28 de dezembro de 2015

Amargor da Língua


Depois que uma missão da Academia dá errado, Simon é levado pelas fadas. Ele acorda numa jaula (por que é sempre ele que é preso?) e tem que escapar do País das Fadas contando com seu único aliado, o antigo Caçador de Sombras e personagem dos Artifícios das Trevas, Mark Blackthorn.



O sol brilhava, os pássaros cantavam, e era um belo dia na Academia dos Caçadores de Sombras.
Bem, Simon tinha certeza de que o sol estava brilhando. Havia uma leve luminescência no ar em seu quarto subterrâneo compartilhado com George, lançando um brilho agradável sobre o limo verde que cobria as paredes.
E ok, ele não podia ouvir os pássaros de seu quarto nas masmorras, mas George voltou cantando do chuveiro.
— Bom dia, Si! Vi um rato no banheiro, mas ele estava tirando uma soneca agradável e nós não nos incomodamos um ao outro.
— Ou o rato estava morto de uma doença infecciosa que surgiu por causa do nosso sistema de água — Simon sugeriu. — Podemos estar bebendo água exterminadora de ratos durante semanas.
— Ninguém gosta de um Garoto Sombrio — George repreendeu. — Nem de um Si Rabugento. Nada de mal-humorados. E também nada de...
— Entendi o teor geral do seu discurso, George — disse Simon. — Oponho-me fortemente para ser referido como mal-humorado agora. Especialmente quando na verdade me sinto bastante bem-humorado. Vejo que está ansioso para o seu grande dia?
— Tome uma chuveirada, Si — George insistiu. — Comece o dia refrescado. Talvez arrume o seu cabelo um pouco. Não iria matá-lo.
Simon balançou a cabeça.
— Há um rato morto no banheiro, George. Eu não vou ao banheiro, George.
— Ele não está morto. Está apenas dormindo. Tenho certeza disso.
— Otimismo sem sentido é como a praga começa. Pergunte aos camponeses medievais da Europa. Oh, espere, você não pode.
— Eles eram um bando alegre? — perguntou George ceticismo.
— Tenho certeza de que eles eram muito alegres perante toda a praga — respondeu Simon.
Ele sentiu que estava realmente conseguindo bons argumentos, e que era apoiado pela história. Tirou a camiseta com que tinha dormido, que tinha os dizeres “Vamos lugar!” e abaixo em letras minúsculas “Nosso inimigo recua com argumentos astutos”. George acertou as costas de Simon com sua toalha molhada, o que fez Simon gritar.
Simon sorriu quando puxou o uniforme de seu guarda-roupa. Eles começariam o treinamento logo após o café da manhã, então ele poderia muito bem ir direto. Além disso, vestir todos os dias o uniforme masculino era uma vitória.
Ele e George tomar o café da manhã bem-humorados com o mundo.
— Você sabe, este mingau não é de todo ruim — comentou Simon, pegando uma colher.
George assentiu com entusiasmo, a boca cheia.
Beatriz parecia triste por eles, e possivelmente triste que os meninos fossem tão estúpidos em geral.
— Isto não é mingau — ela disse a eles. — São ovos mexidos.
— Oh não — George sussurrou baixinho, sua boca ainda cheia, a voz terrivelmente triste. — Ah não.
Simon deixou cair a colher e olhou para as profundezas de sua tigela com horror.
— Se são ovos mexidos...? — ele falou. — E não estou discutindo com você, Beatriz, estou só fazendo o que sinto ser uma pergunta muito razoável... se são ovos mexidos, porque são cinza?
Beatriz deu de ombros e continuou comendo, evitando cuidadosamente os grumos.
— Quem sabe?
Essa poderia dar uma canção triste, Simon supôs. Se são ovos, por que são cinza? Quem sabe, quem sabe? Ele por vezes ainda se encontrava pensando em letras de música, mesmo que estivesse fora da banda. Era certo que “Por que os ovos são cinza?” não seria um grande sucesso, mesmo no circuito moderno.
Julie pousou sua tigela na mesa ao lado de Beatriz.
— Os ovos são cinza — ela anunciou. — Não sei como eles fazem isso. Certamente, neste ponto, faz sentido eles não estragarem a comida às vezes. Toda vez, todos os dias, por mais de um ano? A Academia é amaldiçoada?
— Estive pensando que poderia ser — disse George fervorosamente. — Eu ouço um chocalho sobrenatural, às vezes, como fantasmas agitando suas correntes terríveis. Honestamente, eu espero que a Academia seja amaldiçoada, caso contrário provavelmente são criaturas nas tubulações — George estremeceu. — Criaturas.
Julie sentou-se. George e Simon trocaram um privado olhar satisfeito. Eles estavam contando quantas vezes Julie decidiu se sentar com os três, em vez de com Jon Cartwright. Atualmente eles estavam vencendo, sessenta por cento a quarenta.
Julie escolher sentar-se com eles parecia um bom sinal, uma vez que este era o grande dia de George.
Agora que os estudantes Caçadores de Sombras estavam em seu segundo ano, e nas palavras de Scarsbury “não totalmente sem esperança e susceptíveis a cortar suas próprias cabeças estúpidas”, eles tinham suas próprias missões ligeiramente mais importantes. Cada missão tinha um líder de equipe nomeado, e o líder ganhava o dobro de pontos se a missão fosse um sucesso. Julie, Beatriz, Simon e Jon já tinham sido líderes de equipe, e todos tiveram sucesso: a missão de todos foi realizada – demônios mortos, pessoas salvas, seres do Submundo quebrando a Lei penalizados severamente, mas de forma justa. De certa maneira, foi uma pena que essa missão de Jon tivesse ido tão bem, já que ele se gabara durante semanas, mas não puderam evitá-lo. Eles eram muito bons, Simon pensou, mesmo quando ele bateu na mesa de madeira, de modo a não dar azar. Não havia maneira de eles falharem.
— Sentindo-se nervoso, líder da equipe? — perguntou Julie.
Simon teve que admitir que às vezes ela poderia ser uma companhia inquietante.
— Não — respondeu George, e sob o olhar examinador de Julie: — Talvez. Sim. Você sabe, uma quantidade adequada de nervosismo, mas de uma forma legal, recolhida e sem pressão.
— Não acabe com tudo — disse Julie. — Eu quero uma pontuação perfeita.
Um silêncio constrangedor se seguiu. Simon consolou-se olhando para a mesa de Jon. Quando Julie o deixou, Jon passara a comer sozinho. Ao menos quando Marisol decidia que queria sentar com ele e atormentá-lo. O que, Simon observou, ela estava fazendo hoje. Pequena demônia. Marisol era hilariante.
Jon fez gestos urgentes pedindo ajuda, mas Julie estava de costas para ele e não viu.
— Não estou dizendo isso para assustá-lo, George — disse ela. — Esse é um benefício, obviamente. Esta é uma missão importante. Você sabe que as fadas são o pior tipo de seres do Submundo. Atravessar para o reino mundano e enganar esses pobres para que comam frutas das fadas não é brincadeira. Mundanos podem definhar e morrer depois de comê-las, você sabe. É assassinato, e assassinatos que quase nunca as atinge, porque no momento em que os mundanos morrem, as fadas estão muito longe. Você está levando isso a sério, certo?
— Sim, Julie — respondeu George. — De verdade, eu sei que assassinato é ruim, Julie.
O rosto de Julie franziu-se daquela forma alarmante que às vezes franzia.
— Lembre-se de que foi você que quase estragou a minha missão.
— Eu hesitei um pouco para enfrentar aquela criança vampira — George admitiu.
— Exatamente. Nada mais de hesitação. Como o nosso líder de equipe, você tem que agir por sua própria iniciativa. Não estou dizendo que você é ruim, George. Apenas o que você precisa para aprender.
— Não tenho certeza se alguém precisa desse tipo de discurso motivacional — apontou Beatriz. — Assustaria qualquer um. E é muito fácil assustar alguém como George.
George, que assistia tocado a galante defesa de Beatriz, parou de parecer ocado.
— Eu só acho que eles deveriam repetir o líder de equipe ocasionalmente — Julie resmungou, deixando que eles soubessem de onde toda essa hostilidade vinha. Ela espetou seus ovos cinza melancolicamente. — Eu fui tão boa.
Simon levantou as sobrancelhas.
— Você tinha um chicote e ameaçou me acertar na cabeça e no rosto se eu não fizesse o que você mandou.
Julie apontou a colher para ele.
— Exatamente. E você fez o que eu mandei. Isso é liderança, sim. Além do mais, eu não o acertei na cabeça e nem no rosto. Gentil, mas firme, esta sou eu.
Julie falou sobre a sua própria grandeza durante algum tempo. Simon se levantou para pegar mais um copo de suco.
— Que tipo de suco que você acha que é esse? — perguntou Catarina Loss, ao se juntar a ele na fila.
— De fruta — disse Simon. — Apenas fruta. Isso é tudo o que eles me dizem. Achei bem suspeito.
— Eu gosto de frutas — Catarina comentou, mas ela não parecia ter certeza. — Eu sei que você está dispensado da minha aula esta tarde. O que fará esta manhã?
— A missão é impedir as fadas de deslizar ao longo de suas fronteiras e se engajar em comércio ilícito — disse Simon. — George é o líder da equipe.
— George é líder da equipe? — perguntou Catarina. — Hm.
— Por que todo mundo está colocando George para baixo hoje? O que há de errado com ele? Não há nada de errado com George. Não é possível encontrar uma falha nele. Ele é um anjo escocês perfeito. Sempre compartilha os sanduíches que a mãe manda pra ele, e é mais bonito do que Jace. Pronto, falei. E não vou voltar atrás.
— Vejo que você está de bom humor — disse Catarina. — Tudo bem, então. Vá em frente, tenha um bom dia. Cuide do meu aluno favorito.
— Certo. Espere, quem seria esse?
Catarina fez um gesto de varrer com a mão que segurava o seu suco indeterminado.
— Se manda, Diurno.
Todo mundo estava animado para ir a outra missão. Simon aguardava com ansiedade, satisfeito por George. Mas estava principalmente animado porque depois da missão, ele tinha outro lugar para ir.

* * *

O Povo das Fada tinha sido visto num campo em Devon. Simon foi um animado para o Portal, esperando que houvesse tempo para ver caixas de correio vermelhas e beber cerveja em um pub inglês.
Em vez disso, a charneca acabou por ser um grande trecho de campo desnivelado, pedras e montes ao longe, sem caixas de correio vermelhas ou pubs à vista. Eles imediatamente receberam cavalos do aliado com a Visão que os esperava.
Campos, cavalos. Simon não tinha certeza da preocupação em deixar a Academia, porque esta era uma experiência idêntica.
As primeiras palavras que George falou enquanto seguiam montando pela charneca foram:
— Penso que seria uma boa ideia nos dividirmos.
— Como num... filme de terror? — perguntou Simon.
Julie, Beatriz e Jon lançaram-lhe olhares de incompreensão irritada. A expressão incerta de Marisol sugeria que ela concordava com Simon, mas ela não falaria nada, e Simon não queria ser o único contra a liderança de seu amigo. Eles cobririam mais território se se separassem.
Talvez fosse uma ótima ideia. Mais grama! Como poderia dar errado?
— Eu vou ser parceira de Jon — disse Marisol no mesmo instante, com um brilho em seus olhos escuros. — Eu gostaria de continuar a nossa conversa do café da manhã. Tenho muito mais coisas a dizer a ele sobre videogames.
— Eu não quero ouvir mais nada sobre videogames, Marisol! — estalou Jon, um Caçador de Sombras que odiava informações mundanas em torrencial.
Marisol sorriu.
— Eu sei.
Marisol tinha apenas completado quinze anos. Simon não tinha certeza de como ela descobrira que contar a Jon todos os detalhes sobre o mundo mundano seria um terrorismo psicológico eficaz. Sua maldade só tinha crescido durante o ano e mudou como Simon a conhecia. Simon tinha que respeitar isso.
— Eu e Si ficaremos juntos — disse George facilmente.
— Hum — concordou Simon.
Nem ele nem George eram Caçadores de Sombras ainda, e apesar de Catarina ajudá-los a ver através dos encantamentos, mundanos... e Caçadores de Sombras em treinamento... não eram tão fortemente protegidos contra o glamour das fadas como um Nephilim. Mas Simon não queria questionar a autoridade de George ou sugerir que não queria ser parceiro dele. Também temia ser parceiro de Julie e ser espancado na cabeça e no rosto.
— Ótimo — Simon terminou fracamente. — Talvez a gente possa se dividir, mas também ficar próximos o bastante para nos ouvir?
— Você quer separar, mas ficar junto? — perguntou Jon. — Não sabe o que as palavras significam?
— Você sabe o que as palavras “World of Warcraft” significam? — perguntou Marisol ameaçadoramente.
— Sim, eu sei — disse Jon. — Todos juntos seguindo o caminho, e não eu não sei, e não quero saber.
Ele impeliu seu cavalo para frente através da charneca. Marisol o seguiu. Simon olhou para a parte de trás da cabeça de Jon e se preocupou se ele iria muito longe.
Só que eles iam mesmo se separar. Estava tudo bem.
George olhou em volta para os membros restantes da equipe e pareceu chegar a uma decisão.
— Nós vamos ficar dentro da faixa de audição do outro e cobrir os campos, ver se encontramos alguma fada nos lugares que foram relatados. Vocês estão comigo, equipe?
— Estou com você até o fim, se ele não levar muito tempo! Você sabe que estou indo para o casamento de Helen Blackthorn e Aline Penhallow — disse Simon.
— Ugh, odeio casamentos — disse George simpatia. — Você tem que usar um terno de pinguim e ir sentar perto dos velhos, enquanto todo mundo se odeia secretamente por causa de alguma briga sobre os arranjos de flores. Além disso, tem a gaitas de foles. Quer dizer, eu não sei como são os casamentos de Caçadores de Sombras. Há flores? Há gaita de foles?
— Não posso te dizer ao certo agora — falou Beatriz. — Pense em Jace Herondale em um smoking. Na minha cabeça, ele se parece com um belo espião.
— James Bond — George contribuiu. — James loiro Blond? Ainda não gosto de roupas de pinguim. Mas não consigo vê-lo assim, Si.
Simon soltou uma mão das rédeas para apontar com orgulho para si mesmo, uma manobra que o teria feito cair de seu cavalo há um ano.
— Este pinguim vai num encontro com Isabelle Lightwood.
Basta dizer as palavras que Simon era impregnado com uma sensação de bem-estar. Em um mundo tão maravilhoso, como alguma coisa poderia correr mal?
Ele olhou para sua equipe: o grupo inteiro usando uniforme de mangas compridas contra o frio do inverno, figuras de preto com os arcos presos nas costas e a respiração formando nuvens brancas no ar frio, montando cavalos rápidos através dos campos em uma missão para proteger a humanidade. Seus três amigos ao seu lado, Jon e Marisol à distância. George, tão orgulhoso de ser o líder da equipe. Marisol, desdenhosa garota da cidade, que monta seu cavalo com graça fácil. Mesmo Beatriz e Julie, mesmo Jon, nascidos Caçadores de Sombras, pareciam um pouco diferentes para Simon, agora que eles estavam bem em seu segundo ano na Academia. Scarsbury lhes tinha afiado, Catarina os tinha ensinado, e até mesmo seus colegas da Academia haviam mudado. Agora, os nascidos Caçadores de Sombras cavalgavam com mundanos e realizava missões com eles como uma unidade, e a chamada escória conseguia se manter.
A charneca estava ficando verde, a linha de árvores à esquerda com suas folhas balançando como se estivessem dançando na brisa leve. A luz do sol era pálida e clara, brilhando sobre suas cabeças e roupas pretas iguais. Simon encontrou-se pensando, com carinho e orgulho, que eles seriam verdadeiros Caçadores de Sombras, depois de tudo.
Ele notou que, ao silencioso acordo mútuo, Beatriz e Julie persuadiram as montarias a irem mais rápido. Simon olhou à distância, onde podia ver Jon e Marisol indo mais longe e, em seguida, olhou de soslaio para costas de Julie e Beatriz. Sentiu novamente uma pontada de inquietação.
— Por que elas estão correndo à frente? — perguntou Simon. — Hum, sem querer dizer o seu trabalho, mas bravo líder da equipe, talvez seja melhor dizerem para não ir longe demais.
— Ah, deem-lhes um minuto — disse George. — Você sabe que ela meio que gosta de você.
— O quê?
— Não que ela vá fazer algo sobre isso. Ninguém que gosta de você vai dizer alguma coisa. É claro, elas não gostariam de ter Isabelle Lightwood arrancando suas cabeças.
— Gosta de mim? — Simon ecoou. — Algo sobre a maneira que você está falando sugere várias pessoas. Que gostam de mim.
George deu de ombros.
— Aparentemente, você é do tipo que cresce no coração das pessoas. Não me pergunte. Pensei que as garotas gostavam de músculos.
— Eu poderia ter músculos — Simon disse. — Olhei no espelho uma vez e acho que encontrei um na barriga. Estou dizendo, todo esse treinamento está fazendo bem para o meu corpo.
Não era como se Simon achasse que era uma criatura ridícula nem nada disso. Agora que tinha visto demônios com tentáculos saindo dos olhos, tinha quase certeza de que não enjoava as pessoas por simplesmente olhar para ele.
Mas ele não era Jace, que fazia as cabeças das meninas virarem como se estivessem possuídas. Não fazia sentido que, de todos os alunos da Academia, Beatriz pudesse gostar dele.
George revirou os olhos. George não compreendia verdadeiramente o lento desenvolvimento da aptidão física real. Ele provavelmente nascera com músculos abdominais. Alguns nasciam musculosos, outros malhavam e ficavam musculosos, e outros – como Simon – tinha os músculos impostos a eles por instrutores cruéis.
— Sim, Si, você é um verdadeiro matador.
— Sinta este braço — disse Simon. — Pura rocha! Eu não quero me gabar, mas é tudo osso. Tudo osso.
— Si, eu não preciso sentir. Acredito em você, porque é isso que caras fazem. E estou feliz por sua misteriosa popularidade com as garotas, porque é assim com os caras. Mas, falando sério, preste atenção em Jon, porque acho que ele vai te dar um sacode um dia desses. Ele não tem o seu fascínio indefinível, mas inegável. Tem queixo musculoso e achava que tinha as garotas da Academia aos seus pés.
Simon continuou galopando, um pouco atordoado.
Ele pensava que a afeição de Isabelle era uma ocorrência surpreendente e inexplicável, como um relâmpago (um relâmpago lindo e corajoso que ele teve a sorte de ser atingido!). Dada a evidência atual, no entanto, ele estava começando a acreditar que era hora de reavaliar.
Ele havia sido informado que namorara Maia, a líder dos lobisomens de Nova York, embora tivesse a impressão de que fora uma relação verdadeiramente confusa. Ouvira rumores sobre uma rainha vampira que poderia ter sido interessada nele. Eles até tinham se encontrado, por mais estranho que parecesse, durante um tempo, quando ele e Clary terminaram. E agora, possivelmente, Beatriz gostava dele.
— Sério, George, me diga a verdade. Eu sou bonito?
George começou a rir, seu cavalo girando para ele em passos fáceis.
E Julie gritou:
— Fadas! — e apontou.
Simon olhou na direção de uma figura encapuzada com uma cesta de frutas sob um braço, emergindo inocentemente da névoa atrás de uma árvore.
— Atrás dele! — gritou George, e seu cavalo avançou para a figura, Simon mergulhando atrás dele.
Marisol, muito à frente, gritou:
— Armadilha! — E, em seguida, deu um grito de dor.
Simon olhou desesperadamente na direção às árvores. A fada, ele viu, tinha reforços. Eles tinham sido avisados ​​que o Povo Belo estava mais cauteloso e desesperado no rescaldo da Paz Fria. Eles deveriam ter ouvido melhor e achado mais difícil. Deveriam ter se planejado para isso.
Simon, George, Julie e Beatriz estavam todos galopando rápido, mas estavam muito longe dela. Marisol balançava na sela, o sangue escorrendo pelo braço: uma flecha elfa.
— Marisol! — Jon Cartwright gritou. — Marisol, comigo!
Ela esporeou o cavalo na direção dele. Jon ficou de pé em seu cavalo e saltou sobre o dela, o arco na mão disparando setas para as árvores, erguido sobre o dorso do cavalo e, assim, protegendo Marisol como um estranho acrobata de tiro ao arco. Simon sabia que nunca seria capaz de fazer algo assim, ao menos antes da Ascensão.
Julie e Beatriz viraram os cavalos na direção das árvores onde as fadas escondidas disparavam.
— Eles estão com Marisol — George ofegou. — Nós ainda podemos pegar o vendedor de frutas.
— Não, George... — Simon começou, mas George virou o cavalo na direção da figura encapuzada, agora desaparecendo por trás da árvore e da névoa.
Houve um reluzir de luz solar surgindo entre o tronco e o ramo da árvore, uma linha branca deslumbrante entre o arco torto dos galhos. Pareceu refletir nos olhos de Simon, tornando-se amplo e claro, como a luz da lua no mar. A figura encapuzada estava se esvaindo, quase desaparecendo no brilho, e o cavalo de George estava a centímetros do perigo, a mão de George alcançando a borda do manto da figura, sem se importar com o destino a que ele mesmo estava se colocando.
Não, George! — Simon gritou. — Nós não vamos atravessar para o País das Fadas!
Ele forçou o seu próprio cavalo no caminho de George, puxando George para cima, mas estava tão focado em parar o amigo que não levou em consideração sua montaria, agora aterrorizada em fugir e aumentando a velocidade.
Até que a luz ofuscante e branca encheu a visão de Simon. Lembrou-se de repente da sensação de cair no País das Fadas, molhado até os ossos, em uma piscina cheia de água: se lembrou de Jace ser gentil com ele, e enquanto se ressentia disso, pensava: Eu não preciso da sua ajuda, e seu peito queimou com ressentimento.
Agora ele estava caindo no País das Fadas com o relinchar aterrorizado de um cavalo em seus ouvidos, folhas e galhos cegando-o, arranhando seu rosto e braços. Tentou proteger os olhos e viu-se jogado sobre rochas e ossos, com a escuridão correndo para ele. Ele teria ficado muito grato se Jace estivesse lá.

* * *

Simon acordou no País das Fadas. O seu crânio pulsava, da forma como o seu polegar fazia quando o acertava com um martelo. Ele esperava que ninguém tivesse batido em sua cabeça com um martelo.
Ele acordou em uma cama que balançava suavemente, um pouco dura sob sua bochecha. Abriu os olhos e viu que não estava exatamente em uma cama, mas em meio a galhos e musgo, espalhados por uma superfície instável construída de ripas de madeira. Havia listras estranhas de escuridão a frente dele, obscurecendo a visão.
O País das Fadas quase parecia com os campos de Devon, no entanto, era completamente diferente. As névoas ao longe tinham um tom roxo, como nuvens de tempestade se aderindo à terra, e havia movimento nelas, sugerindo formas estranhas e ameaçadoras. As folhas das árvores eram verdes, amarelas e vermelhas, como as árvores do mundo mundano, mas também brilhavam como joias, e quando o vento agitava através delas, Simon quase podia distinguir palavras, como se elas cochichassem entre si.
Esta era a manifestação da natureza, a junção de alquimia mágica e estranheza.
E Simon estava, ele percebeu, em uma jaula. Uma enorme gaiola de madeira. As listras escuras atrapalhando sua visão eram as barras da jaula.
A única coisa que o ultrajou mais foi como se sentiu familiarizado. Lembrou-se de estar preso assim antes. Mais do que uma vez.
— Caçadores de Sombras, vampiros e agora fadas, todos querem me jogar na prisão — Simon falou em voz alta. — Por que exatamente eu estava tão ansioso para ter essas lembranças de volta? Por que sou sempre eu? Por que sou sempre o idiota na jaula?
Sua própria voz fez sua cabeça dolorida doer.
— Você está em minha gaiola agora — disse uma voz.
Simon se sentou às pressas, embora isso fizesse sua cabeça latejar ferozmente e todo o mundo das fadas girar em torno dele. Ele viu, do outro lado de sua gaiola, a figura encapuzada que George tentara tão desesperadamente capturar no campo. Simon engoliu. Ele não podia ver o rosto sob o capuz.
Houve um vórtice no ar, e uma sombra apareceu diante do sol. Um novo elfo apareceu contra o céu azul claro, as folhas do chão da floresta sob seus pés descalços. A luz do sol lavava o seu cabelo em esplendor, e uma longa faca brilhou em sua mão.
O elfo encapuzado baixou o capuz e inclinou a cabeça em deferência súbita.
Sem capuz, Simon viu, ele tinha grandes orelhas arroxeadas, como se houvesse uma berinjela presa de cada lado de seu rosto, e longos tufos de cabelo branco que se enrolavam sobre suas orelhas de berinjela como nuvens.
— O que aconteceu, e porque seus truques interferiram com o trabalho de seus superiores, Hefeydd? Um cavalo do mundo mundano correu para o caminho da Caçada Selvagem — o novo elfo falou. — Espero que o cavalo não tivesse grande valor sentimental, porque os cães o têm agora.
O coração de Simon sangrou por aquele pobre cavalo. Ele se perguntou se também estava prestes a ser alimento para cães.
— Sinto muito por ter perturbado a Caçada Selvagem — o elfo de capa, inclinando a cabeça branca ainda mais.
— Você deve sentir — respondeu o elfo da Caçada Selvagem. — Aqueles que cruzam o caminho da Caçada sempre se arrependem.
— Este é um Caçador de Sombras — continuou o outro ansiosamente. — Ou, pelo menos, uma das crianças que esperam mudar. Eles estavam esperando por mim no mundo mortal, e este me perseguiu até dentro do País das Fadas, então é minha presa legítima. Eu não tinha vontade de perturbar a Caçada Selvagem e não tenho culpa nenhuma!
Simon sentiu que esse foi um resumo impreciso e prejudicial da situação.
— É assim? Venha agora, estou em um estado de espírito alegre — disse o elfo da Caçada Selvagem. — Dê-me suas desculpas e seu cativo, como você sabe, tenho algum interesse em Caçadores de Sombras, e não levarei ao meu senhor Gwyn a sua língua.
— Nunca um negócio mais justo feito — concordou a fada de capa camuflada com alguma pressa, e correu como se temesse que o elfo da Caçada Selvagem pudesse mudar de ideia, quase tropeçando em sua própria capa.
Tanto quanto Simon percebia, ele podia estar saindo da frigideira de um elfo e para o fogo de outro.
O novo elfo parecia um garoto de dezesseis anos, não muito mais velho do que Marisol e mais novo que Simon, mas Simon sabia que a aparência das fadas não era um indicador de sua idade. Ele tinha olhos incompatíveis, um âmbar como as contas encontradas no coração escuro de árvores, e outro de um azul esverdeado vívido, como as águas do mar atravessadas pela luz do sol. O contraste chocante de seus olhos e a luz do País das Fadas, filtrada através das folhas verdes perversamente sussurrantes, o tocava como falso ouro, fazendo o seu rosto magro e marcado pela sujeira adquirir um aspecto sinistro.
Ele parecia uma ameaça. E estava se aproximando.
— O que faz um elfo da Caçada Selvagem quer comigo? — Simon resmungou.
— Eu não sou um elfo — disse o garoto de olhos assustadores, orelhas pontudas e cabelo selvagem. — Eu sou Mark Blackthorn do Instituto de Los Angeles. Não importa o que dizem ou o que eles fazem comigo. Eu ainda me lembro de quem sou. Eu sou Mark Blackthorn.
Ele olhou para Simon com fome selvagem em seu rosto magro. Seus dedos finos agarraram as barras da jaula.
— Você está aqui para me salvar? — perguntou ele. — Os Caçadores de Sombras vieram atrás de mim?

* * *

Ah não. Este era o irmão de Helen Blackthorn, aquele que era meio fada como ela, aquele que acreditara que sua família estava morta e foi levado pela Caçada Selvagem e nunca mais voltou. Isso era muito estranho.
Era pior do que isso. Era horrível.
— Não — disse Simon, porque a esperança parecia o golpe mais cruel que ele poderia dar a Mark Blackthorn. — Foi como o outro elfo disse. Eu apareci aqui por acidente e fui capturado. Eu sou Simon Lewis. Eu... sei o seu nome, e sei o que lhe aconteceu. Sinto muito.
— Você sabe quando os Caçadores das Sombras virão me buscar? — Mark perguntou, com uma ânsia de partir o coração. — Eu lhes enviei uma mensagem durante a guerra. Entendo que a Paz Fria deve tornar as negociações com as fadas difíceis, mas eles devem saber que sou leal e seria valioso para eles. Eles devem estar chegando, mas tem sido... faz semanas. Diga-me quando?
Simon olhou para Mark, a boca seca. Não tinha passado semanas desde que os Caçadores de Sombras o abandonaram aqui. Fazia mais de um ano.
— Eles não virão — ele sussurrou. — Eu não estava lá, mas os meus amigos sim. Eles me contaram o que aconteceu. A Clave se decidiu. Os Caçadores de Sombras não querem você de volta.
— Oh — disse Mark, um único som suave que era familiar para Simon: era o tipo de som que as criaturas faziam quando morriam.
Ele se afastou de Simon, as costas arqueadas em um espasmo de dor que parecia física. Simon viu, em seus braços magros nus, as velhas marcas de um chicote. Mesmo que Simon não pudesse ver o rosto dele, Mark se virou por um momento, como se não pudesse sequer suportar parecer como uma fada.
Então ele se virou e disparou:
— E sobre as crianças?
— O quê? — perguntou Simon inexpressivamente.
— Helen, Julian, Livia, Tiberius, Drusilla, Octavian. E Emma — disse Mark. — Entende? Eu não me esqueci. Todas as noites, não importa o que aconteceu durante o dia, não importa se estou rasgado e ensanguentado ou com os ossos cansados, eu gostaria de ser morto, mas olho para as estrelas e dou a cada estrela o nome de um irmão ou o rosto de uma irmã. Eu não durmo até que me lembro de cada um. As estrelas vão queimar antes que eu os esqueça.
A família de Mark, os Blackthorn. Eram todos mais novos que Mark, tirando Helen; Simon sabia disso.
E Emma Carstairs vivia com as mais jovens crianças Blackthorn no Instituto de Los Angeles, a menininha de cabelo louro que havia ficado órfã na guerra e que escrevia bastante para Clary.
Simon desejou que soubesse mais sobre eles. Clary tinha falado sobre Emma. Magnus falara exaltadamente este verão, várias vezes, sobre a Paz Fria e dera os Blackthorn como um exemplo dos horrores que a decisão da Clave de punir o Povo das Fadas causara sobre aqueles que tinham o sangue das fadas. Simon escutara Magnus e sentiu pena dos Blackthorn, mas eles lhe pareceram apenas mais uma tragédia da guerra: algo terrível, mas distante, e, finalmente, fácil de esquecer. Simon sentiu que tinha tanta coisa para se lembrar. Ele queria ir para a Academia e se tornar um Caçador de Sombras, saber mais sobre a sua própria vida e lembrar-se tudo o que ele tinha perdido, para se tornar alguém mais forte e melhor.
Só que você não se torna alguém mais forte e melhor se pensa apenas em si mesmo.
Ele não sabia o que estavam fazendo com Mark no País das Fadas para fazê-lo se esquecer de sua família.
— Helen está bem — disse ele, sem jeito. — Eu a vi recentemente. Ela deu uma aula na Academia. Sinto muito. Um demônio tomou um monte de lembranças de mim não há muito tempo. Eu sei como é, não se lembrar.
— Feliz é aquele que sabe o nome de seu coração. Eles são aqueles cujos corações nunca são verdadeiramente perdidos. Eles sempre podem chamar seus corações de volta para casa — disse Mark, sua voz quase um canto. — Você se lembra do nome do seu coração, Simon Lewis?
— Acho que sim — Simon sussurrou.
— Como eles estão? — Mark perguntou em voz baixa, desgastada. Ele parecia muito cansado.
— Helen vai se casar — Simon ofereceu. Era a única coisa boa, ele sentia que tinha para oferecer a Mark. — Com Aline Penhallow. Acho que elas realmente se amam.
Ele quase disse que estava indo para o casamento delas, mas pareceria cruel. Mark não poderia ir ao casamento da sua própria irmã. Ele não tinha sido convidado. Ele não precisava dizer isso.
Mark não parecia com raiva ou magoado. Ele sorriu suavemente, como uma criança escutando uma história de ninar, e inclinou o rosto contra as barras da gaiola de Simon.
— Doce Helen. Meu pai costumava contar histórias sobre Helena de Tróia. Ela nasceu de um ovo, e a mulher mais bonita do mundo. Nascer de um ovo é muito incomum para os seres humanos.
— Eu ouvi isso — disse Simon.
— Ela foi muito infeliz no amor — Mark continuou. — A beleza pode ser assim. A beleza pode não ser confiável. A beleza pode escapar por entre os dedos como água e queimar sua língua como veneno. A beleza pode ser a parede brilhante que o separa de tudo o que você ama.
— Hum. Totalmente.
— Estou contente que minha linda Helen será mais feliz do que a última bela Helena — Mark falou. — Estou feliz que ela terá beleza pela beleza, amor por amor, e não a falsa moeda. Diga a ela que seu irmão Mark envia suas felicitações no dia do casamento.
— Se eu chegar lá, direi.
— Aline será capaz de ajudá-la com as crianças, também.
Ele estava dando pouca atenção para Simon, seu rosto ainda com aquela expressão fixa e distante, como se estivesse ouvindo uma história ou recordando uma memória. Simon temia que histórias e memória estivessem se tornando o mesmo para Mark Blackthorn: ansiadas, bonitas e irreais.
— Ty precisa de atenção especial — Mark prosseguiu. — Lembro-me de meus pais falando sobre isso — sua boca se torceu. — Quero dizer, meu pai e a mulher que cantou para eu dormir todas as noites, que não era do meu sangue, a Caçadora de Sombras. Não tenho mais permissão para chamá-la de mãe. As músicas não são de sangue. O sangue é tudo o que importa para Caçadores de Sombras e fadas igualmente. As músicas importam somente a mim.
O sangue é tudo o que importa para Caçadores de Sombras.
Simon não conseguia se lembrar do contexto, mas ele podia se lembrar do refrão constante, de pessoas que ele amava agora, mas que não amara então. Mundano, mundano, mundano. E mais tarde, vampiro. Ser do Submundo.
Ele lembrou que a primeira prisão em que estivera foi de um Caçador de Sombras. Desejou que pudesse dizer qualquer coisa a Mark Blackthorn, que ele estava errado.
— Eu sinto muito.
Ele sentia muito por não ter ouvido, e pena por não ter se importado mais. Pensara que ele era a voz da razão na Academia, e não percebera o quão complacente ele se tornara, como era fácil ouvir seus amigos zombarem das pessoas que, afinal, não gostavam dele, deixá-los continuar assim.
Ele desejou que soubesse como dizer isso para Mark Blackthorn, mas duvidava que Mark se importaria.
— Se você sente muito, fale — disse Mark. — Como é Ty? Não há nada de errado com Ty, mas ele é diferente, e a Clave odeia tudo o que é diferente. Eles vão tentar puni-lo por ser quem ele é. Eles puniriam uma estrela por queimar. Meu pai estava lá para se interpor entre ele e nosso mundo cruel, mas meu pai se foi e eu também. Eu poderia muito bem estar morto, por todo o bem que estou fazendo para os meus irmãos e irmãs. Livvy andaria sobre brasas e enfrentaria serpentes sibilantes por Ty, mas ela é tão jovem quanto ele. Ela não pode fazer e ser tudo para ele. Helen está tendo dificuldades com Tibério? Tibério está feliz?
— Eu não sei — disse Simon, impotente. — Acho que sim.
Tudo o que sabia era que havia um monte de crianças Blackthorn: sem rosto, sem nome, vítimas da guerra.
— E há Tavvy — Mark continuou.
Sua voz ficou mais forte enquanto continuava falando, e ele usou apelidos para seus irmãos e irmãs, em vez dos nomes completos que tinha trabalhado tão arduamente para se lembrar. Simon supôs que Mark geralmente não tinha permissão para falar de sua vida mortal ou de sua família Nephilim. Ele não queria pensar no que a Caçada Selvagem poderia fazer com Mark, se ele tentasse.
— Ele é tão pequeno. Não vai lembrar do pai, ou da mam.. ou da sua mãe. Ele é o menor. Deixaram-me segurá-lo no dia em que nasceu, e sua cabeça cabia na palma da minha mão. Ainda posso sentir o seu peso, mesmo quando não posso lembrar do seu nome. Segurei-o e eu sabia que tinha que sustentar sua cabeça: que ele era meu para apoiar e proteger. Para sempre. Oh, mas o para sempre dura tão pouco no mundo mortal. Ele não vai se lembrar de mim também. Talvez Drusilla vá esquecer também — Mark balançou a cabeça. — Eu não penso assim, no entanto. Dru aprende, e ela tem o coração mais doce de todos nós. Espero que suas memórias de mim permaneçam boas.
Clary deve ter dito a Simon cada um dos nomes dos Blackthorn, e falado um pouco sobre como cada um deles estava. Ela deve ter compartilhado alguma informação, que Simon havia descartado como inútil e que seria melhor do que um tesouro para Mark.
Simon olhou para ele, impotente.
— Apenas me diga se Aline está ajudando com os mais jovens — pediu Mark, sua voz cada vez mais forte. — Helen não pode fazer tudo sozinha, e Julian não será capaz de ajudá-la! — Sua voz suavizou novamente. — Julian. Jules. Meu artista, meu sonhador. Mostre-lhe a luz e ele brilharia em uma dúzia de cores diferentes. Tudo com o que ele se preocupa é sua arte e sua Emma. Ele tentará ajudar Helen, é claro, mas ainda é tão jovem. Eles são tão jovens e tão facilmente perdidos. Eu sei o que estou dizendo, Caçador de Sombras. Na terra sob a colina nós pilhamos os mais sensíveis e amorosos. E eles nunca envelhecem, com a gente. Eles nunca têm a chance.
— Oh, Mark Blackthorn, o que estão fazendo com você? — Simon sussurrou.
Ele não conseguiu manter a pena afastada de sua voz, e viu a reação de Mark: o lento rubor que subiu para suas bochechas pálidas, a maneira como ele ergueu o queixo, mantendo a cabeça erguida.
— Nada que eu não possa suportar.
Simon ficou em silêncio. Ele não se lembrava de tudo, mas lembrava do quanto ele tinha mudado. As pessoas podiam suportar tanto, mas Simon não sabia o quanto do original era deixado quando o mundo o torcia em uma forma totalmente diferente.
— Eu me lembro de você — disse Mark repente. — Nós nos conhecemos quando você estava no seu caminho para o Inferno. Você não era humano, então.
— Não — concordou Simon, sem jeito. — Eu não me lembro muito disso.
— Havia um menino com você — Mark continuou. — Cabelo como uma auréola e olhos como fogo do inferno, um Nephilim entre Nephilim. Eu tinha ouvido histórias sobre ele. Eu... o admirava. Ele apertou uma pedra enfeitiçada na minha mão, e isso significou muito para mim. Então.
Simon não conseguia se lembrar, mas sabia quem deve ter sido.
— Jace.
Mark assentiu, quase distraidamente.
— Ele disse: “Mostre-lhes do que um Caçador de Sombras é feito; mostre-lhes que você não está com medo”. Pensei que eu estava mostrando a ambos, o Povo das Fadas e os Caçadores de Sombras. Eu podia fazer o que ele me pediu. Eu estava com medo, mas não deixei que me impedisse. Mandei uma mensagem para os Caçadores de Sombras e disse a eles que o Povo das Fadas os estava traindo e aliando-se com o inimigo. Tive a certeza de que eles soubessem e pudessem proteger a Cidade de Vidro. Eu os avisei, e a Caçada poderia ter me matado por isso, mas pensei que se eu morresse, morreria sabendo que meus irmãos e irmãs foram salvos, e que todo mundo saberia que eu era um verdadeiro Caçador de Sombras.
— Você conseguiu — disse Simon. — Mandou a mensagem. Idris foi protegida, e seus irmãos e irmãs foram salvos.
— Que herói eu sou — Mark murmurou. — Provei minha lealdade. E os Caçadores de Sombras me deixaram aqui para apodrecer.
Seu rosto se contorceu. Nas profundezas do coração de Simon, o medo se misturava com piedade.
— Eu tentei ser um Caçador de Sombras, mesmo nas profundezas do País das Fadas, e que bem me faz? “Mostre-lhes do que um Caçador de Sombras é feito” – do que um Caçador de Sombras é feito, se abandonam o seu próprio, se jogam fora o coração de uma criança como lixo deixado na beira da estrada? Diga-me, Simon Lewis, se é isso que os Caçadores de Sombras são, por que eu iria querer ser um?
— Porque isso não é tudo o que eles são — disse Simon.
— E do que são feitas as fadas? Ouço Caçadores de Sombras dizerem que elas são todo o mal agora, pouco mais do que demônios criados sobre a terra para fazerem o mal — Mark sorriu, algo selvagem e enigmático em seu sorriso, como a luz solar brilhando através de uma teia de aranha. — E nós fazemos boas travessuras, Simon Lewis, e às vezes maldade. Mas não é de todo ruim, montar os ventos, correr sobre as ondas, dança acima das montanhas, e é tudo que me resta. Pelo menos a Caçada Selvagem me quer. Talvez desta vez eu devesse mostrar aos Caçadores de Sombras do que um elfo é feito.
— Talvez haja o pior dos dois lados.
Mark sorriu, o fantasma de um sorriso terrível.
— Onde o melhor está? Tento me lembrar das histórias do meu pai, sobre o Jonathan Caçador de Sombras, sobre todos os heróis dourados que serviram como escudos para a humanidade. Mas meu pai está morto. Sua voz se desvanece com o vento norte, e a Lei que o tornou sagrado é algo escrito na areia por uma criança. Nós rimos e acabamos, ninguém deve ser tão tolo a ponto de pensar que iria durar. Tudo o que é bom e verdadeiro, está perdido.
Simon nunca tinha pensado que havia algo de bom em sua perda de memória. Ocorreu-lhe agora que recebera uma pequena misericórdia acidental. Todas as suas memórias tinham sido arrancadas de uma vez, enquanto as de Mark estavam sendo rasgadas e desgastadas, deslizando com ele, uma a uma, na fria escuridão sob a colina onde nada brilhante durava.
— Eu gostaria de me lembrar — disse Simon — quando nos conhecemos.
— Você não era humano então — Mark falou amargamente. — Mas é humano agora. E parece mais um Caçador de Sombras do que eu.
Simon abriu a boca e descobriu que todas as palavras lhe faltavam. Ele não sabia o que dizer: era verdade, como tudo o Mark disse era verdade. Quando ele vira Mark pela primeira vez, pensara que ele fosse um elfo, e se sentiu instintivamente inquieto. A Academia dos Caçadores de Sombras o estava influenciando mais do que ele pensava.
E o ambiente em Mark estava o havia mudado, também, reclamou o seu passado. Havia uma característica estranha nele que ia além dos ossos finos e das orelhas delicadamente pontudas das fadas. Helen tinha ambos, mas se movia como uma lutadora, elevava-se como uma Caçadora de Sombras, falava como a Clave e o Instituto falava. Mark falava cantando e andava como se estivesse dançando. Simon se perguntou se mesmo que Mark encontrasse o seu caminho de volta, poderia se encaixar no mundo dos Caçadores de Sombras novamente.
Ele se perguntou se Mark se esquecera como mentir.
— O que você acha que eu sou, aprendiz Caçador de Sombras? — perguntou Mark. — O que acha que eu deveria fazer?
— Mostre-lhes do que Mark Blackthorn é feito. Mostre-lhes tudo.
— Helen, Julian, Livia, Tiberius, Drusilla, Octavian. E Emma ​— Mark sussurrou, sua voz baixa e reverente, algo que Simon reconheca da sinagoga, a partir da voz de mães chamando seus filhos, de todos os tempos e lugares que ele tinha ouvido as pessoas chamarem o que elas consideravam mais sagrado. — Meus irmãos e irmãs são Caçadores de Sombras, e em nome deles eu vou te ajudar. Eu irei. — Ele virou-se e gritou: — Hefeydd!
Hefeydd das orelhas roxas se esgueirou de volta ao campo de visão, de volta entre as árvores.
— Este é meu parente Caçador de Sombras — disse Mark, com alguma dificuldade. — Você tem coragem de insistir que tem direito sobre um parente da Caçada Selvagem?
Isso era ridículo. Simon nem mesmo era um Caçador de Sombras ainda, Hefeydd nunca acreditaria. Só que este era Mark, Simon percebeu. Um elfo, segundo todas as aparências, e um elfo a ser temido. Mesmo Simon não sabia se ele podia mentir.
— Claro que não — disse Hefeydd, curvando-se. — Isso seria...
Simon estava olhando para o céu. Ele nem sequer percebera que fazia isso, que tinha começado a varrer os céus desde que alguém começara a cair a partir dele.
Agora que Simon conseguia enxergar, podia ver o que estava acontecendo de forma mais clara: não alguém caindo do céu, mas um cavalo selvagem galopando o céu na direção da terra, e deixando cair o seu cavaleiro. Este cavalo era branco como uma nuvem ou névoa, sua forma orgulhosa e brilhante, e seu cavaleiro que foi arremessado para o chão era branco e deslumbrante também. Ele tinha cabelos cor de cobalto, o azul escuro da noite antes de se tornar negro, e pousou reluzente e com os olhos brilhando em prata.
— O príncipe — sussurrou Hefeydd.
— Mark da Caçada — disse o novo elfo. — Gwyn o enviou para descobrir por que a caça tinha sido perturbada. Ele não sugeriu-lhe atrasar a Caça por si mesmo ao se deter por um ano e um dia. Está fugindo?
A pergunta foi feita com alguma emoção oculta, embora Simon não pudesse dizer se era suspeita ou outra coisa. Ele podia ver que a pergunta era mais séria, talvez, do que o elfo queria que fosse.
Mark apontou para si mesmo.
— Não, Kieran. Como você vê, Hefeydd trouxe um Caçador de Sombras, e eu estava um pouco curioso.
— Por quê? — perguntou Kieran. — Os Nephilim ficaram para trás, e olhando para trás não há nada, apenas magias quebradas e dor desperdiçada. Olhe para frente, para o vento selvagem e à Caça. E para as minhas costas, porque gosto de estar na sua frente em qualquer caça.
Mark sorriu da maneira que se fazia com um amigo que você queria provocar.
— Lembro-me de várias ocasiões em que esse não foi o caso. Mas vejo que você espera melhor sorte no futuro, enquanto eu confio na habilidade.
Kieran riu. Simon sentiu um salto de esperança – se este elfo era amigo de Mark, então a missão de resgate ainda era válida. Ele tinha se movido, inconscientemente, para mais perto de Mark, fechando a mão em torno de uma das barras de sua jaula. O olhar de Kieran foi atraído para o movimento, e por um instante ele se virou para Simon, os olhos perfeitamente frios de um tubarão negro.
Simon sabia, com certeza até os ossos e sem a menor ideia do motivo, que Kieran não gostava de Caçadores de Sombras e não queria nenhum bem a Simon.
— Deixe Hefeydd com seu brinquedo — disse Kieran. — Vamos embora.
— Ele me contou algo interessante — Mark informou Kieran numa voz frágil. — Ele disse que a Clave decidiu não vir para mim. Meu povo, as pessoas entre quem cresci e fui ensinado a confiar, concordou em me deixar aqui. Você pode acreditar nisso?
— Ainda se surpreende? Sua espécie sempre gostou de completa crueldade tanto quanto a justiça. Eles não tem nada mais a ver com você — disse Kieran, sua voz persuasiva, colocando a mão no pescoço de Mark. — Você é Mark da Caçada Selvagem. Você monta no ar, centenas de quilômetros acima deles. Eles nunca vão feri-lo novamente, apenas o que você permitir. Não permita. Vamos embora.
Mark hesitou, e Simon se viu duvidar. Kieran estava certo, afinal. Mark Blackthorn não devia nada aos Caçadores de Sombras.
— Mark — repetiu Kieran, um fio de aço em sua voz. — Você sabe que há aqueles na Caçada que aproveitariam qualquer razão para puni-lo.
Simon não sabia dizer se as palavras de Kieran eram um aviso ou uma ameaça.
Um sorriso atravessou o rosto de Mark, escuro como uma sombra.
— Melhor do que você — disse ele. — Mas agradeço a sua atenção. Eu vou com você e me explicarei para Gwyn — ele se virou para olhar para Simon, seus olhos bicolores ilegíveis, vidro do mar e bronze. — Eu voltarei. Não o machuque — disse a Hefeydd. — Dê-lhe água.
Ele balançou a cabeça em direção Hefeydd, dando uma ligeira ênfase no gesto e acena ndo com a cabeça em direção a Simon. Simon assentiu em troca.
Kieran, a quem Hefeydd chamara de príncipe, manteve seu domínio sobre Mark e virou-o de modo que ele ficou de costas para Simon. Ele sussurrou algo para Mark que Simon não podia ouvir, e Simon não sabia se o aperto de Kieran era carinho, ansiedade ou um desejo de aprisionar.
Simon não tinha dúvidas de que, se Kieran continuasse assim, Mark não voltaria.
Mark assobiou, e Kieran fez o mesmo som. No vento, uma sombra e uma nuvem, se transformaram em um cavalo de escuridão e outro de luz descendo para seus cavaleiros. Mark saltou no ar e desapareceu em um lampejo de escuridão, com um grito de alegria e desafio.
Hefeydd riu, o som baixo rastejando pelo mato.
— Oh, eu lhe darei água com prazer — disse ele, e se aproximou com um copo feito de casca de árvore, cheio até a borda com água que parecia brilhar com a luz da lua.
Simon estendeu a mão através das barras e aceitou a bebida, mas se atrapalhou e derramou metade da água. Hefeydd amaldiçoou e pegou o copo, segurando-o nos lábios de Simon e dando um sombrio sorriso encorajador.
— Ainda há um restinho — ele sussurrou. — Você pode beber. Beba.
Exceto que Simon foi treinado pela Academia. Ele não tinha intenção de aceitar comida ou bebida de fadas, e tinha certeza de que Mark não pedira que água lhe fosse servida com essa intenção. Mark acenara para a chave balançando em uma das mangas do manto de Hefeydd.
Simon fingiu beber enquanto Hefeydd sorriu. Ele guardou a chave em seu uniforme, e quando Hefeydd afastou-se, esperou e contou os minutos até que imaginou que o caminho estivesse livre. Ele deslizou a mão através das barras, inseriu a chave na fechadura e abriu a porta da jaula lentamente.
Então ouviu um som, e congelou.
Saindo das árvores verdes que sussurravam, vestindo uma jaqueta de veludo vermelho e um vestido longo de renda preta que se transformava em fios transparentes em torno dos joelhos, com botas de inverno e luvas vermelhas que Simon pensou que podia se lembrar, graciosa como uma gazela e a decidida como um tigre, estava Isabelle Lightwood.

* * *

— Simon! — exclamou ela. — O que você pensa que está fazendo?
Simon bebeu dela com os olhos, melhor do que a água de qualquer lugar. Ela tinha vindo para ele. Os outros devem ter voltado para a Academia e contado que Simon estava perdido no País das Fadas, e Isabelle fora para lá encontrá-lo. Antes de qualquer pessoa, quando estava se preparando para participar de um casamento. Mas ela era Isabelle, e isso significava que ela estava sempre pronta para lutar e defender.
Simon se lembrou de se sentir em conflito quando ela o salvara de um vampiro no ano passado. Agora ele não podia imaginar porquê. Ele a conhecia melhor agora, pensou, conhecia novamente, e sabia por que ela sempre vinha.
— Hã, eu estava fugindo do meu terrível cativeiro — disse Simon. Em seguida, ele deu um passo para longe da porta da gaiola, encontrou os olhos de Isabelle, e sorriu. — Mas você sabe... Não se você não quiser.
Os olhos de Isabelle, que estavam duros com preocupação e objetivos, estavam subitamente brilhando.
— O que você está dizendo, Simon?
Simon estendeu as mãos.
— Só estou dizendo que, se você veio até aqui para me salvar, não quero aparecer ingrato.
— Ah não?
— Não, eu sou do tipo que agradece — respondeu Simon, com firmeza. — Então aqui estou eu, humildemente aguardando o resgate. Espero que você possa ver um caminho limpo para me salvar.
— Acho que eu poderia ser persuadida. Com um incentivo.
— Oh, por favor — implorou Simon. — Eu definhava na prisão, rezando para que alguém corajosa, forte e sexy aparecesse para me salvar. Salve-me!
— Corajosa, forte e sexy? Você não pede muito, Lewis.
— Isso é do que preciso — disse Simon, com crescente convicção. — Eu preciso de uma heroína. Estou esperando por uma heroína, na verdade, até a luz da manhã. E ela tem que ser certa, e rápida – porque fui sequestrada por elfos maus – e ela tem que ser maior que a vida.
Isabelle parecia maior do que a vida, como uma menina na tela cinema com seu gloss brilhando como a luz das estrelas e a música acompanhando cada farfalhar de seu cabelo.
Ela abriu a porta da jaula e entrou, os galhos crepitando sob suas botas, e atravessou o espaço para deslizar os braços ao redor do pescoço de Simon. Simon puxou o rosto dela e beijou-lhe os lábios. Sentiu a maciez de sua boca cor de rubi, o forte corpo bonito contra o seu. O beijo de Isabelle era como um vinho rico servido só para ele, como um desafio oferecido e uma promessa mantida.
Sentiu, contra a sua boca, o sorriso dela.
— Por que, senhor Montgomery — Isabelle murmurou. — Faz tanto tempo. Eu estava preocupada que nunca o veria novamente.
Simon desejou ter enfrentado os chuveiros da Academia, esta manhã. O que importavam os ratos mortos, em face do amor verdadeiro?
O sangue correu em seus ouvidos ao som de um pequeno estalo: a porta da jaula sendo fechada novamente.
Simon e Isabelle se separaram bruscamente. Isabelle parecia pronta para saltar, como um tigre preso.
Hefeydd não parecia particularmente preocupado.
— Dois Caçadores de Sombras pelo preço de um, e um novo pássaro para minha gaiola — disse Hefeydd. — E um pássaro tão bonito.
— Você acha que a sua gaiola pode segurar este pássaro? — Isabelle perguntou. — Você está sonhando. Eu entrei, e posso sair.
— Não sem a sua estela e seu saco de truques. Jogue tudo através das barras da jaula, ou atiro uma flecha em seu namorado e você pode assisti-lo morrer diante de seus olhos.
Isabelle olhou para Simon e, impassível, começou a despir as suas armas e empurrá-las através das barras da jaula. Simon estava agora, talvez perturbadoramente, consciente da quantidade de armas de Isabelle, e notou que ela tinha pulado o punhal no interior de sua bota esquerda. Oh, e a longa faca na bainha em suas costas.
Isabelle tinha muitas, muitas lâminas.
— Não demorará muito até que vocês precisem de água para viver, passarinha bonita — disse Hefeydd. — Eu posso esperar.
Ele se afastou. Isabelle se sentou no chão da gaiola, como se as cordas que a sustentavam tivesse sido cortadas.
Simon olhou para ela com horror.
— Isabelle...
— Eu estou tão humilhada — Isabelle falou, com o rosto entre as mãos. — Eu nem sequer o ouvi chegando. Eu trouxe vergonha para o nome Lightwood. Vergonha absoluta. Humilhação total.
— Estou muito lisonjeado, se isso ajuda.
— Eu me distraí com um rapaz, e, em seguida, fui presa por um goblin — Isabelle gemeu. — Você não entende! Você não se lembra, mas eu não era assim antes de você. Nenhum menino nunca significou nada para mim. Eu tinha equilíbrio. Tinha um propósito. Não tive paixões estúpidas porque nunca fui estúpida. Minha habilidade era pura batalha como um bustiê. Ninguém podia quebrar meu puro sangue frio na caça aos demônios. Eu era boa antes de te conhecer! E agora gasto o meu tempo correndo atrás de um cara com amnésia demônio e perco a cabeça em território inimigo! Agora eu sou uma idiota.
Simon estendeu a mão para a de Isabelle, e depois de um momento Isabelle o deixou colocar a mão em seu rosto e entrelaçou os dedos nos dele.
— Nós podemos ser dois idiotas juntos nessa jaula.
— Você é definitivamente um idiota — Isabelle rebateu. — Lembre-se, você ainda é um mundano.
— Como eu poderia esquecer?
— Nunca lhe ocorreu que eu poderia ser uma fada com um encantamento forte, enviado para enganá-lo?
Você se lembra do nome de seu coração?
— Não — disse Simon. — Eu sou idiota, mas eu não tanto. Não me lembro de tudo sobre o nosso passado, mas lembro-me o bastante. Eu não aprendi tudo sobre você, agora que temos outra chance, mas sei o suficiente. Eu sei que é você quando a vejo, Isabelle.
Isabelle olhou para ele por um longo momento, e então sorriu seu sorriso encantador desafiante.
— Nós somos dois idiotas indo para um casamento. Espero que você tenha notado que eu o deixei pensar que eu mesma abri caminho para esta jaula. Claro, eu peguei a chave antes de entrar — ela puxou a chave para fora da frente do vestido e segurou-a, brilhando na luz daquele lugar estranho. — Posso ser estúpida, mas não idiota.
Ela saltou para seus pés, as saias de renda oscilando em torno dela como um sino, e libertou da prisão.
Ela recuperou suas armas e a estela de onde estavam largadas no chão, e uma vez que suas armas estavam nos lugares certos, pegou a mão de Simon.
Eles estavam apenas a alguns passos da floresta quando uma sombra desceu sobre eles.
Isabelle pegou uma de suas facas, mas era apenas Mark.
— Você ainda não escapou? — Mark perguntou, olhando aflita. — E parou para adquirir uma amante?
Isabelle parou. Ela, ao contrário de Simon, o reconheceu de imediato.
— Mark Blackthorn? — ela perguntou.
— Isabelle Lightwood — observou Mark, imitando seu tom de voz.
— Nós nos conhecemos antes — disse Simon. — Ele me ajudou a obter essa chave.
— Oh certo — respondeu Mark, inclinando a cabeça em um movimento de pássaro. — Não foi nenhuma barganha desigual. Você me deu algumas informações muito interessantes sobre os Caçadores de Sombras, e a grande lealdade que demonstraram para um deles próprios.
As costas de Isabelle se endireitaram frente ao desafio, o cabelo preto voando como uma bandeira quando ela deu um passo em direção a ele.
— Você está cometendo um erro terrível — ela falou. — Eu sei que você é um verdadeiro Caçador de Sombras.
Mark deu um passo para trás.
— É mesmo? — ele perguntou em voz baixa.
— Se tem alguma importância, eu não concordo com a decisão da Clave.
— Essa é a Clave, não é? Quero dizer, eu gosto de Jia Penhallow, e não é que eu não goste de seu pai... — Simon, que não gostava realmente de Robert Lightwood, disse sem jeito — mas a Clave, é basicamente idiota, estou certo? Nós todos sabemos disso.
Isabelle estendeu a mão, palma para baixo, e balançou frente e para trás em um gesto que disse Você tem um ponto, mas eu me recuso a concordar com ele em voz alta.
Mark riu.
— Sim — disse ele, e parecia um pouco mais são, um pouco mais humano, como se o riso lhe tivesse alterado de alguma forma. Houve um som em suas palavras que fizeram Simon não pensar mais nele como um elfo, mas como um garoto de Los Angeles. — Basicamente idiotas.
Houve um farfalhar nas árvores, um nascer do vento. Simon pensou poder ouvir o riso e vozes chamando, cascos sobre nuvens e correntes de ar, os latidos dos cães de caça. Os sons de uma caçada, a Caçada, a mais implacável neste ou qualquer mundo. Fraco, mas não longe o suficiente, e se aproximavam.
— Venha com a gente — disse Isabelle repente. — Qualquer que seja o preço a ser pago, vou pagá-lo.
Mark lançou-lhe um olhar que era partes iguais de admiração e desdenho. Ele balançou a cabeça, folhas tremulando e lançando raios de luz em seus cachos brilhantes.
— O que você acha que aconteceria se eu fosse? Eu iria para casa... meu lar... e a Caçada Selvagem me acompanharia até lá. Imaginou que não sonho em correr para casa milhares de vezes? Toda vez, eu vejo o pobre Julian perfurado com as lanças da Caçada Selvagem. Vejo a pequena Dru e o bebê Tavvy presos de cabeça pra baixo. Imagino o meu Ty dilacerado pelos cães de caça. Não posso ir até que haja um caminho a percorrer sem trazer destruição sobre eles. Eu não irei. Vocês sim, e rápido.
Simon puxou Isabelle para trás, na direção das árvores. Ela resistiu, os olhos ainda em Mark, mas o deixou puxá-la para longe, as folhas escondendo-os enquanto cavalos e mais elfos pousavam, relâmpagos entre as árvores, sombras contra o sol.
— Que problemas está nos causando agora, Caçador de Sombras? — perguntou um elfo montado num cavalo ruão, rindo enquanto o corcel girava. — Que promessa é esta de mais de sua espécie?
— Nenhuma promessa — disse Mark.
Havia mais cavalos se juntando ao ruão, mais e mais da Caçada Selvagem. Simon viu Kieran, uma presença silenciosa branca. O elfo no ruão virou seu cavalo para o lugar onde Simon e Isabelle estavam, e Simon viu o ruão cheirar o ar como um cão.
Seu cavaleiro apontou.
— Por que vejo Caçadores de Sombras, então, em nossa terra e que podem responder perante nós? Devo pedir-lhes que se apresentem?
Ele andava para frente, mas não continuou por muito tempo. Ele vestia um manto bordado com prata que mostrava as constelações, a prata encantada se movendo como se o tempo acelerasse e os planetas girassem rápido o suficiente para o olho ver. Seu cavalo parou, o cavaleiro quase caindo, quando seu belo manto prateado foi subitamente preso a uma árvore por uma flecha bem colocada.
Mark baixou seu arco.
— Não vejo nada — disse ele, pronunciando a mentira com certa satisfação. — Nada que deveria ir – agora.
— Oh, rapaz, você vai pagar por isso — sussurrou o cavaleiro sobre o ruão.
Os cavalos e os cavaleiros berraram como pterodátilos, circulando-o, mas Mark Blackthorn do Instituto Los Angeles se manteve firme.
— Corram! — gritou. — Cheguem em casa em segurança! Digam à Clave salvei mais vidas de Caçadores de Sombras, que serei um Caçador de Sombras condenado para eles, que serei um elfo e os amaldiçoarei! E digam à minha família que eu os amo, eu os amo, e nunca vou esquecê-los. Um dia voltarei para casa.
Simon e Isabelle correram.

* * *

George atirou-se sobre eles no instante em que Simon e Isabelle apareceram nos jardins da Academia, seus braços apertando-o. Beatriz e, para espanto de Simon, até mesmo Julie voaram para ele apenas um segundo atrás de George, e ambas bateram em seu braço sem piedade.
— Ai — disse Simon.
— Estamos tão felizes que você está vivo! — disse Beatriz, socando-o.
— Por que você deveria me machucar com o seu amor? — perguntou Simon. — Ai.
Ele desembaraçou-se de suas garras, mas também pareceu levemente ferido, e depois olhou em volta em busca de outro rosto familiar. Ele sentiu um toque frio do medo.
— Marisol está bem? — perguntou.
Beatriz bufou.
— Oh, ela está melhor do que bem. Está na enfermaria com Jon esperando em seus pés. Já que vocês mundanos não podem ser curados com runas e ela está explorando tudo o que vale a pena. Não tenho certeza do motivo de Jon estar mais apavorado, o pensamento de quão frágeis são mundanos, ou o fato de que ela continua ameaçando explicar a máquina de raios-X para ele.
Simon estava muito impressionado que mesmo uma flecha não pudesse abrandar Marisol e toda a sua maldade.
— Nós pensamos que você poderia estar morto — disse Julie. — O Povo das Fadas faria qualquer coisa contra Caçadores de Sombras, aquelas serpentes traiçoeiras e maléficas. Eles poderiam ter feito alguma coisa para você.
— E teria sido minha culpa — George acrescentou, pálido. — Você estava tentando me parar.
— Teria sido culpa das fadas — negou Julie. — Mas você foi descuidado. Tem que lembrar do que eles são, menos humanos do que tubarões.
George balançava a cabeça com humildade. Beatriz parecia estar em pleno acordo.
— Sabem de uma coisa? — disse Simon. — Eu já tive o suficiente.
Todos olharam para ele em incredulidade. Mas Isabelle olhou para ele e sorriu. Ele pensou que finalmente entendeu o fogo que ardia em Magnus, o que o fez continuar a falar quando a Clave não queria ouvir.
— Eu sei que todos vocês pensam que estou sempre criticando os Nephilim — Simon continuou. — Sei que vocês acreditam que eu não sei o suficiente das tradições sagradas do Anjo, e o fato de que estarem prontos para dar suas vidas, a qualquer dia, para proteger os humanos. Sei que pensam que não importa para mim, mas importa. Significa muito. Mas eu não tenho o luxo de ver apenas de uma perspectiva. Vocês todos percebem quando coloco os Caçadores de Sombras para baixo, mas ninguém repara quando vocês falam dos seres do Submundo. Eu fui um ser do Submundo. Hoje fui salvo por alguém que a Clave decidiu condenar como um ser do Submundo, mesmo que ele tenha sido corajoso como qualquer Caçador de Sombras, mesmo que ele tenha sido leal. Parece que vocês querem que eu simplesmente aceite que os Nephilim são ótimos e nada precisa mudar, mas não vou aceitar qualquer coisa.
Ele respirou fundo. Sentiu como se todo o conforto da manhã lhe tivesse sido arrancado. Mas talvez fosse o melhor. Talvez ele tivesse ficado confortável demais.
— Eu não gostaria de ser um Caçador de Sombras se pensasse que eu seria um Caçador de Sombras como os seus pais ou o pai de seus pais antes deles. E não gostaria de vocês se pensasse que vocês se tornariam Caçadores de Sombras como os que vieram antes de vocês. Eu quero que tudo para nós seja melhor. Ainda não descobri como mudar ainda, mas quero que tudo mude. E sinto muito se isso os perturba você, mas eu continuarei reclamando.
— Depois — disse Isabelle. — Ele vai continuar reclamando depois, porque nós vamos para um casamento agora.
Todos pareciam levemente atordoados que seu feliz reencontro tivesse se transformado em um discurso sobre os direitos dos seres do Submundo. Simon pensou que Julie daria uma chicotada em sua cabeça, mas em vez disso ela deu um tapinha nas costas dele.
— Tudo bem — ela concordou. — Vamos ouvir a sua lamentação tediosa mais tarde. Por favor, tente manter-se breve.
Ela saiu com Beatriz. Simon olhou para ela, e percebeu que Isabelle apertava os olhos depois de, bem, um olhar de leve suspeita em seu rosto.
Simon teve um momento de dúvida. George falava de Beatriz quando comentara sobre uma garota gostar de Simon, certo?
Certamente não Julie. Não poderia ser Julie.
Não, certamente não. Simon tinha bastante certeza de que estava apenas recebendo um desconto por conta de sua fuga do País das Fadas.
George ficou para trás.
— Eu realmente sinto muito, Si — falou para Simon. — Eu perdi a cabeça. E-eu talvez não estivesse pronto para liderar uma equipe. Mas estarei pronto um dia. Eu vou fazer o que você disse. Vou me tornar um Caçador de Sombras melhor do que qualquer Caçador de Sombras antes de nós. Você não terá que pagar pelos meus erros novamente.
— George, está tudo bem.
Nenhum deles era perfeito. Nenhum deles poderia ser.
O rosto sempre alegre de George ainda estava sob uma nuvem de infelicidade como quase nunca estava.
— Eu não vou falhar novamente.
— Eu acredito em você — disse Simon, e sorriu para ele, até que finalmente George sorriu de volta. — Porque é isso que caras fazer.

* * *

Uma vez que chegou em Idris, Simon viu-se mergulhado em um estado de caos de casamento. O caos de casamento parecia muito diferente dos tipos normais de caos. Havia, de fato, muitas flores.
Simon teve um buquê de lírios empurrado para cima dele e ficou segurando-o, com medo que caso se movesse e as flores caíssem, ele seria responsável por arruinar o casamento inteiro.
Muitos convidados do casamento passavam apressados, mas havia um grupo que era todo de crianças, sem adultos. Simon agarrou seus lírios e concentrou sua atenção nos Blackthorn.
Se ele não tivesse conhecido Mark Blackthorn, tinha certeza de que pensaria neles como um amontoado de crianças anônimas.
Agora, porém, sabia que eram a família de alguém: o desejo do coração de alguém.
Helen, Julian, Livia, Tiberius, Drusilla, Octavian. E Emma.
A Helen esguia como um salgueiro, prata clara, Simon já conhecia. Ela estava em um dos muitos quartos que ele foi proibido de entrar, tendo misteriosas coisas de noiva feitas para ela.
Julian era o mais velho a seguir, era o centro calmo de uma multidão Blackthorn movimentada. Ele tinha uma criança em seus braços, que era um pouco grande para Julian carregar, mas se agarrava tenazmente ao pescoço de Julian como um polvo em ambiente desconhecido. O garoto devia ser Tavvy.
Todos os Blackthorn estavam vestidos para o casamento, mas já um pouco sujos em algumas partes, da forma misteriosa que as crianças ficam. Simon não tinha certeza de como. Eram todos, exceto Tavvy, um pouco velho demais para brincar na sujeira.
— Eu vou limpar Dru — ofereceu Emma, ​​que era alta para seus quase quatorze anos, com uma coroa de cabelos loiros que a fazia se destacar entre os Blackthorn de cabelos escuros como um narciso em uma cama de amores-perfeitos.
— Não, não se preocupe — respondeu Julian. — Eu sei que você quer passar algum tempo com Clary. Você só falou disso pelos últimos quinze mil anos, mais ou menos.
Emma empurrou-o divertidamente. Ela era mais alta do que ele: Simon lembrou que aos treze anos era menor do que todas as meninas também.
Todas as meninas, exceto uma, ele se lembrou lentamente, a imagem verdadeira do seu décimo terceiro aniversário deslizando sobre a falsa, onde a pessoa mais importante de sua vida tinha sido desajeitadamente photoshopada para fora. Clary sempre fora pequena. Não importa quão baixo ou inábil Simon se sentira, ele sempre se elevou sobre ela e sentiu que era seu dever protegê-la.
Ele se perguntou se Julian desejava que Emma fosse mais baixa que ele. A partir do olhar no rosto de Julian enquanto ele considerava Emma, ​​não havia uma única coisa sobre ela que ele mudaria. Sua arte e sua Emma, ​​Mark dissera, como se fossem os dois fatos essenciais sobre Julian. Seu amor pela beleza e seu desejo de criá-la, e sua melhor amiga em todo o mundo. Eles seriam parabatai, Simon tinha certeza. Aquilo era legal.
Emma saiu em busca de Clary com um último sorriso para Julian.
Exceto que Mark estava errado. Arte e Emma não eram claramente tudo o que ocupava os pensamentos de Julian.
Simon viu quando ele se agarrou a Tavvy e se inclinou sobre uma menininha que tinha uma súplica no rosto redondo e uma nuvem de cabelos castanhos.
— Perdi a minha coroa de flores e não consigo encontrá-la — sussurrou a menina.
Julian sorriu para ela.
— Isso é o que acontece quando você perde as coisas, Dru.
— Mas se eu não usar uma coroa de flores como Livvy, Helen vai pensar que sou descuidada e que não cuido das minhas coisas e não gosto dela tanto quanto Livvy. Livvy ainda tem a sua coroa de flores.
A outra garota no grupo, mais alta do que Dru e no estágio onde os braços e pernas eram finos como palitos e mais longos que o resto de seu corpo, estava de fato usando uma coroa de flores em seu cabelo castanho claro. Ela estava perto de um menino que tinha fones de ouvido no meio do caos do casamento, e os olhos cinza de inverno fixados em alguma visão particular distante.
Livvy andaria sobre brasas e enfrentaria serpentes sibilantes por Ty, Mark tinha dito. Simon lembrou-se da infinita ternura com que Mark dissera o meu Ty.
— Helen a conhece melhor do que isso — respondeu Julian.
— Sim, mas... — Drusilla puxou-o pela manga para que ele se curvasse para baixo e ela pudesse, em um sussurro agonizante: — ela se foi faz tanto tempo. Talvez ela não se lembre... totalmente de mim.
Julian virou o rosto para que nenhum de seus irmãos pudesse ver a sua expressão. Apenas Simon viu o brilho de dor, e ele sabia o seu significado. Sabia que não teria visto, se não tivesse encontrado Mark Blackthorn, se não estivesse prestando atenção.
— Dru, Helen a conhece desde que nasceu. Ela vai se lembrar de tudo.
— Mas mesmo assim — respondeu Drusilla. — Ela vai embora de novo muito em breve. Quero que ela pense que eu sou boa.
— Ela sabe que você é boa — Julian disse a ela. — A melhor. Mas nós vamos encontrar a sua coroa de flores, tudo bem?
As crianças mais jovens não conheciam Helen da mesma forma que Julian, como um irmão que estava lá o tempo todo. Eles não podiam confiar em alguém que foi tão longe.
Julian era o pai delas, Simon percebeu com pavor. Não havia mais ninguém.
Mesmo que os Blackthorn tivessem uma família que queria estar lá para eles, queria desesperadamente.
A Clave partira uma família, e Simon não sabia do efeito que teriam no futuro, ou como as feridas infligidas pela Clave se curariam.
Ele pensou, mais uma vez, como se ainda estivesse falando com seus amigos na Academia: Nós temos que ser melhores do que isso. Caçadores de Sombras têm que ser melhor do que isso. Temos que descobrir que tipo de Caçadores de Sombras que queremos ser, e mostrar-lhes.
Talvez Mark não conhecesse Julian assim como imaginava. Ou talvez o irmão mais novo de Mark, sem escolha, tivesse mudado tranquila e profundamente.
Todos eles tinham que mudar. Mas Julian era tão jovem.
— Ei — disse Simon. — Posso ajudar?
Os dois irmãos não eram muito parecidos, mas Julian corou e ergueu o queixo da mesma forma que Mark o fez – como se não importasse o motivo, ele era orgulhoso demais para admitir que pudesse estar sofrendo.
— Não — ele respondeu, e deu um brilhante sorriso caloroso para Simon que foi realmente muito convincente. — Estou bem. Eu os tenho.
Parecia verdade, até que Julian Blackthorn estava fora do alcance de Simon, e, em seguida, Simon notou mais uma vez que Julian carregava uma criança que era grande demais para ele carregar, com outro garoto segurando em sua camisa. Simon podia realmente ver o quanto havia naqueles jovens ombros magros.

* * *

Simon não entendia completamente as tradições dos Caçadores de Sombras.
Havia vários tópicos na Lei sobre com quem você podia e não podia se casar: se você se casasse com um mundano que não Ascendeu, era despojado de suas Marcas e tirado do convívio de seus iguais. Você podia se casar com um ser do Submundo em uma cerimônia mundana ou do Submundo, e você não seria expulso, mas todos ficariam embaraçados, algumas pessoas agiriam como se o seu casamento não contasse, e a sua terrivelmente tradicional tia-avó Nephilim Nerinda começaria a se referir a você como a vergonha da família. Além disso, com a Paz Fria como era, qualquer Caçador de Sombras que quisesse se casar com uma fada com certeza não seria felicitado.
Mas Helen Blackthorn era uma Caçadora de Sombras, pela sua própria Lei, não importa quantas pessoas pudessem desprezar ou desconfiar dela pelo seu sangue de fada. Caçadores de Sombras não tinham realmente algo em sua preciosa Lei que Caçadores de Sombras não podiam se casar com alguém do mesmo sexo. Possivelmente apenas porque não ocorrera a ninguém essa opção.
Então, Helen e Aline, na verdade, podiam se casar em uma cerimônia de Caçador de Sombras, aos olhos de ambas as famílias e seu mundo. Mesmo que elas fossem exiladas novamente logo depois, elas tinham muito.
Em um casamento de Caçadores de Sombras, Simon soubera, veste-se dourado e Marca-se com a runa de casamento sobre seus corações e braços. Havia uma tradição, meio que a entrega da noiva, para ambas as partes em um casamento. A noiva e o noivo (ou, neste caso, as noivas) escolhiam a pessoa mais importante para eles em sua família – às vezes um pai, uma mãe ou um parabatai, um irmão ou amigo, o próprio filho ou um idoso que simbolizava toda a família – e o escolhido, ou suggenes, daria à noiva ou noivo o seu amado, e saudaria o amado para sua própria família.
Isso nem sempre era possível em casamentos Caçadores de Sombras, por conta de, por vezes, toda a sua família e todos os seus amigos tivessem sido engolidos por demônios. Você nunca sabia com Caçadores de Sombras.
Mas Simon pensou ser bonito que Jia Penhallow, Consulesa e membro mais importante da Clave, estivesse de pé como suggenes para dar sua filha Aline para os contaminados e escandalosos Blackthorn, e para receber Helen no seio de sua família.
Aline estava um pouco nervosa ao sugerir isso. Jia ficou um pouco nervosa ao concordar. Mas Simon supôs que a Clave já tinha efetivamente exilado a filha de Jia: o que mais poderiam fazer com ela? E que melhor forma de educadamente cuspir no seu olho, do que dizer: Helen, a garota fada em quem vocês cuspiram e exilaram, é agora tão boa quanto a filha da consulesa.
Do que um Caçador de Sombras é feito, se abandonam o seu próprio, se jogam fora o coração de uma criança como lixo deixado na beira da estrada?
Julian era quem estava parado ao lado de Helen. Ele estava de pé em suas roupas inscritas de ouro, a irmã em seu braço, e seus olhos mar-à-luz-do-sol brilhavam como se ele estivesse feliz como qualquer criança poderia ser. Como se ele não tivesse uma só preocupação no mundo.
Helen e Aline estavam usando vestidos dourados, fios de ouro brilhando como a luz das estrelas no cabelo preto de Aline. Ambas estavam tão felizes que suas expressões ofuscavam seus vestidos. Eles ficaram no centro da cerimônia, dois sóis, e por um momento todo o mundo parecia girar sobre elas.
Helen e Aline desenharam as runas do casamento sobre coração uma da outra com mãos firmes. Quando Aline puxou a cabeça brilhante de Helen para baixo para dar um beijo, houve aplausos por todo o salão.
— Obrigada por nos deixar vir — sussurrou Helen após o término da cerimônia, abraçando sua nova sogra.
Jia Penhallow tomou a nora em seus braços e respondeu, em voz consideravelmente mais alta do que um sussurro:
— Lamento deixá-las serem mandado embora de novo.
Simon não contou a Julian Blackthorn sobre o encontro com Mark mais do que não contara a Mark que Helen não estava lá para cuidar das crianças Blackthorn. Parecia crueldade carregar mais um fardo sobre os ombros já sobrecarregados. Parecia melhor mentir, como as fadas não podiam.
Mas quando foi felicitar Helen e Aline, ele se aproximou e beijou Helen na bochecha, para que pudesse sussurrar-lhe:
— Seu irmão Mark envia-lhe o seu amor e seus votos de felicidade em seu casamento.
Helen olhou para ele, lágrimas repentinas em seus olhos, mas o sorriso ainda mais radiante do que antes.
Tudo vai mudar para os Caçadores de Sombras, Simon pensou. Para todos nós. Tem que mudar.

* * *

Simon teve permissão especial para passar a noite em Idris, então não teria que deixar as celebrações do casamento cedo.
Ele dançaria mais tarde, mas por enquanto as pessoas estavam em grupos, conversando.
Helen e Aline estavam sentadas no chão, no centro do Blackthorn, como duas flores douradas que surgiram a partir do solo e floresceram. Tibério descrevia para Helen, com uma voz grave, como ele e Julian tinham se preparado para o casamento.
— Passamos por qualquer cenário potencial que poderia ocorrer — ele disse a ela. — Como se estivéssemos reconstruindo uma cena de crime, mas em sentido inverso. Então eu sei exatamente o que fazer, não importa o que acontecer.
— Isso deve ter dado bastante trabalho — comentou Helen. Tibério assentiu. — Obrigada, Ty. Realmente gostei de saber.
Ty parecia satisfeito. Dru, usando sua coroa de flores e sorrindo de orelha a orelha, puxou as saias douradas de Helen para chamar a sua atenção. Simon pensou que raramente vira qualquer grupo de pessoas que pareciam tão felizes.
Ele tentou não pensar sobre o que Mark teria dado para estar aqui.
— Você quer ir em um passeio pelo rio comigo e Izzy? — Clary perguntou, cutucando-o.
— O que, sem Jace?
— Ah, eu o vejo o tempo todo — Clary respondeu, com o conforto de um amor familiar e confiável. — Não é como o meu melhor amigo.
Jace – que estava sentado conversando com Alec, este que mais uma vez não trocara nem uma única palavra com Simon – fez um gesto obsceno para Simon enquanto ele saía com Isabelle e Clary, uma em cada braço. Simon não foi realmente enganado pela demonstração de raiva de Jace. Jace o abraçara quando o viu, e cada vez mais Simon começava a acreditar que ele e Jace não tiveram uma relação em que eles se abraçavam antes.
Mas, aparentemente, eles eram do tipo abraçadores agora.
Simon, Isabelle e Clary saíram andando ao longo do rio. As águas pareciam cristal negro ao luar, e ao longe, as torres demoníacas brilhavam como colunas de luar.
Alicante era linda no inverno, uma cidade onde o gelo filigranado complementava o vidro. Simon caminhou um pouco mais lentamente do que as meninas, fascinado pela estranheza e pela magia desta cidade, uma cidade que a maior parte do mundo não sabia que existia, o coração brilhante de uma terra secreta e oculta.
Simon estava acostumado com a Academia agora. Ele, sem dúvida, se acostumaria com Idris com o tempo.
Tanta coisa havia mudado, e Simon mudara muito. Mas no final, ele não tinha perdido o que era mais precioso para ele. Ele ainda tinha o nome de seu coração.
Isabelle e Clary olhavam para ele, andando tão próximas que a cachoeira de cabelo cor de corvo de Isabelle misturava-se com os cachos de pôr do sol impetuoso de Clary. Simon sorriu e sabia o quão sortudo ele era, tinha sorte em comparação com Mark Blackthorn, que estava trancado longe do que ele mais amava, sorte em comparação com o bilhão de outras pessoas que não sabia que o que eles amavam eram o melhor de tudo.
— Você vem, Simon? — Isabelle gritou.
— Sim — Simon respondeu de volta. — Estou chegando.
Ele era afortunado por conhecê-las, e afortunado por saber que elas estavam ali com ele, e o que sentiam: ele era amado, lembrou-se, e não estava perdido.

40 comentários:

  1. Finalmente! (´・ᆺ・`)

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  2. Lindo! Cruel a autora fazer aquilo com Mark...

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  3. Nossa cada vez fico mais ansiosa para ler Os Artifícios das trevas, quero ler mais sobre o Mark, pra mim foi ele que teve o pior destino...

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  4. oh céus que lindo eu queria poder entrar no livro e abraçar o Mark pobre menino quanto sofrimento tem que suportar sem culpa

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  5. Na minha opinião, esse foi o conto mais triste e mais bonito que a tia Cassie escreveu

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    1. Néee! Até chorei em uma parte aí ehauehauehau

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    2. Eh o CONTO, porque quem leu o epílogo de " as peças infernais " é triste.quer dizer,acontecem coisas boas e tal,mais dói muito ver que will morreu e o quanto eles foram felizes juntos, faz agente perceber a maldade do tempo,e que não há nada pior do que o esquecimento,como quanto Tessa esquece o tom exato dos olhos de Will,a intensidade de sua risada ou até mesmo a música do violino de Jem,porque foram coisas que se perderam no tempo e flutuaram para um lugar silencioso onde as memórias são tão frágeis que não podem ser verdadeiramente lembradas...aquele foi o final mais tristemente feliz e perfeito que já li.claro que,o final de " os instrumentos mortais " também foi perfeito,só que foi feliz,COMPLETAMENTE feliz,mesmo com a história do Simon e tal...você percebe que ainda há esperança, e essas esperanças se concretizam aqui,nos contos da academia Lara caçadores de sombras, obrigada por postar Karina!você faz a vida de muitas pessoas mais feliz e colorida!💜

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    3. Meu Deus...vc sentiu o mesmo que Eu com o fim das peças infernais...o fim mais teiste e mais lindo da minha vida...até hj...minha saga favorita....até hj com 35 anos...Parabéns seu comentário foi Show....jem tocando o violino na morte de will...e eles se reencotrarem após 135 anos e viverem o amor dos dois....Cassandra tesseu uma teia lindamente

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  6. Mais bonito que Jace?! Ninguém é mais bonito que Jace, sai dessa, Simon! Mas esse capítulo realmente me tocou. Pobres dos Blackthorn. Mark... Helen e Aline são tão lindas e é tão bom ver Simon se adaptando ao novo ele, tendo os seus amigos ao seu lado. Mas realmente, alguém sabe qual o problema de Alec? Será que ele ainda não superou ter gostado de ser mordido por Simon?

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    1. Concordo. NINGUÉM é mais bonito que Jace,NINGUÉM SEM EXCEÇÃO. e quanto ao resto,também concordo, foi realmente um. Conto interessante e tocante.

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    2. Sou mais o antepassado dele, Will Herondale u.u Sabe como é, prefiro morenos... Mas James Blonde tem seu charme.
      Eu queria saber qual é a do Alec também... Ele sempre foi mais na dele, mas isto está ficando estranho. Não acho que seja algo tão bobo quanto a mordida... A não ser que ele tenha gostado tanto assim :P

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    3. O George é mais bonito do q o Jace,gente,só aceitem.Ele é um anjo escocês perfeito.

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    4. SE, e eu digo de novo, Se por um acaso o George for mais bonito do que o Jace, ele pode ser o tal do Herondale perdido. Pela história até agora, nenhuma outra família de Caçadores de Sombras é mais bonita do que os Herondales.

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    5. Will é mais bonito que o Jace u_u (mesmo morto, aceitem).
      Jules é mais bonito que o Jace (claro que gosto é gosto. e claro q to falando dele em TDA, pq aqui ele é praticamente um baby). Tiberius também é mais bonito que Jace u_u
      Tá, talvez eu não goste muito de loiros e.e (só vc Mark <3).
      N to dizendo q n gosto do Jace ou q ele é feio. Só q ele é endeuzado demais. Ele certamente é mto bonito e ninguém mais concordaria q esses q eu citei são mais bonitos q ele, mas...

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  7. "Ele era amado, lembrou-se" 😭😭😭
    Eu nunca quis tanto ler Os artificios das trevas mds
    Gente, pq o Alec nao ta falando com o Simon?

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    1. Pra mim é pq Alec tem dificuldades de se relacionar. Ele não sai por aí tentando fazer amizade com as pessoas... está tudo como no início

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  8. taaaaaaaaaaanta pena do jules e do mark :(
    e simon conquistador hein,isabelle,maureen e julie!
    e clary e emma são amigas :)

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  9. Q peninha do Mark, gente! Preciso ler "os artifícios das trevas" logo! Se não ainda arranjo uma passagem pro reino das fadas para tentar resgatar ele!

    Mas amei Simon e Izzy, lindos como sempre!

    As: Danizinha

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  10. Realmente chorei nesse conto. Acho que The Dark Artifices vão ser os livros mais tristes da saga toda.

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    1. Concordo :'( já me vejo derrubando lágrimas...

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  11. Uhuuuu \o/
    Vlw Karina!!!!
    Super ansiosa pra lê ;D

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  12. Só eu fiquei curiosa para saber quem é o aluno preferido da Catarina Loss? Chorei no final, esses últimos pensamentos do Simon foram tão lindos.

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  13. caçadores de sombras e suas malditas leis... tive tanto do de Mark... e Simom sempre o que é preso...
    as vezes eu so gostaria que as leis da clave fossem mais justas.

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    1. Dura lex, sed lex
      A lei é dura mais é a lei

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  14. OMG, chorei muito nesse capitulo. espero que Mark apareca em Artifícios das Trevas e que consiga sair da caçada selvagem...

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  15. karina, quando você vai postar Os Artifícios das trevas? Estou doida para ler!
    ass: Bina.

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    1. Só depois do lançamento no Brasil.. ou pelo depois que alguém traduzir

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  16. salva o mark pohha.....

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  17. Parece que a cada conto um pedaço da minha vida sai de mim... Cara, essa prévia de TDA cortou meu coração em tiras! Chorei muito!!!

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  18. Ai que dó do Mark. :~ Meu coração tá apertadinho demais.

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  19. Preciso consultar um cardiologista, urgetnte!!
    Esse meu coração mole tá me matando!

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  20. — Por que todo mundo está colocando George para baixo hoje? O que há de errado com ele? Não há nada de errado com George. Não é possível encontrar uma falha nele. Ele é um anjo escocês perfeito. Sempre compartilha os sanduíches que a mãe manda pra ele, e é mais bonito do que Jace. Pronto, falei. E não vou voltar atrás.
    — Vejo que você está de bom humor — disse Catarina. — Tudo bem, então. Vá em frente, tenha um bom dia. Cuide do meu aluno favorito.
    — Certo. Espere, quem seria esse?
    Catarina fez um gesto de varrer com a mão que segurava o seu suco indeterminado.
    — Se manda, Diurno. Kkkkkkk Esse povo, mas realmente,esse foi um dos contos mais tristes, e ao mesmo tempo um dos mais bonitos, maravilhoso! Não tenho muito o que dizer, ainda estou absorvendo tudo isso...

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  21. Tia Cassandra quebrando os nossos corações como de costume. Foi o conto que eu mais chorei. Puxa vida! A clave nunca foi tão mal.

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  22. buaa! o conto mais triste. tomara q o mark consiga voltar

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  23. Realmente agora muita coisa faz sentindo.... arrependo me de ler a dama da meia noite antes :(

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  24. A história do Mark parte meu coração. Mas a do Jules parte mais ainda. Ele é só um garotinho e tem quer ser pai. É horrível.

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  25. Pobre Mark, não merecia essa. Eu acho que no fim de TDA td isso vai mudar, na verdade eu espero isso, a Clave precisa evoluir...

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