3 de novembro de 2015

Vinte

Devo ter caído em um estado ainda mais profundo de inconsciência, porque, quando me dou conta, há mais pessoas comigo. E, pelas vozes, imagino que sejam Alrik, Heath, uma mulher mais velha, que presumo ser aquela que Heath foi buscar, e duas moças mais novas, que devem ser suas filhas, aprendizes, ou ambos.
— Você precisa saber desde já que não há garantias. Só tentamos isso como último recurso — diz a mulher mais velha.
— Parece que tenho outra opção? — grita Alrik, tremendo, quase histérico.
— Funcionou com um gato. Trouxe-o de volta. Ele viveu por mais um ano. — Interrompe uma das mais novas. — Mas o último humano que bebeu, bem, não deu muito certo.
— O que isso significa? O que ela está querendo dizer? — Alrik está desesperado.
— Significa que ele morreu mesmo assim — diz a mulher mais velha. Ele não pôde ser salvo. Não funciona com qualquer um.
— Adelina não é qualquer uma. É jovem, bonita, tem boa saúde. Vai funcionar com ela. Você vai garantir que funcione! — exige Alrik.
— Eu tentarei. É tudo o que posso prometer. Usei recentemente em mim mesma. Há seis meses, quando fiquei doente, a bebida me curou, fez com que eu me recuperasse rápido, como se a doença nunca tivesse existido. Ainda assim, como eu disse, não há garantias.
— E o que está esperando? Dê logo a ela! Apresse-se, antes que seja tarde demais!
Ela vem em minha direção. Sinto o calor de seu corpo movendo-se a meu lado. Seus dedos escorregam sob meu pescoço, apoiando minha cabeça, aproximando-me dela enquanto pressiona algo duro e frio em minha boca. Ela faz um líquido amargo passar por meus lábios, chegando à língua e descendo pela garganta. Faço o que posso para lutar contra isso. Mas não adianta. Não consigo. Estou imóvel, paralisada, meus pensamentos estão presos dentro de mim, e não tenho como pedir que parem, dizer que é desperdício de esforços.
É tarde demais.
Não vai funcionar.
Minha energia está sendo sugada para dentro, sendo comprimida, encolhendo até se tornar uma pequena esfera vibrante de luz e cor que se prepara para subir, para escapar da parte central de meu couro cabeludo — chamada de coroa — e fundir-se no que quer que exista no além.
Eles continuam a se mover em torno de mim. Vozes clamando, mãos apalpando. Deixando claro que sou a única a estar ciente do fato de que estou prestes a partir.
Esta vida está terminando.
Não voltarei — pelo menos não nesta forma.
Meus olhos, que já não viam mais nada, são tomados de repente pela visão de um belo véu dourado em que mal posso esperar para entrar. Ainda assim, esforço-me para aguentar mais alguns segundos. Preciso alcançar Alrik, convencê-lo de que ficará tudo bem.
Minha língua está amarga devido ao preparado inútil que insistem em me dar. Estão gastando um tempo precioso com essa besteira quando há coisas muito mais importantes a fazer.
Alrik! Concentro-me em seu nome com as últimas forças de meu ser. Alrik, por favor, está me ouvindo?
Mas meu apelo não é ouvido. Ele o ignora totalmente.
Sua atenção está tomada pelo luto.
E agora é tarde demais.
Não posso mais ignorar a tração. Não posso mais lutar contra isso. Não quero lutar. Então solto o último suspiro e me permito subir. Pairando perto do teto, olho para baixo e vejo a cena: Heath de cabeça baixa, afogando-se em aflição; a mulher mais velha ainda me dá o elixir, enquanto as duas jovens aprendizes — tão parecidas com ela que certamente são suas filhas — debruçam-se sobre mim, sussurrando uma série de palavras que não consigo decifrar. E, por fim, meu querido Alrik, agarrando a mão em que está minha aliança de casamento, procurando inutilmente sinais de uma vida que já não existe.
Ele solta um uivo apavorante quando se dá conta da verdade.
Meu corpo foi reduzido a uma casca vazia.
Minha alma foi libertada.
Ele ordena que os outros saiam do quarto, quer ficar sozinho com seu luto. E então, entorpecido, em frangalhos, completamente derrotado, joga seu corpo sobre o meu. Seus lábios procuram minha boca, desesperado para me trazer de volta, incapaz de aceitar o que, no fundo, sabe que é verdade.
Ele está tão perdido em sua tristeza que não tem ideia de que estou ajoelhada a seu lado, tentando tocá-lo. Desesperada para dizer a ele uma verdade que nunca poderia imaginar: não fui a lugar nenhum, nunca o abandonarei de verdade... Este corpo pode definhar, mas minha alma, assim como nosso amor, nunca morrerá.
Mas não adianta. Ele está bloqueado, incapaz de me ouvir, incapaz de sentir.
Convencido de que agora está sozinho no mundo.
Não demora muito até que eu sinta a tração novamente. Dessa vez é tão forte que não há como fugir dela.
Ela me arranca de Alrik, da cabana, e me leva para o céu. Sigo girando, subindo, correndo na direção das nuvens, voando sobre picos de montanhas, olhando para uma terra tão diferente da que estou acostumada a ver, tornando-se um lugar onde tudo cintila, onde tudo vibra e brilha.
A verdade de nossa existência é revelada de forma muito clara. Não posso imaginar como não vi isso antes.
Há uma ligação entre todos os seres vivos, plantas, animais e pessoas que habitam o planeta.
Todos somos um.
E, embora possamos entrar e sair da vida, nossa alma, nossa energia, nossa essência nunca desaparecem.
Somos seres infinitos — cada um de nós.
Essa constatação surge como um raio caindo em minha cabeça, e instintivamente percebo o que preciso fazer.
O que devo aprender.
O que nunca mais posso esquecer, não importa o que aconteça daqui para a frente.
E então, antes que o próximo pensamento possa se formar, entro no belo véu de luz dourada e brilhante e volto para um local que reconheço na mesma hora.

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