4 de dezembro de 2015

Nada Além de Sombras


Neste conto, Simon aprende sobre o tempo de James Herondale na Academia dos Caçadores de Sombras. É difícil ser um Caçador de Sombras quando se tem poderes demoníacos, e Simon descobre mais sobre as dificuldades que o meio-feiticeiro James Herondale sofreu na escola neste prelúdio de As últimas horas.



Eu não conhecia nada além de sombras, e achava que elas eram reais.
– Oscar Wilde

Academia dos Caçadores de Sombras, 2008
A luz quente do sol da tarde fluía através das fendas nas paredes da sala de aula, pintando a pedra cinza da parede de amarelo. A elite e a escória estavam igualmente sonolentos depois de um longo dia de treinamento com Scarsbury, e Catarina Loss dava-lhes uma lição de história. História aplicada à elite e à escória, para que eles pudessem aprender toda a glória dos Caçadores de Sombras e aspirar fazer parte dessa glória. Nessa aula, Simon pensou, nenhum deles parecia diferente do outro – não que eles estivessem todos unidos pela glória, mas todos estavam igualmente cheios de tédio.
Até que Marisol respondeu a uma pergunta corretamente, e Jon Cartwright chutou o encosto da cadeira dela.
— Incrível — Simon assobiou de trás de seu livro. — Esse é um comportamento muito legal. Parabéns, Jon. Cada vez que um mundano responde errado uma pergunta, você diz que é porque eles não podem subir para o nível de Caçadores de Sombras. E cada vez que um de nós responde certo, você os pune. Tenho que admirar a sua consistência.
George Lovelace recostou-se na cadeira e sorriu, respondendo a Simon sua próxima linha.
— Não vejo como isso é consistente, na verdade.
— Bem, ele é consistentemente um idiota — explicou Simon.
— Posso pensar em outras palavras para ele — comentou George. — Mas algumas delas não podem ser usadas ​​perto das moças, e outras são em galês e não podem ser compreendidas por vocês, estrangeiros loucos.
Jon parecia perturbado. Possivelmente ele porque as cadeiras deles estavam longe demais para chutar.
— Eu só acho que ela não deve falar fora de hora — ele respondeu.
— É verdade que se vocês mundanos ouvissem a nós, Caçadores de Sombras — disse Julie — poderiam aprender alguma coisa.
— Se vocês Caçadores de Sombras ouvissem o que falam — observou Sunil, um mundano que morava mais ao fundo do corredor (lodoso) de George e Simon — poderiam aprender algumas coisas por si mesmos.
As vozes estavam aumentando. Catarina começava a parecer muito irritada. Simon fez um gesto para Marisol e Jon ficarem quietos, mas ambos ignoraram. Simon sentiu-se da mesma forma de quando ele e Clary provocaram um incêndio em sua cozinha, tentando fazer uvas passas e brindar quando tinham seis anos: ficou espantado e chocado que as coisas tivessem dado errado tão rápido.
Então ele percebeu que era uma nova memória. Sorriu com o pensamento de Clary com uvas salpicadas em seu cabelo vermelho, e deixou a situação de sala de aula intensificar.
— Eu vou te ensinar algumas lições no campo de treinamento — Jon estalou. — Eu poderia desafiá-la para um duelo. Meça suas palavras.
— Essa não é uma má ideia — comentou Marisol.
— Oh, ei — disse Beatriz. — Duelos aos quatorze anos são uma má ideia.
Todos olharam com desprezo para Beatriz, a voz da razão.
Marisol fungou.
— Não é um duelo. É um desafio. Se a elite nos vencer em um desafio, então eles podem falar primeiro na aula por uma semana. Se nós vencermos, então eles ficam calados.
— Eu vou fazer isso, e você vai se arrepender de sugerir isso, mundana. Qual é o desafio? — perguntou Jon. — Cajado, espada, arco, punhal, uma corrida de cavalos, uma luta de boxe? Eu estou pronto!
Marisol sorriu docemente.
— Beisebol.
Perplexidade em massa e pânico apareceu entre os Caçadores de Sombras.
— Eu não estou pronto — George sussurrou. — Não sou americano e não jogar beisebol. É como críquete, não é? Ou é mais como hurling?
— Vocêd tem um esporte chamado hurling, “arremesso” na Escócia? — Simon sussurrou de volta. — O que vocês arremessam? Batatas? Crianças pequenas? Estranhos.
— Eu explico mais tarde — disse George.
— Eu explico o beisebol — Marisol falou com um brilho nos olhos.
Simon um pressentimento de que Marisol seria uma assustadora especialistazinha em beisebol, da mesma maneira que era em esgrima. Ele também tinha a sensação de que a corrente da elite ficou surpresa.
— E eu vou explicar como uma praga demoníaca quase dizimou os Caçadores de Sombras — Catarina falou em voz alta na frente da classe. — Ou explicaria, se os meus alunos parassem de brigar e ouvissem por um minuto!
Todo mundo fico quieto e escutou humildemente sobre a praga. Foi só quando a aula terminou que todos começaram a falar sobre o jogo de beisebol novamente. Simon tinha, pelo menos, jogado antes, então estava correndo para arrumar seus livros e sair quando Catarina chamou:
— Diurno. Espere.
— De verdade, “Simon” seria bom — ele observou.
— As crianças da elite estão tentando replicar a escola de que ouviram falar de seus pais — Catarina disse. — Estudantes mundanos são feitos para serem vistos e não ouvidos, para aproveitar o privilégio de estar entre os Caçadores de Sombras e se prepararem para a sua Ascensão ou morte em um espírito de humildade. Só que vocês tem criado problemas entre eles.
Simon piscou.
— Você está me dizendo para não ser tão duro com os Caçadores de Sombras porque é apenas a forma como eles foram criados?
— Seja tão duro com os pequenos idiotas presunçosos como gostaria de ser. É bom para eles. Só estou dizendo para perceber o efeito que você está tendo e o efeito que poderia ter. Você está em uma posição quase única, Diurno. Só conheço um único estudante que caiu da elite para a escória – sem contar Lovelace, que estaria na escória desde o início se os Nephilim não fossem tão presunçosos. Mas enfim, os pressupostos presunçosos são a parte favorita deles.
Isso surtiu o efeito que Catarina sabia que teria. Simon parou de tentar guardar sua cópia do Códex dos Caçadores de Sombras em sua mochila e sentou-se. O resto da turma demoraria algum tempo para se preparar antes que realmente entendesse o jogo de beisebol. Simon poderia ficar mais um pouco.
— Ele era um mundano também?
— Não, ele era um Caçador de Sombras — disse Catarina. — Frequentou a Academia mais de um século atrás. Seu nome era James Herondale.
— Um Herondale? Outro Herondale? — perguntou Simon. — Herondale sem parar. Você já teve a sensação de que está sendo perseguido por Herondales?
— Não é verdade. Não que eu tenha reparado. Magnus disse que eles tendem a ser muito parecidos. Claro, Magnus também disse que eles tendem a ter uma mente estranha. James Herondale foi meio que um caso especial.
— Deixe-me adivinhar — disse Simon. — Ele era loiro, convencido e adorado pelo populacho.
As sobrancelhas cor de marfim de Catarina subiram.
— Não, eu me lembro de Ragnor mencionando que ele tinha cabelos escuros e óculos. Havia outro rapaz na escola, Matthew Fairchild, que batia a essa descrição. Eles não se davam muito bem.
— Sério? — perguntou Simon, e reconsiderou. — Bem, então sou do time James Herondale. Aposto que Matthew era um idiota.
— Oh, eu não sei. Sempre o achei charmoso, na minha opinião. A maioria das pessoas achava. Todo mundo gostava de Matthew.
Esse garoto Matthew devia ter sido charmoso, Simon pensou. Catarina raramente falava sobre algum Caçador de Sombras com qualquer coisa próximo de aprovação, mas aqui estava ela, sorrindo com carinho ao pensar em um garoto de uma centena de anos atrás.
— Todo mundo, exceto James Herondale? — perguntou Simon. — O Caçador de Sombras que foi expulso da corrente de Caçadores de Sombras. Será que Matthew Fairchild não tem nada a ver com isso?
Catarina saiu de trás da sua mesa de professora e foi para a fenda para flechas que era a janela. Os raios do sol atingiam os cabelos brilhantes em linhas brancas, quase dando-lhe uma auréola. Mas não era bem assim.
— James Herondale era o filho de anjos e demônios — ela falou suavemente. — Ele estava sempre fadado a trilhar um caminho difícil e doloroso, beber água amarga com a doce, pisar onde havia espinhos, bem como flores. Ninguém podia salvá-lo disso. As pessoas tentaram.


Academia dos Caçadores de Sombras, 1899
James Herondale disse a si mesmo que estava se sentindo mal apenas por causa dos solavancos da carruagem. Ele também realmente estava muito animado para ir à escola. Seu pai pegou a nova carruagem do tio Gabriel para que poder levar James de Alicante para a Academia, apenas eles dois. Ele não tinha perguntado se poderia pegar emprestado a carruagem do tio Gabriel.
— Não fique tão sério, Jamie — seu pai disse, murmurando uma palavra em galês para os cavalos que os fez trotarem mais rápido. — Gabriel quer que usemos a carruagem. Está tudo entre a família.
— Tio Gabriel mencionou ontem à noite que havia pintado recentemente a carruagem. Muitas vezes. E ameaçou chamar a polícia e te prender. Muitas vezes.
— Gabriel vai parar de falar sobre isso em poucos anos — o pai piscou um olho azul para James. — Porque todos nós estaremos conduzindo automóveis até lá.
— Mamãe diz que você nunca pode dirigir um automóvel — James observou. — Ela fez eu e Lucie prometermos que se você dirigisse, não deveríamos entrar.
— Sua mãe estava apenas brincando.
James balançou a cabeça.
— Ela nos fez jurar pelo Anjo.
Ele sorriu para o pai, que balançou a cabeça para Jamie, o vento bagunçando seu cabelo preto. A mãe dizia que ele e Jamie tinha o mesmo cabelo, mas Jamie sabia que o seu próprio cabelo estava sempre desarrumado. Tinha ouvido as pessoas chamarem o cabelo de seu pai de indisciplinado, o que significava ser desarrumado com elegância.
O primeiro dia de escola não era um bom dia para James pensar em como ele era tão diferente de seu pai.
Durante o caminho de Alicante, várias pessoas os pararam na estrada, dando a exclamação habitual: “Oh, Sr. Herondale.” Caçadoras de Sombras de muitas idades diziam isso para seu pai: três palavras que eram suspiro e apelo ao mesmo tempo. Outros pais eram chamados de “senhor”, sem o prefixo “oh”. Com um pai tão notável, as pessoas tendiam a buscar um filho que seria, talvez, uma estrela menor para o sol escaldante de Will Herondale, mas ainda alguém que brilhasse. Eles eram sempre sutis, mas ficavam inconfundivelmente desapontados ao descobrir James, que não era muito notável.
James lembrou de um incidente que tornou a diferença entre ele e seu pai fortemente aparente. Era sempre os momentos mais ínfimos que voltavam para James no meio da noite e o mortificavam muito, como se fossem os cortes quase invisíveis que se mantinham ardendo.
Uma moça mundana apareceu na livraria Hatchards em Londres. Hatchards era a livraria mais bonita da cidade, pensou James, com sua madeira escura e vitrine frontal, que fazia toda a loja parecer solene e especial, com os seus recantos secretos e esconderijos internos onde se podia agachar com um livro e ficar bastante quieto. A família de James muitas vezes ia para Hatchards todos juntos, mas quando James e seu pai iam sozinhos, as senhoras muitas vezes encontravam uma razão para andar até eles e iniciar uma conversa.
O pai disse à moça que passava os dias caçando suas raras primeiras edições. Ele sempre encontrava algo para dizer às pessoas, sempre fazê-las rir. Parecia um estranho e maravilhoso poder para James, algo impossível de alcançar, como seria para ele mudar de forma como um lobisomem. James não se preocupava com as mulheres que se aproximam do pai. Seu pai nenhuma vez olhou para qualquer mulher da maneira como olhava para a mãe, com alegria e graça, como se ela fosse um desejo realizado, demonstrando toda a esperança do passado.
James não conhecia muitas pessoas, mas estava bem em ser tranquilo e prestar atenção. Sabia que o que havia entre seus pais era algo raro e precioso.
Ele se preocupava apenas porque as mulheres que se aproximavam do pai eram estranhos e James teria que conversar.
A moça na livraria tinha se inclinado e perguntado:
— E o que você gosta de fazer, homenzinho?
— Eu gosto de... livros — James havia dito. Enquanto estava na livraria, com um pacote de livros debaixo do braço. A moça lhe lançara um olhar de pena. — Eu leio sim, muito — James continuou, mestre sombrio do óbvio. Rei do óbvio. Imperador do óbvio. A moça ficou tão impressionada que se afastou sem dizer uma palavra.
James nunca soube o que dizer às pessoas. Nunca sabia como fazê-las rir. Ele viveu os treze anos de sua vida principalmente no Instituto de Londres, com seus pais e sua irmã mais nova, Lucie, e um grande número de livros. Nunca teve um amigo menino.
Agora, estava indo para Academia de Caçadores de Sombras, para aprender a ser um guerreiro tão grande como seu pai, e um guerreiro não deveria ficar tão preocupado com o fato de que teria que falar com as pessoas.
Haveria um monte de gente.
Haveria um monte de conversas.
James se perguntou por que as rodas da carruagem do tio Gabriel não caíam. Perguntou-se por que o mundo era tão cruel.
— Eu sei que você está nervoso sobre ir à Academia — o pai disse, por fim. — Sua mãe e eu não tínhamos certeza sobre enviá-lo.
James mordeu o lábio.
— Vocês acharam que eu seria um desastre?
— O quê? Claro que não! Sua mãe estava simplesmente preocupada com enviar para longe a única outra pessoa na casa que tem algum juízo.
James sorriu.
— Temos sido muito felizes, com a nossa pequena família unida — continuou o pai. — Eu nunca pensei que pudesse ser tão feliz. Mas, talvez, o tenhamos mantido isolado em Londres também. Seria bom para você fazer alguns amigos da sua idade. Quem sabe você pode encontrar seu futuro parabatai na Academia.
O pai podia dizer o que quisesse sobre ser culpa dele e de sua mãe ele se manter isolado; James sabia que não era verdade. Lucie tinha ido à França com a mãe e conehcera Cordelia Carstairs, e em duas semanas elas haviam se tornado o que Lucie descrevia como companheiras íntimas. Trocavam cartas toda semana, folhas e folhas de papel rabiscadas e com esboços. Lucie era tão isolada quanto James. James fizera visitas também, e nunca fez um amigo. A única pessoa que ele gostava era uma menina, e ninguém poderia saber sobre Grace. Talvez Grace ainda não gostasse dele se conhecesse qualquer outra pessoa. Não era culpa de seus pais que ele não tivesse amigos. Era alguma falha dentro de si mesmo, James pensava.
— Talvez — o pai continuou casualmente — você e Alastair Carstairs se deem bem.
— Ele é mais velho do que eu! — James protestou. — Não terá tempo para um novo garoto.
O pai deu um sorriso irônico.
— Quem sabe? Essa é a coisa maravilhosa sobre fazer mudanças e conhecer estranhos, Jamie. Você nunca sabe quando e nunca sabe quem, mas um dia um estranho vai estourar através da porta de sua vida e vai transformá-lo totalmente. O mundo vai virar de cabeça para baixo, e você será mais feliz.
O pai ficou tão feliz quando Lucie tornou-se amiga de Cordelia Carstairs. O parabatai dele uma vez se chamara James Carstairs, embora seu nome oficial, agora que ele pertencia aos Irmãos do Silêncio – uma ordem de monges cegos Marcados com runas que ajudavam os Caçadores de Sombras na escuridão – fosse Irmão Zachariah. Ele contara a James mil vezes sobre como conheceu tio Jem, sobre os anos que tio Jem tinha sido o único que acreditava nele, que viu o seu verdadeiro eu. Até que mamãe apareceu.
— Eu falei com você muitas vezes da sua mãe e do seu tio Jem e tudo o que fizeram por mim. Eles me tornaram uma nova pessoa. Eles salvaram a minha alma — o pai disse, sério como ele raramente era. — Você não sabe o que é ser salvo e transformado. Mas você vai saber. Como seus pais, devemos dar-lhe a oportunidade de ser desafiado e transformado. Foi por isso que concordamos em enviá-lo para a Academia. Mesmo que sentiremos sua falta terrivelmente.
— Terrivelmente? — perguntou James com timidez.
— Sua mãe diz que vai ser corajosa e ficar calada. Os americanos são sem coração. Eu vou chorar no meu travesseiro todas as noites.
James riu. Ele sabia que não ria muito, e o pai parecia particularmente satisfeito sempre que conseguia fazê-lo rir. James era, aos treze anos, um pouco velho para tais demonstrações, mas desde esse dia, passariam meses e meses até que visse o pai novamente e ele estava com um pouco com medo de ir para a Academia, então aninhou-se contra pai e pegou sua mão. O pai segurava as rédeas com uma mão e com a outra pegou a mão de James no bolso fundo de seu casaco. James descansou a bochecha contra o ombro do pai, sem se importar com os solavancos da carruagem enquanto desciam as estradas rurais de Idris.
Ele queria um parabatai. Queria um urgentemente.
Um parabatai era um amigo que tinha escolhido você para ser seu melhor amigo, que tornara sua amizade permanente. Eles eram a certeza sobre o quanto gostavam de você, aquela certeza de que nunca o devolveria. Encontrar um parabatai parecia para James a chave de tudo, o primeiro passo essencial para uma vida onde ele poderia ser tão feliz como seu pai era, tão brilhante como um Caçador de Sombras quanto seu pai era, encontrar um amor tão grande quanto o amor que seu pai tinha encontrado. Não que James tivesse qualquer garota em particular em mente, James disse a si mesmo, sufocando todos os pensamentos sobre Grace, a garota secreta; Grace, que precisava ser resgatada. Ele queria um parabatai, o que tornava a Academia mil vezes mais aterrorizante.
James estava em segurança durante este tempo, descansando no ombro de seu pai, mas muito em breve eles chegariam ao vale onde a escola ficava.
A Academia era magnífica, um prédio cinza que brilhava entre as árvores recolhidas como uma pérola. Lembrou James dos edifícios góticos de livros como Os Mistérios de Udolpho e O Castelo de Otranto.
Situado na parede cinzenta do prédio estava um enorme vitral colorido com uma dúzia de cores brilhantes, que mostrava um anjo empunhando uma espada. O anjo olhava para baixo em um pátio repleto de alunos, todos conversando e rindo, tudo o que havia para se tornarem os melhores Caçadores de Sombras que poderiam ser. Se James não pudesse encontrar um amigo aqui, ele sabia, não seria capaz de encontrar um amigo em todo o mundo.

* * *

O tio Gabriel já estava no pátio. Seu rosto tinha virado uma sombra alarmante vermelho escuro. Ele gritava alguma coisa sobre ladrões Herondale.
O pai virou-se para a reitora, uma senhora que tinha inquestionavelmente uns cinquenta anos de idade, e sorriu. Ela corou.
— Reitora Ashdown, faria a gentileza de me levar em um tour pela Academia? Fui criado no Instituto de Londres com apenas outro aluno — a voz do pai suavizou, como sempre acontecia quando ele falava do tio Jem. — Nunca tive o privilégio de frequentar por mim mesmo.
— Oh, Sr. Herondale! — respondeu a reitora Ashdown. — É claro.
— Obrigado — disse o pai. — Vamos, Jamie.
— Oh, não — disse James. — Eu vou... eu vou ficar aqui.
Ele se sentiu desconfortável assim que seu pai ficou fora de sua vista, caminhando de braço dado com a reitora e lançando um sorriso malicioso ao tio Gabriel, mas James sabia que tinha que ser corajoso, e esta era a oportunidade perfeita. Entre a multidão de alunos no pátio, James vira dois rapazes que conhecia.
Um era alto e tinha aproximadamente treze anos, com um choque desordenado de cabelos castanhos claros. O rosto estava virado para o outro lado, mas James sabia que o menino tinha olhos cor de lavanda surpreendentes. Tinha ouvido meninas em festas dizerem que aqueles olhos eram desperdiçados em um menino, especialmente um menino tão estranho quanto Christopher Lightwood.
James conhecia seu primo Christopher melhor do que qualquer outro garoto na Academia. Tia Cecily e tio Gabriel tinham passado muito tempo em Idris ao longo dos últimos anos, mas antes ambas as famílias estavam juntas muitas vezes: todos tinham ido ao País de Gales passar alguns feriados, antes que os avós morressem. Christopher era um pouco estranho e extremamente vago, mas sempre foi bom com James.
O rapaz de pé ao lado de Christopher era pequeno e magro como uma ripa, a cabeça quase chegando ao ombro de Christopher. Thomas Lightwood era primo de Christopher, e não de James, mas James chamava a mãe de Thomas de tia Sophie porque ela era a melhor amiga da mãe. James gostava de tia Sophie, que era tão bonita e sempre gentil.
Ela e sua família estavam vivendo em Idris nos últimos anos, bem como tia Cecily e tio Gabriel – o marido de tia Sophie era o irmão do tio Gabriel. Contudo, tia Sophie vinha sozinha para Londres em visitas. James vira a mãe e tia Sophie saírem das salas de ensaio rindo juntas como se fossem meninas tanto quanto sua irmã, Lucie. Tia Sophie uma vez chamou Thomas de seu garoto tímido, o que fizera James achar que ele e Thomas poderiam ter muito em comum. Nas grandes reuniões familiares, quando estavam todos juntos, James furtivamente lançara alguns olhares para Thomas, e o encontrava sempre parado tranquilo e inquieto à margem de um grupo maior, geralmente olhando para um dos meninos mais velhos. Ele queria ir até Thomas e iniciar uma conversa, mas não tinha certeza do que dizer.
Duas pessoas tímidas provavelmente seriam bons amigos, mas havia o pequeno problema de como chegar a esse ponto. James não tinha ideia.
Agora era a chance de James, no entanto. Os primos Lightwood eram sua melhor esperança para fazer amigos na Academia. Tudo o que ele tinha a fazer era ir lá e falar com eles.
James abriu caminho através da multidão, desculpando-se quando outras pessoas lhe davam uma cotovelada.
— Olá, rapazes — disse uma voz atrás de James, e alguém o empurrou como se não pudesse vê-lo.
James viu Thomas e Christopher virarem por sua vez, como flores para o sol. Eles sorriram com boas-vindas radiantes e idênticas, e James viu a parte de trás de uma cabeça loira brilhando.
Havia outro menino da idade de James na Academia que ele conhecia um pouco: Matthew Fairchild, cujos pais James chamava de tia Charlotte e tio Henry, porque a tia Charlotte tinha praticamente criado o pai quando ela era a líder do Instituto de Londres e antes de se tornar Consulesa – o cargo mais importante que um Caçador de Sombras poderia ser. Matthew não tinha vindo para Londres nas poucas vezes que tia Charlotte e o irmão dele, Charles, visitavam. Tio Henry tinha sido ferido em batalha anos antes de qualquer um deles nascer, e ele não saía de Idris muitas vezes, mas James não sabia por que Mathew não venha visitar. Talvez ele se divertisse bastante em Idris. Uma coisa que James tinha certeza era que Matthew Fairchild não era tímido.
James não vira Matthew em um par de anos, mas lembrava-se dele de forma muito clara. Em cada reunião de família, onde James permanecia no canto das multidões ou saía para ler nas escadas, Matthew era a vida e a alma da festa. Ele conversava com os adultos como se fosse um adulto. Dançava com senhoras de idade. Podia ser charmoso com pais e avós, e calava os bebês que choravam. Todo mundo adorava Mathew.
James não se lembrava de Matthew se vestir como um maníaco antes de hoje. Matthew vestia calções quando toda gente sã usava calças, e uma jaqueta de veludo cor de amora. Até mesmo seu cabelo dourado brilhante estava escovado de uma forma que parecia a James mais complicado do que a forma como os outros meninos estavam.
— Isso não é um aborrecimento? — Matthew perguntou a Christopher e Thomas, os dois rapazes que James queria como amigos. — Todo mundo aqui parece um idiota. Eu já estou em agonia terrível, contemplando minha juventude desperdiçada. Não fale comigo, ou vou desabar e soluçar descontroladamente.
— Não, não — disse Christopher, dando um tapinha no ombro de Matthew. — Você está chateado por aquilo novamente?
 — É culpa da sua cara, Lightwood — disse Matthew, e lhe deu uma cotovelada.
Christopher e Thomas riram, aproximando-se dele. Todos eles já eram obviamente amigos, e Matthew era tão claramente o líder. O plano de James para fazer amigos estava em ruínas.
— Er — disse James, o som soando como um soluço social trágico. — Olá.
Christopher olhou para ele com inexpressiva amabilidade, e o coração de James, que já estava na altura de seus joelhos, afundou até as meias. Em seguida, Thomas disse:
— Olá! — E sorriu.
James sorriu de volta, grato por um instante, e então Matthew Fairchild se virou para ver quem Thomas cumprimentava.
Ele era mais alto do que James, seu cabelo desalinhado delineado pelo sol enquanto ele o olhava. Matthew deu a impressão de que estava olhando para baixo de uma altura muito maior do que realmente estava.
— Jamie Herondale, certo? — Matthew perguntou.
James se eriçou.
— Eu prefiro James.
— Eu preferiria estar em uma escola dedicada à arte, beleza e cultura, em vez de num barraco de pedra cinza medonho cheio de arruaceiros que aspiram nada mais do que vencer demônios com enormes espadas — devolveu Matthew. — No entanto, aqui estamos nós.
— E eu preferiria ter alunos inteligentes — disse uma voz atrás deles. — No entanto, aqui estou, ensinando em uma escola para os Nephilim.
Eles se viraram e pararam, como um só. O homem atrás deles tinha cabelo branco como a neve, que ele parecia jovem demais para possuir, e chifres brotando entre os cabelos brancos.  A coisa mais notável sobre ele, no entanto, o que James notou de imediato, era a pele verde, da cor de uvas. James sabia que deveria ser um feiticeiro. Na verdade, sabia quem ele deveria ser: o antigo Alto Bruxo de Londres, Ragnor Fell, que vivia boa parte do tempo no campo, fora Alicante, e que tinham concordado este ano que ensinaria na Academia como uma diversão de estudos mágicos.
James sabia que feiticeiros eram boas pessoas, aliados dos Caçadores de Sombras. O pai muitas vezes falou sobre seu amigo Magnus Bane, que tinha sido gentil quando ele era jovem. O pai nunca mencionara se Magnus Bane era verde. James nunca tinha pensado em perguntar. Agora, estava se perguntando urgente e constantemente.
— Qual de vocês é Christopher Lightwood? — Ragnor Fell perguntou em voz severa. Seu olhar passou por todos, e pousou na pessoa mais parecendo culpada no grupo. — É você?
— Graças ao Anjo, não — exclamou Thomas, e ficou vermelho sob seu bronzeado de verão. — Sem ofensa, Christopher.
— Oh, nada feito — disse Christopher levianamente. Ele piscou para Ragnor, como se o homem alto, verde e assustador tivesse desviado totalmente sua atenção até o momento. — Olá senhor.
— É você Christopher Lightwood? — Ragnor perguntou, um pouco ameaçador. Sua atenção passou de Christopher e se concentrou em uma árvore.
— Hã? Acho que sim.
Ragnor olhou para baixo, para o cabelo castanho desalinhado de Christopher. James estava começando a ficar com medo que ele entraria em erupção como um vulcão verde.
— Você não tem certeza, Sr. Lightwood? Será que, talvez, teve um encontro infeliz quando era criança?
— Hã? — indagou Christopher.
A voz de Ragnor aumentou.
— Entre sua cabeça de criança e o chão?
Foi quando Matthew Fairchild disse:
— Senhor — e sorriu.
James tinha esquecido do sorriso, apesar de muitas vezes ter presenciado seu efeito  nas festas de família. O Sorriso dava a Matthew mais tempo antes de dormir, pudim de Natal extra, qualquer coisa a mais que ele queria. Os adultos eram incapazes de resistir ao Sorriso. Matthew dava tudo de si para este Sorriso em particular. Manteiga derretia. Pássaros cantavam. Pessoas escorregavam atordoadas em meio à manteiga e o canto dos pássaros.
Senhor, você tem que perdoar Christopher. Ele é um pouco distraído, mas é definitivamente Christopher. Seria muito difícil confundir Christopher com qualquer outra pessoa. Garanto por ele, e ele não pode negar isso.
O Sorriso funcionou em Ragnor, como funcionava em todos os adultos. Ele se curvou um pouquinho.
— Você é Matthew Fairchild?
O Sorriso de Matthew tornou-se mais brincalhão.
— Eu poderia negar, se quisesse. Poderia negar qualquer coisa, se quisesse. Mas o meu nome é Matthew mesmo. E tem sido Matthew há anos.
— O quê? — Ragnor Fell olhou como se tivesse caído em um poço de lunáticos e não pudesse sair.
James pigarreou.
— Ele está citando Oscar Wilde, senhor.
Matthew olhou para ele, seus olhos escuros se arregalaram de repente.
— Você é um devoto de Oscar Wilde?
— Ele é um bom escritor — James falou friamente. — Há um monte de bons escritores. Eu leio cada um deles — acrescentou, deixando claro que ele estava certo de que Matthew não lia.
— Cavalheiros — Ragnor Fell disse, sua voz parecia um punhal. — Se puderem se afastar de sua fascinante conversa literária por um momento e ouvirem um dos instrutores no estabelecimento aonde supostamente vêm para aprender, tenho uma carta aqui sobre Christopher Lightwood e o infeliz incidente que causou à Clave tal preocupação.
— Sim, aquele foi um acidente muito infeliz — concordou Matthew, balançando fervorosamente como se ele tivesse certeza da simpatia do Ragnor.
— E essa não foi a palavra que usei, Sr. Fairchild, como estou certo que você está ciente. A carta diz que você se ofereceu para assumir a responsabilidade total pelo Sr. Lightwood, e que jurou solenemente manter todos e quaisquer explosivos em potencial fora de seu alcance enquanto estivesse na Academia.
James olhou do feiticeiro para Matthew e Christopher, que encarava uma árvore com benevolência sonhadora. Em desespero, ele olhou para Thomas.
Explosivos?, ele perguntou em silêncio.
— Não pergunte — disse Thomas. — Por favor.
Thomas era mais velho que James e Christopher, mas muito menor. Tia Sophie o manteve em casa mais um ano porque estava doente. Ele não parecia doente agora, mas ainda era menor. Seus trajes, combinados com o cabelo e olhos castanhos e sua baixa estatura, o fazia parecer pequeno cavalo preocupado. James encontrou-se querendo bater de leve na cabeça de Thomas.
Matthew deu um tapinha na cabeça de Thomas.
— Senhor Fell — disse ele. — Thomas. Christopher. Jamie.
— James — James corrigiu.
— Não se preocupe — Matthew falou com imensa confiança. — Quero dizer, com certeza, preocupe-se que nós estejamos presos em uma cultura guerreira árida sem apreciação para as coisas realmente importantes na vida. Mas não se preocupe com coisas explodindo, porque não permitirei que nada exploda.
— Isso era tudo o que precisava dizer — Ragnor Fell respondeu. — E você poderia ter dito isso com muito menos palavras.
Ele se afastou em um redemoinho de pele verde e mau humor.
— Ele era verde! — Thomas sussurrou.
— Realmente — disse Matthew, muito seco.
— Oh, mesmo? — perguntou Christopher brilhantemente. — Não reparei.
Thomas olhou tristemente para Christopher. Matthew ignorou elegantemente.
— Eu gostei da tonalidade única de nosso professor. Isso me lembrou dos cravos verdes que os seguidores de Oscar Wilde usam para imitá-lo. Um dos atores, hum, enfeitava sua roupa com um cravo verde no palco.
— Foi em O leque de Lady Windermere — disse James.
Matthew estava claramente se exibindo, tentando parecer superior e especial, e James não tinha tempo para isso.
Matthew deu o Sorriso para ele. James não se surpreendeu ao descobrir que era imune a seus efeitos mortais.
— Sim — disse ele. — É claro. Jamie, posso ver que como um companheiro admirador de Oscar Wilde...
— Uh — disse uma voz à esquerda de James. — Vocês, garotos novos mal estão aqui há cinco minutos, e tudo o que conseguem encontrar para conversar é sobre um mundano que foi enviado para a prisão por indecência?
— Então você conhece Oscar Wilde também, Alastair? — perguntou Matthew.
James olhou para o rapaz mais alto e mais velho. Ele tinha cabelos escuros, mas as sobrancelhas brilhantes, fortemente marcadas, como pinceladas negras muito subjetivas. Portanto, este era Alastair Carstairs, o irmão do melhor amigo de Lucie, a quem o pai esperava que James fosse amigo. James tinha imaginado alguém mais amigável, mais como Cordelia.
Talvez Alastair fosse mais amigável se não ligasse James ao imprestável Mathew.
— Eu sei sobre muitos criminosos mundanos — disse Alastair Carstairs em tons frios. — Li os jornais mundanos para encontrar indícios de atividade demoníaca. Certamente não me incomodo em ler peças de teatro.
Os dois meninos concordaram como bons Caçadores de Sombras. Matthew riu na cara deles.
— Naturalmente. Para que serve a tristeza, sem imaginação de pessoas para peças de teatro? — perguntou. — Pinturas ou dança, ou qualquer coisa que tornam a vida interessante. Estou tão feliz por estar nesta pequena e úmida escola onde eles vão tentar jogar minha mente para baixo até que fique quase tão estreita quanto a sua.
Ele deu um tapinha no braço de Alastair Carstairs. James ficou surpreso que ele não foi imediatamente atingido no rosto. Thomas estava olhando para Alastair com tanto pânico como James sentia.
— Corra agora — Matthew sugeriu. — Vá. Jamie e eu estávamos conversando.
Alastair riu, sua risada soando mais irritada do que uma palavra afiada teria.
— Eu só estava tentando dar aos mais jovens um pouco de orientação sobre a forma como fazemos as coisas na Academia. Se você é demasiado estúpido para tomar cuidado, não é culpa minha. Pelo menos você tem uma língua em sua cabeça, ao contrário deste aqui.
Ele se virou e olhou furiosamente para James. James ficou tão surpreso e consternado com o rumo dos acontecimentos, ele não tinha feito nada! Ele simplesmente ergueu a cabeça e fitou com o queixo caído.
— Sim, você, aquele com os olhos peculiares — Alastair estalou. — Porque está com a boca aberta?
— Eu... — gaguejou James. — Eu...
Ele tinha olhos peculiares, sabia. Realmente não precisa de óculos, exceto para leitura, mas usava o tempo todo, a fim de esconder os olhos. Podia sentir-se corar, e a voz de Alastair tornou-se tão afiada quanto sua risada.
— Qual o seu nome?
— H-Herondale — James balbuciou.
— Pelo Anjo, seus olhos são terríveis — comentou o menino à direita de Alastair.
Alastair riu de novo, desta vez com mais satisfação.
— Amarelos. Assim como uma cabra.
— Eu não...
— Não se esforce, Herondale Cara-de-Cabra — disse Alastair. — Não tente falar. Você e seus amigos talvez pudessem deixar de ficar obcecados com os mundanos e tentassem pensar sobre pequenas questões, como salvar vidas e manter a Lei enquanto estiverem aqui, tudo bem?
Ele olhou para seus amigos rindo dele. James ouviu o apelido se espalhar pela multidão coesa e o riso que se seguiu, como as ondulações de uma pedra atirada num lago. Cara-de-Cabra. Cara-de-Cabra. Cara-de-Cabra.
Matthew riu.
— Bem. O que...
— Muito obrigado por me arrastar para isso — James sibilou.
Ele girou sobre os calcanhares e se afastou dos dois amigos que esperava fazer na Academia, e ouviu seu novo apelido sendo sussurrado enquanto andava.

* * *

James fez o que havia prometido a si mesmo não fazer. Ele arrastou sua pesada bolsa através do pátio, do corredor e por vários conjuntos de escadas até que encontrou uma escada que parecia privada. Então sentou-se ali e abriu um livro. Disse a si mesmo que só leria algumas páginas antes de descer novamente. O Conde de Monte Cristo estava descendo sobre seus inimigos em um balão.
James emergiu horas depois para perceber que o céu tinha ficado cinza escuro e os sons do pátio tinham desaparecido. Sua mãe e Lucie ainda estavam em Londres, muito longe, e agora ele tinha certeza de que seu pai se fora também.
Ele estava preso nesta Academia cheia de estranhos. Nem sequer sabia onde ele deveria dormir esta noite.
Vagou por aí tentando encontrar os quartos. Ele não encontrou, mas percebeu-se desfrutando explorar um novo e grande lugar por conta própria. A Academia era um esplêndido edifício, as paredes de pedra brilhando como se tivessem sido polidas. Os lustres pareciam feitos de joias, e enquanto James vagava em busca do refeitório, viu muitas tapeçarias bonitas que descreviam os Caçadores de Sombras através dos tempos. Ele ficou olhando para uma tapeçaria intricada e colorida dos combates de Jonathan Caçador de Sombras durante as Cruzadas, até que lhe ocorreu que o jantar deveria ser em breve e ele não queria chamar ainda mais atenção para si mesmo.
O som de centenas de vozes estranhas alertou James para onde a sala de jantar deve estar. Ele lutou contra o impulso de fugir, preparou-se, e atravessou as portas. Para seu alívio, as pessoas ainda estavam se reunindo, os alunos mais velhos ao redor e conversando com a facilidade de uma longa familiaridade. Os alunos novos pairavam, assim como o próprio James. Todos exceto Matthew Fairchild, que inspecionava as mesas de mogno brilhantes com desdém.
— Nós temos que selecionar uma mesa muito pequena — disse Thomas e Christopher, seus satélites. — Eu estou aqui sob protesto. Não vou dividir o pão com o tipo de violentos imbecis e delirantes que estudam na Academia de bom grado.
— Você sabe — James disse em voz alta — Alastair Carstairs estava certo.
— Isso parece muito improvável para mim — Matthew respondeu, em seguida, virou-se. — Ah, é você. Por que ainda está carregando sua bolsa?
— Eu não tenho que responder — disse James, ciente de que era uma coisa bizarra a dizer.
Thomas piscou para ele, aflito, como se tivesse confiado em James para não dizer coisas bizarras.
— Ok — Matthew concordou agradavelmente. — Alaistair Carstairs estava certo sobre o quê?
— As pessoas frequentam a Academia porque esperam se tornar os melhores Caçadores de Sombras e salvar vidas. Esse é um objetivo nobre e digno. Você não tem que zombar de todos que conhece.
— Mas de que outra forma vou me divertir neste lugar? — Matthew protestou. — Você pode sentar com a gente, se quiser.
Houve um brilho divertido em seus olhos castanhos. James tinha certeza, pela maneira como Matthews olhava para ele, que ele estava sendo zombado, embora não conseguisse descobrir como.
— Não, obrigado — James respondeu brevemente.
Ele olhou em volta para as mesas e viu que os Caçadores de Sombras do primeiro ano estavam agora nas mesas em padrões cuidadosos e amigáveis. Havia outros rapazes e até mesmo algumas meninas, porém, que James podia ver que eram mundanos. Não era tanto pelas roupas, mas pela forma como se mantinham: como se tivessem medo de que pudessem ser atacados. Caçadores de Sombras, ao contrário, estavam sempre prontos para atacar.
Havia um menino em roupas surradas sentado sozinho. James cruzou a sala de jantar para sentar em sua mesa.
— Posso sentar aqui? — ele perguntou, desesperado o suficiente para ser franco.
— Sim! — respondeu o outro menino. — Ah, sim, por favor. Meu nome é Smith. Michael Smith. Mike.
James estendeu a mão sobre a mesa e apertou a mão de Mike Smith.
— James Herondale — os olhos de Mike se arregalaram reconhecendo-o claramente como um nome de Caçador de Sombras. — Minha mãe cresceu no mundo mundano — James disse a ele rapidamente. — Na América. Cidade de Nova York.
— Sua mãe era uma mundana? — perguntou uma garota, vindo e sentando à mesa deles. — Esme Philpott — acrescentou ela, apertando suas mãos energicamente. — Eu não devo manter o nome quando eu Ascender. Estou pensando em mudar o Esme também.
James não sabia o que dizer. Ele não desejava insultar o nome de uma moça concordando com ela ou insultando uma dama por discutir com ela.
Ele não estava preparado para ser abordado por uma garota estranha. Poucas meninas eram enviadas para a Academia: é claro que mulheres poderiam ser tão boas guerreiras quanto os homens, mas nem todo mundo pensava dessa maneira, e muitas famílias queriam manter suas meninas por perto. Alguns pensavam que a Academia tinha muitas regras, e outros tinham muito poucas. As irmãs de Thomas, que eram muito boas, não vieram para a Academia. As lendas da família relatavam que sua prima Anna Lightwood, que era a pessoa menos adequada que se pode imaginar, dissera que se fosse mandada para a Academia, fugiria e se tornaria uma toureira mundana.
— Mmm — James resmundou, um diabo eloquente com as senhoras.
— Sua mãe Ascendeu sem problemas? — perguntou Mike ansiosamente.
James mordeu o lábio. Ele estava acostumado a todos conhecerem a história de sua mãe: a filha de uma Caçadora de Sombras e um demônio.
Qualquer filho de Caçador de Sombras era um Caçador de Sombras. Sua mãe pertencia ao mundo dos Caçadores de Sombras tanto quanto qualquer um dos Nephilim. Apenas sua pele que não podia suportar as Marcas, e nunca antes houvera alguém como ela no mundo. James não sabia como explicar para as pessoas que ainda não sabiam. Ele temia explicar errado, e a explicação refletiria seriamente sobre a mãe.
— Eu conheço um monte de pessoas que Acenderam sem problemas — disse James finalmente. — Minha tia Sophie – Sophie Lightwood, agora – era mundana. Meu pai diz que nunca houve ninguém tão valente, antes ou depois da Ascensão.
— Que alívio! — disse Esme. — Diga-me, acho que já ouvi sobre Sophie Lightwood...
— Que terrível decadência — um dos meninos que James tinha visto com Alastair Carstairs anteriormente falou. — Cara-de-Cabra Herondale está reduzido a estar com a escória.
Alastair e seu outro amigo riram.
Eles foram se sentar em uma mesa com outros Caçadores de Sombras mais velhos, e James tinha certeza de que ouviu “Cara-de-Cabra” sendo sussurrado mais de uma vez. Sentiu que estava fervendo de dentro para fora com vergonha.
Quanto a Matthew Fairchild, James olhou para ele apenas uma vez ou outra. Depois de tê-lo deixado em pé no meio do refeitório, Matthew girara sua cabeça loira estúpida e escolheu uma grande mesa para sentar. Ele claramente não queria uma palavra sobre ser tão seleto. Sentou-se com Thomas e Christopher um de cada lado como um príncipe em sua corte, gritando piadas e convocando pessoas para o seu lado, e logo sua mesa estava lotada. Ele encantou vários dos estudantes Caçadores de Sombras de suas mesas. Até mesmo alguns dos alunos mais velhos se aproximaram para ouvir uma das aparentes histórias terrivelmente divertidas de Matthew. Mesmo Alastair Carstairs foi por alguns minutos. Obviamente, ele e Matthew eram grandes amigos agora.
James pegou Mike Smith olhando para a mesa de Matthew saudosamente, seu rosto mostrando sua reação por ser barrado de toda a diversão, condenado a estar sempre na mesa menos emocionante, com as pessoas menos interessantes.
James queria amigos, mas não queria ser o tipo de amigo que as pessoas tinham porque não podiam ter melhores. Só que ele era, como sempre temera secretamente, uma companhia tediosa e pobre. Não sabia por que os livros não o tinham ensinado a falar o que outras pessoas queriam ouvir.

* * *

James finalmente se aproximou dos professores para pedir ajuda para encontrar seu quarto. Encontrou a reitora Ashdown e Ragnor Fell  em uma profunda conversa.
— Sinto-me tão terrivelmente culpada — disse a reitora Ashdown. — Esta é a primeira vez que temos um bruxo professor – e estamos muito felizes! Deveríamos ter limpado cuidadosamente a Academia para nos certificar de que não houvesse resquícios de um tempo menos pacífico.
— Obrigado, reitora Ashdown — respondeu Ragnor. — A remoção da cabeça de feiticeiro instalada em meu quarto será suficiente.
— Sinto-me tão terrivelmente culpara! — repetiu a reitora Ashdown. Ela baixou a voz. — Você estava familiarizado com o... er, cavalheiro falecido?
Ragnor olhou com desagrado. Embora pudesse ser apenas como o Sr. Fell parecia.
— Se acontecesse de você dar de cara com a cabeça grotescamente decepada de um Nephilim, teria que conhecê-lo para sentir que não poderia dormir no sofisticado quarto onde seu cadáver profanado permanece?
James tossiu no meio do terceiro pedido de desculpas frenéticas da reitora.
— Peço desculpas — disse ele. — Alguém poderia me mostrar o meu quarto? Eu... me perdi e acabei perdendo isso.
— Ah, o jovem Sr. Herondale — a reitora parecia muito feliz em ser interrompida. — É claro, deixe-me mostrar o caminho. Seu pai me confiou uma mensagem para você que posso transmitir enquanto estamos andando.
Ela deixou um Ragnor Fell carrancudo atrás deles. James esperava não ter feito outro inimigo.
— Seu pai disse – que linguagem charmosa é o galês, não é? Tão romântica! – Pob Iwc, caraid. O que isso significa?
James corou, porque já estava crescido para seu pai chamá-lo pelo apelido.
— Significa apenas... significa boa sorte.
Ele não pôde deixar de sorrir enquanto se arrastava pelos corredores. Tinha certeza de que o pai de mais ninguém encantara a reitora para dar uma mensagem secreta. Ele se sentia quente e observado.
Até que a reitora Asdown abriu a porta de seu quarto novo, dando-lhe um alegre adeus, e deixou-o ao seu destino horrível.
Era um quarto muito agradável, arejado, com pilares na cama de nogueira e dosséis de linho branco. Havia um guarda-roupa esculpido e até mesmo uma estante.
Havia também uma quantidade perturbadora de Matthew Fairchild.
Ele estava de pé em frente a uma mesa que tinha cerca de quinze escovas de cabelo, várias garrafas misteriosas e uma estranha horda de pentes sobre ela.
— Olá, Jamie — ele cumprimentou. — Não é esplêndido estarmos compartilhando um quarto? Tenho certeza de que vamos ficar maravilhosos juntos.
— James — corrigiu James. — Para que são todas aquelas escovas?
Matthew olhou para ele com pena.
— Você não acha que tudo isso — ele indicou sua cabeça com um gesto arrebatador — aconteceu por conta própria?
— Eu só uso uma escova de cabelo.
— Sim — Matthew observou. — Eu posso notar.
 James arrastou-se até o pé da cama, tirou O Conde de Monte Cristo da bolsa e fez seu caminho de volta para a porta.
— Jamie? — chamou Matthew.
James! — James retrucou.
Matthew riu.
— Tudo bem, tudo bem. James, onde você está indo?
— Em qualquer outro lugar — respondeu, e bateu a porta atrás de si.
Ele não podia acreditar que a má sorte atribuíra aleatoriamente um quarto para compartilhar com Matthew. Encontrou outra escadaria e leu nela até que julgou ser tarde o suficiente para que Matthew certamente estivesse dormindo, então se arrastou de volta, acendeu uma vela e retomou a leitura na cama.
James pode ter lido um pouco demais durante a noite. Quando ele acordou, Matthew tinha claramente há muito ido – além de tudo o mais, ele era um madrugador – e James estava atrasado para seu primeiro dia de aula.
— O que mais você poderia esperar do Cara-de-Cabra Herondale? — comentou um menino que James nunca vira antes em sua vida, e muitas pessoas riram.
James tomou sombriamente o seu lugar ao lado de Mike Smith.

* * *

As aulas onde a elite era separada da escória eram as piores. James não tinha ninguém para se sentar próximo.
Ou, talvez, a primeira aula de todos os dias era a pior, porque James sempre ficava acordado até tarde da noite lendo para se esquecer de seus problemas, e estava atrasado todos os dias. Não importava que horas ele levantasse, Matthew sempre já estava fora. James assumiu que Matthew fazia isso para zombar dele, já que não podia imaginar Matthew fazendo nada de útil no início da manhã.
Ou talvez as aulas de treinamento físico fossem as piores, porque Matthew estava em sua forma mais irritante durante essas aulas.
— Eu lamentavelmente devo recusar a participar — ele disse ao professor uma vez. — Considere-me em greve, como os mineiros de carvão. Exceto que muito mais elegante.
No dia seguinte, ele falou:
— Eu me abstenho, alegando que a beleza é sagrada, e não há nada de bonito sobre esses exercícios.
No dia seguinte, ele se limitou a dizer:
— Eu objeto por princípios estéticos.
Ele continuou dizendo coisas ridículas, até um par de semanas, quando falou:
— Eu não vou fazer isso porque Caçadores de Sombras são idiotas e eu não quero estar nesta escola idiota. Por que um acidente de nascimento significa que você tem que querer começar a ficar longe de sua família, ou você tem de gastar uma vida horrível e curta lutando contra demônios?
— Você quer ser expulso, Sr. Fairchild? — trovejou o professor.
— Faça o que achar que deve fazer — disse Matthew, cruzando as mãos e sorrindo como um querubim.
Matthew não foi expulso. Ninguém parecia saber o que fazer com ele. Seus professores começaram a gritar cansados do desespero.
Ele fazia apenas metade do trabalho e insultava todos na Academia, numa base diária, e permaneceu absurdamente popular. Thomas e Christopher não podiam ser afastados dele. Ele vagava pelos corredores cercado por uma multidão adoradora que queria ouvir outras histórias divertidas. O quarto dele e de James estava sempre e completamente lotado.
James passava boa parte do tempo nas escadas. Ele passava mais tempo ainda sendo chamado de Cara-de-Cabra Herondale.
— Você sabe — Thomas disse timidamente uma vez, quando James não conseguira escapar de seu próprio quarto rápido o suficiente — você poderia ficar com a gente um pouco mais.
— Eu poderia? — perguntou James, e tentou não soar muito esperançoso. — Eu... gostaria de ver mais você e Christopher.
— E Matthew — disse Thomas.
James balançou a cabeça em silêncio.
— Matthew é um dos meus melhores amigos — Thomas falou, quase suplicante. — Se você passar algum tempo com ele, tenho certeza de que gostará dele.
James olhou para Matthew, que estava sentado em sua cama contando uma história para oito pessoas sentadas no chão e olhando para ele com adoração. Ele encontrou os olhos de Matthew, que viraram na direção dele e de Thomas, e desviou o olhar.
— Sinto que tenho de recusar ainda mais da companhia de Matthew.
— Isso faz você se destacar, você sabe — disse Thomas. — Passar o tempo com os mundanos. Eu acho que... é por isso que o seu apelido pegou. As pessoas têm medo de qualquer um que é diferente: faz com que elas se preocupem que todo mundo seja diferente também, e apenas fingem ser todos iguais.
James olhou para ele.
— Você está dizendo que eu deveria evitar os mundanos? Porque eles não são tão bons como nós?
— Não, isso não é... — Thomas começou, mas James estava zangado demais para deixá-lo terminar.
— Os mundanos podem ser heróis também — disse James. — Você deveria saber disso melhor do que eu. Sua mãe era uma mundana! Meu pai me contou tudo sobre o que ela fez antes de passar pela Ascenção. Todo mundo aqui conhece pessoas que eram mundanas. Por que devemos isolar as pessoas que são corajosas o suficiente para tentar se tornar como nós, que querem ajudar as pessoas? Por que devemos tratá-las como se fossem menos do que nós, até que provem o seu merecimento ou morram? Eu não vou fazer isso.
Tia Sophie era tão boa quanto qualquer Caçador de Sombras, e ela tinha sido muito corajosa antes mesmo de ter Ascendido. Tia Sophie era a mãe de Thomas. Eles deveria saber melhor o que James fazia.
— Eu não quis dizer isso dessa maneira — Thomas defendeu-se. — Eu não penso dessa maneira.
Era como se as pessoas não pensassem, vivendo em Idris.
— Talvez seus pais não contem histórias como o meu — disse James.
— Talvez nem todos ouçam as histórias como você faz — Matthew falou do outro lado da sala. — Nem todo mundo aprende.
James olhou para ele. Era inesperadamente uma coisa agradável para Matthew, de todas as pessoas, dizer.
— Eu conheço uma história — Matthew continuou. — Quem quer ouvir?
— Eu! — disse o coro do chão.
— Eu!
— Eu!
— Eu não — disse James, e saiu da sala.
Era outro lembrete de que Matthew tinha o que James teria dado tudo para ter – Matthew tinha amigos e pertencia à Academia, e Matthew não se importava.
Eventualmente havia tantos professores fugindo de uma superdose de Matthew Fairchild que Ragnor Fell foi deixado para supervisionar aulas práticas. James se perguntou por que ele era o único que podia ver que isso era um absurdo, e Matthew estava arruinando as aulas para todos. Ragnor podia fazer magia, mas não era nem um pouco interessado na guerra.
Ragnor deixou Esme trançar fitas na crina de seu cavalo de modo que estaria parecido com um cavalo nobre. Ele concordou em deixar Christopher construir um aríete para derrubar árvores, porque seria uma boa prática no caso de eles precisarem montar um cerco em um castelo. Ele observou Mike Smith bater-se na cabeça com o seu próprio arco.
— Concussões não são nada para se preocupar — disse Ragnor placidamente. — A menos que haja uma hemorragia grave no cérebro, nesse caso você pode morrer. Sr. Fairchild, por que não está participando?
— Acho que a violência é repulsiva — Matthew falou com firmeza. — Estou aqui contra a minha vontade e eu me recuso a participar.
— Você gostaria que eu magicamente o dispa e o coloque no uniforme? — o Sr. Fell perguntou. — Na frente de todo mundo?
— Essa seria uma emoção para todos, tenho certeza — disse Matthew.
Ragnor Fell mexeu os dedos e as faíscas verdes voaram de seus dedos.
James ficou satisfeito ao ver Matthew, na verdade, dar um passo para trás.
— Pode ser muito emocionante para uma quarta-feira — Matthew apontou. — Devo vestir o meu uniforme agora?
— Faça — disse Ragnor.
Ele conjurara uma cadeira de praia e estava lendo um livro. James o invejava muito. Também admirava muito seu professor.
Ali estava alguém que podia controlar Matthew, afinal. Após toda a fala nobre de Matthew sobre a abstenção em prol da arte e da beleza, James estava ansioso para ver Matthew se fazer de um bobo absoluto na prática.
— Algum voluntário para ajudar Matthew a pegar tudo o que vocês aprenderam? — perguntou Ragnor. — Já que eu não tenho a menor ideia do que isso poderia ser.
Só então a equipe de Christopher bateu em uma árvore com o seu aríete. O acidente e o caos significavam que não houve pressa dos voluntários para passar o tempo com Matthew.
— Eu ficaria feliz em ensinar uma lição a Matthew — disse James.
Ele era muito bom com o bastão. Venceu Mike dez vezes em dez, e Esme nove em dez, e estava se segurando com eles. Era possível que também teria que se segurar com Matthew.
Só que Matthew saiu vestindo o uniforme e parecendo – uma mudança – como um Caçador de Sombras real. Mais como um Caçador de Sombras de verdade do que James parecia, verdade seja dita, já que James era... não tão pequeno como Thomas, mas não tão alto ainda, e sua mãe o havia descrito como magro. O que era uma maneira amável de dizer “nenhuma evidência real de músculos à vista”.
Várias meninas, de fato, viraram-se para olhar para Matthew em seu uniforme.
— O Sr. Herondale se ofereceu para ensiná-lo na luta de bastão — Ragnor Fell disse. — Se vocês pretendem matar um ao outro, vão mais longe no campo, onde eu não possa vê-los e não terei que responder perguntas difíceis.
— James — disse Matthew, na voz que todo mundo gostava tanto de ouvir e que atingia James com constante zombaria. — É tão gentil de sua parte. Penso que me lembro de alguns movimentos com a equipe de treinamento com a minha mãe e meu irmão. Por favor, seja paciente comigo. Eu posso estar um pouco enferrujado.
Matthew passeava pelo campo, o sol brilhando na grama verde e em seu cabelo dourado da mesma forma, e pesava o bastão em uma mão. Ele se virou para James, e James teve uma súbita impressão de olhos semicerrados: um olhar de intenção real e séria.
Então, o rosto de Matthew e as árvores estavam girando, quando o bastão de Matthew tirou as pernas de James debaixo dele e James caiu no chão. Ele ficou lá, atordoado.
— Você sabe — comentou Matthew, pensativo. — Posso não estar tão terrivelmente enferrujado depois de tudo.
James ficou de pé, recuperando o bastão e sua dignidade. Matthew se moveu em posição para lutar com ele, o bastão tão leve e facilmente equilibrado em sua mão como se ele fosse um maestro regendo com sua batuta.
Movia-se com uma graça fácil, como qualquer Caçador de Sombras faria, mas de alguma forma, como se estivesse brincando, como se a qualquer momento ele pudesse dançar.
James percebeu, para seu desgosto esmagador, que esta era outra coisa em que Matthew era bom.
— O melhor de três — ele sugeriu.
De repente, o bastão de Matthew era um borrão entre suas mãos. James não teve tempo para mudar de posição antes de um golpe brusco pousar no braço que segurava seu bastão, em seguida, no ombro esquerdo para que ele não pudesse se defender. James bloqueou o bastão quando ele veio em direção à sua barriga, mas acabou por ser uma finta.
Matthew o atingiu na altura dos joelhos novamente e James acabou deitado de costas na grama. Mais uma vez.
O rosto de Matthew entrou em seu campo de visão. Ele estava rindo, como de costume.
— Por que parar em três? — perguntou. — Eu posso ficar e vencê-lo o dia todo.
James enganchou seu bastão por trás dos tornozelos de Matthew e o derrubou. Ele sabia que era errado, mas no momento ele não se importou. Matthew pousou na grama com um surpreso “Uuf!” que James decobriu brevemente satisfatório.
Uma vez lá, ele parecia bastante feliz deitado na grama. James encontrou-se sendo observado por um olho castanho em meio à vegetação.
— Você sabe — Matthew disse lentamente — a maioria das pessoas gosta de mim.
— Bem... parabéns! — James retrucou, e ficou de pé.
Foi o momento errado para ficar de pé.
Deveria ter sido o último momento da vida de James. Talvez porque ele pensou que seria o último, este parecia se estender, dando a James tempo para ver tudo: como o aríete tinha voado através das mãos da equipe de Christopher na direção errada. Ele viu os rostos horrorizados de toda a equipe, mesmo Christopher prestava atenção pela primeira vez.
Ele viu a grande madeira navegando diretamente para ele, e ouviu Matthew gritar um aviso tarde demais. Ele viu Ragnor Fell saltar para cima, sua cadeira de praia voando e erguer a mão. O mundo se transformou em um borrão cinza, tudo ainda se movia mais lento do que James. Tudo deslizava e era insubstancial: o aríete veio para ele e através dele, incapaz de feri-lo; era como ser molhado com água. James levantou a mão e viu o ar cinzento cheio de estrelas.
Foi Ragnor Fell quem o salvou, James pensou que o mundo brilhava, um cinza estranho sobre preto. Aquilo era magia de um feiticeiro.
Ele não soube até mais tarde que a classe da Academia tinha observado tudo, esperando ver uma cena de carnificina e morte, e em vez disso viram um garoto de cabelo preto dissolver e mover-se em uma sombra projetada em nada, um entalhe no abismo por trás do mundo, escuro e inconfundível no sol da tarde. O que tinha sido uma morte inevitável, algo que os Caçadores de Sombras estavam acostumados, tornou-se algo estranho e mais terrível.
Ele não sabia até mais tarde como estava certo. Era magia de um feiticeiro.

* * *

Quando James acordou, já era noite, e tio Jem estava lá.
James ergueu-se da cama e se jogou nos braços de tio Jem. Ele tinha ouvido que algumas pessoas achavam os Irmãos do Silêncio assustadores, com a sua voz silenciosa e seus olhos costurados, mas para ele a visão de um Irmão do Silêncio sempre significava tio Jem, sempre significou um amor inabalável.
— Tio Jem! — ele disse ofegante, braços ao redor de seu pescoço, o rosto enterrado em seu manto, segurando-o por um momento. — O que aconteceu? Por que eu... eu me senti tão estranho, e agora você está aqui, e...
E a presença de um Irmão do Silêncio na Academia não significava nada de bom. Seu pai estava sempre inventando desculpas para o Tio Jem ir até eles – uma vez ele reclamara um vaso que estava possuído por um demônio. Mas esta era Idris, e um Irmão do Silêncio seria convocado para as crianças Caçadores de Sombras apenas em um momento de necessidade.
— Eu estou... ferido? — perguntou James. — Matthew está machucado? Ele estava comigo.
Ninguém está ferido, disse o Tio Jem. Graças ao Anjo. Só que agora há um pesado fardo para você suportar, Jamie.
E o conhecimento derramou para fora de tio Jem e para James, silencioso e frio como a abertura de uma sepultura, e ainda com o cuidado vigilante de tio Jem misturado com o frio. James tremeu para longe do Irmão do Silêncio e agarrou-se a Tio Jem, ao mesmo tempo, o rosto molhado de lágrimas, punhos agarrando suas vestes.
Esta era a herança de sua mãe, era o que vinha ao misturar o sangue de um Caçador de Sombras e o de demônio, e depois com um Caçador de Sombras novamente. Todos eles tinham pensado que porque a pele de James podia suportar Marcas que James era um Caçador de Sombras e nada mais, que o sangue do Anjo tinha queimado tudo.
Não tinha. Mesmo o sangue do Anjo não poderia queimar uma sombra. James podia fazer este truque mágico estranho, um truque que nenhum feiticeiro que tio Jem conhecia podia fazer. Ele podia se transformar em uma sombra. Ele podia se transformar em algo que não era carne ou sangue – certamente não o sangue do Anjo.
— O que... o que eu sou? — James perguntou ofegante, sua garganta dolorida com os soluços.
Você é James Herondale, dissetTio Jem. Como sempre foi. Parte de sua mãe, parte de seu pai, parte você mesmo. Eu não gostaria de mudar nada sobre você, mesmo que pudesse.
James mudaria. Ele teria queimado essa parte de si mesmo, puxando-a para fora, fazendo tudo o que podia para se livrar dela. Ele foi concebido para ser um Caçador de Sombras, sempre soube que fora, mas como qualquer Caçador de Sombras lutaria ao lado dele, com este horror revelado sobre ele?
— Eu estou... eles vão me expulsar da Academia? — ele sussurrou no ouvido do tio Jem.
Não, disse o Tio Jem. Um sentimento de tristeza e raiva tocou James e depois foi afastado. Mas James, acho que você deveria sair. Eles estão com medo de que você vá... contaminar a pureza de seus filhos. Desejam bani-lo para onde as crianças mundanas vivem. Eles aparentemente não se importam com o que acontece com os alunos mundanos, e se importam ainda menos com o que acontece com você. Vá para casa, James. Eu o levarei para casa agora, se você o desejar.
James queria ir para casa. Queria mais do que podia se lembrar de querer qualquer coisa, com uma dor que o fazia se sentir como se todos os ossos de seu corpo tivessem sido quebrados e não podiam ser colocados juntos de volta até que ele estivesse em casa. Ele era amado lá, seguro. Seria cercado imediatamente de afeto e calor.
Exceto...
— Como é que minha mãe se sentiria — James sussurrou — se ela souber que fui enviado para casa por causa... ela vai achar que é por causa dela.
Sua mãe, com seus graves olhos cinzentos e seu rosto de flor, tão tranquila quanto James e ainda tão boa com palavras quanto seu pai. James poderia ser uma mancha sobre o mundo, poderia ser algo que contaminaria os bons filhos Caçadores de Sombras. Ele estava pronto para acreditar nisso. Mas não a sua mãe. Sua mãe era adorável e carinhosa, era um sonho transformado em realidade e uma benção sobre a terra. James não podia suportar pensar como ela se sentiria se achasse que ele tinha se machucado de qualquer forma. Se ele conseguisse passar pela Academia, se pudesse fazê-la acreditar que não havia diferença real para ele, ele a pouparia da dor.
Ele queria ir para casa. Não queria encarar ninguém na Academia. Ele era um covarde.
Mas não era covarde o suficiente que fugir de seu próprio sofrimento e deixar sua mãe sofrer por ele.
Você não é nem um pouco covarde, disse o tio Jem. Lembro-me de um tempo, quando eu ainda era James Carstairs, quando sua mãe aprendeu – ou assim ela pensou, então, que não podia ter filhos. Ela ficou tão magoada com isso. Pensou que era tão errada, a partir de tudo o que tinha pensado que era. E eu lhe disse que o homem certo não se importaria, e, claro, o seu pai, o melhor dos homens, o único apto para ela, não se importava. Eu não falei a ela... Eu era um menino e não sabia como falar da coragem em suportar a incerteza sobre si mesma. Ela duvidava, mas eu nunca poderia duvidar dela. Eu nunca poderia duvidar de você agora. Vejo a mesma coragem em você, como vi nela.
James chorou, esfregando o rosto contra as vestes de tio Jem como se ele fosse menor que Lucie. Sabia que sua mãe era valente, mas certamente coragem não era assim; ele pensou que seria algo bom, não a sensação de que poderia rasgá-lo em pedaços.
Se você visse a humanidade como eu vejo, disse o tio Jem, um sorriso em sua mente, uma tábua de salvação. Há muito pouco de brilho e calor em todo o mundo para mim. Estou muito distante de todos vocês. Existem apenas quatro pontos de calor e brilho no mundo todo que queimam ferozmente o suficiente para eu sentir algo parecido com a pessoa que eu era. Sua mãe, seu pai, Lucie e você. Você ama, e tremeluz, e queima. Não deixe que qualquer um deles diga quem você é. Você é a chama que ninguém pode apagar. É a estrela que não pode ser perdida. Você é quem sempre foi, e isso é o suficiente e mais do que suficiente. Qualquer um que olhá-lo e ver escuridão é cego.
— Mais cego do que um Irmão do Silêncio? — perguntou James, e soluçou.
Tio Jem tinha sido transformado em um Irmão do Silêncio quando muito jovem, e estranhamente, ele carregava runas em seu rosto, mas seus olhos, embora sombreados, não foram costurados. Ainda assim, James nunca tinha certeza do que via.
Houve uma risada na mente de James, e ele não tinha rido, por isso deveria ter sido o tio Jem. James se agarrou a ele por mais um instante e disse a si mesmo que não poderia pedir para tio Jem levá-lo para casa depois de tudo, ou para a Cidade do Silêncio, ou outro qualquer lugar, desde que o Tio Jem não o deixasse nessa Academia cheia de estranhos que nunca gostaram dele e que iriam odiá-lo agora.
Eles teriam que ser ainda mais cegos do que um Irmão do Silêncio, tio Jem concordou. Porque eu posso vê-lo, James. Eu sempre vou buscá-lo para encontrar a luz.

* * *

Se James soubesse como seria a vida na Academia a partir de então, teria pedido para tio Jem levá-lo para casa.
Ele não esperava que Mike Smith saltasse em horror absoluto quando James se aproximou de sua mesa.
— Venha sentar com a gente — Clive Cartwright chamou, um dos amigos de Alastair Carstairs. — Você pode ser um mundano, mas pelo menos não é um monstro.
Mike fugira com gratidão. James vira Esme estremecer uma vez quando passou por ela no corredor. Ele não forçou a sua presença sobre ela outra vez.
Não teria sido tão ruim, James acreditava, se tivesse sido em qualquer lugar, menos na Academia. Estes eram salões sagrados: era o lugar onde as crianças eram moldadas para Ascender ou crescer aprendendo a servir o Anjo.
E esta era uma escola, e assim era como as escolas funcionavam. James tinha lido livros sobre escolas antes, lido sobre alguém que tinha sido enviado para Coventry, então ninguém falava com eles. Sabia como o ódio poderia funcionar como um incêndio através de um grupo, e isso era apenas entre os mundanos enfrentando estranhezas mundanas.
James era mais estranho do que qualquer mundano poderia sonhar, mais estranho do que qualquer Caçador de Sombras teria acreditado ser possível.
Ele se mudou para fora do quarto de Matthew, e para a escuridão abaixo. Recebeu seu próprio quarto, porque mesmo os mundanos estavam com muito medo de dormir no mesmo quarto que ele.
Mesmo a reitora Ashdown parecia ter medo dele.
Todo mundo estava.
Eles agiam como se quisessem passar reto ao vê-lo, mas sabiam que ele era pior que um vampiro e que não seria nada bom. Estremeciam quando seus olhos pousavam sobre eles, como se seus olhos amarelos demoníacos queimaria um buraco através de suas almas.
Olhos do demônio. James ouviu sussurros uma e outra vez. Ele nunca tinha pensado que sentiria falta de ser chamado de Cara-de-Cabra.
Nunca falava com ninguém, sentando-se na parte de trás da classe, comendo o mais rápido que podia, e depois fugia para que as pessoas não tivessem que olhar para ele enquanto faziam suas refeições. Ele se arrastava em torno da Academia como uma sombra odiada e repugnante.
Tio Jem tinha se transformado em um Irmão do Silêncio porque teria morrido de outra forma.
Tio Jem tinha um lugar no mundo, amigos e uma casa, e o horror era que ele não podia estar no lugar aonde ele pertencia. Às vezes, após suas visitas, James encontrava sua mãe de pé na janela olhando para rua onde tio Jem tinha desaparecido há muito tempo, e descobria seu pai na sala de música olhando para o violino, que ninguém além de tio Jem era permitido tocar.
Essa era a tragédia da vida do tio Jem; a tragédia da vida de seus pais.
Mas como seria se não houvesse nenhum lugar no mundo em que você pertencia? Se você não pudesse encontrar ninguém para amá-lo? E se você não pudesse ser um Caçador de Sombras ou um feiticeiro ou qualquer outra coisa?
Talvez então você estaria pior do que numa tragédia. Talvez você não fosse nada.
James não estava dormindo muito bem. Ele continuava deslizando no sono e, seguida, acordava assustado, preocupado que estivesse entrando em outro mundo, um mundo de sombras, onde ele era nada além de uma sombra ruim entre os tons. Ele não sabia como tinha feito aquilo antes. Estava apavorado que aconteceria de novo. Talvez todo mundo esperasse que sim, no entanto. Talvez todos eles rezassem para que ele se tornasse uma sombra e simplesmente se fosse.

* * *

James acordou uma manhã e não podia suportar a escuridão e a sensação de que tinha uma pedra acima de sua cabeça, pressionando para baixo ao redor dele. Ele cambaleou até as escadas e saiu para o jardim.
Esperava que ainda fosse noite, mas o céu estava iluminado pela manhã, as estrelas quase invisíveis contra o quase branco do céu. A única cor a ser encontrada no céu era o cinza escuro das nuvens, enrolando como fantasmas ao redor da lua desaparecendo.
Chovia um pouco, alfinetadas de frio contra a pele de James. Ele sentou-se no degrau de pedra da porta dos fundos da Academia, levantou a palma para o céu e viu o traço da chuva prateada cair na palma de sua mão.
Desejou que a chuva o lavasse para longe, antes que ele tivesse que enfrentar mais uma manhã. Estava observando a mão, e enquanto desejava isso, viu o que aconteceu em seguida. Sentiu a mudança rastejando sobre ele e viu sua mão começar a ficar escura e transparente. Ele viu as gotas da chuva passarem pela sombra de sua mão como se ela não estivesse lá.
Ele se perguntou o que Grace pensaria, se pudesse vê-lo agora.
Então ouviu o ruído de pés correndo, batendo contra a terra, e o treinamento com seu pai fez a cabeça de James se erguer para ver se alguém estava sendo perseguido, se alguém estava em perigo.
James viu Matthew Fairchild correndo como se estivesse sendo perseguido.
Surpreendentemente, ele usava um uniforme e ele não estava, na medida em que James sabia, sendo ameaçado. Ainda mais surpreendente, ele estava participando do degradante exercício físico. Corria mais rápido do James tinha visto alguém correr em treinamento – talvez mais rápido do que James já tinha visto alguém correr – e corria sombriamente na chuva.
James o assistiu correr, franzindo a testa, até que Matthew olhou para o céu, parou, e então começou a marchar de volta para a Academia.
James pensou que ele seria descoberto por um momento, pensou em saltar para cima e correr em volta para o outro lado do prédio, mas Matthew não foi para a porta.
Em vez disso Matthew se encostou na parede de pedra da Academia, estranho e solene em seu uniforme preto, o cabelo loiro e selvagem com o vento e molhado pela chuva. Ele inclinou o rosto para o céu, e parecia tão infeliz como James se sentia.
Não fazia sentido. Matthew tinha tudo, sempre teve tudo, enquanto James agora tinha menos do que nada. Ele fez James furioso.
— O que há de errado com você? — James perguntou.
Todo o corpo de Matthew estremeceu com o choque. Ele girou para enfrentar James, e o olhou.
— O quê?
— Você deve ter notado que a vida é inferior ao ideal para mim neste momento — disse James entre os dentes. — Então desista de fazer um espetáculo trágico de si mesmo por nada, e...
Matthew não estava encostado na parede por mais tempo, e James estava de pé, e isso não era uma prática sobre os campos de treinamento. James pensou que eles iam lutar realmente; pensou que eles poderiam realmente machucar um ao outros.
— Oh, sinto muito, James Herondale — Matthew zombou. — Esqueci que ninguém poderia fazer algo como falar ou respirar neste lugar sem incorrer ao seu julgamento extremamente crítico. Devo estar fazendo um espetáculo sobre nada, se você diz. Pelo Anjo, eu trocaria de lugar com você em um segundo.
— Você trocaria de lugar comigo? — James gritou. — Isso é um lixo, é uma mentira absoluta, você nunca faria isso. Por que faria isso? Por que até mesmo diria isso?
— Talvez seja o fato de que você tem tudo o que eu quero — Matthew rosnou. — E você não parece nem querer isso.
O quê? — perguntou James inexpressivamente. Ele estava vivendo em uma terra invertida, em que o céu era a terra e os dias da semana começavam com A. Era a única explicação. — O quê? O que eu tenho que você poderia querer?
— Eles vão te enviar para casa a hora que você quiser — disse Matthew. — Estão tentando levá-lo embora.  E não importa o que eu faça, eles não vão me expulsar. Não o filho da Consulesa.
James piscou. Chuva deslizava pelo seu rosto e pescoço, para sua camisa, mas ele mal sentia.
— Você quer... ser expulso?
— Eu quero ir para casa, tudo bem? — Matthew estalou. — Eu quero ficar com meu pai!
— O quê? — perguntou James sem expressão, mais uma vez.
Matthew podia insultar os Nephilim, mas não importava que ele dissesse que sempre parecia estar tendo um tempo maravilhoso. James acreditara que ele estava se divertindo na Academia, do modo que o próprio James não podia. James nunca pensara que poderia realmente estar infeliz.
Ele nunca tinha considerado o tio Henry.
O rosto de Matthew retorceu como se ele fosse chorar. Ele olhou fixamente e com determinação para a distância, e quando falou, sua voz era dura.
— Se você pensa que Christopher está mal, mas meu pai é muito pior — disse Matthew. — Cem vezes tão ruim quanto Christopher. Mil. Ele tem praticado ser terrível por muito mais tempo do que o de Christopher. Ele é tão distraído. E ele não pode – ele não pode andar. Poderia estar trabalhando em algum dispositivo novo, ou escrevendo uma carta a seu amigo feiticeiro na América sobre um novo dispositivo, ou trabalhando fora em algum dispositivo velho que literalmente explodiu, e ele não notaria se seu próprio cabelo estivesse em chamas. Não estou exagerando, não estou fazendo piadas – eu apaguei incêndios na cabeça de meu pai. Minha mãe está sempre ocupada, e Charles Buford está sempre correndo atrás dela e agindo como um superior. Eu sou a pessoa que cuida do meu pai. Sou aquele que o escuta. Eu não queria vir para a escola e deixá-lo, e tenho feito tudo o que posso para ser expulso e voltar.
Eu não cuido do meu pai. Meu pai cuida de mim, James queria dizer, mas temia que pudesse ser cruel dizê-lo, Matthew nunca tivera sua segurança questionada.
Ocorreu a James que um dia poderia haver um momento em que seu pai não pareceria ser onisciente, capaz de resolver tudo e qualquer coisa. O pensamento o deixou desconfortável.
— Você tem tentado ser expulso? — perguntou James. Ele falou lentamente. Ele sentiu lentamente.
Mattew fez um gesto impaciente, como se cortasse cenouras invisíveis com uma faca invisível.
— Isso é o que eu venho tentado te dizer, sim. Mas eles não vão. Tenho feito a melhor das piores impressões de um Caçador de Sombras no mundo, e ainda assim eles não vão. O que há de errado com a reitora, eu lhe pergunto? Será que ela quer sangue?
— A melhor das piores impressões de um Caçador de Sombras — James repetiu. — Então você não... acredita em todas essas coisas sobre a violência ser repulsiva, e a verdade e beleza e Oscar Wilde?
— Não, eu acredito — disse Matthew apressadamente. — Eu realmente gosto de Oscar Wilde. E a beleza e verdade. Acho que é absurdo que porque nascemos o que somos, não podemos ser pintores ou poetas ou criar qualquer coisa – tudo o que fazemos é matar. Meu pai e Christopher são gênios, você sabe? Gênios reais. Como Leonardo da Vinci. Ele era um mundano que...
— Eu sei quem Leonardo da Vinci é.
Matthew olhou para ele e sorriu: era um sorriso gradual e esclarecedor como o nascer do sol, e James teve a sensação de que ele poderia não ser imune depois de tudo.
— Claro que você sabe, James — concordou Matthew. — Esqueci de com quem eu estava falando por um momento. De qualquer forma, Christopher e meu pai são verdadeiramente brilhantes. Suas invenções já mudaram a forma como os Caçadores de Sombras navegam pelo mundo, a maneira como eles combatem os demônios. E todos os Caçadores de Sombras em todos os lugares sempre olham para eles de cima. Eles nunca verão o que eles fazem de tão valioso. E alguém que queira escrever peças de teatro, fazer arte bonita, eles atirariam como lixo nas ruas.
— Você... quer isso? — perguntou James, hesitante.
— Não. Eu não posso desenhar, na verdade. Certamente não consigo escrever peças. Quanto menos se falar a minha poesia, melhor. Aprecio a arte, no entanto. Sou um excelente espectador. Eu poderia assistir para a Inglaterra.
— Você poderia, hum, ser ator — James sugeriu. — Quando você fala, todo mundo escuta. Especialmente quando você conta histórias.
Também havia o rosto de Matthew, que provavelmente... iria mais além no palco ou algo assim.
— Esse é um pensamento agradável— disse Matthew. — Mas acho que preferiria não ser expulso da minha casa e ainda ver o meu pai ocasionalmente. Além disso, acho que a violência é terrível e sem sentido, mas sou realmente bom no que faço. Na verdade, eu gosto. Não que eu vá deixar nossos professores saberem disso. Eu desejava ser bom em algo que poderia acrescentar beleza para o mundo em vez de pintá-lo com sangue, eu realmente queria, mas aí está.
Ele deu de ombros.
James não achou que eles lutariam depois de tudo, então se sentou no degrau. Ele sentiu que queria se sentar.
— Eu acho que os Caçadores de Sombras podem acrescentar beleza para o mundo. Quero dizer, por uma coisa – nós salvamos vidas. Sei que eu disse isso antes, mas é realmente importante. As pessoas que nós salvamos, qualquer uma delas pode ser o próximo Leonardo da Vinci, ou Oscar Wilde, ou apenas alguém que realmente espalha beleza dessa forma. Ou eles podem ser apenas alguém – alguém que ama, como você ama seu pai. Talvez você esteja certo que os Caçadores de Sombras sejam mais limitados, que não têm toda a gama de possibilidades que os mundanos, mas nós abrimos a possibilidade para que os mundanos vivam. É para isso que nós nascemos. É um privilégio. Eu não vou fugir da Academia. Não estou fugindo de nada. Posso suportar as Marcas, e isso me torna um Caçador de Sombras, e é isso o que eu serei, os Nephilim me querendo ou não.
— Você pode ser um Caçador de Sombras sem ir para a Academia, embora — apontou Matthew. — Você pode ser treinado em um Instituto, como o tio Will foi. Isso é o que eu queria, assim eu poderia ficar com meu pai.
— Eu poderia. Mas... — James hesitou. — Eu não queria ser mandado para casa. Minha mãe saberia o motivo.
Matthew ficou em silêncio por um tempo. Não havia nada além do som da chuva caindo.
— Eu gosto da tia Tessa. Nunca fui para Londres porque eu me preocupava em deixar o meu pai. Eu sempre desejei que ela pudesse vir para Idris mais vezes.
James tinha recebido vários choques esta manhã que realmente não eram tão ruins, mas essa revelação era indesejável e inevitável. Claro que a mãe e o pai quase nunca iam para Idris. Claro que James e Lucie tinham sido criados em Londres, um pouco longe de suas famílias.
Porque havia pessoas em Idris, havia Caçadores de Sombras que pensavam que a mãe não era digna de caminhar entre eles, e pai nunca teria deixado ela ser insultada.
Agora seria pior, agora as pessoas sussurravam que ela tinha passado a mancha para seus filhos. As pessoas diziam coisas horríveis sobre Lucie, James sabia – sobre seus rabiscos, rindo de irmãzinhas. Lucie poderia nunca ser autorizada a entrar para a Academia.
Matthew pigarreou.
— Suponho que eu possa entender tudo isso. Talvez eu pare de ser tão ciumento em relação a você ser capaz de sair da Academia. Talvez eu possa compreender que seus objetivos sejam nobres. No entanto, eu ainda não entendo por que você deve tornar tão claro que detesta me ver. Eu sei, eu sei, você é distante e deseja ficar sozinho com a literatura o tempo todo, mas é particularmente horrível comigo. É muito sombrio. A maioria das pessoas gosta de mim. Eu te falei isso. Eu nem sequer tenho que tentar.
— Sim, você é muito bom em ser um Caçador de Sombras e todo mundo gosta de você, Matthew — concordou James. — Obrigado por esclarecer isso.
— Você não gosta de mim! — exclamou Matthew. — Eu tentei com você! E você ainda não gosta.
— A coisa é, eu tendo a gostar de pessoas muito modestas, talvez. Humildes, você sabe.
Matthew fez uma pausa, considerou James por um momento, e então começou a rir. James ficou surpreendido por quão gratificante que foi. Isso o fez sentir como se ele pudesse soltar a verdade humilhante.
Ele fechou os olhos e disse:
— Eu estava com ciúmes de você.
Quando ele abriu os olhos, Matthew o olhava desconfiado, como se esperasse um truque.
— De quê?
— Bem, você não é considerado uma abominação profana sobre esta terra.
— Sim, mas, sem ofensa, James, mas você é — Matthew apontou. — Você é a nossa característica única na escola, como uma escultura de uma galinha guerreira. Se tivéssemos uma dessas. Você não gostava de mim antes que alguém soubesse que você era uma abominação profana, de qualquer maneira. Bem, suponho que esteja simplesmente tentando poupar meus sentimentos. Digno de você. Compreendo...
— Eu não sou indiferente — disse James. — Não sei de onde você tirou essa ideia.
— De toda a indiferença, eu acho — Matthew especulou.
— Eu sou um CDF. Li livros o tempo todo e não sei como falar com as pessoas. Se eu fosse alguém que vivia nos tempos antigos, as pessoas me chamariam de intelectual. Eu gostaria de poder falar como você. Poder sorrir para as pessoas e fazê-las gostar de mim. Eu gostaria de poder contar uma história e ter todo mundo ouvindo, e ter pessoas seguindo-me onde quer que eu fosse. Bem, não, eu não gostaria disso porque sou um pouco aterrorizado com as pessoas, mas seria legal poder fazer tudo o que você faz, do mesmo modo. Eu queria ser amigo de Thomas e Christopher, porque eu gostava deles e pensei que eles fossem... parecidos comigo, que eles poderiam gostar de mim. Você estava com ciúmes que eu poderia ser chutado para fora da escola? Eu tive ciúmes de você em primeiro lugar. Tinha ciúmes de tudo sobre você, e ainda tenho.
— Espere — disse Matthew. — Pare, pare, pare. Você não gosta de mim porque eu sou encantador demais?
Ele jogou a cabeça para trás e riu. E continuou rindo. Riu tanto que teve que vir e se sentar ao lado de James no degrau, e então riu um pouco mais.
— Pare com isso, Matthew — James resmungou. — Pare de rir. Estou compartilhando meus mais íntimos sentimentos com você. Isso é muito doloroso.
— Eu tenho estado de mau humor o tempo todo. Você acha que eu sou charmoso agora? Você não faz ideia.
James deu um soco em seu braço. Ele não pôde deixar de sorrir. Percebeu que Mathew viu, e ele pareceu muito satisfeito consigo mesmo.

* * *

Algum tempo depois, Matthew conduziu James firmemente para o café da manhã, para sua mesa, que James notou ser formada por apenas Christopher e Thomas – uma mesa bastante seleta, depois de tudo.
Christopher e Thomas – outra surpresa para James em uma manhã cheia de surpresas – pareciam contentes em vê-lo.
— Oh, você decidiu não detestar Matthew por mais tempo? — perguntou Christopher. — Fico feliz. Estava realmente ferindo os sentimentos dele, embora não devêssemos falar sobre isso com você — ele olhou com um ar sonhador para o cesto de pão, como se fosse uma pintura maravilhosa. — Eu tinha esquecido.
Thomas abaixou a cabeça até a mesa.
— Por que você é desse jeito?
Matthew estendeu a mão e deu um tapinha nas costas de Thomas, então salvou Christopher de colocar as próprias mangas no fogo com uma vela. Ele lançou a James um sorriso.
— Se você vir Christopher perto do fogo, leve-o para longe, ou tire as chamas de perto dele — observou Matthew. — lute o bom combate comigo. Devo estar eternamente vigilante.
— Isso deve ser difícil quando cercado pelo seu, hum, público adorador — James comentou.
— Bem — disse Matthew e fez uma pausa — é possível — falou, e parou de novo — eu posso ter estado... me mostrando? “Olhe, se você não quer ser meu amigo, todo mundo é, e você está cometendo um grande erro.” Eu posso ter feito isso. Possivelmente.
— Isso é tudo? — perguntou Thomas. — Graças ao Anjo. Você sabe que grandes multidões me deixam nervoso! Sabe que eu nunca consigo pensar em algo para dizer! Não sou espirituoso como você, indiferente e acima de todos como James ou vivo no mundo da lua como Christopher. Vim para a Academia para não receber mais ordens das minhas irmãs, mas elas pelo menos me deixavam menos nervoso do que aríetes voando pelo ar e encontros o tempo todo. Podemos, por favor, ter um pouco de paz e tranquilidade ocasionalmente!
James olhou para Thomas.
— Será que todo mundo acha que sou indiferente?
— Não, as pessoas pensam principalmente que você é uma abominação profana sobre esta terra — Matthew falou alegremente. — Lembra-se?
Thomas parecia pronto para baixar a cabeça de volta na mesa, mas ele se animou quando viu que James não tinha tomado aquilo como ofensa.
— Por que pensariam isso? — perguntou Christopher educadamente.
James o olhou.
— Porque eu posso me transformar de carne e sangue em uma sombra medonha?
— Oh — disse Christopher. Seus olhos sonhadores de lavanda focaram por um momento. — Isso é muito interessante — ele falou para James, sua voz clara. — Você deveria deixar eu e tio Henry realizarmos experimentos em você. Nós poderíamos fazer uma experiência agora.
— Não, nós não poderíamos — Matthew negou. — Nada de experimentos no café. Adicione-o à lista, Christopher.
Christopher suspirou.
E assim, como se sempre pudesse ter sido tão fácil, James tinha amigos. Ele gostava de Thomas e Christopher tanto quanto sempre soube que gostaria.
De todos os seus novos amigos, porém, ele gostava mais de Matthew. Matthew sempre queria conversar sobre os livros que James tinha lido, ou contar a James uma história tão bem quanto num livro. Ele fazia esforços evidentes para encontrar James quando este não estava lá, e esforços óbvios para protegê-lo quando ele estava. James não tinha muitas coisas boas para escrever em cartas: acabou escrevendo bastante de Matthew.
James sabia que Matthew provavelmente só sentia pena dele. Matthew estava sempre cuidando de Christopher e Thomas com o mesmo cuidado meticuloso que deveria reservar para o pai. Matthew era gentil. Estava tudo bem. James absolutamente queria dividir um quarto com Matthew, agora que estava fora de questão.
— Por que as pessoas chamam você de Olhos do Demônio, James? — Christopher perguntou um dia quando eles estavam sentados em torno de uma mesa estudando o relato de Ragnor Fell dos Primeiros Acordos.
— Porque eu tenho olhos dourados como se iluminados por fogos sobrenaturais e infernais — James explicou. Ele tinha ouvido uma menina sussurrar que pensava ser bastante poético.
— Ah. Você se parece em mais alguma coisa com seu avô? O demônio, quero dizer.
— Você não pode simplesmente perguntar se as pessoas se parecem com o seu avô demônio! — Thomas lamentou. — Daqui a pouco você vai querer saber se o professor Fell se parece com seu pai demônio! Por favor, por favor, não pergunte ao professor Fell se ele se parece com seu pai. Ele tem um cortador de língua. Além disso, ele poderia cortá-lo com uma faca.
— Fell? — Christopher perguntou.
— Nosso professor — Matthew explicou. — Nosso professor verde.
Christopher pareceu genuinamente surpreso.
— Nós temos um professor que é verde?
— James se parece com seu pai — Matthew falou inesperadamente, então estreitou seus risonhos olhos escuros na direção de James em um devaneio. — Ou ele parecerá, quando crescer e seu rosto parar de ter ângulos que apontam em diferentes direções.
James lentamente ergueu o livro aberto para esconder seu rosto, mas estava secretamente satisfeito. A amizade de Matthew fez outros se aproximarem, também. Esme encurralou James e lhe disse que lamentava que Mike estivesse sendo um idiota. Ela também falou que esperava que James não levasse essa expressão de amigável preocupação de uma forma romântica.
— Eu tenho uma ternura por Matthew Fairchild, na verdade — Esme acrescentou. — Por favor, fale bem de mim por lá.
A vida era muito, muito melhor agora, mas isso não queria dizer que tudo estava perfeito, ou mesmo remendado. As pessoas ainda tinham medo dele, ainda assobiavam "Olhos do demônio” e murmuravam sobre sombras imundas.
Pulvis et umbra sumus — recitou James uma vez, em voz alta na classe, depois de ouvir muitos sussurros. — Meu pai diz isso às vezes. “Somos pó e sombras”. Talvez eu apenas tenha uma vantagem sobre todos vocês.
Várias pessoas na sala de aula pareciam alarmadas.
— O que ele disse? — Mike Smith sussurrou, claramente agitado.
— Não é uma língua demoníaca, palhaço — Matthew falou. — É latim.
Apesar de tudo o que Matthew tentou, os sussurros continuavam. James continuava esperando o desastre.
E, em seguida, os demônios foram soltos na floresta.

* * *

— Eu serei o parceiro de Christopher — disse Thomas no exercício seguinte de treinamento, soando resignado.
— Excelente, eu serei parceiro de James — Matthew respondeu. — Ele me lembra da nobreza da vida dos Caçadores de Sombras. Me mantém no caminho. Se eu me afastar dele, ficarei distraído pela verdade e beleza. Sei que sim.
Seus professores pareciam extremamente satisfeitos que Matthew estava realmente participando dos exercícios físicos agora, além das aulas só para a elite, em que Thomas relatou que Matthew ainda estava determinado a ser desesperador.
James não sabia porque os professores estavam tão preocupados. Era óbvio que se alguém estivesse em perigo, Matthew pularia em sua defesa. James estava feliz por ter tanta certeza disso enquanto eles caminhavam pela mata. Era um dia de vento, e parecia que cada árvore uivava baixinho em seu ouvido, e ele sabia que caixas Pyxis tinham sido colocadas em toda a floresta por alunos mais velhos – Pyxis com os menores e mais inofensivos demônios, mas ainda eram Pyxis de verdade com demônios de verdade dentro, com quem eles deveriam lutar. Pyxis estavam um pouco fora de moda nos dias de hoje, mas ainda eram por vezes usadas para transportar demônios com segurança –se demônios pudessem ser seguros de alguma forma.
A tia de James, Ella, que ele nunca conhecera, fora morta por um demônio que estava numa Pyxis, quando ela era mais jovem do que James era agora.
Todas as árvores pareciam cochichar sobre demônios. Mas Matthew estava ao seu lado e ambos estavam armados. Ele podia confiar em si para matar um pequeno demônio, quase impotente, e se podia confiar em si mesmo, podia confiar mais em Matthew.
Eles esperaram e caminharam, então esperaram. Houve um farfalhar entre as árvores. Acabou por ser uma combinação de vento e um coelho.
— Talvez os anos superiores esqueceram de colocar a nossa caixa-demônio-surpresa para fora — Matthew sugeriu. — É um belo dia de primavera. Em tempos como esse, os pensamentos estão cheios de amor e flores, não demônios. Quem sou eu para julgar... — Matthew ficou abruptamente quieto. Ele agarrou o braço de James, os dedos apertados, e James olhou para o que Matthew tinha descoberto na urze.
Era Clive Cartwright, amigo de Alastair. Ele estava morto.
Seus olhos estavam abertos, olhando para o nada, e em uma das mãos ele segurava uma Pyxis vazia.
James agarrou o braço de Matthew e se virou em um círculo, olhando ao redor, esperando. Ele podia dizer o que tinha acontecido: vamos dar um susto no Olhos do Demônio, um monstro não vai machucar sua própria espécie, vamos expulsá-lo de uma vez por todas com um demônio maior do que ele esperava.
Ele não podia dizer que tipo de demônio era, mas essa pergunta foi respondida quando o demônio veio na direção deles através dos bosques selvagens.
Era um demônio Vetis, a sua forma quase humana, mas não completamente, arrastando seu corpo escamoso cinza através das folhas caídas. James viu seus braços como enguias, enquanto suas cabeças de cães apontavam, caçando.
James mudou sua pele para sombra sem um pensamento, como mergulhar na água para resgatar alguém, tão fácil como isso. Ele passou despercebido ao demônio Vetis e, erguendo a espada, arrancou uma cabeça de seu braço. Ele virou-se para enfrentar a cabeça no outro braço. Ele ia chamar Matthew, mas quando olhou para trás, viu Matthew claramente, apesar do cinza espumante no mundo. Matthew já tinha seu arco preparado e erguido. Ele podia ver os olhos apertados de Matthew, o foco determinado que estava sempre por trás do riso, e manteve-se imóvel enquanto a flecha era disparada.
Matthew acertou o olho vermelho do demônio Vetis que ficava na cabeça de dentes afiados sobre o pescoço no momento em que James cortou a outra cabeça do braço restante. O demônio deu uma guinada, em seguida, caiu de lado, se contraindo. E James correu por entre as árvores, através do vento e dos sussurros, sem medo de nada, com Matthew correndo atrás dele. Ele encontrou Alastair e seu amigo restante se escondendo atrás de uma árvore. Ele se arrastou até eles, uma sombra entre as sombras rodopiantes de árvores atiradas pelo vento, e segurou sua espada na garganta de Alastair.
Enquanto James tocava a espada, ninguém podia vê-la. Mas Alastair sentiu a lâmina afiada e suspirou.
— Nós não queríamos que nada disso acontecesse! — gritou o amigo de Alastair, olhando em volta descontroladamente. Alastair era sábio o suficiente para ficar quieto. — Foi ideia de Clive – ele disse que o faria finalmente ir embora... ele só queria assustá-lo.
— Quem está com medo? — James sussurrou, e o sussurro veio do nada. Ele viu os meninos mais velhos suspirarem de medo. — Não sou eu. Se vocês vierem atrás de mim novamente, eu não vou ser aquele que sofre. Corram!
Os dois – que tinham sido três uma vez – tropeçaram correndo. James apertou a mão em torno do punho da espada, apoiou-se contra a árvore e desejou voltar para um mundo de solidez e sol. Matthew soubera o tempo todo exatamente onde ele estava.
— Jamie — disse Matthew, parecendo instável mas impressionado. — Foi terrível.
— É James, pela última vez.
— Não, eu estou te chamando de Jamie por um tempo, porque você simplesmente exibiu um poder arcano e chamá-lo de Jamie me faz sentir melhor.
James riu, trêmulo, e isso fez com que Matthew sorrisse. Não ocorreu a ele, mesmo depois que um estudante foi morto, que os Caçadores de Sombra temiam e desconfiavam do demoníaco – que alguém seria responsabilizado. James não descobriu até o dia seguinte que seus pais haviam sido informados de tudo o que havia acontecido, e que ele, James Herondale, estava agora oficialmente expulso.

* * *

Eles o mantiveram na enfermaria até que seu pai chegou. Eles não disseram que foi porque a enfermaria tinha grades nas portas. Esme veio e deu um abraço em James, e prometeu procurá-lo quando Ascendesse.
Ragnor Fell entrou, seus passos pesados, e por um momento James pensou que ele perguntaria sobre sua tarefa de casa. Em vez disso, Ragnor se aproximou de sua cama e balançou a cabeça chifruda lentamente.
— Esperei que você me pedisse ajuda — Ragnor disse a ele. — Pensei que talvez você pudesse se tornar um feiticeiro.
— Eu nunca quis ser nada além de um Caçador de Sombras — James respondeu, impotente.
Ragnor falou, soando desgostoso, como de costume:
— Vocês Caçadores de Sombra nunca querem.
Christopher e Thomas o visitaram. Christopher trouxe uma cesta de frutas, sob a equivocada impressão de que James estava na enfermaria porque estava doente. Thomas se desculpou por Christopher várias vezes. James não viu Matthew, no entanto, até que seu pai chegou. Ele viera em uma missão para encantar a reitora. Seu rosto estava sombrio enquanto escoltava James entre as paredes cinza brilhantes da Academia, sob as cores flamejantes do anjo no vitral, pela última vez. Ele passou por escadas e atravessou corredores como se desafiando alguém a insultar James.
James sabia que ninguém o faria, não na frente de seu pai. Eles iriam sussurrar pelas costas, sussurrando no ouvido de James, toda a sua longa vida.
— Você deveria ter nos contado, Jamie. Mas Jem nos explicou por que você não contou.
— Como está mamãe? — James sussurrou.
— Ela chorou quando Jem contou a ela, e disse que você era o doce menininho dela — disse o pai. — Acredito que ela esteja planejando estrangulá-lo, em seguida, assar um bolo.
— Eu gosto de bolo — disse James finalmente.
Todo aquele sofrimento, tudo o que ele nobremente tentava poupá-la, e para quê?, James pensou, quando saiu pela porta da Academia. Ele a salvou apenas de um mês ou dois de dor. Esperava que isso não quisesse dizer que ele era um fracasso: esperava que tio Jem ainda achasse que ele valia a pena.
Ele viu Matthew de pé no pátio, com as mãos nos bolsos, e se animou. Matthew iera se despedir, depois de tudo. Ele sentia que valeu a pena ter ficado, afinal, fizera um amigo assim.
— Você foi expulso? — perguntou Matthew, e James achou uma pergunta  um pouco obtusa.
— Sim? — ele falou, indicando seu pai e sua mala.
— Imaginei que sim — Matthew concordou, balançando a cabeça vigorosamente de modo que seu cabelo bem penteado caísse para todos os lados. — Então eu tive que agir. Mas eu queria fazer absolutamente certo. Você vê, James, a coisa é...
— Não é Alastair Carstair? — perguntou o pai, animando-se.
Alastair não encontrou os olhos de James quando se esgueirou em sua direção. Ele definitivamente não respondeu ao sorriso radiante do pai. Parecia muito interessado nas lajes do pátio.
— Eu só queria... me desculpe por tudo — ele murmurou. — Boa sorte.
— Oh — disse James. — Obrigado.
— Sem ressentimentos — concordou Matthew. — Como uma brincadeirinha divertida, coloquei todos os seus pertences na ala sul. Eu não sei por que eu fiz isso! Espírito de menino, suponho.
— Você fez o quê? — Alastair enviou a Matthew um olhar atormentado, e partiu rapidamente.
Matthew se virou para o pai de James e apertou sua mão de forma dramática.
— Oh, Sr. Herondale! Por favor, me leve com você!
— É Matthew, não é? — perguntou o Pai.
Ele tentou soltar a mão. Matthew agarrou-se a ela com extrema determinação.
James sorriu. Ele poderia ter lhe falado sobre a determinação de Matthew.
— Veja — Matthew prosseguiu — eu também fui expulso da Academia dos Caçadores de Sombras.
— Você foi expulso? — ecoou James. — Quando? Por quê?
— Em cerca de quatro minutos — disse Matthew. — Porque eu quebrei minha palavra solene, e explodi a ala sul da Academia.
James e seu pai olharam para a ala sul. Ela estava de pé, parecendo que permaneceria assim durante mais um século.
— Eu esperava que não fosse chegar isso, mas chegou. Dei a Christopher certos materiais que eu sabia que poderiam se transformar em explosivos. Eu os medi com muito cuidado, tive a certeza de que eles agiriam lentamente, e fiz Thomas jurar trazer Christopher para longe. Deixei um bilhete explicando que era tudo culpa minha, mas eu não gostaria de explicar isso para a minha mãe. Por favor, me leve com você para o Instituto de Londres, para que eu possa ser ensinado como ser um Caçador de Sombras com James!
— Charlotte cortará a minha cabeça — seu pai observou.
Ele parecia tentado, embora. Matthew era uma influência maliciosa para ele, e pai gostava de malícia. Além do mais, ele não era mais imune ao Sorriso do que qualquer um.
— Pai, por favor — James pediu em uma voz calma.
— Sr. Herondale, por favor! — disse Matthew. — Nós não podemos ser separados — James se preparou para a explicação sobre a verdade e a beleza, mas em vez disso Matthew falou, com uma simplicidade devastadora: — Seremos parabatai.
James o encarou.
— Oh, entendo — seu pai falou.
Matthew assentiu encorajador, e sorriu.
— Então ninguém deve ficar entre vocês — continuou o pai.
— Ninguém — Matthew balançou a cabeça enquanto repetia: — ninguém. — Então balançou a cabeça novamente. Ele parecia um anjo. — Exatamente.
— Muito bem — concordou o pai. — Todo mundo entrando na carruagem.
— Pai, você não roubou a carruagem do tio Gabriel de novo — disse James.
— Nesse momento estamos focando no seu problema. Ele iria querer que eu a pegasse, e teria me emprestado se eu pedisse, mas do jeito que aconteceu, eu não perguntei.
Ele ajudou Matthew a subir, em seguida, prendeu a mala de Matthew no lugar e amarrou-o de forma segura. Ele pareceu perplexo quando fez isso. James imaginou que a mala de Matthew era significativamente mais pesada do que a de James. Em seguida, ele ajudou James a subir ao lado de Matthew, e depois virou-se para sentar-se do outro lado de James. Ele agarrou as rédeas e começaram a se afastar.
— Quando a ala sul desmoronar, pode haver estilhaços voando —  o pai observou. — Qualquer um de nós pode ser ferido — ele parecia bastante alegre com isso. — Melhor pararmos no nosso caminho até em casa e ver os Irmãos do Silêncio.
— Isso parece excessiv... — Matthew começou, mas James lhe deu uma cotovelada; Matthew aprenderia como o pai era sobre os Irmãos do Silêncio em breve. De qualquer forma, James não sentia que Mattew tinha o direito de dizer que o comportamento de outra pessoa era excessivo, agora que ele tinha explodido a Academia. — Eu estava pensando que poderíamos dividir o nosso tempo de treinamento entre o Instituto de Londres e minha casa — Matthew continuou. — A casa da Consulesa. Onde as pessoas não podem insultá-lo, e podem se acostumar a ver você.
Matthew realmente estava falando sério sobre treinarem juntos, James percebeu. Ele havia pensando em tudo. E se James fosse para Idris mais vezes, talvez pudesse ver Grace com mais frequência, também.
— Eu gostaria disso — James concordou. — E sei que você gostaria de ver mais o seu pai.
Matthew sorriu. Atrás deles, a Academia explodiu. A carruagem sacudiu ligeiramente com a força do impacto.
— Não precisamos... ser parabatai — continuou Matthew, sua voz calma sob o som da explosão. — Eu falei aquilo para fazer o seu pai me levar com você, assim eu poderia executar o meu novo plano, mas nós não... temos que... Quer dizer, a menos que você... talvez você queira ser...
James tinha pensado que queria um amigo como ele, um parabatai que fosse tímido e quieto e entendesse os sentimentos de James sobre os terrores das festas. Em vez disso, aqui estava Matthew, que era a vida e a alma em cada festa, que tomava decisões horríveis sobre escovas de cabelo, que era inesperado e do tipo aterrorizador. Que tinha tentado ser seu amigo e continuou tentando, mesmo que James não soubesse como era tentar ser seu amigo. Que podia ver James, mesmo quando ele era uma sombra.
— Sim — James disse simplesmente.
— O quê? — indagou Matthew, que sempre soube o que falar.
— Eu gostaria disso.
Ele enroscou um braço em torno da manga do casaco de seu pai e um no de Matthew. Segurou-se a eles todo o caminho de casa.


Academia dos Caçadores de Sombras, 2008
— Então James encontroou um parabatai e tudo ficou bem — disse Simon. — Fantástico.
James era filho de Tessa Gray, Simon percebeu, há um longo tempo na história. Era estranho pensar nisso. Parecia tornar esse menino perdido muito próximo, ele e seu amigo. Simon gostava de como James parecia. Gostava de Tessa, também.
E, embora estivesse começando a ter a sensação, mesmo sem suas memórias, de que nem sempre tinha gostado de Jace Herondale, ele gostava dele agora.
Catarina revirou os olhos com tanta ênfase que Simon imaginou que quase podia ouvi-los rolar, como bolas de boliche exasperadamente minúsculas.
— Não, Simon. A Academia expulsou James Herondale por ele se destacar por ser diferente, e aqueles que o amavam podiam segui-lo para fora. As pessoas que o expulsaram tiveram que reconstruir parte de sua preciosa Academia, veja bem.
— Uh. Desculpa, mas a mensagem que eu devia estar aprendendo é “saia, saia o mais rápido possível”?
— Talvez. Talvez a mensagem seja “confie em seus amigos”. Talvez seja que as pessoas no passado fizeram algo ruim, mas que agora todos temos de nos esforçar para fazer melhor. Talvez seja que você tem que trabalhar nas coisas por si mesmo. Você acha que todas as aulas têm conclusões fáceis? Não seja uma criança, Diurno. Você não é mais um imortal. Não tem muito tempo a perder.
Simon tomou isso como uma dispensa, e pegou seus livros.
— Obrigado pela história, Sra. Loss.
Ele desceu as escadas e saiu da Academia, mas estava atrasado demais, como sabia que taria. Ele tinha acabado de atravessar a porta quando viu a escória, sujos e cansados, abraçada, balançando-se a partir dos campos de treinamento. Marisol estava na frente, o braço dado ao de George. Era como se alguém tivesse tentado arrancar todos os seus cabelos.
— Onde você estava, Lewis? — ela chamou. — Nós poderíamos ter usado sua torcida enquanto ganhávamos!
Em algum lugar atrás deles estava a elite. John estava muito infeliz, o que encheu Simon com um profundo sentimento de paz.
Confie em seus amigos, Catarina tinha dito. Simon podia falar pelos mundanos na sala de aula, mas era mais importante que George, Marisol e Sunil falassem também. Simon não queria mudar as coisas por ser o especial, o mundano excepcional, o ex-Diurno e ex-herói. Seus colegas da escória podiam ganhar sem ele.
Havia mais um motivo pelo qual Catarina contara aquilo que ela não tinha anunciado, Simon pensou. Ela deveria ter ouvido esta história de seu amigo morto Ragnor Fell.
Catarina ouvira histórias de seu amigo da mesma forma que James Herondale escutara histórias de seu pai. Ser capaz de recontar as histórias, ter alguém para ouvir e aprender, significava um amigo que não tinha perdido. Talvez ele pudesse escrever para Clary, Simon pensou, assim como para Isabelle. Talvez pudesse confiar nela para amá-lo, apesar de quantas vezes ele tinha falhado com ela. Talvez estivesse pronto para ouvir histórias sobre si mesmo e sobre ela. Ele não queria perder um amigo.
Simon estava escrevendo sua carta para Clary quando George entrou, enxugando o cabelo. Ele tinha colocado sua vida em suas mãos e arriscou usar o chuveiro do banheiro da escória.
— Ei — cumprimentou Simon.
— Ei, onde você estava quando o jogo acontecia? — perguntou George. — Pensei que você nunca voltaria e eu teria que ser amigo de Jon Cartwright. Então pensei em ser amigo de John e seria sobrecarregado com desespero, e decidi encontrar uma das rãs que sei que estão vivendo aqui, dar-lhe pequenos óculos de rã e chamá-la de Simon 2.0.
Simon deu de ombros, não tendo certeza do quanto deveria dizer.
— Catarina me deteve depois da aula.
— Cuidado, ou alguém pode começar rumores sobre vocês dois — disse George. — Não que eu fosse julgar. Ela é, obviamente... azulantemente encantadora.
— Ela estava me contando uma longa história sobre Caçadores de Sombras sendo idiotas e sobre parabatai. O que você acha dessa coisa toda de parabatai, de qualquer maneira? A runa parabatai é como uma pulseira da amizade que você pode nunca devolver.
— Eu acho que soa bem — disse George. — Eu gostaria de ter alguém que sempre prestasse atenção a minha volta. Alguém em quem eu pudesse contar nas épocas em que este mundo assustador ficar mais assustador.
— Soa como se houvesse alguém a quem você pediria.
— Eu pediria a você, Si — falou George, com um pequeno sorriso estranho. — Mas eu sei que você não me perguntaria. Sei a quem você pediria. E isso é bom. Eu ainda tenho a rã Simon — acrescentou pensativo. — Embora eu não tenha certeza de que ele seja exatamente do material para um Caçador de Sombras.
Simon riu da brincadeira, como era a intenção de George, diminuindo o momento embaraçoso.
— Como estavam os chuveiros?
— Eu tenho uma palavra para você, Si — disse George. — Uma triste, bem triste palavra. Coragem. Eu tive um banho, no entanto. Eu estava nojento. Nossa vitória foi incrível, mas tão duramente conquistada. Por que os Caçadores de Sombras são tão flexíveis, Simon? Por quê?
George continuou reclamando sobre as tentativas entusiasmadas e não qualificadas de John Cartwright no jogo de beisebol, mas Simon não estava escutando.
Sei a quem você pediria. Uma memória repentina veio a Simon, como fazia às vezes, cortando como uma faca. Eu te amo, ele disse a Clary. Ele falou acreditando que iria morrer. Ele queria que aquelas fossem suas últimas palavras antes de morrer, as palavras mais verdadeiras que ele poderia dizer.
Ele estava o tempo todo pensando sobre suas duas possíveis vidas, mas não tinha duas possíveis vidas. Ele tinha uma vida real, com memórias reais e uma melhor amiga real. Teve uma infância real, de mãos dadas com Clary enquanto atravessavam as ruas, e o último ano tinha ocorrido de verdade, com Jace salvando a sua vida e ele salvando Isabelle, e Clary lá, Clary, sempre Clary.
A outra vida, a chamada vida normal sem sua melhor amiga, era falsa. Era como uma tapeçaria gigante que retratava a sua vida, cenas mostradas em tópicos que eram de todas as cores do arco-íris, exceto que faltava uma cor – a mais brilhante das cores.
Simon gostava de George, gostava de todos os seus amigos na Academia, mas ele não era James Herondale. Ele já tinha amigos antes de vir para cá.
Amigos para viver e morrer, para ter se envolvido em cada memória. Os outros Caçadores de Sombras, especialmente Clary, eram uma parte dele. Ela era a cor que tinha sido arrancada, o fio tecido brilhantemente através de suas memórias, desde as primeiras até a sua última. Algo estava faltando no tecido da vida de Simon sem Clary, e nunca estaria certo novamente a menos que ela fosse restaurada.
Minha melhor amiga, Simon pensou. Outra coisa pela qual valia a pena viver, pela qual valia se um Caçador de Sombras. Talvez ela não quisesse ser sua parabatai. Deus sabia que Simon não era nenhum prêmio. Mas se ele conseguisse passar pela Academia, se conseguisse se tornar um Caçador de Sombras, ele teria todas as memórias de sua melhor amiga de volta.
Ele poderia tentar uma ligação como Jace e Alec, como James Herondale e Matthew Fairchild. Poderia perguntar se ela faria o ritual e falaria as palavras que diriam ao mundo que eles dois seriam inseparáveis.
Ele poderia ao menos perguntar para Clary.

53 comentários:

  1. Eu estou cinco vezes mais ansiosa para The Last Hours do que para Lady Midnight. Mas cara, ainda vai demorar tanto e eu já estou completamente apaixonada pela história só por esses trechinhos. Cassandra Clare, você é muito cruel.

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    1. Concordo, estou esperando mais por The Last Hours do que por TDA... quero saber o que vai acontecer com James!

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    2. Gente, The Last Hours é sobre o q? O Matthew e o James?

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  2. Cassandra é uma completa vaca. Como se não bastasse me arrepiar até a morte com a emoção que eu senti com Simon falando de Clary, ela ainda me deixou muito ansiosa para The Last Hours. Vou morrer, vou morrer, vou morrer, vou comer...

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    1. N chame a autora de vaca, se fala que admira seus livros. Alem da falta de educacao, esta insultando a pobre vaca (o animal, dã), que nada tem haver com esta historia. O Ceus, quem rotulou isso como xingamento? Pobres vacas...

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    2. Pois é, sempre me perguntei isso... vaca, burro, égua, galinha, jumento, lesma... pq tudo xingamento??

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    3. E Hera pode colocar uma maldição e, vc por insultar as vacas

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  3. Brenda di Angelo Carstairs12 de dezembro de 2015 13:02

    Nossa, não consigo parar de reler este conto. Achei que fosse só eu desesperada para o lançamento de TLH. Só em pensar que ainda nem há previsão bate um desespero cinco vezes maior. Me parece que será uma série 20 vezes melhor que TDA. Estou tentando descobrir de que personagem gostei mais. E sério, não acredito ainda que o Alastair é tão idiota. Sem dúvidas ele não merece o sobrenome que tem.

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    1. Bom, se ela pretende lançar as duas séries juntas, assim como TMI, imagino que o primeiro de TLH deva lançar em 2018, né?

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    2. Gente por favor me explica, qual datas são, TDA e TLH. Quais são as outras sagas sobre os caçadores de sombras, ou que tem haver com esse mundo da Cassandra Clare. Pelo o Amor de Raziel Desde ja Agradeço.❤

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    3. TDA é The Dark Artifices, Os Artifícios das Trevas. Conta sobre Emma e os Blackthorn. O primeiro livro, A Dama da Meia-noite lançou em maio. Ano que vem tem o próximo. TLH é The Last Hours, As Últimas Horas. Será sobre a segunda geração das Peças Infernais, e promete muito também, como dá pra perceber.Deve lançar em 2018

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  4. Estou amando isso de "Herondale sem parar"kkkkk <3

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  5. nao aguento mais esperar por The Last Hours e Lady Midnight. estou tao feliz que Simon finalmente esta aceitando o que esta acontecendo. ele vai conseguir ser o cara que todos amamos,ele vai lembrar.... :-)

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  6. '— Tio Gabriel mencionou ontem à noite que havia pintado recentemente a carruagem. Muitas vezes. E ameaçou chamar a polícia e te prender. Muitas vezes.

    — Gabriel vai parar de falar sobre isso em poucos anos — o pai piscou um olho azul para James. — Porque todos nós estaremos conduzindo automóveis até lá.

    — Mamãe diz que você nunca pode dirigir um automóvel — James observou. — Ela fez eu e Lucie prometermos que se você dirigisse, não deveríamos entrar.

    — Sua mãe estava apenas brincando.

    James balançou a cabeça.

    — Ela nos fez jurar pelo Anjo.'
    ;D

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    1. WILLLLLL É O MELHORRRRRRRRRRRRRRRRRRRR <3

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  7. A cada capítulo fico mais esperançosa com o Simon! Sinto falta dele e da Clary juntos! E estou torcendo muito para eles se tornarem parabatai...

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    1. Né, os dois estão se conhecendo novamente... espero que dê tudo certo :3

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  8. Quando lança The Last Hours? Desde que o James apareceu em As Crônicas de Bane fiquei ansiosa por mais, e agora aparece James de novo. Não sei como nós, leitores, não temos ataques cardíacos.. Sério, a pessoa chora, ri, grita, chora, depois ri dnv e ainda tem a coisa do suspense esperando a chegada de um livro. Temos emoções até demais.

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  9. O que eu mais quero é que Simon e Clary sejam parabatais! Seria incrível! <3

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  10. Gosto do fato de James amar a mae tanto assim... Suportar a dor para nao machuca-la...

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  11. Q tortura! É incrivelmente doloroso esperar os próximos contos.

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  12. K, por favor me ajude a entender, como segue a ordem dos livros sobre caçadores das sombras? Por que estão falando de tantos livros por aí. Não são só duas coleções? As peças infernais e os instrumentos mortais ? Luiza

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    1. Olá, Luiza! Duas coleções e duas "séries" de contos extras por enquanto, no entanto há mais duas programadas. Recomenda-se que leia os três primeiros de Instrumentos Mortais, depois a trilogia As Peças Infernais e por fim o restante dos Instrumentos Mortais. As crônicas de Bane e de Simon vc deixa por último ^^

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  13. Deus quando penso que nn vou conseguir achar nenhum conto igual ao ultimo que li, eu leio o próximo e penso a mesma coisa
    Incrivel, vai ser incrivel se Clary e Simon forem parabatais

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  14. Serio acho mó da hora os Herondales , eles parecem n s abater com nd: "Tenho q fazer todos m odiarem incluindo a mulher q amo ,VAMOS NESSA" . "Eu to amando uma garota e por um acaso ela é minha irmã , MOLEZINHA" Eles parecem só receber pedra da vida e ainda assim pegam essas pedras ,fazem um castelo , e depois de la de dentro ficam rindo da cara do destino. <3 <3 <3

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    1. É verdade ❤❤❤os herondale divam demais 😍😍😍😍

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  15. Karina!!! To muito ansiosa , já deu meia noite , posta o proximoooo!!! Rsrs
    Acho q eu sou um pouquinho ansiosa demais:(((

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  16. Will, uma figuraça que você aprende a gostar! Estou ansiosa para a proxima postagem!
    Ass: Bina.

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  17. Sem querer ofender mas quem traduziu isso? Estou vendo muitos erroa bestas e falta de palavras, como se fosse tudo traduzido pelo Google Tradutor.

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    1. Hum, pela gente, voluntários do blog que queriam ajudar com a tradução e eu

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    2. Eu amei esse conto vey... Eu sinceramente quero que o Simo seja parabatai do George. Sei la gostei dele. Eu me apaixonei pelo James. Pelo Anjo to ansiosa para TLH.

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  18. Mc Jon Brinquedo em: "Meça suas palavras mundano" 😅

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  19. Se eu já estava SUPER MEGA MASTER BLASTER ansiosa Lara the last hours antes, agora estou surtando de ansiedade!!! Eu já amo o Jamie a megas tempos, que muito conhecê-lo mais!

    Sobre Clary+Simon, acho linda maravilhosa a amizade deles, mas acho que Clary devia ser parabatai de Izzy, pq Izzy não tem ninguém, e Simon agora tem o George... ♡

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  20. MEU DEUS DO CÉU ESTOU completamente emocionada. Que fofura. ;; Já quero mais James e Matthew. Esses parabatai pisoteiam meu coração de tal forma! E Simon falando da Clary? <333333 Nhw.

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  21. Sempre preferi o Simon ao Jace, mas, ainda bem ele não ficou com a Clary. Não vejo a hora dele e da Izzy ficarem juntos de uma vez. A Clary até que é legalzinha... SQN @ @
    J

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  22. Cara sério que o filho de Willian Herondale sofria bullying?! Que isso?! Ou no fim o Matthew e o James pareciam Will e Jem, a diferença é que o filho de Will era mais o Jem e o Matthew uma cópia do Will!
    Amei!!!

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  23. O melhor conto até agoraaaa. Também estava mais ansiosa por TLH do que por TDA, mas agora não vejo a hora de ser lançado "Dama da meia-noite" aqui no Brasil.
    James Herondale, o amo desde que li o seu conto em " As crônicas de Bane", e foi ótimo ler algo sobre ele mais jovem, e conhecendo quem no futuro seriam seus melhores amigos, e um deles o seu parabatai.
    Clary e Simon melhores amigos novamente!!!!

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  24. O melhor conto até agoraaaa. Também estava mais ansiosa por TLH do que por TDA, mas agora não vejo a hora de ser lançado "Dama da meia-noite" aqui no Brasil.
    James Herondale, o amo desde que li o seu conto em " As crônicas de Bane", e foi ótimo ler algo sobre ele mais jovem, e conhecendo quem no futuro seriam seus melhores amigos, e um deles o seu parabatai.
    Clary e Simon melhores amigos novamente!!!!

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  25. Ai dios! Que conto maravilhoso!Impossível não se apaixonar por esse povo! James é tão fofo, e eu dei altas risadas com ele e Matthew se confessando um pro outro...ai dios,estou tão emocionada! Parece que cada conto é melhor que outro,credo,adoro! Parei meu ataque, ufa!

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  26. Cara,é impossível não se apaixonar pelas histórias da Cassandra Clare. Eu acho que sou que nem a Hazel da culpa é das estrelas:leria até a lista de compras dessa autora!

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  27. Jaaames ❤ Jem também ❤❤❤ Ele estava divinamente divino nesse conto! Caiu algumas lágrimas ;')
    Muito ansiosa por TLH

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  28. Aaah,e também estou muito ansiosa, muuuito mesmo para ler Dama da Meia noite, só esperando o livro chegar! Cassie diz que Julian será o Shadowhunter mais sexy de todos! E ele e a Emma,a família Blackthorn ❤ Eles são um amoor, sofreram tanto em Cidade do fogo celestial: Pra mim a principal culpada é a maldita Clave. Exilaram a Helen, desistiram do Mark, e ainda por cima queriam separar a Emma deles! Clave, a maior vila de todas

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  29. Eu simplesmente amei ♥.
    Já quero me casar com o Jamie e o Matthew. Amei esse conto. Espero terminar tudo nesse final de semana, então poderei ler Dama da Meia noite.

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  30. cada vez amando mais!!!! clary e simon parabatai tudo a ver só que antes eu pensei que a clary fosse ser parabatai da izzy e o simon do george mais amando sempre

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  31. "— Pare com isso, Matthew — James resmungou. — Pare de rir. Estou compartilhando meus mais íntimos sentimentos com você. Isso é muito doloroso.
    — Eu tenho estado de mau humor o tempo todo. Você acha que eu sou charmoso agora? Você não ideia.
    James deu um soco em seu braço. Ele não pôde deixar de sorrir. Percebeu que Mathew viu, e ele pareceu muito satisfeito consigo mesmo."
    Ta faltando um faz no "voce nao ideia" hahaha :)

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  32. Finalmente o jumento do Simon tá aceitando os fatos, tava querendo bater nele com um tijolo pq ele ficava com esses papinhos ''ain n sou mais aquele Simon e blabla'' ''deveria ter continuado sendo mundano e blablalba''.
    Eu shippei James e Matthew. Foi como uma tijolada na cara ver q eles seriam parabatais </3 Eles são mto fofos juntos. Ainda assim é melhor q nada.

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  33. Esses momentos Herondale's..... Simplesmente amo. O James é um amor, é impossível não viver completamente esse livro :')

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