.
Isabelle sorriu e balançou-se para cima da sela tão facilmente como se fosse subir numa bicicleta. Simon, por outro lado, ergueu-se desajeitadamente em seu cavalo com grunhidos e suando o suficiente que temeu que ela desse uma olhada e desistisse da coisa toda.
— Nós vamos fazer compras — Isabelle o informou. — É hora de você arranjar uma espada.

* * *

— Na verdade, não tem que ser uma espada — Isabelle disse quando entraram na Diana’s Arrow.
A viagem para Alicante tinha sido como algo saído de um sonho, ou, pelo menos, de um romance cafona. Os dois montando garanhões brancos, galopando pelo campo através de prados cor de esmeralda e de uma floresta cor de chamas.
O cabelo de Isabelle voava atrás dela como um rio de tinta, e Simon conseguiu não cair de seu cavalo – nunca uma precipitada conclusão. O melhor de tudo, entre a corrida ao vento e o trovejar de cascos, eram sons demasiado altos para uma conversa. Em movimento as coisas eram fáceis entre eles – natural. Simon quase podia esquecer que este era um dos os momentos mais importantes de sua vida e qualquer coisa que ele dissesse ou fizesse podia estragar tudo para sempre. Agora, de volta ao nível do solo, o peso se acomodou em seus ombros. Era difícil pensar em algo inteligente para dizer com o seu cérebro ecoando as mesmas quatro palavras de novo e de novo.
Não. Perca. A. Cabeça.
— Eles têm de tudo aqui — continuou Izzy, presumivelmente tentando preencher o silêncio maçante. Os nervos de Simon ficaram no caminho. — Punhais, machados, estrelas de atirar.. Oh, e arcos de prática. Todos os tipos de arcos. É incrível.
— Sim — Simon disse fracamente. — Fantástico.
Ele tinha, em seu ano na Academia, aprendido a lutar quase tão bem quanto qualquer Caçador de Sombras iniciante, e tinha proficiência com todas as armas que ela nomeara. Mas ele descobrira que saber como usar uma arma era muito diferente de querer.
Em sua vida pré-Caçador de Sombras, Simon discutira muito apaixonadamente sobre o assunto do controle de armas, e teria gostado que todas as armas da cidade fossem despejadas no East River. Não que uma pistola fosse o mesmo que uma espada, e não que ele não adorasse a sensação de atirar uma flecha com seu arco e assisti-la voar velozmente e acertar o coração de seu alvo. Mas a maneira Isabelle como amava o chicote, como Clary falava sobre sua espada, como se fosse um membro da família... ainda levaria algum tempo para se acostumar à paixão dos Caçadores de Sombras por armas mortais.
A Diana’s Arrow, uma loja de armas na Flintlock Street, no centro de Alicante, estava cheia objetos mais mortais do que Simon jamais vira em um só lugar – o que incluía a sala de armas da Academia, que poderia dar suporte a um exército. Mas enquanto o arsenal da Academia era mais como um armário de armazenamento, espadas, punhais e flechas empilhadas em pilhas aleatórias e lotando prateleiras perigosamente frágeis, a Diana’s Arrow lembrava Simon de uma loja de joias de fantasia. As armas estavam em orgulhosa exibição, lâminas brilhantes sobre coberturas de veludo, o melhor para mostrar o seu brilho metálico.
— Então, que tipo de arma você está procurando? — o cara atrás do balcão tinha um moicano espetado e vestia uma camiseta desbotada do Arcade Fire, parecia mais adequado a um contador de histórias em quadrinhos do que esta loja. Simon assumiu que esse provavelmente não era Diana.
— Que tal um arco? — sugeriu Izzy. — Algo realmente espetacular. Digno de um campeão.
— Talvez não tão espetacular — disse Simon rapidamente. — Talvez algo um pouco mais... discreto.
— Muitas vezes as pessoas subestimam a importância de um bom estilo de batalha — disse Isabelle. — Você quer intimidar o inimigo antes de até mesmo fazer um movimento.
— Você não acha que meu guarda-roupa intimida o suficiente? — Simon gesticulou para sua própria camiseta, que contava com um desenho que um gato vomitando verde.
Isabelle respondeu-lhe com o que soou como uma risada digna de pena, em seguida, virou-se para não-Diana.
— O que você tem de punhais? — ela perguntou. — Qualquer coisa banhada a ouro?
— Eu não sou realmente o tipo de cara que usa coisas banhadas a ouro — Simon disse. — Ou, hã, um cara que usa punhais.
— Nós temos algumas espadas agradáveis — disse o rapaz atrás do balcão.
— Você parece quente com uma espada — Isabelle apontou. — Como eu lembro.
— Talvez? — Simon tentou soar encorajador, mas ela deve ter ouvido o ceticismo em sua voz.
Ela se virou para ele.
— É como se você não quisesse uma arma.
— Bem...
— Então o que estamos fazendo aqui? — Isabelle bateu.
— Porque você sugeriu?
Isabelle parecia querer bater o pé – ou na cara dele.
— Desculpe por tentar ajudá-lo a se comportar como um respeitável Caçador de Sombras. Esqueça. Nós podemos ir.
— Não! — ele falou rapidamente. — Isso não foi o que eu quis dizer.
Com Isabelle, nunca era o que ele queria dizer.
Simon sempre se considerou um homem de palavras, em oposição a um homem de ação. Ou de espadas, para essa matéria. Sua mãe gostava de dizer que ele podia convencê-la a quase tudo. Tudo o que ele conseguia com Isabelle, parecia, era convencê-la de deixar de ser sua namorada.
— Eu vou, ah, apenas deixar vocês dois darem uma olhada ao redor — disse o lojista, indo rapidamente para o fundo do balcão. Ele desapareceu lá atrás.
— Desculpe — disse Simon. — Vamos ficar, por favor. É claro que eu quero sua ajuda para escolher algo.
Ela suspirou.
— Não eu é que peço desculpas. Escolher a sua primeira arma é algo muito pessoal. Eu entendo. Tome seu tempo, olhe ao redor. Eu vou calar a boca.
— Eu não quero que você cale a boca — disse ele.
Mas ela balançou a cabeça e pressionou os lábios fechados. Em seguida, ergueu três dedos no ar – juramento de escoteiro. Algo que não parecia ser uma coisa de Caçador de Sombras, e Simon se perguntou quem a tinha ensinado a fazer isso.
Ele se perguntou se tinha sido ele.
Às vezes, ele odiava o Simon de antes - e todas as coisas que ele compartilhou com Isabelle, coisas que hoje nunca poderia entender. Era estranho e induzia a uma dor de cabeça, competir com você mesmo.
Eles navegavam pela loja, vendo as opções: alabardas, athames, lâminas serafim, elaboradas bestas curvas, chakhrams, facas, uma vitrine cheia de chicotes ouro, sobre a qual Isabelle quase começou a babar.
O silêncio era opressivo. Simon nunca teve um bom encontro, pelo menos não que ele conseguisse se lembrar, mas ele tinha certeza de que isso envolvia pessoas falando.
— Pobre Helen — disse ele, testando o peso e balanço de uma espada de aparência medieval. Pelo menos este era um assunto que ele tinha certeza de que concordariam.
— Eu odeio o que estão fazendo com ela — Isabelle disse. Ela estava acariciando um kindjal  mortal de prata como se ele fosse um filhotinho. — Como foi a aula? Foi tão ruim quanto imagino?
— Pior — Simon admitiu. — O olhar no o rosto dela quando contava a história dos pais...
O aperto de Isabelle aumentou em torno do kindjal.
— Por que não veem quão hediondo é tratá-la desse jeito? Ela não é uma fada.
— Bem, esse não é realmente o ponto, não é?
Isabelle colocou a kindjal com cuidado em sua caixa de veludo.
— O que você quer dizer?
— Se ela é ou não uma fada. O ponto é outro.
Ela fixou Simon com um olhar ardente.
— Helen Blackthorn é uma Caçadora de Sombras — ela rosnou. — Mark Blackthorn é um Caçador de Sombras. Se nós não podemos concordar com isso, então temos um problema.
— É claro que concordamos com isso — isso o fez amá-la ainda mais, ver a raiva que ela tinha em nome de seus amigos. Por que ele não podia apenas dizer isso a ela? Por que era tudo tão difícil? — Eles são tão Caçadores de Sombras quanto você. Eu só quero dizer que, mesmo se eles não fossem, se estivéssemos falando sobre alguma fada de verdade, ainda não seria certo tratá-la como inimigo, por causa do que ela era, certo?
— Bem...
Simon ficou surpreso.
— O que você quer dizer com “bem...”?
— Quero dizer que talvez qualquer fada seja potencialmente um inimigo, Simon. Olhe o que eles fizeram para nós. Veja quanta miséria causaram.
— Nem todos causaram essa miséria, mas estão todos pagando por isso.
Isabelle suspirou.
— Olha, eu não gosto da Paz Fria mais do que você. E você está certo, nem todas as fadas são o inimigo. Obviamente. Nem todos eles nos traíram, e não é justo que todos eles devam ser punidos por isso. Você acha que eu não sei disso?
— Bom — disse Simon.
— Mas...
— Eu realmente não vejo como pode haver um “mas” — Simon a cortou.
— Mas não é tão simples como você está tentando fazer parecer. A rainha Seelie nos traiu. Uma legião de guerreiros das fadas se aliou a Sebastian na Guerra Maligna. Um monte de bons Caçadores de Sombras morreu. Você tem que ver por que isso deixa as pessoas com raiva. E com medo.
Pare de falar, Simon disse a si mesmo. Sua mãe uma vez lhe disse que você nunca deve discutir religião ou política em um encontro. Ele nunca tinha certeza em qual dessas categorias as políticas da Clave caía, mas de qualquer forma, era como tentar defender J. J. Abrams para um Trekkie hardcore: sem esperança.
Mas, inexplicavelmente, e apesar do sincero desejo de seu cérebro, a boca de Simon manteve-se em movimento.
— Não me importo com quanta raiva ou medo se esteja, não é certo punir todo o Povo das Fadas pelos erros de alguns elfos. Ou discriminar certas pessoas...
— Eu não estou dizendo que é certo discriminar...
— Na verdade, isso é exatamente o que você está dizendo.
— Oh, grande, Simon. Assim, a Rainha Seelie e seus asseclas ficaram malucos e permitiram a morte de centenas de Caçadores de Sombras, para não mencionar os que eles abateram por si próprios e eu sou a pessoa horrível aqui?
— Eu não disse que você era uma pessoa horrível.
— Você está pensando — ela falou.
— Quer parar de me dizer o que eu penso? — ele gritou, mais duramente do que pretendia.
Sua boca se fechou.
Ela respirou fundo.
Ele contou até dez.
Cada um esperou outro se acalmar.
Quando Isabelle falou de novo, ela soou mais calma, mas também, de alguma forma, mais irritada.
— Eu disse a você, Simon. Não gosto da Paz Fria. Eu a odeio, para a sua informação. Não apenas pelo o que está fazendo para Helen e Aline. Porque está errado. Mas... não é como se eu tivesse uma ideia melhor. Isto não é sobre quem você ou eu queremos confiar; trata-se de quem a Clave pode confiar. Você não pode assinar Acordos com líderes que se recusam a ficar vinculado por suas promessas. Simplesmente não dá. Se a Clave quiser vingança... — Isabelle olhou em torno da loja, o olhar descansando em cada mostrador de armas — confie em mim, ela poderia seguir assim. A Paz Fria não é apenas sobre o Povo das Fadas. É sobre nós. Posso não gostar dela, mas eu a entendo. Melhor do que você, pelo menos. E se você estivesse lá, se soubesse...
— Eu estava lá — Simon falou calmamente. — Lembre-se?
— Claro que sim. Mas você não. Portanto, não é o mesmo. Você não é...
— O mesmo — ele terminou por ela.
— Não foi isso que eu quis dizer, eu só...
— Confie em mim, Izzy. Entendi. Eu não sou ele. Nunca serei ele.
Isabelle fez um barulho meio caminho entre um assobio e um uivo.
— Você vai realmente continuar com esse complexo de inferioridade entre antigo Simon e novo Simon? Está ficando velho. Por que você não é um pouco criativo e encontra uma nova desculpa?
— Nova desculpa para quê? — ele perguntou, genuinamente confuso.
— Para não ficar comigo! — ela gritou. — Porque você está, obviamente, à procura de um. Tente mais.
Ela pisou forte para fora da loja, batendo a porta atrás dela. O sino tiniu e não-Diana surgiu dos fundos.
— Oh, ainda é apenas você — ele disse, soando nitidamente desapontado. — Você se decidiu?
Simon podia desistir agora;  poderia parar de tentar, parar de lutar, apenas deixá-la ir. Essa seria a mais fácil das decisões. Tudo o que ele tinha que fazer era deixar que acontecesse.
— Eu decidi há muito tempo — disse Simon, e correu para fora da loja.
Ele precisava encontrar Isabelle.
Não foi um grande desafio. Ela estava sentada em um pequeno banco do outro lado da rua, a cabeça nas mãos.
Simon sentou-se ao lado dela.
— Me desculpe — falou calmamente.
Ela balançou a cabeça sem levantá-la das mãos.
— Não posso acreditar que fui estúpida o suficiente para pensar que isso funcionaria.
— Ainda podemos tentar — disse ele, com uma embaraçosa nota de desespero. — Eu ainda quero isso, se você...
— Não, não você e eu, idiota — ela finalmente olhou para ele. Felizmente, seus olhos estavam secos. Na verdade, ela não parecia triste em tudo, parecia furioso. — Essa estúpida ideia de comprar armas. É a última vez que aceito conselhos sobre encontros de Jace.
— Você deixou Jace planejar nosso encontro? — Simon perguntou, incrédulo.
— Bem, não é como se qualquer um de nós estivesse fazendo um bom trabalho. Ele trouxe Clary aqui para comprar uma espada, e essa coisa foi repugnantemente sexy, e pensei, talvez...
Simon riu em alívio.
— Eu odeio destruir sua fantasia, mas você não está namorando Jace.
— Hum, sim. Nojento.
— Não, quero dizer, você não está namorando um cara que é qualquer coisa como Jace.
— Eu não estava ciente de que estava namorando alguém — ela falou, sua voz fria. Seu coração ficou preso na garganta como se ele estivesse preso em arame farpado. Mas então, ainda que levemente, a frieza diminuiu. — Estou brincando. Na maior parte.
— Que alívio.  Na maior parte.
Isabelle suspirou.
— Desculpe por todo esse desastre.
— Não é tudo culpa sua.
— Bem, obviamente não é tudo culpa minha — ela respondeu. — Nem mesmo a maior parte da culpa é minha.
— Uh... pensei que estivéssemos na parte das desculpas do dia.
— Certo. Sinto muito.
Ele sorriu.
— Veja, agora nós estamos falando.
— E agora? Voltamos para a Academia?
— Você está brincando? — Simon se levantou e estendeu a mão para ela. Milagre dos milagres, ela aceitou. — Nós não vamos desistir até conseguirmos fazer direito. Mas chega de fingir ser Jace e Clary. Esse é o nosso problema, não é? Tentar ser pessoas que não somos? Posso não ser algum tipo de dançarino de hip-hop de boate fresco e moderno...
— Não acho que exista um “dançarino de hip-hop de boate fresco e moderno” — Isabelle apontou ironicamente.
— Isso prova o meu argumento. E você nunca será uma jogadora que quer ficar acordada durante a noite debatendo a trama de Naruto nem batalhando contra orcs de D&D.
— Agora você está fazendo sentido.
— E nenhum de nós jamais será Jace e Clary...
— Graças a Deus — eles disseram, em sincronia, então trocaram um sorriso.
— Então o que você sugere? — perguntou Izzy.
— Algo novo — disse Simon, a mente correndo para chegar a uma ideia concreto e útil. Ele sabia que estava chegando em algo, só não tinha certeza do quê. — Não o seu mundo, não o meu mundo. Um novo, para apenas nós dois.
— Por favor, me diga que você não quer que a gente atravesse um Portal para outra dimensão. Porque que não funcionou muito bem da última vez.
Simon sorriu, uma ideia florescendo.
— Talvez possamos encontrar um lugar um pouco mais perto de casa...

* * *

À medida que o sol mergulhava abaixo do horizonte, as nuvens ganharam coloração de algodão-doce rosa. Seu reflexo brilhava nas águas cristalinas do Lago Lyn. Os cavalos relinchavam, as aves piavam, e Simon e Isabelle mastigavam seu amendoim quebradiço e a pipoca. Este, Simon pensou, era o som da felicidade.
— Você ainda não me falou como encontrou este lugar — disse Isabelle. — É perfeito.
Simon não queria admitir que foi Jon Cartwright quem havia lhe contado sobre a entrada isolada à beira do Lago Lyn, os salgueiros erguendo-se e o arco-íris de flores silvestres tornando-o o local perfeito para um piquenique romântico (mesmo quando o piquenique consistisse de amendoim quebradiço, pipoca e um punhado itens aleatórios que causavam a deterioração dos dentes e o entupimento de artérias que eles pegaram no caminho para fora de Alicante.) Simon, que há muito se cansara de ouvir sobre as façanhas românticas de Jon, fizera o seu melhor ignorar o que ele falava. Mas, aparentemente, alguns detalhes se prenderam em seu subconsciente. O suficiente, pelo menos, para encontrar o lugar.
Jon Cartwright era um falastrão e um bufão – Simon manteria isso em mente no dia da sua morte. Mas descobriu que o cara tinha bom gosto em cenários de encontros românticos.
— Apenas tropecei nele — Simon murmurou. — Boa sorte, acho eu.
Isabelle fitou a água impossivelmente tranquila.
— Este lugar me lembra da fazenda de Luke — ela disse suavemente.
— A mim também — ele concordou. Em outra vida, a que ele mal se lembrava, ele e Clary passaram muitos dias longos e felizes de verão na casa de Luke ao norte do estado, nadando no lago, rolando na grama e observando as nuvens.
Isabelle se virou para ele. A jaqueta de Simon estava aberta entre eles como uma toalha improvisada de piquenique. Era uma jaqueta pequena – não havia muita distância para ele atravessar caso quisesse alcançá-la.
Ele nunca quis nada mais.
— Eu penso muito sobre isso — disse Izzy. — A fazenda, o lago.
— Por quê?
Sua voz se suavizou.
— Porque foi onde eu te quase perdi, onde tive certeza de que eu o perderia. Mas eu o tenho de volta.
Simon não sabia o que dizer.
— Não importa mesmo — disse ela, mais dura agora. — Não é como se você soubesse do que estou falando.
— Eu sei o que aconteceu lá. — Ou seja, Simon tinha convocado o anjo Raziel e o Anjo realmente aparecera. Ele desejou que pudesse se lembrar disso; gostaria de saber como se sentiu, conversando com um anjo.
— Clary te contou — ela falou, sem rodeios.
— Sim.
Isabelle era um pouco sensível quando o assunto era Clary. Ela definitivamente não precisava ouvir sobre o tempo que passara com Clary neste verão, as longas horas gastas deitados no Central Park, lado a lado, trocando histórias de seu passado – Simon dizendo a ela do que lembrou; Clary contando-lhe o que realmente aconteceu.
— Mas ela não estava lá — disse Isabelle.
— Ela sabe as coisas importantes.
Isabelle balançou a cabeça. Ela se aproximou do outro lado da toalha de piquenique e descansou a mão no joelho de Simon. Ele trabalhou muito duro para ouvi-la por sobre o zumbido repentino em seus ouvidos.
— Se ela não estava lá, não pode saber quão valente você foi — Isabelle devolveu. — Ela não pode saber como fiquei com medo por você. Essas são as coisas importantes.
Houve um silêncio entre eles, então. Mas, finalmente, não era do tipo estranho. Era do tipo bom, onde Simon podia ouvir o que Isabelle estava falando sem ela precisar dizê-lo, onde ele podia respondê-la afavelmente.
— Como é? — ela perguntou a ele. — Não se lembrar. Ser uma lousa em branco?
A mão dela ainda estava quente em seu joelho. Ela nunca perguntou-lhe antes.
— Não é como uma lousa em branco — explicou ele, ou tentou. — É mais como... visão dupla. Fico lembrando de duas coisas diferentes ao mesmo tempo. Às vezes uma parece mais verdadeira, às vezes a outra. Às vezes tudo é borrado. Isso é quando costumo tomar algum Advil e tirar uma soneca.
— Mas você está começando a se lembrar de coisas.
— Algumas coisas — ele concordou. — Jordan. Eu lembro muito sobre Jordan. Preocupar-me com ele. Per... — Simon engoliu em seco. — Perdê-lo. Lembro-me da minha mãe surtando sobre eu ser um vampiro. E algumas coisas antes de a mãe de Clary ser sequestrada. De nós dois sermos amigos, antes de tudo isso começar. Coisas comuns do Brooklyn — ele parou de falar quando percebeu que o rosto dela estava perturbado.
— Claro que você se lembra de Clary.
— Não é assim.
— Assim como?
Simon não pensou. Apenas fez. Ele pegou a mão dela.
Ela deixou.
Ele não tinha certeza de como explicar, ainda estava tudo misturado em sua cabeça, mas ele tinha que experimentar.
— Não é como se as coisas que eu lembro fossem mais importantes do que as que não me lembro. Às vezes parece que é aleatório. Mas às vezes... eu não sei, às vezes parece que o mais importante será o mais difícil de voltar. Vejo todas essas lembranças enterradas como um fóssil de dinossauro, e estou tentando desenterrá-lo. Alguns estão apenas deitados abaixo da superfície, mas os ossos mais importantes estão quilômetros mais ao fundo.
— E você está dizendo que é onde eu estou? Quilômetros abaixo da superfície?
Ele apertou sua mão com força.
— Você está basicamente lá embaixo, no centro fundido da terra.
— Você é tão estranho.
— Eu tento o meu melhor.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Eu sou ciumenta, você sabe. Às vezes. Isso você pode esquecer.
— Está brincando? — Simon não podia nem mesmo começar a entender isso. — Tudo o que você tem, todas as pessoas em sua vida, ninguém gostaria de ter isso tirado.
Isabelle olhou para o lago, piscando vigorosamente.
— Às vezes as pessoas são afastadas, você querendo ou não. E às vezes isso dói tanto, pode ser mais fácil de esquecer.
Ela não precisava dizer o nome dele. Simon falou por ela.
— Max.
— Você se lembra dele?
Simon nunca percebera que um tom triste podia soar como esperança.
Ele balançou a cabeça.
— Eu queria poder, no entanto.
— Clary te contou sobre ele — ela falou. Não era uma pergunta. — E o que aconteceu.
Ele balançou a cabeça, mas o olhar dela ainda estava fixo na água.
— Ele morreu em Idris, você sabe. Gosto de estar aqui algumas vezes. Eu me sinto mais perto dele aqui. Outras vezes eu queria que esse lugar sumisse. Que ninguém jamais pudesse vir aqui outra vez.
— Sinto muito — disse Simon, pensando que essas eram as palavras mais esfarrapadas e inúteis da língua. — Eu gostaria de poder dizer algo que pudesse ajudar.
Ela o encarou enquanto sussurrava:
— Você disse.
— O quê?
— Depois de Max. Vocês... disse alguma coisa. Você ajudou.
— Izzy...
— Sim?
Era isso, este era O Momento – o momento enquanto as palavras davam lugar aos olhares, que inevitavelmente dariam lugar a um beijo. Tudo o que ele tinha que fazer era se inclinar um pouco para a frente e se entregar nisso.
Ele se inclinou para trás.
— Talvez devêssemos voltar ao campus.
Ela fez aquele barulho de gato irritado novamente, em seguida, arremessou um pedaço de amendoim para ele.
— O que há de errado com você? — ela exclamou. — Porque sei que não há nada de errado comigo. Você teria que ser louco para não querer me beijar, e se esse é algum jogo estúpido de se fazer de difícil, está desperdiçando o seu tempo, porque confie em mim, eu sei quando um cara quer me beijar. E você, Simon Lewis, quer me beijar. Então, o que está acontecendo aqui?
— Eu não sei — admitiu ele, e tão ridículo quanto foi, também era totalmente verdadeiro.
— É a coisa estúpida da memória? Ainda tem medo de que não possa viver como a versão incrível de si mesmo que esqueceu? Quer que eu te diga todas as maneiras como você não era surpreendente? Número um, você roncava.
— Não roncava.
— Como um demônio Drevak.
— Isso é uma calúnia — disse Simon, indignado.
Ela bufou.
— Meu argumento, Simon, é que você deveria ter deixado isso para trás. Pensei que você tivesse descoberto que ninguém espera que seja alguém que não você mesmo. Que eu só quero que você seja você. Eu apenas quero você. Este Simon. Não é por isso que estamos aqui? Porque você finalmente conseguiu enfiar isso em sua cabeça dura?
— Acho que sim.
— Então, do que você tem medo? Tem, obviamente, alguma coisa.
— Como você sabe? — ele perguntou, curioso como ela poderia ter tanta certeza quando ele próprio não tinha pista.
Ela sorriu, e era o tipo de sorriso que você dá a alguém que quer estrangular e beijar ao mesmo tempo.
— Porque eu te conheço.
Ele pensou tomá-la em seus braços, imaginou como seria a sensação, e foi quando percebeu qual era o seu medo. Era esse sentimento, sua imensidão, como olhar para o sol. Como cair para o sol.
— Me perder — ele revelou.
— O quê?
— Isso é do que tenho medo. Me perder nisso. Em você. Passei o ano inteiro tentando me encontrar, descobrir quem eu sou, e agora há você, há a gente, há isso tudo – esse aterrorizante buraco negro de um sentimento, e se eu entrar nele... sinto que estou na borda do Grand Canyon, sabe? Algo maior e mais profundo do que a mente humana foi construído para penetrar. E apenas se supõe... que eu salte para dentro?
Ele esperou nervosamente por sua reação, suspeitando que as meninas provavelmente não gostavam muito quando se admitia que tinha medo delas. Garotas como Izzy provavelmente gostavam quando você admitia que não tinha medo de nada. Nada a assustava; ela merecia alguém corajoso.
— Isso é tudo? — o rosto dela se iluminou. — Simon, você não acha que tenho medo também? Você não é o único na beira. Se saltar, nós saltar juntos. Nós cairemos juntos.
Simon tinha passado tanto tempo tentando reunir os pedaços de si mesmo, ajustar o quebra-cabeça. Mas a última peça, a mais importante, estava na frente dele o tempo todo. Se perder para Izzy – essa poderia ser a era a única maneira de realmente se encontrar?
Poderia isto, aqui, ser sua casa?
Chega de metáforas ruins, ele disse a si mesmo. Chega de adiar.
Chega de ter medo.
Ele parou de pensar sobre a pessoa que costumava ser, ou a relação que costumava ter; parou de pensar se ia estragar as coisas ou no que ele queria; parou de pensar em amnésia de demônio e Ascensão em Caçador de Sombras e no Povo das Fadas e na Guerra Maligna e política e lição de casa e no tráfego não regulamentado de afiados objetos mortais.
Ele parou de pensar sobre o que poderia acontecer, e o que poderia dar errado.
Ele a tomou nos braços e a beijou – beijou do jeito que desejara beijá-la desde que pôs os olhos nela, beijou-a não da maneira que um herói de romance ou um Caçador de Sombras guerreiro ou algum personagem imaginário do passado faria, mas como Simon Lewis beijava a garota que ele amava mais do que tudo no o mundo. Era como cair para o sol, cair juntos, corações em chamas com fogo pálido, e Simon sabia que nunca pararia de cair, sabia que agora que ele a tinha agarrado novamente, ele nunca a deixaria ir.

* * *

O casamento de verdadeiras mentes não admite impedimentos – mas as sessões de amassos adolescentes, muitas vezes, sim. Especialmente quando um dos adolescentes era um estudante da Academia de Caçadores de Sombras, com lição de casa e toque de recolher. E quando a outra era uma guerreira caçadora de demônios com uma emboscada para a manhã.
Se Simon pudesse escolher, passaria a semana seguinte, ou possivelmente a próxima eternidade, enredado com Izzy na grama, escutando o colo lago em sua margem, perdendo-se no toque dos dedos dela e no gosto de seus lábios. Em vez disso, ele passou memoráveis ​​duas horas fazendo isso, então galoparam a uma velocidade vertiginosa de volta para a Academia de Caçadores de Sombras e passou mais uma hora dando beijos de despedida, antes de deixá-la saltar no Portal com a promessa de regresso assim que pudesse.
Ele teve que esperar até o dia seguinte para agradecer Helen Blackthorn por sua ajuda. Ele a pegou quando ela fazia as malas para ir embora.
— Vejo que o encontro correu bem — disse ela logo que abriu a porta.
— Como você sabe?
Helen sorriu.
— Você está praticamente brilhando.
Simon agradeceu-lhe por transmitir a mensagem de Izzy e entregou-lhe um pequeno saco de biscoitos que ele pegou do refeitório. Eram a única coisa na Academia que, de verdade, eram saborosos.
— Considere isto um pequeno adiantamento pelo o que devo a você — disse ele.
— Você não me deve nada. Mas se realmente quer me pagar, venha para o casamento – você pode acompanhar Izzy.
— Eu não perderia isso — Simon prometeu. — Então, quando é o grande dia?
— Primeiro de dezembro — disse ela, mas havia uma nota trêmula em sua voz. — Provavelmente.
— Talvez mais cedo?
— Talvez não aconteça — ela admitiu.
— O quê? Você e Aline não vão romper! — Simon se parou, lembrando que ele estava falando com alguém que mal conhecia. Ele não podia exatamente ordenar que ela tivesse um final feliz só porque de repente ele estava apaixonado. — Desculpe, não é da minha conta, mas... por que você veio até aqui e aguentou toda essa porcaria se não queria se casar com ela?
— Oh, eu quero me casar com ela. Mais do que qualquer coisa. É que apenas... voltar aqui me fez perguntar-me se estou sendo egoísta.
— Como se casar com Aline poderia ser egoísta? — perguntou Simon.
— Olhe para a minha vida! — Helen explodiu, dias – ou talvez anos – de fúria reprimidas explodindo para fora dela. — Eles olham para mim como se eu fosse algum tipo de aberração – e esses são os legais, os outros me olham como se eu fosse o inimigo. Aline já está presa naquela ilha esquecida por Deus por minha causa. Ela deveria sofrer assim pelo resto da a vida dela? Só porque cometeu o erro de se apaixonar por mim? Que tipo de pessoa isso faz de mim?
— Você não pode pensar que é culpa sua — ele não a conhecia muito bem, mas nada disso parecia certo para ele. Não como algo que deveria dizer ou acreditar.
— O professor Mayhew me disse que se eu realmente a amasse, iria deixá-la — Helen admitiu. — Em vez de arrastá-la para este pesadelo comigo. Que me prender a ela apenas prova que sou mais fada do que penso.
— O professor Mayhew é um troll — devolveu Simon, e se perguntou o que seria necessário para fazer Catarina Loss transformá-lo em um de verdade. Ou talvez um sapo ou um lagarto. Algo que combinasse mais com a natureza reptiliana de sua alma. — Se você realmente ama Aline, faria tudo o que pode para ficar com ela. O que é exatamente o que você está fazendo. Além disso, você está assumindo que se você rompesse com ela para o seu próprio bem, ela iria deixá-la. Pelo o que ouvi sobre Aline, isso não é provável.
— Não — Helen concordou com carinho. — Ela lutaria comigo com unhas e dentes.
— Então por que não correr para o inevitável? Aceitar que você está presa a ela. O amor da sua vida. Pobre de você.
Helen suspirou.
— Isabelle me contou o que você disse sobre as fadas, Simon. Sobre como você acha que é errado discriminá-las. Que fadas podem ser boas, assim como qualquer outra pessoa.
Ele não entendia aonde ela queria chegar com isso, mas ele não estava arrependido de ter a chance de confirmar.
— Ela estava certa, eu penso assim.
— Isabelle acredita nisso também, você sabe — Helen disse. — Ela está fazendo o seu melhor para me convencer.
— O que você quer dizer? — perguntou Simon, confuso. — Por que você precisaria ser convencida?
Helen dobrou os dedos juntos.
— Você sabe, eu não queria vir aqui para contar a um bando de crianças a história dos meus pais e não fiz isso voluntariamente. Mas também não a enfeitei. Aquilo foi o que aconteceu. Era o que minha mãe era, e assim que metade de mim é.
— Não, Helen, não é...
— Conhece o poema “La Belle Dame Sans Merci”?
Simon balançou a cabeça. A única poesia que ele conhecia era do Dr. Seuss ou Bob Dylan.
— É de Keats — disse ela, e recitou alguns versos de memória para ele.

“Para a sua gruta encantada me levou
E lá bem suspirou profundamente
E lá cerrei seus feros tristes olhos
Assim beijados, dormentes, dormentes.
E lá bem me embalou até o sono
E lá sonhei – Ah, mala sina
O último sonho que jamais sonhei
Nesse lado frio da colina.
Pálidos reis eu vi e também príncipes
Guerreiros pálidos, na lividez da morte
Gritando: “La Belle Dame sans mercy”
Tem-vos serva a sorte.”

— Keats escreveu sobre fadas? — perguntou Simon.
Se eles tivessem abordado este na aula de Inglês, ele poderia ter dado mais atenção.
— Meu pai costumava recitar esse poema o tempo todo — disse Helen. — Era a sua maneira de contar a mim e a Mark a história de onde viemos.
— Ele recitou para você um poema sobre uma rainha fada do mal que atrai os homens para a morte como uma forma de lhe contar sobre sua mãe? Repetidamente? — perguntou Simon, incrédulo. — Sem ofensa, mas essa maneira foi... dura.
— Meu pai nos amava, apesar de onde nós viemos — Helen disse da maneira de alguém tentando se convencer. — Mas sempre senti como se ele mantivesse uma parte de si mesmo escondida. Como se esperasse vê-la em mim. Foi diferente com Mark, porque Mark era um menino. Mas as seguem suas mães, certo?
— Eu realmente não tenho certeza de que essa lógica seja cientificamente precisa — Simon apontou.
— Isso é o que Mark dizia. Ele sempre disse que as fadas não tinham direitos sobre nós ou nossa natureza. E tentei acreditar nele, mas depois que ele foi levado... depois que o Inquisidor me contou a história da minha mãe biológica... Eu me surpreendi... — o olhar de Helen atravessava Simon, atravessava as paredes da sua prisão doméstica, perdido em seus próprios medos. — E se eu estiver atraindo Aline para o lado frio da colina? E se essa necessidade de destruir, usar o amor como uma arma, estiver apenas hibernando em algum lugar dentro de mim e eu mesma não sei? Um presente da minha mãe.
— Olha, eu não sei nada sobre fadas. Não de verdade. Eu não sei qual o negócio com sua mãe, ou o que significa para você ser metade uma coisa e metade outra. Mas sei que o seu sangue não a define. O que te define são as escolhas que você faz. Se aprendi alguma coisa neste ano, é isso. E também sei que amar alguém – mesmo que seja assustador, mesmo quando há consequências – nunca é a coisa errada a se fazer. Amar alguém é o oposto de machucá-la.
Helen sorriu para ele, os olhos cheios de lágrimas não derramadas.
— Pelo bem de ambos, Simon, realmente espero que você esteja certo.


Na terra sob a colina, nos tempos anteriores...
Era uma vez, havia uma fada muito bonita na Corte Seelie que perdeu seu coração para o filho de um anjo.
Era uma vez, havia dois meninos indo à terra dos contos de fadas, irmãos nobres e corajosos. Um irmão teve um vislumbre da dama élfica, e encantado por sua beleza, comprometeu-se a ela. Comprometeu-se a ficar. Este menino era Andrew. Seu irmão, o menino Arthur, não o deixaria seu lado.
E assim os meninos ficaram abaixo da colina, e Andrew amou a fada, e Arthur a desprezou.
E assim, a fada manteve o garoto perto dela, manteve essa bela criatura que jurou sua lealdade a ela, e quando sua irmã reivindicou o outro, a dama o deixou ser levado, como se ele não fosse nada.
Ela deu a Andrew uma corrente de prata para prender no pescoço, um símbolo de seu amor, e ensinou-lhe os caminhos do Povo Belo. Ela dançou com ele em festas sob o céu estrelado. Alimentou-o ao luar e mostrou-lhe como se movimentar pela floresta.
Algumas noites eles ouviram gritos de Arthur, e ela lhe disse que era um animal com dor, e dor era da natureza de um animal.
Ela não mentiu, porque não podia mentir.
Os seres humanos eram animais.
A dor era de sua natureza.
Por sete anos eles viveram em alegria. Ela era dona de seu coração, e ele do dela, e em algum lugar além, Arthur gritou e gritou. Andrew não sabia; a dama não se importava; e assim eles foram felizes.
Até o dia em que um irmão descobriu a verdade sobre o outro.
A dama pensou que seu amante enlouqueceria com o seu sofrimento e culpa. E assim, porque amava o rapaz, teceu-lhe uma história de verdades fraudulentas, uma história que o faria querer acreditar. Que tinha sido enfeitiçado para amá-la; que ele nunca traíra seu irmão; que ele era apenas um escravo; que os sete anos de amor tinham sido uma mentira.
A fada libertou o irmão inútil e permitiu-o acreditar que ele mesmo tinha liberado. Submeteu-se ao inútil ataque de irmão e permitiu-lhe acreditar ele a tinha matado.
A dama renunciou ao seu amante e o deixou fugir.
E a fada viu os frutos secretos de sua união e os beijou, tentou amá-los. Mas eles eram apenas um pedaço de seu garoto. Ela queria tudo dele, ou nada.
Como ela havia lhe dado sua história, ela lhe deu seus filhos.
Ela não tinha mais nada para viver, assim, não viveu mais.
Esta é a história que ela deixou para trás, a história que seu amante nunca vai conhecer; a história que sua filha nunca vai saber.
Assim é como uma fada ama: com todo seu corpo e alma. Assim é como uma fada ama: com a ruína.
Eu te amo, ela disse a ele, noite após noite, por sete anos. Fadas não podem mentir, e ele sabia disso.
Eu te amo, ele disse a ela, noite após noite, por sete anos. Os seres humanos podem mentir, e por isso ela o deixou acreditar que ele mentiu para ela, e deixou o irmão dele e seus filhos acreditarem que ela morreu na esperança de que acreditariam para sempre.
Assim é como uma fada ama: com um presente.

43 comentários:

  1. Q férias mais tristes, não acreditei no começo q ele APERTOU. A MAO. DELA
    Simon, por que fez isso?

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  2. Como assim, 'com um presente'? Ah, e Feliz Natal, Karina! Que nosso próximo ano seja farto com livros novos!

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    1. Como um presente, as fadas amam completamente, se dão completamente - fazem tudo pela pessoa amada, mesmo que isso signifique deixá-la ir embora acreditando em outra coisa, se for o melhor para ela
      Obrigada e espero que vc tenha tido um bom Natal :)

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  3. Sorvete-de-chocolate25 de dezembro de 2015 18:50

    Nossa, que... história trágica... É de dar revolta o jeito como tratam Helen, e, como Simon mesmo disse, nem todas as fadas são más, ou pelo menos, nem todas participaram do ataque em que muitos morreram. Não sei o porque dele não ter explicado a história de Mark Blackthorn para a Beatriz...

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    1. Bem, ele provavelmente não queria sair falando por aí da vida dos outros...

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  4. Eu queria que ao menos Helen soubesse a história verdadeira ;( coitado de Arthur, a culpa não foi de Andrew porque ele não sabia disso, mas mesmo assim... Arthur acabou sendo torturado porque não quis deixar o irmão, e ele nunca teria passado por isso de Andrew não tivesse se apaixonado por lady Nerissa... Como será que a mãe de Helen e de Mark amava Andrew? Queria que Cassandra Clare escrevesse uma história do ponto de vista de uma fada...

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    1. Verdade! Só ta faltando as fadas...

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  5. Cara esse conto foi muito depressivo.E esse final meldels!

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  6. Caraca.... Tô pasma com a historia dos pais da Helen... e também muuito feliz pela Izzy e o Simon��!! Valeu Karinaa!! Já li muuito por aqui, adoro o blog e tô me matando de ansiedade pra ler os próximos contos!!

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    1. Née, quem imaginaria qualquer uma dessas versões? As duas foram chocantes :o
      De nada, Ludmila, que nós continuemos sempre por aqui :)

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  7. uau!
    esse capitulo foi incrível!
    e FINALMENTE o Simon e a Izzy pararam de enrolar!
    vlw pela postagem karina =3

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  8. Pobre da mãe de Helen... me deu uma dor no coração. Eu meio que concordava um pouco com os Caçadores de Sombras e achava que a única coisa que diferenciava Helen e Mark, os faziam melhores, era o fato de que eles eram metade Caçadores de Sombras e isso que fazia a diferença. Mas depois desse final eu estou me remoendo de culpa.

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    1. Né, eu também sempre pensei assim. O importante é que eles têm sangue de Caçador de Sombras, que é dominante, e eles amam os irmãos... aí chega esse fim e me dá uma dó T_T

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  9. Amei, amei e amei...até agora o meu favorito!
    Não somente por Simon e Isabelle!
    Mais pela história do nascimento de Helen e seu irmão...perfeito!

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  10. Não entendi o título... Se refere ao Povo das Fadas?

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    1. Sim! É a referência aos elfos/fadas na poesia que Helen recitou "Pálidos reis eu vi e também príncipes"

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    2. O engraçado é que ela usa também esse poema para fazer referência aos vampiros. O título desse conto é o mesmo do capítulo 10 de Anjo Mecânico. Achei interessante... Aí tem coisa.

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  11. Star Wars: A Guerra dos Clones
    Simon Lewis, te garanto que eu não teria dormido durante esse filme.

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  12. Finalmente esses dois se acertaram!!!!! Amei, bom demais ler isso!!

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  13. caraca! isso foi simplesmente incrível, essa parte... Bem no finalzinho... eu Amo esses livros, é tudo tão interligado tudo tem um significado... Artifícios das Trevas vai ser louco °o°

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  14. Morri com esse final. Serio.. Sem palavras.mds.
    Ai genteee Isabelle e Simon ❤️❤️❤️❤️
    Amei esse capituloo, quero mais 😍

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  15. Que triste essa história...

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  16. A clave é extremamente retardada por tratar a Helen desse jeito! AFF :(

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  17. Nossa, de longe um dos melhores contos!!

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  18. Esse é o meu conto favorito!
    Odeio a Clave, mas amo Simon! Ele e Izzy são o meu casal favorito do mundo dos caçadores de sombras!
    Achei a história da fada triste e linda ao mesmo tempo!

    As: Danizinha

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  19. Eu realmente odeio a Clave. Tipo eu sei q a Paz Fria é uma forma de punir o povo das fadas,mas eu sempre achei q podiam existir fadas boas. Me deu mt pena da Helen e do Mark pq eles não fizeram nada e tão sendo tratados como se fossem o inimigo. Izzy e Simon❤

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  20. Nossa que final deprimente!
    ass: Bina.

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  21. Também gostaria de ler a historia desse amor 💓 de fadas sob o ponto de vista delas seria interessante bjus Karina.

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  22. O melhor foi o final. A real história do pai de Hellen e a fada. Bem emocionante mesmo!

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  23. Estou pensando muito sobre injustiça, é injusto a maior parte das coisas que li nesse capítulo, me pergunto porque mesmo nos livros as coisas não podem ser simples como Simon bem pensa, existe sempre a lei a politica a cima de vidas, ate quando seremos burros intolerantes e inflexíveis e tão difícil aceitar o próximo não é o erro dos outros são sempre maiores que o nosso, não importa o'que ele passou minha dor sempre superará a dele, eu entendo a questão de se perguntar porque ser um casador de sombras é recorrente a Simon, pois eu me questiono todos os dias porque sou um ser humano e me afirmo melhor que outras espécies e as vezes ajo como se fosse melhor que minha própria espécie sabe eu não sou muito confiável para falar de justiça, mas mesmo assim eu não quero ser uma vida sem propósito eu não quero aceitar que as coisas são assim e sempre vão ser simplesmente me dizem para não questionar porque tudo é como é e pronto, me sinto infeliz de ter que mastigar essa mentira todos dias incrivelmente é pior que a sopa da academia, mas e mais fácil se deixar ir do que lutar entendo Robert, bom mas não é da minha personalidade me entregar, não quais lutas terei que lutar, nem sei como lutar nem o motivo para lutar, eu sinto a dor de amar tudo isso os reis e os príncipes pálidos, as prostitutas, a escória e a elite, pessoas verdes e azuis, fadas, pessoas, vidas talvez isso seja um problema mas eu preciso fazer algo por eles por mim pelas vidas

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  24. Eu acho que vou chorar, todos os Shadowhunters deveriam saber o que essa fada fez, o amor dela foi tão forte. Ela fez ele acreditar que tinha sido obrigado a ficar, e fez ele acreditar nas mentiras, eu chorei muito, é lindo demais!

    Sizzy S2

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  25. Isso me deprime, sério é deprimente. É muito triste. A história real dos dois, o fato de que Helen nunca saberá a real verdade do que aconteceu, como a fada se sacrificou por Andrew...Oh,é realmente injusto o tratamento que a Clave deu as fadas, são muito orgulhosos, preconceituosos, os donos da razão. Sim, as fadas teriam que ser punidas pela morte de vários Nephilims, mas não aquelas punições,é tudo na base da humilhação, e as fadas também são um povo orgulhoso,é uma tremenda estupidez isso, desse jeito só vão criar uma guerra!E foi totalmente absurdo o que fizeram a Helen e Mark, desistir dele, mandá-la pra "Sibéria", como se eles tivessem culpa, quando seriam um dos mais leais ao caçadores e sua causa, fazem parte dela. Parece que querem se extingir! Enfim, estou muito ansiosa por TDA pra ver como isso se desenvolverá. E por último, Sizzy! Dios! Estava eu aqui com um sorriso de orelha a orelha impossível de se desmanchar. Até que enfim, menino pra enrolar kkkkk Ufa! Fui..

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  26. Que capítulo espetacular, que livro incrivel...Sem mais comentários..

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  27. Que conto triste, nossa fiquei deprimido,kkkk, sem dúvida Simon e Izzy deveriam ter mais livros.

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  28. "Simon sabia que nunca pararia de cair, sabia que agora que ele a tinha agarrado novamente, ele nunca a deixaria ir." Amei ♥. Essa última parte me pegou desprevenida. Amei o conto, odeio a Clave, amo a Helen e espero que ela seja feliz.

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  29. \(*•*)/
    Sem palavras!!!! ♥♥♥

    Ass.: Mutta Chase Heyes

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  30. cada vez mais amando as referencas, e tambem ja estava cansada de esperar, tava demorando demais pra eles se entenderem amo muito os dois

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  31. E no final a verdadeira historia n era a da Hellen.... Bem só a parte do tio sendo torturado
    É uma história triste, se o tio dela n tivesse sofrido os pais dela estariam juntos mas aí n teria jules, ty, livvy, tavvy e dru. Então foi bom o divórcio da fada

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  32. Pobre Helen... :'( a história de seus pais mds me partiu o coração. Ain Sizzy 4ever, amooo muito esse casal!

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