6 de dezembro de 2015

Capítulo bônus - Regresso ao lar

Eu não esperava voltar para a Rússia tão cedo. Com certeza não queria isso.
Não que eu tivesse algo contra aquele lugar. Era um país muito agradável, com uma arquitetura que parecia com arco-íris multicolorido e uma vodka que poderia servir como combustível para foguetes. Eu gostava destas coisas. Meu problema era que da última vez que estive aqui, fiquei muito próxima da morte (em muitas ocasiões) e terminei sendo dopada e sequestrada por vampiros. E isso é o suficiente para não se querer voltar para qualquer lugar. Mesmo assim, quando meu avião começou a sobrevoar Moscou, soube que voltar para cá, definitivamente, tinha sido a coisa certa.
— Você está vendo aquilo, Rose? — Dimitri apontou pelo vidro da janela e, embora eu não pudesse ver seu rosto, pude perceber como ele estava admirado. — São Basílio.
Eu me debrucei sobre ele, mas tive apenas o vislumbre da famosa catedral multicolorida que parecia mais com algo que você encontraria no Mundo dos Doces, e não o Kremlin. Para mim, era mais um ponto turístico, mas eu sabia que para ele, isso significava muito mais. Era o seu regresso ao lar, um lugar que ele não acreditava que veria novamente sob a luz do sol, muito menos por meio de olhos vivos.
Aqueles prédios, aquelas cidades, não eram apenas belos cartões postais. Não para ele. Eles representavam mais do que isso. Era a sua segunda chance de vida.
Sorrindo, recostei em minha poltrona. Eu tinha pouco espaço, mas não podia ser mais desconfortável para mim do que era para ele. Era cruel colocar um homem de quase dois metros de altura sentado perto de uma janela de avião, mas ele não se queixou nenhuma vez. Nunca.
— Pena que não ficaremos muito tempo aqui — falei. Moscou era apenas uma pequena parada para nós. — Vamos ter que nos limitar a ver as coisas típicas da Sibéria. Você sabe, tundra. Ursos polares.
Dimitri se voltou novamente para a janela. Eu esperava castigá-lo com mais uma piada sobre os estereótipos da sua terra, mas em vez disso, eu podia dizer, pela sua expressão, que ele não ouviu mais nada do que eu disse depois de “Sibéria”. A luz da manhã ressaltava os traços esculturais de seu rosto e iluminava os seus lisos cabelos castanhos. Nada podia ser comparado ao brilho que irradiava dele.
— Faz muito tempo desde que eu estive em Baia — ele murmurou, seus olhos escuros se perdendo em memórias. — Faz muito tempo desde que os vi. Você acha... — ele olhou para mim, pela primeira vez com um vislumbre de nervosismo. Eu tinha o observado durante toda a viagem. — Você acha que eles vão ficar felizes em me ver?
Apertei a sua mão e senti um pequeno aperto em meu peito. Não era normal ver Dimitri inseguro sobre qualquer coisa. Eu poderia contar nos dedos as vezes que o testemunhei realmente vulnerável. Desde que nos conhecemos, ele se destacou como a pessoa mais decidida e confiante que já vi. Ele sempre estava em movimento, nunca aparentando ter medo diante de uma ameaça, mesmo que isso significasse arriscar a própria vida. Por exemplo, se algum monstro sanguinário surgisse agora mesmo na cabine do avião, Dimitri seria o primeiro a atacá-lo calmamente, armado apenas com o seu cartão de embarque. Combates impossíveis não eram problema algum para ele. Mas reencontrar sua família, depois de ser um vampiro morto-vivo? Sim, isso lhe assustava.
— É claro que eles vão ficar felizes — eu lhe assegurei, me maravilhando com as mudanças que ocorreram em nosso relacionamento. No começo, eu era apenas uma aluna, precisando conquistar a sua confiança. Então eu me formei, tornando-me sua companheira e sua semelhante. — Eles sabem que estamos chegando. Inferno, você deveria ter visto a festa que fizeram quando pensaram que você estava morto, camarada. Imagine como será quando constatarem que você está mesmo vivo.
Ele deu um de seus raros sorrisos, aquele que me fazia aquecer por dentro.
— Esperemos que sim — ele respondeu voltando a olhar para a janela. — Esperemos que sim.
As únicas paisagens que vimos de Moscou foram de dentro do aeroporto, enquanto esperávamos para pegar nosso voo para Omsk, uma cidade de porte médio da Sibéria. De lá, alugamos um carro e seguimos a viagem por terra – não havia voo para onde estávamos indo.
Era um belo caminho, uma terra cheia de vida e muito verde, provando que as minhas piadas sobre tundra estavam erradas. O humor de Dimitri oscilou entre a nostalgia e a ansiedade enquanto viajávamos. Eu mesma me vi inquieta para chegar logo ao nosso destino. Quanto mais cedo chegássemos, mais cedo ele veria que não havia nada com que se preocupar.
A viagem entre Omsk e Baia durou menos de um dia. Baia parecia muito mais bonita do que eu lembrava da última vez que estive aqui. A cidade tinha uma quantidade razoável de pessoas, o suficiente para não se esbarrar em ninguém por acidente. Se você encontrar alguém em Baia, é porque realmente havia um motivo. Talvez por isso houvesse um grande número de dampiros vivendo aqui. Como eu e Dimitri, os dampiros eram seres metade humanos e metade vampiros. Mas, ao contrário de mim e de Dimitri, eles escolheram viver separados dos Moroi – vampiros usuários da magia – em vez disso, se misturando entre a sociedade humana. Nós éramos guardiões comprometidos a proteger os Moroi dos Strigoi: perversos vampiros mortos-vivos que matavam para manter a sua existência imortal.
Os dias eram mais longos nessa época do verão e a noite estava começando a cair quando chegamos à casa da família de Dimitri. Strigoi raramente se aventuravam entrar em Baia, mas gostavam de ficar pelos arredores da cidade, perseguindo quem passava pelas estradas. Os raios solares fugazes garantiam a nossa segurança e davam a Dimitri uma boa visão da casa. Desligando o carro, ele recostou-se por um tempo, contemplando a antiga construção de dois andares. Os raios vermelhos e dourados a banhavam, dando-lhe uma aparência de algo de outro planeta.
Eu me inclinei e beijei a sua bochecha.
— Hora do show, camarada. Eles estão te esperando.
Ele permaneceu sentado por alguns momentos, em silêncio. Então deu um firme aceno com a cabeça, colocando no rosto a mesma expressão que eu o tinha visto usar quando estava em combate. Nós saímos do carro, e mal havíamos chegado no meio do quintal, quando a porta da frente se abriu com um rompante. Uma luz clareou a escuridão e a silhueta de uma jovem mulher surgiu.
— Dimka!
Se um Strigoi tivesse saltado para fora da casa e atacado, Dimitri teria respondido imediatamente. Mas ao ver a irmã caçula, seus incríveis reflexos foram surpreendidos, e a ele só restou ficar parado enquanto Victoria lançava os braços em volta dele e despejava palavras em russo, tão rápido que eu nem ousei tentar acompanhar. Dimitri levou alguns momentos para se recuperar do choque, mas logo devolveu ferozmente o seu abraço, respondendo-lhe de volta em russo. Eu fiquei ali, sem jeito, até Victoria me notar. Com um grito de alegria, ela correu e meu deu um abraço tão forte quanto o que tinha dado em seu irmão. Admito, eu estava quase tão chocada quanto ele. No passado, quando eu e Victoria nos separamos, não foi muito amigável. Eu tinha deixado claro que não concordava com o envolvimento que ela tinha com um certo cara Moroi. Ela se fez igualmente clara que não gostava da minha intromissão. Parecia que agora estava tudo esquecido, e embora eu não conseguisse entender uma palavra do que ela falava, tive a impressão de que ela estava grata por eu ter trazido Dimitri de volta para ela.
A chegada exuberante de Victoria foi seguida por toda família Belikov. As outras duas irmãs de Dimitri, Karolina e Sonya, juntaram-se a Victoria abraçando a mim e a ele. A mãe deles veio logo atrás. O russo soava rápido e furioso.
Normalmente, uma reunião como esta, na porta de casa, me faria revirar os olhos, mas terminei me rasgando em lágrimas. Aquilo tudo era demais para Dimitri. Era demais para todos nós. Acho que nenhum de nós esperava compartilhar um momento como este.
Depois disso, a mãe de Dimitri, Olena, tentava se recuperar, sorrindo, enquanto enxugava as lágrimas dos olhos.
— Entrem, entrem — ela falou em inglês, lembrando que eu não entendia russo muito bem. — Vamos nos sentar e conversar.
Entre mais sorrisos e lágrimas, nós entramos na casa, passando para a acolhedora sala de estar. Ela permanecia a mesma da minha última visita, rodeada por painéis de madeira e prateleiras de livros encadernados em couro e letras douradas. Lá encontramos mais um membro da família. Paul, o filho de Karolina, olhava para o tio com fascínio. Ele ainda era muito pequeno quando Dimitri saiu pelo mundo, e tudo o que ele sabia sobre o tio vinha das fantásticas histórias contadas. Próximo a Paul, havia um bebê dormindo em um berço, enrolado em um cobertor. Era o bebê de Sonya, adivinhei. Ela estava grávida quando estive aqui, no último verão.
Fiquei o tempo inteiro perto de Dimitri, mas neste momento, eu soube que deveria me afastar um pouco. Ele se sentou no sofá, e rapidamente Karolina e Sonya sentaram uma de cada lado, o cercando, como se tivessem medo de que ele fosse embora logo. Victoria, parecendo irritada por ter perdido um assento, sentou-se no chão à frente dele, encostando a cabeça em seus joelhos. Ela tinha dezessete anos, apenas um ano a menos que eu, mas vendo-a olhar para o irmão com tanta adoração, tive a impressão de que ela era muito mais jovem que isso.
Todos os irmãos tinham cabelos e olhos castanhos, formando um belo retrato ali, sentados juntos. Olena finalmente se aproximou, parecendo um pouco nervosa. Observando-os, puxou uma cadeira e sentou-se na frente de Dimitri, segurando as mãos no colo, de forma apreensiva.
— Isto é um milagre — ela falou em inglês, com um forte sotaque russo. — Não posso acreditar nisso. Quando recebi a notícia, pensei que fosse um engano ou uma mentira — ela deu um suspiro feliz. — Mas aqui está você. Vivo. O mesmo.
— O mesmo — Dimitri confirmou. — Então, a primeira alternativa.
Karolina fez uma pausa, o cenho franzido carregando suas belas feições. Ela parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— Então foi tudo um engano? Você não era realmente... um verdadeiro Strigoi?
Esta última palavra pairou no ar por um momento, fazendo uma brisa fria soprar naquela noite de verão. Minha respiração ficou suspensa durante o tempo de uma batida de coração. De repente, meus pensamentos foram para outro lugar, não muito longe dali, onde eu estava presa em uma casa diferente, com um Dimitri muito diferente. Sua pele era branca como giz e seus olhos tinham anéis vermelhos em volta da íris. Sua força e velocidade superavam em muito a que ele tinha agora, e ele usava essas habilidades para caçar vítimas e beber o seu sangue. Ele era terrível – e quase me matou também.
Poucos segundos depois, comecei a respirar novamente. Aquele terrível Dimitri tinha ido embora. E este – este Dimitri quente, amoroso, vivo – estava diante de mim agora.
No entanto, antes de responder, os olhos escuros dele encontram os meus. Naquele momento, eu soube que ele havia pensado nas mesmas coisas que eu. O passado era uma coisa terrível, difícil de ser esquecido.
— Não — ele respondeu. — Eu fui um Strigoi. Eu fui um deles. Eu fiz... Coisas terríveis — as suas palavras eram leves, mas seu tom era carregado de tormento. As expressões felizes dos membros da sua família se tornaram sombrias. — Eu estava perdido. Não havia esperança para mim. Exceto... Por Rose. Ela acreditou em mim e nunca desistiu.
— Como eu previ.
Uma voz ecoou pela sala, e todos nós olhamos para a mulher que apareceu de repente na porta. Ela era bem mais baixa que eu, mas sua personalidade era tão grande que podia encher todo ambiente. Era Yeva, a avó de Dimitri. Pequena e frágil, com cabelos totalmente brancos, era considerada por todos como uma espécie de sábia ou bruxa. Tentei pensar em uma palavra diferente para definir Yeva, mas somente “bruxa” me vinha à mente.
— Não, você não previu isso — falei, sem conseguir me conter. — Tudo o que você disse foi que eu precisava ir embora daqui, para fazer “outra coisa”.
— Exatamente — ela respondeu, com um sorriso de satisfação enrugando seu rosto. — Você precisava restaurar o meu Dimka.
Ela começou a andar até a sala de estar, mas Dimitri foi até ela, encontrando-a no meio do caminho. Ele cuidadosamente a abraçou, murmurando algo, que penso ser em russo, pois só consegui entender a palavra “vovó“. A diferença de altura entre eles era quase insana e deixou a cena bem engraçada.
— Mas você nunca disse o que eu ia fazer — argumentei quando ela se sentou comodamente na cadeira de balanço. Eu sabia que não deveria insistir nesse assunto, mas algo em Yeva sempre me levava para o lado oposto. — Você não pode levar o crédito por isso.
— Eu sabia — ela disse com firmeza. Seus olhos escuros pareciam enxergar além de mim.
— Então, porque você não me disse o que eu ia fazer? — exigi.
Yeva pareceu considerar a resposta por alguns momentos.
— Simples. Você precisava descobrir sozinha.
Senti meu queixo começando a cair. Do outro lado da sala, Dimitri atraiu a minha atenção, com um olhar que parecia dizer Não faça isso, Rose. Esqueça. Havia um brilho de diversão em seu rosto, que me fez lembrar dos nossos tempos de aluna-professor. Ele me conhecia muito bem. Sabia que se eu tivesse a menor chance, entraria em um embate com a sua velha avó. E, provavelmente, eu perderia. Com um rápido aceno, eu calei a boca. Ok, sua bruxa, pensei. Você venceu, por hora.
Yeva me lançou um sorriso com dentes faltando.
— Mas como isso aconteceu? — Sonya perguntou, com muito cuidado, como se navegasse em águas perigosas. — Quero dizer, como você voltou a ser um dampiro?
Eu e Dimitri nos olhamos novamente, mas as sua alegria tinha ido embora.
— O espírito — ele falou calmamente.
Isso fez com que a respiração das suas irmãs se alterasse. Os Moroi eram usuários da magia, mas sua maioria utilizava apenas os quatro elementos: terra, fogo, água e ar. No entanto, um elemento muito raro foi descoberto recentemente: o espírito. Ele está relacionado a habilidades metais de curas, mas era algo que muitos Moroi e dampiros ainda tinham dificuldade em aceitar.
— Minha amiga, Lissa, sendo uma usuária do espírito, o golpeou com uma estaca de prata encantada.
Ao mesmo tempo em que eu me sentia feliz por relembrar aquilo, a imagem dele sendo acertado no coração por uma estaca ainda era um problema para mim. Até o último momento, nenhum de nós sabia se aquilo o mataria ou não.
Paul arregalou os olhos.
— Lissa? Você quer dizer, a Rainha Vasilisa?
— Ah, sim — respondi. — Ela mesma.
Ainda era difícil lembrar que a minha melhor amiga desde o jardim de infância era agora a rainha que governava todo o mundo Moroi. Pensar nela me fez sentir um frio no estômago. Sua eleição para ocupar o trono, algumas semanas atrás, tinha sido controversa aos olhos de muitos. Alguns de seus inimigos não estavam longe de ser violentos, por isso me afastar dela para vir aqui me deixava nervosa. Foi apenas a garantia de que ela estaria cercada por guardiões, juntando-se a necessidade de Dimitri mostrar à sua família que ele não era mais um morto-vivo que me fez consentir com essa viagem.
Eu e os Belikovs ficamos até tarde conversando. Eles tinham muitas perguntas a serem respondidas, até mesmo de antes de ele ter sido transformado à força em um Strigoi. Dimitri esteve longe de casa por um bom tempo. Ele continuou tentando saber o que tinha acontecido à sua família nestes últimos anos, mas eles ignoravam suas perguntas, considerando as experiências dele mais importante. Ele era o milagre. E eles não conseguiam obter o suficiente dele. Eu sabia bem o que era isso.
Quando Paul e sua irmã pegaram no sono, percebi que já era hora de irmos para a cama também. Amanhã seria um grande dia. Eu falei a Dimitri que a sua família refaria a festa feita antes em memória da morte dele, e acabou que eu estava certa.
— Todos que ver você — Olena explicou, enquanto nos mostrava o nosso quarto. Eu entendi que por “todos” ela se referia a toda a comunidade dampira de Baia. — Se tudo é incrível para nós, é ainda mais para os outros. Então... Acabamos chamando-os para virem aqui amanhã. Todos eles.
Lancei um olhar curioso para Dimitri, para saber como ele reagiria. Ele não era o tipo de pessoa que gostava de ser o centro das atenções, principalmente quando envolvia o mais terrível e traumatizante evento da sua vida.
Por um segundo, seu rosto teve aquele olhar calmo e sem emoção. Mas logo se desfez. Então, ele se relaxou em um sorriso.
— É claro — ele disse à sua mãe. — Eu já esperava por isso.
Olena devolveu o sorriso, parecendo aliviada, e nos desejou boa-noite. Depois que ela saiu, Dimitri sentou-se à beira da cama, colocou a cabeça entre as mãos e murmurou algo em russo. Eu não conseguia entender exatamente o que ele falava, mas podia dizer que era algo do tipo “no que eu fui me meter?”
Fui até ele, sentei em seu colo e passei os braços pelo seu pescoço, para que pudesse encará-lo.
— Por que tanta tristeza, camarada?
— Você sabe por que — ele respondeu, brincando um uma mecha do meu cabelo. — Eu vou ter que continuar falando sobre... Aquele período.
Senti uma ternura queimando em mim. Eu sabia que ele se sentia culpado pelo o que tinha feito quando era Strigoi, e que apenas recentemente conseguiu admitir que não podia ser responsabilizado por aqueles atos. Ele tinha sido transformado contra a sua vontade por outro Strigoi, e não podia se controlar. Ainda assim, ainda era difícil ele aceitar isso.
— É verdade. Mas eles só vão falar sobre isso para desvendar o restante da história. Ninguém vai se concentrar nos seus atos como Strigoi. Eles vão querer saber como você voltou. Sobre o milagre. Eu vi essas pessoas no começo do ano. Elas lamentaram por você estar morto. Agora elas vão querer comemorar por você estar vivo. O foco deve estar aí. — Eu beijei seus lábios com força. — Esta é, com certeza, minha parte favorita da história.
Ele me puxou para mais perto dele.
— A minha parte preferida da história foi quando você me golpeou, chamando o meu bom senso de volta, me fazendo parar de sentir pena de mim mesmo.
— Golpeei? Não é exatamente assim que eu me lembro.
Para ser honesta, eu e Dimitri tínhamos nos batido e nos chutado muitas vezes no passado. Isso era inevitável devido ao rigoroso treinamento que os guardiões recebiam. Mas com ele tentando superar seus dias como Strigoi... Bem, tive que abrir mão dessas brigas e da minha maneira de argumentar, deixando que ele se curasse sozinho. Ou, bem, também tivemos incidentes envolvendo quartos de hotel e remoções de roupas, mas não acho que tenha sido tão fundamental para esse processo de cura.
Mesmo assim, quando Dimitri caiu para trás e me fez deitar na cama com ele, tive a sensação de que aquela memória, em especial, também estava fresca em sua mente.
— Talvez você possa me ajudar a lembrar — ele falou diplomaticamente.
— Lembrar, hum? — Envolvida em seus braços, lancei um olhar preocupado para a porta. — Eu me sinto estranha por estarmos em um quarto dentro da casa da sua mãe! É como se estivéssemos escondendo algo.
Ele segurou meu rosto entre suas mãos.
— Eles são muito mente aberta — ele falou. — Além disso, depois de tudo pelo o que passamos, é meio como se já estivéssemos casados. A maioria deles já pensa assim.
— Eu também tenho essa impressão — admiti. — Quando eu estava no seu funeral aqui, a maioria dos dampiros me tratou como se eu fosse a sua viúva. Os relacionamentos dos dampiros não se prendem a convenções.
— Não é uma má ideia — ele brincou.
Tentei lhe dar uma cotovelada, mas era difícil, considerando o quão entrelaçados nós estávamos.
— Não. Não comece, camarada.
Eu amava Dimitri mais do que a qualquer outra coisa, mas já tinha deixado bem claro de que não queria me casar com ele antes que existisse um “2” no início da minha idade. Ele era sete anos mais velho do que eu, então a ideia de casamento soava razoável para ele. Para mim, mesmo que não houvesse mais ninguém que eu quisesse, dezoito anos ainda era jovem demais para me tornar uma mulher casada.
— Você diz isso agora — ele falou, tentando não sorrir. — Mas qualquer hora dessas, você vai ceder.
— De jeito nenhum — devolvi. Seus dedos correram pelo contorno do meu pescoço, fazendo minha pele aquecer. — Você já deu alguns argumentos bastante convincentes, mas ainda precisa percorrer um longo caminho para poder me fazer mudar de ideia.
— Eu nem sequer tentei de verdade — ele respondeu com uma rara arrogância. — Quando eu quero, posso ser muito persuasivo.
— Pode? Então prove.
Seus lábios se moveram na direção dos meus.
— Eu estava esperando que você dissesse isso.


Os convidados começaram a chegar cedo. É claro, as mulheres Belikov tinham acordado muito mais cedo do que eu e Dimitri, já que nós dois ainda estávamos nos acostumando com o fuso horário. A cozinha funcionava a todo vapor, enchendo a casa com deliciosos aromas. Confesso que a culinária russa não era a minha preferida, mas não havia prato algum – especialmente os preparados por Olena – que eu não tivesse aprendido a gostar.
Ela e suas filhas cozinhavam enormes quantidades de tudo, e quase todas as pessoas convidadas também trouxeram um prato de comida para ajudar. Aquilo tudo era idêntico ao que aconteceu durante o funeral de Dimitri, tirando que o clima agora era bem melhor.
No começo, todos ainda tinham certo constrangimento. Apesar de ter tomado a decisão de focar no lado positivo, Dimitri ainda demonstrou dificuldade enquanto seu tempo como Strigoi foi o assunto central. Alguns convidados também pareciam nervosos, como se nós tivéssemos nos enganado terrivelmente e ele ainda fosse um morto-vivo sanguinário. Claro que só bastou cinco minutos para constatarem que não era verdade e toda a tensão se dissipou. Dimitri conhecia quase todos eles desde criança, e pareceu cada vez mais encantado em reencontrar rostos familiares. Eles, por sua vez, se alegravam por ele estar a salvo.
Do lado de fora, fiquei feliz em ver como tanta gente tinha vindo. Eu reconheci vários deles, que me cumprimentaram, mas Dimitri era o centro das atenções. A maior parte das conversas era em russo, mas eu conseguia entender o sentido pelas suas expressões. Uma vez que ele se sentiu à vontade entre os seus velhos amigos e familiares, vi uma alegria tranquila se espalhar por ele. A tensão que sempre parecia estalar em seu corpo tinha se aliviado agora, e meu coração se desmanchou ao vê-lo tão bem.
— Rose?
Eu estava assistindo a tudo com diversão, enquanto algumas crianças o interrogavam seriamente. Ouvindo alguém chamar o meu nome, fiquei surpresa ao me deparar com dos rostos conhecidos e bem vindos.
— Mark, Oksana! — exclamei, abraçando o casal. — Eu não sabia que estariam aqui.
— Como não estaríamos? — perguntou Oksana.
Ela era uma Moroi, quase trinta anos mais velha do que eu, mas ainda muito bonita. Ela também era uma das poucas usuárias do espírito que eu conhecia. Ao seu lado, Mark, seu marido, também sorriu para mim. Ele era um dampiro e, para não provocar um escândalo por causa do seu relacionamento, preferiam manter-se reservados. Oksana tinha usado seus poderes do espírito para trazer Mark de volta depois que ele foi morto durante uma luta, feito tão grande quanto ter restaurado Dimitri de ser um Strigoi. Isso era chamado de ser “beijado pelas sombras”.
— Nós queríamos vê-la novamente — Mark falou, então inclinou a cabeça na direção de Dimitri. — E, claro, queríamos ver o milagre com os nossos próprios olhos.
— Você fez isso — Oksana falou, com o rosto cheio de uma suave admiração. — Você o salvou, depois de tudo.
— Essa não era a minha ideia original — comentei.
Quando decidi vir à Rússia, meu principal objetivo era caçar e matar Dimitri a fim de libertar sua alma do estado obscuro em que estava. Até então, eu não sabia que existia outra alternativa.
Oksana estava compreensivamente curiosa sobre o papel do espírito na salvação de Dimitri, e eu lhe dei todas as informações que pude.
O tempo voou. O dia deu lugar a noite e as pessoas começaram a beber aquela vodka letal que me arruinou da última vez. Mark e Oksana me provocavam para que eu tentasse beber novamente, quando uma voz, de repente, chamou minha atenção. O dono da voz não estava falando comigo, mas imediatamente consegui distingui-la entre o barulho das pessoas da casa – porque era alguém falando em inglês.
— Olena? Olena? Onde está você? Precisamos conversar sobre o Rei de Sangue.
Seguindo a voz, logo pude avistar um rapaz, cerca de cinco anos mais velho do que eu, que se espremia tentando passar pela multidão até onde estava Olena, perto do seu filho. A maioria das pessoas não lhe deu atenção, mas alguns o olharam com a mesma surpresa que eu. Ele era um humano. O único humano entre nós, até onde eu podia dizer. Os humanos e os dampiros pareciam indistinguíveis um dos outros, mas era uma habilidade da minha raça conseguir dizer quem era quem.
— Olena — quase em fôlego, o humano chegou até Olena, me dando o primeiro vislumbre de sua aparência.
Ele tinha o cabelo preto e bem cortado, e usava um terno cinza que parecia ter sido feito sob medida para seu corpo desengonçado. Quando ele virou o rosto, de uma certa maneira, a luz iluminou sua bochecha revelando a tatuagem de um lírio dourado. Isso explicou a sua presença ali. Ele era um Alquimista.
Olena estava conversando com uma vizinha e finalmente virou, depois de o Alquimista chamar seu nome mais umas três vezes. A mãe de Dimitri permaneceu sorridente e simpática, mas consegui pegar um traço de desespero em seus olhos.
— Henry — ela falou. — Que bom vê-lo.
Ele ajeitou seus óculos de armação metálica.
— Precisamos conversar sobre o Rei de Sangue.
Quanto mais ele falava, mais eu reconhecia o seu leve sotaque. Ele era britânico, não americano como eu.
— Esta não é uma boa hora — Olena falou. Ela fez um gesto para Dimitri, que observava Henry minuciosamente. — Meu filho está nos visitando. Ele não vinha aqui há anos.
Henry deu a Dimitri um aceno educado e uma curta saudação, em seguida, tornou a voltar-se para Olena.
— Isso nunca terá uma boa hora. Quanto mais tempo ficar de lado, mais pessoas irão se machucar. Como você sabe, outro humano foi morto ontem à noite.
Aquelas palavras trouxe o silêncio de quem estava por perto. Isso também fez com que eu caminhasse para perto de Olena e Dimitri.
— Quem foi morto? — exigi saber. — Quem está fazendo uma matança?
Henry me examinou rapidamente. No entanto, não era uma rápida-verificação-se-eu-era-quente. Era como se ele buscasse descobrir se valia a pena responder à minha pergunta ou não. Aparentemente não. Ele voltou-se para Olena.
— Você tem que fazer alguma coisa.
Olena levantou as mãos.
— Por que pensa que eu posso fazer isso?
— Porque, bem, você é uma espécie de líder aqui. Quem mais poderia organizar os dampiros para combater essa ameaça?
— Eu não posso liderar ninguém — Olena disse, balançando a cabeça. — As pessoas aqui... Elas certamente não podem ser ordenadas a entrar em uma batalha, seja quando for.
— Mas elas sabem lutar — rebateu Henry. — Vocês todos são treinados, mesmo que não se tornem guardiões.
— Nós somos treinados para nos defender — ela o corrigiu. — Com certeza, todos reagiriam se os Strigoi invadissem a cidade, mas ninguém sai procurando encrenca. Bem, exceto os descomprometidos. Mas todos eles se foram agora. Assim que estiverem de volta no outono, ficarão felizes em fazer isso para você.
Henry suspirou, frustrado.
— Nós não podemos esperar até o outono! Humanos estão morrendo agora.
— Humanos tão idiotas que não conseguem se manter longe de problemas — disse uma dampira de cabelos grisalhos.
— Este tal de Rei de Sangue é apenas um Strigoi comum — acrescentou outro homem que estava ouvindo a conversa. — Os humanos precisam apenas ficar distantes, que ele os deixa em paz.
Eu não sabia dizer exatamente o que estava acontecendo, mas as peças foram se encaixando. Os Alquimistas estavam entre os poucos humanos que sabiam da existência de vampiros e dampiros. Embora geralmente vivessem e interagissem com humanos, a minha raça fazia um belo trabalho em esconder a sua real natureza. Os Alquimistas acreditavam que todos os vampiros e dampiros eram criaturas obscuras e não naturais, que não deviam manter contato com a humanidade. Da mesma forma, temiam que a nossa existência se tornasse pública, certos de que a fraqueza dos humanos se sobressairia diante da possibilidade de se tornar um Strigoi imortal, mesmo que isso corrompesse suas almas. Por causa disso, os Alquimistas nos ajudavam a nos manter ocultos, encobrindo os ataques de Strigois, assim como outros transtornos causados por estes monstros. No entanto, os Alquimistas deixavam claro que tudo isso era primeiramente para ajudar os humanos, nos deixando em segundo plano. Portanto, se algo lá fora estava ameaçando a sua espécie, não era estranho que Henry estivesse tão preocupado.
— Comece do início — Dimitri deu um passo à frente. Ele tinha ouvido a tudo pacientemente até o momento, mas até ele tinha limites quando se tratava de alguém tentando, bem na sua frente, persuadir sua mãe a fazer algo. — Alguém pode explicar quem é este Rei de Sangue e o porquê de ele estar matando os humanos?
Henry olhou Dimitri de forma semelhante como tinha feito comigo. Exceto que Dimitri passou em sua avaliação.
— O Rei de Sangue é um Strigoi que vive à noroeste daqui. Há uns lugares com várias cavernas e trilhas tortuosas, onde ele reside. Nós não sabemos em qual caverna, mas as evidências sugerem que ele é muito antigo e muito poderoso.
— E, então... Ele está acabando com os humanos que vagam por perto? — perguntei.
Hanry parecia surpreso por me ouvir falar, mas pelo menos desta vez, ele me respondeu.
— Não. Ele não está atacando quem está vagando. Os humanos estão procurando por ele. As pessoas das aldeias são supersticiosas e se iludem. Criaram estórias lendárias sobre sua reputação e lhe deram o nome de Rei de Sangue. É claro que eles não sabem exatamente o que ele é. Enfim, tudo o que ele tem a fazer é esperar, pois de vez em quando, alguém mete na cabeça que pode ser o único a derrotar o Rei de Sangue. Eles viajam montanha adentro para nunca mais voltar.
— Idiotas — disse a mulher que tinha se pronunciado antes.
Eu estava inclinada a concordar com ela.
— Você tem que fazer alguma coisa — repetiu Henry. Desta vez, ele olhou em volta para todos que o escutavam, desesperado que alguém o ajudasse. — As pessoas da minha raça não podem matar este Strigoi. Mas vocês podem. Eu já falei com guardiões de outras cidades maiores, mas eles se recusam a deixar os seus protegidos Moroi. Isso significa que resta a vocês fazer isso.
— Uma hora os humanos se convencerão que devem ficar longe — Olena falou de forma razoável.
— Sempre esperamos que isso acontecesse, mas não acontece — disse Hanry. Algo no tom dele me fez pensar que ele já havia falado isso diversas vezes. Se ele não fosse um completo arrogante, eu teria sentido pena dele. — E, antes que alguém sugira, também não acho que algum humano terá sorte contra o Rei de Sangue.
— Claro que não.
A sala tinha se silenciado até este ponto, mas a chegada de Yeva fez com que isso acabasse. Como ela sempre conseguia aparecer assim, do nada? Ela andou até nós, apoiando-se em uma bengala retorcida, que eu podia apostar que ela só usava para bater nas pessoas. Ela se concentrou em Henry, mas parecia satisfeita por atrair as atenções de todos.
— Somente uma pessoa que já cruzou o caminho da morte poderá matar o Rei de Sangue — ela fez uma pausa dramática. — Eu já previ isso.
Considerando as expressões assombradas que isso provocou, ficou óbvio que ninguém iria questioná-la. Como de costume, sobrou para mim.
— Ah, pelo amor de Deus — falei — isso pode significar uma centena de coisas diferentes.
Henry franzia a testa.
— Eu tenho que concordar. Cruzar o caminho da morte pode significar várias coisas. Alguém que já esteve perto de morrer, alguém que já matou, qualquer guerreiro ou lutador que...
— Dimka — falou Victoria. Eu nem sequer a tinha notado atrás de nós. Algumas pessoas estavam na sua frente, mas ela abriu caminho, enquanto falava. — A vovó se refere ao Dimka. Ele trilhou o caminho da morte e retornou.
Vários murmúrios tomaram conta da sala, com todos os olhos voltados para Dimitri. Muitos estavam concordando com a declaração de Victoria. Eu ouvi quando um homem disse “Dimitri é o cara. Ele está destinado a matar o Rei de Sangue.” Eu tinha certeza que tinha sido o mesmo homem que havia falado que o Rei de Sangue não tinha nada de especial, que era apenas mais um Strigoi. Os outros pareciam concordar.
— Se Yeva Belikov disse, assim será — alguém falou. — Ela nunca erra.
— Isso é o que ela diz a todos — resmunguei.
— Eu farei isso — Dimitri disse, decidido. — Vou acabar com este Strigoi.
O levante de felicidade das pessoas pôde ser ouvido até do lado de fora, de forma que ninguém escutou quando falei:
— Mas você não precisa fazer isso, ela não disse que era para você fazer isso.
Corrigindo – uma pessoa me ouviu. Dimitri.
— Roza — ele falou, sua voz se destacando entre o grande barulho. Foi apenas uma palavra, mas como sempre acontecia, conseguiu transmitir milhares de mensagens, que podiam ser resumidas na frase – conversaremos sobre isso mais tarde.
— Eu quero ir com você — Mark disse. Ele se ajeitou em toda a sua altura. — Se quiser.
Apesar dos seus cabelos grisalhos, Mark ainda era magro e musculoso. Um olhar mais atento nele me disse que ele podia fazer muito mais do que chutar a bunda de um Strigoi.
— Claro, eu ficaria honrado — Dimitri falou gravemente. — Mas só você.
Ele adicionou essa ultima parte porque, de repente, mais da metade da sala também queria ir com ele. Todos tinham revirado os olhos diante do pedido de Henry, mas agora, com Dimitri no comando, todos queriam participar desta odisseia heroica.
— E quanto a mim? — perguntei secamente.
Os lábios de Dimitri se contraíram em um sorriso.
— Pensei que a sua ida já fosse um fato concreto.
Eu não conseguiria falar em particular com Dimitri tão cedo. Afinal, as pessoas ainda estavam celebrando o seu retorno à vida, e agora também tinha essa caçada para aplaudir. O único mais impaciente do que eu, acredito, era Henry. Ele estava satisfeito por finalmente ter conseguido ajuda, mas ficou claro que ele queira começar a traçar os planos com Dimitri imediatamente. Isso, obviamente, não iria acontecer, então finalmente Henry saiu dizendo que voltaria no dia seguinte.
Era quase meia noite quando o restante dos convidados se despediu e eu e Dimitri fomos para o quarto. Eu me sentia exausta, mas ainda tinha energia suficiente para provocá-lo um pouco.
— Você sabe que Yeva não disse especificamente que você mataria esse tal de Rei de Sangue — falei, cruzando os braços e lançando-lhe um olhar imponente. — Victoria, e somente ela, tirou essa conclusão.
— Eu sei — disse Dimitri, abafando um bocejo. — Mas alguém tem que fazer isso. Ele mesmo disse que os humanos estão tentando, então essa ameaça precisa ser removida. Minha mãe estava certa quando disse que os dampiros da redondeza estão focados apenas em se defender. Você e eu somos os únicos que concluímos todo o treinamento dos guardiões. E Mark também.
Balancei lentamente a cabeça.
— Por isso você disse que ele poderia vir conosco. Pensei que tinha sido porque ele foi o primeiro a se oferecer que não tentava somente se vangloriar.
Dimitri sorriu e sentou-se na cama.
— Aquelas pessoas podem lutar. Elas lutariam até a morte se seus lares fossem atacados. Mas entrar em uma batalha? Mark é o único em quem eu confiaria. Mesmo assim, ele ainda não é páreo para você.
— Bem — respondi, sentando ao seu lado. — Esta foi a coisa mais inteligente que ouvi durante toda a noite — mas algo me veio de repente. — Mark também pode sentir os Strigoi — esse era um efeito colateral por ter sido trazido de volta do mundo dos mortos. — Hum, acho que isso já é loucura suficiente para se lidar.
Dimitri beijou o topo da minha cabeça.
— Admita. Você não está se preocupando em ir atrás deste Strigoi, mesmo sendo a coisa certa a fazer. Nem mesmo com os humanos o buscando, que inocentes estejam morrendo por causa dele.
— Sim, sim, esta é a coisa certa. Eu deveria ter me oferecido como voluntária, no final das contas — suspirei. — Odeio dar a Yeva mais uma razão para ela pensar que controla o destino do universo.
Ele sorriu.
— Se você planeja fazer parte desta família, então acho melhor ir se acostumando com isso.


Dimitri e eu não tínhamos nenhuma ressaca para curar, felizmente, mas nenhum de nós ficou feliz quando Henry apareceu ainda de madrugada para “tratar de negócios”. Como os outros Alquimistas que conheci, Henry não era do tipo que sujava as mãos. Ele não tinha a menor intenção de ir com a gente caçar o Rei de Sangue. Também, como os outros Alquimistas, Henry estava mergulhado em papéis cheios de planos. Ele nos trouxe toneladas de mapas das áreas montanhosas, onde o Rei de Sangue vivia, assim como os diversos relatórios dos Alquimistas sobre os ataques. Alquimistas adoravam relatórios.
Olena nos trouxe um café extremamente forte, o mais forte que já provei, quase tão tóxico quanto a vodka regional, mas a cafeína era a única maneira de acordarmos e traçar as estratégias.
— Essa não é uma região muito grande — Henry comentou, batendo em um dos mapas. — Eu não entendo como ninguém consegue encontrá-lo durante o dia. Essa área é muito pequena, qualquer pessoa pode percorrer todas as cavernas em apenas um dia. No entanto, todos eles acabam presos lá até a noite e são mortos.
Minha mente girou em volta do conjunto de cavernas, de um lado a outro do mapa.
— As cavernas são conectadas — falei lentamente, traçando os pontos dos mapas, marcando as entradas. — Você procurará todos os dias por ele e nunca irá encontrá-lo, por que ele se move por passagens subterrâneas.
— Brilhante, Roza — Dimitri murmurou em aprovação.
Henry parecia assustado.
— Como você sabe?
Dei de ombros.
— É a única coisa que faz sentido — folheei os papeis. — Você tem algum mapa do subsolo? Alguém já fez um... Sei lá... Estudo geográfico, ou algo assim?
Parece que toda representação que havia da área estava ali. Imagens de satélite, desenhos topográficos, análises minerais... Tudo, menos um vislumbre do que acontecia abaixo da superfície.
Henry abanou a cabeça.
— Não — ele admitiu timidamente. — Eu não tenho nada disso. Então, como se quisesse livrar o lado dos Alquimistas e seus mapas meticulosos, ele acrescentou: — Provavelmente ninguém nunca fez uma análise assim. Se existisse, nós teríamos.
— Isso será uma desvantagem — eu ponderei.
— Não tanto — Dimitri falou, terminando seu café. — Eu tenho uma ideia, e não acho que precisaremos descer até o subsolo para isso. Principalmente com Mark.
Eu conhecia bem aquele olhar que ele tinha e senti a eletricidade correr entre nós. Uma das coisas que nos atraiu foi o nosso mútuo amor pela emoção e pelo perigo. Não que buscássemos isso constantemente, mas quando havia necessidade, sempre estávamos prontos para responder. Senti que a faísca entre nós se acendera agora que a tarefa se tornava mais próxima e, de repente, tive uma boa noção de qual era o seu plano.
— Manobra ousada, camarada — provoquei.
— Não para os seus padrões — ele retrucou.
Henry olhou entre nós, totalmente perdido.
— Do que vocês estão falando?
Dimitri e eu apenas sorrimos.
É claro que não havia muitos sorrisos quando saímos no amanhecer do dia seguinte.
A família de Dimitri tinha uma conflitante mistura de confiança e nervosismo. Aparentemente, a premonição de Yeva dizia que a vitória de Dimitri estava garantida. No entanto, nem suas irmãs e nem sua mãe estavam despreocupadas por mandá-lo enfrentar um Strigoi velho e poderoso, com um longo histórico de mortes. As mulheres o cobriram de abraços e desejos de boa sorte. Em todo o tempo, Yeva manteve seu comportamento e seu olhar presunçoso de sabe tudo.
Mark estava conosco, parecendo firme e pronto para a batalha. Hanry havia dito que cabia aos dampiros “locais” combater o Rei de Sangue, mas isso era relativo, já que as cavernas estavam a cerca de seis horas de carro dali. Nós éramos os mais próximos, já que as cavernas ficavam em uma área remota e obscura, com pouca civilização em volta. De fato, parte do caminho que corremos foi feito em uma estrada em péssimas condições.
Chegamos às cavernas perto do meio-dia, conforme tínhamos planejado. Era um lugar desolado, realmente apenas um pequeno ponto, diante da elevação próxima dali. Era difícil de competir com as grandes montanhas que se erguiam para o leste. Mesmo assim, ainda era mais elevado e mais íngreme do que as terras ao redor, com lados rochosos e penhascos, que exigiriam que passássemos a pé. Nenhuma das cavernas era visível de onde paramos o carro, mas uma trilha pequena e gasta serpenteava por entre alguns dos desfiladeiros.
Pelo que eu tinha visto nos mapas de Henry, estávamos no coração do complexo.
— Nada como uma escalada em rocha — falei alegremente, colocando minha mochila nas costas. — Isso bem que podia ser uma excursão de férias, se não houvesse, vocês sabem, o risco potencial de morrermos.
Mark levou a mão acima dos olhos, evitando o sol enquanto considerava a mim e a Dimitri.
— Algo me diz que vocês são o tipo de pessoa cujas férias sempre acabam desta maneira.
— É verdade — Dimitri concordou, seguindo pela trilha. — Além do mais, estamos seguros hoje. Temos a garantia da minha avó, lembram?
Revirei meus olhos, percebendo a brincadeira em sua voz. Dimitri podia amar e venerar a sua avó, mas eu sabia que ele não estava contando com uma profecia vaga para dar esta tarefa como cumprida. Sua fé estava na estaca de prata que ele carregava no cinto.
O caminho começou fácil, mas logo se tornou um desafio, se tornando íngreme, com vários obstáculos no percurso. Subimos evitando as pedras, enfrentando várias partes muito difíceis de passar, nos forçando a nos segurar nos lados rochosos. Quando chegamos aonde, aparentemente, era o centro do complexo, fiquei surpresa ao constatar o quão elevado era. Falésias se erguiam à nossa volta, formando uma espécie de fortaleza.
Aquilo me trouxe um sorriso misturado com tranquilidade. Eu não me sentia cansada – dampiros eram mais resistentes que os demais – mas eu estava feliz por termos chegado ao nosso destino. E foi ali que nós paramos. Nós sentamos no chão, espalhando o conteúdo das nossas mochilas, tudo o que precisávamos para passar bem o resto do dia.
Apesar do vento que soprava ali em cima, a temperatura era o de um verão quente, tornando a cena quase prefeita para um piquenique. Era verdade que haviam muitas rochas irregulares e vegetações dispersas, quase idílicas, mas nós abrimos um manto e almoçamos uma fabulosa comida preparada por Olena.
Quando terminamos, eu me deitei ao lado de Dimitri, enquanto Mark talhava um pedaço de madeira. Nós mantivemos uma conversa fiada. Isso também era parte do plano. Depois que Henry falou que humanos aventureiros iam à caça e acabavam mortos, percebemos que esse foi o erro: entrar e ficar preso dentro das cavernas as quais o tal do Rei de Sangue obviamente conhecia melhor que nós. Nós não faríamos isso. Ficaríamos a céu aberto, sem fazer qualquer esforço para esconder a nossa presença. Se Strigoi adoravam o sangue humano, adoravam ainda mais o sangue Moroi e dampiro. Não havia como um Strigoi ser capaz de nos ignorar em seu próprio território. Se a nossa invasão não o trouxesse para fora, a atração pelo nosso sangue certamente o faria. Ele viria até nós assim que a noite caísse, e nós lutaríamos contra ele à nossa maneira.
— Mark, você e Oksana deveriam vir para os Estados Unidos — falei. —Lissa adoraria conhecê-los e conversar sobre o espírito. Muita gente gostaria.
Mark não tirou os olhos de sua escultura.
— Esse é o problema — disse ele, bem-humorado. — Estamos preocupados com o que as pessoas fariam, agora que muitos estão se interessando pelo espírito. Nós não queremos nos tornar experiências científicas.
— Lissa não deixaria que isso acontecesse — falei com firmeza. — E pense nas coisas incríveis que poderíamos aprender. O espírito parece ser capaz de fazer coisas novas todos os dias.
Antes que eu terminasse de falar, minha mão encontrou a de Dimitri. Ao salvá-lo, o espírito tinha feito a coisa mais maravilhosa que podia, bem diante dos meus olhos.
— Veremos — disse Mark. — Oksana gosta de privacidade, mas eu sei que ela também tem curiosidade sobre...
Dimitri saltou de sua posição de descanso, instantaneamente tenso e focado, daquele jeito dele. Mark havia ficado em silêncio assim que Dimitri se contraiu, e eu também tinha me levantando. Minha mão agarrou instintivamente a estaca e vi os dois fazerem o mesmo. Apesar disso, meu lado lógico sabia que não era necessário – não enquanto estivéssemos sob a luz do dia.
O olhar de Dimitri caiu em uma pilha de pedregulhos, perto do penhasco. Ele fez um sinal, apontando o seu ouvido. Mark e eu acenamos em compreensão. Olhando para o chão, para um dos mapas de Henry que eu havia deixado aberto, imediatamente reconheci a formação rochosa que Dimitri mostrava. Ela era grande e ampla, com algo que parecia ser uma pequena falha entre a rocha e o penhasco. Se havia alguém escondido ali nos espionando, seria possível esgueirar-se por trás e pegar o espião de surpresa.
Fiz um gesto indicativo para mim e apontei para a formação de cavernas do mapa. Dimitri balançou a cabeça negativamente e apontou para ele mesmo. Eu olhei para ele, começando a protestar, mas Dimitri gesticulou para mim e Mark. Daquela forma estranha que tínhamos de, às vezes, pensar nas mesmas coisas, imediatamente soube o que ele estava dizendo. Eu e Mark estávamos conversando quando Dimitri ouviu o som que o assustou. Era necessário continuar a conversa, a fim de manter o disfarce diante daquela ameaça em potencial.
Relutante, cedi a Dimitri. Ele se esquivou para longe, silencioso como um gato. Eu me virei para Mark, tentando lembrar sobre o que nós estávamos conversando. Os Estados Unidos – eu estava tentando convencê-lo a nos visitar por alguma razão. Falar. Eu precisava falar e criar alguma distração. Então, soltei freneticamente a primeira coisa que me veio à mente.
— Então, sim, Mark... Se você, hum, viesse nos visitar, poderíamos sair para comer e você poderia conhecer a culinária americana. Sem repolho — dei uma risada inquieta, tentando não olhar para Dimitri, que se esgueirava por um canto rochoso. — Poderíamos, sabe, ir comer cachorro-quente. Não se preocupe. Não é um cachorro de verdade. Só no nome. É feito de um tipo de bolo de carne com pão – então você cobre com um monte de outras coisas e...
— Eu sei o que é um cachorro quente — Mark interrompeu, seu tom era leve, para o bem do nosso observador, mas sua estaca tinha sido substituída por uma faca.
— Você sabe? — perguntei, verdadeiramente surpresa. — Como?
— Nós não somos tão isolados assim. Temos TV e filmes. Além do mais, eu já saí da Sibéria, sabe. Já fui para os Estados Unidos.
— Sério? — eu não tinha conhecimento disso e queria saber um pouco mais sobre esta história. De verdade. — Você tentou uma carroça de cachorro quente?
— Não — seus olhos estavam fixos onde Dimitri havia desaparecido, mas logo ele voltou-se para mim. — Me ofereceram um... Mas não parecia tão apetitoso.
— O quê? — exclamei. — Que blasfêmia. É delicioso.
— Eles não são feitos de carne de animal prensada? — ele soltou.
— Bem, sim... Acho que sim, mas continua sendo salsicha.
Mark balançou a cabeça.
— Eu não sei. Parece que tem algo de errado com o cachorro quente.
— Algo errado? Acho que você quis dizer tudo certo. Eles são como...
Minha indignação foi interrompida por um grito, lembrando-me que o meu propósito ali não era defender um dos melhores alimentos do universo. Mark e eu nos movemos como um, ambos correndo na direção das pedras, fonte do ruído. Lá encontramos Dimitri pressionando contra o chão um cara vestindo jaqueta de couro e jeans desgastados que se contorcia. Eu não podia dizer muito sobre ele, pois Dimitri estava apertando o rosto dele contra o chão sujo. Vendo-nos, Dimitri relaxou um pouco, permitindo que o cara olhasse para cima. Foi quando pude ver que ele tinha mais ou menos a minha idade – e era humano.
Ele olhou para mim e Mark, mais precisamente para as nossas estacas de prata. Com os olhos cinza-azulados arregalados, o cativo começou a balbuciar algumas palavras em russo. Mark franziu a testa e fez uma pergunta, mas não abaixou sua estaca. O humano respondeu, soando quase em pânico. Dimitri fez um ar de zombaria e o soltou completamente. O humano se soltou, caindo de bunda na terra. Mark fez um comentário em russo e Dimitri respondeu com uma risada.
— Por favor, será que alguém pode me dizer o que está acontecendo? — exigi. — Em inglês.
Para a minha surpresa, não foram meus amigos quem responderam.
— Você... Você é americana! — o garoto exclamou, olhando para mim com admiração. Seu sotaque era bastante carregado. — Eu sabia que a fama do Rei de Sangue tinha se espalhado, mas não sabia que já tinha ido tão longe.
— Bem, não foi. Não exatamente — falei. Percebi que Dimitri e Mark haviam guardado as suas estacas. — Coincidiu de eu estar pelas redondezas.
— Eu já lhe disse — Dimitri se dirigiu ao humano. — Este não é lugar para você. Vá embora.
O garoto negou com a cabeça, fazendo seus cabelos loiros parecerem ainda mais desarrumados.
— Não! Nós podemos trabalhar juntos. Estamos todos aqui pela mesma razão. Queremos matar o Rei de Sangue.
Olhei de forma questionadora para Dimitri, mas ele não demonstrou nada.
— Qual o seu nome? — perguntei.
— Ivan. Ivan Grigorovitch.
— Ivan, eu sou Rose, nós apreciamos a sua oferta de ajuda, mas esse é um assunto nosso. Não há necessidade de você ficar por aqui.
Ivan parecia cético.
— Vocês não pareciam ter tudo sob controle. Parecia mais que estavam fazendo um piquenique.
Reprimi uma careta.
— Nós estávamos nos preparando para entrar em ação.
O rosto dele se iluminou.
— Então eu cheguei na hora certa.
Mark suspirou, claramente sem paciência para isso.
— Garoto, isso não é uma brincadeira. Você tem alguma ideia do que seja isso? — ele puxou a estaca de prata novamente, fazendo com que ela refletisse a luz.
Ivan ficou boquiaberto.
— Eu acho que não. Deixe-me adivinhar. Você tem uma estaca de madeira, certo?
Ivan corou.
— Bem, sim, mas eu sou muito bom.
— Muito bom em tentar se matar — Mark declarou. — Você não tem habilidades ou armas para isso.
— Ensinem-me — Ivan pediu ansiosamente. — Eu já disse que estou disposto a ajudar. Eu sempre sonhei com isso – estar com famosos caçadores de vampiros.
— Esta não é uma excursão de campo — Dimitri falou. Como Mark, ele não se dirigiu mais a Ivan com diversão. — Se você não deixar essa área agora, nós mesmos iremos lhe expulsar.
Ivan saltou aos seus pés.
— Eu posso ficar... Eu posso ficar... Como você pode saber que não precisará da minha ajuda? Eu conheço tudo sobre vampiros. Ninguém da minha aldeia leu tanto sobre isso como eu.
— Vá — Dimitri e Mark falaram ao mesmo tempo.
Ivan se foi. Nós três observamos quando ele passou pelos obstáculos rochosos, a fim de voltar para a estrada principal.
— Idiota — murmurou Mark, colocando sua estaca de volta na cintura e caminhando para o lugar onde estava sentado antes.
Depois de alguns momentos, eu e Dimitri o seguimos.
— Eu me sinto mal por ele — comentei. — Ele parecia tão... Eu não sei, entusiasmado. Mas também começo a ver por que Henry está pirando tanto. Se todos os humanos especialistas em vampiros que vem até aqui são como ele, entendo o porquê deles estarem sendo mortos.
— Exatamente — Dimitri falou, com seu olha fixo na figura de Ivan que se distanciava. Estava quase impossível de vê-lo agora, através do afloramento rochoso. — Esperamos que ele volte para a sua aldeia e invente uma história fantástica de como ele matou sozinho o Rei de Sangue.
— É verdade — concordei. — O fato de que nós teremos feito isso fará com que todos acreditem nele quando perceberem que o vampiro não existe mais.
Ainda assim, acomodada no nosso acampamento improvisado, eu não conseguia esquecer o olhar vidrado de Ivan e nem como ele tinha falado a respeito de matar o Rei de Sangue. Como tantas pessoas podiam ter uma atitude tão ingênua? Isso era frustrante. Eu cresci com a ideia de que lutar contra Strigoi era um dever, uma responsabilidade. Não algo para ser tratado como uma brincadeira.
Eu e Mark finalmente retomamos nosso debate sobre cachorros quentes, para grande diversão de Dimitri. Ele tendia a concordar com Mark, o que achei chocante. Só me restava culpar a culinária de onde eles tinham sido criados por tais pontos de vistas equivocados.
Apesar da conversa fluir fácil, eu podia sentir a tensão em todos nós à medida em que o sol começava a se mover para o horizonte. Voltamos a segurar nossas estacas de prata, e mesmo antes de a escuridão cair, nossos olhos analisavam constantemente os arredores.
As sombras cobriram as paredes de pedra em volta de nós, transformando-as em algo misterioso e ameaçador. Nós tínhamos trazido duas lanternas elétricas e elas ajudaram a diminuir a escuridão. Sendo dampiros, nós não precisávamos tanto de luz como os seres humanos, mas ela ainda era necessária. As lanternas apenas serviam para ajudar nossos olhos sem cegar a nossa visão periférica, como aconteceria com uma fogueira. Logo, o céu estava completamente escuro e nós sabíamos que era a hora na qual os Strigoi podiam andar livremente. Ninguém duvidava que ele viria até nós. A questão era se ele esperaria a nossa guarda baixar ou se ele atacaria de repente.
Com o passar do tempo, a primeira opção era a mais provável.
— Você sente alguma coisa? — perguntei a Mark. Aqueles que eram beijados pelas sombras sentiam náuseas quando Strigois se aproximavam.
— Ainda não — ele murmurou de volta.
— Deveríamos ter trazidos marshmallows — eu brinquei.
— É claro, neste caso teríamos que ter feito uma fogueira, com certeza...
Um grito ensurdecedor rasgou a noite. Com um pulo, fiquei de pé, estremecendo. O problema em se ter uma audição superior era que qualquer ruído se tornava realmente alto.
Meus companheiros também se levantaram, com suas estacas prontas.
Mark franziu o cenho.
— Algum truque do Strigoi?
— Não — respondi, indo na direção que tinha vindo o grito. — Isso foi Ivan.
Mark xingou em russo, algo que eu tinha acostumado ouvir Dimitri falar.
— Ele não foi embora.
Dimitri segurou meu braço, me detendo.
— Rose, ele está em uma das cavernas.
— Eu sei — eu já tinha percebido isso. Eu me voltei para Dimitri. — Mas que escolha nós temos? Não podemos deixá-lo lá.
— É exatamente isso o que nós deveríamos evitar — Dimitri falou severamente.
— E provavelmente é uma armadilha preparada pelo Rei de Sangue — acrescentou Mark, na mesma hora em que outro grito soou. — Ele nos quer, mas é inteligente demais para vir nos pegar.
Fiz uma careta, sabendo que Mark estava certo.
— Mas isso também significa que ele não vai matar Ivan imediatamente. Só vai mexer com ele, para nos atrair até lá dentro. Há uma chance de podermos salvar Ivan — atirei minhas mãos para o alto quando ninguém respondeu. — Vamos lá! Como vocês podem deixar um garoto destreinado morrer?
Não, claro que eles não podiam.
Dimitri suspirou.
— Este é o lugar que vimos nos mapas das cavernas. É a melhor posição para uma emboscada.
— Não seja tão meticuloso, camarada — falei, voltando a caminhar em direção à caverna. — Nós podemos ir pela entrada principal da caverna. Pelo menos até onde Mark nos der o alerta.
Uma discussão começou entre nós para decidir quem lideraria e quem ficaria na retaguarda, levando a lanterna. Dimitri e Mark vieram com argumentos do porquê de eles irem à minha frente. Mark alegou que era por ele ser mais velho e sua vida mais dispensável, o que era ridículo. Já o raciocínio de Dimitri era de que ele estaria seguro, graças à profecia de Yeva. Isso tinha sido ainda mais ridículo, e eu sabia que ele só havia falado isso para me proteger. No entanto, no final das contas, acabei vencida, tendo que ir atrás deles.
A mais profunda escuridão da noite nos envolvia a cada passo que dávamos caverna adentro. A lanterna ajudava um pouco, mas apenas iluminava uma curta distância à nossa frente, nos orientando para o desconhecido. Nenhum de nós falou, mas eu tinha a sensação de que todos pensavam a mesma coisa. Os gritos tinham parado. Isso podia significar que Ivan estava morto. Era certo que o Rei de Sangue queria que nós entrássemos o máximo possível nas cavernas.
O problema se apresentou quando chegamos a uma bifurcação do túnel. Ela não só significava que tínhamos que escolher um caminho, como também significava que o Rei de Sangue tinha uma chance potencial de nos encurralar.
— Por qual caminho? — murmurou Dimitri.
Olhei para as duas opções. Um lado era mais estreito, mas isso não dizia nada. As linhas fortes do rosto de Mark marcavam seus pensamentos, e então ele indicou o túnel mais largo.
— Este. Ainda é fraco, mas posso sentir que ele está lá.
Nós três corremos para o lado que ele indicou, que foi crescendo mais e mais até terminar em um amplo ambiente, com outros três túneis que o alimentavam. Antes que qualquer um de nós tivesse a oportunidade de perguntar por onde seguiríamos, algo forte bateu em mim, me derrubando. A lanterna voou da minha mão, rolando pelo chão, parando milagrosamente intacta. O instinto me fez seguir a lanterna. Eu não tinha ideia de onde meu inimigo tinha vindo, mas rolei pelo chão da caverna. Esta tinha sido uma boa escolha, pois meio segundo depois, tive o primeiro vislumbre do Rei de Sangue.
As histórias eram verdadeiras. Ele era bastante velho. É claro, a aparência dos Strigoi não mudavam com o tempo, mas de relance, este cara parecia alguém em torno dos quarenta anos. Como todos os Strigoi, ele tinha a pele assustadoramente branca e o olhar mortal. Se a iluminação fosse melhor, eu tinha certeza de que também poderia ver o anel vermelho em seus olhos. Ele tinha um longo bigode e seus cabelos pretos desciam até os ombros, com algumas mechas grisalhas, parecendo alguém que você via na época imperial da Rússia.
Mas era mais do que um corte de cabelo antiquado que marcava a sua idade. Havia algo naquele Strigoi que você podia sentir, como se uma maldade antiga estivesse incrustada em seus ossos. Além disso, quanto mais velho, maiores sua velocidade e força. E, cara, como esse sujeito era rápido.
Ele se lançou para o lugar onde eu tinha caído, batendo com uma força suficiente para quebrar o meu pescoço. Vendo que eu tinha escapado, ele não perdeu tempo em me perseguir novamente, mas fugi correndo. Eu era rápida, mas não tão rápida quanto ele, então ele conseguiu agarrar a manga da minha blusa. Antes que ele conseguisse me puxar para si, Dimitri e Mark partiram atrás dele, forçando o Rei de Sangue a me soltar.
Meus companheiros eram muito bons – estavam entre os melhores – mas exigiu cada pedaço das suas habilidades se manterem no mesmo ritmo dele. Ele se esquivava a cada golpe sem esforço, com a facilidade de um dançarino. Eu pulei, ficando em pé, pronta para ajudar, quando ouvi um gemido vindo de um dos túneis. Ivan. Eu queria entrar na luta, mas Dimitri e Mark estavam apenas bloqueando os ataques do Rei de Sangue, forçando o grupo a passar para o outro lado me colocando à margem deles e do Strigoi. Sem uma abertura clara para mim, tomei a decisão de resgatar um inocente, confiando nas habilidades de Mark e Dimitri.
No entanto, antes de entrar em uma das ramificações do túnel, não pude deixar de lançar um olhar inquieto para Dimitri. Mais uma vez lembrei-me que um tempo atrás, tinha sido em uma caverna assim que ele tinha sido mordido e forçosamente transformado em um Strigoi. O pânico começou a tomar conta de mim, juntamente com uma necessidade quase irracional de me atirar na frente de Dimitri.
Não, eu disse a mim mesma. Dimitri e Mark podem lidar com isso. Eles são dois contra apenas um Strigoi. Não é como daquela vez. Outro gemido de Ivan me incentivou a entrar em ação. Até onde eu sabia, ele podia muito bem estar sangrando até a morte em algum lugar. Quanto mais cedo eu o ajudasse, mais chances ele teria de sobreviver.
Sair atrás de Ivan significava que eu teria que abandonar a lanterna, já que Dimitri e Mark precisavam mais dela do que eu. Além disso, o túnel era bastante estreito, de forma que eu podia tocar ambos os lados com as mãos, e isso me daria um bom senso de direção.
— Ivan? — eu chamei, com um pouco de medo de tropeçar nele.
— Aqui — a voz respondeu. Estava surpreendente como estava perto de mim.
Diminui meu ritmo, tateando à minha frente na esperança de senti-lo. Momentos depois, toquei em um cabelo e uma testa.
— Ivan, você está bem? — perguntei. — Pode ficar de pé?
— Eu... eu acho que sim...
Eu esperava que sim. Incapaz de vê-lo, eu não tinha ideia se havia sangue jorrando bem na minha frente. Encontrei a sua mão e o ajudei. Ele se apoiou em mim, mas parecia ter o controle de suas pernas, o que considerei como um bom sinal. Devagar, fizemos o caminho de volta, com estranhas manobras pelo túnel estreito, para onde a luta se travava. Quando chegamos, me desanimei em ver que o Rei de Sangue ainda estava vivo.
— Descanse aqui — falei para Ivan, encostando-o em uma parede. A condição dele não era tão crítica quanto eu temia. Ele parecia ter sido – literalmente – atacado diversas vezes pelo Rei de Sangue, mas nenhum de seus cortes ou contusões pareciam graves. Eu esperava que ele se sentasse para que eu pudesse me focar na luta, mas em vez disso, os olhos de Ivan se arregalaram quando ele viu a batalha. Com uma energia que eu não acreditava que pudesse ter, ele se jogou para frente, com a sua estaca de madeira ridícula, apontando para as costas do Rei de Sangue.
— Não! — eu gritei, correndo atrás dele.
Sua estaca não conseguiu perfurar a pele, é claro. Ela nem sequer conseguiu ferir o Rei de Sangue. O que resultou, no entanto, foi que o Strigoi deu um segundo de pausa na luta, arremessando Ivan para longe. Ele atravessou a caverna, batendo com força contra uma parede. Foi o tempo de uma batida de coração. Dimitri e Mark agiram com uma eficiência impecável, indescritível. Dimitri serpenteou um chute nas pernas do Rei de Sangue, enquanto Mark avançava, afundando a estaca no coração do velho Strigoi. O Rei de Sangue congelou. Nós prendemos coletivamente a nossa respiração, enquanto o choque cruzava o seu rosto. Então a morte o levou e o seu corpo caiu para frente.
Eu respirei fundo e imediatamente olhei para Dimitri, querendo verificar se ele estava bem. Mas é claro que ele estava. Ele era o meu bravo deus da batalha. Seria preciso mais do que um Strigoi superresistente – ainda por cima com um nome melodramático – para derrubá-lo.
Mark aparentava igualmente bem.
Do outro lado da caverna, Ivan parecia atordoado, mas ileso. Ele nos observava com admiração e os seus olhos brilharam quando encontrou o meu olhar. Ele levantou a sua estaca de madeira, com uma espécie de saudação simulada e sorriu.
— De nada, — ele falou.
Descobrimos mais tarde que uma das razões por Ivan não ter deixado a área quando mandamos – além do seu idiota senso de heroísmo – foi que ele não sabia por onde voltar. Alguns de seus amigos o tinham deixado ali, prometendo voltar dentro de dois dias para ver se ele estava vivo ou morto. Nós não podíamos deixá-lo lá naquele estado tão surrado, então tivemos que fazer uma viagem de duas horas para levá-lo para casa. O tempo todo, Ivan ficou se gloriando de ter salvado a Dimitri e a Mark bem na hora certa e que eles teriam morrido se não fosse por ele. Lembrá-lo de que era pura sorte estar vivo agora parecia inútil. Nós deixamos que ele falasse e ficamos aliviados ao chegar à sua vila, um lugar que fazia Baia parecer a cidade de Nova York.
— Às vezes eu ouço relatos de outros vampiros — ele falou, enquanto descia do carro. — Se vocês quiserem, eu deixo vocês se juntarem a mim, da próxima vez.
— Impressionante — respondi.
A única pessoa mais irritante que Ivan era Yeva. Depois de cinco minutos com ela, eu já estava desejando estar novamente no carro com Ivan.
— Então — disse ela, sentada na sua cadeira de balanço na casa dos Belikovs, como se fosse um trono. — Parece que eu estava certa.
Desabei no sofá ao lado de Dimitri, sentindo meus ossos cansados e desejando poder dormir por umas doze horas. Mark já tinha ido para casa de Oksana. Mesmo assim, eu ainda tinha bastante coragem para argumentar de volta.
— Não, exatamente — repliquei, tentando manter um sorriso de satisfação em meu rosto. — Você disse que Dimitri mataria o Rei de Sangue. E não foi ele. Foi Mark.
— Eu disse que uma pessoa que tinha trilhado o caminho da morte o faria — ela devolveu. — Mark também passou pela morte e reviveu.
Abri a minha boca, começando a negar, mas ela tinha um ponto.
— Tudo bem, mas quando Victoria disse que Dimitri o faria, você não negou.
— Eu não confirmei, tampouco.
Eu gemi.
— Isso é ridículo! Essa previsão não significou nada. Inferno, ela poderia ter sido aplicada a Ivan, já que ele quase morreu por causa do Rei de Sangue.
— Minhas profecias mostram muitas coisas — respondeu Yeva, que era exatamente o mesmo que não responder nada. — A minha próxima é particularmente interessante.
— Uh-uh. Deixe-me adivinhar. “Uma jornada”. Isso poderia significar eu e Dimitri voltando para casa. Ou Olena indo ao supermercado.
— Na verdade — disse Yeva. — Eu vejo um casamento no futuro.
Victoria, que ouvia a conversa com diversão, bateu palmas.
— Oh! Rose e Dimka!
Suas irmãs acenaram com excitação. Eu olhei incrédula.
— Como você pode dizer isso? Pode significar qualquer coisa também. Alguém na cidade pode estar casando agora. Ou talvez possa ser Karolina – vocês não disseram que ela tem um namorado sério? Se formos eu e Dimitri, será somente daqui há alguns anos, o que você certamente afirmará que previu, já que falou que seria no futuro.
Ninguém mais me ouvia, no entanto. As mulheres Belikov já conversavam animadamente, fazendo planos, especulando se o casamento seria aqui ou nos Estados Unidos, e como seria bom ver Dimitri “finalmente sossegado”.
Eu gemi novamente, me inclinando contra ele.
— Inacreditável.
Dimitri sorriu e passou o braço em volta de mim.
— Você não acredita em destino, Roza?
— Claro — respondi. — Só não nas previsões vagas da sua avó maluca.
— Não soa maluco para mim — ele brincou.
— Você é tão maluco quanto ela.
Ele beijou o topo da minha cabeça.
— Eu tinha a sensação que você diria isso.

33 comentários:

  1. (๑•ั็ω•็ั๑)

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    1. Viciada nos emoji, hein, Madallyn?? kkkk

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    2. Kkkkk, é! Acho alguns tãããããão fofos *-* uma pena que só os tenha no celular...

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  2. Eu amo esse casal. O Dimitri e a Rose tem que se casar logo e eu quero vários contos sobre os dois no futuro. Muito fofos!!

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  3. Perfeito *>* amo esse livro kkkk tem outra serie dessa autora karina?

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    1. Sim, tem Bloodlines... mas não aqui no blog, pelo menos não ainda

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  4. Ownt!! Preciso dizer q eu amei??? Own dnv! Eu amei *-*

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  5. Precisava disso, estava deseperada sem saber como eles estavam, Roza e Dimka amo

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  6. ROZA & DIMKA LOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVELOVE
    PERFEITOS

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    1. Néeee <3 esses dois são perfeitos juntos! *-*

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  7. Agora , oque farei da minha vida ;----;

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  8. PRECISO de Bloodlines Karina acabe com meu sofrimento horrível e PFV, PFV, PFV, poste!!! estou sofrendo tanto mais tantoooooo
    EU AMO ESSE CASAL, mas como a Rose disse tem q ter um 2 no começo da dade dela, uns 20 ta bom, CASEM LOGO!

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    1. Bloodlines perdeu na enquete, Vitoroa, não vai dar pra ppstar edde ano :/

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    2. Karina na sua opinião qual é a melhor ?
      To querendo ler Bloodlines ... Mas não sei se animo.

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    3. Bloodlines é muito bom também, Lu, amo as duas igualmente! VA teve uns livros que não gostei tanto, mas Bloodlines adorei todos os volumes. Leia sim :3

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  9. Pronto, Ágora posso morrer em paz.
    A não ser que eu decida reler essa serie Dnv ♥☆

    Melhor série que eu já li.

    ⓥⓐⓜⓟⓘ®ⓔ ⓐⓒⓐⓓⓔⓜⓨ

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  10. Ai eu me pergunto o que eu vou fazer da vida se rose e dimitri

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  11. Ellen Alencar- filha de Atena,Audaciosa,divergente,ex aluna da Grifinória,selecionada,caçadora de sombras,dampira.11 de fevereiro de 2016 22:27

    T.T acabou!

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  12. tem mais algum livros depois desse ??????????????????

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  13. Gabrielly.nunes007.con13 de março de 2016 23:49

    Agora a vida não tem mais sentido Rose e Dimitri perfeitos #vampireacademy

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  14. Tem mais alguma continuação desse livro? Pfvr Diga que sim

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  15. Acabo ómeuDeus e agora morri 😢😥😩😫😖

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  16. NÃÃÃÃÃOOOOON ACREEEDIITOOO QUEEEEEE ACAAABOUUUU!!! Rose e dimka, o q vou fazer agora???

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  17. Karinaaa sei que não tem nada haver com essa saga maravilhoooosa, mas a saga do tigre é boa? estou querendo ler, mas não sei se é boa

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    1. Ahn, eu não gosto muito, mas a maior parte das pessoas adora

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  18. Ivan Grigorovitch
    GRIGOROVITCH? acho q eu conheço um sobre nome parecido!
    PARA UM BEM MAIOR!
    HP!!! <3

    AMEI ESSA SERIE. TO PENSANDO O QUE FAZER AGORA?
    ;( AI meu coração!

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  19. Ohhh não creio que acabou😭😭😭😭😢😢😢😢 Rose & Dimit ri para sempre no meu ❤ 👏👏👏👏👏👏👏👏

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  20. Só sentir falta de um final para Jill, Adrian, Edd, entre outro. me deixou no espaço de como eles seguiram. queria que tivesse um bônus falando sobre eles.

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    1. Eles estão na saga seguinte, Bloodlines! ;)

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  21. Vai terminar assim msm?Yeva vê casamento e acaba :'(.Vô sentir falta,,Rose sua maluca,Dimka seu lindo.thau zentinha,,até a prozima série. -Manuh

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