5 de dezembro de 2015

O Mal que Amamos



Todo o mal começa em algum lugar, e Simon Lewis aprende como o Círculo – liderado por Valentim Morgenstern – começou. A Academia dos Caçadores de Sombras presencia a perigosa ascensão do Círculo. Agora, a escola pode finalmente admitir o que aconteceu quando Valentim era um estudante.


Havia, Simon Lewis achava, muitas maneiras de destruir uma carta. Você podia rasgá-la em confete. Podia botar fogo nela. Podia dá-la de comer a um cachorro – ou um demônio Hydra. Você podia, com a ajuda do amigável feiticeiro da vizinhança, ir de Portal para o Havaí e jogá-la na boca de um vulcão.
E com todas as possíveis opções para destruir uma carta, Simon achava que o fato de Isabelle Lightwood devolver sua carta intacta talvez tivesse algum significado. Talvez fosse até um bom sinal.
Ou pelo menos um sinal não completamente horrível.
Isso, pelo menos, era o que Simon havia falado para si mesmo durante os últimos meses.
Mas até ele tinha que admitir que quando a carta em questão era meio que uma carta de amor, uma carta que incluía sentimentos, frases humilhantes como “você é incrível” e “sei que sou aquele cara que você amava” – e quando essa carta era devolvida fechada, e com “DEVOLVER AO REMETENTE” escrito com batom vermelho – “não completamente horrível” pode ser até um pouco otimista demais.
Pelo menos ela tinha se referido a ele como “remetente”. Simon tinha certeza de que Isabelle pensara em outros nomes para ele não tão amigáveis. Um demônio tinha sugado todas as suas memórias, mas sua capacidade de observação estava intacta – e ele observara que Isabelle Lightwood não era o tipo de garota que gostava de ser rejeitada. Simon, em desafio a todas as leis da natureza e do senso comum, a rejeitara duas vezes.
Ele tinha tentado se explicar na carta, se desculpar por tê-la afastado. Tinha confessado como queria voltar a ser a pessoa que uma vez fora. O Simon dela. Ou pelo menos, um Simon que a merecia.
Izzy... eu não sei por que você esperaria por mim, mas se o fizer, prometo que valerá a pena, ele tinha escrito. Ou tentarei fazer com que valha. Posso prometer que vou tentar.

* * *

Um mês depois do dia que ele a enviou, a carta voltou não lida.
Assim que a porta do dormitório rangeu ao abrir, Simon rapidamente enfiou a carta de volta na gaveta da mesinha, com cuidado para evitar teias de aranha e mofos que revestiam todos os móveis, não importa o quanto ele limpasse. Ele não tinha se movido rápido o suficiente.
— A carta de novo? — o companheiro de quarto de Simon na Academia, George Lovelace, resmungou. Ele se jogou na cama, colocando um braço dramaticamente em sua cabeça. — Oh, Isabelle, minha querida, se eu encarar essa carta por muito tempo, talvez eu vá telepaticamente trazê-la de volta para o meu seio chorando.
— Eu não tenho seios — disse Simon, com o máximo de dignidade possível. — E tenho certeza de que se eu tivesse, não estariam chorando.
— Arfando, então? Isso é o que seios fazem, não é?
— Eu nunca passei muito tempo perto deles — Simon admitiu.
Pelo menos, não que ele se lembrasse. Houve aquela tentativa abortada de tocar os de Sophie Hillyer na nona série, mas a mãe dela o pegou antes que ele pudesse achar o fecho de seu sutiã, muito menos dominá-lo. Aparentemente, houve Isabelle. Mas Simon tentava não pensar muito nisso esses dias. O fecho do sutiã de Isabelle, as mãos dele no corpo de Isabelle, o gosto de...
Simon balançou a cabeça violentamente para limpá-la.
— Nós podemos para de falar sobre seios? Tipo, para sempre?
— Não tive a intenção de interromper o seu importante momento “remoendo Izzy”.
— Eu não estou remoendo — Simon mentiu.
— Excelente — George sorriu triunfante, e Simon percebeu que ele tinha caído em algum tipo de armadilha. — Então você vai comigo para o campo de treinamento ajudar a roubar as novas adagas. Nós estamos disputando, mundanos contra a elite – perdedores têm que comer porções extras de sopa por uma semana.
— Ah sim, Caçadores de Sombras realmente sabem como se divertir.
O coração dele não estava no sarcasmo. A verdade era que seus companheiros estudantes realmente sabiam como se divertir, mesmo que a ideia deles de diversão normalmente envolvesse armas afiadas. Com os exames já tendo passado e apenas mais uma semana até a festa de fim de ano e as férias de verão, a Academia dos Caçadores de Sombras parecia mais com um acampamento do que com uma escola. Simon não conseguia acreditar que ele ficara lá durante todo o ano escolar, não conseguia acreditar que tinha sobrevivido o ano. Ele aprendera latim, escrita de runas e um pouco de Chthoniano, lutara contra pequenos demônios na floresta, suportara uma noite de lua cheia com um lobisomem recém-nascido, montara (e quase fora pisoteado) à cavalo, comeu o seu peso em sopa, e em todo esse tempo, não tinha sido nem expulso nem aleijado. Ele tinha crescido o suficiente para trocar seu uniforme de combate feminino por um masculino, mesmo que o menor disponível.
Contra todas as probabilidades, a Academia tinha começado a parecer com o seu lar. Um lar viscoso, mofado, parecido com um calabouço e sem banheiros que funcionam talvez, no entanto, seu lar. Ele e George tinham até dado nomes para os ratos que viviam atrás de suas paredes. Todas as noites eles deixavam um pedaço de pão velho para Jon Cartwright Jr, III e IV mordiscarem, na esperança de eles preferirem as migalhas a pés humanos.
  Essa última semana era tempo para celebrar e festejar até tarde, apostas mesquinhas sobre lutas de adagas. Mas Simon não conseguia encontrar a vontade de se divertir. Talvez fosse a iminente sombra das férias de verão – a expectativa de ir para casa, para um lugar que não parecia mais como sua casa.
Ou talvez fosse, como sempre, Isabelle.
— Definitivamente você vai se divertir mais aqui, mal humorado — George disse enquanto ele colocava seu uniforme de combate. — Bobagem minha sugerir outra coisa.
Simon suspirou.
— Você não entenderia.
George tinha o rosto de uma estrela de cinema, sotaque escocês, bronzeado natural e o tipo de músculos que faziam as garotas – até as garotas da Academia dos Caçadores de Sombras, que, aparentemente, até conhecerem Simon nunca tinham encontrado um humano do gênero masculino sem um tanquinho – darem risadinhas e desmaiarem. Problemas com garotas, particularmente o tipo envolvendo humilhação e rejeição, estavam além da compreensão dele.
— Só para deixar claro — George disse, com um forte sotaque escocês que até Simon não conseguia não achar charmoso — você não lembra nada sobre namorar essa garota? Você não se lembra de estar apaixonado por ela, não lembra como foi quando vocês dois...
— Isso mesmo — Simon o cortou.
— Ou até se vocês dois...
— De novo, correto — Simon disse rapidamente.
Ele odiava admitir, mas isso era uma das coisas que mais o incomodava sobre a amnésia demoníaca. Que tipo de garoto de dezessete anos não sabe se é ou não virgem?
— Porque você está aparentemente com poucas células cerebrais. Você diz para essa garota linda que esqueceu tudo sobre ela, a rejeita publicamente e, quando mostra o seu amor para ela em alguma patética carta romântica, fica surpreso que ela não esteja aceitando. Então você passa os próximos dois meses desejando-a. Isso está certo?
Simon deixou a cabeça cair em suas mãos.
— Está bem, quando você fala desse jeito, não faz nenhum sentido.
— Oh, eu vi Isabelle Lightwood – faz todo o sentido no mundo — George riu. — Eu só queria esclarecer os fatos.
 Ele saiu pela porta antes que Simon pudesse esclarecer que não era sobre a aparência de Isabelle – embora fosse verdade que ela era, para Simon, a garota mais bonita do mundo. Mas não era sobre sua cortina de cabelos pretos sedosos ou o castanho infinito de seus olhos ou a graça fluída e mortal com a qual ela balançava o seu chicote de electrum. Ele não conseguiria explicar sobre o que era, já que George estava certo, ele não se lembrava de nada sobre ela ou o que os dois tinham sido como um casal. Ele ainda não conseguia acreditar que eles foram um casal.
Ele só sabia, em um nível abaixo da razão e memória, que alguma parte dele estava ligado a Isabelle. Talvez até pertencesse a Isabelle. Quer ele lembrasse porque ou não.
Ele tinha escrito uma carta à Clary também, contando para ela como ele queria lembrar da amizade deles – pedindo ajuda. Ao contrário de Isabelle, ela havia respondido, contando para ele histórias de como eles se conheceram. Foi a primeira de muitas cartas, todas elas adicionando episódios para a épica vida de excelentes aventuras de Clary e Simon. Quanto mais Simon lia, mais ele lembrava, e às vezes até escrevia de volta com histórias dele. Parecia seguro, de alguma maneira, corresponder por carta; não havia a chance de Clary esperar nada dele, e nenhuma chance de ele desapontá-la, ver a dor nos olhos dela quando ela percebesse de novo que o Simon dela não existia mais. Carta por carta, as memórias de Clary que Simon tinha estavam começando a se unir.
Isabelle era diferente. Parecia que suas memórias de Isabelle estavam enterradas dentro de um buraco negro – algo perigoso e voraz, ameaçando consumi-lo se chegasse muito perto.
Simon viera para a Academia, em parte, para escapar de sua confusa e dolorosa visão dupla do passado, a desarmonia cognitiva entre a vida que ele lembrava e a que ele tinha realmente vivido. Era como a piada boba e velha que seu pai adorava.
— Doutor, meu braço dói quando eu mexo assim — Simon dizia, movendo-o.
Seu pai respondia em um ruim sotaque alemão, sua versão da “voz do doutor”:
— Então... não o mova assim.
Enquanto Simon não pensasse no passado, o passado não poderia machucá-lo. Mas, cada vez mais, ele não podia se impedir.
Havia muito prazer na dor.

* * *

As aulas podiam ter acabado nesse ano, mas a Academia ainda achava novas maneiras de torturá-los.
— O que você acha que é dessa vez? — Julie Beauvale perguntou enquanto eles sentavam nos bancos de madeira desconfortáveis do salão principal.
Todos os estudantes, tanto Caçadores de Sombras quanto mundanos, foram convocados no início da manhã de segunda-feira para um encontro de toda a escola.
— Talvez eles tenham finalmente resolvido expulsar toda a escória — Jon Cartwright disse. — Antes tarde do que nunca.
Simon estava cansado demais e sem um pingo de cafeína para pensar em uma resposta esperta. Então ele simplesmente disse:
— Vai se danar, Cartwright.
George bufou.
Nos últimos meses de aulas, treinamento e desastres caçando demônios, a turma deles tinha ficado muito próxima – especialmente o punhado de alunos de idade próxima a de Simon. George era George, claro; Beatriz Mendoza era surpreendentemente doce para uma Caçadora de Sombras; e até Julie acabou sendo um pouco menos esnobe do que de costume. Por outro lado, Jon Cartwright...
No momento em que eles se conhecerem, Simon se decidiu que se as aparências fossem iguais às personalidades, Jon Cartwright se pareceria com o traseiro de um cavalo. Infelizmente não existia justiça no mundo, e ele se parecia com um boneco do Ken. Às vezes primeiras impressões eram enganadoras, às vezes refletiam a alma da pessoa. Simon estava tão certo agora quanto sempre esteve: a alma de Jon parecia o traseiro de um cavalo. 
Jon deu um tapinha arrogante no ombro de Simon.
— Vou sentir falta das suas respostas inteligentes nesse verão, Lewis.
— Espero que você seja comido por uma aranha demoníaca nesse verão, Cartwright.
George deslizou um braço pelos dois, rindo como um maníaco e cantarolando:
— Conseguem sentir o amor essa noite?
George tinha, talvez, abraçado o espírito de celebração um pouco entusiasmadamente tarde.
Na frente do salão, a reitora Penhallow limpava sua garganta alto, olhando diretamente na direção deles.
— Talvez nós pudéssemos ter um pouco de silêncio, por favor?
As pessoas no salão continuavam conversando, e a reitora Penhallow continuava limpando a garganta e pedindo de maneira nervosa por ordem. As coisas podiam ter continuado assim a manhã toda se Delaney Scarsbury, mestre de treinamento deles, não tivesse subido em uma cadeira.
— Nós teremos silêncio, ou senão cem flexões — ele disparou.
O local silenciou rapidamente.
— Suponho que todos vocês ficaram se perguntando como vão se manter ocupados agora que os exames acabaram? — a Reitora Penhallow falou, sua voz se elevando no final da frase. A reitora tinha um jeito de transformar quase tudo em uma pergunta.  — Acho que todos vocês reconhecem o palestrante dessa semana?
Um intimidante homem em um manto cinza caminhou até o palco temporário. O salão arfou. Simon arfou também, mas não foi a aparência do Inquisidor que o deixado chocado. Era a garota se arrastando atrás dele, olhando furiosamente para o manto dele como se esperasse botar fogo nele com sua mente. A garota com uma cortina de cabelos pretos sedosos e olhos castanhos infinitos: a filha do Inquisidor. Conhecida como Isabelle Lightwood para amigos, família e ex-namorados rejeitados de forma humilhante.
George deu uma cotovelada nele.
— Você está vendo o que eu estou vendo? — ele sussurrou. — Quer um lenço?
Simon não conseguia não se lembrar da última vez que Izzy tinha aparecido na Academia com o rápido proposito de avisar todas as garotas da escola para ficarem longe dele. Ele havia ficado horrorizado. Agora, não conseguiria imaginar nada melhor. Mas Isabelle não parecia inclinada a falar nada para a classe. Ela simplesmente sentou atrás de seu pai, os braços cruzados, irritada.
— Ela é ainda mais bonita quando está brava — Jon sussurrou.
Com um milagroso triunfo de moderação, Simon não furou o olho dele com uma caneta.
— Vocês estão quase completando seu primeiro ano na Academia — Robert Lightwood disse ao amontoado de alunos, de alguma maneira fazendo isso soar menos como uma parabenização do que com uma ameaça. — Minha filha me disse que um dos grandes heróis dos mundanos tem uma frase, “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
Simon ficou boquiaberto. Só havia uma maneira de Isabelle Lightwood, tão longe de uma nerd por quadrinhos como uma pessoa podia ser, saber uma fala – mesmo uma conhecida – do Homem Aranha. Ela estava citando Simon.
Isso tinha que significar alguma coisa... Certo?
Ele tentou capturar o olhar dela.
Ele falhou.
— Vocês aprenderam muito sobre poder esse ano — Robert Lightwood continuou. — Essa semana vou falar com vocês sobre responsabilidade. E isso acontece quando o poder não é conferido, ou é livremente dado à pessoa errada. Eu vou falar sobre o Círculo.
Com essas palavras, um silêncio correu pelo salão. A Academia, como a maior parte dos Caçadores de Sombras, era muito cuidadosa em evitar o assunto do Círculo – o grupo de Caçadores de Sombras do mal que Valentim Morgenstern liderara na Revolta. Os estudantes sabiam sobre Valentim – todo mundo sabia sobre Valentim – mas eles aprenderam rapidamente a não perguntar muito sobre ele. No último ano, Simon tinha entendido que os Caçadores de Sombras preferiam acreditar que suas escolhas eram perfeitas, que suas leis eram infalíveis. Eles não gostavam de pensar sobre quando foram quase destruídos por um grupo deles próprios.
Isso explicava, pelo menos, porque a reitora estava dando esta aula, e não a professora de história, Catarina Loss. A feiticeira parecia tolerar a maior parte dos Caçadores de Sombras – duramente. Simon suspeitava de que quando a aula era sobre ex-integrantes do Círculo – duramente – era pedir muito.
Robert limpou a garganta.
— Eu gostaria que todos vocês se perguntassem o que teriam feito se fossem estudantes aqui na época de Valentim. Teriam entrado para o Círculo? Teriam ficado do lado de Valentim na Revolta? Levante sua mão se você acha que seria possível.
Simon não ficou surpreso em não ver nenhuma mão levantada. Ele já tinha jogado esse jogo na escola mundana – toda vez que a aula de história era sobre a Segunda Guerra Mundial, ninguém nunca achava que seria um nazista.
Simon também sabia que, estatisticamente, a maioria deles estava errada.
— Agora, eu gostaria que você levantasse a mão se você se acha um Caçador de Sombras exemplar, que faria qualquer coisa para servir a Clave — Robert disse.
Sem surpresas, muito mais mãos foram levantadas dessa vez, a mais alta era de Jon Cartwright.
Robert sorriu melancólico.
— Eram aqueles mais ansiosos e leais de nós que foram os primeiros a se juntar a Valentim — ele lhes contou. — Eram aqueles de nós mais dedicados à causa dos Caçadores de Sombras que nos encontramos como a presa mais fácil.
Houve um murmúrio na multidão.
— Sim. Eu falei nós, porque eu estava entre os discípulos de Valentim. Eu estava no Círculo.
O sussurro se transformou em uma tempestade. Alguns estudantes não pareciam surpresos, mas vários deles agiam como se uma bomba nuclear tivesse acabado de explodir em seus cérebros. Clary havia contado a Simon que Robert Lightwood era um membro do Círculo, mas era obviamente difícil para algumas pessoas conciliarem isso com a posição de Inquisidor que esse alto e temível homem agora tinha.
— O Inquisidor? — Julie respirou, com os olhos arregalados. — Como o deixaram…?
Beatriz parecia surpresa.
— Meu pai sempre disse que tinha alguma coisa errada com ele — Jon murmurou.
— Essa semana ensinarei a vocês sobre o uso impróprio do poder, sobre grandes males e como isso pode ter várias formas. Minha talentosa filha, Isabelle Lightwood, ajudará um pouco com o trabalho da aula.
Ele fez um gesto para Isabelle, que olhou rapidamente para a multidão, seu olhar cruel ficando impossivelmente ainda mais cruel.
— Acima de tudo, vou ensinar vocês sobre o Círculo, como ele começou e por que. Se prestarem atenção, alguns de vocês talvez até aprendam alguma coisa.
Simon não estava ouvindo. Ele encarava Isabelle, esperando que ela olhasse para ele. Isabelle encarava seu pé estudiosamente. E Robert Lightwood, o Inquisidor da Clave, árbitro de tudo relacionado à Lei, começou a contar a história de Valentim Morgenstern e aqueles que uma vez o amaram.

* * *

1984
Robert Lightwood se esticou na quadra, tentando não pensar em como ele teria passado essa semana no ano anterior. Os dias depois dos exames e antes das férias de verão eram, tradicionalmente, uma libertação bêbada de energia armazenada, a aptidão mostrando-se de outro jeito quando os alunos forçavam as regras da Academia até o limite. Um ano antes, ele e Michael Wayland tinham saído do campus no meio da noite e corajosamente tomaram um proibido banho pelado no Lago Lyn. Mesmo com seus lábios completamente selados, a água teve o seu efeito alucinógeno, fazendo o céu ficar elétrico. 
  Eles deitaram-se de costas lado a lado, imaginando estrelas cadentes entalhando faixas brilhantes pelas nuvens e sonhando sobre eles em um mundo estranho.
Isso foi a um ano atrás, quando Robert ainda se imaginava jovem, livre para perder o seu tempo com prazeres infantis. Antes de ele ter entendido que, jovem ou não, ele tinha responsabilidades.
Isso tinha sido um ano atrás, antes de Valentim.
Os membros do Círculo tinham optado por esse silencioso e escuro canto da quadra, onde estavam salvos de olhares curiosos – e aonde eles, por sua vez, se poupariam da visão de seus colegas tendo sua diversão inútil e sem sentido. Robert lembrou a si mesmo de que ele era sortudo por estar amontoado aqui na sombra, ouvindo Valentim Morgenstern declamar.
Era um privilégio especial, ele lembrou a si mesmo, ser parte do grupinho de Valentim, privado às suas ideias revolucionárias. Um ano antes, quando Valentim havia inexplicavelmente feito dele seu amigo, ele não tinha sentido nada além de imensa gratidão e desejo em insistir em todas as palavras de Valentim.
Valentim dizia que a Clave era corrupta e preguiçosa, e que nesses dias ela se preocupava mais em manter o seu estado atual e de maneira fascista suprimir a discórdia a executar nossa nobre missão.
Valentim dizia que os Caçadores de Sombras deveriam parar de se esconder na escuridão e andar orgulhosamente pelo mundo mundano em que viviam e morriam para proteger.
Valentim dizia que os acordos eram inúteis e que o Cálice Mortal foi feito para ser usado, que a nova geração era a esperança do futuro e que as aulas da Academia eram perda de tempo.
Valentim fazia o cérebro de Robert zunir e seu coração cantar; ele fazia Robert se sentir como um guerreiro da justiça. Como se ele fosse parte de alguma coisa, alguma coisa extraordinária – como se ele e os outros tivessem sido escolhidos, não só por Valentim, mas pelo destino, para mudar o mundo. Valentim também fazia Robert se sentir desconfortável.
Valentim queria a inquestionável lealdade do Círculo. Ele queria que a crença nele, a sua convicção pela causa, enchessem suas almas. E Robert queria desesperadamente dar isso a ele. Não queria questionar a lógica ou a intenção de Valentim, não queria se preocupar que ele acreditava muito pouco nas coisas que Valentim dizia. Ou que acreditava demais. Hoje, mergulhado na luz do sol, a infinita possibilidade do verão se abrindo à sua frente, ele não queria se preocupar nem um pouco. Então, enquanto Valentim falava, Robert deixou sua mente viajar, só por um instante. Melhor se desconectar do que duvidar. Só por agora, seus amigos poderiam escutar por ele, falar para ele o que aconteceu mais tarde. Não era para isso que serviam os amigos?
Havia oito deles hoje, o círculo mais íntimo do Círculo, todos sentados em silêncio enquanto Valentim falava alto sobre a bondade da Clave para com os integrantes do Submundo: Jocelyn Fairchild, Maryse Trueblood, Lucian e Amatis Graymark, Hodge Starkweather, e, claro, Michael, Robert e Stephen.
Mesmo Stephen Herondale sendo a mais nova adição ao grupo – e a mais nova adição à Academia, havia chegado do Instituto de Londres no início do ano – ele era também o mais devotado à causa, e a Valentim.
Chegara à Academia vestido como um mundano: jaqueta de couro com tachinhas, calça jeans apertada, cabelo loiro com gel ridiculamente espetado como as estrelas de rock mundanas que tinham pôsteres nas paredes do dormitório. Apenas um mês depois, Stephen adotara não só o visual simples todo preto de Valentim, mas também suas maneiras, então a única grande diferença entre eles era o cabelo loiro branco de Valentim e os olhos azuis de Stephen. Primeiro ele havia se livrado de todas as suas coisas mundanas e destruído o seu amado pôster do Sex Pistols em uma fogueira sacrificial.
— Herondales não fazem nada pela metade — Stephen dissera quando Robert o provocou por causa disso, mas Robert suspeitava que houvesse alguma coisa por trás do tom sem preocupações. Alguma coisa escura – alguma coisa voraz. Valentim, ele havia percebido, tinha um dom especial para escolher discípulos, focando nos estudantes que tinham algum tipo de carência, algum vazio interno que ele pudesse preencher.
Diferentemente do resto de sua gangue de pessoas que não se encaixavam, Stephen era aparentemente completo: um Caçador de Sombras bonito, gracioso, muito qualificado com um pedigree diferenciado e tinha o respeito de todos no campus. Isso fazia Robert se perguntar... o que havia que só Valentim conseguia enxergar?
Seus pensamentos tinham ido tão longe que quando Maryse arfou e disse em voz baixa: “Isso não vai ser perigoso?”, ele não sabia do que ela estava falando.
Apesar disso, ele apertou sua mão tranquilizadoramente, como se fosse para isso que serviam os namorados. Maryse estava deitada com a cabeça em seu colo, seu cabelo preto sedoso espalhado pelo jeans dele. Ele tirou o cabelo do rosto dela, um privilégio de namorados.
Fazia quase um ano, mas Robert ainda achava difícil de acreditar que aquela garota – essa garota feroz, graciosa e ousada com a mente como uma lâmina de barbear – tinha escolhido ele como dela. Ela deslizava pela Academia como uma rainha, concedendo auxílio, cedendo ao desejo de demonstrar seus assuntos. Maryse não era a garota mais bonita da classe, e certamente não era a mais doce ou mais charmosa.
Ela não ligava para coisas como doçura e charme. Mas quando o assunto era campo de batalha, ninguém era melhor em atacar o inimigo, e certamente ninguém era melhor com o chicote. Maryse era mais que uma garota, ela era uma força.
As outras garotas a admiravam, os garotos a queriam – mas só Robert a tinha.
Isso havia mudado tudo.
Às vezes, Robert sentia como se sua vida inteira fosse uma interpretação. E que era só uma questão de tempo até que seus colegas estudantes vissem através dele e percebessem o que ele realmente era, abaixo de todo os músculos e arrogância: covarde. Fraco. Inútil. Ter Maryse ao seu lado era como vestir uma armadura. Ninguém como ela escolheria alguém inútil. Todo mundo sabia disso. Às vezes até Robert acreditava.
Ele amava como ela o fazia sentir quando estavam em público: forte e seguro. E ele amava ainda mais como ela o fazia sentir quando estavam sozinhos, quando pressionava seus lábios na nuca dele e quando traçava a língua pelo arco de sua espinha. Ele amava a curva de seu quadril, o sussurro de seu cabelo; amava o brilho em seus olhos quando ela entrava em combate. Ele amava o gosto dela. Então por que quando ela dizia “eu te amo”, ele se sentia um mentiroso por responder o mesmo? Por que ocasionalmente – talvez mais que ocasionalmente – ele pensava em outras garotas, como seria o gosto delas?
Como ele podia amar o modo que Maryse o fazia sentir... e ainda estar tão incerto de que o que ele sentia era amor?
Ele havia começado a olhar os outros casais em volta dele disfarçadamente, tentando descobrir se eles se sentiam da mesma maneira, se suas declarações de amor mascaravam a mesma confusão e dúvida. Mas a maneira com que Amatis apoiava sua cabeça confortavelmente no ombro de Stephen, o jeito com que Jocelyn despreocupadamente entrelaçava seus dedos aos de Valentim, até a maneira com que Maryse preguiçosamente brincava com as costuras desfiadas do jeans dele, como se as roupas e o corpo dele fossem propriedade dela... todos eles pareciam tão certos de si mesmos. Robert só estava certo de quão bom ele havia ficado em fingir.
— Nós deveríamos nos vangloriar do perigo, se isso significar ter uma chance de acabar com os sujos e desonestos seres do Submundo — Valentim disse, brilhando. — Mesmo que esse bando de lobos não tenha uma pista do monstro que... — ele engoliu duramente, e Robert sabia no que ele estava pensando, porque parecia que nesses dias isso era tudo em que Valentim pensava, a fúria irradiando dele como se o pensamento estivesse escrito em fogo, o monstro que matou meu pai. — Mesmo que não tenha, nós estaremos fazendo um favor à Clave.
Ragnor Fell, o feiticeiro de pele verde que era professor na Academia por quase um século parou no meio do caminho da quadra e olhou para eles, quase como se pudesse ouvir sua discussão.
Robert garantia que isso seria impossível. Mesmo assim, ele não gostava da maneira com que os feiticeiros olhavam torto para eles, como se estivessem fazendo um alvo.
Michael limpou a garganta.
— Talvez a gente não devesse falar assim sobre integrantes do Submundo aqui fora.
Valentim bufou.
— Espero que essa cabra velha me ouça. É uma desgraça o deixarem ensinar aqui. O único lugar que existe para um ser do Submundo na Academia é na mesa de dissecação.
Michael e Robert trocaram um olhar. Como sempre, Robert sabia exatamente o que seu parabatai estava pensando – e Robert pensava a mesma coisa. Valentim, quando eles o conheceram, era uma figura elegante com seu cabelo branco ofuscante e seus ardentes olhos pretos. Suas feições eram suaves e afiadas ao mesmo tempo, como gelo esculpido, mas embaixo da aparência intimidante havia um garoto surpreendentemente calmo levado à raiva somente pela injustiça. Sim, Valentim sempre tinha sido intenso, mas uma intensidade inclinada a fazer o que ele acreditava ser certo, o que era bom. Quando Valentim disse que queria corrigir as injustiças impostas a eles pela Clave, Robert acreditou nele, e ainda acreditava. E enquanto Michael tinha uma bizarra fraqueza por integrantes do Submundo, Robert não gostava deles mais do que Valentim, não conseguia imaginar por que, nessa época, a Clave ainda permitia que feiticeiros interferissem nos assuntos dos Caçadores de Sombras.
Mas tinha uma diferença entre intensidade lúcida e raiva irracional. Robert esperava há um tempo que o luto raivoso de Valentim acabasse. Ao invés disso, tinha acendido um inferno.
— Então você não vai nos contar aonde conseguiu sua informação — Lucian disse, o único além de Jocelyn que podia questionar Valentim com impunidade — mas quer que a gente saia escondido do campus e cace esses lobisomens nós mesmos? Se tem tanta certeza de que a própria Clave quereria tomar conta deles, por que não deixar para eles?
— A Clave é inútil — Valentim replicou. — Você sabe disso melhor que ninguém, Lucian. Mas se nenhum de vocês está disposto a se arriscar por isso – se preferirem ficar aqui e ir a uma festa... — a sua boca se curvou como se até falar a palavra causasse nojo nele. — Eu vou sozinho.
Hodge empurrou seus óculos para cima do nariz e levantou pulando.
— Eu vou com você, Valentim — ele disse alto, muito alto. Era o jeito de Hodge – ou muito alto ou muito baixo, sempre entendendo errado o que estava acontecendo. Tinha uma razão para ele preferir livros a pessoas. — Eu estou sempre do seu lado.
— Sente-se — Valentim repreendeu. — Eu não preciso que você se meta no meio.
— Mas...
— Quão boa é a sua lealdade a mim quando ela vem com uma boca grande e dois pés esquerdos?
Hodge empalideceu e sentou no chão novamente, os olhos piscando furiosamente atrás de lentes grossas.
Jocelyn colocou uma mão no ombro de Valentim – sempre tão gentil, e só por um momento, mas foi suficiente.
— Eu quis dizer, Hodge, que suas habilidades são desperdiçadas no campo de batalha — Valentim disse, mais gentilmente. A mudança em seu tom era abrupta, mas sincera. Quando Valentim o favorecia com o seu sorriso mais sincero, era impossível de resistir. — E eu não conseguiria me perdoar se você se machucasse. Eu não posso... eu não posso perder mais ninguém.
Estavam todos em silêncio, por um momento pensando em como aconteceu rápido, a reitora tirando Valentim do campo de treinamento para dar a notícia, a maneira como ele havia a recebido, em silêncio e estável, como um Caçador de Sombras deveria. Como ele se parecia quando voltou ao campus depois do funeral, seus olhos vazios, a pele amarelada, seu rosto envelhecido em anos em uma semana. Seus pais eram todos guerreiros, e eles sabiam: o que Valentim tinha perdido, qualquer um deles podia perder. Ser um Caçador de Sombras era viver à sombra da morte.
Eles não podiam trazer o pai dele de volta, mas podiam ajudá-lo a vingar a perda, certamente deviam isso a ele.
Robert, pelo menos, o devia tudo.
— Claro que iremos com você — Robert disse firmemente. — Qualquer coisa que você precisar.
— Concordo — Michael confirmou. Aonde quer que Robert fosse, ele sempre o seguiria.
Valentim acenou com a cabeça.
— Stephen? Lucian?
Robert viu Amatis revirando os olhos. Valentim nunca tratou a mulher com nada menos do que respeito, mas quando o assunto era campo de batalha, ele preferia lutar com homens ao seu lado.
Stephen concordou com a cabeça. Lucian, que era parabatai de Valentim e em quem ele mais confiava, falou que não podia desconfortavelmente.
— Eu prometi à Celine que seria o tutor dela hoje de noite — ele admitiu. — Claro que posso cancelar, mas...
Valentim acenou com a mão, rindo, e os outros o seguiram em conjunto.
— Tutor? É assim que estão chamando isso hoje em dia? — Stephen provocou. — Parece que ela já tirou a nota máxima em envolver você nos dedos.
Lucian corou.
— Nada está acontecendo lá, confie em mim — ele falou, e era provavelmente a verdade.
Céline, três anos mais nova, com as frágeis, delicadas e bonitas feições de uma boneca de porcelana, seguia o grupo deles como um cachorrinho perdido. Era óbvio para qualquer um que tivesse olhos que ela era apaixonada por Stephen, mas ele era um caso perdido, completamente comprometido à Amatis. Ela havia escolhido Lucian como seu prêmio de consolação, mas era óbvio que Lucian não tinha interesse em ninguém além de Jocelyn Fairchild. Óbvio, isto é, para todo mundo além de Jocelyn.
— Nós não precisamos de você dessa vez — Valentim disse ao Lucian. — Fique e aproveite.
— Eu deveria ir com você — falou Lucian, a animação desaparecida de sua voz. Ele soava aflito com o pensamento de Valentim se aventurando em um território perigoso sem ele, e Robert entendia.
Parabatai nem sempre lutavam lado a lado – mas saber que seu parabatai estava em perigo, sem você lá para ajudar e protegê-lo? Isso causava quase dor física. E o laço de parabatai de Valentim e Lucian era ainda mais forte que a maioria. Robert quase podia sentir a corrente de poder fluindo entre eles, a força e o amor que eles passavam para frente e para trás com cada olhar.
— Onde fores, irei.
— Já está decidido, meu amigo — Valentim disse, e simples assim, era.
Lucian ficaria na Academia com os outros. Valentim, Stephen, Michael e Robert escapariam do campus depois de escurecer e se aventurariam na Floresta Brocelind em busca de um acampamento de licantropos que, supostamente, poderia levá-los ao assassino do pai de Valentim. Eles pensaram no resto no caminho.
Enquanto os outros se apressavam para ir ao salão para o almoço, Maryse pegou a mão de Robert e o puxou para perto.
— Você vai ser cuidadoso lá fora, tudo bem? — ela disse seriamente.
Maryse dizia tudo seriamente – era uma das coisas que ele mais gostava sobre ela.
Ela pressionou seu corpo ágil contra o dele, beijou seu pescoço, e ele sentiu naquele momento uma sensação passageira de confiança suprema, que era lá a que ele pertencia... pelo menos, até ela sussurrar:
— Venha para casa, para mim em um só pedaço.
Venha para casa, para mim. Como se ele pertencesse a ela. Como se, na cabeça dela, eles já fossem casados, com uma casa, crianças e uma vida juntos, como se o futuro deles já estivesse decidido.
Era o apelo de Maryse, como era o apelo de Valentim, a facilidade com qual eles podiam ter tanta certeza do que poderia ser, e do que viria. Robert continuava esperando que um dia isso o atingisse. Nesse meio tempo, quanto menos certeza ele tivesse, com mais certeza agiria – ninguém precisava saber a verdade.

* * *

Robert Lightwood não era muito bem um professor. Ele falava de modo ordenado, dando uma explicação do início do Círculo, expondo os princípios revolucionários de Valentim como se fossem uma lista de ingredientes de um bolo particularmente doce. Simon, que estava, em vão, gastando toda a sua energia para se comunicar com Isabelle telepaticamente, mal ouvia. Ele se encontrou amaldiçoando o fato de que Caçadores de Sombras eram tão arrogantes sobre todo o fato de não-fazemos-mágica. Se ele fosse um feiticeiro, provavelmente conseguiria chamar a atenção com o estalar de um dedo. Ou, se ainda fosse um vampiro, poderia usar seus poderes vampirescos para enfeitiçá-la – mas isso era uma coisa sobre a qual Simon preferia não pensar, porque isso fazia aparecer algumas perguntas inquietantes sobre como ele conseguiu encantá-la em primeiro lugar.
O que ele ouviu da história de Robert não o interessou muito. Simon nunca tinha gostado muito de história, pelo menos não de como ela era transmitida a ele na escola. Soava muito como um panfleto, tudo simplesmente exposto e dolorosamente óbvio em retrospecto. Todas as guerras tinham suas causas óbvias, todo ditador megalomaníaco era mau como nos desenhos que você se perguntava quão burras as pessoas do passado eram para não perceber. Simon não se lembrava muito das suas próprias experiências de fazer história, mas se lembrava o suficiente para saber que não era tão simples quando estava acontecendo. História, da maneira que os professores gostavam, era uma pista de corrida, um tiro reto do início até o final da linha, quando de verdade era mais um labirinto.
Talvez a telepatia tivesse funcionado, afinal. Porque quando a palestra terminou e os estudantes foram liberados, Isabelle pulou do palco e caminhou direto até o Simon. Ela deu um aceno cortante.
— Isabelle, eu, uh, talvez a gente possa...
Ela deu um sorriso brilhante para ele que, por um momento, o fez pensar que toda aquela preocupação tinha sido para nada. Então ela falou:
— Você não vai me apresentar para os seus amigos? Especialmente os bonitos?
Simon viu metade da classe se juntando atrás dele, ansiosos para falar com a famosa Isabelle Lightwood. Na frente do bando estavam George e Jon, o último praticamente babando.
Jon andou para a frente de Simon e estendeu uma mão.
— Jon Cartwright, a seu dispor — ele falou em uma voz que soltava charme, como uma bolha solta pus.
Isabelle pegou sua mão – e em vez de derrubá-lo com um golpe de jiu-jítsu humilhante ou arrancar a mão dele do pulso com seu chicote de electrum, ela o deixou pegar a mão dela e levá-la aos lábios. Então ela fez uma reverência. Ela piscou. E o pior de tudo, ela deu uma risadinha.
Simon pensou que talvez pudesse vomitar.
Infinitos minutos de tortura passaram: George corando e fazendo tentativas patetas de piadas, Julie chocada e sem palavras, Marisol fingindo estar acima de tudo, Beatriz atraindo uma conversa sem graça, mas educada conversa rápida sobre conhecidos das duas, Sunil se balançando na parte de trás da multidão tentando ser visto, e, acima de tudo, Jon dando um sorriso falso e Isabelle brilhando e piscando seus olhos em uma exibição que só podia ser feita para fazer o estômago de Simon revirar.
Pelo menos, ele esperava desesperadamente que fosse feita para isso.
Porque a outra opção – a possibilidade de Isabelle estar sorrindo para Jon simplesmente porque queria, e que ela aceitava o convite dele para apertar seus grandes bíceps porque queria sentir os músculos dele contraindo embaixo de seu aperto delicado – era impensável.
— Então o que as pessoas por aqui fazem para se divertir? — ela perguntou finalmente, então apertou seus olhos flertando com Jon. — E não diga “me veem”.
Eu já estou morto?, Simon pensou sem esperanças. Isso é o inferno?
— Nem as circunstâncias nem as pessoas aqui se provaram favoráveis à diversão — Jon disse pomposamente, como se a algazarra em sua voz pudesse disfarçar o fogo em suas bochechas.
— Tudo isso vai mudar esta noite — disse Isabelle, e então virou-se em seu salto agulha e andou para longe.
George balançou a cabeça, deixando sair um assovio de aprovação.
— Simon, a sua namorada...
Ex-namorada — Jon corrigiu.
— Ela é magnífica — Julie suspirou, e pelo olhar no rosto dos outros, ela estava falando por todo o grupo.
Simon revirou os olhos e correu atrás de Isabelle – estendendo o braço para agarrar seu ombro, então repensando do último momento. Agarrar Isabelle Lightwood por trás provavelmente era um convite para amputação.
— Isabelle — ele disse bruscamente. Ela acelerou. Ele também, imaginando para onde ela estava se dirigindo. — Isabelle — ele chamou novamente.
Eles entraram mais ainda na escola, o ar pesado com umidade e mofo, o chão de pedra  cada vez mais escorregadio embaixo de seus pés. Encontraram uma encruzilhada, ramificações do corredor para a esquerda e para a direita. Ela parou antes de escolher o da esquerda.
— Nós normalmente não vamos por esse caminho — Simon disse. Nada. — Principalmente por causa da lesma do tamanho de um elefante que vive no final dele.
Isso não era um exagero. Dizem que um antigo membro descontente da Academia – um feiticeiro que tinha sido demitido na corrente contra os integrantes do Submundo – deixara o bicho para trás como um presente de partida.
Isabelle continuou andando, mais devagar agora, escolhendo cuidadosamente seu caminho sobre poças infiltradas de gosma. Alguma coisa sacudiu fazendo barulho no alto. Ela não hesitou – mas olhou para cima, e Simon viu seus dedos brincando com o chicote enrolado.
— E também por causa dos ratos — ele completou.
Ele e George tinham ido a uma expedição por esse corredor procurando pela suposta lesma... desistiram depois que o terceiro rato caiu do teto e de alguma maneira encontrou o caminho para a calça de George.
Isabelle deu um forte suspiro.
— Qual é Izzy, espere.
De alguma maneira ele tropeçou nas palavras mágicas. Ela girou seu rosto para ele.
— Não me chame assim — ela vociferou.
— O quê?
— Meus amigos me chamam de Izzy — ela disse. — Você perdeu esse direito.
— Izzy... quer dizer, Isabelle. Se você leu minha carta...
— Não. Não me chame de Izzy, não me mande cartas, não me siga por corredores escuros e tente me salvar de ratos.
— Confie em mim, se nós virmos um rato, é cada um por si.
Isabelle olhou para ele como se quisesse dá-lo de alimento para a lesma gigante.
— O meu ponto, Simon Lewis, é que você e eu somos estranhos agora, exatamente como você queria.
— Se isso é verdade, então o que você está fazendo aqui?
Isabelle parecia incrédula.
— Uma coisa é Jace achar que o mundo gira em dele, mas vamos lá. Eu sei que você adora fantasia, Simon, mas a suspensão da realidade só pode ir até certo ponto.
— Essa é a minha escola, Isabelle. E você é a minha...
Ela só o encarou, como se estivesse desfiando-o a pensar em um substantivo que justificasse o pronome possessivo.
Isso não estava indo da maneira que ele havia planejado.
— Tudo bem, então por que você está aqui? E por que está sendo tão legal com todos os meus, hã, amigos?
— Porque meu pai está me forçando a estar aqui. Porque eu acho que ele pensa que um desagradável tempo criando laços de pai e filha em um fosso coberto de gosma vai fazer eu me esquecer que ele é um traidor que abandonou sua família. E estou sendo legal com os seus amigos porque eu sou uma pessoa legal.
Agora era Simon que parecia incrédulo.
— Tudo bem, eu não sou — ela admitiu. — Mas nunca vim realmente para a Academia, você sabe. Pensei que se eu tenho que estar aqui, devo tirar o melhor disso. Ver o que estou perdendo. É informação suficiente para você?
— Entendo que você esteja brava comigo, mas...
Ela balançou sua cabeça.
— Você não entende. Eu não estou brava com você. Não estou nada com você, Simon. Você me pediu para aceitar que você é uma pessoa diferente agora, alguém que não conheço. Então eu aceitei isso. Eu amei alguém – ele se foi agora. Você não é ninguém que eu conheça e, que eu saiba, ninguém que eu precise conhecer. Só serão alguns dias, e então nós nunca mais vamos precisar nos ver. Que tal nós não tornarmos isso mais difícil do que já é?
Ele não conseguia respirar muito bem.
Eu amei alguém, ela disse, e era o mais perto que ela – ou qualquer garota – já tinha chegado de dizer eu te amo para Simon.
Exceto que não era nem um pouco perto, era?
Estava a um mundo de distância.
— Tudo bem.
Eram as únicas palavras que ele conseguiu forçar para fora, mas ela já estava andando pelo corredor. Ela não precisava da permissão dele para ser uma estranha, não precisava de nada dele.
— Você está indo pelo caminho errado! — ele gritou para ela.
Não sabia para onde ela queria ir, mas não tinha muita chance de ela querer ir lutar com uma lesma.
— Eles estão todos errados — ela gritou de volta, sem se virar.
Ele tentou captar um significado oculto nas palavras dela, um lampejo de dor. Algo que mostraria que sua declaração era uma mentira, trairia os sentimentos que ela ainda tinha por ele – provar que isso era difícil e confuso para ela como era para ele.
Mas a suspensão da realidade só pode ir até certo ponto.

* * *

Isabelle disse que queria aproveitar o máximo seu tempo na Academia, e havia proposto que eles não tornassem isso mais difícil do que precisava ser. Infelizmente, logo Simon descobriu que essas duas coisas eram mutuamente exclusivas. Porque a versão de Isabelle de aproveitar ao máximo envolvia Isabelle esticada como um gato no sofá de couro mofado da sala e cercada por alunos bajuladores, Isabelle tomando o estoque ilícito de uísque do George e convidando os outros a fazerem o mesmo, então logo todos os amigos e inimigos de Simon estavam bêbados, tontos e muito bem humorados para o gosto dele. Fazer a melhor das coisas aparentemente significava encorajar Julie a flertar com George e ensinar Marisol como golpear uma estátua com um chicote e, o pior de tudo, concordar em “talvez” ser o par de Jon Cartwright para a festa de fim de ano no final da semana.
Simon não sabia se nada disso era mais difícil do que deveria ser – quem sabia o que se qualificava como precisava ser? – mas era torturante.
— Então, quando a diversão de verdade começa? — Isabelle finalmente perguntou.
Jon mexeu as sobrancelhas.
— Só fale a palavra.
Isabelle riu e tocou o ombro dele.
Simon imaginou se a Academia o expulsaria por matar Jon Cartwright enquanto ele dormia.
— Não esse tipo de diversão. Eu quero dizer, quando saímos escondidos do campus? Ir festejar em Alicante? Nadar no Lago Lyn? Ir… — ela parou, finalmente notando que os outros estavam olhando boquiabertos para ela como se ela estivesse falando em outra língua. — Vocês estão me dizendo que não fazem nada disso?
— Nós não estamos aqui para nos divertir — Beatriz falou, meio rigidamente. — Estamos aqui para aprender a ser Caçadores de Sombras. Existem regras por um motivo.
Isabelle revirou os olhos.
— Vocês não ouviram falar que regras são feitas para ser quebradas? Estudantes deveriam entrar em alguns problemas na Academia – pelo menos os melhores estudantes. Por que vocês acham que regras são tão rígidas? Para só os melhores conseguirem quebrá-las. Pensem nisso como crédito extra.
— Como você sabe? — Beatriz perguntou. Simon ficou surpreso com seu tom. Normalmente ela era a mais calada deles, sempre deixando fluir. Mas havia uma ponta em sua voz agora, algo que o lembrava de que, mesmo gentil como ela parecia, nascera uma guerreira. — Não é como se você fosse ficar aqui.
— Eu venho de uma longa linhagem de graduados na Academia — Isabelle disse. — Eu sei o que eu preciso saber.
— Nós não estamos interessados em seguir os passos de seu pai — Beatriz respondeu, então se levantou e saiu da sala.
O silêncio permaneceu, todos tensos esperando a reação de Isabelle.
O sorriso dela não vacilou, mas Simon conseguia sentir o calor irradiando dela e entendeu que estava gastando muita energia para ela não explodir – ou ter um colapso. Ele não sabia qual seria; não sabia como ela se sentia sobre seu pai ter sido um dos seguidores de Valentim. Não sabia nada sobre ela, não de verdade. Ele admitia isso. Mas ainda queria abraçá-la até a tempestade passar.
— Ninguém nunca acusou meu pai de ser divertido — Isabelle disse categoricamente. — Mas eu assumo que minha reputação me segue. Se vocês me encontrarem aqui amanhã à meia-noite, vou mostrar o que vocês estão perdendo — ela pegou a mão de Jon e permitiu que ele a levantasse do sofá. —Agora, você pode me mostrar o caminho para o meu quarto? Esse lugar é simplesmente impossível de se achar.
— Será um prazer — Jon disse, piscando para Simon.
Então eles haviam ido.
Juntos.

* * *

Na manhã seguinte, a sala ecoava com bocejos e gemidos de ressacas e buscas (infrutíferas) por café e gordura. Enquanto Robert Lightwood começava sua segunda aula, algum tedioso discurso sobre a natureza do mal e uma análise ponto por ponto das críticas de Valentim sobre os acordos, Simon tinha que ficar se beliscando para se manter acordado. Robert era possivelmente a única pessoa no planeta que conseguia deixar uma história sobre o Círculo bastante chata. Não tinha ajudado o fato de Simon ter ficado acordado até o amanhecer se remexendo no colchão tentando tirar imagens de Isabelle e Jon de sua cabeça.
Alguma coisa estava acontecendo com ela, Simon tinha certeza. Talvez não fosse sobre ele – talvez fosse sobre o pai dela ou um problema restante de estudar em casa ou talvez só alguma coisa de garota que ele não conseguia compreender, mas ela não estava agindo normalmente.
Ela não é sua namorada, ele continuava se lembrando. Mesmo que alguma coisa estivesse errada, não era mais trabalho dele concertar. Ela pode fazer o que quiser. E se o que ela queria era Jon Cartwright, não valia perder uma noite de sono por ela em primeiro lugar.
Ao nascer do sol, ele já havia quase se convencido disso. Mas lá estava ela de novo, no palco atrás de seu pai, seu feroz olhar inteligente evocando todos aqueles sentimentos irritantes de novo.
Não eram exatamente memórias. Simon não conseguia nomear um filme que eles haviam assistido juntos, não sabia da comida preferida de Isabelle ou de piadas internas, não sabia como era beijá-la ou entrelaçar seus dedos aos dela. O que ele sentia quando olhava para ela era mais profundo do que isso, residindo em algum lugar no fundo de sua mente. Ele sentia como se a conhecesse, por dentro e por fora. Sentia como se tivesse a visão raios-X do Super-Homem e pudesse olhar para sua alma. Ele sentia aflição, perda e confusão, se sentia como um homem das cavernas com a necessidade de abater um javali e colocá-lo aos pés dela, sentia a necessidade de fazer algo incrível e a crença de que, na presença dela, ele conseguiria.
Sentia algo que nunca tinha sentido antes – mas tinha a sensação penetrante de que o reconhecia de qualquer jeito.
Tinha certeza de que o que ele sentia era amor.

* * *

1984
Valentim fazia aquilo parecer fácil para eles. Ele conseguiu a permissão d reitor para uma viagem de campo “educacional” na Floresta Brocelind – dois dias e noites livres para fazer o que eles quisessem, desde que resultasse em algumas páginas rabiscadas sobre o poder curativo das plantas selvagens.
Por tudo isso, com suas perguntas desconfortáveis e teorias rebeldes, Valentim deveria ser a ovelha negra da Academia de Caçadores de Sombras. Ragnor Fell com certeza o tratava como uma criatura gosmenta que saiu de baixo de uma rocha e voltaria para lá com pressa. Mas o resto da escola parecia cego pelo magnetismo pessoal de Valentim, não conseguiam – ou não queriam – ver o desrespeito que havia embaixo. Ele tinha escapado de prazos e matado aulas muitas vezes, com as desculpas sendo nada mais do que um rápido sorriso. Algum outro estudante provavelmente seria grato pela liberdade, mas isso só fazia Valentim odiar mais seus professores – cada exceção que a escola abria para ele era mais uma evidência de fraqueza.
Ele não tinha hesitava em aproveitar as consequências disso.
A alcateia de lobisomens, de acordo com a informação de Valentim, estava escondida no antigo solar Silverhood, uma ruína antiga no coração da floresta. O último Silverhood havia morrido em batalha duas gerações antes, seu nome era usado para assustar crianças Caçadoras de Sombras. A morte de um soldado era algo lamentável, contudo, a ordem natural das coisas. A morte de uma linhagem era inimaginável.
Talvez todos eles estivessem secretamente apreensivos sobre isso, essa missão ilícita que parecia cruzar uma linha invisível. Eles nunca tinham atacado integrantes do Submundo sem a expressa permissão de seus superiores; já haviam quebrado regras, mas nunca tinham ficado tão perto que quebrar a Lei antes.
Talvez eles só quisessem passar mais algumas horas como adolescentes normais antes de irem tão longe que não conseguiriam mais voltar.
Por qualquer razão, os quatro fizeram seu caminho pela floresta com uma falta de velocidade proposital, montando o acampamento para a noite a cerca de oitocentos metros da propriedade Silverhood. Valentim decidira que eles passariam o dia vigiando o acampamento de lobisomens, medindo suas forças e fraquezas, mapeando os costumes do bando, e atacariam quando a noite caísse, quando a alcateia tivesse saído para caçar. Mas esse era um problema para o dia seguinte. Naquela noite eles sentaram em volta da fogueira, tostaram salsichas sobre as chamas saltitantes e relembraram seus passados e falaram sobre seus futuros, que ainda parecia impossivelmente longe.
— Eu vou me casar com Jocelyn, claro — disse Valentim — e nós vamos criar nossas crianças em uma nova era. Elas não serão enrolados pelas corruptas Leis da Clave fraca e chorona.
— Claro, porque nessa época já estaremos controlando o mundo — Stephen disse, brilhando.
O sorriso amargo de Valentim fez isso parecer menos com uma piada do que com uma promessa.
— Vocês não conseguem ver? — Michael falou. — Papai Valentim, afundado em fraldas. Cheio de crianças.
— Quantas Jocelyn quiser — a expressão de Valentim suavizou, como sempre acontecia quando ele falava o nome dela. Eles só estavam juntos há dois meses – desde que o pai dele morreu – mas ninguém questionava que eles ficariam juntos para sempre. A maneira com que ele olhava para ela... como se ela fosse de um tipo diferente do resto deles, um tipo melhor. “Você não percebe?” Valentim lhe dissera, mais cedo, quando Robert o perguntou como ele podia estar tão certo do amor, tão cedo. “Há mais do Anjo nela do que no resto de nós. Há bondade nela. Ela brilha como o próprio Raziel.”
— Você só quer transbordar o mundo de genes — Michael respondeu. — Imagino que você pense que o mundo seria melhor se cada Caçador de Sombras tivesse um pouco de Morgenstern neles.
Valentim riu.
— Já falei que falsa modéstia não é uma das minhas qualidades, então... sem comentários.
— Enquanto estamos nesse assunto — Stephen disse, suas bochechas corando. — Eu pedi a Amatis. E ela disse sim.
— Pediu o quê? — Robert perguntou.
Michael e Valentim só riram, as bochechas de Stephen pegaram fogo.
— Para se casar comigo — ele admitiu. — O que vocês acham?
A pergunta era obviamente direcionada a todos eles, mas o seu olhar estava fixo em Valentim, que hesitou por um tempo muito longo antes de responder.
— Amatis? — ele perguntou finalmente, franzindo a testa como se ele tivesse que pensar seriamente no assunto.
Stephen prendeu a respiração, e naquele momento, Robert quase achou que era possível que ele precisasse da aprovação de Valentim – que apesar de fazer o pedido para Amatis, apesar de amá-la tão profunda e desesperadamente que ele quase tremia com emoção quando ela chegava perto, apesar de escrever aquela abominável canção de amor que Robert uma vez encontrou amassada de baixo de sua cama, Stephen a deixaria de lado se Valentim mandasse.
Naquele momento, Robert quase achou que era possível que Valentim mandasse, só para ver o que aconteceria.
Então o rosto de Valentim relaxou em um grande sorriso selvagem, e ele jogou um braço em volta de Stephen, dizendo:
— Já era hora. Eu não sei o que você estava esperando, seu tolo. Quando se tem sorte suficiente de ter um Graymark ao seu lado, faça o que puder para garantir que seja para sempre. Eu deveria saber.
Então todo mundo estava rindo, brindando, planejando a despedida de solteiro e provocando Stephen sobre suas poucas tentativas em escrever músicas, e foi Robert quem se sentiu um idiota, imaginando por um segundo que o amor de Stephen por Amatis podia vacilar, ou que Valentim tinha alguma coisa além dos melhores interesses em seu coração.
Esses eram seus amigos, os melhores que ele podia ter, ou que qualquer um podia ter.
Esses eram seus companheiros em seus braços, e noites como essa, explosões de alegria sob o céu estrelado, eram suas recompensas pela ligação especial que eles tinham.
Imaginar outra maneira era apenas um sintoma da fraqueza secreta de Robert, sua grande falta de convicção, e ele resolveu não se deixar levar por isso novamente.
— E você, meu velho? — Valentim perguntou a Robert. — Como se eu tivesse que perguntar. Todos sabem que Maryse faz o que quer.
— E, inexplicavelmente, ela parece querer você — Stephen adicionou.
Michael, que estava em um silêncio incomum, olhou nos olhos de Robert. Só Michael sabia como Robert não gostava de pensar muito sobre seu futuro, especialmente essa parte dele. Como ele temia ser forçado a se casar, ser pai, ter responsabilidades. Se Robert pudesse escolher, ficaria na Academia para sempre. Fazia pouco sentido. Por causa do que aconteceu quando ele era criança, ele era dois anos mais velho que seus amigos – ele deveria estar irritado com as restrições da juventude.
Mas talvez – por causa do que aconteceu – parte dele sempre se sentiria traída e quereria aquele tempo de volta. Ele passou tanto tempo querendo a vida que tinha agora. Não estava pronto para deixá-la ainda.
— Bem, esse velho aqui está exausto — Robert falou, evitando a pergunta. — Acho que minha tenda está me chamando.
Enquanto eles apagavam o fogo e arrumavam o local, Michael lhe lançou um sorriso grato, tendo sido poupado de sua própria interrogação. Único deles ainda solteiro, Michael não gostava desse tipo de conversa mais que Robert. Era uma das muitas coisas que eles tinham em comum: os dois gostavam mais da companhia um do outro do que a de qualquer garota. Casamento parecia um conceito tão mal orientado, Robert às vezes pensava. Como ele poderia se importar mais com uma esposa do que se importava com seu parabatai, a outra metade de sua alma? Por que deveriam esperar isso dele?
Ele não conseguia dormir.
Quando saiu da tenda para o silêncio que antecedia o amanhecer, encontrou Michael sentado perto das cinzas da fogueira. Ele se virou para Robert sem surpresa, quase como se houvesse esperado seu parabatai se juntar a ele. Talvez houvesse. Robert não sabia se era um efeito do ritual de ligação ou simplesmente a definição de um melhor amigo, mas ele e Michael viviam e respiravam em ritmos similares.
Antes de eles serem colegas de quarto, às vezes se encontravam pelos corredores da Academia, sem sono vagando pela noite.
— Caminhada? — Michael sugeriu.
Robert concordou com a cabeça.
Eles perambularam calados pela mata, deixando os sons da floresta dormindo lavá-los. Chiados de pássaros noturnos, chilreados de insetos, o sussurro do vento mexendo as folhas, o triturar da grama e galhos sob seus pés. Havia perigos espreitando ali, os dois sabiam disso muito bem. Muitas das missões de treinamento da Academia eram na Floresta Brocelind, suas árvores densas úteis como refúgios para lobisomens, vampiros e até alguns demônios, mesmo que a maior parte desses fosse solta pela própria Academia, um último teste para estudantes promissores.
Essa noite a floresta parecia segura. Ou talvez fosse Robert quem se sentia invencível.
Enquanto andavam, ele pensou não na missão que estava por vir, mas em Michael, que havia sido seu primeiro amigo de verdade.
Ele tivera amigos quando era pequeno, supunha. As crianças crescendo em Alicante conheciam umas as outras, e ele tinha vagas memórias de explorar a Cidade de Vidro com pequenos grupos de crianças, seus rostos mutáveis, suas lealdades inexistentes. Como ele mesmo descobriu quando fez doze anos e recebeu sua primeira Marca.
Este era, para a maior parte das crianças Caçadoras de Sombras, um dia de orgulho, um para qual eles ficavam ansiosos e fantasiavam da mesma maneira que crianças mundanas inexplicavelmente fixavam-se em aniversários. Em algumas famílias, a primeira runa era aplicada de maneira rápida e profissional, a criança era Marcada e seguia em frente; em outras, havia festa, presentes, balões e um banquete de celebração.
E, claro, em um pequeno número de famílias, a primeira runa era a última, o toque da estela queimando a pele da criança, levando-a à loucura ou ao choque, uma febre tão intensa que apenas cortar a Marca salvaria sua vida. Essas crianças nunca seriam Caçadoras de Sombras, essas famílias nunca seriam as mesmas.
Ninguém nunca pensou que isso aconteceria com eles.
Com doze anos, Robert havia sido magrelo, mas seguro de si mesmo, rápido para a sua idade, forte para seu tamanho, certo da glória de caçar sombras que o esperava. Com toda a sua família reunida olhando para ele, seu pai cuidadosamente desenhou a runa da Visão na mão de Robert.
A ponta da estela cravou suas linhas graciosas em sua pele pálida. A Marca completa resplandecia, era tanto brilho que Robert fechou seus olhos por causa da claridade.
Essa era a última coisa de que ele se lembrava.
Pelo menos, que ele lembrava claramente.
Depois disso havia tudo o que ele tinha tentado tanto esquecer.
Havia a dor.
Era uma dor que queimava como um relâmpago, a dor que arruinava e inundava como ser levado pela correnteza. Havia a dor no corpo dele, linhas de agonia irradiando da Marca, indo da sua carne para seus órgãos e para seus ossos – e então, muito pior, havia a dor em sua mente, ou talvez fosse sua alma, uma inexplicável sensação de ferimento, como se alguma criatura tivesse cavado até as profundezas de seu cérebro e ficado faminta com o fogo de cada neurônio e encontro de célula nervosa. Machucava pensar, machucava sentir, machucava lembrar – mas parecia necessário fazer essas coisas, mesmo com muita agonia, alguma parte escura de Robert permanecia alerta o suficiente para saber que se ele não ficasse firme, não sentisse a dor, escaparia para sempre.
Mais tarde ele usaria todas essas palavras e mais para descrever a dor, mas nenhuma delas captava a experiência. O que havia acontecido, o que ele havia sentido, isso estava além das palavras.
Haviam outros tormentos para aguentar pela eternidade que ele ficou deitado na cama, insensível a tudo em volta dele, aprisionado pela Marca. Tinha visões. Ele via demônios, insultando-o e torturando-o, e pior, ele via os rostos de quem amava falando que ele não valia a pena, dizendo-lhe que ele estaria melhor morto. Ele via planícies desertas queimadas e uma parede de fogo, a dimensão do inferno esperando-o se sua mente escorregasse, e ainda assim, por tudo isso, de alguma maneira, ele aguentou.
Ele perdeu toda a noção do mundo à sua volta, perdeu suas palavras e seu nome – mas aguentou. Até que finalmente, um mês depois, a dor reduziu. As visões desbotaram. Robert acordou.
Ele descobriu – uma vez que ele havia se recuperado o suficiente para entender e se importar – que tinha ficado semiconsciente por várias semanas enquanto uma batalha acontecia em volta dele, membros da Clave lutando com seus pais sobre seu tratamento em quanto dois Irmãos do Silêncio faziam o seu melhor para mantê-lo vivo.
Todos queriam tirá-lo a Marca, seus pais lhe contaram, os Irmãos do Silêncio avisaram diariamente que essa era a única maneira de assegurar a sua sobrevivência e poupá-lo de dor futura. Deixá-lo viver sua vida como um mundano: esse era um tratamento convencional para Caçadores de Sombras que não suportavam Marcas.
— Nós não podíamos deixá-los fazer isso com você — sua mãe lhe falou.
— Você é um Lightwood. Nasceu para essa vida — seu pai disse a ele. — Essa vida e mais nenhuma.
O que eles não falaram, e nem precisaram falar foi: Nós preferíamos vê-lo morto do que como um mundano.
Depois disso as coisas ficaram diferentes entre eles. Robert era grato aos seus pais por acreditarem nele – ele também preferiria estar morto. Mas isso mudava alguma coisa, saber que o amor de seus pais por ele tinha um limite. E alguma coisa deve ter mudado para eles também, descobrir que parte de seu filho não aguentaria uma vida de Caçador de Sombras, serem forçados a aguentar essa vergonha.
Agora Robert não conseguia mais lembrar como sua família tinha sido antes da Marca. Ele lembrava só dos anos seguintes, da frieza que vivia entre eles. Eles faziam sua parte: pai amoroso, mãe coruja, filho dócil. Mas era na presença deles que Robert mais se sentia sozinho.
Ele ficava, nos meses que passou se recuperando, frequentemente sozinho. As crianças que ele pensava serem seus amigos não queriam nada com ele. Quando eram forçadas a estar em sua presença, elas se intimidavam, como se ele tivesse algo contagioso.
Não havia nada de errado com ele, disseram os Irmãos do Silêncio. Tendo sobrevivido àquela experiência com a Marca intacta, não havia nenhum perigo futuro. Seu corpo balançara à beira da rejeição, mas sua força de vontade mudara o caminho. Quando os Irmãos do Silêncio o examinaram pela última vez, um deles falou sombriamente em sua cabeça, uma mensagem somente para Robert.
Você será tentado a achar que esse acontecimento p marca como fraco. Ao invés disso, lembre-se dele como uma prova de sua força.
Mas Robert tinha doze anos. Seus antigos amigos estavam se marcando com Runas, indo para a Academia, fazendo tudo o que esperava-se que Caçadores de Sombras normais fizessem – enquanto Robert se escondia em seu quarto, abandonado por seus amigos, desprezado por sua família e com medo de sua própria estela. Com tantas evidências para a fraqueza, até um Irmão do Silêncio não podia fazê-lo se sentir forte.
Quase um ano havia se passado dessa maneira e Robert começou a imaginar como seria o resto de sua vida. Ele teria somente o nome de um Caçador de Sombras, um Caçador de Sombras com medo de Marcas.
Às vezes, na escuridão da noite, ele desejava que sua força de vontade não tivesse sido tão forte, que ele tivesse se deixado perder. Seria melhor do que a vida para qual ele havia retornado.
Então ele conheceu Michael Wayland e tudo mudou.
Eles não se conheciam muito bem antes. Michael era uma criança estranha, tinha a permissão de andar com os outros, mas nunca foi muito aceito. Ele era inclinado à distração e deixar a imaginação voar, parando no meio de uma luta para pensar de onde tinham vindo os Sensores e quem pensou em inventá-los.
Michael aparecera no solar Lightwood um dia perguntando se Robert gostaria de passear à cavalo. Eles passaram várias horas galopando pelo campo, e uma vez que eles haviam terminado, Michael disse “Vejo você amanhã” como se fosse uma conclusão inevitável. Ele continuava voltando.
— Porque você é interessante — Michael disse, quando Robert finalmente lhe perguntou o motivo. Essa era outra coisa sobre Michael. Ele sempre falava exatamente o que estava em sua cabeça, não importa quão indelicado ou peculiar. — Minha mãe me fez prometer não te perguntar sobre o que aconteceu com você.
— Por quê?
— Porque isso seria rude. O que você acha? Isso seria rude?
Robert deu de ombros. Ninguém nunca tinha lhe perguntado sobre isso ou se referido ao acontecimento, nem mesmo seus pais. Nunca lhe ocorrera o porquê, ou se isso era ruim. Simplesmente era a maneira que as coisas eram.
— Eu não me importo em ser rude — Michael disse. — Você vai me contar? Como foi?
Era estanho que pudesse ser tão simples. Estranho, que Robert podia estar morrendo de vontade de contar a alguém sem nem perceber. Que tudo o que ele precisava era alguém que perguntasse. As comportas se abriram. Robert falou e falou, e quando parava, com medo de estar indo longe demais, Michael apenas indagava outra coisa.
— Por que você acha que isso aconteceu com você? — Michael perguntou. — Acha que é genético? Ou, tipo, alguma parte de você só não foi feita para ser um Caçador de Sombras?
Isso era, claro, o maior e mais secreto medo de Robert – mas ouvir isso dito tão casualmente desse jeito tirava todo seu poder.
— Talvez? — Robert respondeu, e, ao invés de se afastar dele, os olhos de Michael se iluminaram com uma curiosidade científica.
Ele sorriu.
— Nós deveríamos descobrir.
Eles transformaram isso na missão deles: investigavam em bibliotecas, procuraram por textos antigos, perguntavam coisas que nenhum adulto queria ouvir. Haviam muito poucos registros escritos de Caçadores de Sombras que vivenciaram aquilo – esse tipo de coisa costumava ser um segredo vergonhoso de família, nunca falado novamente. Não que Michael se importasse com quantas pessoas ele irritou ou qual tradições ele derrubou. Ele não era particularmente corajoso, mas parecia não ter medo.
A missão deles falhou. Não havia nenhuma explicação racional de por que Robert tinha reagido tão fortemente à Marca, mas, ao final do ano, isso não importava. Michael havia transformado um pesadelo em um desafio – e tinha se tornado o melhor amigo de Robert.
Eles realizaram o ritual parabatai antes de ir para a Academia, fazendo o juramento sem hesitação. Nessa época, eles tinham quinze anos, um par aparentemente improvável: Robert havia finalmente parado de crescer e alcançara seus colegas, seus músculos cresceram, sua sombra de barba ficando mais grossa a cada dia. Michael era magro e rijo, seus cachos compridos e expressão sonhadora o fazendo parecer mais novo.

“Não insistas comigo para que te abandones
E deixe de seguir-te.
Onde fores, irei;
Onde morreres, morrerei, e lá serei enterrado:
Que o Anjo o faça por mim, e ainda mais,
Se qualquer coisa além da morte nos separar.”

Robert recitou as palavras, mas elas eram desnecessárias. Seu laço havia sido cimentado no dia em que ele fez quatorze anos, quando ele finalmente criou coragem para Marcar-se novamente. Michael foi o único para quem ele contou, e enquanto segurava a estela sobre a pele, foi o olhar constante de Michael que lhe deu coragem para suportar.
Era impensável que eles tivessem só mais um ano antes de terem que se separar. O laço parabatai deles se manteria depois da Academia, claro. Eles sempre seriam melhores amigos; sempre iriam para a batalha lado a lado. Mas não seria a mesma coisa. Eles se casariam, mudariam cada um para suas casas, redirecionariam a atenção e amor. Eles sempre teriam um pedaço na alma um do outro. Mas depois do próximo ano, não seriam mais a pessoa mais importante na vida do outro. Isso, Robert sabia, era simplesmente como a vida funcionava. Assim era crescer. Ele só não conseguia imaginar, e não queria.
Como se estivesse ouvindo os pensamentos de Robert, Michael ecoou a pergunta de que ele havia escapado antes.
— O que realmente está acontecendo entre você e Maryse? — ele perguntou. — Você acha que é de verdade? Tipo, para sempre?
Não havia necessidade de mentir para Michael.
— Eu não sei — respondeu honestamente. — Eu nem sei como isso seria. Ela é perfeita para mim. Eu amo passar tempo com ela, eu amo... você sabe, com ela. Mas isso significa que eu a ame? Deveria, mas...
— Tem alguma coisa faltando?
— Na verdade não entre a gente — Robert disse. — É como se tivesse alguma coisa faltando em mim. Eu vejo com Stephen olha para Amatis, como Valentim olha para a Jocelyn...
— Como Lucian olha para a Jocelyn — Michael adicionou com uma risada irônica.
Eles dois gostavam de Lucian, apesar de sua tendência irritante de agir em favor de Valentim houvesse lhe dado uma aparência além de seus anos. Mas depois de todos esses anos vendo-o desejar Jocelyn, era difícil levá-lo completamente a sério. A mesma coisa para Jocelyn, que de alguma maneira conseguia se manter distraída. Robert não conseguia imaginar como se poderia ser o centro do mundo de alguém sem nem perceber.
— Eu não sei — ele admitiu, imaginando se alguma garota poderia ser o centro de seu mundo. — Às vezes eu me preocupo que haja alguma coisa errada comigo.
Michael bateu sua mão no ombro dele e fixou-lhe com um olhar profundo.
— Não há nada de errado com você, Robert. Eu queria que você finalmente percebesse isso.
Robert chacoalhou sua cabeça, diminuindo o peso do momento.
— E você? — ele perguntou com uma satisfação forçada. — Foram, o quê, três encontros com Eliza Rosewain?
— Quatro — Michael admitiu.
Ele havia feito Robert jurar segredo sobre Eliza, dizendo que não queria que os outros garotos soubessem até ele ter certeza que era de verdade. Robert suspeitava que ele não queria que Valentim soubesse, já que a Eliza era um espinho no pé o Valentim. Ela fazia quase tantas perguntas desrespeitosas quanto ele, e tinha um desdém semelhante pelas políticas atuais da Clave, mas ela não queria ter nada a ver com o Círculo ou seus objetivos. Eliza pensava que um começo novo e unido com os mundanos e integrantes do Submundo era a chave para o futuro. Ela discutia – gritava, e para o desgosto da maior parte da Academia – que os Caçadores de Sombras deveriam estar resolvendo os problemas mundanos. Ela podia várias vezes ser encontrada no pátio, enfiando folhetos indesejados na cara dos alunos, falando alto sobre testes nucleares, tiranos do petróleo no Oriente Médio, alguns problemas que ninguém entendia na África do Sul, alguma doença que ninguém queria aceitar na América... Robert escutava todos os sermões inteiros, porque Michael sempre insistia em ficar para ouvir.
— Ela é muito estranha — Michael disse. — Eu gosto disso.
— Oh — era uma surpresa, uma não completamente agradável. Michael nunca gostava de ninguém. Até agora, Robert não tinha percebido como ele contava com isso.
— Então você deveria ir em frente — ele disse, esperando que tivesse soado sincero.
— Sério? — Michael parecia ainda mais surpreso.
— Sim. Definitivamente — Robert se lembrou: com quanto menos certeza você se sentir, com mais certeza você age. — Ela é perfeita para você.
— Oh — Michael parou de andar e sentou em baixo da sombra de uma árvore.
Robert se jogou no chão atrás dele.
— Posso te perguntar uma coisa, Robert?
— Qualquer coisa.
— Você já se apaixonou? De verdade?
— Você sabe que eu nunca me apaixonei. Não acha que eu teria mencionado?
— Mas como pode ter certeza se você não sabe como é? Talvez tenha acontecido e você nem percebeu. Talvez você esteja esperando por alguém que já tenha.
Havia uma parte de Robert que queria que esse fosse o caso, que o que ele sentia por Maryse era o tipo de amor eterno, de almas gêmeas sobre a qual todo mundo falava. Talvez suas expectativas fossem simplesmente muito altas.
— Penso que não tenho certeza — ele admitiu. — E você? Você acha que sabe como é?
— Amor? — Michael sorriu e olhou para suas mãos. — Amor, amor verdadeiro, é ver. Conhecer a parte mais feia de alguém, e amá-la de qualquer maneira. E... eu acho que duas pessoas apaixonadas se transformam em outra coisa, alguma coisa maior do que a soma de suas partes, sabe? Deve ser como criar um mundo novo que existe só para vocês dois. Ser deuses de seu próprio universo de bolso — ele riu um pouco, como se se sentisse bobo. — Isso deve soar ridículo.
— Não — Robert disse, a verdade alvorecendo sobre ele. Michael não falava como alguém que estivesse adivinhando – ele falava como alguém que sabia. Era possível que após quatro encontros com Eliza, ele realmente tivesse se apaixonado? Era possível que o mundo inteiro de seu parabatai tivesse mudado e Robert nem percebera? — Isso soa... legal.
Michael virou a cabeça para encarar Robert, o rosto dele contraiu-se com uma incerteza incomum.
— Robert, tem uma coisa que eu estava querendo te contar... talvez, precisando te contar.
—Qualquer coisa.
Não era a cara de Michael hesitar. Eles contavam tudo um para o outro, sempre tinham contado.
— Eu...
Ele parou e então sacudiu a cabeça.
— O que foi? — Robert pressionou.
— Não, não é nada. Esquece.
O estômago de Robert revirou. É assim que seria agora, que Michael estava apaixonado? Haveria uma nova distancia entre eles, coisas importantes não seriam ditas?
Ele sentia como se Michael estivesse deixando-o para trás, cruzando uma linha para uma terra onde o parabatai dele não podia segui-lo – e por mais que soubesse que não podia culpar Michael, ele não conseguia resistir.

* * *

Simon sonhava que estava de volta no Brooklyn, fazendo um show com o Rilo Kiley para um clube cheio de fãs gritando, quando de repente sua mãe subiu no palco e falou, em um sotaque escocês perfeito:
— Você vai perder toda a diversão.
Simon piscou para acordar, confuso, por um momento, por que estava em um calabouço que cheirava a estrume ao invés de seu quarto no Brooklyn – então, uma vez que recuperou os sentidos, confuso de novo sobre por que ele tinha sido acordado no meio da noite por um escocês de olhos selvagens.
— Tem um incêndio? — Simon perguntou. — É melhor que tenha um incêndio. Ou um ataque de demônios. Preste atenção, eu não estou falando sobre um pequeno demônio de baixo nível. Se você quer me acordar no meio de um sonho sobre ser uma estrela do rock, é melhor ser um Demônio Maior.
— É a Isabelle — George disse.
Simon saltou da cama – ou, pelo menos, corajosamente tentou. Ele ficou um pouco enrolado em seus lençóis, então foi mais como se ele tivesse caído-torcido-despencado da cama, mas eventualmente ele ficou de pé, pronto para entrar em ação. — O que aconteceu com a Isabelle?
— Por que alguma coisa teria acontecido com a Isabelle?
— Você disse... — Simon esfregou os olhos, suspirando. — Vamos começar de novo. Você está me acordando porque...?
— Nós vamos encontrar a Isabelle. Ter uma aventura. Lembra?
— Oh — Simon tinha dado o seu melhor para esquecer sobre isso. Ele escalou de volta para sua cama. — Você pode me contar sobre isso amanhã.
— Você não vem? — George perguntou, como se Simon tivesse dito que passaria o resto da noite fazendo aulas extras com Delaney Scarsbury só para se divertir.
— Você acertou — Simon puxou o cobertor para cima da cabeça e fingiu dormir.
— Mas você vai perder toda a diversão.
— Essa é exatamente a minha intenção — Simon falou.
E apertou seus olhos fechados até que estivesse realmente dormindo.

* * *

Dessa vez ele estava sonhando com uma sala VIP nos bastidores do clube, cheia de champanhe e café, um bando de fãs tentando derrubar a porta para que – no sonho, Simon de alguma maneira sabia que essa era sua intenção – elas pudessem arrancar sua roupa e violentá-lo. Elas batiam na porta, gritando seu nome:
Simon! Simon! Simon...
Simon abriu os olhos para as gavinhas cinza, a luz da madrugada e uma batida rítmica em sua porta, uma garota gritando seu nome.
— Simon! Simon, acorde!
Era Beatriz, e ela não soava muito no humor para violentá-lo.
Sonolento, ele caminhou até a porta e deixou-a entrar. Garotas eram terminantemente proibidas de entrar nos quartos dos garotos depois do toque de recolher, e não era a cara da Beatriz quebrar uma regra assim, de modo que ele imaginou que deveria ser alguma coisa importante (se as batidas e gritos já não sugerissem isso),
— O que há de errado?
— O que há de errado? O que há de errado é que já são quase cinco da manhã e Julie e os outros ainda estão fora em algum lugar com sua namorada estúpida e o que você acha que vai acontecer se eles não voltarem antes da aula da manhã começar e o que podia acontecer com eles lá fora?
— Beatriz, respira. De qualquer maneira, ela não é minha namorada.
— Isso é tudo o que você fala para si mesmo? — ela estava quase tremendo com fúria. — Ela os convenceu a sair escondidos – pelo o que sei, eles beberam seu peso no Lago Lyn e ficaram todos loucos. Pelo o que sei, eles podem estar mortos. Você não se importa?
— Claro que eu me importo — Simon respondeu, notando que estava sozinho no quarto. George também não tinha voltado. Seu cérebro, confuso com o sono, estava funcionando com velocidade mais baixa que o normal. — No ano que vem eu vou trazer uma máquina de café — ele murmurou.
— Simon! — ela bateu as palmas com força, a centímetros de seu rosto. —Foco!
— Você não acha que está sendo um pouco alarmista sobre isso? — Simon perguntou, por mais que Beatriz fosse a garota mais equilibrada que ele já tinha conhecido. Se ela estava alarmada, provavelmente era por uma boa razão – mas ele não conseguia pensar qual deveria ser.
— Eles estão com a Isabelle – Isabelle Lightwood – ela não vai deixar nada ruim acontecer.
— Oh, eles estão com a Isabelle — a voz dela era cheia de sarcasmo. — Eu me sinto oh tão aliviada.
— Qual é, Beatriz. Você não a conhece.
— Eu sei o que vejo — Beatriz falou.
— E o que seria isso?
— Uma garota intitulada rica que não tem que seguir regras, e não se importa com as consequências. O que importa a ela se Julie e Jon forem expulsos daqui?
— O que me importa se Julie e Jon forem expulsos? — Simon resmungou, um pouco alto.
— Você se importa com George — Beatriz apontou. — E Marisol e Sunil. Eles estão todos lá fora em algum lugar, e confiam em Isabelle tanto quanto você parece confiar. Mas estou te falando Simon, isso não parece certo para mim. O que ela disse sobre a Academia querer que a gente estrague tudo e entre em problemas. É mais como se ela quisesse que a gente entrasse em problemas. Ou ela quer alguma coisa. Eu não sei o que é. Mas eu não gosto disso.
Alguma coisa sobre o que ela falou pareceu verdade mais do que ele queria – mas Simon não se deixaria ir até lá. Parecia desleal, e ele já tinha sido desleal o suficiente. Essa semana era sua chance de se provar para Isabelle, mostrar-lhe que eles pertenciam à vida um do outro. Ele não estragaria isso duvidando dela, mesmo que ela não estivesse lá para ver.
— Eu confio na Isabelle — Simon falou para a Beatriz. — Todo mundo vai ficar bem, e tenho certeza de que eles vão voltar antes de sentirem a falta deles. Você deveria parar de se preocupar.
— É isso? Isso é tudo o que você vai fazer?
— O que você quer que eu faça?
— Eu não sei. Alguma coisa!
— Bem, eu estou fazendo alguma coisa — Simon disse. — Vou voltar para a cama. Vou sonhar com café e com uma Fendor Stratocaster nova e se George não tiver voltado pela manhã, falarei para a reitora Penhallow que ele está doente, para que ele não entre em problemas. E aí eu vou começar a me preocupar.
Beatriz bufou.
— Obrigada por nada.
— De nada — Simon gritou. Mas ele esperou até a porta bater atrás dela para fazer isso.

* * *

Simon estava certo.
Quando Robert Lightwood começou sua aula nessa manhã, todos os membros do corpo estudantil estavam lá para ouvir, incluindo um George de olhos bem escuros.
— Como foi? — Simon sussurrou quando seu colega de quarto sentou na cadeira atrás dele.
— Muito incrível — George murmurou.
Quando Simon o pressionou para mais detalhes, George só balançou a cabeça e colocou um dedo nos lábios.
— Sério? Só me conte.
— Eu jurei segredo — George sussurrou. — Mas só vai ficar melhor. Você quer participar, venha comigo hoje de noite.
Robert Lightwood limpou sua garganta alto.
— Eu gostaria de começar a aula de hoje, presumindo que esteja tudo bem para as pessoas do fundo.
George olhou para os lados de maneira selvagem.
— Eles vão servir umbu hoje? Eu estou faminto.
Simon suspirou.
George bocejou.
Robert recomeçou.

* * *

1984
O bando era pequeno, somente cinco lobos. Em sua enganadora forma humana: dois homens, um ainda maior do que Robert, com músculos do tamanho da sua cabeça, o outro corcunda e idoso com tufos de pelos saindo de seu nariz e orelhas, como se seu lobo interior estivesse o invadindo. Uma criança em tranças loiras. A jovem mãe da garota, seus lábios com gloss e curvas onduladas sugerindo pensamentos que Robert sabia que era melhor não falar em voz alta, pelo menos onde Valentim pudesse ouvir. E, finalmente, uma mulher robusta com um bronzeado profundo e uma cara fechada que parecia estar no comando.
Era nojento, Valentim disse, lobisomens sujando uma ilustre mansão de Caçadores de Sombras. Mesmo o solar sendo velho e abandonado há muito tempo – vinhas subindo pelas paredes, ervas daninhas brotando de sua base, uma propriedade uma vez nobre reduzida à ferrugem e escombros – Robert entendeu seu motivo. A casa tinha uma história, fora lar de uma linhagem de destemidos guerreiros, homens e mulheres que arriscaram e eventualmente deram suas vidas para a causa da humanidade, salvar o mundo de demônios. E aqui estavam essas criaturas, infectadas pela força dos demônios – essas criaturas desonestas que tinham violado os Acordos e matado com impulsividade, se refugiando na casa de seus inimigos? A Clave se recusava a lidar com isso. Eles queriam mais evidências – não porque não tinham certeza de que esses lobos eram imundos criminosos violentos, mas porque não queriam lidar com queixas de integrantes do Submundo. Eles não queriam ter que se explicar; não queriam ter que dizer falar: Nós sabíamos que eles eram culpados, então lide com isso. Eles eram, em outras palavras, fracos. Inúteis.
Valentim disse que eles deviam ficar orgulhosos por fazer o trabalho que a Clave não estava disposta a fazer, que eles estavam ajudando as pessoas, mesmo tendo dado a volta nas Leis, e com suas palavras, Robert sentiu seu orgulho florescer. Deixem os outros estudantes da Academia terem suas festas e seus pequenos melodramas da escola. Deixem-nos pensarem que crescer era se formar, casar, ir para reuniões. Isso era crescer, exatamente como Valentim disse. Ver uma injustiça e fazer alguma coisa sobre isso, não importa o risco. Não importa as consequências.
Os lobos tinham um olfato apurado e instintos afiados, mesmo em sua forma humana, então os Caçadores de Sombras foram cuidadosos. Eles se arrastaram pela mansão decaída, espreitaram pelas janelas, esperaram, vigiaram. Planejaram. Cinco lobisomens e quatro jovens Caçadores de Sombras – essas eram chances que até Valentim não queria arriscar. Então eles foram pacientes e cuidadosos.
Eles esperaram até anoitecer.
Era desconcertante olhar para os lobos em sua forma humana, incorporando uma família humana normal, o homem mais jovem lavando a louça enquanto o mais velho fazia chá, a criança sentada de pernas cruzadas no chão fazendo corridas com seus carrinhos de brinquedo. Robert se lembrou de que esses infratores estavam reivindicando uma casa e uma vida que não mereciam – que eles mataram inocentes e podiam ter ajudado a assassinar o pai de Valentim. Mesmo assim, ficou aliviado quando a lua apareceu e eles se transformaram em sua forma monstruosa.
Robert e os outros se misturaram às sombras enquanto em três membros do bando apareciam pelos e caninos, e eles pulavam pela janela quebrada para a noite. Eles saíram para caçar – deixando, como Valentim suspeitou que iriam fazer, seus mais vulneráveis para trás. O homem velho e a criança.
Essas chances eram mais do gosto de Valentim.
Não foi muito uma luta.
Quando os dois lobos restantes registraram o ataque, estavam cercados. Nem tiveram tempo para se transformar. Estava acabado em minutos, Stephen deixando o mais velho inconsciente com uma batida na cabeça, a criança se escondendo no canto, a centímetros da ponta da espada de Michael.
— Nós vamos levar os dois para interrogatório — Valentim falou.
Michael balançou a cabeça.
— Não a criança.
— Os dois são criminosos — Valentim discutiu. — Cada membro desse bando é culpado por...
— Ela é uma criança pequena! — Michael disse, virando-se para seu parabatai em busca de apoio. — Fale para ele que nós não vamos arrastar uma criança para o meio da floresta para atirá-la sob a compaixão da Clave.
Ele tinha um ponto... mas Valentim também tinha. Robert não disse nada.
— Nós não levaremos a criança — Michael falou, e o olhar em seu rosto sugeria que ele estava disposto a apoiar suas palavras com ações.
Stephen e Robert ficaram tensos, esperando a explosão. Valentim não gostava de ser desafiado; tinha pouca experiência com isso. Mas ele somente suspirou e deu um triste sorriso.
— É claro que não. Não sei em que eu estava pensando. Então só o velho. A não ser que vocês tenham uma objeção a isso também?
Ninguém tinha objeção, e o velho inconsciente era pele e osso, seu peso mal era notável nos ombros largos de Robert. Eles trancaram a criança em um armário, então carregaram o homem pela floresta, de volta ao acampamento.
Eles o amarraram em uma árvore.
A corda era tecida com filamentos de prata – quando o velho acordasse, acordaria com dor. Isso provavelmente não o seguraria em sua forma de lobo, não se ele estivesse determinado a escapar. Mas iria atrasá-lo. As adagas de prata fariam o resto.
— Vocês dois, patrulhem um perímetro de um quilômetro — Valentim falou para Michael e Stephen. — Nós não queremos nenhum de seus amiguinhos negligentes o farejando. Robert e eu vamos guardar o prisioneiro.
Stephen acenou com a cabeça severamente, ansioso como sempre para fazer o que Valentim queria.
— E quando ele acordar? — Michael perguntou.
— Quando isso acordar, Robert e eu vamos interrogá-lo sobre seus crimes, e sobre o que ele sabe dos crimes de seus companheiros — Valentim disse. — Uma vez que tenhamos assegurado sua confissão, não vamos entregá-lo para a Clave para sua punição. Isso te deixa satisfeito, Michael?
Ele não parecia ligar para a resposta, e Michael não deu uma a ele.
— Então agora a gente espera? — Robert perguntou, uma vez que eles ficaram sozinhos.
Valentim sorriu.
Quando ele queria, o sorriso de Valentim podia derreter até o coração mais protegido, derretê-lo inteiro. Mas o sorriso que ele deu agora não era caloroso. Era um sorriso frio, e esfriou Robert até a alma.
— Eu estou cansado de esperar — Valentim falou, e pegou uma adaga. A prata pura refletiu a luz da lua.
Antes que Robert pudesse falar alguma coisa, Valentim pressionou o lado achatado da lâmina contra o peito descoberto do homem. Houve um chiado na pele, então um buraco , enquanto o prisioneiro acordou em agonia.
— Eu não faria isso — Valentim disse calmamente, enquanto as feições do velho começaram a se assemelhar com as de um lobo, pelos brotando de seu corpo pelado. — Sim, eu vou te machucar. Mas mude de volta para um lobo e, eu prometo, vou te matar.
A transformação parou tão rapidamente quanto havia começado.
O homem emitiu uma série de tosses torturantes que balançavam seu corpo magro da cabeça aos pés. Ele era magro, tão magro que suas costelas projetavam-se sob a pele pálida. Havia manchas escuras embaixo de seus olhos e apenas alguns tristes fios de cabelo cinza atravessando seu crânio manchado. Robert nunca tinha pensado que um lobisomem podia ficar careca. Em outras circunstâncias, esse pensamento poderia tê-lo divertido.
Mas não havia nada de divertido no som que o homem fazia enquanto Valentim traçava a ponta da adaga de sua clavícula saliente até o umbigo.
— Valentim, ele é só um homem velho — Robert disse de forma hesitante. — Talvez nós devêssemos...
— Ouça seu amigo — o velho falou em uma voz pedinte e baixa. — Eu poderia ser o seu avô.
Valentim o atacou no rosto com o punho da adaga.
— Isso não é nenhum tipo de homem — ele falou para Robert. — É um monstro. E tem feito coisas que não deveria fazer, não é verdade?
O lobisomem, aparentemente percebendo que bancar o velho fraco não iria tirá-lo dessa, se levantou ereto e mostrou os dentes afiados. Sua voz, quando ele falou, tinha perdido seu tremor.
— Quem é você, Caçador de Sombras, para me dizer o que eu posso ou não posso fazer?
— Então você admite — Robert disse ansioso. — Você violou os Acordos.
Se ele confessasse tão facilmente, eles podiam acabar com esse caso infame, entregar o prisioneiro para a Clave, e ir para casa.
— Eu não faço acordos com assassinos e fracos — o lobisomem cuspiu.
— Felizmente, eu não preciso de seu acordo — Valentim disse. — Eu só preciso de informação. Você me diz o que preciso saber e o deixamos ir.
Isso não era o que eles tinham discutido, mas Robert ficou de boca fechada.
— Dois meses atrás, um bando de lobisomens matou um Caçador de Sombras na parte oeste dessa floresta. Onde posso encontrá-los?
— E como eu saberia disso?
O sorriso gelado de Valentim voltou.
— Melhor você saber, porque senão, não será mais útil para mim.
— Então, pensando bem, talvez eu tenha ouvido sobre esse Caçador de Sombras morto que você falou — o lobo latiu uma risada. — Queria ter estado lá para vê-lo morrer. Para provar sua carne doce. É o medo que dá o sabor à carne, sabe. O melhor é quando choram primeiro, um pouco de sal com o doce. E dizem que seu Caçador de Sombras condenado chorou baldes. Esse era covarde.
— Robert, segure a boca dele aberta — a voz de Valentim estava firme, mas Robert conhecia Valentim o suficiente para sentir a fúria por baixo dela.
—Talvez nós devêssemos parar por um momento para...
— Segure a boca dele aberta.
Robert agarrou a mandíbula fraca do homem e a abriu.
Valentim pressionou a parte achatada da adaga na língua do homem e a segurou lá enquanto o grito dele se transformava em um engasgo, enquanto seus músculos esqueléticos inchavam e a pele abria na carne, enquanto a língua borbulhava e empolava, e então, quando o lobo completamente transformado mordia a corda, Valentim cortou a língua fora. Enquanto jorrava sangue da boca dele, Valentim cortou uma linha fina através da região do abdômen do lobo. O corte era preciso e profundo, e o lobo caiu no chão, intestinos saindo de sua ferida.
Valentim pulou em cima da criatura que se contorcia, esfaqueando-o e cortando, rasgando seu couro, esfolando a carne até o osso, mesmo quando a criatura acabava e tinha espasmos horríveis embaixo deles, mesmo quando a luta acabou, mesmo quando seu olhar ficou vazio, mesmo quando seu corpo quebrado retomou a forma humana, deitado na terra sangrenta, o rosto de um homem velho sangrento e pálido sem vida para o céu da noite.
— Basta — Robert continuava dizendo, baixo, inutilmente. — Valentim, já basta.
Mas ele não fez nada para pará-lo.
E quando seus amigos voltaram da patrulha e acharam Valentim e Robert em cima do corpo desentranhado, ele não contrariou a versão de Valentim dos eventos: o lobisomem tinha se soltado da corda e tentado escapar. Eles tiveram resistido a uma batalha feroz, matado em autodefesa.
O esboço da história era, tecnicamente, verdade.
Stephen deu batidinhas nas costas de Valentim, sendo solidário com ele por ter perdido uma pista para o assassino de seu pai. Michael fixou seu olhar em Robert, sua pergunta tão clara como se tivesse falado em voz alta.
O que realmente aconteceu?
O que você deixou acontecer?
Robert desviou o olhar.

* * *

Isabelle o estava evitando. Beatriz estava furiosa com ele. Todos os outros zuniam com muito entusiasmo sobre a aventura da noite anterior e o segredo. Julie e Marisol eram as únicas ecoando a enigmática promessa de George – que algo bom estava no horizonte, e se Simon queria saber sobre isso, teria que se juntar a eles.
— Não acho que Isabelle vá me querer lá — disse a Sunil enquanto eles escolhiam cautelosamente através da pilha de formas que lembravam vagamente vegetais na hora do almoço.
Sunil balançou a cabeça e sorriu. O sorriso mal se encaixava em seu rosto; Sunil com um sorriso era como um klingon vestindo tutu. Ele era menino extraordinariamente sombrio que parecia considerar o bom ânimo como um sinal de falta de seriedade, e tratava as pessoas nesse sentido.
— Ela nos disse para convencê-lo a aparecer. “O que for preciso”, nas palavras dela. Então me diga, Simon — o sorriso inquietante cresceu. — O que vai precisar?
— Você nem mesmo a conhece — Simon ressaltou. — Por que de repente está tão disposto a fazer o que ela lhe diz para fazer?
— Nós estamos falando sobre a mesma garota aqui, certo? Isabelle Lightwood?
— Sim.
Sunil balançou a cabeça em maravilha.
— E você ainda precisa perguntar?
Então essa era a nova ordem: o culto a Isabelle Lightwood. Simon tinha que admitir, ele entendia completamente como uma sala cheia de pessoas racionais poderiam cair completamente sob seu feitiço e se darem por inteiro.
Mas por que ela queria que ele fosse?
Ele decidiu que teria que ver por si mesmo. Bastava entender o que acontecia e se certificar de que estava tudo certo.
Não porque ele queria desesperadamente estar perto dela. Ou impressioná-la. Ou agradá-la.
Pensando nisso, talvez Simon compreendesse o culto de Isabelle melhor do que ele queria admitir.
Talvez ele tivesse sido o seu sócio fundador.

* * *

— Você pretende fazer o quê? — na última palavra, a voz de Simon saltou duas oitavas acima do normal.
Jon Cartwright riu.
— Acalme-se, mamãe. Você a ouviu.
Simon olhou ao redor da sala de estar para seus amigos (e Jon). Durante o último ano, ele chegou a conhecê-los por dentro e por fora ou, pelo menos, pensou que ele conhecia. Julie roía as unhas até sangrar quando estava nervosa. Marisol dormia com um punhal debaixo do travesseiro, por precaução. George falava enquanto dormia, geralmente sobre técnicas de tosquia de ovelhas. Sunil tinha quatro coelhos de estimação sobre os quais falava constantemente, sempre preocupado que o pequeno Ringo estivesse sendo atormentado por seus irmãos maiores e fofinhos. Jon tinha coberto uma parede de seu quarto com pinturas de dedo de seu primo mais novo, e escrevia-lhe uma carta a cada semana. Eles todos se comprometeram com a causa dos Caçadores de Sombras; tinham atravessado o inferno para se provarem para seus instrutores e aos outros. Quase terminaram o ano sem um único ferimento fatal ou mordida de vampiro... e agora isso?
— Haha, muito engraçado — Simon respondeu, esperando que ele estivesse fazendo um trabalho aceitável para manter o desespero longe de sua voz. — Bela piada, me leve de volta para amarelar ontem à noite. Absolutamente hilariante. Qual é o próximo? Você quer me convencer que eles estão fazendo outra porcaria de filme do Último Mestre do Ar? Se querem me ver pirar, há maneiras mais fáceis.
Isabelle revirou os olhos.
— Ninguém quer ver você pirar, Simon. Francamente, eu preferiria não ver isso.
— Então é sério — disse Simon. — Você está falando serio, não é uma brincadeira, está realmente planejando convocar um demônio? Aqui, no meio da Academia dos Caçadores de Sombras? No meio da festa de fim de ano? Porque você acha que vai ser... divertido?
— Nós obviamente não vamos convocá-lo no meio da festa — opinou Isabelle. — Isso seria um pouco idiota.
— Oh, é claro — Simon falou lentamente. — Isso seria idiota.
— Nós vamos convocá-lo aqui no salão — Isabelle esclareceu. — Então trazê-lo para a festa.
— E então matá-lo, é claro — colocou Julie.
— É claro — Simon ecoou. Ele se perguntou se talvez estivesse tendo um derrame.
— Você está fazendo isso soar como um negócio maior do que realmente é — disse George.
— Sim, é apenas um demônio imp — disse Sunil. — Nada demais.
— Aham — Simon gemeu. — Totalmente. Nada demais.
— Imagine o olhar no rosto de todos quando virem o que nós podemos fazer! — Marisol estava quase brilhante ao pensar nisso.
Beatriz não estava lá. Se estivesse, talvez pudesse ter falado algo que enfiasse razão na cabeça deles. Ou ajudado Simon a amarrá-los e enfiá-los no armário até o final do semestre com segurança, quando Isabelle voltaria para Nova York, aonde ela pertencia.
— E se algo der errado? — Simon apontou. — Vocês nunca enfrentaram um demônio em condições de combate, não sem os professores prestando atenção a sua volta. Vocês não sabem...
— Nem você — Isabelle rebateu. — Pelo menos, você não se lembra, não é mesmo?
Simon não disse nada.
— Considerando que lidei com meu primeiro imp quando eu tinha seis anos de idade — disse Isabelle. — Como eu disse a seus amigos, não é grande coisa. E eles confiam em mim.
Eu confio em você – era o que ele queria dizer. Sabia que ela estava esperando por isso. Todos estavam. Ele não podia.
— Então não posso convencê-la a parar com isso? — ele perguntou.
Isabelle deu de ombros.
— Você pode continuar tentando, mas estaria desperdiçando todo o nosso tempo.
— Então terei que encontrar outra maneira de pará-los.
— Você vai nos dedurar? — Jon zombou. — Vai ser um bebê chorão e contar à sua bruxa favorita? — ele bufou. — Uma vez queridinho da professora, sempre o queridinho da professora.
— Cale a boca, Jon — Isabelle lhe bateu suavemente no braço. Simon provavelmente deveria ter ficado satisfeito, mas para bater ainda era necessário tocar, e ele preferia que Isabelle e Jon nunca tivessem contato físico de qualquer espécie. — Você poderia tentar contar sobre nós, Simon. Mas eu vou negar. E então eles vão acreditar – em alguém como eu, ou como você? Apenas um mundano.
Ela disse “mundano” exatamente como Jon sempre fazia. Como se fosse sinônimo de “nada”.
— Essa não é você, Isabelle. Você não é assim — ele não tinha certeza se estava tentando convencer a ela ou a si mesmo.
— Você não sabe como eu sou, lembra?
— Eu sei o suficiente.
— Então você sabe que deve confiar em mim. Mas se não fizer isso, vá em frente. Conte. Então, todo mundo vai saber como você é. Que tipo de amigo é.
Ele tentou.
Sabia que era a coisa certa a fazer.
Pelo menos, ele pensava que era a coisa certa a fazer.
Na manhã seguinte, antes da palestra, ele foi até o escritório de Catarina Loss – Jon estava certo, ela era a sua feiticeira favorita e seu membro do corpo docente favorito, e a única pessoa a quem ele confiaria algo assim.
Ela o acolheu, oferecendo-lhe um assento e uma caneca de algo cujo vapor era uma sombra alarmantemente azul. Ele recusou educadamente.
— Então, Diurno, penso que tem algo a me dizer?
Catarina intimidava um pouco menos do que no início do ano – o que era um pouco como dizer que Jar Jar Binks era “um pouco menos” irritante em Star Wars: Episodio II do que em Star Wars: Episodio I.
— É possível que eu saiba de algo que... — Simon limpou a garganta. — Quero dizer, se algo acontecer...
Ele não tinha se deixado pensar no que aconteceria quando as palavras saíssem. O que aconteceria com seus amigos? O que aconteceria com Isabelle, a líder deles? Ela não podia exatamente ser expulsa de uma Academia onde ela não estava matriculada... mas Simon aprendera o suficiente sobre a Clave agora para saber que haviam castigos muito piores do que ser expulso. Invocar um demônio menor para usar em uma festa era uma violação da Lei? Ele estava prestes a arruinar a vida de Isabelle?
Catarina Loss não era uma Caçadora de Sombras; ela tinha seus próprios segredos da Clave; estaria disposta a manter mais um, se isso significasse ajudar Simon e proteger Isabelle da punição?
Enquanto sua mente girava através de possibilidades escuras, a porta do escritório se abriu e a reitora Penhallow enfiou a cabeça loira ali dentro.
— Catarina, Robert Lightwood espera falar com você antes da pales... oh, sinto muito! Não sabia que você estava no meio de alguma coisa?
— Junte-se a nós — convidou Catarina. — Simon estava prestes a me contar alguma coisa interessante.
A reitora entrou no escritório, franzindo a sobrancelha para Simon.
— Você parece tão sério — ela falou-lhe. — Vá em frente, diga. Você vai se sentir melhor. É como vomitar.
— O que é como vomitar? — ele perguntou, confuso.
— Você sabe, quando está se sentindo mal? Às vezes, só ajuda falar tudo.
De alguma forma, Simon não achou que vomitar sua confissão direto na reitora o faria se sentir melhor.
Isabelle não tinha se provado suficiente – não apenas para ele, mas para a Clave, para todos? Ela tinha, afinal, salvo praticamente o mundo. Quantas provas mais alguém precisaria de que ela era uma das mocinhas?
Quantas evidências mais ele precisava?
Simon se levantou e disse a primeira coisa que me veio à sua mente.
— Eu só queria dizer que todos nós realmente apreciamos o ensopado de beterraba que serviram no jantar. A senhora poderia servir novamente.
A reitora Penhallow lançou-lhe um olhar estranho.
— Aquelas não eram beterrabas, Simon.
Isso não o surpreendeu, já que o ensopado tinha uma consistência estranhamente granulada e um sabor que lembrava esterco.
— Bem... o que quer que fosse, era delicioso — ele disse rapidamente. — É melhor eu ir. Não quero perder o início da última palestra do Inquisidor Lightwood. Elas têm sido tão interessantes.
— Realmente — Catarina concordou secamente. — O ensopado foi quase tão delicioso quanto o guisado.

* * *

1984
Na maior parte de seu tempo na Academia, Robert admirara Valentim à distância. Mesmo que Robert fosse mais velho, ele buscava Valentim, que era tudo o que ele queria ser. Valentim se destacava em seu treinamento sem esforço visível. Ele era melhor do que qualquer pessoa com qualquer arma. Era descuidado com sua afeição, ou pelo menos parecia ser, e era amado. Muitas pessoas não notavam quão poucos ele realmente amava de volta. Mas Robert notou, porque quando se está assistindo do lado de fora, invisível, é fácil de ver claramente.
Nunca lhe ocorreu que Valentim o estivesse observando, também.
Não até o dia, no início deste ano, que Valentim o pegou sozinho em um dos escuros corredores subterrâneos da Academia e disse calmamente:
— Eu sei o seu segredo.
O segredo de Robert, que ele não contou a ninguém, nem mesmo a Michael: ele ainda tinha medo das Marcas.
Toda vez que ele desenhava uma runa em si mesmo, tinha que prender a respiração, forçar os dedos a não tremerem.
Ele sempre hesitou. Em sala de aula, que era quase imperceptível. Na batalha, essa poderia ser a fração de segundo entre a vida e a morte, e Robert sabia disso. O que o fazia hesitar ainda mais, em tudo. Ele era forte, inteligente, talentoso; ele era um Lightwood. Deveria estar entre os melhores. Mas ele não podia deixar-se ir e agir por instinto. Não conseguia parar a sua mente de pensar nas potenciais consequências. Ele não conseguia parar de ter medo, e sabia que, no final, seria o fim dele.
— Eu posso te ajudar — Valentim disse então. — Posso te ensinar o que fazer com o medo.
Como se fosse simples assim – e sob a instrução cuidadosa de Valentim, era.
Valentim havia lhe ensinado a se retirar para um lugar em sua mente onde o medo não podia tocá-lo. Separar-se de Robert Lightwood, que sabia ter medo – e então domar essa mais fraca e detestável versão de si mesmo.
— Sua fraqueza o torna furioso, como deveria — Valentim tinha dito. —Use a fúria para dominá-lo – e então todo o resto.
De certa forma, Valentim salvara a vida de Robert. Ou, pelo menos, a única parte de sua vida o que importava.
Ele devia tudo a Valentim.
Ele, pelo menos, devia a Valentim a verdade.
— Você não concorda com o que eu fiz — Valentim disse calmamente enquanto o sol rastejava acima do horizonte.
Michael e Stephen ainda dormiam. Robert tinha passado as horas de escuridão olhando para o céu, peneirando o que tinha acontecido, e o que devia fazer em seguida.
— Você acha que eu estava fora de controle — Valentim acrescentou.
— Aquilo não foi autodefesa — disse Robert. — Aquilo era tortura. Assassinato.
Robert estava sentado em um dos troncos em torno dos restos da fogueira. Valentim abaixou-se ao lado dele.
— Você ouviu as coisas que ele disse. Entendeu por que ele tinha de ser silenciado. Tinha que ser ensinado a lição, e a Clave não teria dominado sua vontade. Eu sei que os outros não entenderiam. Nem mesmo Lucian. Mas você... nós entendemos um ao outro. Você é o único em quem eu realmente posso confiar. Preciso que você mantenha segredo.
— Se tem tanta certeza de que fez a coisa certa, então por que manter isso em segredo?
Valentim riu suavemente.
— Sempre tão cético, Robert. É o que todos nós mais amamos em você — seu sorriso desapareceu. — Alguns dos outros estão começando a ter dúvidas. Sobre a causa, sobre mim... — ele acenou longe das negações de Robert antes que pudessem ser expressas. — Não pense que não posso ver. Todo mundo quer ser fiel quando é fácil. Mas quando as coisas ficam difíceis... — ele balançou a cabeça. — Não posso contar com todos como gostaria de contar. Mas acredito que eu possa contar com você.
— É claro que pode.
— Então você vai manter o que se passou esta noite em segredo dos outros — disse Valentim. — Até mesmo de Michael.
Muito tarde – muito mais tarde – ocorreria a Robert que Valentim provavelmente teve alguma versão dessa conversa com cada um dos membros do Círculo. Segredos vinculavam as pessoas, e Valentim era inteligente o suficiente para saber disso.
— Ele é o meu parabatai — Robert apontou. — Eu não guardo segredos dele.
As sobrancelhas de Valentim foram para o alto.
— E você acha que ele não guarda segredos de você?
Robert se lembrou da noite anterior, no que Michael estava relutando tanto em não dizer. Esse era um segredo – quem sabia quantos mais haviam?
— Você conhece Michael melhor do que ninguém — continuou Valentim. — E ainda assim, imagino que haja coisas que sei sobre ele que poderiam surpreendê-lo...
Um silêncio pairou entre eles enquanto Robert considerava.
Valentim não mentiu, ou emitiu orgulho vazio. Se ele dizia que sabia de algo sobre Michael, algo secreto, então era verdade.
E ali estava a tentação, balançando diante de Robert.
Ele só precisava perguntar.
Ele queria saber; ele não queria saber.
— Todos temos lealdades concorrentes — Valentim disse, antes que Robert pudesse ceder à tentação. — A Clave gostaria de tornar essas coisas simples, mas é apenas mais um exemplo de sua obtusidade. Eu gosto de Lucian, meu parabatai. Eu amo Jocelyn. Se esses dois amores entrassem em conflito...
Ele não teve que completar o pensamento. Robert sabia o que Valentim sabia, e entendeu que Valentim amava seu parabatai o suficiente para permitir isso. Assim como Lucian amava Valentim o suficiente para nunca agir sobre o que sentia. Talvez alguns segredos fossem uma misericórdia.
Ele estendeu a mão para Valentim.
— Você tem a minha palavra. Meu juramento. Michael nunca saberá sobre isso.
Assim que as palavras saíram, ele se perguntou se tinha cometido um erro. Mas não havia como voltar atrás.
— Eu sei o seu segredo também, Robert — disse Valetine.
Com isso, um eco das palavras que Valentim já tinha dito a ele veio à sua memória. Robert sentiu o fantasma de um sorriso.
— Acho que nós cobrimos isso — Robert lembrou.
— Você é um covarde — disse Valentim.
Robert se encolheu.
— Como você pode dizer isso depois de tudo o que passamos? Você sabe que eu nunca fugiria de uma batalha ou...
Valentim balançou a cabeça, silenciando-o.
— Oh, não quero dizer fisicamente. Nós cuidamos disso, não é? Quando se trata de tomar riscos físicos, você é o mais bravo que existe. Supercompensando, talvez?
— Eu não sei do que você está falando — Robert disse rigidamente – temendo que soubesse muito bem.
— Você não tem medo da morte ou de lesões, Robert. Tem medo de si mesmo e sua própria fraqueza. Você não tem fé –não tem lealdade – porque lhe falta a força de suas próprias convicções. E é culpa minha por esperar demais. Afinal, como se espera acreditar em algo ou alguém se você não acreditar em si mesmo?
Robert se sentiu de repente transparente, e não gostava muito disso.
— Uma vez tentei ensiná-lo a dominar o seu medo e sua fraqueza — continuou Valentim. — Vejo agora que foi um erro.
Robert baixou a cabeça, esperando que Valentim o expulsasse do Círculo. Exilá-lo de seus amigos e seu dever. Arruinar a sua vida.
Irônico que foi a sua própria covardia que fizera seus piores medos se tornarem reais.
Mas Valentim o surpreendeu.
— Eu tenho pensado um pouco no assunto, e tenho uma proposta para você — disse Valentim.
— E qual seria esra? — ele estava com medo de ter esperança.
— Desista — disse Valentim. — Pare de tentar fingir além de sua covardia, a sua dúvida. Pare de tentar incendiar alguma paixão inabalável em si mesmo. Se você não consegue encontrar a coragem em suas convicções, por que não aceitar a minha coragem?
— Eu não entendo.
— Minha proposta é a seguinte — disse Valentim. — Pare de se preocupar tanto sobre se está certo ou não. Deixe-me ser a certeza para você. Confie na minha certeza, em minha paixão. Se deixe ser fraco, e apoie-se em mim, porque ambos sabemos que posso ser forte. Aceite que você está fazendo a coisa certa.
— Se fosse assim tão fácil — disse Robert, e não podia negar uma pontada de saudade.
Valentim parecia levemente divertido, como se Robert tivesse traído um mal-entendido infantil da natureza das coisas.
— É apenas tão duro como você faz — ele falou suavemente. — É tão fácil quanto você permitir.

* * *

Isabelle passou por Simon em seu caminho para fora da palestra.
— Nove horas, quarto do Jon — ela sussurrou em seu ouvido.
— O quê?
Foi como se ela estivesse informando-o da hora exata e local de sua morte, que, se ele fosse forçado a imaginar o que ela poderia estar fazendo no quarto de Jon Cartwrigh, seria iminente.
— A hora do demônio. Você sabe, para o caso de você ainda estar determinado a arruinar a nossa diversão — ela lhe deu um sorriso perverso. — Ou a participar.
Havia um desafio implícito em seu rosto, uma certeza de que ele não teria a coragem de fazer nenhum dos dois.
Simon se lembrou de que ele podia ter esquecido de conhecer Isabelle, mas ela não esquecera nada sobre ele. Na verdade, pode-se argumentar que ela o conhecia melhor do que ele mesmo.
Não mais, disse a si mesmo. Um ano na Academia, um ano de estudo e batalhas e sem cafeína o haviam mudado. Ele tinha que ter mudado.
A pergunta era: como ele mudou?

* * *

Ela tinha lhe passado a hora errada.
É claro que sim. No momento em que Simon invadiu o quarto de Jon Cartwright, eles estavam quase prontos para completar o ritual.
— Vocês não podem fazer isso — Simon disse. — Todos vocês, parem e pensem.
— Por quê? — perguntou Isabelle. — Apenas nos dê uma boa razão. Persuada-nos, Simon.
Ele não era bom em discursos. E ela sabia disso.
Simon encontrou-se de repente furioso. Esta era a sua escola; estes eram os seus amigos. Isabelle não ligava para o que acontecia aqui. Talvez não houvesse uma história mais profunda, sem dor escondida. Talvez ela fosse exatamente como parecia, e nada mais: uma pessoa frívola que se preocupava apenas consigo mesma.
Algo em seu coração se revoltava contra esse pensamento, mas ele o silenciou. Isto não era sobre o seu não-relacionamento com sua não-namorada. Ele não podia deixar ser sobre isso.
— Não é apenas contra as regras — disse Simon. Como deveria explicar algo que parecia tão óbvio? Era como tentar convencer alguém de que um mais um é igual a dois: apena era. — Não é que vocês possam ser expulsos ou mesmo punidos pela Clave. É errado. Alguém pode se machucar.
— Alguém sempre se machuca — George apontou, com tristeza esfregando o cotovelo, que, apenas um par de dias antes, Julie quase cortara com uma espada.
— Porque não há nenhuma outra maneira de aprender — Simon disse, exasperado. — Porque é a melhor entre todas as opções ruins. Isto? Isto é o oposto de necessário. É este o tipo de Caçador das Sombras que vocês querem ser? O tipo que brinca com as forças das trevas, porque acha que pode lidar com isso? Vocês nunca viram um filme? Leram uma história em quadrinhos? É sempre assim que começa – apenas uma pequena amostra de mal, e, em seguida, bam, o seu sabre de luz fica vermelho  e você está respirando através de uma máscara preta grande e cortando fora a mão de seu filho apenas para ser mau — eles o encararam sem expressão. — Esqueçam.
Era engraçado, Caçadores de Sombras sabiam mais do que os mundanos sobre quase tudo. Eles sabiam mais sobre demônios, sobre armas, sobre as correntes de poder e magia que moldava o mundo.
Mas não entendiam da tentação. Não entendiam como era fácil fazer uma pequena e terrível escolha após a outra até que você tinha deslizado pela ladeira escorregadia até o poço do inferno. Dura Lex – a Lei é dura. Tão dura que os Caçadores das Sombras tinham que fingir que havia a possibilidade de ser perfeita. Era a única coisa que Simon tinha pegado da palestra de Robert sobre o Círculo. Uma vez que os Caçadores de Sombras começavam a escorregar, não paravam.
— O ponto é, está é uma situação sem vitória. Ou o seu imp estúpido fica fora de controle e come um monte de estudantes – ou isso não acontece, e então vocês decidem da próxima vez que podem convocar um demônio maior. E esse come você. Essa é a definição de uma situação perda total.
— Ele tem um bom argumento — disse Julie.
— Não é tão idiota quanto parece — Jon admitiu.
George limpou a garganta.
— Pode ser...
— Talvez devêssemos começar com as coisas — Isabelle disse, jogando o cabelo preto de seda e piscando os olhos grandes e infinitos, abrindo o seu sorriso irresistível como se estivesse lançando um feitiço sobre o quarto. Todo mundo esqueceu que Simon existia e ocuparam-se com o trabalho de invocar um demônio.
Ele tinha feito tudo o que poderia fazer aqui. Havia apenas uma opção sobrando.
Ele correu.

* * *

1984
Michael deixou passar uma semana antes de fazer a pergunta que Robert temia. Talvez ele estivesse esperando que o próprio Robert trouxesse à tona. Talvez tenha tentado se convencer de que ele não precisava saber a verdade, que amava Robert o suficiente para não se importar, mas aparentemente ele tinha falhado.
— Vem andar comigo? — convidou Michael, e Robert concordou em ir num último passeio através da Floresta Brocelind, mesmo que ele esperasse ficar longe da floresta até o próximo semestre. Até lá, talvez, a memória do que aconteceu desapareceria.
As coisas tinham sido estranhas entre eles esta semana, silenciosas e duras. Robert estava mantendo o seu segredo sobre o que tinha feito para o lobisomem, e remoendo a sugestão de Valentim, de que ele seria a consciência e a força de Robert, que seria mais fácil dessa maneira. Michael estava...
Bem, Robert não podia adivinhar o que Michael estava pensando – sobre Valentim, sobre Eliza, sobre o próprio Robert. E isso foi o que tornou as coisas tão estranhas. Eles eram parabatai; eram duas metades do mesmo. Robert supostamente não precisava adivinhar. Antes, ele sempre soube.
— Ok, então qual é a história real? — perguntou Michael, uma vez que eles estavam longe o suficiente na floresta que os sons do campus há muito desapareceram. O sol ainda estava no céu, mas aqui nas árvores, as sombras eram longas e a escuridão subia. — O que Valentim fez para o lobisomem?
Robert não conseguia olhar para o seu parabatai. Ele deu de ombros.
— Exatamente o que eu disse a você.
— Você nunca mentiu para mim antes — Michael falou.
Havia uma tristeza em sua voz, e algo mais, algo pior, havia uma pontada de finalidade nela, como se estivessem prestes a dizer adeus.
Robert engoliu. Michael estava certo: Antes disso, Robert nunca tinha mentido.
— E suponho que você nunca mentiu para mim? — ele cobrou de Michael.
Seu parabatai tinha um segredo, ele sabia disso agora. Valentim disse isso.
Houve uma longa pausa. Em seguida, Michael falou.
— Eu menti para você todos os dias, Robert.
Foi como um chute no estômago.
Não era apenas um segredo, não era apenas uma menina. Era... Robert nem sabia o que era.
Insondável.
Ele parou e se virou para Michael, incrédulo.
— Se você está tentando me chocar para te dizer alguma coisa...
— Eu não estou tentando chocá-lo. Eu apenas... estou tentando  dizer a verdade. Finalmente. Sei que você está me escondendo algo, algo importante.
— Eu não estou — Robert insistiu.
— Você está, e isso dói. E me machuca, então só posso imaginar... — ele parou, respirou fundo, e se forçou. — Eu não podia suportar, se tenho te machucado desse jeito todos estes anos. Mesmo se não percebi isso. Mesmo se você não percebeu.
— Michael, você não está fazendo nenhum sentido.
Eles chegaram a um tronco caído, espesso, com musgo. Michael afundou nele, de repente parecendo cansado. Como se ele tivesse envelhecido cem anos no último minuto. Robert sentou-se ao lado dele e colocou a mão no ombro do amigo.
— O que é isso? — ele bateu de leve na cabeça de Michael, tentando sorrir, dizendo a si mesmo que era apenas Michael sendo Michael. Estranho, mas inconsequente. — O que está acontecendo nesse hospício que você chamar de cérebro?
Michael baixou a cabeça.
Ele parecia tão vulnerável assim, a nuca nua e exposta, Robert não podia suportar.
— Estou apaixonado — Michael sussurrou.
Robert deu uma gargalhada, alivio jorrando através dele.
— Isso é tudo? Você não acha que percebi isso, idiota? Eu te disse, Eliza é ótima...
Em seguida, Michael disse outra coisa.
Algo que Robert deve ter ouvido mal.
— O quê? — indagou, embora não quisesse saber.
Desta vez, Michael levantou a cabeça, olhou nos olhos de Robert, e falou claramente.
— Eu estou apaixonado por você.
Robert estava de pé antes que mesmo que pudesse processar as palavras.
Parecia de repente muito importante ter espaço entre ele e Michael. Tanto espaço quanto possível.
— Você o quê?
Ele não tinha a intenção de gritar.
— Isso não é engraçado — acrescentou Robert, tentando modelar a sua voz.
— Não é uma piada. Estou apai...
— Não diga isso de novo. Você nunca vai dizer isso de novo.
Michael empalideceu.
— Eu sei que você provavelmente... sei que você não se sente da mesma forma, que você não pode...
Tudo de uma vez, com uma força que quase tirou seus pés do chão, Robert foi inundado por uma onda de memórias: a mão de Michael ao seu redor em um abraço. Michael lutando com ele. Michael ajustando suavemente seu controle sobre a espada. Michael deitado na cama a poucos passos dele, noite após noite. Michael se despindo, pegando sua mão, puxando-o para o Lago Lyn. Michael, peito nu, o cabelo encharcado, os olhos brilhando, deitado na grama ao lado dele.
Robert queria vomitar.
— Nada tem que mudar — disse Michael, e Robert teria rido, se não isso não fosse fazê-lo vomitar. — Eu ainda sou a mesma pessoa. Não estou pedindo nada de você. Estou apenas sendo honesto. Eu só precisava que você soubesse.
Isto era o que Robert sabia: que Michael era o melhor amigo que ele já teve, e provavelmente a mais pura alma que ele já conheceu. Ele deveria se sentar ao lado de Michael, prometer-lhe que estava tudo bem, que nada precisava mudar, que o juramento que haviam feito um ao outro era verdade, e para sempre. Que não havia nada a temer no – o estômago de Robert se revirou com a palavra – amor de Michael. Que Robert era uma seta em linha reta, que era o toque de Maryse que fazia seu corpo ficar vivo, a memória do peito de Maryse que fazia seu pulso correr – e a confissão de Michael não traria nenhuma dúvida nisso. Ele sabia que deveria dizer algo reconfortante para Michael, algo como, “Eu não posso te amar desse jeito, mas vou te amar para sempre”.
 Mas ele também sabia o que as pessoas iriam pensar.
O que pensariam sobre Michael... o que suporiam sobre Robert.
As pessoas falariam, fofocariam, suspeitariam de coisas. Parabatai não podiam sair um com o outro, é claro. E não podiam... algo a mais.
Mas Michael e Robert eram bem próximos; Michael e Robert estavam tão em sincronia; certamente as pessoas gostavam de saber eram o mesmo.
Certamente as pessoas pensariam.
Ele não podia suportar. Ele trabalhou muito duro para se tornar o homem que era, o Caçador das Sombras que era.
E não podia suportar ter pessoas olhando para ele daquele jeito de novo, como se ele fosse diferente.
E ele não poderia ter Michael olhando para ele assim.
Porque e se ele começasse a se perguntar, também?
— Você nunca vai dizer isso de novo — Robert falou friamente. — E se insistir nisso, será a última coisa que alguma vez dirá para mim. Você me entendeu? — Michael apenas o encarou, olhos arregalados e sem compreender. — E você nunca vai falar sobre isso a ninguém, tampouco. Eu não vou ter as pessoas pensando isso sobre nós. Sobre você.
Michael murmurou algo ininteligível.
— O quê? — Robert perguntou cortantemente.
— Eu disse, o que eles vão pensar?
— Eles vão pensar que você é nojento — disse Robert.
— Do jeito que está pensando?
Uma voz no fundo da mente de Robert disse, Pare. Esta é a sua última chance. Mas falou muito calmamente.
Ele não tinha certeza.
— Sim — disse Robert, e ele falou com firmeza suficiente para que não houvesse dúvida do que ele quis dizer. — Acho que você é nojento. Fiz um juramento a você, e vou honrá-lo. Mas não se engane: nada entre nós nunca será o mesmo. Na verdade, a partir de agora, não há nada entre nós, ponto.
Michael não discutiu. Ele não disse nada. Ele simplesmente se virou, fugiu para as árvores e deixou Robert sozinho.
O que ele disse, o que ele tinha feito... era imperdoável. Robert sabia disso. Ele disse a si mesmo: era culpa de Michael, a decisão era de Michael.
Ele disse a si mesmo: ele só estava fazendo o que precisava fazer para sobreviver.
Mas ele viu a verdade agora. Valentim estava certo. Robert não era capaz de amar ou ter absoluta lealdade.
Ele pensou que Michael era a exceção, a prova de que ele poderia ser a certeza de alguém – que podia ser constante, não importava o que.
Agora isso se foi.
Chega, Robert pensou. Chega de lutar, chega de duvidar de suas próprias fraquezas e falta de fé. Ele aceitaria a oferta de Valentim. Deixaria Valentim escolher para ele, deixaria Valentim acreditar por ele. Ele faria o que precisasse para continuar com Valentim, e com o Círculo, e com sua causa.
Era tudo o que sobrara para ele.

* * *

Simon voou pelos corredores sombrios, derrapou nos andares viscosos e desceu correndo as escadas amassadas, todo o caminho amaldiçoando a Academia por ser uma fortaleza, labirintos com nenhuma recepção no celular. Seus pés batiam contra a pedra gasta, seus pulmões saltaram, e embora a viagem parecesse interminável, apenas alguns minutos se passaram antes que ele se atirasse no escritório de Catarina Loss.
Ela estava sempre lá, dia ou noite, e aquela noite não foi diferente.
Bem, foi um pouco diferente: naquela noite, ela não estava sozinha.
Ela estava atrás de sua mesa com os braços cruzados, ladeada por Robert Lightwood e a reitora Penhallow, os três parecendo tão sombrios que era quase como se eles estivessem esperando por ele.
Ele não se deixou hesitar ou pensar nas consequências.
Ou pensar em Izzy.
— Há um grupo de estudantes que estão tentando convocar um demônio — Simon ofegou. — Temos que pará-los.
Ninguém parecia surpreso.
Houve uma garganta limpando suavemente – Simon se virou para encontrar Julie Beauvale saindo de trás da porta que ele abriu em seu rosto.
— O que você está fazendo aqui?
— A mesma coisa que você — disse Julie. Em seguida, ela corou e lhe deu um envergonhado encolher de ombros. — Acho que você argumentou bem.
— Mas como você chegou aqui antes de mim?
— Eu peguei a escada leste, obviamente. Depois aquele corredor por trás da sala de armas...
— Mas não tem um beco sem saída no refeitório?
— Só se você...
— Talvez possamos deixar de lado essa fascinante discussão cartográfica até mais tarde — disse Catarina Loss levemente. — Acho que temos algo mais importante nas mãos.
— Como ensinar a seus alunos idiotas uma lição — Robert Lightwood rosnou, e saiu do escritório.
Catarina e a reitora caminharam atrás dele.
Simon trocou um olhar nervoso com Julie.
— Você, hã, acha que devemos segui-los?
— Provavelmente — disse ela, então suspirou. — Nós também podemos deixá-los expulsar a todos nós em um tiro.
Eles caminharam atrás de seus professores, deixando-se ficar mais e mais para trás.
Quando se aproximaram do quarto de Jon, os gritos de Robert eram audíveis a partir do meio do corredor. Eles não conseguiam distinguir suas palavras através da porta grossa, mas o volume e a cadência tornavam a situação muito clara.
Simon e Julie abriram a porta e entraram.
George, Jon e os outros estavam alinhados contra a parede, rostos pálidos, os olhos arregalados, todos parecendo preparados para um pelotão de fuzilamentos. Enquanto Isabelle estava de pé ao lado de seu pai... radiante?
— Falharam, todos vocês! — Robert Lightwood ressoou. — Supõe-se que vocês sejam os melhores e mais brilhantes que esta escola tem para oferecer, e isso é o que vocês têm para mostrar? Eu avisei a vocês sobre os perigos do carisma. Eu falei da necessidade de defender o que é certo. Mesmo que doa a quem vocês mais amam. E todos vocês não conseguiram ouvir.
Isabelle tossiu incisivamente.
— Todos vocês, exceto dois — Robert permitiu, sacudindo a cabeça para Simon e Julie. — Bem feito. Isabelle estava certa sobre vocês.
Simon estava se recuperando.
— Tudo isso foi um estúpido teste? — Jon gritou.
— Um teste bastante inteligente, se me perguntarem — apontou a reitora Penhallow.
Catarina parecia querer dizer algumas coisas sobre o tópico de Caçadores de Sombras tolos que jogam jogos de gato e rato com os seus próprios, mas como de costume, ela mordeu a língua.
— Qual a porcentagem de nossas notas isso tomará? — perguntou Sunil.
Com isso, houve muita gritaria. Um pouco de falatório sobre a responsabilidade sagrada e descuido e quão desagradável uma noite nos calabouços da Cidade do Silêncio pode ser.
Robert trovejou como Zeus, a reitora Penhallow fez o seu melhor para não soar como uma babá repreendendo sobre roubar um biscoito extra, enquanto Catarina Loss colocou uma ocasional observação sarcástica sobre o que aconteceu com os Caçadores das Sombras que pensavam que era divertido circular numa área de feiticeiros. Em um ponto, ela interrompeu o discurso de Robert Lightwood para adicionar um comentário aguçado sobre Darth Vader – e um olhar astuto para Simon que o fez se perguntar, não pela primeira vez, quão perto ela estava observando-o, e por quê.
Através de tudo isso, Isabelle observou Simon, algo inesperado em seu olhar.
Algo quase como... orgulho.
— Concluindo, da próxima vez vocês ouvirão quando os mais velhos falarem — Robert Lightwood gritou.
— Por que alguém ouviria qualquer coisa que você tem a dizer sobre a fazer a coisa certa? — Isabelle rebateu.
O rosto de Robert ficou vermelho. Ele se virou para ela lentamente, fixando-a com o tipo Inquisidor de brilho gelado que teria deixado qualquer um choramingando em posição fetal. Isabelle não vacilou.
— Agora que esse negócio sórdido foi concluído, peço a todos para dar a mim e a minha filha obediente alguma privacidade. Acredito que temos algumas coisas para resolver — disse Robert.
— Mas esse é o meu quarto — Jon lamentou.
Robert não precisou falar, apenas virou o olhar do Inquisidor sobre ele; Jon se encolheu.
Ele fugiu, junto com todos os outros, e Simon estava prestes a seguir o mesmo caminho quando os dedos de Isabelle arrebataram seu pulso.
— Ele fica — ela disse para seu pai.
— Certamente que não.
— Simon fica comigo, ou eu saio com ele — Isabelle falou. — Essas são as suas escolhas.
— Er, eu ficaria feliz em ir... — Simon começou, feliz sendo um substituto educado para desesperado.
— Você fica — Isabelle ordenou.
Robert suspirou.
— Tudo bem. Você fica.
Isso acabou com a discussão. Simon sentou-se na beira da cama de Jon, desejando ser invisível.
— É óbvio para mim que você não quer estar aqui — Robert disse para sua filha.
— O que isso te mostrou? O fato de que eu lhe disse um milhão de vezes que eu não queria vir? Que não queria jogar o seu jogo estúpido? Que pensei que era cruel e manipulador e um total desperdício de tempo?
— Sim — disse Robert. — Isso.
— E ainda assim você me fez vir de qualquer maneira.
— Sim.
— Olha, se você pensou que um tempo de convívio forçado corrigiria ou melhoraria o que você...
Robert suspirou profundamente.
— Eu já lhe disse antes, o que aconteceu entre mim e sua mãe não tem nada a ver com você.
— Tem tudo a ver comigo!
— Isabelle... — Robert olhou para Simon, em seguida, baixou a voz. — Eu realmente prefiro fazer isso sem uma audiência.
— Que pena.
Simon tentou ainda mais desaparecer no fundo, esperando que talvez se ele se esforçasse o suficiente, sua pele assumiria o mesmo padrão surpreendentemente florido da parede de Jon Cartwright.
— Você e eu, nós nunca falamos sobre o meu tempo no Círculo, ou por que eu segui Valentim — disse Robert. — Eu esperava que vocês, crianças, nunca tivessem que saber sobre essa parte minha.
— Eu ouvi a sua palestra, como todo mundo — ela falou, carrancuda.
— Nós dois sabemos que a história adaptada para o consumo público nunca é toda a verdade — Robert franziu a testa. — O que eu não disse a esses estudantes – que eu nunca disse a ninguém – é que ao contrário da maioria do Círculo, eu não era o que você chamaria de um verdadeiro crente. Os outros pensavam que eram a espada de Raziel em forma humana. Você deveria ter visto sua mãe, brilhando com a justiça.
— Portanto, agora é tudo culpa da mamãe? Bom, papai. Muito bom. Eu deveria pensar que você é um cara impressionante por ver através de Valentim, mas foi junto com ele de qualquer maneira? Porque a sua namorada disse isso?
Ele balançou a cabeça.
— Você está perdendo o meu argumento. Eu era o que mais merecia a culpa. Sua mãe, os outros, eles achavam que estavam fazendo o que era certo. Eles adoravam Valentim. Adoravam a causa. Eles acreditavam. Eu nunca poderia reunir essa fé... mas fui junto de qualquer maneira. Não porque eu pensava que era certo. Porque era fácil. Porque Valentim parecia tão certo. Substituir sua certeza pela minha parecia o caminho de menor resistência.
— Por que está me contando isso? — um pouco do veneno tinha sido drenado da voz de Isabelle.
— E não entendi, então, o que significaria ter verdadeiramente certeza de alguma coisa — continuou Robert. — Eu não sabia como era a sensação de amar algo, ou alguém, além de toda a reserva. Incondicionalmente. Pensei que talvez, com meu parabatai, mas então... — ele engoliu tudo o que estava prestes a dizer.
Simon se perguntou como poderia ser pior do que ele já tinha confessado.
— Eventualmente, achei que eu simplesmente não tinha isso em mim. Que eu não fui construído para esse tio de amor.
— Se você está prestes a me dizer que o encontrou com a sua amante... — Isabelle estremeceu.
— Isabelle — Robert pegou as mãos de sua filha nas suas próprias. — Estou dizendo a você que eu o encontrei com Alec. Com você. Com... — ele olhou para baixo. — Com Max. Ter vocês, Isabelle, mudou tudo.
— É por isso que passou anos tratando Alec como se ele tivesse a peste? É assim que você mostra a seus filhos que você os ama?
Então, se é que era possível, Robert pareceu ainda mais envergonhado de si mesmo.
— Amar alguém não significa que você nunca vai cometer erros — ele falou. — Eu fiz mais do que meu quinhão. Sei disso. E alguns deles que eu nunca terei a chance de compensar. Mas estou tentando o meu melhor com o seu irmão. Ele sabe o quanto eu o amo. Como estou orgulhoso dele. Eu preciso que você saiba disso também. Vocês crianças, são a única coisa que tenho certeza, a única coisa que sempre terei certeza. Não a Clave. Não, infelizmente, o meu casamento. Vocês. E se precisar, passarei o resto da minha vida tentando provar que você pode confiar em mim.

* * *

Foi uma festa chata, do tipo que mesmo Simon teve que admitir que poderia ter sido animada por um demônio ou dois. As decorações – algumas tristes flâmulas, um par de balões de hélio murchos, e um cartaz feito à mão dizendo PARABÉNS parecendo ter sido atirados juntos a contragosto no último minuto por um grupo de alunos do quinto ano em detenção. A mesa de refrescos estava lotada com a comida que tivesse sobrado do final do semestre, incluindo croissants envelhecidos, uma caçarola cheia de gelatina laranja, um barril de cozido e vários pratos repletos de carnes não identificáveis. Como a eletricidade não funcionava em Idris e ninguém tinha pensado em contratar uma banda, não havia música, mas um punhado de membros do corpo docente tinha tomado para si improvisar um quarteto de cordas. (O que, na mente de Simon, não se qualificava como música.) O grupo de Isabelle que convocaria um demônio tinha sido deixado com uma bronca severa, e mesmo permitidos a participar da festa, nenhum deles parecia muito no clima para comemorações – ou, compreensivelmente, para Simon.
Ele estava permanentemente sozinho na bacia de ponche – que cheirava como peixe o suficiente para impedi-lo, na verdade, servir-se de qualquer ponche – quando Isabelle se juntou a ele.
— Evitando seus amigos? — ela perguntou.
— Amigos? — ele riu. — Acho que você quer dizer “pessoas que me odeiam”. Sim, eu tendo a evitá-los.
— Eles não te odeiam. Estão envergonhados porque você estava certo e eles foram estúpidos. Eles vão superar. Vocês sempre fazem.
— Talvez.
Não parecia provável, mas, em seguida, não havia muito o que tinha acontecido este ano que se enquadraria na categoria de “provável”.
— Então, eu acho, obrigada por ficar comigo com toda aquela coisa com o meu pai — disse Isabelle.
— Você não me deu exatamente muita escolha — ele ressaltou.
Isabelle riu, quase com carinho.
— Você realmente não tem ideia de como um encontro social supostamente deve ser, não é? Eu digo “Obrigada”; você diz “por nada”.
— Como se eu dissesse, “obrigado por enganar todos os meus amigos ao fazê-los pensar que você fosse uma selvagem e louca convocadora de demônios para que eles pudessem entrar em problemas com a reitora”, você diria...?
— De nada por lhes ensinar uma lição valiosa — ela sorriu. — Uma que, aparentemente, você não precisa aprender.
— Sim. Sobre isso... — mesmo que tudo tivesse sido um teste – mesmo que, aparentemente, Isabelle tivesse querido que ele a denunciasse, ele ainda se sentia culpado. — Eu sinto muito, não descobri o que você estava fazendo. Não confiei em você.
— Era um fingimento, Simon. Você não deveria confiar em mim.
— Mas eu não deveria ter caído nisso. De todas as pessoas...
— Você não pode esperar me conhecer — havia uma gentileza impossível na voz de Isabelle. — Eu entendo, Simon. Sei que as coisas têm sido... difíceis entre nós, mas eu não estou me enganando. Posso não gostar da realidade, mas não posso negar isso.
Havia tantas coisas que ele queria dizer a ela.
E, no entanto, neste exato momento de alta pressão, sua mente estava em branco.
O silencio desconfortável assentou-se pesadamente entre eles. Isabelle mudou seu peso de pé.
— Bem, se isso é tudo, então...
— Vai voltar para o seu encontro com Jon? — Simon não podia se impedir de perguntar. — Ou... era apenas parte do fingimento?
Ele esperava que ela não percebesse a nota patética de esperança em sua voz.
— Foi um fingimento diferente, Simon. Acalme-se. Alguma vez lhe ocorreu que eu apenas gosto de torturá-lo?
Houve aquele sorriso perverso novamente, e Simon sentiu que ela tinha o poder de acender o fogo nele; sentiu que já estava queimando.
— Então, você e ele, vocês nunca...
— Jon não é exatamente o meu tipo.
O próximo silêncio foi um pouco mais confortável. O tipo de silêncio, Simon pensou, onde você encarava com os olhos arregalados para alguém até que a tensão só pudesse ser quebrada com um beijo.
Basta se inclinar, ele disse a si mesmo, porque mesmo que ele não pudesse se lembrar de fazer o primeiro movimento em uma garota como essa, ele obviamente tinha feito isso no passado. O que significava que ele tinha isso nele. Em algum lugar.
Pare de ser tão covarde e em pânico. SE INCLINE.
Ele ainda estava reunindo toda a sua coragem, quando o momento passou. Ela deu um passo para trás.
— Assim... o que havia na carta, de qualquer maneira?
Ele tinha memorizado. Poderia recitá-la para ela agora, dizer-lhe que ela era incrível, que mesmo que seu cérebro não se lembrasse de amá-la, sua alma estava permanentemente moldada para se encaixar na dela, como uma espécie de cortador de biscoitos em forma de Isabelle que carimbara o seu coração. Mas escrever era diferente de falar em voz alta e em público.
Ele deu de ombros.
— Eu realmente não me lembro, apenas um pedido de desculpas por ter gritado com você naquele momento. E na outra vez. Eu acho.
— Oh.
Será que ela parecia desapontada? Aliviada? Irritada? Simon procurou em seu rosto por pistas, mas era indecifrável.
— Bem... desculpas aceitas. E pare de olhar como se eu tivesse algo em meu nariz.
— Desculpe. De novo.
— E... eu acho... me desculpe se eu a devolvi sem lê-la.
Simon não se lembrava se ela já tinha se desculpado com ele antes. Ela não parecia o tipo que pedia desculpas a ninguém.
— Se você me escrever outra em algum momento, eu poderia até mesmo lê-la — disse ela, com indiferença estudada.
— A escola termina esse semestre, lembra? Este fim de semana eu volto para o Brooklyn.
Parecia inimaginável.
— Eles não têm caixas de correio no Brooklyn?
— Acho que eu poderia lhe enviar um cartão postal da ponte do Brooklyn — Simon permitiu – então respirou fundo, e foi para ela. — Ou eu poderia entregar uma pessoalmente. No Instituto, quero dizer. Se você quiser. Alguma hora. Ou alguma coisa.
— Alguma hora. Alguma coisa... — Isabelle refletiu sobre isso, deixando as palavras flutuando por poucos intermináveis segundos agonizantes. Então, seu sorriso se alargou até que Simon pensou que poderia realmente se arder. — Acho que temos um encontro.

40 comentários:

  1. Eeeeee! Tava esperando desde meia noite rsrs

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  2. Todas as noites eles deixavam um pedaço de pão velho para Jon Cartwright Jr, III e IV mordiscarem, na esperança de eles preferirem as migalhas a pés humanos.


    Belo nome para rato kkkk, simon não deve se lembrar de q já foi um uma vez kkk






    Acho q temos um encontro
    AMEI
    AMEI
    AMEI

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  3. Ai, que tortura esses dois!!!! Acho que Simon e Isabelle vão me enlouquecer !!!!

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  4. SIMON SEU PAMONHA MEDROSO POR QUE NÃO BEIJOU ELA LOGO SEU IDIOTA.
    MAIS EU AMO VOCE S2

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  5. AHHHHH!!!
    ISSO FOI LINDO!!!
    Esse para mim foi um dos contos mais interessantes. Eu sabia sobre o Robert e o Michael, mas imaginar que a coisa toda foi assim... Também foi bom ver como o círculo de Valentim agiu, fiquei curiosa para saber mais sobre Valentim e como ele agia.
    Simon e Izzy me deixaram muito feliz, é bom ver mais da nossa menina diva Lightwood arrasando como sempre. Também gostei de ver Simon e ela se acertando, sinal de que as coisas vão melhorar e muito!
    Contando os dias para o próximo conto!
    Obrigada por postar Karina!

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  6. Eu simplesmente amo esses dois<3
    Não vejo a hora de eles ficarem juntos novamente!!

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  7. YAAAY estou muito ansiosa para continuar lendoo. Ahh só uma coisa, você escreveu Círculo e o certo é Ciclo. Por mais que em inglês seja Circle e a tradução literal seja Círculo em todos os outros livros é se referido como Ciclo. 😀

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    1. Então, mas é que senão me engano, aqui no blog está como Círculo mesmo - a tradução da internet...

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    2. Pensei o mesm😊aí ,quando fui conferir no livro tava "Ciclo" e eu meio que buguei na hora,mas é só ignorar e fingir que ta escrito "Ciclo" msm kkk

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  8. Karina, a sua postagem está com a data 1º de janeiro de 2016
    ?_?...rsrs

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    1. kkkkkkk é que mudo a data de alguns posts... pra eles ficarem no início do blog, senão fica tudo bagunçado :P

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  9. Karina.. Nunca tive que esperar por um livro, sempre comprei pessoalmente, e toda vez que vou ler um livro aqui ele está completo. É uma completa tortura :/ Vc também passa por essa doce tortura? Tomara que a Cassie agilize TLH. Não pode sair só em 2018/17

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  10. Agora entendi, por que Robert havia se protestado contra o relacionamento de Alec e Magnus Bane.
    O Simon poderia beijar a Isabelle logo, quem sabe assim algumas de suas memorias voltem!
    Ass: Bina.

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  11. Ainn que emoçãoooooooo!!!!!!!!!!❤❤❤❤❤❤❤😍😍😍😍😍❤❤❤😍😍😍😍❤❤❤😍🎉🎉🎉🎉🎆🎆🎆🎆🎇😍😍😍😍😍agora me dêem um minuto para que eu possa começar a minha dancinha estranha de comemoração...
    #MelhorContoEver

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  12. Tirando claro,o de James ❤estou xonada por ele ❤❤❤😍😍😍

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  13. Oi Karina fiquei um tempo sem internets e cell perdi muita coisa mas tive a grata surpresa de let is contos da Clare to amando obrigada VC e um anjo

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  14. ooooooooooooooooooonwt ... sem palavras <3

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  15. Meus deuses,toda vez q eu leio esse conto quase choro pelo Michael,ele era um garoto tão bom não merecia isso!

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  16. Curiosa sobre com quem o Michael teve o filho dele, Jonathan.

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  17. Ele e George tinham até dado nomes para os ratos que viviam atrás de suas paredes. Todas as noites eles deixavam um pedaço de pão velho para Jon Cartwright Jr, III e IV mordiscarem, na esperança de eles preferirem as migalhas a pés humanos. Kkkkkk morta
    Pobre Michael cara ;--;
    Simon e Izzy! Eu estava, tipo, porra menino, se enclina logo. Mas pelo menos ele terá um encontro. Ahsisbzzgsu

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  18. Amo a Cassie de paixão e concordo com alguns comentários anteriores. SIMON SEU IDIOTA MARAVILHOSO PORQUE TU NÃO BEIJOU A IZZY. Eu meio que espera que quando ele fizesse isso,sua memória voltaria. Karina sou sua fã número 1 (mas tenho a impressão de que não sou a única)
    Bjs.

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  19. Sizzy é perfeitooo. Amo esses dois ♥. Amei saber mais intimamente o que ocorreu no ciclo. Não imaginava que o Valentim fosse tão manipulador e o Robert tão manipulável.

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  20. Ameeeeeeeei! \Ü/

    Ass.: Mutta Chase Heyel

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    1. Não, são contos escritos pela Cassandra Clare outros autores, como está na capa. Os dez já foram lançados, não sai mais. Agora é só acompanhar Os Artifícios das Trevas

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  22. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Qual é o próximo? Você quer me convencer que eles estão fazendo outra porcaria de filme do Último Mestre do Ar? morri de rir amo a nerdice do simon star wars to amando todas as referencis da cassadra e to amando toda essa historia do si e da izzy amo tudo demais.

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    1. kkkkkkk né. essas referências, Sizzy <3

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  23. UIAAAAAAAAAAAAAAAA SIMON & IZZY — Foi um fingimento diferente, Simon. Acalme-se. Alguma vez lhe ocorreu que eu apenas gosto de torturá-lo?
    Houve aquele sorriso perverso novamente, e Simon sentiu que ela tinha o poder de acender o fogo nele; sentiu que já estava queimando.

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  24. PERGUNTA BÁSICA: SÓ EU QUE ACHEI QUE O ROBERT LIGHTWOOD TB É GAY? E TB ERA APAIXONADO PELO MICHAEL WAYLAND?

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  25. TA COM UM ERRO AQUI KARINA... QUANDO CLICA IR PRO PRÓXIMO VAI PRA UMA FANFIC A VOLTA DE LESLIE... ;)

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    1. Então, Elisa, é que postei esses contos a intervalos grandes.. então tá intercalado com umas fics mesmo :v
      E não penso que Robert seja/fosse gay

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    2. Ta blz, me confundiu um pouco... BAH COM ESSE CONTO EU ACHEI QUE ELE ERA... Mas, acho que os homens tem dificuldade de amar alguém que os ama - principalmente se esse alguém for homem. aiaiaiai que pena, eles eram tão amigos.

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  26. Ai finalmente um final para simon e Isabelle! Mas eu sinceramente não consegui ler as partes de Robert, ele realmente é muito chato.

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  27. Gente um conto melhor do que o outro!
    Adorei a história do Robert com o circulo! Pobre Michael Wayland! E eu saquei logo de cara que era tudo farsa pra ensinar uma lição aos alunos rs. Sizzy é tão lindo <3

    beijos

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  28. Odeio Valentim! Odeio o comportamento, personalidade e caráter de Robert Lightwood! Odeio cada segundo de tortura que Valentim fez a cada pessoa ou ser do submundo durante TMI, Jocelyn foi uma tola por acreditar e se casar com ele mas pelo menos veio a Clary maravilhosa né?! Voltando para Robert, ele com certeza não merece o sobrenome que carrega! (Minha opinião)

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