2 de novembro de 2015

Vinte

Nem consigo chegar ao portão e meu carro já sumiu. Caio sentada no asfalto com tanta força que levo algum tempo para perceber que o veiculo desapareceu bem debaixo de mim. Olho em volta, atordoada, tentando entender como isso pode acontecido, quando um Mercedes vem a toda velocidade em minha direção, quase me atropelando, o motorista buzina, mostra o dedo médio e grita uma serie de palavrões.
Arrasto-me para o lado e fecho bem os olhos, determinada a materializar um novo carro, algum mais potente e rápido desta vez. Imagino um Lamborghini vermelho, vejo-o tão claramente diante de mim que fico chocada ao abrir os olhos e descobrir que não está lá. Respiro fundo e tento de novo, primeiro pensando em um Porsche, depois em um Miata como o que tenho em casa, e também não funciona. Então, tento um Prius prateado como o de Muñoz, seguido de um Smart, mas nada acontece. Nada. Estou tão desesperada por um transporte que, essa altura, eu me contentaria com uma lambreta, mas quando nem isso consigo materializar, tento, meio de brincadeira, criar um par de patins. Descubro como a situação está ruim quando acabo calçando um par de botas brancas de couro com duas lâminas de metal onde deveriam ser as rodas. E é então que decido desistir e correr. Fico feliz em saber que pelo menos ainda tenho minha força e minha velocidade.
Meus pés golpeiam o asfalto, os calcanhares batem com facilidade, sem esforço, enquanto sigo pelas subidas e descidas sinuosas da Coast Highway com a intenção de ir direto para casa, mas dou a volta e vou para outro lugar. Um lugar melhor. Um lugar onde há tudo que preciso, tudo o que poderia desejar. Estou tão obstinada, tão determinada a chegar a meu destino, custe o que custar, que corro mais rápido e chego em pouco tempo.
Bem em frente à porta de Roman.
Meu corpo está tremendo de desejo, ansiedade, e a chama negra dentro de mim brilha tanto que ameaça me incinerar por dentro. Fecho os olhos e percebo-o, sinto-o.
Roman está lá dentro.
Tudo o que preciso fazer é abrir a porta, e ele será meu.
Em apenas um movimento rápido, a porta bate com tanta força na parede que o barulho ecoa por toda a casa enquanto eu me esgueiro silenciosamente pelo corredor. Encontro Roman na saleta, jogado no sofá, com os braços abertos, expectativa no rosto, como se estivesse me esperando.
—Ever. — Ele faz um gesto de reconhecimento com a cabeça, nem um pouco surpreso, sem perder um segundo. — Você tem mesmo um problema com portas, não é? Preciso substituir mais essa?
Sigo em sua direção sem hesitar e murmuro seu nome enquanto meu corpo antecipa a frieza de seu olhar.
Ele acena com a cabeça, lenta e repetidamente, como se ouvisse um ritmo percebido apenas por ele. Permitindo que a tatuagem de Ouroboros apareça e desapareça de minha vista, sua voz é grave e comedida quando diz:
— Que gentileza sua passar por aqui, gata. Mas, para dizer a verdade, gostei mais da ultima vez em que esteve aqui. Você sabe... quando ficou parada na janela usando aquela camisolinha transparente. — Seus lábios esboçam um sorriso enquanto ele pega um cigarro, acende e dá uma tragada longa e pensada. Sopra cuidadosamente uma sucessão de anéis de fumaça perfeitamente calculados e continua: — Como está agora, bem, não é a sua melhor forma. Na verdade, você parece um tanto faminta, está?
Esfrego os lábios, umedecendo-os com a língua, e tento pentear meus cabelos embaraçados com os dedos. O que costumava ser uma cabeleira brilhante e abundante, da qual eu tinha bastante orgulho, ficou reduzido a um ninho opaco cheio de pontas duplas. Eu deveria ter feito mais, deveria ter feito algum tipo de esforço, usado um pouco de perfume, um corretivo, reservado um tempo para materializar roupas que realmente servissem em minha forma recém-diminuída. Contraio os músculos sob o peso de seu olhar, a maneira como ele examina meu corpo enfraquecido, claramente nem um pouco impressionado com o que tenho a oferecer.
—É serio gata, se vai invadir desse jeito, então precisa estar um pouco mais apresentável. Não sou Damen, querida. Não transo com qualquer uma. Tenho meus padrões, sabe?
Fecho os olhos, disposta a fazer o que for preciso para agradá-lo, para estar com ele, e sei que fui bem sucedida quando vejo seu olhar vidrado.
— Drina! —ele sussurra, deixando o cigarro cair dos lábios e fazendo um buraco no tapete enquanto me absorve com os olhos. Ele vê a pele sedosa, os lábios rosados e os cabelos acobreados que caem sobre meus ombros enquanto me ajoelho diante dele, apago o cigarro com meus dedos longos e finos e coloco as mãos sobre seus joelhos.
— Meu Deus... Não... Não pode ser... É isso mesmo...? — Ele balança a cabeça e esfrega os olhos, fixando-se em meus olhos cor de esmeralda e querendo acreditar em sua visão com todas as forças.
Fecho os olhos, desfrutando de seu toque frio, escorregando minhas mãos por seus joelhos, até suas coxas, tão perto de conseguir o que desejo, indo mais fundo, até que...
Haven está atrás de mim, com os olhos em chamas e os punhos cerrados. Pergunto-me há quanto tempo ela está ali assistindo, já que nem a ouvi chegar, nem a senti, aliás. Mas e daí, Haven não tem importância aqui. Ela é apenas uma barreira irritante que tem o péssimo habito de se meter em meu caminho e que posso eliminar facilmente.
— O que você pensa que está fazendo, Ever? — Ela vem em minha direção, varrendo-me com seu olhar hostil, na intenção de me intimidar. Mas não funciona, não pode funcionar, só que ela ainda não sabe.
— Ever? — Roman estreita os olhos, alternando o olhar entre nós, incapaz de enxergar o mesmo que ela. —Do que você está falando, gata? Essa não é Ever... é...
Mas basta a mera sugestão das palavras dela e ele é capaz de me ver, ver através da fachada que criei.
—Maldição! — ele grita, e me empurra com tanta força que eu vôo pela sala sobre uma mesa e depois sobre uma cadeira, antes de cair perto de onde Haven está. —Que tipo de truque é esse? — Ele faz cara feia, furioso por ter sido enganado.
Engulo em seco, sem deixar de fitar seus olhos, enquanto Haven vem para cima de mim como um furacão vestindo couro preto e renda, seu hálito gelado batendo em meu rosto enquanto as pontas das unhas cortam meu pulso:
— Não tinha que estar em outro lugar? —ela indaga, com os dentes cerrados. —Sério, Ever, Damen sabe que está aqui?
Damen.
O nome mexe com alguma coisa. Alguma coisa bem enterrada. Algo que faz minha mão agarrar meu amuleto enquanto dou um pequeno passo para trás.
Seu olhar é mordaz e o rosto curioso quando ela diz:
— Você não consegue mesmo suportar, não é? Não suporta que eu tenha algo e você, não. — Ela balança a cabeça. — Ficou me alertando contra Roman, tentando me assustar, para ficar com ele para você. Bem, tenho novidades, Ever... eu mudei. Mudei de forma que você nem pode imaginar.
Embora eu tente puxar a mão, afastar-me e me libertar, sua pegada é muito forte, muito determinada, e se depender do que dizem seus olhos, ela está farta de mim.
— Não há nada para você aqui. Não devia ter vindo. Não quero você aqui, Roman não quer você aqui... não consegue perceber que se transformou em uma piada? — Ela olha para meu queixo cheio de acne, meu peito afundado, o extremo oposto de sua pele perfeita de porcelana e suas curvas bem-definidas. - Por que não dá meia-volta e vai embora? Vivo pelas minhas próprias regras agora, e o negócio é o seguinte: se você não der o fora, se você tentar prolongar sua visita e fizer alguma loucura, é você quem vai sair machucada. - Seus dedos apertam o meu pulso, e ela continua olhando em meus olhos. - Você está um lixo. Uma pilha de cabelos embaraçados e espinhas. — Haven balança os cabelos brilhantes, negros e ondulados, e a franja com a mecha platinada. — O que aconteceu, Ever? Damen mudou de ideia a respeito de passar toda a eternidade com você e cortou seu suprimento de elixir?
Abro a boca, tentando falar, mas as palavras não saem. Então me concentro em Roman, implorando, suplicando que ele interceda e me ajude, mas ele apenas ignora, sinalizando com os olhos que está cansado de mim. Agora que ele sabe que eu não sou Drina, estou sozinha.
Sem escolha, ergo o pulso que Haven está segurando com tanta força que já o deixou pálido e dormente, e a giro tão inesperadamente que suas costas vêm parar em meu peito antes que ela possa reagir.
Meus lábios encostam em seu ouvido e digo:
—Sinto muito, mas simplesmente não vou tolerar esse tipo de conversa —Sinto-a lutar contra mim, tentar se libertar, mas é inútil, ninguém derrota o monstro, ninguém além...
Olho para o espelho na moldura dourada pendurada na parede diante de nós e fico impressionada com nossa imagem: o olhar cheio de ódio de Haven combina perfeitamente com o meu. Meu próprio rosto demonstra tanta raiva, está tão distorcido, tão monstruoso, que mal o reconheço. Finalmente, consigo ver o que os outros têm visto esse tempo todo: a degradação completa em que me transformei.
Afrouxo os dedos, o suficiente para deixá-la se soltar. Ela se vira sobre mim, furiosa, com o punho levantado e um mapa dos sete chakras em mente.
Mas, antes que ela possa completar o movimento, não estou mais lá. Ouço o barulho a empurro e saio correndo para a rua.
Sei que ela ficará bem, os imortais sempre se curam.
Porém, não tenho mais certeza se eu ficarei.

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