2 de novembro de 2015

Vinte

Ele grita meu nome, sua voz vindo atrás de mim. Logo atrás. Viro-me instintivamente, automaticamente, caminhando em sua direção sem pensar.
— Você voltou. — Ele olha para mim; as palavras, uma declaração, e o olhar, um questionamento.
Confirmo com a cabeça. E depois dou de ombros. Luto para fazer cessar todo tipo de movimento inquieto enquanto decido o que fazer a partir de agora.
Mas ele está claramente mais preparado para a tarefa do que eu, porque mal espera um segundo e já diz:
— É bom ver você.
— É mesmo? — Estreito os olhos, imediatamente me arrependendo do tom das palavras. Vejo o modo como ele se encolhe, como seus olhos ficam sombrios, mas, agora que já disse, não tem jeito.
— Senti sua falta. — Ele faz um gesto em minha direção, levantando a mão, mas logo desiste. — Senti falta de ter sua visão, de sentir seu cheiro. Senti falta de cada detalhe relacionado com você. — Ele passa os olhos sobre mim lentamente, cercando-me, como um abraço caloroso. — Mesmo que decida nunca mais falar comigo, nada mudará. Nada pode mudar o que sinto por você.
Tudo dentro de mim amolece, vira uma massa agitada de indecisão. Estou dividida entre recuar — afastando-me dele o máximo possível — e correr direto para a proteção de seus braços quentes e maravilhosos. Fico imaginando como sou capaz de me sentir tão poderosa para lidar com Haven e suas bobagens, para fazer o que for preciso a fim de entender seu modo de pensar — mas isso, essa história com Damen, vê-lo com ela e então tê-lo em minha frente como está agora. Isso imediatamente traz à tona todos os vestígios de minhas antigas dúvidas e incertezas.
Por que sempre é tão mais fácil treinar o corpo que o coração?
E, de todas as garotas da escola, por que ela? Por que Stacia? Certamente há outra pessoa para quem ele possa bancar o cavaleiro de armadura reluzente...
Mas, logo depois de pensar nisso, o motivo se torna claro. E eu a vejo saindo escondida da aula, seguindo pelo corredor cabisbaixa, ombros curvados, olhar fixo em um ponto distante bem diante de si, sem ousar arriscar nenhum tipo de contato visual com seus atormentadores, enquanto se esquiva de seu ataque furioso de ódio — palavras duras, olhares cruéis e uma ou outra garrafa de água jogada em sua cabeça.
E, mesmo que minha mente odeie o fato de ele ser o único que pode protegê-la, meu coração sabe que não preciso me preocupar com nada, pois nada tenho a temer.
— Afinal, ela precisa mais de proteção que qualquer outra coisa — diz Damen, apontando com a cabeça para a cena que acabei de testemunhar. — Muito mudou desde a última vez em que você esteve aqui. Toda a escola se voltou contra ela. E, mesmo que você ache que ela mereça, acredite, ninguém merece isso, ninguém merece o que Haven a está fazendo passar.
Confirmo com a cabeça, pois sei que é verdade e quero que ele entenda que compreendi isso, mas me vejo incapaz de articular as palavras. Dói muito falar.
— Mas, Ever. — Ele faz uma pausa, com o olhar fixo no meu. — Estou apenas cuidando dela aqui na escola, nada mais. Não é nada do que está pensando ou algo que deva temer. Sempre existiu só você pra mim. Achei que soubesse disso.
— Eu sei — digo finalmente, encontrando minha voz de novo. — Mas ela sabe? — encolho-me ao fazer aquela declaração, odiando o modo como soa, o som fraco, desagradável e totalmente constrangedor. Vejo o modo como ela olha para ele. O mesmo modo como sempre olhou. O mesmo modo como a maioria das meninas olha. A única diferença é que com Stacia há um histórico.
— Ela sabe. — Sua expressão é séria, os olhos nãos desviam dos meus e as mãos abertas e soltas ao lado do corpo. — Acredite, eu deixei claro. Ela sabe.
Engulo em seco e analiso aquelas mãos, lembrando-me de todas as coisas maravilhosas que são capazes de fazer, ansiando por voltar a senti-las. Pela forma como tremem levemente, sei que ele está usando toda a força para permanecer parado, bem onde está. Sei que tudo o que preciso fazer para transpor o terrível abismo entre nós é dar um passo em sua direção — um passo para longe do passado, de Stacia e de todo o resto.
Se fosse tão fácil assim...
Embora saiba que nossas vidas passadas não nos definem, ainda não consigo ficar em paz com alguns dos fatos mais inegáveis. Como sua opção por me afastar das pessoas que eu amava para poder ficar comigo só para ele — duas vezes até onde eu sei. E não consigo parar de pensar em quantas outras vezes ele pode ter recorrido a isso e em quantas pessoas podem ter sofrido com seus atos.
Toca o sinal, o som vibra alto, mas nenhum de nós se move.
Apenas ficamos ali parados, juntos, deixando uma onda de alunos se mover à nossa volta, formando um borrão de cor e som. Nossos olhares estão travados um no outro; os corpos, imóveis. Sua mente envia um mar de tulipas para a minha até que fico cercada por um halo radiante delas que apenas nós podemos ver.
O encanto se quebra quando alguém esbarra em mim — com força. Uma das asseclas de Haven que me confundiu. Ela me lança um olhar beligerante e algumas palavras para combinar como ele, até que percebe o olhar de Damen e rapidamente se encolhe.
— Eu entendo. — confirmo com a cabeça, vendo um papel amassado atingir Stacia enquanto ela descia e vai para a aula. Alterno o olhar entre ela e Damen e acrescento: É sério, eu entendo. É bondade sua. Muito gentil de sua parte. É a coisa certa a fazer. Então, não se preocupe comigo. Continue a protegê-la, e eu... — Olho para o corredor e o vejo ficar vazio enquanto todos correm para não entrar atrasados. — E eu farei o possível para impedir que a situação piore, para manter Haven sob controle.
— E nós? Há alguma esperança para nós? — ele pergunta.
Mas eu deixo as palavras para trás.
Seus pensamentos se deslocam atrás de mim, ao meu redor, enroscando-se por dentro de mim, enquanto me viro e sigo pelo corredor.
Lembrando-me de que ele está aqui.
Sempre estará.
Tudo o que preciso fazer é dizer “sim”.

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