4 de dezembro de 2015

O Herondale Perdido


Simon aprende sobre a pior coisa que um Caçador de Sombras pode fazer: abandonar seus companheiros. No início do século XIX, Tobias Herondale abandonou seus companheiros Caçadores de Sombras no calor da batalha e os deixou morrer. Suas vidas foram perdidas, mas Tobias nunca mais voltou, e a Clave reivindicou a vida de sua esposa em troca da de Tobias. Simon e seus colegas ficam chocados ao saber dessa brutalidade, especialmente quando é revelado que a mulher estava grávida. Mas e se a criança tiver sobrevivido... poderia haver uma linhagem Herondale perdida no mundo de hoje?


Houve um tempo, não muito tempo atrás, quando Simon Lewis se convencera de que todos os professores de educação física eram na verdade demônios que escaparam de alguma dimensão infernal, nutrindo-se das agonias da juventude descoordenada.
Mal sabia ele que estava quase certo. Não que a Academia de Caçadores de Sombras possuísse aula de educação física, não exatamente. E o seu preparador físico, Delaney Scarsbury, não tinha muito de demônio como um Caçador de Sombras que provavelmente pensava que cortar as cabeças de algumas bestas infernais era uma noite de sábado ideal – mas tanto quanto Simon podia discernir, estas eram apenas tecnicalidades.
— Lewis! — Scarsbury gritou, assomando-se sobre Simon, que estava deitado no chão, tentando se superar para fazer outra flexão. — O que você está esperando, um convite escrito?
As pernas de Scarsbury eram tão grossas quanto troncos de árvores, e os bíceps não eram menores. Esta, pelo menos, era uma diferença entre o Caçador de Sombras e os professores de educação física mundanos de Simon, a maioria dos quais mal conseguia erguer um peso. Além disso, nenhum dos professores de educação física de Simon usava um tapa-olho ou carregava uma espada esculpida com runas e abençoada por anjos.
Mas de todas as maneiras que contavam, Scarsbury era exatamente igual.
— Todos olhem para Lewis! — ele berrou para o resto da classe, enquanto Simon ficava em uma posição de prancha instável, desejando-se a não fracassar na sujeira. Mais uma vez. — Nosso herói aqui pode apenas derrotar seus braços de espaguete depois de tudo.
Pelo menos apenas uma pessoa riu. Simon reconheceu o riso de Jon Cartwright, o filho mais velho de uma família de Caçadores de Sombra distinta (como ele mesmo era o primeiro a dizer). Jon acreditava que nasceu para a grandeza e parecia especialmente irritado por Simon – um infeliz mundano – conseguira chegar lá primeiro. Mesmo que ele não lembrasse mais de ter feito isso. Jon, é claro, era o único que tinha começado a chamar Simon de “nosso herói”. E como todos os professores maus de educação física antes dele, Scarsbury estava muito feliz em seguir a liderança do garoto popular.
A Academia dos Caçadores de Sombras tinha duas vertentes, uma para as crianças Caçadoras de Sombras que tinham crescido neste mundo e cujo sangue os destinava à extinção de demônios, e uma para os mundanos, à deriva, carentes da benção genética, lutando para recuperar o atraso. Os alunos passavam a maior parte do dia em classes separadas, os mundanos estudando artes marciais rudimentares e memorizando os pontos mais delicados do Pacto Nephilim; os Caçadores de Sombras com foco em habilidades mais avançadas: aprendendo a atirar estrelas de metal, estudando cthoniano, Marcando-se com runas de superioridade e quem sabe o que mais. (Simon ainda esperava que em algum lugar do manual do Caçador de Sombras estivesse o segredo do aperto mortal dos vulcanos Afinal, como seus instrutores estavam sempre lembrando-os: Todas as histórias são verdadeiras.) Mas as duas correntes da Academia estavam a cada dia mais juntas: cada aluno, não importa o quão inexperiente ou avançado, deveria aparecer no campo de treinamento ao nascer do sol para uma hora extenuante de exercícios. Nós estamos divididos, Simon pensou, seus bíceps teimosos recusando-se a aumentar. Unidos, nós fazemos flexões.
Quando ele disse à sua mãe que queria ir para a escola militar para se fortalecer, ela tinha lhe lançado um olhar estranho. (Não tão estranho como se ele tivesse dito que queria ir para a escola de caçadores de demônio para que ele pudesse beber da Taça Mortal, ascender para as fileiras dos Caçadores de Sombras e talvez conseguir recuperar as memórias que tinham sido roubadas dele em uma dimensão infernal, mas chegou perto). O olhar dizia: Meu filho, Simon Lewis, quer se inscrever para uma vida em que se tem que fazer cem flexões antes do café da manhã?
Ele sabia disso porque podia ler a mãe muito bem, mas também porque uma vez que ela recuperou a capacidade de falar, ela disse:
— Meu filho, Simon Lewis, quer se inscrever para uma vida em que se tem que fazer cem flexões antes do café da manhã?
Então ela lhe perguntou provocativamente se ele estava possuído por alguma criatura do mal, e ele fingiu rir, tentando, por sua vez, ignorar os tentáculos de memória daquela outra vida, a vida real. Aquele onde ele tinha sido transformado em um vampiro e sua mãe o chamara de monstro e o expulsou de casa. Às vezes, Simon pensava que faria qualquer coisa para ter de volta as memórias que tinham sido tomadas dele, mas havia momentos em que ele se perguntava se era melhor esquecer certas coisas.
Scarsbury, mais exigente do que qualquer sargento, fazia seus jovens alunos fazerem duas centenas de flexões a cada manhã... mas ele, pelo menos, os deixava tomar café da manhã antes.
Após as flexões vinham as voltas. Após as voltas vinham as lutas. E depois das lutas...
— Depois de você, herói — Jon zombou, oferecendo a Simon a primeira tentativa na parede de escalada. — Talvez se você liderar, não teremos que esperar tanto tempo para que você possa nos alcançar.
Simon estava exausto demais para dar uma resposta irritante. E, definitivamente, exausto demais subir a parede de escalada, uma distância impossivelmente grande de cada vez. Ele subiu por alguns apoios, em seguida, fez uma pausa para dar a seus músculos gritantes um descanso. Um por um, os outros alunos subiram após ele, nenhum deles parecendo nem um pouco sem fôlego.
— Seja um herói, Simon — Simon murmurou amargamente, lembrando-se do animado Magnus Bane suspenso diante dele em seu primeiro encontro, ou pelo menos, o primeiro de que Simon se lembrava.
— Tenha uma aventura, Simon. Que tal transformar sua vida em uma longa aula de educação física agonizante, Simon?
— Cara, você está falando sozinho de novo — George Lovelace, companheiro de quarto de Simon e seu único amigo verdadeiro na Academia, içou-se ao lado de Simon. — Você perdeu o controle?
— Estou falando comigo mesmo, não com homenzinhos verdes — esclareceu Simon. — Ainda são, pelo o que verifiquei da última vez.
— Não, eu quero dizer... — George acenou com a cabeça em direção aos dedos suados de Simon, que estavam pálidos com o esforço de manter o seu peso sob controle — sua aderência.
— Oh. Sim. Eu estou escorregando — disse Simon. — Só dando a vocês um bom começo. Acho que em condições de batalha, são sempre os camisas vermelhas que vão em primeiro lugar, sabe?
A testa de George franziu.
— Camisas vermelhas? Mas o nosso uniforme é preto.
— Não, camisas vermelhas. Bucha de canhão. Star Trek? Nada disso soa como... — Simon suspirou ao ver a expressão vazia no rosto de George. George tinha crescido em um ambiente rural isolado da Escócia, mas não era como se ele tivesse vivido sem Internet e TV à cabo. O problema, na medida em que Simon poderia dizer, era que os Lovelaces não assistiam nada além de futebol e usava o seu Wi-Fi quase que exclusivamente para monitorar as estatísticas do Dundee United, e ocasionalmente para comprar alimentos para ovelhas em grandes quantidades. — Esqueça. Eu estou bem. Veja!
George deu de ombros e voltou para sua subida. Simon viu seu companheiro de quarto – moreno e musculoso, tipo um modelo – balançar-se nos apoios de plástico/rocha tão facilmente como o Homem-Aranha. Era ridículo: George não era nem mesmo um Caçador de Sombras, não pelo sangue. Ele tinha sido adotado por uma família Caçadora de Sombras, o que lhe fazia tão mundano quanto Simon. Só que, como a maioria dos outros mundanos e muito ao contrário de Simon, ele era um espécime perfeito perto da humanidade. Repulsivamente atlético, coordenado, forte e rápido, e tão próximo de um Caçador de Sombras que você poderia imaginar o sangue dos anjos correndo em suas veias. Em outras palavras: um atleta.
Na vida da Academia dos Caçadores de Sombras faltava um monte de coisas que Simon outrora não acreditava poder viver sem: computadores, música, quadrinhos, água encanada. Ao longo dos últimos dois meses, ele tinha conseguido se acostumar, mas havia uma ausência gritante que ele ainda não conseguia tirar de sua cabeça.
A Academia dos Caçadores de Sombras não tinha nerds.
A mãe de Simon disse-lhe uma vez que a coisa que ela mais amava sobre ser judia era que você poderia entrar em uma sinagoga em qualquer lugar na Terra e se sentir como se tivesse voltado para casa. Índia, Brasil, Nova Zelândia, até mesmo Marte – se você puder confiar em Shalom, Homem do Espaço!, a história em quadrinhos caseira que tinha sido o destaque da terceira série da escola hebraica de Simon. Judeus em toda parte oravam na mesma língua, as mesmas melodias, as mesmas palavras. A mãe de Simon (que, convém notar, nunca havia deixado a região de Nova York, muito menos o país) contara a seu filho que, enquanto ele pudesse encontrar pessoas que falavam a língua de sua alma, ele nunca estaria sozinho.
E ela acabou por estar certa. Enquanto Simon pudesse encontrar pessoas que falavam a sua língua – a língua de Dungeons & Dragons e World of Warcraft, a linguagem de Star Trek, mangás e rock indie com canções como “Han Shot First” e “What the Frak” – ele sentiria como se estivesse entre amigos.
Estes Caçadores de Sombras em formação, por outro lado? A maioria deles provavelmente pensava que mangá era algum tipo de pé de atleta demoníaco. Simon estava fazendo o seu melhor para educá-los para as coisas boas da vida, mas caras como George Lovelace tinha tanta aptidão para dados de doze lados quanto Simon tinha para... bem, qualquer coisa fisicamente mais complexa do que andar e mascar chiclete ao mesmo tempo.
Como Jon previra, Simon era o último na parede de escalada. No momento em que os outros tinham subido, tocando o pequeno sino no topo, e descido de rapel novamente, ele estava apenas a dez metros do chão. Da última vez que isso acontecera, Scarsbury, que tinha um talento impressionante para sadismo, fizera a toda classe sentar e assistir como Simon fazia meticulosamente o seu caminho até o topo. Desta vez, o treinador cortou a sessão de tortura misericordiosamente curta.
— Chega! — Scarsbury gritou, batendo palmas.
Simon se perguntou se havia tal coisa como um apito. Talvez ele pudesse dar um para Scarsbury no Natal.
— Lewis, livre-nos de nossa miséria e desça daí. O resto de vocês, vá para a sala de armas, escolha uma espada, em seguida, emparelhem-se para o duelo — sua mão de ferro fechou-se sobre o ombro de Simon. — Não tão rápido, herói. Você fica para trás.
Simon se perguntou se era esse o momento em que o seu passado heroico finalmente era vencido por seu presente infeliz, e ele estava prestes a ser expulso da escola. Mas então Scarsbury chamou vários outros nomes – entre eles Lovelace, Cartwright, Beauvale e Mendoza – a maioria deles Caçadores de Sombras, todos eles os melhores alunos da turma, e Simon deixou-se relaxar, só um pouco. Fosse o que fosse que Scarsbury tinha a dizer, não poderia ser tão ruim assim, não se também fosse dizê-lo a Jon Cartwright, medalhista de ouro por natureza.
— Sentem-se — Scarsbury pediu.
Eles sentaram.
— Vocês estão aqui porque são os vinte alunos mais promissores da classe — falou Scarsbury, fazendo uma pausa para deixar o elogio assentar sobre eles. A maioria dos alunos irradiou alegria. Simon queria desaparecer. Enquanto os dezenove alunos mais promissores estavam ali, ele ainda se apoiava nas realizações de seu passado. Ele se sentia como tivesse oito anos de novo, ouvindo sua mãe gritar com o treinador da pequena liga para deixá-lo ter sua vez no bastão. — Temos um ser do Submundo que quebrou a Lei e precisa ser controlado — continuou Scarsbury — e os superiores decidiram que é a oportunidade perfeita para vocês, meninos, se tornarem homens.
Marisol Rojas Garza, uma mundana magra de 13 anos de idade que tinha expressão permanente de vou chutar o seu traseiro, limpou a garganta ruidosamente.
— Er... homens e mulheres — Scarsbury esclareceu, não parecendo muito feliz com isso.
Murmúrios vieram por parte de todos os alunos, emoção misturada com alarme. Nenhum deles esperava uma missão de treinamento real tão logo. Atrás de Simon, Jon fingiu um bocejo.
— Que chato. Eu poderia matar um ser do Submundo trapaceiro em meu sono.
Simon, que realmente matou seres do Submundo trapaceiros em seu sono, juntamente com demônios terríveis cheios de tentáculos e Caçadores de Sombras Crepusculares e outros monstros sanguinários que rastejavam através de seus pesadelos, não tinha muita vontade de bocejar. Ele sentia mais vontade de vomitar.
George levantou a mão.
— Uh, senhor, alguns de nós aqui ainda são... — ele engoliu em seco, e, não pela primeira vez, Simon se perguntou se ele se arrependia de admitir a verdade sobre si mesmo; a Academia era um lugar muito mais fácil de ficar quando se está na corrente da elite dos Caçadores de Sombras, e não apenas porque a elite não têm que dormir nos calabouços — mundanos.
— Percebi sozinho, Lovelace — Scarsbury disse secamente. — Imagine minha surpresa quando descobri que alguns de vocês, escórias, valem alguma coisa depois de tudo.
— Não, eu quero dizer... — George hesitou, substancialmente mais facilmente intimidado que qualquer deus sexy escocês um metro e oitenta (descrição de Beatriz Velez Mendoza, de acordo com a sua melhor amiga fofoqueira) tinha o direito de ser. Finalmente, ele endireitou os ombros e estufou o peito. — Quero dizer que somos mundanos. Nós não podemos ser Marcados, não podemos usar lâminas serafim, pedras enfeitiçadas ou qualquer coisa, não temos como ser supervelozes e ter reflexos angelicais. Ir atrás de um ser do Submundo quando só tivemos um par de meses de treinamento... não é perigoso?
Uma veia no pescoço de Scarsbury começou a latejar de forma alarmante, e seu olho bom inchou tanto que Simon temeu que ele pudesse estourar (o que, pensou ele, finalmente explicaria o tapa-olho misterioso).
— Perigoso? Perigoso? — ele gritou. — Alguma outra pessoa aqui tem medo de um pouco de perigo?
Se houvesse, eles estavam com mais medo de Scarsbury, e assim mantiveram a boca fechada. Ele deixou o silêncio cair, grosso e com raiva, por um minuto agonizante. Então fez uma careta para George.
— Se tem medo de situações perigosas, menino, então está no lugar errado. E para o resto de vocês, escória, é melhor descobrirem agora se possuem o que é preciso. Se não o fizerem, então beber da Taça Mortal vai matá-los, e confiem em mim, mundanos, ser drenado por um sugador de sangue seria uma maneira muito mais amável de morrer.
Ele fixou seu olhar sobre Simon, talvez porque Simon uma vez tenha sido um sugador de sangue, ou talvez porque ele agora parecia o mais provável de ser drenado por um.
Ocorreu a Simon que Scarsbury poderia estar esperando por esse resultado, que ele tinha selecionado Simon para esta missão na esperança de se livrar de seu maior aluno-problema.
Embora um Caçador de Sombras, até mesmo um professor de educação física Caçador de Sombras, não desceria tão baixo, certo?
Algo em Simon, um fantasma de uma memória, alertou para não ter tanta certeza.
— Entendido? — indagou Scarsbury. — Há alguém aqui que quer correr para a mamãe e o papai chorar “por favor, salve-me do grande vampiro mau?”
Silêncio mortal.
— Excelente. Vocês têm dois dias para treinar. Em seguida, basta pensar quão impressionados os seus amiguinhos vão ficar quando vocês voltarem — ele riu. — Se vocês voltarem.

* * *

A sala de estudos era escura e mofada, iluminada por velas cintilando e vigiada pelos rostos furiosos de Caçadores de Sombras do passado, Herondales e Lightwoods e até mesmo o Morgenstern ocasional olhando para baixo a partir de molduras douradas pesadas, seus triunfos sangrentos preservados no desvanecimento de tinta a óleo. Mas tinha várias vantagens óbvias sobre o quarto de Simon: não ficava nas masmorras, não era salpicado com lodo preto, não tinha o aroma fraco do que poderia ser de meias mofadas – mas também poderia ser dos corpos dos ex- estudantes em decomposição sob o assoalho – ele tinha o que parecia ser uma família grande e barulhenta de ratos arranhando atrás das paredes. A única vantagem notável de seu quarto, Simon se lembrou naquela noite enquanto jogava cartas em um canto com George, era a garantia de que Jon Cartwright e seu grupinho de Caçadores de Sombra nunca, nunca se dignou a cruzar o limiar.
— Sem setes — disse George, quando Jon, Beatriz e Julie entraram na sala de estar. — Vá pescar.
Enquanto Jon e as duas meninas se aproximaram, Simon de repente ficou muito interessado no jogo. Ou, pelo menos, ele fez o seu melhor. Em um colégio interno normal, haveria uma TV na sala de estar, em vez de um retrato gigantesco do Jonathan Caçador de Sombras, os olhos brilhando tanto quanto sua espada. Haveria música vazando dos quartos do dormitório e misturando-se no corredor, algumas delas boas, algumas péssimas; haveria e-mails e mensagens de texto e pornografia na Internet. Na Academia, as horas vagas eram mais limitadas: ou se estudava o Códex, ou simplesmente tiravam um cochilo. Cartas era o mais próximo que ele poderia chegar de um jogo, e quando ficava muito tempo sem jogar, Simon sentia um pouco de coceira. Ele descobriu que quando você passou treinando durante o dia todo para derrotar monstros do mundo real, o Dungeons & Dragons perdeu um pouco de seu brilho – ou pelo menos, quando George e todos os outros estudantes que Simon tentava recrutar para uma campanha recusavam – o que o deixou com estandartes de acampamento de verão semiesquecidos, reis, espadas, copas e paus. Simon reprimiu um bocejo.
Jon, Beatriz e Julie sentaram ao lado deles, esperando para ser reconhecidos. Simon esperava que se os ignorasse por tempo suficiente, eles acabariam por ir embora. Beatriz não era tão ruim, pelo menos não sozinha. Mas Julie poderia ter sido esculpida em gelo. Ela tinha poucos defeitos físicos – tinha o cabelo era loiro sedoso como o de uma Barbie, a pele de porcelana de uma modelo de cosméticos, melhores curvas do que qualquer uma das meninas de biquíni dos pôsteres da garagem de Erik e usava a expressão dura de alguém em uma missão de resgate que destruiria qualquer tipo de fraqueza.
Tudo isso, e ela carregava uma espada. Jon, é claro, era Jon.
Caçadores de Sombras não praticavam magia – era um princípio fundamental de suas crenças – por isso era improvável que a Academia ensinaria Simon uma maneira de fazer Jon Cartwright desaparecer em outra dimensão. Mas um cara poderia sonhar.
Eles não foram embora. Finalmente, George, congenitamente incapaz de ser rude, baixou suas cartas.
— Podemos ajudá-los? — perguntou George, um pouco de frieza em seu sotaque escocês.
A atitude amigável de Jon e de Julie desapareceu depois que eles souberam do sangue mundano de George, e apesar de George nunca falar nada sobre isso, ele claramente não tinha nem perdoado nem esquecido.
— Na verdade, sim — disse Julie. Ela acenou para Simon. — Bem, você pode.
Dar de cara com uma missão iminente de caça a vampiros não era exatamente algo agradável no dia de Simon; ele não estava de bom humor.
— O que você quer?
Julie olhou sem jeito para Beatriz, que olhou para seus pés.
— Você pergunta — Beatriz murmurou.
— É melhor se você o fizer — Julie devolveu.
Jon revirou os olhos.
— Oh, pelo Anjo! Eu vou fazer isso — ele se levantou com sua completa altura impressionante, descansou as mãos nos quadris, e olhou para baixo em seu nariz na direção de Simon. Parecia uma pose praticada no espelho. — Nós queremos que você nos fale sobre vampiros.
Simon sorriu.
— O que você quer saber? A mais assustadora é Eli em Deixe Ela Entrar, o mais elegante e de época é Lestat, o mais subestimado é David Bowie em A Fome. A mais sexy é definitivamente Drusilla, porém se você perguntar a uma menina, ela vai provavelmente dizer Damon Salvatore ou Edward Cullen. Mas... — ele deu de ombros. — Você conhece as garotas.
Os olhos de Julie e de Beatriz arregalaram.
— Eu não pensei que você soubesse tanto! — exclamou Beatriz. — Eles são eles... eles são seus amigos?
— Ah, claro, o Conde Drácula e eu somos assim — disse Simon, juntando os dedos indicador e médio em demonstração. — Também Conde Chocula. Ah, e meu melhor amigo Conde Blintzula. Ele é realmente encantador... — ele parou quando percebeu que ninguém mais estava rindo. Na verdade, ninguém parecia perceber que ele estava brincando. — Eles são da TV — ele explicou. — Ou, hã, um cereal.
— Do que ele está falando? — Julie perguntou a Jon, seu nariz perfeito franzindo em confusão.
— Quem se importa? — disse Jon. — Eu disse que isso era um desperdício de tempo. Como se ele se preocupasse com alguém, além de si mesmo.
— O que isso deveria significar? — perguntou Simon, começando a ficar irritado.
George pigarreou, visivelmente desconfortável.
— Vamos lá, se ele não quer falar sobre isso, é da conta dele.
— Não quando nossas vidas é que estão em jogo — Julie estava piscando com força, como se ela tivesse algo em seu olho ou... Simon prendeu a respiração. Ela estava piscando para conter as lágrimas?
— O que está acontecendo? — perguntou, sentindo-se mais sem noção do que é habitual, o que significava muito.
Beatriz suspirou e deu um sorriso tímido para Simon.
— Nós não estamos lhe pedindo nada pessoal ou, você sabe, doloroso. Nós só queremos que nos conte o que você sabe sobre os vampiros de quando, hum...
— De quando você era um sanguessuga — Jon preenchido por ela. — O que, como você pode recordar, você era.
— Mas eu não me lembro — Simon ressaltou.
— Ou você não estava prestando atenção?
— Isso é o que você diz — argumentou Beatriz — mas...
— Mas você acha que eu estou mentindo? — perguntou Simon, incrédulo.
O buraco negro no centro de suas memórias era um fato central de sua existência, nunca tinha sequer lhe ocorrido que alguém pudesse questioná-lo. Qual seria a necessidade de mentir sobre isso e que tipo de pessoa o faria?
— Todos vocês pensam isso? Realmente?
Um por um, eles começaram a acenar com a cabeça... até George, embora pelo menos ele teve a graça de parecer envergonhado.
— Por que eu fingiria que não me lembro? — Simon indagou.
— Por que eles deixariam alguém como você aqui se realmente não tiver uma pista? — Jon respondeu. — É a única coisa que faz sentido.
— Bem, eu acho que é um mundo louco, muito louco — Simon retrucou. — Porque você vê o que você quer.
— Um monte de nada, então — disse Jon.
Julie lhe deu uma cotovelada, soando estranhamente irritada. Geralmente ela estava feliz em concordar com o que quer que Jon dissesse.
— Você disse que seria legal.
— Por qual motivo? Ou ele não sabe nada ou não quer nos dizer. E quem se importa, de qualquer maneira? É apenas um ser do Submundo. O que poderia acontecer de pior?
— Você realmente não sabe, não é? — perguntou Julie. — Você alguma vez esteve na batalha? Você já viu alguém se machucar? Morrer?
— Eu sou um Caçador de Sombras, não sou? — devolveu Jon, embora Simon percebesse que não era exatamente uma resposta.
— Você não estava em Alicante durante a guerra — Julie falou sombriamente. — Não sabe como foi. Você não perdeu nada.
Jon voltou-se para ela.
— Não me diga o que eu perdi. Eu não sei você, mas eu estou aqui para aprender a lutar, assim na próxima vez...
— Não diga isso, Jon — Beatriz implorou. — Não haverá uma próxima vez. Não pode haver.
Jon deu de ombros.
— Há sempre uma próxima vez — ele soou quase esperançoso sobre isso, e Simon entendeu que Julie provavelmente estava certa. Jon falava como alguém que tinha sido mantido muito longe de qualquer tipo de morte.
— Eu vi ovelhas mortas — George falou brilhantemente, claramente tentando aliviar o clima. — Talvez seja sobre isso.
Beatriz franziu a testa.
— Eu realmente não quero ter que lutar com um vampiro. Talvez se fosse alguém do Povo das Fadas...
— Você não sabe nada sobre fadas — Julie retrucou.
— Eu sei que eu não me importaria de matar um par delas — disse Beatriz.
Julie murchou abruptamente como se alguém tivesse espetado soltado todo o ar.
— Eu também não. Se fosse assim tão fácil...
Simon não sabia muito sobre as relações entre os Caçadores de Sombras e os seres do Submundo, mas descobriu rapidamente que o Povo das Fadas era o inimigo público número um na terra dos Caçadores de Sombras atualmente. O verdadeiro inimigo número um, Sebastian Morgenstern, que tinha começado a Guerra Maligna e transformou um monte de Caçadores de Sombras em zumbis maus adoradores de Sebastian, estava morto há muito tempo. Contudo deixou seus aliados secretos, o Povo das Fadas, para suportar as suas consequências. Mesmo Caçadores de Sombras como Beatriz, que parecia acreditar honestamente que os lobisomens eram como qualquer outra pessoa, apenas um pouco mais peludos, e tinha uma quedinha de fã pelo feiticeiro Magnus Bane, falou sobre as fadas como se fossem uma infestação de baratas e a Paz Fria como se fosse apenas um ponto de parada para o extermínio.
— Você estava certo esta manhã, George — Julie falou. — Eles não deveriam nos enviar dessa forma, qualquer um de nós. Nós não estamos prontos.
Jon bufou.
— Fale por você.
Enquanto eles discutiam entre si sobre exatamente o quão difícil seria matar um vampiro, Simon se levantou. Era ruim o suficiente que todos eles pensassem que ele era um mentiroso, mas o pior era que, de certa forma, ele meio que era. Ele não conseguia se lembrar de nada sobre ser um vampiro – nada de útil, pelo menos, mas lembrou-se o suficiente para ficar extremamente desconfortável com a ideia de matar um. Ou talvez fosse apenas a ideia de matar qualquer coisa. Simon era um vegetariano, e a única violência que ele já praticara estava no monitor, explodindo dragões de pixels e lesmas do mar.
Isso não é verdade, uma voz em sua cabeça o lembrou. Há uma abundância de sangue em suas mãos. Simon encolheu os ombros. Não se lembrar de algo não significa que isso nunca aconteceu, mas às vezes fingir tornava as coisas mais fáceis.
George agarrou seu braço antes que ele pudesse sair.
— Sinto muito por... você sabe. Eu deveria ter acreditado em você.
— Sim. Você deveria — Simon suspirou, em seguida, garantiu a seu companheiro de quarto não havia ressentimentos, o que era principalmente verdade.
Ele estava no meio do corredor sombreado quando ouviu passos atrás de si.
— Simon! — chamou Julie. — Espere um segundo.
Nos últimos meses, Simon tinha descoberto a existência de magia e demônios, e aprendeu que suas memórias do passado eram tão frágeis e falsas quanto velhas bonecas de papel de sua irmã, e ele desistira de tudo o que conhecia para se mudar para um país magicamente invisível e estudar a caça aos demônios. E ainda assim, nada o surpreendeu tanto quanto a lista cada vez maior de meninas quentes que urgentemente queriam algo dele. Não era quase tão divertido como deveria ter sido.
Simon parou para deixar Julie acompanhá-lo. Ela era alguns centímetros mais alta e tinha o tipo de olhos cor de avelã salpicado de ouro que mudava com a luz. Aqui no corredor escuro, eles brilharam âmbar no brilho do candelabro. Ela se moveu com uma graça fácil, como uma dançarina de balé, caso dançarinas de balé costumasse cortas as pessoas em tiras com uma adaga de prata com runas. Em outras palavras, ela se movia como uma Caçadora de Sombras, e pelo o que Simon tinha visto dela no campo de treinamento, ela ia ser muito boa.
E como qualquer boa Caçadora de Sombras, ela não tinha nenhuma inclinação para se relacionar com os mundanos, muito menos mundanos que costumavam ser seres do Submundo – até mundanos que, em uma vida que já não podiam se lembrar, tinham salvado o mundo. Mas desde que Isabelle Lightwood fora à Academia reivindicar seus direitos sobre Simon, Julie tinha olhado para ele com fascínio especial. Menos como alguém que ela queria jogar na cama e mais como alguém que ela queria examinar sob um microscópio enquanto arrancavam seus membros, escavado seu interior e procurando algum vislumbre do que poderia possivelmente atrair uma garota como Isabelle Lightwood.
Simon não se importou em deixá-la olhar. Ele gostava da curiosidade afiada em seu olhar, a falta de expectativa. Isabelle, Clary, Maia, todas aquelas meninas de volta a Nova York, elas afirmaram conhecê-lo e amá-lo, e ele acreditava nelas, mas também sabia que elas não o amavam, amavam Simon em alguma versão bizarra do mundo dele, algum monstro em forma de Simon, e quando olhavam para ele, elas viam o que queriam ver, era aquele outro cara. Julie talvez o odiasse – ok, claramente o odiava, mas ela também o enxergava.
— É realmente verdade? — ela perguntou-lhe agora. — Você não se lembra de nada? Ser um vampiro? A dimensão demoníaca? A Guerra Maligna? Nada disso?
Simon suspirou.
— Estou cansado, Julie. Podemos apenas fingir que você me perguntou isso um milhão de vezes mais e eu te dei a mesma resposta, a cada dia?
Ela passou a mão pelos olhos, e Simon se perguntou novamente se era possível que Julie Beauvale tivesse sentimentos humanos reais e, por qualquer motivo, estava piscando para conter as lágrimas humanas reais. Estava muito escuro no corredor para ver alguma coisa além dos traços suaves do seu rosto e o brilho dourado onde seu colar desaparecia em seu decote.
Simon apertou uma mão na clavícula, de repente lembrando-se do peso de uma pedra, o refletir de um rubi, o pulso firme assim como um batimento cardíaco, o olhar em seu rosto quando ela o entregou por questão de segurança, disse adeus, retalhos de memória confusa impossíveis de reconstituir, mas mesmo quando ele perguntou a si mesmo, que rosto, que despedida, sua mente ofereceu-se a resposta.
Isabelle. Era sempre Isabelle.
 — Eu acredito em você — disse Julie. — Eu não entendo, mas acredito em você. Acho que eu estava esperando...
— O quê? — havia uma nota estranha em sua voz, algo delicado e incerto, e ela parecia quase tão surpresa quanto ele por ouvi-lo.
— Eu pensei que você, de todas as pessoas, pudesse entender. O que é lutar por sua vida. Lutar contra um ser do Submundo. Pensar que você vai morrer. Entender... — sua voz não vacilou e sua expressão não se alterou, mas Simon quase podia sentir seu sangue gelar enquanto ela forçava as palavras: — ver outras pessoas caírem.
— Sinto muito — disse Simon. — Quero dizer, eu sei sobre o que aconteceu, mas...
— Mas não é o mesmo que estar lá — Julie completou.
Simon balançou a cabeça, pensando sobre as horas que passou sentado ao lado da cama de seu pai, segurando sua mão, observando-o definhar.
Quando os pais dele e de Rebecca sentaram-se, forçando falar todas aquelas palavras impensáveis, “metástase” e “paliativos” e “terminal”, ele tinha pensado: Ok, eu sei como isso acontece. Ele tinha visto muitos filmes onde o pai do herói morre; ele tinha imaginado o olhar no rosto de Luke Skywalker, retornando para encontrar corpos do tio de sua tia e latente nas ruínas Tatooine, e achava que entendia a dor.
— Há algumas coisas que você não pode entender a menos que já tenha passado por si mesmo.
— Você já se perguntou por que estou aqui? — Julie perguntou a ele. — Treinando na Academia, ao invés de em Alicante ou algum Instituto?
— Na verdade... não — admitiu Simon, mas talvez ele deveria ter pensado.
A Academia esteve fechada por décadas, e ele sabia que durante esse tempo as famílias de Caçadores de Sombras haviam se acostumado a treinar seus próprios filhos. Também sabia que a maioria deles, no limiar da Guerra Maligna, ainda faziam isso, não querendo deixar seus entes queridos muito longe da sua vista.
Ela desviou o olhar, então, e os dedos se apertaram, precisando de algo para segurar.
— Eu vou te contar uma coisa agora, Simon, e você não vai repetir a ninguém.
Não era uma pergunta.
— Minha mãe foi uma das primeiras Caçadoras de Sombras a ser transformada — disse ela, com a voz amortecida. — Então ela se foi agora. Depois, nós fugimos para Alicante, assim como todos os outros. E quando eles atacaram Alicante... eles trancaram todas as crianças no Salão dos Acordos. Pensaram que seria seguro lá. Mas não havia qualquer lugar seguro naquele dia. As fadas entraram, e os Crepusculares... eles teriam matado todos nós, Simon, se não fosse por você e seus amigos. Minha irmã, Elizabeth. Ela foi uma das últimas a morrer. Eu assisti, aquele elfo com cabelo de prata, e ele era tão bonito, Simon, como mercúrio líquido, e era em que eu estava pensando quando ele baixou sua espada. Que ele era bonito — ela sacudiu-se toda. — De qualquer forma, meu pai está indisponível agora. Então é por isso que estou aqui. Para aprender a lutar. Então da próxima vez...
Simon não sabia o que dizer. Sinto muito parecia tão inadequado. Mas Julie parecia ter ficado sem palavras.
— Por que você está me dizendo isso? — ele perguntou suavemente.
— Porque eu quero que alguém entenda que é uma grande causa o que eles estão nos enviando a fazer. Mesmo que seja apenas um vampiro contra todos nós. Eu não me importo o que Jon diz. Coisas acontecem. Pessoas... — ela balançou a cabeça bruscamente, como se estivesse descartando não só ele, mas tudo o que se passara entre eles. — Além disso, eu queria te agradecer pelo o que fez, Simon Lewis. E por seu sacrifício.
— Eu realmente não lembro de ter feito nada — disse Simon. — Você não deveria me agradecer. Eu sei o que aconteceu naquele dia, mas é como se tudo acontecesse com outra pessoa.
— Talvez seja assim que pareça, mas se você vai se transformar em um Caçador de Sombras, tem que aprender a ver as coisas como elas são.
Ela virou-se então, e começou a seguir para o quarto dela. Ele fora dispensado.
— Julie? — ele chamou suavemente atrás dela. — É por isso que Jon e Beatriz estão na Academia, também? Por causa das pessoas que perderam na guerra?
— Você terá que perguntar a eles — ela respondeu, sem olhar para trás. — Todos nós temos nossa própria história da Guerra Maligna. Todos nós perdemos algo. Alguns de nós perderam tudo.

* * *

No dia seguinte, o professor de história deles, a feiticeira Catarina Loss, anunciou que estava passando a classe para um convidado especial. O coração de Simon parou. O último palestrante convidado para honrar os alunos com sua presença tinha sido Isabelle Lightwood. E a “palestra” consistira num aviso severo e humilhante de que cada garota em um raio de dezesseis quilômetros devia manter suas mãos pegajosas afastadas do corpo quente de Simon.
Felizmente, parecia improvável que o homem alto de cabelos escuros que caminhou até a frente da sala de aula tivesse qualquer interesse em Simon ou em seu corpo.
— Lazlo Balogh — ele falou, seu tom de voz implicando que ele deveria ser apresentado, mas que talvez Catarina deveria ter tido a honra de fazê-lo.
— Líder do Instituto de Budapeste — George sussurrou no ouvido de Simon.
Apesar de sua preguiça autoproclamada, George memorizara o nome de cada líder de Instituto, para não mencionar todos os Caçadores de Sombras famosos na história – antes de chegar à Academia.
— Eu vim para lhes contar uma história — disse Balogh, as sobrancelhas dobradas em um V nitidamente irritado. Entre a pele pálida, o bico de viúva escuro e o fraco sotaque húngaro, Balogh parecia mais o Drácula do que qualquer um que Simon já conhecera.
Ele suspeitava que Balogh não apreciaria a comparação.
— Muitos de vocês nesta sala de aula, em breve, enfrentarão sua primeira batalha. Eu vim para informá-los sobre o que está na ponta da estaca.
— Nós não somos os únicos que precisam ser se preocupar com estacas — comentou Jon, e riu da fileira do fundo.
Balogh lançou um olhar furioso para ele.
— Jonathan Cartwright — ele falou, seu sotaque dando às sílabas uma sombra sinistra. — Se eu fosse o filho de seus pais, controlaria minha língua na presença de meus superiores.
Jon ficou branco. Simon podia sentir o ódio irradiando dele, e pensou que era provável que Balogh tivesse feito um inimigo para a vida toda. Possivelmente todos na sala de aula sentiram, também, porque Jon não era o tipo de apreciar uma audiência para sua humilhação.
Ele abriu a boca, depois a fechou de novo em uma firme linha fina. Balogh acenou com a cabeça, como se estivesse concordando que, sim, ele estava certo de que ele deveria calar a boca e queimar de vergonha em silêncio.
Balogh pigarreou.
— Minha pergunta para vocês, crianças, é esta. Qual é a pior coisa que um Caçador de Sombras pode fazer?
Marisol levantou a mão.
— Matar um inocente?
Balogh parecia ter cheirado algo ruim. (Aquela sala de aula estava com uma pequena infestação de percevejos, então não era totalmente improvável.)
— Você é uma mundana — observou ele.
Ela assentiu com a cabeça ferozmente. Era coisa favorita de Simon sobre a dura garota de treze anos: ela nunca pediu desculpas por ser quem ou o que era. Pelo contrário, ela parecia orgulhosa disso.
— Houve um momento em que nenhum mundano teria autorização para entrar em Idris — disse Balogh. Ele olhou para Catarina, que pairava na borda da sala de aula. — E para seres do Submundo, era o mesmo.
— As coisas mudam — comentou Marisol.
— De fato — ele examinou a sala de aula, que estava preenchida com mundanos e Caçadores de Sombras igualmente. — Será que qualquer um dos... alunos mais informadas gostaria de arriscar um palpite?
A mão de Beatriz levantou-se lentamente.
— Minha mãe sempre disse que a pior coisa que um Caçador de Sombras podia fazer era esquecer o seu dever, de que estava ali para servir e proteger a humanidade.
Simon percebeu que os lábios de Catarina curvaram-se em um meio sorriso.
Balogh visivelmente mudou a direção do discurso. Então, aparentemente decidindo que o método socrático não o melhor método a ser utilizado, ele respondeu à sua própria pergunta.
— A pior coisa que qualquer Caçador de Sombras pode fazer é trair seus companheiros no calor da batalha — ele entoou. — A pior coisa que qualquer Caçador de Sombras pode ser é covarde.
Simon não podia evitar, mas sentiu que Balogh estava falando diretamente para ele, que Balogh tinha olhado para dentro de sua cabeça e sabia exatamente quão relutante Simon estava em empunhar sua arma em condições de batalha contra um ser vivo real.
Bem, não exatamente vivo, ele lembrou a si mesmo. Ele lutou com demônios antes, sabia disso, e não achava que tinha perdido o sono por isso. Mas demônios eram apenas monstros. Vampiros ainda eram pessoas; vampiros tinham alma. Vampiros, ao contrário das criaturas em seus videogames, podiam se ferir e sangrar e morrer e também podiam revidar. Na aula de inglês do ano anterior, Simon tinha lido A Gloria de Um Covarde, um romance tedioso sobre um soldado da Guerra Civil que tinha fugido no calor da batalha. O livro, que na época parecia ainda mais irrelevante do que o cálculo, o fizera dormir, mas uma frase ficara gravada em seu cérebro: “Ele era um covarde vadio”. Eric estava na classe também, e por poucas semanas eles decidiram chamar sua banda de Covarde Vadio, antes de esquecer tudo sobre o livro. Mas ultimamente Simon não conseguia tirar a frase de sua cabeça. “Vadio” como em: loucos por alguma vez terem pensando que um vadio como ele poderia ser um guerreiro ou um herói. “Covarde” como em: mole. Assustado. Tímido. Um covarde grande e gordo.
— O ano era 1828 — Balogh declamou. — Isso foi antes dos Acordos, lembrem-se, antes que os seres do Submundo fossem postos na linha e ensinados a ser civilizados.
Com o canto do olho, Simon viu sua professora de história endurecer. Não parecia sensato ofender uma bruxa, mesmo uma tão aparentemente imperturbável como Catarina Loss, mas Balogh continuou ignorado-a.
— A Europa estava em caos. Revolucionários indisciplinados fomentavam a discórdia em todo o continente. E nos estados alemães, uma pequena cabala de feiticeiros se aproveitou da situação política para liberar as misérias mais indecorosas sobre a população local. Alguns de vocês mundanos podem estar familiarizados com este momento de tragédia e destruição das histórias contadas pelos irmãos Grimm — ao ver o olhar surpreendido em vários rostos dos alunos, Balogh sorriu pela primeira vez. — Sim, Wilhelm e Jacob estavam no meio dela. Lembre-se, crianças, todas as histórias são verdadeiras.
Enquanto Simon tentava envolver a cabeça em torno da ideia de que poderia, em algum lugar na Alemanha, haver um grande pé de feijão com um gigante irritado no topo, Balogh continuou sua história.
Ele contou à classe sobre o pequeno grupo de Caçadores de Sombras que fora dispensado para “lidar com os feiticeiros”. De sua jornada em uma floresta alemã densa, suas árvores vivas com magia negra, seus pássaros e animais encantados para defender o território contra as forças da justiça. No coração escuro da floresta, os feiticeiros tinham convocado um Grande Demônio, planejando libertar o seu poder sobre o povo da Baviera.
— Por quê? — um dos alunos perguntou.
— Feiticeiros não precisavam de uma razão — disse Balogh, com um outro olhar para Catarina. — A convocação de magia negra é sempre atendida pelos fracos e facilmente tentados.
Catarina murmurou alguma coisa. Simon encontrou-se esperando que fosse uma maldição.
— Havia cinco Caçadores de Sombras — Balogh continuou — que era uma força mais do que suficiente para controlar três bruxos. Mas o Grande Demônio veio com uma surpresa. Mesmo assim, era certo que teriam triunfado, se não fosse a covardia do mais jovem do grupo, um Caçador de Sombras chamado Tobias Herondale.
Um murmúrio ondulou através da sala de aula. Cada aluno, Caçador de Sombras e mundano igualmente, conhecia o nome Herondale. Era o sobrenome de Jace. Era o nome de um herói.
— Sim, sim, vejo que já ouviram falar dos Herondale — observou Balogh, impaciente. — E talvez já tenham ouvido coisas boas de William Herondale, por exemplo, ou seu filho James, ou Jonathan Lightwood Herondale hoje. Mas até mesmo a árvore mais forte pode ter um ramo fraco. O irmão de Tobias e sua esposa tiveram mortes nobres na batalha antes que a década acabasse. Para alguns, isso foi o suficiente para limpar a mancha do nome Herondale. Mas nenhuma quantidade de glória Herondale ou sacrifício nos fará esquecer o que Tobias fez – nem deve. Tobias era inexperiente e distraído, estava na missão sob coação. Ele tinha uma esposa grávida em casa, e trabalhou sob a ilusão de que isso deveria afastá-lo de suas funções. E quando o demônio lançou seu ataque, Tobias Herondale, que seu nome seja escurecido para o resto do tempo, deu as costas e fugiu — então Balogh repetiu o que se passou, batendo a mão contra a mesa a cada palavra. — Deu. As. Costas. E. Fugiu.
Ele passou a descrever, em detalhes horríveis e dolorosos, o que aconteceu depois: enquanto três dos Caçadores de Sombras restantes foram abatidos pelo demônio – um estripado, uma queimada viva, um encharcado com sangue ácido até se dissolver em pó – o quarto sobreviveu apenas pela intervenção dos bruxos e voltou, desfigurado por queimaduras demoníacas que nunca deixaram de ser para seu povo um aviso para ficar longe.
— Claro, nós revidamos em força ainda maior, e devolvemos aos feiticeiros dez vezes o que eles tinham feito com os moradores. Mas o maior crime, este de Tobias Herondale, ainda chama por vingança.
— O maior crime? Maior do que o abate de um grupo de Caçadores de Sombras? — Simon falou antes que pudesse se conter.
— Os demônios e feiticeiros não podem impedir o que são — disse Balogh sombriamente. — Caçadores de Sombras são feitos em um padrão mais elevado. As mortes desses três homens ficaram sobre os ombros de Tobias Herondale. E ele teria sido punido à altura, se tivesse sido tolo o suficiente para mostrar o seu rosto novamente. Ele nunca o fez, mas a dívida precisa ser para. Um julgamento foi realizado à revelia. Ele foi julgado culpado, e a punição foi estabelecida.
— Mas pensei que o senhor disse que ele nunca mais voltou? — Julie colocou em forma de pergunta.
— De fato. Assim, a punição recaiu sobre sua esposa, em seu lugar.
— A esposa grávida? — indagou Marisol, parecendo prestes a vomitar.
Sed lex, dura lex — disse Balogh.
A frase em latim tinha sido martelada para eles desde o primeiro dia na Academia, e Simon estava chegando a odiar o som dela tão frequentemente era usado como desculpa para agir como monstros.
Balogh juntou os dedos e contemplou a sala de aula, observando com satisfação enquanto sua mensagem ficava clara. Era assim que a Clave tratava a covardia no campo de batalha; esta era a justiça ao abrigo do Pacto.
— A Lei é dura — Balogh traduziu para os alunos em silênco. — Mas é a Lei.

* * *

— Escolham sabiamente — Scarsbury advertiu, observando os alunos filtrarem as muitas opções afiadas que a sala de armas tinha a oferecer.
 — Como é que vamos escolher sabiamente quando você não vai mesmo dizer o que iremos enfrentar? — Jon reclamou.
— Você sabe que é um vampiro — respondeu Scarsbury. — Vai aprender mais quando chegar ao local.
Simon colocou um arco sobre os ombros e selecionou um punhal para o combate corpo a corpo; parecia que a arma com que ele se cortara acidentalmente no início dos treinamentos seria a que ele levaria. Enquanto os alunos Caçadores de Sombras se Marcaram com runas de força e agilidade e enfiavam estelas nos bolsos, Simon colocou uma lanterna fina de um lado do cinto e um lança-chamas portátil para o outro. Ele tocou a Estrela de Davi pendurada na mesma corrente que o pingente de Jordan ao redor de seu pescoço – que não ajudaria muito a menos que esse vampiro fosse judeu – mas isso o fazia se sentir um pouco melhor. Como se alguém estivesse olhando por ele.
Havia uma eletricidade de antecipação no ar que lembrou Simon de ser uma criança, preparando-se para ir em uma viagem de campo. É claro, uma visita ao Jardim Zoológico do Bronx ou o centro de tratamento de águas residuais tinha menos chance de estripação, e em vez de fila para embarcar em um ônibus escolar, os alunos se reuniram na frente de um portal mágico que iria levá-los transdimensionalmente a milhares de quilômetros em um piscar de olhos.
— Você está pronto para isso? — George perguntou a ele, sorrindo.
Enfeitado com o uniforme completo e uma longa espada a tiracolo, o colega de quarto de Simon se parecia em cada centímetro com um guerreiro.
Por um breve momento, Simon imaginou-se dizendo não. Erguendo a mão, pedindo para ser dispensado. Admitido que ele não sabia o que estava fazendo aqui, que cada combate tático que ele aprendera tinha evaporado de sua mente, que gostaria de arrumar sua mala, ir para casa e fingir que nada disso tinha acontecido.
— Como eu nunca estarei — ele respondeu, e deu um passo através do Portal.
Pelo o que Simon lembrava, viajar de ônibus escolar era uma experiência imunda e indigna, cheia de maus cheiros, escarradas e a luta embaraçosa ocasional para fugir das doenças.
Viajar pelo Portal era significativamente pior. Uma vez que ele recuperou o equilíbrio e sua respiração, Simon olhou ao redor e engasgou. Ninguém havia mencionado para onde seriam transportados, mas Simon reconheceu o bloco imediatamente. Ele estava de volta na cidade de Nova York – e não apenas Nova York, mas no Brooklyn.
Gowanus, para ser mais específico, um trecho estreito de parques industriais e armazéns que revestiam um canal tóxico que ficava a menos de dez minutos a pé do apartamento de sua mãe.
Ele estava em casa. Era exatamente como ele lembrava – e ainda assim, totalmente diferente. Ou talvez fosse apenas ele que estivesse totalmente diferente, que depois de apenas dois meses em Idris, esquecera os sons e cheiros da modernidade: o zumbido baixo e constante de energia elétrica e da neblina espessa de escapamento de carro, os caminhões buzinando, pombos voando e pilhas de lixo que fazia dezesseis anos formavam o tecido de sua vida diária.
Por outro lado, talvez fosse porque agora que ele podia ver através do encantamento, ele podia ver as sereias nadando no Gowanus.
Ele estava em casa e num lugar diferente, tudo ao mesmo tempo, e Simon sentiu a mesma desorientação que teve depois de seu verão nas montanhas no acampamento Ramah, quando ele se viu incapaz de adormecer sem o som das cigarras e ronco de Jake Grossberg no beliche superior. Talvez, pensou, você não pudesse saber o quanto as coisas mudaram se você não tentasse ir para casa.
— Ouçam, homens! — Scarsbury gritou quanto o estudante final atravessou o Portal.
Eles estavam reunidos na frente de uma fábrica abandonada, com as paredes riscadas com pichações e suas janelas tapadas fechadas.
Marisol limpou a garganta, em voz alta, e Scarsbury suspirou.
— Ouçam, homens e mulheres. Dentro deste edifício está a vampira que quebrou o Pacto e matou vários mundanos. Sua missão é localizá-la e executá-la. E eu sugiro que o façam antes do pôr do sol.
— Não deveria ser permitido que os vampiros lidassem com isso por eles mesmos? — perguntou Simon.
O Códex havia deixado bem claro que seres do Submundo eram confiáveis para se policiar. Simon se perguntou se isso envolvia um julgamento de vampiros desonestos antes de serem executados.
Como eu cheguei aqui?, ele se perguntava, ele nem sequer acreditava em pena de morte.
— Não que isso seja de seu interesse — disse Scarsbury — mas seu clã a entregou a nós, de modo que vocês podem crianças podem ter um pouco de sangue em suas mãos. Pense nisso como um presente, dos vampiros para vocês.
Exceto que ele não era um vampiro de todo, Simon pensou.
Sed lex, dura lex — George murmurou ao seu lado, com um olhar inquieto, como se ele estivesse tentando se convencer.
— Há vinte e um de vocês e uma delas — Scarsbury falou — e, no caso até mesmo essas chances serem demais para vocês, Caçadores de Sombras experientes estarão assistindo, prontos para entrar em ação quando vocês estragar tudo. Vocês não os verão, mas eles sim, e garantirão que não sofram danos. Provavelmente. E se algum de vocês estiver tentado a dar as costas e correr, lembrem do que aprenderam. Covardia tem seu preço.

* * *

Quando eles estavam de pé no sob a luz do sol brilhante, a missão tinha soado mais do que um pouco antidesportiva. Vinte Caçadores de Sombras em formação, todos eles armados até as brânquias; um vampiro capturado, preso no prédio por paredes de aço e luz do sol.
Mas dentro da antiga fábrica, no escuro, imaginando o lampejo de movimento e o brilho de presas atrás de cada sombra, a história era diferente. O jogo não mais estava a seu favor, já não se sentiam como num jogo.
Os alunos dividiram-se em pares, rondando através da escuridão. Simon se ofereceu para guardar uma das saídas, esperando que isso se provaria semelhante aos jogos de futebol de classe ginásio, onde ele tinha passado horas guardando a meta e apenas um punhado de vezes teve de afastar um chute certeiro.
Claro, cada uma dessas vezes, a bola tinha navegado sobre a cabeça e para o gol, perdendo o jogo para a sua equipe. Mas ele tentou não pensar sobre isso.
Jon Cartwright estava parado na porta ao lado dele, uma pedra enfeitiçada brilhando em sua mão. O tempo passou; eles fizeram o seu melhor para ignorar um ao outro.
— Pena que você não pode usar um desses — disse Jon finalmente, segurando a pedra. — Ou um desses — ele bateu na lâmina serafim pendurada em seu cinto. Os alunos não tinham sido ensinados a lutar com elas ainda, mas várias das crianças Caçadoras de Sombras trouxeram suas próprias armas de casa. — Não se preocupe, herói. Se o vamp se mostrar, estarei aqui para te proteger.
— Ótimo, assim poderei me esconder atrás de seu enorme ego.
Jon virou em cima dele.
— Preste atenção, mundano. Se não tiver cuidado, você vai... — a voz de Jon sumiu. Ele recuou até ficar pressionado contra a parede.
— Eu vou o quê? — Simon pressionou-o.
Jon fez um barulho que parecia com um gemido. Sua mão escorregou para o cinto, os dedos fechando-se em torno da lâmina serafim mas sem puxá-la para perto. Seus olhos estavam fixos em um ponto sobre o ombro de Simon.
— Faça alguma coisa! — ele chiou. — Ela vai nos pegar!
Simon tinha visto filmes de terror o suficiente para imaginar a cena. E a imagem foi o suficiente para fazê-lo querer sair correndo para a porta, escorregar através dela para a luz do dia e continuar correndo até que ele estivesse de volta em casa, com as portas trancadas e em segurança sob a cama, onde ele uma vez se escondera de monstros imaginários. Em vez disso, lentamente, ele se virou.
A garota que deslizou através das sombras parecia ser da sua idade. Seu cabelo castanho estava puxado para trás em um rabo de cavalo alto, os óculos eram rosa com chifres de aros escuros vintage, e sua camiseta carmesim era a de um oficial de Star Trek ensanguentada com os dizeres Viva rapidamente, morra vermelho. Ela era, em outras palavras, exatamente o tipo dele, exceto pelas presas cintilando e pela velocidade desumana com que ela atravessou o cômodo e chutou Jon Cartwright na cabeça. Ele caiu no chão.
— E então havia dois — a menina disse, e sorriu.
Nunca tinha ocorrido a Simon que o vampiro teria sua idade, ou pelo menos parecesse ter.
— Você tem que ser cuidadoso com aquela coisa, Diurno — ela comentou. — Ouvi dizer que você está vivo novamente. Provavelmente, quer manter-se dessa maneira.
Simon olhou para baixo para perceber que ele tinha tomado a adaga em sua mão.
— Você vai me deixar sair daqui, ou o quê? — ela perguntou.
— Você não pode ir lá fora.
— Não?
— Luz do sol, lembra? Faz vampiros virarem pó? — Simon não podia acreditar que sua voz não estava tremendo. Honestamente, ele não podia acreditar que não tinha feito xixi nas calças. Ele estava sozinho com uma vampira. Uma vampira bonita... que ele deveria matar. De alguma forma.
— Verifique o seu relógio, Diurno.
— Eu não uso relógio — disse Simon. — E não sou mais um Diurno.
Ela se aproximou, perto o suficiente para acariciar seu rosto. Seu dedo estava frio, sua pele tão suave como mármore.
— É verdade que você não se lembra? — ela perguntou, olhando com curiosidade para ele. — Você não se lembra nem de mim?
— Será que eu... eu a conheço?
Ela passou os dedos em seus lábios.
— A questão é, quão bem você me conhece, Diurno? Eu nunca te direi.
Clary e os outros nada tinham dito sobre Simon ter amigos vampiros, ou... mais do que amigos. Talvez eles quisessem poupá-lo dos detalhes de parte de sua vida, a parte onde ele tinha sede de sangue e caminhava nas sombras. Talvez ele tivesse estado tão envergonhado que nunca contou a eles. Ou talvez ela estivesse mentindo.
Simon odiava isso, não saber. Isso o fazia sentir como se estivesse andando em areia movediça, a todas as perguntas sem resposta, cada nova descoberta sobre o seu passado sugando-o mais para baixo na lama.
— Deixe-me ir, Diurno — ela sussurrou. — Você nunca teria ferido um dos seus próprios.
Simon tinha lido no Códex que os vampiros tinham a capacidade de hipnotizar; ele sabia que deveria estar preparado contra isso. Mas o olhar dela era magnético. Ele não conseguia desviar.
— Eu não posso fazer isso. Você quebrou a Lei. Matou alguém. Muitos alguéns.
— Como você sabe?
— Porque... — ele parou, percebendo o quão fraco ele soaria: porque alguém me contou.
Ela adivinhou a resposta de qualquer maneira.
— Você sempre faz o que mandam, Diurno? Nunca pensa por si mesmo?
A mão de Simon apertou o punhal. Ele tinha sido tão preocupado sobre a descoberta de que ele era um covarde, com muito medo de lutar. Mas agora que estava aqui, de frente para o suposto monstro, ele não estava com medo, estava relutante.
Sed lex, dura lex.
Exceto, talvez, que não era tão simples; talvez ela apenas tenha cometido um erro, ou alguém cometeu, talvez ele tivesse conseguido a informação errada.
Talvez ela fosse uma assassina, mas a sangue-frio, mesmo assim, quem era ele para puni-la?
Ela desviou dele em direção à porta. Sem pensar, Simon moveu-se para bloqueá-la. Sua adaga balançou para cima, cortando um arco perigoso através do ar e assobiando próximo à orelha dela.
Ela dançou para trás, rindo enquanto se lançou para ele, os dedos curvados como garras. Simon sentiu então, pela primeira vez, a adrenalina do impulso que tinha sido prometido, a clareza de batalha. Ele parou de pensar em termos de técnicas e movimentos, parou de pensar em tudo, e simplesmente agiu, bloqueou e baixou seu ataque, visando um pontapé em seus tornozelos para varrer as pernas debaixo dela, cortando o punhal através da pele pálida, tirando sangue, e enquanto sua mente retrocedeu na engrenagem de um novo ataque, um passo atrás de seu corpo, ele pensou, eu estou fazendo isso. Eu estou lutando. Estou ganhando.
Até que ela enrolou uma mão em torno de seu pulso em um punho de ferro, virou-o de costas como se ele fosse uma criança pequena, e montou. Ela estava brincando com ele, Simon percebeu. Fingindo lutar, até que ficou aborrecida.
Ela baixou o rosto para perto dele, perto o suficiente para que ele sentisse sua respiração – se ela estivesse respirando.
Lembrou-se, de repente, quão frio ele tinha sido, quando ele estava morto. Lembrou-se do silêncio em seu peito, onde seu coração já não batia.
— Eu poderia dar tudo de volta para você, Diurno — ela sussurrou. — Vida eterna.
Ele lembrou-se da fome e do gosto de sangue.
— Aquilo não era vida — ele respondeu.
— Não era a morte, também — seus lábios estavam frios no pescoço de Simon. Tudo nela era frio. — Eu poderia matá-lo agora, Diurno. Mas não vou. Eu não sou um monstro. Não importa o que eles lhe disseram.
— Eu disse a você, eu não sou mais um Diurno — Simon não sabia por que estava discutindo com ela, especialmente agora, mas parecia importante dizer isso em voz alta, que ele estava vivo, que ele era humano, que seu coração batia de novo. Especialmente agora.
— Você foi um integrante do Submundo uma vez — disse ela, erguendo-se sobre ele. — Isso sempre será uma parte de você. Mesmo que você esqueça, eles nunca esquecerão.
Simon estava prestes a discutir, mais uma vez, quando um chicote brilhante surgiu das sombras e envolveu em torno do pescoço da menina. Ele puxou-a fora de seus pés e ela caiu com força, a cabeça batendo contra o chão de cimento.
— Isabelle? — Simon chamou em confusão, enquanto Isabelle Lightwood se lançava contra a vampira, a lâmina reluzente.
Ele nunca percebera que um terrível crime contra a natureza era perder suas memórias de Isabelle em ação. Ficou claro que era o seu estado natural. Isabelle ainda era bonita; Isabelle pulando através do ar, esculpindo morte para a carne fria, era irreal, queimava tão brilhantemente quanto o seu chicote dourado. Ela era como uma deusa, Simon pensou, e então silenciosamente se corrigiu – ela era como um anjo vingador, sua vingança rápida e mortal. Antes que ele pudesse levantar, a garganta da menina vampira foi dividida e aberta, os olhos mortos-vivos revirando para trás em sua cabeça, e assim, tudo estava acabado. Ela era poeira; ela se fora.
— De nada — Isabelle estendeu a mão.
Simon a ignorou, levantando-se sem a sua ajuda.
— Por que você fez isso?
— Hum, porque ela estava prestes a matá-lo?
— Não, ela não estava — disse ele friamente.
Isabelle ficou boquiaberta.
— É sério que você está com raiva de mim? Por salvar sua vida?
Não estava até que ela sugeriu que ele imaginasse isso. Estava zangado com ela por ter matado a menina vampira, zangado por supor que ele precisava ser salvo e por estar praticamente certa, zangado por ela se esconder no escuro, esperando para salvá-lo, mesmo que ele tivesse tornado dolorosamente claro que não poderia haver qualquer coisa entre eles jamais. Zangado que ela fosse uma deusa guerreira de cabelos pretos sobrenaturalmente sexy, e aparentemente, contra todas as probabilidades ainda apaixonada por ele, e ele ia, aparentemente, romper com ela, mais uma vez.
— Ela não queria me machucar. Ela só queria ir.
— E o quê? Eu deveria tê-la deixado sair? É isso o que você estava planejando fazer? Há mais pessoas no mundo além de você, Simon. Ela matou crianças. Ela arrancou suas gargantas.
Ele não podia responder a isso. Não sabia o que sentir ou pensar. A menina vampira tinha sido uma assassina. Uma assassina a sangue-frio, em todos os sentidos da palavra. Mas ele sentiu um parentesco com ela enquanto ela abraçou-o, uma espécie de sussurro no fundo de sua mente que dizia que eles poderiam ser crianças perdidas juntos.
Ele não tinha certeza de que havia um lugar na vida de Isabelle para alguém perdido.
— Simon?
Isabelle era como uma mola bem comprimida. Ele podia ver o esforço que ela estava fazendo para manter sua voz calma, seu rosto livre de emoção. Como posso saber isso?, Simon se perguntou. Olhar para ela era como ver duas vezes: uma Isabelle que um estranho que mal conhecia, uma Isabelle que era a garota que o outro, o Simon melhor amou tanto que teria sacrificado tudo por ela. Havia uma parte dele, uma parte sob as memórias, além da racionalidade desesperada para encurtar o espaço entre eles, para levá-la em seus braços, alisar o cabelo para trás, perder-se em seus olhos sem fundo, seus lábios, seu feroz, protetor, amor esmagador.
— Você não pode continuar fazendo isso! — ele gritou, sem saber se estava gritando com ela ou consigo mesmo. — Não é o seu trabalho escolher por mim, decidir o que eu deveria fazer ou como eu deveria viver. Quem eu deveria ser. Quantas vezes tenho que lhe dizer antes de me ouvir? Eu não sou ele. Eu nunca vou ser ele, Isabelle. Ele pertencia a você, entendo isso. Mas eu não entendo. Sei que vocês Caçadores de Sombras estão acostumados a ter tudo à sua maneira, definir as regras, vocês sabem o que é melhor para o resto de nós. Mas não desta vez, ok? Não comigo.
Com calma deliberada, Isabelle enrolou o chicote em volta do pulso.
— Simon, acho que você está me confundido com alguém que se importa.
Não era a emoção em sua voz que rachou seu coração, mas a falta dela. Por trás das palavras não havia nada: nem dor, nem raiva reprimida, só um vazio. Oco e frio.
— Isabelle...
— Eu não vim aqui por você, Simon. Este é o meu trabalho. Pensei que você quisesse que fosse seu trabalho também. Se você ainda se sente assim, sugiro que reconsidere algumas coisas. Como a forma como você fala com seus superiores.
— Meus... superiores?
— E para o registro, já que você tocou no assunto? Você está certo, Simon. Eu não conheço esta versão sua. E tenho certeza de que não quero conhecer.
Ela passou por Simon, seu ombro roçando o dele por um breve momento, então escorregou para fora do prédio e para a noite.
Simon ficou olhando para ela, perguntando se deveria segui-la, mas ele não conseguia fazer seus pés se moverem.
Ao som da porta se fechando, Jon Cartwright piscou os olhos e vagarosamente pôs-se na posição vertical.
— Pegamos ela? — perguntou para Simon, ao avistar o pequeno monte de pó onde a menina vampiro tinha estado.
— Sim — ele respondeu, cansado. — Podemos dizer que sim.
— Ah, sim, isso mesmo, sanguessuga! — Jon ergueu o punho no ar, em seguida, fez dedos diabo. — Você fez uma bagunça com esse touro Cartwright -  tentou pegar pelos chifres!

* * *

— Não estou dizendo que ela não quebrou a Lei — explicou Simon, pelo o que parecia ser a centésima vez. — Eu só estou dizendo, mesmo que ela tivesse quebrado, por que nós temos que matá-la? Que tal, eu não sei, cadeia?
Quando eles voltaram para a Academia pelo Portal, o jantar já tinha acabado. Mas como recompensa por seu trabalho, Dean Penhallow abrira o salão de jantar e a cozinha para os vinte alunos que retornaram. Eles se reuniram ao redor de um par de mesas compridas, devorando famintos rolinhos de ovo requentados e carne sem sabor. A Academia tinha retornado à sua tradicional política de servir comida internacional, mas, infelizmente, todos esses alimentos eram preparados por um único chef, que Simon suspeitava ser um bruxo, porque quase tudo o que eles comiam parecia encantado para parecer com comida de cachorro.
— Porque é isso o que fazemos — disse Jon. — Um vampiro – um ser do Submundo viola o Pacto, e alguém tem que matá-lo. Você não está prestando atenção?
— Então por que não há uma prisão para os seres do Submundo? — perguntou Simon. — Por que não há punições para seres do Submundo?
— Não é assim que funciona, Simon — disse Julie. Ele pensou que ela poderia ser mais amigável após a sua conversa no corredor na outra noite, mas se alguma coisa estava diferente, era que suas beiradas pareciam mais afiadas, mais susceptíveis a tirar sangue. — Este não é o seu direito mundano estúpido. Esta é a Lei. Decretada pelo Anjo. É maior do que todo o resto.
Jon assentiu com a cabeça orgulhosamente.
— Sed lex, dura lex.
— Mesmo que seja errado? — perguntou Simon.
— Como poderia ser errado, se é a Lei? Isso é uma contradição.
Precisa conhecer um, para saber do outro, pensou infantilmente, mas parou antes de dizer isso em voz alta. De qualquer forma, Jon era mais um idiota na sua lista.
— Você percebe que tudo soa como se estivesse em algum tipo de culto — Simon lamentou.
Ele tocou a estrela que ainda estava pendurada em seu pescoço. Sua família nunca tinha sido particularmente religiosa, mas seu pai sempre amava ajudá-lo tentar descobrir a perspectiva judaica sobre questões de certo e errado.
— Há sempre uma pequena sala para isso — ele contou a Simon — um espaço para descobrir sozinho.
Ele ensinara a Simon a fazer perguntas, desafiar a autoridade, a entender e acreditar nas regras antes de segui-las. Havia uma herança judaica nobre de discussão, seu pai gostava de dizer, mesmo quando se tratava de discutir com Deus. Simon se perguntou agora o que seu pai pensaria dele, na escola para os fundamentalistas, jurando lealdade a uma lei superior. O que significa mesmo ser judeu em um universo onde os anjos e demônios caminhavam sobre a Terra, praticavam milagres e carregavam espadas? Pensar por si mesmo era uma atividade mais adequada para um mundo sem qualquer evidência do divino?
A Lei é dura, mas é a Lei — acrescentou Simon em desgosto. — Quão louco é isso? Se a Lei está errada, por que não mudá-la? Você sabe o que o mundo seria se todos nós ainda estivéssemos seguindo as leis feitas antes na Idade das Trevas?
— Você sabe quem mais costumava falar assim? — perguntou Jon ameaçadoramente.
— Deixe-me adivinhar: Valentim — Simon fez uma careta. — Porque, aparentemente, em toda a história dos Caçadores de Sombras apenas um rapaz se preocupou em levantar qualquer dúvida. Sim, sou eu, carismático, supervilão do mal quase liderando uma revolução. Melhor me denunciar.
George balançou a cabeça em advertência.
— Simon, eu não acho que...
— Se você odeia tanto, por que está mesmo aqui? — Beatriz cortou, uma nota estranhamente hostil em sua voz. — Você pode escolher a vida que quer viver — ela parou abruptamente, deixando algo suspenso no silêncio. Algo, Simon suspeitava, como: Ao contrário do resto de nós.
— Boa pergunta — Simon largou o garfo e empurrou sua cadeira para trás.
— Vamos lá, você nem sequer terminar o seu... — George acenou em direção ao prato, como se não conseguisse realmente descrevê-lo como alimento.
— Acabei de perder meu apetite — Simon estava a meio caminho para as masmorras quando Catarina Loss o deteve no corredor.
— Simon Lewis — disse ela. — Nós precisamos conversar.
— Podemos fazê-lo na parte da manhã, a Srta. Loss? — perguntou. — Foi um longo dia, e...
Ela balançou a cabeça.
— Eu sei sobre o seu dia, Simon Lewis. Falaremos agora.

* * *

O céu estava iluminado com estrelas. A pele azul de Catarina brilhava à luz do luar, e seu cabelo cor de prata queimada. A feiticeira insistira que ambos precisavam de um pouco de ar fresco, e Simon teve que admitir que ela estava certa. Sentiu-se melhor imediatamente, apenas respirando na grama e à vista das árvores e do céu. Idris tinha estações bem marcadas do ano, mas até agora, pelo menos, não eram como as estações que ele estava acostumado. Ou melhor, eram como as melhores versões delas mesmas: cada dia de outono nítido e brilhante, o ar rico com a promessa de fogueiras e pomares, a aproximação do inverno marcada apenas por um céu surpreendentemente claro e uma nova parte afiada para o ar que era quase agradável em sua dor gelada.
— Escutei o que você disse no jantar, Simon — disse Catarina, enquanto passeavam pelos jardins.
Ele olhou para a professora com surpresa e um pouco de alarme.
— Como você pode fazer isso?
— Eu sou uma feiticeira — ela o lembrou. — Eu posso fazer um monte de coisas.
Certo. Escola de magia, ele pensou em desespero, querendo saber se ele alguma vez teria alguma privacidade novamente.
— Eu quero contar-lhe uma história, Simon. É algo que contei para poucas pessoas, de confiança, e espero que você escolha guardar para si mesmo.
Parecia uma coisa estranha ela se arriscar por um estudante que mal conhecia, mas, em seguida, ela era uma bruxa. Simon não tinha ideia do que eram capazes de fazer, mas ele estava ficando melhor em imaginar. Se ele quebrasse sua confiança, ela provavelmente saberia. E agiria em conformidade.
— Você estava ouvindo na sala de aula a história de Tobias Herondale?
— Eu sempre escuto em sala de aula — disse Simon, e ela riu.
— Você é muito bom em respostas evasivas, Diurno. Se daria um bem no País das Fadas.
— Estou supondo que não foi um elogio.
Catarina ofereceu-lhe um sorriso misterioso.
— Eu não sou nenhuma Caçadora de Sombras — ela lembrou. — As minhas opiniões sobre o Povo das Fadas são minhas.
— Por que vocês ainda me chamam de Diurno? — perguntou Simon. — Você sabe que não sou mais.
— Somos o que nosso passado nos transformou — disse Catarina. — O acúmulo de milhares de escolhas diárias. Nós podemos mudar a nós mesmos, mas nunca apagar o que fomos — ela levantou um dedo para silenciá-lo, como se soubesse que ele estava prestes a discutir. — Esquecer essas escolhas não as desfaz, Diurno. Você faria bem em lembrar isso.
— É isso o que você queria me dizer? — ele perguntou, sua irritação mais visível do que pretendia. Por que todo mundo em sua vida sentia a necessidade de lhe dizer quem ele era, ou quem ele deveria ser?
— Você está impaciente comigo — observou Catarina. — Felizmente, eu não me importo. Vou contar-lhe uma outra história de Tobias Herondale agora. Escute ou não – a decisão é sua.
Ele escutou.
— Eu conheci Tobias, conheci que sua mãe antes dele nascer, observei-o como uma criança lutando para se encaixar em sua família, encontrar o seu lugar. Os Herondale são uma linhagem bastante infame, como você provavelmente sabe. Muitos deles heróis, alguns deles traidores, muitos deles impetuosos, criaturas selvagens consumidos por suas paixões, seja amor ou ódio. Tobias era... diferente. Ele era suave, doce, o tipo de garoto que fazia o que lhe era dito. Seu irmão mais velho, William, era um Caçador de Sombras apto para ser um Herondale, tão corajoso e duas vezes mais obstinado quanto o neto, que mais tarde levou seu nome. Mas não Tobias. Ele não tinha nenhum talento especial para Caçador de Sombras, e não muito amor por isso, também. Seu pai era um homem duro, a mãe um pouco histérica, embora poucos pudessem culpá-la com um marido assim. Um menino mais ousado poderia ter deixado sua família e suas tradições, decidido que não era qualificado para ser Caçador de Sombras e ir embora por conta própria. Mas para Tobias? Isso era impensável. Seus pais lhe ensinaram a Lei, e ele sabia apenas segui-la. Não é tão incomum entre os seres humanos, mesmo quando o seu sangue é misturado com o anjo. Incomum para um Herondale, talvez, mas se alguém pensou nisso, o pai de Tobias fez com que eles mantiveram suas bocas fechadas. E assim ele cresceu. Casou-se, o que surpreendeu a todos, porque Eva Blackthorn era o oposto dele. Uma cabeça-quente de cabelos negros, um pouco como a sua Isabelle.
Simon se irritou. Ela não era a Isabelle dele, não mais. Ele se perguntou se ela já tinha sido sua verdadeiramente. Isabelle não parece ser o tipo de garota que pertencem a alguém. Era uma das coisas que mais gostava sobre ela.
— Tobias a amava mais do que qualquer coisa que ele tinha amado – a sua família, o seu dever, a si mesmo. Havia, talvez, sangue Herondale correndo de verdade em suas veias. Ela estava carregando seu primeiro filho quando ele foi chamado para a missão na Baviera, vocês já ouviram como essa história terminou.
Simon assentiu com a cabeça, o coração apertando mais uma vez com o pensamento da punição na esposa de Tobias. Eva. E seu filho que não nasceu.
— Lazlo Balogh conhece apenas a versão desta história como tem sido transmitida por gerações de Caçadores de Sombras. Tobias não é mais uma pessoa para eles, ou um antepassado. Ele não passa de um conto preventivo. Há poucos de nós que restaram para se lembrar dele como o menino que ele foi uma vez.
— Como o conheceu tão bem? — perguntou Simon. — Pensei que naquela época feiticeiros e Caçadores de Sombras não fossem exatamente... você sabe.. falantes um com o outro.
Na verdade, Simon tinha pensado que era mais como termos de assassinado; pelo o que tinha aprendido com o Códex e suas aulas de história, os Caçadores de Sombras do passado tinha ido atrás dos bruxos e outros seres do Submundo como grandes caçadores caçam elefantes. Desportivamente e renunciando a sede de sangue.
— Essa é uma história diferente — Catarina repreendeu. — Eu não estou contando a minha história, estou te contando a história de Tobias. Basta dizer que ele era um rapaz amável, até mesmo para um Caçador de Sombras, e sua bondade era lembrada. O que você sabe, o que todos os Caçadores de Sombras hoje pensam que sabem, é que Tobias era um covarde que abandonou seus companheiros no calor da batalha. A verdade nunca é tão simples, não é? Tobias não quis deixar para trás sua esposa quando ela estava doente e grávida, mas ele foi assim mesmo, fazendo o que lhe foi ordenado. Adentrando naquela floresta da Bavária, ele encontrou um feiticeiro que conhecia o seu maior medo, e usou-o contra ele. Ele encontrou uma brecha na segurança de Tobias, encontrou um caminho em sua mente convencendo-o de que sua esposa estava em perigo terrível. Ele mostrou-lhe uma visão de Eva, sangrenta e morrendo e gritando por Tobias para salvá-la. Tobias estava encantado e aflito, e o feiticeiro lançou visão após visão de todos os horrores do mundo que Tobias não poderia suportar. Sim, Tobias fugiu. Sua mente enlouqueceu. Ele abandonou seus companheiros e fugiu para a floresta, cego e atormentado por pesadelos acordados. Como todos os Herondale, sua capacidade de amar sem medida, sem fim, era o seu grande dom e sua grande maldição. Quando ele pensou que Eva estava morta, enlouqueceu. Eu sei quem culpo pela destruição de Tobias Herondale.
— Eles não podem ter sabido que ele foi levado à loucura! — Simon protestou. — Ninguém poderia puni-lo por isso!
— Eles sabiam — Catarina disse a ele. — Mas não importava. O que importava era a sua traição contra o seu dever. Eva nunca esteve em perigo, é claro, pelo menos, não até que Tobias abandonou seu posto. Essa foi a última ironia cruel da vida de Tobias: que ele condenou a mulher que ele teria morrido para salvar. O feiticeiro tinha-lhe mostrado um vislumbre do futuro, um futuro que nunca teria acontecido se Tobias fosse capaz de resistir a ele. Ele não podia resistir. Ele não pôde ser encontrado. A Clave puniu Eva.
— Você estava lá — Simon adivinhou.
— Estava — ela concordou.
— E você não tentou detê-los?
— Eu não perdi meu tempo tentando, não. Os Nephilim não prestam atenção a seres do Submundo que interferem. Só um tolo tentaria ficar entre os Caçadores de Sombras e sua Lei.
Havia algo sobre a maneira como ela disse, irônico e triste ao mesmo tempo, que o fez perguntar:
— Você é uma tola, não é?
Ela sorriu.
— É perigoso chamar uma feiticeira com nomes como esse, Simon. Mas... sim. Tentei. Procurei por Tobias Herondale, usando caminhos que os Nephilim não tem acesso, e encontrei-o a vaguear louco na floresta, sem nem mesmo saber o próprio nome — ela baixou a cabeça. — Não pude salvá-lo ou a Eva. Mas eu salvei o bebê. Consegui esse feito.
— Mas como? Onde...?
— Usei certa quantidade de magia e astúcia para fazer o meu caminho para a prisão dos Caçadores de Sombras, onde você esteve uma vez — disse Catarina, acenando para ele. — Eu fiz o bebê chegue nascer mais cedo, e lancei um feitiço para fazer parecer como se ela ainda estivesse carregando a criança. Eva era de aço naquela noite, implacável e brilhante na escuridão que viera sobre ela. Ela não vacilou e não traiu a si mesma por qualquer sinal enquanto caminhava para atender a sua morte. Manteve o nosso segredo até o fim, e os Caçadores de Sombras que a mataram nunca suspeitaram de nada. Depois disso, foi quase fácil. Os Nephilim raramente tem algum interesse nas ações dos seres do Submundo – e os seres do Submundo frequentemente acham sua cegueira muito conveniente. Eles nunca perceberam quando fui para o Novo Mundo com um bebê. Eu fiquei lá por 20 anos, antes de voltar para o meu povo e meu trabalho, e criei a criança até que ela crescesse. Ela se afastou há anos, mas posso fechar os olhos e ver seu rosto quando ele era tão jovem como você é agora. O filho de Tobias e de Eva. Ele era um menino doce, amável como seu pai e feroz como sua mãe. Os Nephilim acreditam em viver por leis duras e pagar preços elevados, mas sua arrogância significa que eles não entendem completamente o custo do que fazem. O mundo teria sido pior sem esse menino nele. Ele tinha um amor mundano, e uma vida mundana preenchida com pequenos atos de graça, o que teria significado muito pouco para um Caçador de Sombras. Eles não o mereceriam. Deixei-o como um presente para o mundo mundano.
— Então você está dizendo que há outro Herondale lá fora em algum lugar? Talvez gerações de Herondale sem que ninguém saiba nada sobre...
Havia uma linha do Talmud do pai de Simon que ele sempre gostara: Aquele que salva uma única vida, é como se salvasse um mundo inteiro.
— É possível — disse Catarina. — Eu me certifiquei de que o menino nunca soubesse o que ele era, era mais seguro assim. Se de fato teve filhos, seus descendentes certamente acreditam que ele é mundano. E só agora, com tão poucos Caçadores de Sombras, que a Clave pense acolher os seus filhos ou filhas perdidos de volta ao rebanho. E, talvez, haja aqueles de nós que pudessem ajudar daqui para a frente. Quando for a hora certa.
— Por que está me contando isso, Srta. Loss? Por que agora? Por que alguma vez?
Ela parou de andar e se virou para ele, o cabelo prata esvoaçando no vento.
— Salvar essa criança, esse foi o maior crime que já cometi. Pelo menos, de acordo com a Lei dos Caçadores de Sombras. Se alguém souber, mesmo agora... — ela balançou a cabeça. — Mas também foi a escolha mais corajosa que já fiz. Da que estou mais orgulhosa. Eu tenho obrigações pelos Acordos como todo mundo, Simon. Faço o meu melhor para viver de acordo com o Estado de Direito. Mas tomo minhas próprias decisões. Há sempre uma Lei maior.
— Você diz isso como se fosse tão fácil de saber qual é. Ter tanta certeza de si mesmo, que você está certa, não importa o que a Lei diga.
— Não é fácil — Catarina corrigiu. — É o que significa estar vivo. Lembre-se do que eu disse, Simon. Toda decisão que tomar, tome por você. Nunca deixe que outras pessoas escolham quem você será.

* * *

Quando ele voltou para seu quarto, sua mente girando, George estava sentado no chão no corredor, estudando seu Códex.
— Hum, George? — Simon olhou para baixo, para seu companheiro de quarto. — Não seria mais fácil fazer isso lá dentro? Onde há luz? E não há esse lodo nojento no chão? Bem... — ele suspirou. — Menos lodo, pelo menos.
— Ela disse que eu deveria esperar aqui fora — disse George. — Que vocês dois precisam de privacidade.
— Quem disse? — mas a questão era supérflua, porque quem mais seria? Antes que George pudesse responder, ele já abria a porta e entrava. — Isabelle, você não pode apenas entrar no meu quarto...
Ele parou de repente, tão de repente que quase tropeçou em si mesmo.
— Não é Isabelle — falou a menina, ajeitando-se em sua cama. Seu cabelo vermelho-fogo estava puxado em um coque frouxo e suas pernas estavam dobradas embaixo dela; ela parecia totalmente em casa, como se tivesse passado metade de sua vida descansando em sua cama. O que, de acordo com ela, ela tinha.
— O que você está fazendo aqui, Clary?
— Eu vim por um Portal.
Ele balançou a cabeça, esperando. Estava feliz em vê-la, mas também ferido. Assim como sempre estava. Ele se perguntou quando a dor iria e ele seria capaz de sentir a alegria da amizade que sabia que ainda estava lá, como uma planta no solo congelado, esperando para crescer novamente.
— Eu ouvi o que aconteceu hoje. Com a vampira. E Isabelle.
Simon sentou-se na cama de George, na frente dela.
— Eu estou bem, ok? Sem marcas de mordida ou qualquer coisa. É bom de você se preocupar comigo, mas não pode simplesmente vir para cá por um portal e...
Clary bufou.
— Posso ver que seu ego está ileso. Não estou aqui porque estou preocupada com você, Simon.
— Oh. Então...?
— Estou preocupada com Isabelle.
— Tenho certeza de que Isabelle pode cuidar de si mesma.
— Você não a conhece, Simon. Quero dizer, não mais. E se ela souber que estive aqui, vai me matar, mas... você pode apenas tentar ter um pouco mais de cuidado com ela? Por favor?
Simon ficou horrorizado. Ele sabia que tinha decepcionado Isabelle, que a sua própria existência era uma decepção constante para ela, que ela queria que ele fosse outra pessoa. Mas nunca lhe ocorrera que ele, o não-vampiro, não-herói, o não-sexy Simon Lewis, poderia ter o poder de machucá-la.
— Desculpe — ele desabafou. — Diga a ela que sinto muito!
— Você está brincando comigo? Não ouviu a parte sobre como ela me mataria se soubesse que conversei com você sobre isso? Eu não vou falar com ela. Estou falando com você. Tenha cuidado com ela. Ela é mais frágil do que parece.
— Ela parece ser a menina mais forte que já conheci — Simon apontou.
— Ela é assim, também — Clary concordou. Ela se moveu desconfortavelmente então, e pulou de pé. — Bem, eu deveria... quero dizer, eu sei que você realmente não me quer por aqui, então...
— Não é isso, eu só...
— Não, eu te entendo, mas...
— Me desculpe...
— Me desculpe...
Os dois riram, e Simon sentiu algo afrouxar no peito, um músculo que ele nem sabia que estava contraído.
— Isso não costumava ser assim, não é? — ele perguntou. — Estranho?
— Não — ela lhe deu um sorriso triste. — Já foi um monte de coisas, mas nunca foi estranho.
Ele não podia imaginar isso, se sentir tão à vontade com uma garota, muito menos uma garota como ela, bonita, confiante e tão cheia de luz.
— Aposto que eu gostava disso.
— Espero que sim, Simon.
— Clary... — ele não queria que ela saísse, ainda não, mas não tinha certeza do que falar caso ela ficasse. — Você conhece a história de Tobias Herondale?
— Todo mundo conhece a história — ela falou. — E, obviamente, por causa de Jace...
Simon piscou, lembrando: Jace era um Herondale. O último dos Herondale. Ou assim ele pensava.
Se ele tivesse família lá fora, perdido por gerações, ele gostaria de saber, não é? Era suposto que Simon contasse a ele? A Clary?
Ele imaginou um Herondale perdido lá fora, alguma menina ou menino de olhos dourados que não sabia nada sobre os Caçadores de Sombras ou seu legado sórdido. Talvez ele ou ela gostasse de descobrir quem realmente era, mas talvez, se Clary e Jace fossem bater à sua porta contando-lhe histórias de anjos e demônios e uma nobre tradição de insanos que desafiavam a morte, ele ou ela correria gritando na direção oposta.
Às vezes, Simon se perguntava o que teria acontecido se Magnus nunca o tivesse encontrado, não tivesse lhe oferecido a oportunidade de reentrar no mundo dos Caçadores de Sombras. Ele teria vivido uma mentira, claro... mas teria sido uma mentira feliz. Teria ido para a faculdade, continuaria tocando com sua banda, flertado com algumas meninas não tão terríveis, viveria na superfície, sem imaginar a escuridão que estava por baixo.
Ele calculou que em sua outra vida, contaria a Clary o que ele sabia sem nem duvidar; adivinhou que eles eram o tipo de amigos que contavam tudo um ao outro.
Eles não tinham nenhum tipo de amizade agora, ele lembrou a si mesmo. Ela era uma estranha que o amava, mas ainda era uma estranha.
— O que você acha disso? — perguntou a ela. — O que a Clave fez com a mulher e o filho de Tobias?
— O que você acha que eu acho? — Clary devolveu. — Tendo em vista quem era meu pai? Dado o que aconteceu com os pais de Jace, e como ele sobreviveu? Não é óbvio?
Poderia ser óbvio para alguém que os conhecia, conhecia suas histórias, mas não para Simon.
A expressão dela mudou.
— Oh — sua confusão deve ter sido visível. Assim como a decepção dela - como se ela estivesse se lembrando mais uma vez quem ele era, e quem ele não era. — Não importa. Vamos apenas dizer que eu acho que a Lei é importante, mas não é a única coisa que importa. Quero dizer, se nós tivéssemos seguido a Lei sem pensar, você e eu nunca teríamos...
— O quê?
Ela balançou a cabeça.
— Não, eu prometi a mim mesma que não ia continuar fazendo isso. Você não precisa de um monte de histórias sobre o que aconteceu com a gente, quem você costumava ser. Tem que descobrir quem você é agora, Simon. Eu quero isso para você, essa liberdade.
Ele se surpreendeu com quão bem ela o entendia. Como ela sabia o que ele queria sem ter que pedir. Deu-lhe a coragem de perguntar algo que Simon queria saber desde que chegou à Academia.
— Clary, quando éramos amigos, antes que você soubesse sobre Caçadores de Sombras ou e tudo isso, você e eu éramos... iguais?
— Iguais como?
Ele deu de ombros.
— Você sabe, a música estranha e quadrinhos e, assim, realmente ruins nas aulas de educação física.
— Você quer dizer dois nerds desajeitados? — Clary perguntou, rindo novamente. — Afirmativo.
— Mas agora você é... — ele acenou com a mão para ela, indicando os bíceps fortes, o jeito gracioso e coordenado como ela se movia, tudo o que sabia de seu passado e presente. — Você é como esta guerreira Amazona.
— Obrigado? Eu acho? Jace é um bom instrutor. E, você sabe, não havia incentivo para chegar até a velocidade máxima. Rechaçar o Apocalipse e tudo mais. Duas vezes.
— Certo. E acho que está no seu sangue. Quero dizer, faz sentido que você seja boa em todas essas coisas.
— Simon — ela estreitou os olhos, de repente parecendo entender aonde ele queria chegar. — Você percebe que ser Caçador de Sombras não é apenas sobre o quão grande seus músculos são, certo? Eles não chamam isso de Academia de Musculação.
Ele esfregou seus bíceps doloridos com tristeza.
— Mas talvez devessem.
— Simon, você não estaria aqui se os responsáveis ​​não pensassem que você tem o que é preciso.
— Pensam que ele tem o que é preciso — Simon corrigiu. — O cara com a superforça de vampiro e... seja lá mais que poderes de vampiro venham no pacote.
Clary chegou perto o suficiente cutucá-lo no peito, e então ela fez isso. Com força.
— Não, você. Simon, você sabe como chegamos tão longe enquanto estivemos naquela dimensão demoníaca? Como conseguimos chegar perto o suficiente de Sebastian para vencê-lo?
— Não, mas suponho que envolveu um monte de assassinatos de demônios? — perguntou Simon.
— Não tanto quanto poderia ter havido, porque você veio com uma estratégia melhor — disse Clary. — Algo que você imaginou todos esses anos jogando D&D.
— Espere, você está falando sério? Está me dizendo que essas coisas realmente funcionaram na vida real?
— Estou falando sério. Estou dizendo que você nos salvou, Simon. Você fez isso mais de uma vez. Não porque você era um vampiro, não por causa de algo que você perdeu. Por causa de quem você era. Quem você ainda é — ela afastou-se, em seguida, respirou fundo. — Eu prometi a mim mesma que não faria isso — disse ela ferozmente. — Eu prometi.
— Não, estou feliz que tenha feito isso. Estou feliz que tenha vindo.
— Eu deveria ir embora. Mas tente se lembrar de Izzy, ok? Sei que você não pode entender, mas cada vez que você olha para ela como se ela fosse uma estranha, é como... é como alguém pressionando um ferro quente em sua carne. Dói muito.
Ela parecia tão certa, como se ela soubesse. Como se talvez eles não estivessem falando mais apenas de Isabelle. Simon sentiu isso agora, não a pontada de carinho que ele muitas vezes experimentava quando Clary sorria para ele, mas uma corrida forte de amor que quase o virava de cabeça para baixo. Pela primeira vez, ele olhou para ela, e ela não era uma estranha, ela era Clary... a amiga. A família dele. A garota que ele sempre jurara proteger. A garota que ele amava tão ferozmente quanto amava a si mesmo.
— Clary... Quando éramos amigos, foi ótimo, certo? Quero dizer, eu não estou apenas imaginando coisas, sentindo como se pertencêssemos um ao outro, estou? Nós pertencemos um ao outro, apoiamos um ao outro. Éramos bons juntos, certo?
Seu sorriso mudou de triste para algo mais, algo que brilhava com a mesma certeza que ele sentia, de que havia algo real entre eles. Era como se ele tivesse ligado uma luz dentro dela.
— Oh, Simon. Nós éramos absolutamente incríveis.

44 comentários:

  1. Não ia ser a maior loucura se o "herondale" perdido fosse ele, e que é por isso que a Loss contou a história verdadeira pra ele? '-'

    (eu digo "herondale" entre aspas pq teoricamente, depois de tantas gerações, com esse guri que ngm sabe o nome sem saber seu potencial, por assim dizer já não é um Herondale, Herondale, é só um "mundano" com personalidade herondale)

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    1. Nossa, já pensou?? Seria no mínimo engraçado! kkkk

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    2. Desconfio do George

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    3. N acho q Simon é o Herondale perdido... N faz mt sentido, sabe? E n vejo cm isso iria contribuir para a historia, a nao ser confusao e comedia...

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    4. Eu me perguntei a mesma cois
      Tipo o simon obvio q nao pq ele jao trria idade pra isso mais k avk dele sim quem sabe ta no sangue dele msm

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    5. eu fiquei entre o simon e o george, mas depois pensei que o simon fosse era pra ele ter a visão e ele ñ tinha eu acho mais provavel ser o george

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    6. Poderia ser, mas depois que li lady midnight... Não kkkkk

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    7. Não duvido q o George seja o Herói da lei perdido

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    8. O Simon não é o Herondale perdido... Nem o George... Haha
      Leiam a Dama da Meia-Noite, e vcs descobrirão quem é :)
      Tô amando esse livro, ♡ Como todos da Cassandra!

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  2. Só a Clary mesmo para por um pouco de bom senso no Simon! Estou com pena da e Isabelle .......
    E ansiosa por mais ....

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  3. Minhas ilusões de um mundo justo se destroem cada vez que continuo a ler...

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  4. Quando falou do Will meu coração quase saiu pela boca .. Entrei na Bad dnv , até agr não superei. :"(

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    1. Will...❤caramba,nunca superei a morte dele...😭😭😭

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    2. Will ❤...nunca consegui nem conseguirei superar a more delete...😭😭😭

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  5. Oh...Simon e Clary são a coisa mais linda!! *-* Adorei o final, e a relação deles se reconstruindo de novo. E mais: ELES TÊM QUE SER PARABATAI!!!!

    E até que eu pensei em Simon ser o tal Herondale. Simon e Jace parentes...Não existe piada melhor, mas há outros candidatos. Marisol e George são os mais fortes. Marisol, principalmente parece ter aquele fogo Herondale. E George...Suas habilidades são inexplicáveis...Vamos combinar! Mas estou torcendo para que seja o Simon. *-*

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  6. Ah, e mais uma pergunta: com que frequência vai haver atualizações?

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    1. Pretendo postar dois ou três contos por semana!

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  7. ai estou esperando desesperadamente pela continuação abrigada karina diva

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  8. caramba eu não acredito ainda que simon não consegue lembrar de clary e de izzy. ta doendo ate em mim e essa lei dos caçadores é mais um massacre que qualquer outra coisa.

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  9. Minha lista de possíveis herondales perdidos:
    1. George
    2. Marisol
    E por último o Simon pq mesmo agr ele não tendo muita personalidade, antes de perder a memória, antes ate msm de ser vampiro, quando era um mundano ele já fazia coisas incríveis...

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  10. Os contos estão me fazendo querer esganar o Simon
    Chutando a Isabelle como se ela n fosse se magoar nem um pouco
    Sizzy </3

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  11. Quando falaram do Will, me lembrei que ele tem um trauma de patos! "Nunca confie em um pato!" kkkkkkkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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    1. Will❤❤❤ não sei se rio ou choro😭😭😭

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    2. tbm lembrei kkkkk

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  12. 10zim que e a menina de 13 anos

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  13. Que comecem as apostas para saber quem é o(a) Herondale perdido. Ou talvez ele(a) nunca apareça na história, e seja apenas uma curiosidade a mais para acabar com o meu psicológico, ou o que resta dele. Quero que o Simon saia dessa, saudade da equipe toda reunida. Vontade esmagadora de ver eles nos próximos livros da Cassandra.

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    1. Pois é, ficamos imaginando quem será... e a Cassandra tem mais três séries pela frente, esse Herondale perdido pode aparecer em uma delas também

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  14. Basta fazer uma missão pra todos que envolva patos. Kkkk. Aquele que sair correndo é o Herondale perdido.

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    1. AMEIIIIIIIIIIIII ESSA HAHAHAHAHAHAH

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    2. Eu concordo
      Kkkkkkkkkkk

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    3. Em nome do Anjo, essa seria a melhor alternativa kkkkkkkkkkkklk

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  15. Nao devem ser nem Simon, nem Marosol, ou qualquer outro mundano, pois se nao eles ja seriam caçadores de sombras, ja que o sangue de anjo é mais forte neles.

    Eu acho que talvez a linhagem Herondale ja tenha voltado de algum modo para os caçadores, Acho que com o Alec, pois em varios trechos, Magnus e Camille falam como o Alec lembra o Will, alem de Magnus já ter falado sobre os olhos azuis do Alec que ele nunca viu em nenhum Lightwood.

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    1. Realmente, caso contrário eles não precisariam beber do Cálice. Mas como os Caçadores de Sombras saberiam disso sem aplicar uma runa num desavisado? Pq não é como se existisse um exame de sangue para provar...
      Alec tem os olhos azuis como um Herondale pq ele é descendente de uma Herondale, talvez outros da família também tivessem olhos azuis assim, Magnus apenas não os conheceu

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    2. Não pode ser o Alec porque ele é um Lightwood e descendente da irmã de Will que se tornou uma Lightwood e ela também tinha cabelos pretos e olhos azuis.

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  16. Ótimo capitulo, Simon não faça isso com Izzy! Nós éramos incríveis juntos, muito boa...

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  17. Simon o Herondale perdido? Será? Seria muito louco

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  18. A Clave é o pior de todos os vilões, torturar uma grávida? É de uma maldade sem escrúpulos. Espero que o Simon recupere logo a memória.

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  19. Damon salvatore? to amando as referencias e apaixonada cada vez mais pelo simon em sua crise de existencia

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  20. Quero saber quem vai ser parabatai do Simon
    Clary ou George?

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  21. era tudo menos estranho... chorei com isso

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  22. Não sei vocês, mas essa academia está me decepcionando um pouco, quando terminei de ler TMI e Lady Midnight achei que a academia tinha sido reconstruída e altamente preparada para transformar mundanos em caçadores de sombras, fantasiei que Simon ia começar a pegar o jeito de ser um caçador de sombras e só se aprimorasse com o tempo... Vamos lendo pra ver no que dá

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  23. POR FAVOR SIMON , LEMBRE-SE, LEMBRE-SE :'(
    Eu sofro pela Izzy, Clary, Simon :'( cara isso é muito Cruel.

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