4 de dezembro de 2015

O Demônio de Whitechapel


Jack, o Estripador, espreita através de Londres, e apenas os Caçadores de Sombras podem detê-lo. Simon descobre a verdade por trás desses assassinados – “Jack” foi parado por Will Herondale e seu instituto de Caçadores de Sombras vitorianos.


— Eu vejo — disse George — com meus olhinhos, algo que começa com S.
— Não sujeira, é? — perguntou Simon. Ele estava deitado de costas na cama de seu dormitório. Seu colega de quarto, George, estava deitado no colchão oposto. Ambos fitavam pensativamente a escuridão que envolvia o teto, o que era lamentável, porque o teto era nojento. — É sempre sujeira.
— Não é assim — disse George. — Uma vez que foi pó.
— Eu não tenho certeza de que realmente consigamos fazer a distinção entre sujeira e pó, e odeio que eu tenha que me preocupar com isso.
— Não é “sujeira”, de qualquer maneira.
Simon pensou por um momento.
— É isso... uma serpente? Por favor, me diga que não é uma serpente.
Simon recolheu as pernas involuntariamente.
— Não é uma serpente, mas agora isso é tudo em que serei capaz de pensar. Há serpentes em Idris? Parece ser o tipo de lugar onde eles se livram delas.
— Não é a Irlanda? — Simon indagou.
— Não acho que haja limitações para o caminho das serpentes. Certamente eles se livraram delas. Devem ter feito. Oh Deus, este lugar deve ter serpentes...
Havia um leve toque de sotaque escocês suave de George agora.
— Há guaxinins aqui em Idris? — perguntou Simon, tentando mudar de assunto. Ele ajustou-se na cama estreita e dura. Não havia motivo no ajuste. Cada posição era tão desconfortável quanto a última. — Temos guaxinins em Nova York. Eles ficam em qualquer lugar. Conseguem abrir portas. Eu li online que eles até sabem usar um teclado.
— Eu não gosto de serpentes. Serpentes não precisam de chaves.
Simon fez uma pausa por um momento para reconhecer o fato de que “Serpentes Não Precisam de Chaves” era um bom nome de álbum: soou profundo por um segundo, mas, em seguida, completamente superficial e óbvio, o que o fez voltar para o primeiro pensamento que causou toda essa conversa.
— Então, o que era? — perguntou Simon.
— O que era o quê?
— O que você estava vendo que começa com S?
— Simon.
Este era o tipo de jogo que você brincava quando se morava em um quarto pouco decorado localizado no porão da Academia dos Caçadores de Sombras – ou, como eles tinham começado a se referir – o andar da umidade derradeira.
George comentara muitas vezes que era uma pena que eles não fossem lesmas, porque aquilo era perfeitamente configurado para o estilo de vida de uma lesma.
Eles tinham vindo a uma aceitação desconfortável ao fato de que muitas criaturas fizeram da Academia o seu lar depois que ela foi fechada. Eles já não entravam em pânico quando ouviam barulhos deslizando dentro parede ou debaixo da cama. Se os ruídos estivessem na cama, eles se permitiam algum pânico. Isso aconteceu mais de uma vez.
Em teoria, os mundanos (ou escória, como eram chamados frequentemente) ficavam nas masmorras porque supostamente era mais seguro.
Simon tinha certeza de que havia provavelmente alguma verdade nisso. Mas havia provavelmente muito mais verdade para o fato de que os Caçadores de Sombras tendiam a ter um esnobismo natural que corria no sangue. Mas Simon pediu para estar ali, tanto com a escória quanto na Academia dos Caçadores de Sombras em si, por isso não havia razão em reclamar. Sem Wi-Fi, celular e televisão, as noites podem ser longas. Uma vez que as luzes se apagavam, Simon e George muitas vezes conversaram através da escuridão, como agora. Às vezes deitavam-se em suas respectivas camas em um silêncio sociável, cada um sabendo que o outro estava lá. Era algo. Era tudo saber que George estava do outro lado do cômodo. Simon não tinha certeza se aguentaria de outra forma. E não era apenas o frio ou os ratos ou qualquer outra coisa sobre o lugar fisicamente, era o que estava em sua cabeça, os crescentes ruídos, fiapos de memórias. Eles aproximavam-se como pedaços de canções esquecidas, músicas que ele não conseguia identificar. Havia lembranças de alegrias e medos enormes, mas muitas vezes ele não podia conectar eventos ou pessoas. Eles eram apenas sentimentos, golpeando-o no escuro.
— Você já notou — George falou — como até mesmo os cobertores parecem molhados quando você sabe que eles estão secos? E eu venho de Scotland. Eu conheço lã. Eu conheço ovelhas. Mas esta lã? Há algo demoníaco nisto aqui. Eu cortei meu dedo nisso ao fazer a cama outro dia.
Simon murmurou uma resposta. Não havia necessidade de qualquer atenção real. Ele e George tinham essas mesmas conversas todas as noites.
O lodo e a sujeira e as criaturas nas paredes e os cobertores ásperos e o frio. Todas as noites, estes eram os temas. Os pensamentos de Simon flutuavam. Ele teve duas visitas recentemente, e nenhuma delas tinha ido bem.
Isabelle e Clary, duas das pessoas mais importantes na sua vida (tanto quanto ele podia dizer) estiveram na Academia. Isabelle aparecera para reivindicar Simon, e Simon – em um movimento que o surpreendeu – chegou a dizer para ela se afastar. Ele não podia simplesmente voltar a ser do jeito que era. Não daquele modo, não quando ele não conseguia lembrar como aquele modo era. E então, no exercício de treinamento, Isabelle aparecera e matara uma vampira que estava prestes a derrotar Simon, mas ela o fizera friamente. Houve um amortecimento angustiante no jeito como ela falou. Então Clary aparecera. Tenha cuidado com ela, Clary disse. Ela é mais frágil do que parece.
Isabelle, com seu chicote e sua capacidade de cortar um demônio ao meio era mais frágil do que parecia.
A culpa o mantinha acordado durante a noite.
— Isabelle de novo? — perguntou George.
— Como você sabia?
— Palpite. Quero dizer, ela apareceu e ameaçou fatiar em tiras aqueles que se aproximassem demais de você, e agora esse silêncio, e sua amiga Clary apareceu para conversar sobre ela, e você também murmura o nome dela enquanto dorme.
— Eu faço isso?
— De vez em quando. Ou você está dizendo “Isabelle” ou “isca mele” poderia ser qualquer um, para ser justo.
— Como faço para corrigir isso? — perguntou Simon. — Eu nem sei o que estou corrigindo.
— Eu não sei. Mas o amanhecer logo chega. Melhor tentar dormir.
Houve uma longa pausa e então...
— Deve haver cobras — George observou. — Este lugar não é tudo o que uma cobra poderia querer? Frio, feito de pedra, com muitos buracos para deslizar para dentro e fora, ratos à vontade para comer... Por que ainda estou falando? Simon, me faça parar de falar...
Mas Simon o deixou seguir. Mesmo falar de possíveis serpentes nas proximidades era melhor do que o que estava atualmente passando por sua cabeça.

* * *

No geral, Idris tinha suas estações bem definidas. Nesse sentido, era como Nova York – você podia ver cada uma, clara e distinta. Mas Idris era mais agradável do que Nova York. O inverno não era apenas lixo e lama congelando; o verão não era apenas a lixo fervendo e ar-condicionado pingando na rua, parecendo que alguém cuspiu lá de cima. Idris era toda verde no tempo quente, fresca e tranquila no frio, o ar sempre com o cheiro de grama e fogueiras queimando.
Era assim na maioria das vezes. Então havia manhãs como as desta semana, que eram todas tumultuadas. Ventos aparentando ter pequenas lâminas ao final de cada rajada. Frio que penetrava na roupa. O uniforme de Caçador de Sombras, enquanto prático, não era necessariamente muito quente. Era leve e flexível, como roupas de combate deveriam ser. Não fora desenhado para uso em ambientes externos e pantanosos às sete da manhã, quando o sol mal nascera. Simon pensou em sua jaqueta acolchoada em casa, e em sua cama, e calor em geral. O café da manhã, que tinha sido um substituto de cola sob a fachada de mingau, assentou-se pesadamente em seu estômago.
Café. Era isso o que a manhã pedia.
Idris não tinha cafés, nenhum lugar para parar e conseguir uma xícara da bebida quente, fumegante e energizadora. O que se bebia no café da manhã da Academia era um chá aguado que Simon suspeitava não ser chá, mas o escoamento aquoso de uma das muitas sopas nocivas que surgiam dos fundos da cozinha. Ele jurava que tinha encontrado casca de batata em sua caneca de manhã. Esperava que fosse uma casca de batata.
Uma xícara do Java Jones. Era muito para querer da vida?
— Vocês veem essa árvore? — berrou Delaney Scarsbury, apontando para uma árvore.
Das muitas questões que seu preparador físico lhes fizera ao longo dos últimos meses, esta era uma das mais lógicas e diretas e ainda mais confusa. Todos podiam ver claramente a árvore. Era a única árvore daquela área em particular do campo. Ela era alta e ligeiramente inclinada para a esquerda.
Manhãs com Scarsbury soava como o nome de um programa de rádio ruim, mas era, na realidade, apenas o castigo físico projetado para condicionar e treiná-los para lutar. E para ser justo, Simon estava mais em forma agora do que quando chegou.
— Vocês veem essa árvore?
A questão era tão estranhamente óbvia que ninguém respondeu. Agora todos resmungaram um sim, eles viam a árvore.
— Aqui está o que vocês vão fazer — disse Scarsbury. — Você devem escalar esta árvore e caminhar ao longo daquele galho — ele apontou para um grosso ramo, talvez a cinco metro do chão — e saltar.
— Não, eu não vou — Simon murmurou.
Sons similares de descontentamento retumbaram em torno da classe. Ninguém parecia animado com a perspectiva de subir numa árvore e, em seguida, deliberadamente pular para fora dela.
— Bom dia — disse uma voz familiar.
Simon se virou para ver Jace Herondale atrás dele, todo sorrisos. Ele parecia relaxado e descansado e totalmente confortável em seu uniforme.
Caçadores de Sombras podiam desenhar runas para ficarem aquecidos. Eles não precisavam de casacos acolchoados hipoalergênicos. Jace não usava um gorro, o que permitia que seu cabelo dourado perfeitamente penteado balançasse atraente na brisa. Ele mantinha-se no fundo e ainda não tinha sido notado pelos outros, que ainda ouviam Scarsbury gritar por sobre o vento enquanto apontava para a árvore.
— Como você veio parar aqui? — perguntou Simon, soprando em suas mãos para aquecê-las.
Jace deu de ombros.
— Só dando uma mãozinha graciosa e atlética. Seria negligente negar a mais nova geração de Caçadores de Sombras um vislumbre do que eles poderiam se tornar se foram muito, muito, mas muito sortudos.
Simon fechou os olhos por um momento.
— Você está fazendo isso para impressionar Clary. Também me checando.
— Pelo Anjo, ele é um telepata! — disse Jace, fingindo cambalear para trás. — Basicamente, todo mundo está ajudando, já que todos os seus professores fugiram. Estou dando apoio à formação. Você goste ou não.
— Hmm. Não.
— Venha agora — disse Jace, batendo-lhe no braço. — Você costumava adorar fazer isso.
— Eu?
— Talvez. Você não gritava. Espere. Não. Sim, você gritava. Erro meu. Mas é fácil. Este é apenas um exercício de treinamento.
— O último exercício de treinamento envolveu matar uma vampira. No exercício anterior, assisti alguém levar uma flechada no joelho.
— Eu já vi pior. Vamos. Este é um exercício divertido.
— Não há nenhuma diversão aqui — disse Simon. — Esta não é a Academia Divertida. Eu devia saber. Eu estava em uma banda que uma vez se chamou Academia Divertida.
— Para ajudá-los nesta manhã — Scarsbury continuou — temos um Caçador de Sombras especialista e fisicamente capaz... Jace Lightwood Herondale.
Houve um suspiro audível e risinhos nervosos enquanto cada cabeça virava na direção de Jace. Houve de repente um monte de suspiros femininos da classe, e alguns masculinos também. Isso lembrou Simon de uma fila para um show de rock – a qualquer momento, sentiu, a multidão poderia explodir em uma comemoração imprópria para futuros caçadores de demônios.
Jace sorriu mais e adiantou-se para liderar o grupo. Scarsbury acenou em saudação e deu um passo atrás, os braços cruzados. Jace olhou para a árvore por um momento e então se inclinou casualmente contra ela.
— O truque para descer é não cair — disse Jace.
— Maravilha — Simon resmungou.
— Você não vai cair. Escolherá descer usando o meio mais direto possível. Você permanece no controle de sua queda. Um Caçador de Sombras não cai – ele planeja sua descida. Vocês foram treinados nos mecanismos básicos de como fazer isso...
Simon lembrou de Scarsbury gritando algumas coisas sobre o vento vários dias antes de começar as instruções sobre quedas. Frases como “evitar rochas”, “não cair de bunda” e “a menos que vocês sejam idiotas completo, o que alguns de vocês são”, rodaram em sua mente.
—... então agora vamos ver a teoria e colocá-la em prática.
Jace virou-se para a árvore e subiu por ela com a facilidade de um macaco, em seguida, fez o seu caminho para o galho, onde instalou-se facilmente.
— Agora — ele gritou para o grupo — eu olho para o chão. Escolho o meu local de pouso. Lembre-se de proteger a cabeça. Se houver alguma maneira de quebrar o impulso, qualquer outra superfície que você pode usar para diminuir o comprimento da queda, use-a, a menos que seja perigosa. Não mire em rochas afiadas ou ramos que poderiam furar ou machucar. Dobre os joelhos. Mantenha os músculos relaxados. Se suas mãos tomarem o impacto, não se esqueça de fazer contato com toda a palma, mas evite isso. Pés para baixo, em seguida, role. Mantenha-se no ritmo. Espalhe a força do impacto. Assim...
Jace delicadamente pulou do galho e pousou no chão, batendo com um baque suave. Ele imediatamente rolou e pôs-se de pé novamente em um momento.
— Desse jeito.
Ele balançou o cabelo com a mão. Simon observou várias pessoas seguindo o movimento.
Marisol teve que cobrir o rosto com as mãos por um momento.
— Excelente! — exclamou Scarsbury. — Isso é o que vocês vão fazer. Jace ajudará.
Jace tomou isso como sua deixa para subir na árvore novamente. Ele o fez parecer tão simples, tão elegante – buscando apoio para a mão, os pés firmemente agarrados todo o caminho para cima. No topo, ele sentou-se num galho e balançou as pernas.
— Quem será o primeiro?
Não houve nenhum movimento por um momento.
— Poderia muito bem acabar com isso — George disse em voz baixa, antes de levantar a mão e dar um passo à frente.
Embora George não fosse tão ágil quanto Jace, ele fez seu caminho para cima da árvore. Usou vários pontos de apoio, e seus pés escorregaram várias vezes.
Algumas das palavras que ele usou foram perdidas para o vento, mas Simon tinha certeza de que não eram elogios à árvore. Uma vez que George atingiu o galho, Jace inclinou-se perigosamente para trás para abrir espaço.
George considerou o galho por um momento – o solitário ramo sem suporte se estendendo ao longo do chão.
— Vamos, Lovelace! — Scarsbury gritou.
Simon viu Jace se aproximar e oferecer algumas palavras de conselho para George, que ainda segurava o tronco da árvore. Então, com Jace assentindo, George soltou a árvore e deu alguns passos cuidadosos para fora no ramo. Ele hesitou novamente, oscilando um pouco com o vento.
Então olhou para baixo, e com uma expressão de dor, pulou do ramo e caiu pesadamente no chão. O baque que ele fez foi muito mais alto do que o de Jace, mas ele rolou e conseguiu ficar de pé novamente.
— Não foi ruim — Scarsbury  cumprimentou enquanto George mancava de volta para Simon.
Ele esfregava o braço.
— Você não quer fazer isso — disse a Simon quando se aproximou.
Simon já tinha percebido isso. A confirmação não ajudaria o seu espírito.
Simon observou seus colegas irem até a árvore, um por um. Para alguns, levou até dez minutos de grunhidos e arranhões e ocasionalmente quedas na metade do caminho. Este último recebia um alto “Eu falei, não no traseiro” de Scarsbury. Jace ficou na árvore o tempo todo, como uma espécie de ave livre, em certos momentos sorrindo para os estudantes abaixo. Às vezes, ele parecia entediado e andava elegantemente de um lado ao outro no galho para se divertir.
Quando não havia simplesmente mais ninguém querendo ir, Simon se aproximou para a sua vez.
Jace sorriu para ele de cima.
— É fácil. Você provavelmente fez isso o tempo todo quando criança. Basta fazer isso.
— Eu sou do Brooklyn — respondeu Simon. — Nós não subimos em árvores.
Jace deu de ombros, sugerindo que não era algo que ele pudesse ajudar.
A primeira coisa que Simon aprendeu sobre a árvore era que enquanto de longe ela parecia ser inclinada, na verdade era apenas uma linha reta para cima. E enquanto a casca era áspera e ralava as mãos, era ao mesmo tempo escorregadia, por isso cada vez que ele tentava que tentava obter um apoio, ele o perdia. Tentou imitar o jeito como vira Jace e George fazê-lo, eles pareciam segurar a árvore muito levemente.
Simon tentou isso, e percebendo que era inútil, agarrou a árvore em um abraço tão íntimo que se perguntou se eles estavam namorando agora. Usando este método de abraço estranho e alguns movimentos com as pernas como um sapo, ele conseguiu se erguer o tronco, raspando o rosto ao longo do caminho. Cerca de três quartos do caminho para cima, ele sentiu as palmas das mãos escorregadias de suor e começou a perder a aderência. A sensação de queda o encheu de pânico súbito e ele agarrou com mais força.
— Você está indo bem — Jace falou com uma voz que sugeriu que Simon não estava indo bem, mas que era o tipo de coisa que Jace deveria dizer.
Simon esforçou-se para chegar ao galho usando alguns movimentos desesperados que sabia que pareciam feios vendo lá de baixo. Definitivamente houve um momento ou dois quando seu traseiro deve ter sido exposto de uma maneira nada lisonjeira. Mas conseguiu. Elevou-se até o próximo galho, que ele alcançou com mais emocionante aperto que o tronco.
— Bom — Jace disse, dando um pequeno sorriso peculiar. — Agora é só caminhar para mim.
Jace caminhou para trás do ramo. Para longe.
Agora que Simon estava no galho, ele não parecia estar a cinco metros do chão. Parecia que estava no céu. Era arredondado, irregular e escorregadio como todos e não era feito para ser pisado, especialmente pelos tênis casuais que Simon tinha escolhido para usar aquela manhã.
Mas ele tinha chegado tão longe e não ia deixar Jace fazer a sua magia andando para a ponta do galho enquanto ele se agarrava ao tronco. Ele tinha chegado lá em cima. Pular até o chão era uma má perspectiva, mas era a única opção que tinha, e pelo menos seria rápido.
Simon deu o primeiro passo. Seu corpo imediatamente começou a tremer.
— Olhe para cima — Jace disse afiadamente. — Olhe para mim.
— Eu preciso ver...
— Você precisa olhar para cima para manter o equilíbrio. Olhe para mim.
Jace parou de sorrir afetadamente. Simon olhou para ele.
— Agora de mais um passo. Não olhe para baixo. Seus pés vão encontrar o ramo. Braços abertos para obter equilíbrio. Não se preocupe com nada lá embaixo. Olhos em mim.
De alguma forma, isso funcionou. Simon deu seis passos para longe do tronco e ficou surpreso ao encontrar-se ali de pé, braços rígidos e abertos como asas de avião, o vento soprando forte. Apenas caminhando em um galho de árvore com Jace.
— Agora volta para enfrentar a Academia. Mantenha-se olhando para longe. Use-a como um horizonte. Para ficar equilibrado, escolha um ponto fixo para se concentrar. Mantenha o seu peso para frente – você não quer cair de costas.
Não. Simon realmente não queria fazer isso.
Ele moveu um pé mais perto do outro, e então ele estava de pé de frente para a pilha de rochas que formavam a Academia, e seus colegas abaixo, todos olhando para cima. A maioria não parecia impressionada, mas George ergueu o polegar para ele.
— Agora — Jace disse — dobre um pouco os joelhos. E então quero que você apenas dê um passo para fora em um grande movimento. Não salte com os dois pés. Apenas dê um passo. E quando estiver caindo, junte as pernas e mantenha-se relaxado.
Essa não deveria ser a coisa mais difícil que ele já tinha feito. Simon sabia que ele tinha feito mais. Sabia que tinha lutado com demônios e voltado dos mortos. Saltar de uma árvore não deveria parecer tão aterrorizante.
Ele entrou no ar. Sentiu seu cérebro reagir a esta nova informação. Não há nada lá, não faça isso, não há nada lá, mas a gravidade já tinha puxado a outra perna do galho e depois...
A coisa boa que podia ser dita sobre a experiência era que foi rápida. Ponto para a gravidade. Alguns segundos de medo quase feliz e confusão e, em seguida, um martelar quando seus pés encontraram a terra.
Seu esqueleto tremeu, seus joelhos se dobraram em submissão, seu crânio dolorido apresentou uma queixa formal, e ele caiu de lado no que teria sido o início de um rolamento se ele tivesse girado, e não, na verdade, apenas permanecido lá no chão em uma posição de camarão.
— Levante-se, Lewis! — Scarsbury gritou.
Jace pousou ao seu lado como uma grande borboleta assassina, mal fazendo barulho.
— A primeira vez é sempre a mais difícil — ele comentou, oferecendo uma mão a Simon. — A primeira dezena, provavelmente. Eu não me lembro.
Doeu, mas ele não sentia estar ferido.
O vento fora levado para fora de seus pulmões, e ele precisou de um momento para tomar algumas respirações profundas. Ele cambaleou de volta para onde George esperava, um olhar de simpatia no rosto.
Os dois últimos estudantes completaram a tarefa, cada um parecendo tão miserável quanto Simon, e então eles estavam livres para ir para o almoço. A maioria do grupo mancava enquanto eles faziam o seu caminho para o outro lado do campo.

* * *

Desde que Catarina enterrara a sopa na floresta, as cozinhas da Academia foram forçadas a tentar encontrar outro tipo de alimento. Como de costume, fez-se uma tentativa de trazer pratos do mundo inteiro, para refletir as muitas nacionalidades dos alunos dali. Hoje, Simon foi informado, era cozinha sueca. Havia almôndegas, uma cuba de molho de lingonberry, purê de batatas, salmão defumado, bolinhos de peixe, salada de beterraba, e no final, um produto com cheiro forte que Simon descobriu ser um arenque em conserva especial da região do Báltico. Simon tinha a sensação de que se a refeição fosse preparada por pessoas que sabiam o que estavam fazendo, todos os pratos pareceriam muito mais deliciosos, exceto, possivelmente, o arenque da região do Báltico. Em termos do que um vegetariano podia comer, não havia muito. Ele tinha algumas batatas e molho de lingonberry, e raspou a porção de salada de beterraba para fora do recipiente praticamente vazio. Alguns dos Caçadores de Sombras de Alicante claramente ficaram com pena dos alunos e forneceram pães, que eram avidamente arrebatados. No momento em que Simon saiu mancando até a cesta, ela já estava vazia. Ele se virou para ir até uma mesa e encontrou Jace em seu caminho. Ele tinha um pão na mão e já dera uma mordida.
— Que tal você se sentar comigo?
O refeitório da Academia parecia menos com um refeitório de escola e mais como um terrível restaurante barato que arranjara seus móveis de lixeiras. Havia mesas grande e pequenas, mais íntimas. Simon, ainda dolorido demais para fazer piadas sobre encontros na hora do almoço, seguiu Jace para uma das mesas pequenas e raquítico no canto da sala. Ele estava ciente de que todos os observariam. Deu um aceno de cabeça George, na esperança de transmitir que ele apenas tinha que fazer isso, sem querer ofendê-lo por não sentar com ele. George acenou de volta.
Jon, Julie e os outros da corrente de elite, que estavam devastados por perder a aula Pulando de Árvores com Jace Herondale 101, olhavam todos para cima como se estivessem prontos para saltar de pé e salvar Jace da má companhia, carregando-o em uma liteira de chocolate e rosas, e suportar suas crianças.
Uma vez que eles se sentaram, Jace concentrou-se no almoço e não disse uma palavra. Simon observou-o comer e esperou, mas Jace olhava apenas para a comida. Ele havia pegado grandes porções da maioria das coisas, incluindo o arenque do Báltico em conserva. Agora que via mais de perto, Simon começou a suspeitar que o peixe não tinha sido conservado em tudo. Alguém nas cozinhas da Academia dos Caçadores de Sombras tentara fazer a conserva de peixe, algo que precisava de habilidade e precisão com instruções – e provavelmente tinha acabado de inventar uma nova forma de botulismo. Jace o engoliu. Então, novamente, Jace era o tipo de homem que viveria bem na selva, provavelmente ficaria feliz em pescar uma truta com as próprias mãos e comê-la enquanto ainda estava mexendo.
— Você queria falar comigo? — Simon perguntou finalmente.
Jace cortou uma almôndega ao meio e olhou para Simon pensativamente.
— Tenho feito uma pesquisa — disse ele. — Sobre minha família.
— Os Herondale? — Simon perguntou, depois de uma breve pausa.
— Você pode não se lembrar, mas tenho uma espécie de história familiar complicada. De qualquer forma, só descobri que eu era um Herondale pouco tempo atrás. Levei um tempo para me ajustar à ideia. Eles são uma espécie de família lendária.
Ele voltou à comida durante alguns minutos. Quando seus pratos e tigelas estavam vazios, Jace sentou-se e considerou Simon por um momento. Simon pensou em perguntar se Jace era uma espécie de uma grande lenda, mas decidiu que ele não entenderia a piada.
Jace continuou.
— De qualquer forma, a coisa toda começou a me lembrar... bem, de você. É como se existissem essas coisas importantes na minha história, mas eu não sei de tudo, e eu estou tentando reunir uma identidade que preencha todos esses buracos. Os Herondale... alguns deles eram pessoas boas, e alguns eram monstros.
— Nenhum deles precisa afetá-lo — Simon apontou. — As escolhas que você faz é o que importa, não a sua linhagem. Mas imagino que você tenha um monte de gente em sua vida para lhe dizer isso. Clary. Alec — ele olhou para Jace lateralmente. — Isabelle.
As sobrancelhas de Jace subiram.
— Você quer falar sobre Isabelle? Ou Alec?
— Alec me odeia e eu não sei por que. Isabelle me odeia e eu sei por que, o que é quase pior. Então, não, eu não quero falar sobre os Lightwood.
— É verdade que você tem um problema Lightwood — concordou Jace, e seus olhos dourados brilharam. — Tudo começou com Alec. Como você observou astutamente, vocês dois têm uma história. Mas eu não deveria ficar no meio disso.
— Por favor, me diga o que está acontecendo com Alec — pediu Simon. — Você está realmente me assustando.
— Não. Há tantos sentimentos profundos envolvidos. Há muitas feridas. Não seria certo. Eu não vim aqui para criar problema. Vim para mostrar aos potenciais Caçadores de Sombras como cair de alturas sem quebrar os pescoços.
Simon olhou para Jace. Jace o fitou com inocentes olhos arregalados e dourados.
Simon decidiu que da próxima vez que visse Alec, teria que perguntar por si mesmo sobre os segredos que estavam entre eles. Isto era, obviamente, algo que ele e Alec tinham que trabalhar por conta própria.
— Mas eu vou dizer isso sobre o seu problema Lightwood — Jace falou, muito casualmente. — Isabelle e Alec têm dificuldade de mostrar quando sentem dor. Mas posso vê-la em ambos, especialmente quando eles tentam esconder. Ela está com dor.
— E eu tornei isso pior — disse Simon, balançando a cabeça. — É minha culpa. Eu, com a minha memória roubada por algum tipo de rei demônio. Eu, sem noção nenhuma do que aconteceu na minha vida. Eu, o cara sem habilidades especiais, que provavelmente vai ser morto na escola. Eu sou um monstro.
— Não — Jace disse uniformemente. — Ninguém te culpa por não ser capaz de lembrar. Você se ofereceu como um sacrifício. Você foi corajoso. Salvou Magnus. E salvou Isabelle. Me salvou. Você precisa dobrar mais os joelhos.
— O quê?
Jace estava em pé agora.
— Quando você pisa no vazio. Dobre os joelhos imediatamente. Assim irá melhor.
— Mas e sobre Isabelle? — perguntou Simon. — O que eu faço?
— Eu não tenho ideia.
— Então você veio aqui para me torturar e falar sobre si mesmo? — Simon perguntou.
— Oh, Simon, Simon, Simon. Você pode não lembrar, mas isso é o que nós fazemos.
Com isso, ele afastou-se, claramente consciente dos olhares de admiração que seguiam cada passo seu.

* * *

Depois do almoço, eles tiveram uma palestra história. Normalmente, os dois grupos de alunos eram divididos por classes, mas em certos casos, todos eram reunidos no salão principal.
Não havia grandeza para no salão – apenas alguns bancos tortos, e não o suficiente deles.
As cadeiras do refeitório foram arrastadas para complementar, mas ainda não foi o suficiente. Então, alguns alunos (a elite) tiveram cadeiras e bancos, e a escória se sentou no chão na frente do salão, como crianças pequenas no ensino médio. Depois desta manhã, no entanto, algumas horas de palestra no chão de pedra fria e nua eram luxo.
Catarina tomou seu lugar no púlpito bambo.
— Nós temos um palestrante convidado especial hoje — ela falou. — Ela veio nos visitar para falar sobre o papel dos Caçadores de Sombras na história. Como vocês provavelmente estão cientes, embora eu não queira ser otimista demais, Caçadores de Sombras estão envolvidos em muitos momentos importantes da história mundana. Por serem Caçadores de Sombras, vocês também devem proteger os mundanos de saber sobre o nosso mundo, também deve tomar, por vezes, controle da escrita dessa história. Com isto quero dizer que vocês tem que acobertar certas coisas. Precisam fornecer uma explicação plausível para o que aconteceu e uma que não envolva demônios.
— Como os Homens de Preto — Simon sussurrou para George.
— Então, por favor, deem a sua total atenção à nossa convidada ilustre — Catarina prosseguiu.
Ela deu um passo para o lado, e uma jovem mulher alta tomou seu lugar.
— Eu sou Tessa Gray — ela se apresentou em uma voz baixa e clara. — E eu acredito na importância de histórias.
A mulher na frente da sala parecia ser um estudante de segundo ano na faculdade.
Ela estava elegantemente vestida com uma saia curta e preta, suéter de cashmere, cachecol e paisley. Simon tinha visto essa mulher uma vez antes – no casamento de Jocelyn e Luke. Clary dissera que ela tinha desempenhado um papel muito importante em sua vida quando era criança. Ela também informou Simon que Tessa tinha cerca de cento e cinquenta anos de idade, embora ela certamente não parecesse.
— Para vocês entenderem esta história, precisam entender quem e o que eu sou. Como Catarina, eu sou uma feiticeira – entretanto, minha mãe não era humana, mas uma Caçadora de Sombras.
Um murmúrio percorreu o salão, que Tessa logo encobriu com sua voz.
— Eu não sou capaz de suportar Marcas, mas uma vez vivi entre Caçadores de Sombras – eu fui a esposa de um Caçador de Sombras, e meus filhos eram Caçadores de Sombras. Fui testemunha de muito do que nenhum outro ser do Submundo já viu, e agora sou quase a única pessoa viva que recorda a verdade por trás das histórias mundanas escritas para explicar as vezes que seu mundo toca no nosso. Eu sou muitas coisas. Entre elas, sou um registro vivo da história dos Caçadores de Sombras. Aqui está uma história que vocês podem ter ouvido: Jack, o Estripador. O que podem me dizer sobre esse nome?
Simon estava pronto para isso. Ele tinha lido Do Inferno seis vezes. Estava esperando por toda a sua vida que alguém lhe fizesse uma pergunta sobre Alan Moore. Sua mão disparou.
— Ele era um assassino — Simon explodiu. — Matou prostitutas em Londres no final dos anos 1800. Ele foi, provavelmente, médico da rainha Victoria, e a coisa toda foi na verdade um encobrimento para esconder o fato de que o príncipe tivera um filho ilegítimo.
Tessa sorriu para ele.
— Está certo que Jack, o Estripador, é o nome dado a um assassino – ou, pelo menos, ao autores de uma série de assassinatos. O que você se refere é a conspiração real, que tem sido refutada. Creio que também seja o enredo de uma série de quadrinhos e filme chamado Do Inferno.
A vida amorosa de Simon era complicada, mas houve uma pontada, apenas por um momento, para esta mulher que falava de quadrinhos com ele. Ah, bem. Tessa Gray, nerd sexy, provavelmente já namorava alguém.
— Eu vou lhes dar os fatos simples — disse Tessa. — Uma vez, eu não era chamada Tessa Gray, mas Tessa Herondale. Nesse tempo, em 1888, no leste de Londres, houve uma série de assassinatos terríveis...


Londres, outubro 1888
— Não é apropriado — disse Tessa ao marido, Will.
— Ele gosta.
— As crianças gostam de todos os tipos de coisas, Will. Eles gostam de doces, de fogo, de tentar enfiar a cabeça na chaminé. Só porque ele gosta da adaga...
— Olha como ele a segura bem.
O pequeno James Herondale, de dois anos de idade, estava de fato segurando o punhal muito bem. Ele esfaqueou uma almofada do sofá, formando uma nuvem de penas.
— Patos — ele falou, apontando para as penas.
Tessa rapidamente removeu a adaga de sua mãozinha e a substituiu por uma colher de pau. James recentemente se tornara muito ligado a esta colher de pau e a levava com ele para todos os lugares, muitas vezes recusando-se a dormir sem ela.
— Colher — disse James, cambaleando para o outro lado da sala.
— Onde ele encontrou a adaga? — perguntou Tessa.
— É possível que eu o tenha levado para a sala de armas — Will respondeu.
— É possível?
— É, sim. É possível.
— E é possível que ele de alguma forma tenha pegado um punhal, que costuma ficar preso na parede, fora de seu alcance — continuou Tessa.
— Vivemos em um mundo de possibilidades.
Tessa fixou os olhos cinzentos em seu marido.
— Ele nunca esteve fora da minha vista — Will disse rapidamente.
— Se tudo está sob controle — Tessa falou, acenando para a figura adormecida de Lucie Herondale em seu cestinho próximo à lareira — talvez não vá dar a Lucie um facão até que ela seja realmente capaz de andar? Ou será que é pedir muito?
— Parece um pedido razoável — Will concordou com uma reverência extravagante. — Qualquer coisa por você, minha pérola de valor inestimável. Até mesmo manter minha única filha longe de armas.
Will se ajoelhou, e James correu para ele para mostrar sua colher. Will admirou a colher, como se fosse uma primeira edição, a mão grande cheia de cicatrizes gentil contra a minúscula de James.
— Colher — James disse com orgulho.
— Eu vejo, Jamie bach — murmurou Will, que Tessa tinha pego cantando canções de ninar de galês para com os filhos em suas muitas noites sem dormir.
Para seus filhos, Will mostrava o mesmo amor que sempre tinha mostrado a ela, feroz e inflexível. E o mesmo cuidado que já mostrava a outra pessoa: aquele a quem o nome de James era homenagem. O parabatai de Will, Jem.
— Tio Jem ficaria tão impressionado — ela falou a Jamie com um sorriso.
Era assim que ela e Will chamavam James Carstairs perto de seus filhos, embora entre os dois ele fosse apenas Jem, e em público ele fosse o Irmão Zachariah, um temido e respeitado Irmão do Silêncio.
— Jem — ecoou James, muito claramente, e o sorriso dela cresceu.
Will e James ambos inclinaram a cabeça para cima para olhar para ela, seus cabelos negros como uma nuvem de tempestade emoldurando seus rostos. Jamie era pequeno e redondo, a gordura de bebê escondendo os ossos e os ângulos de um rosto que um dia seria como o de Will. Dois pares de olhos, um azul escuro brilhante e um de ouro celestial, olharam para ela com absoluta confiança e mais do que um pouco de travessura. Seus meninos.
Os longos dias de verão em Londres, tão longos que Tessa ainda tentava se acostumar mesmo após vários anos, agora estavam começando a diminuir muito rapidamente. Não havia mais luz do sol às dez da noite, agora a noite chegava às seis, e o nevoeiro era pesado – e vagamente amarelo – pressionava as janelas. Bridget tinha puxado as cortinas, e os quartos ficavam escuros, mas aconchegantes.
Era uma coisa estranha ser Caçador de Sombras e pai. Ela e Will tinham suas vidas constantemente envolvidas no perigo, e, de repente, duas crianças muito pequenas tinham se juntado a eles. Sim, eram duas crianças muito pequenas que, ocasionalmente, se apropriavam de punhais e um dia começariam a treinar para se tornar guerreiros – se quisessem fazê-lo. Mas agora elas eram simplesmente duas crianças muito pequenas. O pequeno James correndo ao redor do Instituto com a colher. Lucie cochilando em seu berço ou carrinho ou em um dos muitos pares de braços dispostos.
Nestes dias, Tessa estava contente de notar, era um pouco mais cuidadosa sobre a tomada de riscos. (Normalmente. Ela realmente tinha que se certificar de que não havia mais punhais para as crianças).
Bridget podia tomar conta das crianças, mas Tessa e Will gostavam de ficar em casa tanto quanto podiam. Anna, a filha de Cecily e Gabriel, era um ano mais velha que James, e já tinha traçado o seu caminho através do Instituto. Às vezes, fazia tentativas de passear sozinha em Londres, mas era sempre barrada por tia Jessamine, que ficava de guarda na porta.
Se Anna sabia ou não que tia Jessamine era um fantasma não estava claro. Ela simplesmente era a força amorosa e etérea que ficava na porta e a enxotava para dentro e lhe dizia para parar de pegar os chapéus do pai.
Era uma boa vida. Havia uma sensação de segurança que lembrava Tessa de um momento mais calmo, quando ela estava em Nova York, antes de saber toda a verdade sobre si mesma e sobre o mundo em que vivia. Às vezes, quando ela se sentava com seus filhos diante do fogo, tudo parecia... normal. Como se não houvesse demônios e outras criaturas da noite.
Ela se permitiu ter um desses momentos.
— O que teremos esta noite? — perguntou Will, colocando o punhal em uma gaveta. — Cheira um pouco como ensopado de cordeiro.
Antes que Tessa pudesse responder, ela ouviu a porta ser aberta e Gabriel Lightwood entrou correndo, a neblina fria entrando atrás dele. Ele não se incomodou em tirar o casaco. Do jeito que estava andando e o olhar em seu rosto, Tessa podia dizer que este pequeno momento de tranquilidade doméstica tinha acabado.
— Algo errado? — Will perguntou.
— Isto — disse Gabriel. Ele ergueu um folhetim chamado Estrela. — É horrível.
— Eu concordo — Will respondeu. — Esses jornais baratos são terríveis. Mas você parece estar mais chateado com eles do que é apropriado.
— Eles podem ser jornais baratos, mas escute isso.
Ele deu um passo para ficar soa uma lâmpada à gás, desdobrou o jornal, e alisou-o uma vez para endireitá-lo.
— O terror de Whitechapel — ele leu.
— Oh — disse Will. — Isso.
Todos em Londres sabiam sobre o terror em Whitechapel. Os assassinatos tinham sido extraordinariamente horríveis. A notícia das mortes agora enchiam cada jornal.
... andou novamente, e desta vez marcou duas vítimas, uma retalhada e desfigurada além da identificação, o outra com sua garganta cortada e rasgada. Mais uma vez ele fugiu; e novamente a polícia, com franqueza maravilhosa, confessou que não tinha a menor ideia. Eles estão esperando por um sétimo e um oitavo assassinato, assim como esperaram por um quinto, para ajudar a resolver o caso. Enquanto isso, Whitechapel vive em meio à loucura e medo. As pessoas têm medo até de conversar com um estranho. Não obstante, as repetidas provas de que o assassino tem um objetivo, e observa uma classe da comunidade, o espírito de terror tem elevado bastante no exterior, e ninguém sabe quais os passos que uma comunidade praticamente sem defesa pode tomar para se proteger ou vingar qualquer criatura desafortunada que possa ser tomada pelo inimigo. É dever dos jornalistas manter a cabeça fria e não inflamar as paixões dos homens quando o que se requer é temperamento frio e pensamento claro; e vamos tentar escrever com calma sobre esta nova atrocidade.
— Muito lúgubre — disse Will. — Mas o East End é um lugar violento para os mundanos.
— Não acho que este seja um mundano.
— Não havia uma carta? O assassino enviou alguma coisa?
— Sim, uma carta muito estranha. Eu a tenho também.
Gabriel foi até uma mesa no canto e abriu, revelando uma pilha limpa de recortes de jornais.
— Sim, aqui está. Querido Chefe, eu continuo ouvindo que a polícia me pegou, mas eles não vão me corrigir ainda. Eu ri quando eles pareciam tão inteligentes e falavam sobre estarem no caminho certo. Aquela piada do “Avental de Couro” me deu ataque de risos. Estou chateado com as putas e não deixarei de estripá-las até que eu esteja farto. O último foi um trabalho grandioso. Eu nem dei à senhorita tempo para gritar. Como eles vão me pegar agora? Eu amo meu trabalho e quero começar novamente. Em breve ouvirão falar de mim com meus joguinhos divertidos. Guardei alguma substância vermelha em uma garrafa de cerveja de gengibre para escrever, mas estava tão espessa como a cola e não pude usá-la. A tinta vermelha é apta o suficiente, espero, ha, ha. No próximo trabalho cortarei as orelhas das senhoritas e as enviarei à polícia para me divertir. Mantenha esta carta em segredo até que eu tenha feito um pouco mais de trabalho e depois publique-a logo de cara. Minha faca é tão bonita e afiada que quero começar a trabalhar agora mesmo, se eu tiver uma chance. Boa sorte. Sinceramente seu, Jack, o Estripador.
— É um grande nome esse que ele se deu — disse Tessa. — E bastante horrível.
— Quase certamente falso — apontou Gabriel.
— Alguma bobagem feita por jornalistas para continuar a vender a história. E bom para nós, uma vez que dá um rosto – ou uma mão humana, pelo menos – a isso. Mas venham, eu vou lhes mostrar.
Ele acenou para a mesa no meio da sala e tirou um mapa de dentro de seu casaco. Ele o abriu.
— Acabo de vir do East End. Algo sobre as histórias me perturbou, algo além das razões óbvias. Fui lá para ter um olhar para mim. E o que aconteceu na noite passada prova a minha teoria. Houve muitos assassinatos recentemente, todos de mulheres, mulheres que...
— Prostitutas — disse Tessa.
— Isso — Gabriel concordou.
— Tessa tem um vocabulário extenso — apontou Will. — É uma das coisas mais atraentes nela. Que vergonha de você, Gabriel.
— Vamos, me escute — Gabriel permitiu-se um longo suspiro.
— Colher! — exclamou James, correndo até seu tio Gabriel e espetando-o na coxa.
Gabriel despenteou o cabelo do menino carinhosamente.
— Você é um menino tão bom. Muitas vezes eu me pergunto como você poderia possivelmente ser de Will.
— Colher! — repetiu James, inclinando-se contra a perna de seu tio amorosamente.
— Não, Jamie — Will insistiu. — A honra de seu pai foi atacada. Ataque, ataque!
— Bridget! — chamou Tessa. — Você poderia levar James para ter o seu jantar?
James foi levado da sala, pego nas saias de Bridget.
— O primeiro assassinato — explicou Gabriel — foi aqui. Buck’s Row. Ocorreu em agosto, dia 31. Muito vicioso, com uma série de cortes longos no abdômen. O segundo foi em Hanbury Street, em 8 de setembro. O nome dela era Annie Chapman, e foi encontrada no pátio atrás de uma casa. Este assassinato tinha um conjunto muito semelhante de incisões, mas era muito pior. O conteúdo do abdômen foi removido. Alguns órgãos foram colocados em seu ombro. Outros simplesmente desapareceram. Todo o trabalho foi feito com uma precisão cirúrgica, o que teria levado algum tempo para um médico qualificado conseguir. Isso foi feito em minutos, ao ar livre, sem muita luz para trabalhar. Este foi o caso que chamou a minha atenção. E agora os últimos assassinatos, apenas algumas noites atrás, estas foram obras diabólicas, de fato. Agora, observem atentamente. O primeiro assassinato daquela noite ocorreu aqui.
Ele apontou para um ponto no mapa marcado Yard Dutfield.
— Fica à direita fora da Berner Street, veem? Esta foi Elizabeth Stride, e ela foi encontrada à uma da manhã. Lesões semelhantes, mas aparentemente incompletas. Apenas 45 minutos mais tarde, o corpo de Catherine Eddowes é encontrado na Mitre Square.
Gabriel traçou o dedo ao longo da rota da Berner Street para a Mitre Square.
— É uma distância de quase um quilômetro — disse ele. — Fiz o caminho de todas as formas. Este segundo assassinato foi muito mais terrível. O corpo foi totalmente desmembrado e os órgãos foram removidos. O trabalho foi muito delicado em sua natureza, muito hábil. E foi feito na escuridão, em não mais do que alguns minutos. Trabalho que teria levado a um cirurgião muito mais tempo e certamente alguma luz. Simplesmente não é possível, e no entanto, aconteceu.
Tessa e Will consideravam o mapa na frente deles por um momento, enquanto a lareira crepitava suavemente atrás deles.
— Ele poderia ter uma carruagem — Will opinou.
— Mesmo com uma carruagem, simplesmente não haveria tempo para cometer esses atos. E são certamente atos cometidos pelo mesmo ser.
— Não é o trabalho de lobisomens?
— Definitivamente não — disse Gabriel. — Nem vampiros. Os corpos não foram drenados. Não foram consumidos ou rasgados. Foram cortados, com órgãos retirados e dispostos, como se para mostrar. Isto — Gabriel bateu no mapa para dar ênfase — é de natureza demoníaca. E deixou Londres em pânico.
— Mas por que um demônio escolheria essas pobres mulheres? — Will perguntou.
— Deve haver algo de que ele necessita. O demônio parece pegar... os órgãos de engravidar. Proponho que patrulhemos o East End nesta área.
Gabriel desenhou um círculo em torno de Spitalfields com o dedo.
— Este é o centro da atividade. É o lugar onde ele deve estar. Estamos de acordo?
— Onde está Cecily? — Will perguntou.
— Ela já começou o trabalho. Está lá agora, falando com algumas das mulheres na rua. Acham mais fácil falar com ela. Temos que começar de uma vez.
Will assentiu com a cabeça.
— Eu tenho outra sugestão. Como a besta parece ser atraída para um determinado tipo de mulher, devemos usar encantos...
— Ou Transformações — acrescentou Tessa.
— ... para atrair o demônio.
Os olhos de Will eram como fogo azul.
— Você está sugerindo usar minha esposa e minha irmã para atrair a coisa para fora?
— É a melhor maneira — disse Gabriel. — E sua irmã é minha esposa. Tessa e Cecily são mais do que capazes, e estaremos lá também.
— É um bom plano — concordou Tessa, antecipando a próxima discussão de Will e Gabriel (eles sempre têm tempo para outra).
Gabriel assentiu.
— Mais uma vez, estamos de acordo?
Tessa olhou nos olhos azuis brilhantes de seu marido.
— De acordo — disse ela.
— De acordo — concordou Will. — Com uma condição.
— E essa condição é... — Gabriel se interrompeu com um suspiro. — Ah.—O Irmão Zachariah.
— Este monstro é violento — disse Will. — Podemos precisar de um curador. Alguém com o poder de um Irmão do Silêncio. Esta é uma situação especial.
— Não me lembro de uma situação que você não pensou ser especial e necessária a presença dele — Gabriel falou secamente. — Você tem sido conhecido por convocar o Irmão Zachariah por causa de um dedo do pé quebrado.
— Ele estava ficando verde — Will justificou.
— Ele está certo — disse Tessa. — Verde não combina com ele. Faz parecer bile — ela sorriu para Gabriel. — Não há nenhuma razão para Jem não nos acompanhar. Podemos precisar dele e não faz mal tê-lo lá.
Gabriel abriu a boca e depois a fechou novamente com um clique. Ele não conhecia bem Jem Carstairs antes de ele se tornar um Irmão do Silêncio, mas gostava dele. Ainda assim, ao contrário de sua esposa, Gabriel era uma das pessoas que (claramente) achava estranho que, apesar de Tessa uma vez ter sido noiva de Jem, ela e Will o considerassem parte de sua família e tentavam incluí-lo em tudo o que faziam.
Havia poucas pessoas no mundo que compreendiam o quanto Will e Jem se amaram, o quanto ainda se amavam, e a falta que Will sentia dele. Mas Tessa entendia.
— Se nós pudermos salvar uma dessas pobres mulheres, temos de tentar — disse Tessa. — Se Jem puder ajudar, seria maravilhoso. Se não, Cecily e eu faremos tudo o que pudermos. Espero que você não ache falta coragem a nós.
Will parou de fuzilar Gabriel e se virou para Tessa. Ele olhou para ela e seu rosto suavizou: os vestígios do menino selvagem e quebrado que ele tinha sido desapareceram, substituídos pela expressão frequentemente usada pelo homem que ele era agora, que sabia o que era amar e ser amado.
— Querida — ele pegou a mão dela e a beijou. — Quem conhece a sua coragem melhor do que eu?

* * *

— Naquele mês de outubro — disse Tessa Gray — não houve assassinatos do Estripador relatados. O Instituto de Londes fez questão de patrulhar todas as noites, até o amanhecer. Acreditava-se que isso manteria o demônio oculto.
Lá fora tinha se tornado escuro, mesmo que fosse apenas cerca de três horas da tarde. O salão ficara consideravelmente mais frio depois que o sol desapareceu, e todos os estudantes estavam encolhidos assentos, os braços em torno de si para manter o calor, mas totalmente alertas. Tessa falava há algum tempo, mostrando mapas de Londres, descrevendo assassinatos verdadeiramente horríveis. Era o tipo de coisa que mantinha Simon acordado.
— Eu acho — disse ela, esfregando as mãos — que é hora para uma curta pausa. Retomaremos em meia hora.
Durante aulas teóricas longas, a Academia era misericordiosa o suficiente para permitir a cada poucas horas um momento para que eles usassem o banheiro, além de um pouco mais do chá escura, que era servido fumegante em um dos grandes salões sobre urnas antigas. Simon estava com frio o suficiente para tomar uma xícara. Mais uma vez, alguns dos Caçadores de Sombras benevolentes tinham fornecido uma bandeja de bolinhos. Simon teve um vislumbre fugaz deles antes que eles foram arrebatados pelos alunos de elite, que foram dispensados primeiro. Alguns biscoitos tristes foram deixados de lado. Pareciam ter sido feitos de areia compactada.
— Boa a palestra hoje — disse George, pegando um biscoito seco. — Bem, não boa, mas mais interessante do que o habitual. Eu gosto da nova professora também. Você não pensaria que ela tem... quantos anos ela tem?
— Acho que cento e cinquenta ou algo assim. Talvez mais velha — disse Simon. Sua mente estava em outro lugar. Tessa Gray havia mencionado dois nomes: Jem Carstairs e o Irmão Zachariah.
Aparentemente, eles eram a mesma pessoa.
O que era interessante, porque em algum lugar nas memórias alteradas de Simon, ele conhecia esses nomes. E lembrou-se de Emma Carstairs, de frente para Jace, e não conseguia se lembrar do motivo, mas sabia que algo tinha acontecido e eles diziam: Os Carstairs devem aos Herondale.
Simon olhou para Jace, que estava sentado em uma poltrona, circulado por muitos alunos.
— A senhorita Gray parece muito bem para cento e cinquenta — George comentou, olhando para onde Tessa estava examinava o chá, desconfiada. Quando ela se afastou da mesa, lançou um olhar rápido na direção de Jace. Havia uma tristeza melancólica em sua expressão.
Naquele momento Jace se levantou de sua cadeira, espalhando banquinhos. A elite se moveu para abrir caminho para ele, e houve um coro baixo de “Olá, Jace” e alguns suspiros quando ele fez o seu caminho até Simon e George.
— Você fez muito bem hoje — disse a George, que estava corado e parecia sem palavras.
— Eu... oh. Certo. Sim. Obrigado, Jace. Obrigado.
— Você ainda está dolorido? — Jace perguntou Simon.
— Principalmente o meu orgulho.
— Supõe-se que ele vá sobreviver à queda de qualquer maneira.
Simon estremeceu com a piada.
— Sério mesmo?
— Estive esperando para dizer isso por um tempo.
— Não é possível — a expressão de Jace mostrava que era realmente possível. Simon suspirou. — Olha, Jace, se eu pudesse falar com você por um segundo...
— Qualquer coisa que você queira me dizer pode ser dita na frente do meu bom amigo George aqui.
Você vai se arrepender disso, Simon pensou.
— Tudo bem. Vá falar com Tessa.
Jace piscou.
— Tessa Gray? A feiticeira?
— Ela costumava ser uma Caçadora de Sombras — Simon falou com cuidado. — Olha, ela estava nos contando uma história, uma parte da história, realmente, e você se lembra do que Emma disse? Sobre os Carstairs deverem aos Herondale?
Jace colocou as mãos nos bolsos.
— Claro, eu me lembro. Estou surpreso que você se lembre.
— Eu acho que você deve falar com Tessa — Simon repetiu. — Ela poderia te contar sobre os Herondale. Coisas que você ainda não sabe.
— Hm. Vou pensar sobre isso.
Ele se afastou. Simon olhou para as costas dele, frustrado. Desejou que pudesse se lembrar o suficiente sobre como ele e Jace interagiam normalmente para saber se isso significava que Jace ignoraria seus conselhos ou não.

* * *

— Ele o trata como um amigo — disse George. — Ou um igual. Vocês realmente se conhecem. Quero dizer, eu sabia disso, mas...
Sem surpresa, Jonathan Cartwright aproximou-se deles.
— Apenas falando com Jace, hein?
— Você é um detetive? — Simon respondeu. — Os seus poderes de observação são surpreendentes.
Jonathan agiu como Simon não tivesse falado.
— Sim, Jace e eu nos encontraremos mais tarde.
— Você realmente vai manter a pretensão de que conhece Jace? — perguntou Simon. — Porque você sabe que não vai funcionar agora, certo? Eventualmente Jace apenas vai chegar e dizer que não o conhece.
Jonathan parecia taciturno. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, no entanto, foi dado o sinal para que todos voltasse ao salão, e Simon entrou na multidão atrás dos outros. Eles tomaram seus lugares novamente, e estabeleceram-se para ouvir Tessa.
— Tínhamos decidido fazer patrulhas noturnas da região — Tessa recomeçou. — Nosso dever como Caçadores de Sombras é proteger o mundo mundano da influência de demônios. Nós caminhamos, assistimos e alertamos todos que podíamos. Tanto quanto foi possível, as mulheres que trabalhavam no East End tentaram tomar mais cuidado e não andar sozinhas. Mas para as mulheres nessa profissão, segurança raramente era algo a ser considerado. Eu sempre assumi que suas vidas fossem difíceis, mas eu não tinha ideia...


Londres, 9 de novembro de 1888
Tessa Herondale certamente sabia o que era a pobreza, que ela existia. No momento em que sua tia tinha morrido e ela era uma jovem sem amigos que pudessem defendê-la em Nova York, sentiu o sopro frio da pobreza como um monstro espreitando em suas costas. Mas no mês anterior, quando ela e Cecily andaram pelas ruas de East London à guisa de prostitutas, ela conheceu o que teria sido se a pobreza a pegasse e a rasgasse com suas garras.
Elas vestiram o papel – idade, roupas esfarrapadas, rouge pesado nas bochechas. Tiveram que usar encantamentos para o resto, para as verdadeiras marcas de prostituta que interpretavam. Falta de dentes. Pele amarelada. Corpos finos de desnutrição e dobrados de doença. As mulheres que andavam e caminhavam a noite toda porque não havia nenhum lugar para dormir, nenhum lugar para sentar. Vendiam-se por tostões para comprar gim porque o gim as mantinha quentes, tirava a dor por uma hora, anestesiava-as para a realidade terrível e brutal de suas vidas. Se essas mulheres pudessem conseguir dinheiro para ter um lugar para dormir durante a noite, isso não significava uma cama. Significaria um canto no chão, ou mesmo apenas alguma parede em que se encostar, com uma corda envolvendo o espaço para evitar que aqueles que dormiam caíssem. Ao início da madrugada, eles seriam atirados para a rua novamente.
Caminhando entre eles, Tessa sentiu-se suja. sentiu os restos de seu jantar em sua barriga.
Ela sabia que sua cama no Instituto era quente e continha alguém que amava e iria protegê-la. Estas mulheres tinham contusões e cortes. Brigavam por cantos e pedaços de espelho quebrado e retalhos de pano.
E havia também crianças. Sentavam-se nas ruas fétidas, não importando a idade. Suas peles eram tão sujas como se nunca tivessem sido lavadas. Ela se perguntou quantos deles já tiveram uma refeição quente em suas vidas, servida em um prato. Se já conheceram uma casa.
Acima de tudo, havia o cheiro. O cheiro era o que realmente penetrou na alma de Tessa. O azedo de urina, excrementos e vômito.
— Estou ficando cansada disso — disse Cecily.
— Penso que todo mundo aqui está cansado — Tessa respondeu.
Cecily suspirou tristemente.
— Um passeio de carruagem para fora e as ruas são tranquilas e impecáveis. É um mundo diferente no West End.
Um homem bêbado aproximou-se e fez uma insinuação. Uma vez que elas tinham que interpretar o papel, Cecily e Tessa sorriram e o levaram a um beco, onde o enfiaram em um barril vazio de ostras e o largaram.
— Um mês disto e nenhuma pista — Tessa falou enquanto se afastavam das pernas do homem que balançavam para cima. — Ou nós o estamos afastando...
— Ou isso simplesmente não está funcionando.
— Magnus Bane seria útil em um momento como este.
— Magnus Bane está desfrutando de Nova York — Cecily respondeu. —Você é a nossa feiticeira.
— Eu não tenho experiência de Magnus. De qualquer forma, está quase amanhecendo. Mais uma hora e podemos ir para casa.
Will e Gabriel tinham se hospedado no pub Ten Bells, que parecia ser o lugar central para as novidades do assassino. De fato, muitos moradores disseram ter visto lá as vítimas dos assassinatos. Às vezes Jem vinha com notícias da Cidade do Silêncio. Não era incomum para Cecily e Tessa voltarem exaustas para o pub ao romper da aurora e encontrarem Gabriel e Will dormindo, e o Irmão Zachariah embrulhado em mantos cor de pergaminho à mesa.
Jem estaria lendo um livro, ou em silêncio olhando para fora da janela. Ele podia ver à sua maneira, apesar de seus olhos fechados. Ele usava encantamentos de modo que sua aparência não chocasse os habitantes da taverna. Tessa sempre podia sentir Cecily ficar tensa à primeira visão de Jem: runas pretas marcavam seu rosto, e não havia uma única faixa branca em seu cabelo escuro.
Às vezes, depois que Cecily e Gabriel os deixavam, Tessa se sentava com a mão na de Jem e Will dormindo em seu ombro, ouvindo a chuva nas janelas. Nunca durava por muito tempo, porém, desde que ela não gostava de deixar os filhos sozinhos, embora Bridget fosse uma excelente babá.
Foi difícil para ambas as famílias. As crianças acordavam para encontrar quatro pais esgotados que se marcavam com runas infinitas para se manterem acordados e que mal podiam acompanhar Anna, correndo com o colete de seu tio, ou James, acenando com a colher e tentando encontrar o punhal que tinha visto e amado. Lucie acordava em todas as horas que precisava de leite e colo.
E aqui estava, outro amanhecer caminhando pelas ruas do East End, e para quê?
E o amanhecer estava chegando cada vez mais tarde.
As noites eram tão longas. À medida que o sol se erguia sobre a Christ Church em Spitalfields, Cecily se virou para Tessa novamente.
— Casa — disse ela.
— Casa — Tessa concordou, cansada.
Eles tinham combinado para que uma carruagem viesse buscá-las naquela manhã em Gun Street. Encontrariam Will e Gabriel lá. Eles pareciam um pouco desgastados, já que muitas vezes tinham que beber gim a noite toda a fim de se misturarem aos habitantes locais.
Não houvera visita de Jem naquela noite, e Will parecia inquieto.
— Vocês descobriram alguma coisa? — perguntou Tessa.
— O mesmo de sempre — respondeu Gabriel, balbuciando um pouco. — Todas as vítimas foram vistas com um homem. Ele varia em estatura e todos os tipos de aparência.
— Então provavelmente é um Eidolon — disse Will. — É tão genérico que pode até mesmo ser um Du’sien, mas não acho que um Du’sien poderia chegar tão perto e convencer uma mulher de que ele era um humano real, não importa o quanto ela estivesse bêbada.
— Mas isso não nos diz nada — Cecily apontou. — Se é um Eidolon, poderia ser qualquer um.
— É notavelmente consistente, embora — disse Will. — Ele sempre vem como um homem e sempre leva as mulheres. Estamos chegando a algum lugar com isso.
— Ou não estamos chegando a lugar nenhum — observou Gabriel. — Ele não voltou.
— Nós não podemos fazer isso para sempre.
Eles haviam tido essa mesma conversa todas as noites durante a semana anterior. Esta terminou como sempre, com os dois casais inclinando-se um para o outro na parte de trás da carruagem e adormecendo até chegarem ao Instituto. Eles cumprimentavam seus filhos, que estavam tendo seu café da manhã com Bridget e escutavam com os olhos semicerrados enquanto Anna divagava sobre seus muitos planos para o dia e James batia com a colher.
Tessa e Will começaram a subir os degraus para o seu quarto. Cecily esperou por Gabriel, que estava persistente na sala da frente.
— Estarei lá em breve — disse ele, com os olhos vermelhos. — Só quero ler os jornais da manhã.
Gabriel sempre fazia isso – sempre checava, todas as manhãs. Então Tessa, Will e Cecily voltaram para a cama. Uma vez em seu quarto, Tessa limpou o rosto na bacia com a água quente que Bridget deixara. O fogo na lareira crepitava, e a cama estava atrás, esperando por eles. Eles deitaram com gratidão.
Mal tinham caído no sono quando Tessa ouviu uma batida febril e Gabriel abriu a porta.
— Já aconteceu de novo — disse ele, sem fôlego. — Pelo Anjo, este é o pior ainda.
A carruagem foi chamada de volta, e dentro de uma hora, eles estavam em seu caminho de volta para o East End, desta vez vestidos no uniforme.
— Aconteceu em um lugar chamado Miller’s Court, fora de Dorset Street — disse Gabriel.
De todas as ruas terríveis em East London, Dorset Street era a pior. Era uma ruazinha curta, logo na saída da Commercial Street. Tessa aprendera muito nas idas e vindas pela Dorset Street nas últimas semanas. Um par de abusivos proprietários controlava grande parte da rua.
Havia tanto ali, tanta pobreza e fedor lotando um pequeno espaço que parecia que empurrariam o ar para fora dos pulmões. As casas eram subdivididas em pequenos quartos, cada pequeno espaço alugado. Esta era uma rua onde todos tinham um olhar vazio, onde o sentimento predominante era de desespero.
No caminho, Gabriel contou-lhes o que conseguiu descobrir a partir do jornal – o endereço (número treze) e o nome da vítima (Mary Kelly). Havia um desfile movendo-se através da cidade pelo aniversário do prefeito. A notícia do crime havia se espalhado, embora, e eles fizeram seu caminho ao longo do percurso do desfile. Meninos entregando jornais gritavam notícias de assassinatos e vendiam como loucos. Cecily olhou para fora da cortina da carruagem.
— Eles parecem estar celebrando.
— Eles estão sorrindo e correndo para comprar os jornais. Meu Deus, como as pessoas podem celebrar uma coisa dessas?
— É interessante — disse Will, com um sorriso negro. — Perigo é atraente. Especialmente para aqueles com nada a perder.
— Vai ser uma loucura lá embaixo — observou Gabriel.
Na verdade, multidões já haviam se reunido ao longo de toda a estrada para a Dorset Street. Os moradores estavam todos para fora assistindo a polícia.
A polícia tentava refrear as pessoas a partir de uma pequena soleira escura na metade da rua.
— Aqui — disse Gabriel. — Miller’s Court. Nós não seremos capazes de chegar perto, a menos que você consiga, Tessa. Há um detetive chamado Abberline da Scotland Yard. Se pudermos trazê-lo aqui, ou um dos policiais que trabalham lá dentro...
— Eu vou pegar um deles — disse Will, entrando no meio da multidão.
Ele voltou alguns minutos depois com um homem de idade mediana, com uma aparência gentil. Ele parecia estar muito ocupado, e sua testa enrugava com consternação.
O que quer que Will lhe tenha dito, foi o suficiente para atraí-lo para longe do local do crime.
— Onde ele está? — perguntou, seguindo Will. — Tem certeza absoluta...
— Absoluta.
Era difícil evitar que as pessoas os seguissem, de modo que Cecily, Tessa e Gabriel tiveram que bloquear o caminho enquanto Will levava o inspetor por um beco. Ele assobiou alguns momentos mais tarde. Estava de pé na porta de um quarto alugado barato.
— Aqui dentro — disse Will. O inspetor estava no canto, parecendo descansar. Suas roupas faltavam. — Ele vai ficar bem, mas deve acordar em breve. Vista isto.
Enquanto Tessa pegava as roupas e Transformou-se em Abberline, Will a atualizou com mais alguns fatos que conseguira a partir de pessoas na rua. Mary Kelly foi provavelmente vista pela última vez às duas e meia da manhã, mas uma pessoa alegou tê-la visto mais tarde, lá pelas oito e meia. De qualquer maneira, o que a tivesse matado já devia ter desaparecido há muito.
Uma vez que Tessa estava pronta, Will a ajudou a abrir caminho de volta através da multidão até a Dorset Street, até o pequeno portal na Miller’s Court. Tessa passou pela passagem escura e encontrou-se em um pequeno pátio, largo o suficiente para dará volta. Havia várias casas ali, caiadas de branco mais barato.
Dezenas de rostos a olhavam a partir de janelas quebradas e sujas.
O número treze era apenas um cômodo, claramente parte de um espaço maior no qual uma partição barata tinha sido construída. Estava quase vazio, contendo apenas algumas peças de mobiliário quebrado. Estava muito, muito quente, como se uma lareira tivesse queimado durante toda a noite.
Em todo o seu tempo de luta contra demônios, Tessa nunca tinha visto nada assim.
Havia sangue.
Era uma quantidade tão grande que Tessa se perguntou como um corpo pequeno poderia conter tanto. Ele cobria o piso preto, e a cama em que a mulher descansava estava totalmente manchada. Não havia outra cor. Assim como a própria mulher, não era mais a mesma. O corpo dela fora destruído de uma forma que mal podia ser compreendido. Aquilo deve ter demorado. Seu rosto – não havia muito o que falar. Muitas partes dela foram removidas. Podiam ser vistas em muitos lugares, em torno dela na cama. Alguns órgãos estavam sobre uma mesa.
Um homem estava debruçado sobre ela. Havia uma maleta de médico no chão, então Tessa firmou-se e, em seguida, falou:
— Bem, doutor?
O médico virou.
— Penso que teremos que movê-la em breve. Eles estão tentando entrar. Teremos que movê-la cuidadosamente.
— Resuma para mim a situação geral. Preciso de um relatório conciso.
O médico levantou-se e limpou as mãos manchadas de sangue na calça.
— Bem, há um profundo corte na garganta. A cabeça foi quase separada do corpo. Você pode ver que o nariz se foi, e grande parte da pele. Há tantos cortes e incisões no abdômen que mal sei por onde começar. A cavidade abdominal está vazia e as mãos foram colocadas no interior da abertura. Você pode ver que ele deixou parte do conteúdo aqui nesta sala, mas faltam alguns. O coração se foi. A pele sobre a mesa acredito ser das coxas...
Tessa não podia realmente ter muito mais das informações. Aquilo era o suficiente.
— Posso ver — disse ela. — Há alguém com quem tenho que falar.
— Faça os preparativos para que ela seja transferida — o médico concordou. — Não podemos mantê-la aqui. Eles vão entrar. Eles querem ver.
— Policial — Tessa disse a um oficial na porta — faça com que uma carruagem seja trazida.
Tessa afastou-se rapidamente entrando mais uma vez no meio da multidão, respirando tão profundamente quanto podia para tirar o cheiro de sangue e entranhas de seu nariz. Sentiu um mal-estar que não tinha experimentado desde suas gravidezes.
Will deu uma olhada nela e abraçou-a. Cecily veio para frente e colocou sais de cheiro sob seu nariz. Tinham aprendido que sais aromáticos eram necessários.
— Tragam o detetive — pediu Tessa, quando ela tinha recuperado. — Ele é necessário.
O inspetor foi recuperado e vestido.
Os sais aromáticos foram aplicados, e ele lentamente acordou. Uma vez que estava de pé e lhe foi assegurado que ele simplesmente desmaiou, eles deixaram a área rapidamente e tomaram a direção de White’s Row.
— Fosse o que fosse — disse Gabriel — é provável que esteja muito longe. Aconteceu horas atrás. Por o corpo estar dentro de casa, passou despercebido por algum tempo.
Ele tirou o Sensor, mas não mostrou nenhuma atividade.
— Sugiro que voltemos ao Instituto — ele continuou. — Aprendemos que pudemos aqui. É hora de nos aplicarmos ao problema de uma maneira diferente. Temos que olhar para as pistas que deixa para trás
— As pessoas — disse Tessa.
— As pessoas — Gabriel se corrigiu.

* * *

Eles estavam mais despertos agora. Tessa se perguntou se ela nunca dormiria novamente. Descobriu a transição do Leste para o Oeste de Londres mais repugnante dessa vez – os edifícios limpos, o espaço aberto, as árvores, os parques, as belas carruagens, as roupas lindas e lojas. E apenas alguns quilômetros para o outro lado...
— O que está feito não pode ser desfeito — disse Will, pegando sua mão.
— Você não a viu.
— Mas vamos pegar a coisa que a atacou.
Assim que eles entraram na Fleet Street, Tessa sentiu que algo não estava certo. Ela não conseguia descobrir o que era. A rua estava totalmente tranquila. Um dos empregados de uma propriedade vizinha varria folhas da calçada. Havia um carrinho de carvão e uma banca de vegetais.
Ela ficou ereta, todos os nervos tensos, e quando a carruagem parou, abriu a porta rapidamente e saltou para fora. Vendo sua reação, os outros três a seguiram de forma semelhante.
A primeira coisa que confirmou seus temores foi Bridget não recebê-los na porta.
— Bridget? — Tessa chamou.
Nada.
Ela olhou para as janelas – limpas, intactas, escuras. As cortinas tinham sido puxadas. Will abriu a porta.
Encontraram Bridget ao pé da escada.
Cecily correram para ela.
— Inconsciente, mas respirando. As crianças! Quem está com as crianças?
Como um, eles correram até as escadas. Todas as luzes estavam apagadas, todas as portas estavam fechadas, cada cortina fechada. Cada um tomou uma direção diferente, correndo para o berçário, para os quartos, para cada cômodo nos andares superiores.
Nada.
— Caçadores de Sombras...
A voz não era nem homem nem mulher, e parecia vir de todos os lugares. Will e Tessa se encontraram no corredor, e Will ergueu a pedra enfeitiçada.
— O que é você? — ele gritou. — Onde estão as crianças?
— Caçadores de Sombras...
— Onde estão as crianças? Você não tem interesse nelas. Mostre-se.
— Caçadores de Sombras...
Gabriel e Cecily apareceram, lâminas serafim prontas. Will e Tessa estenderam a mão para suas próprias armas. Eles desceram os degraus, observando em todas as direções.
Eu os sigo — sussurrou a voz, que agora parecia vir de abaixo deles. — Caçadores de Sombras. Eu os sigo para casa. Joguem meu jogo.
— Qual é o seu jogo? — Will gritou de volta. — Eu jogarei o que você quiser, desde que mostre-se.
— O jogo é de esconder. Eu gosto de esconder. Gosto de tomar... as partes. Eu escondo. Eu pego as partes.
— Eu sei que você tem uma forma — disse Will. — Você foi visto. Mostre-se.
— Colher!
O grito veio da direção da sala de jantar. Todos os quatro correram em direção à voz. Quando abriram a porta, encontraram James de pé na extremidade do cômodo, colher erguida para o alto.
— James! — exclamou Tessa. — Venha para a mamãe! Vamos, James!
James riu e, em vez de correr para Tessa, virou-se na direção da grande lareira, dentro da qual o fogo queimava forte. Ele correu diretamente para as chamas.
— James!
Will e Tessa correram para ele, mas no meio do caminho, o fogo irrompeu em uma infinidade de cores: azul, verde e preto. Calor derramou-se a partir dele, enviando-os para trás aos tropeços.
Ele diminuiu tão rapidamente quanto havia surgido.
Eles correram novamente para a lareira, mas não havia nenhum sinal de James.
— Não, não!— Tessa gritou. — Jamie!
Ela se lançou para o fogo; Will a pegou e a puxou para trás. Tudo parecia escuro e silencioso nos ouvidos de Tessa. Tudo o que podia pensar era em seu bebê. Sua risada suave, o cabelo negro tempestade como o do pai, sua doce disposição, a forma como colocava os braços ao redor de seu pescoço, suas pestanas contra suas faces.
De alguma forma, ela havia caído no chão. O peso estava nos joelhos. James, ela pensou desesperadamente.
Uma mão fria fechou-se sobre seu pulso. Havia palavras em sua cabeça, suaves e silenciosas, frescas como água. Eu estou aqui.
Seus olhos se abriram. Jem estava ajoelhado sobre ela. O capuz de seu manto estava jogado para trás, seu cabelo preto e prata em desalinho.
Está tudo bem. Aquele não era James. Era o próprio demônio, enganando vocês. James está na casa.
Tessa suspirou.
— Meu Deus! É verdade?
Braços fortes de repente estavam ao redor dela, abraçando-a apertado.
— É verdade. Jem tem um feitiço de rastreamento em Lucie e James desde que nasceram. Eles estão vivos, só precisam que nós os encontremos. Tess... Tessa...
Ela sentiu as lágrimas de Will contra seu ombro.
Jem ainda segurava a mão dela. Eu chamei James, ela pensou, e ele veio.
Tessa ficou onde estava. Pela primeira vez em sua vida, ela refletiu, suas pernas pareciam tão fracas que não conseguia levantar.
Will tinha os braços em torno dela e sua mão estava na de Jem. Isso foi o suficiente para acalmar sua respiração.
A Cidade do Silêncio acredita que o demônio é uma espécie de impostor. Isso significa que vocês terão que persegui-lo ao redor do Instituto. Suas motivações não estão claras, mas parecem ser as de uma criança.
— Se for uma criança... — Tessa começou, quase para si mesma.
Os outros se virou para ela.
— Se for uma criança, ele pensa que está jogando um jogo. Ele brinca com as mulheres. Acho que ele quer... uma mãe.
De repente, foi como se um grande vento sacudisse o cômodo.
Eu vou jogar — gritou uma voz diferente.
— Jessamine! — percebeu Will. — Ela está dentro de casa.
— Eu vou jogar com você — disse a voz de Jessamine, mais alto agora. Ela parecia vir de todos os quartos. — Eu tenho brinquedos. Tenho uma casa de bonecas. Jogue comigo.
Houve um longo silêncio. Em seguida, todos os jatos de gás queimaram, enviando colunas de chama azul quase até o teto. Tão rapidamente eles foram sugados de volta para os recipientes e o lugar ficou escuro novamente. A lareira se apagou.
— Minha casa de bonecas é maravilhosa — a voz de Jessamine continuou. — É pequenina.
Pequenina? — foi a resposta.
— Traga as crianças e vamos jogar.
Houve outra grande lufada de vento através da sala.
— O quarto de Jessamine — disse Will.
Eles fizeram o seu caminho com cuidado até o quarto de Jessamine, onde a porta estava aberta.
Havia ali a casa de bonecas de Jessamine, seu orgulho e alegria, e ao lado dela, a figura transparente e tênue de Jessamine. Um momento depois, algo desceu da chaminé, uma espécie de névoa que dividiu-se em pedaços e flutuou sobre o quarto como nuvens. Jessamine estava ocupada movimentando as bonecas em um dos quartos e não dava atenção a ninguém.
— Nós precisamos de mais gente para jogar — disse ela.
— É muito pequena. São tantas peças.
A névoa foi em direção à casa de bonecas, mas Jessamine de repente avultou-se. Ela tornou-se uma teia, envolvendo a casa de bonecas.
— Nós precisamos de mais para jogar — Jessamine assobiou. — As crianças.
— Elas estão nas paredes.
— Nas paredes? — perguntou Gabriel. — Como elas podem...
— As chaminés — disse Cecily. — Ele usa as chaminés.
Eles correram de sala em sala. Cada criança foi encontrada, dormindo, enfiada em uma chaminé. Anna estava em um dos quartos de Caçadores de Sombras vazios. James estava na cozinha.
Lucie estava no quarto de Cecily e Gabriel.
Uma vez que eles estavam seguros junto de Bridget, os dois casais de pais voltaram para o quarto de Jessamine, onde a figura cintilante de Jessamine brincava com uma menina pequena. Jessamine parecia estar totalmente absorta no jogo até que viu os outros, que acenaram para ela.
— Agora vamos jogar um novo jogo — sugeriu Jessamine.
A pequena menina se virou para Jessie, e Tessa viu seu rosto. Ele era pálido e suave, o rosto de uma criança, mas seus olhos eram inteiramente pretos, sem a parte branca. Eles pareciam partículas de cinzas.
— Não. Este jogo.
— Você deve fechar os olhos. É um jogo muito bom. Nós vamos brincar de esconder.
— Esconder?
— Sim. Vamos brincar de esconde-esconde. Você deve fechar seus olhos...
— Eu gosto de esconder.
— Mas primeiro você deve procurar. Feche os olhos.
A criança-demônio, uma menina pequena aparentando apenas cinco anos de idade, fechou os olhos.
Assim que ela o fez, Will trouxe a lâmina serafim para baixo e o quarto foi salpicado com icor.

* * *

— E assim o demônio se foi — disse Tessa. — O problema, é claro, era que o resto de Londres não poderia ser avisado de que tudo estava acabado. Jack, o Estripador aparecera do nada, e agora não havia Jack, o Estripador, para colocar no banco dos réus. Não haveria nenhuma captura, julgamento, nem enforcamento público. Os assassinatos simplesmente pararam. Nós consideramos encenar alguma coisa, mas havia tanto escrutínio nesse argumento que sentimos que poderia complicar as coisas. Mas do jeito que foi, nós não precisamos fazer nada. O público e os jornais publicaram a história. Novas coisas foram publicadas todos os dias, embora se soubesse que não havia nada a relatar. Descobriu-se que as pessoas estavam dispostas a inventarem teorias por conta própria, e continuaram a fazê-lo desde 1888. Todos queriam pegar o assassino intocável. Todo mundo quer ser o herói da história. E isso se mantém verdadeiro em muitos casos desde então. Na ausência de fatos, a mídia, muitas vezes, inventa histórias por si mesma. Ela pode nos salvar de um monte de trabalho. De muitas formas, a mídia moderna é um dos nossos maiores ativos quando se trata de encobrir a verdade. Não desconsiderem os mundanos. Eles tecem suas próprias histórias para darem sentido ao seu mundo. Alguns de vocês mundanos nos ajudarão a ter um melhor senso de nós mesmos. Agradeço pela sua atenção esta tarde — finalizou Tessa. — Desejo-lhes toda a sorte do mundo no prosseguimento de sua formação. O que vocês fazem é corajoso e importante.
— Uma salva de palmas para a nossa estimada convidada — pediu Catarina.
Ela foi aplaudida, e Tessa desceu os degraus e foi até um homem, que a beijou de leve no rosto. Ele era magro e muito elegante, vestido de preto e branco. Seu cabelo negro tinha uma única faixa branca, completando o visual dicromático.
Memórias assaltaram Simon, algumas de fácil acesso, algumas escondidos por trás da rede frustrante do esquecimento. Jem esteve no casamento de Luke e Jocelyn também. A maneira como ele sorriu para Tessa, e ela de volta para ele, deixou claro que o relacionamento deles era... eles estavam apaixonados da maneira mais real e mais verdadeiro.
Simon pensou na história de Tessa, do Jem que tinha sido um Irmão do Silêncio, que fizera parte de sua vida há muito tempo. Irmãos do Silêncio viviam um longo tempo, e a memória de nevoeiro de Simon o recordou algo sobre alguém que tinha sido devolvido à vida mortal pelo fogo celestial. O que significava que Jem vivera na Cidade do Silêncio por mais de cem anos, até que o seu serviço estava terminado. Ele voltou à vida para viver com o seu amor imortal.
Agora, aquilo era uma relação complicada. Fazia uma pequena perda de memória e de status anterior de vampiro parecer quase normais.

* * *

O jantar daquela noite foi um novo terror culinário: comida mexicana. Havia frango assado, ou pollo asado, com as penas ainda presas, e tortillas quadradas.
Jace não apareceu. Simon não teve que olhar ao redor para procurá-lo, com todo o refeitório em alerta. Se aquela poderosa cabeça loira dele tivesse sido avistada, Simon teria ouvido o ar sendo segurado. O jantar foi seguido por duas horas de estudo obrigatório na biblioteca.
Depois de tudo isso, Simon e George voltaram para seu quarto, apenas para encontrar Jace de pé ao lado da porta.
— Boa noite — cumprimentou ele.
— Sério — disse Simon. — Há quanto tempo você ficou esperando aqui?
— Eu queria falar com você — Jace tinha as mãos enfiadas nos bolsos e estava encostado na parede, parecendo um anúncio para uma revista de moda. — Sozinho.
— As pessoas vão dizer que estamos apaixonados — observou Simon.
— Você poderia ir para o nosso quarto — disse George. — Se quiser conversar. Se for privado, posso colocar tampões nos ouvidos.
— Eu não vou entrar lá — apontou Jace, olhando pela porta aberta. — Esse lugar é tão úmido que provavelmente poderia eclodir rãs das paredes.
— Ah, isso vai ficar na minha cabeça agora — reclamou George. — Eu odeio sapos.
— Então o que você quer? — indagou Simon.
Jace sorriu levemente.
— George, vá entrando — pediu Simon, um pouco de desculpas no tom de voz. — Já vou.
George entrou no quarto e fechou a porta atrás dele. Simon estava agora sozinho com Jace em um longo corredor, que era uma situação que ele sentiu que nunca tinha estado.
— Obrigado — disse Jace, surpreendentemente direto. — Você estava certo sobre Tessa.
— Ela falou com você?
— Eu fui para falar com ela — Jace pareceu timidamente satisfeito, como se uma pequena luz dentro dele tivesse sido acesa. Era o tipo de expressão que, Simon suspeitava, faziam meninas desmaiar em seu caminho. — Ela é minha tatatara-alguma-coisa-avó. Ela era casada com Will Herondale. Aprendi sobre ele antes. Ele ajudou a impedir uma grande invasão demoníaca na Grã-Bretanha. Ela e Will foram os primeiros Herondale a comandar o Instituto de Londres. Quero dizer, não é algo que eu não soubesse, historicamente, mas isto é... Bem, tanto quanto eu sei, não há ninguém vivo que partilhe sangue comigo. Mas Tessa sim.
Simon encostou-se à parede do corredor.
— Você contou à Clary?
— Sim, fiquei no telefone com ela por algumas horas. Ela disse que Tessa sugeriu algumas dessas coisas durante o casamento de Jocelyn e Luke, mas ela não veio me abordar. Não queria que eu me sentisse sobrecarregado.
— E você? Sentiu-se sobrecarregado, quero dizer?
— Não. Sinto que há alguém que entende o que significa ser um Herondale. Ambas as partes, boas e as más. Eu me preocupava que ser um Herondale talvez significasse que eu fosse fraco como meu pai. E então aprendi mais e pensei que talvez fosse esperado que eu fosse uma espécie de herói.
— Sim — disse Simon. — Eu sei como é isso.
Eles compartilharam um pequeno momento de bizarro silêncio sociável – o garoto que tinha esquecido tudo sobre a sua história e o menino que nunca a conheceu.
Simon quebrou o silêncio.
— Você vai vê-la novamente? Tessa?
— Ela diz que buscará a mim e a Clary para fazermos um tour na casa Herondale em Idris.
— Será que você encontrará Jem também?
— Nós já nos encontramos antes. No Basilias, em Idris. Você não se lembra, mas eu...
— ... fez com que ele deixasse de ser um Irmão do Silêncio — completou Simon. — Eu me lembro.
— Nós conversamos em Idris — disse Jace. — Muito do que ele disse faz mais sentido para mim agora.
— Então você está feliz.
— Eu estou feliz. Quero dizer, tenho sido feliz, realmente, desde a Guerra Maligna terminou. Eu tenho Clary, e tenho a minha família. A única mancha escura foi você. Não se lembrou de Clary, ou Izzy. Ou eu.
— Desculpe estragar a sua vida com a minha amnésia inconveniente — Simon murmurou.
— Eu não quis dizer isso desta maneira. Queria dizer que eu gostaria que você se lembrasse de mim porque... — ele suspirou. — Esqueça.
— Olha, Herondale, você me deve uma agora. Espere aqui fora.
— Por quanto tempo? — Jace pareceu ofendido.
— O tempo que for preciso.
Simon entrou em seu quarto e fechou a porta. George, que estava deitado na cama estudando, pareceu riste quando Simon informou-lhe que Jace estava à espreita no corredor.
— Ele está me deixando nervoso agora — disse George. — Quem iria querer Jace Herondale seguindo você, sendo todo misterioso e taciturno e loiro... Tudo bem. Provavelmente muita gente. Ainda assim, eu gostaria que ele não fizesse isso.
Simon não se incomodou em trancar a porta do quarto, parcialmente porque não havia fechaduras na Academia dos Caçadores de Sombras, e em parte porque se Jace decidisse entrar e ficar na cama de Simon a noite toda, ele faria isso, houvesse fechadura ou não.
— Ele deve querer alguma coisa — George falou, tirando a camistaa de rúgbi e atirando-a no canto do quarto. — Este é um teste? Será que vamos ter que lutar com Jace no meio da noite? Si, sem querer diminuir nossas incríveis proezas de combate contra demônios, mas não acho que seja uma luta que possamos vencer.
— Eu não penso assim — disse Simon, caindo em sua cama, que desceu muito mais do que deveria. Aquilo definitivamente era pelo menos duas molas se quebrando.
Eles se preparavam para dormir. Como de costume, no escuro, eles falaram sobre o mofo e as muitas possibilidades de bichos rastejando sobre eles no escuro. Ele ouviu George virar para a parede, o sinal de que ele estava prestes a dormir e que o bate-papo noturno estava terminado.
Simon estava acordado, com as mãos atrás da cabeça, o corpo ainda dolorosamente ferido pela queda da árvore.
— Você se importa se eu acender a luz? — perguntou.
— Não, vá em frente. Eu mal posso ver de qualquer maneira.
Eles ainda diziam “acender a luz” como se fossem acionar rapidamente um interruptor. Eles tinham velas na Academia – pequenos tocos de velas que pareciam ter sido feitos especialmente para produzir o mínimo de luz possível. Simon remexeu no pequeno criado-mudo ao lado de sua cama, encontrou os fósforos e acendeu a vela, que puxou para a cama com ele, equilibrando-a no colo de uma forma que era, provavelmente, insegura. Uma coisa boa sobre o chão úmido era que a probabilidade de pegar fogo era nula. Ele ainda podia se queimar se a vela virasse em seu colo, mas era a única maneira que ele seria capaz de ver e escrever.
Ele estivou novamente o braço em busca de papel e caneta.
Sem mensagens de texto aqui. Sem digitação. A boa caneta e papel eram necessários aqui. Ele fez um apoio improvisada com um livro e começou a escrever:

Querida Isabelle...

Ele deveria começar com “querida”? Era a maneira como se costumava começar cartas, mas agora que ele leu, parecia estranho e antiquado e talvez demasiado íntimo.
Ele pegou uma nova folha.

Isabelle...

Bem, aquilo parecia gritar. Como se ele estivesse com raiva, apenas dizendo seu nome assim.
Outra folha.

Izzy...

Não. Definitivamente não. Eles não estavam para apelidos ainda. Como diabos começaria uma carta como esta? Simon considerou um casual “Hey...” ou talvez apenas esquecer a saudação e ir direto à mensagem. Trocar sms era muito mais fácil do que isso.
Ele pegou novamente a folha que começava com “Isabelle”. Era a escolha do meio. Ele teria que ir com isso.

Isabelle,
Eu caí de uma árvore hoje.
Estou pensando em você, enquanto estou na minha cama bolorenta.
Eu vi Jace hoje. Ele pode desenvolver intoxicação alimentar. Só queria que você soubesse.
Eu sou o Batman.
Estou tentando descobrir como escrever esta carta.

Ok. Aquilo foi um possível início, e verdadeiro.

Deixe-me dizer-lhe algo que você já sabe – você é incrível. Você sabe disso. Eu sei disso. Qualquer um pode ver isso. Aqui está o problema, não sei o que eu sou. Tenho que descobrir quem sou antes de aceitar que sou alguém que merece alguém como você. Não é algo que eu possa aceitar só porque já ouvi isso. Eu preciso conhecer esse cara. E sei que sou aquele cara que você amava, só tenho que conhecê-lo.
Estou tentando descobrir como isso aconteceu. Acho que isso acontece aqui, nesta escola, onde eles tentam matá-lo todos os dias. Acho que isso leva tempo. Sei que as coisas que levam tempo são irritantes.
Eu sei que é difícil. Mas tenho que chegar lá pelo jeito difícil.
Esta carta provavelmente é estúpida. Eu não sei se você ainda está lendo. Não sei se você vai rasgá-la ou cortá-lo ao meio com seu chicote ou o quê.

Tudo isso saiu em um fluxo contínuo. Ele bateu a caneta contra a testa por um minuto.

Entregarei isto a Jace para ele lhe dar. Ele foi me seguindo ao longo do dia como uma espécie de sombra. Ele está aqui para certificar-se de que eu não morri, ou para certificar-se de que vou morrer, ou talvez por sua causa.
Talvez você o tenha mandado.
Eu não sei. Ele é Jace. Quem sabe o que ele está fazendo? Darei isto a ele. Talvez ele leia antes que esta carta chegue a você. Jace, se você estiver lendo isso, tenho certeza de que você terá intoxicação alimentar. Não use os banheiros.

Não foi romântico, mas ele decidiu deixar assim. Podia fazer Isabelle rir.

Se você está lendo isso, Jace, pare agora.
Izzy... eu não sei por que você esperaria por mim, mas se o fizer, prometo que valerá a pena. Ou tentarei fazer com que valha. Posso prometer que vou tentar.
– Simon

Simon abriu a porta e não se surpreendeu ao encontrar Jace do lado de fora dela.
— Aqui — disse Simon, entregando-lhe a carta.
— Você levou o tempo suficiente — comentou Jace.
— Agora estamos quites — disse Simon. — Vá festa no encontro na casa Herondale com sua família estranha.
— Eu pretendo — Jace falou e sorriu, um sorriso estranhamente cativante. Ele tinha um dente lascado. O sorriso o fez parecer que ele tinha a idade de Simon, e talvez eles fossem amigos depois de tudo. — Boa noite, Wiggles.
— Wiggles?
— Sim, Wiggles. Seu apelido? É o que você sempre nos fez chamá-lo. Quase esqueci que seu nome era Simon, estou tão acostumado a chamá-lo de Wiggles.
— Wiggles? O que... isso quer dizer?
— Você nunca nos explicou — Jace respondeu com um encolher de ombros. — Era o grande mistério sobre você. Como eu disse, boa noite, Wiggles. Eu cuidarei disso.
Ele levantou a carta e a balançou para despedir-se.
Simon fechou a porta. Sabia que a maioria das pessoas no salão provavelmente tinha ouvido tudo o que eles falaram. Sabia que pela manhã ele seria chamado Wiggles e não havia nada que poderia fazer sobre isso.
Mas era um preço pequeno a pagar para entregar uma carta para Isabelle.

48 comentários:

  1. Simplesmente morta com esse conto ... Teve o Jace a Tessa mds Will </3

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    1. wiggles,tradução , agitado , balançado,tremendo esporadicamente

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    2. E o que isso significa entre Jace e Simon?

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    3. Acho que Jace, com todo seu sarcasmo e ironia está brincando com Simon. Pensando bem, isso é óbvio, desde o primeiro conto.

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  3. Adorei!!!! Obrigada pela postagem Karina, a espera foi longa pela sexta-feira kkkkk

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  4. Eu secretamente queria que ele tivesse feito Jace dizer que não conhecia aquele Jonathan não sei das quantas metido. Eu iria me divertir muito. Quem será o próximo a visita-lo?!

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  5. O Jace não perde a oportunidade de sacania-lo. Wiggles, adorei.

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  6. Por que Wiggles? Nao lembro disso em outros livros.

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    1. Então, tentei lembrar se era outro termo em português, até dei uma olhada, mas não lembro nem encontrei nada... se alguém souber, nos explique por favor

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    2. Karina, como o Simon perdeu a memória, o Jace fica sacaneando ele lhe dando memórias falsas... Tipo, do " "relacionamento " de Simon com Alec kkkkkk

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    3. É, mas imaginei que Jace tivesse chamado Simon de Wiggles em algum livro de TMI... mas ok! ehuaheauhea

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  7. Chorei rios quando o Will apareceu né... Mds Will <3

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  8. Tbm chorei rios Amo Muito o Will e ainda não superei a morte dele 😭😭

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  9. Acho que foi no quinto livro que o Simon vai envocar o anjo Raziel e o Magnus nunca acerta o nome do Simon...Acho

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    1. o jace ta só zuando msm, magnus já errou muito o nome do simon mas não chegou a esse ponto

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  10. #tessamelhorprofessoradehistoriadomundo

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  11. jace sacaneando simon (wiggles), ver o pessoal de TID, jace falar com a tessa gente ainda não sei como não morri lendo

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  12. Que saudades de Will. kkkkkkkkkkk, Jace sacaneando o Simon, foi bacana! kkkkkkkkkkkkk. Nunca confie em um pato! kkkkkkkkkkkkk
    ass: Bina.

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    1. Kkk...o pato é um dos meus personagens preferidos,embora ele nunca apareça fisicamente...kkk

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  13. Wiiiiiilll sdds!!!!! Tessa amore adorei seu papel de mãe protetora! Queria q tivesse mais detalhes but tudo bem, né?! Ai gente TMI E TID!!!! É tudo de bommmmmmmm!!!

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  14. Kkkkkk morri de rir eu sou o batman kkkkkk a carta nossa to surtando de rirkkkkkkkk não consigo parar kkklkkkkkkkkkkk will tessa jem jace amei capitulo lindo kkkkkk e engraçado

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  15. Kkk jace para de sacanear o simon kkkkkk mas foi bom kkkkkkk

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  16. Will<3 Tessa<3 Jem<3 Nada a acrescentar.

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  17. Simplesmente morta com essa nostalgia Wessem 💗 meus queridos bebês amados... Sem palavras pra esse conto.. SEM PALAVRAS!

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  18. Will,amei essa passagem da historia e lindo imaginar ele como pai e mesmo assim continua super protetor com a Tessa,e o Jamie e a coisa mais fofo,colher kkkkkkkk
    Jace procurando suas origens eu queria saber como a Tessa contou a historia pra ele,e como foi as reações dele enquando ela contava...
    Jace sempre sacaneado o Simon kkkkk
    Queria que o Simon descobrisse o medo de pato que os Herondale tem,seria no minimo engraçado kkkkkkkk

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  19. Eu nãaaaaaaaaaaaaaaaao tô aguentando esse conto! HAHAHAHA Ainda aqui rindo muito do Jace sendo Jace e implicando com simon.. "wiggles" HAHAHAHAHAHHA.
    Tessa, Will, Jem ♥♥♥ qualquer história com esses três engole meu coração, não tem como.

    AFF quero Simon lembrando das coisas logo e quero mais participação dos meus Caçadores de Sombras lindos de TMI e TID.

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  20. Que mané Will, que nada!!! Pirando muito na aparição do Jem...
    Jem&Tessa coisa mais fofa do mundo!
    Que que é Simon descrevendo a subida dele na árvore, falando sobre a bunda dele...
    Tava bebendo água nessa hora, não consegui segurar o riso, me afoguei de tal forma, que saiu água até pelo meu nariz!
    Vou rir até o final do ano.

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  21. Adorei os personagens de TID neste conto. Ri muito com o Jace tirando sarro do Simon.
    Espero que ele e Clary conheçam realmente a mansão Herondale.

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  22. Eu vejo — disse George — com meus olhinhos, algo que começa com S.

    — Então, o que era? — perguntou Simon.
    — O que era o quê?
    — O que você estava vendo que começa com S?
    — Simon.
    Kkkkkk Tinha muita coisa pra mim comentar,Jem,Tessa,Will,Jace!Mas eu dei um bufo de riso com esse começo dos dois! Ahsuqhs Frescos. Ri boa parte do conto,a outra parte era chorando pelo conto de Tessa (gente,a situação das pessoas pobres naquela época, muito triste) e a outra emocionada pela aparição de personagens tão maravilhosos.

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  23. Will,Jem,Tessa ❤❤❤ Amo muito, foi tão bom revê-los, os sentimentos voltaram com força total. Nunca deixarei de me emocionar.
    Tessa falando com Jace *O* Eu já sonhava com isso há muito tempo, desde o final de TID ❤ Finalmente!!!

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  24. Will e Tessa como pai são muito lindos. Quase morri do coração ao ler esse conto. Os tres juntos (Jem, Will e Tess) me bateu uma saudade de ver uma cena dessas. Chorei horrores, mas o Simon me fez voltar a rir com aquela carta kkkkk. Amei, amei, amei ♥♥♥

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  25. melhor conto até agora kkk amo demais jem tessa will gabriel jace simon.
    'A honra de seu pai foi atacada. Ataque, ataque!' me lembrou de qnd o will fez o discurso no casamento da cecilia kkk chorando de tanto rir
    #jemesimonosmelhores amo demais

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  26. Genteeeeeee amei os comentários!!!!! Amo muito tudo isso, e esse foi o melhor conto mesmo até agora.
    Mas, fica a pergunta: PORQUE O SIMON NÃO FALOU PRO JACE OU PRA TESSA DO HERONDALE PERDIDO?

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    1. Pq é segredo. Não dá pra sair espalhando por aí e arriscar Catarina

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    2. Hummm... eu entendo, mas acho que era importante pro Jace - até por ele achar que é o ÚLTIMO HERONDALE NÉ?

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    3. Sim, verdade.. quem sabe na próxima saga da Cassandra, Os Artifícios das Trevas?

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  27. Eu amestes de verdade, chorei na parte das histórias da tessa... CHOREI SIM. Esses livros acabam com o meu coração. Só tenho a dizer que AMO TMI, sempre.

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  28. O Jem mal apareceu e eu já fiquei suspirando por ele!!!
    E que coisa mais fofa Jace e Tessa se entendendo <3

    Simon está voltando a ser o que era, isso é tão lindo *-*

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  29. o cara acabou de acordar e o Jace fala "Boa noite, Wiggles." ok entao neh HAHAHAHA Wigles.. amei demais

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    1. Ele n acabou de acordar. eles estavam indo dormir e o Simon foi escrever a carta pra Izzy. O Jace n iria ficar a noite toda na porta do quarto do Simon né.

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  30. ''Simon tentou isso, e percebendo que era inútil, agarrou a árvore em um abraço tão íntimo que se perguntou se eles estavam namorando agora. Usando este método de abraço estranho e alguns movimentos com as pernas como um sapo, ele conseguiu se erguer o tronco, raspando o rosto ao longo do caminho. Cerca de três quartos do caminho para cima, ele sentiu as palmas das mãos escorregadias de suor e começou a perder a aderência. A sensação de queda o encheu de pânico súbito e ele agarrou com mais força.'' morri kkkkkkk Simon claramente eu se fosse tentar me tornar uma Caçadora de Sombras e.e
    O Jace não para de sacanear o Simon (tipo com esse Wiggles).
    Melhor capítulo até agora pq tem a Tessa, o Will, o Jem, a Cecily, o Gabriel, a Jessie e os filhos deles <3

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  31. Will, Tessa, Jem, Jace, Simon., Izzy... Eu estou transbordando de amor, alegria, saudade, tristeza, tudo junto.... AHH EU AMO ESSA SÉRIE. s2

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