3 de novembro de 2015

Vinte e um

Aterrisso com um estrondo na margem do rio.
Com os pés na água e de bunda na areia, a cabeça ainda girando com os acontecimentos de uma vida toda, minha primeira vida.
Ouço um farfalhar baixo vindo de algum lugar atrás de mim, viro-me e encontro-a sorrindo enquanto se aproxima. Ela me estende a mão enrugada e me ajuda a ficar de pé.
Meus lábios se afastam, prontos para fazer uma enxurrada de perguntas, mas são todas adiadas quando Lótus balança a cabeça, coloca a mão em meu braço e diz:
— Você descobriu a verdade.
Assinto, agarrando-me ao que agora sei, ao que devo lembrar sempre, nunca esquecer, mas neste exato momento sou tomada por preocupações mais urgentes:
— E Damen? — pergunto. Minha voz entrega minha ansiedade. — Onde ele está?
Ela fecha os olhos por um instante, como se assistisse a uma cena no fundo de si mesma, volta a abri-los e diz:
— Ele ainda tem muito a ver. Muito a aprender. Não terminou para ele. Ainda não.
Lótus segue na direção do rio, e eu olho para onde ela aponta. Vejo a correnteza entrar em turbilhão e mudar, até ficar calma de novo, refletindo em suas águas a sequência da cena que acabo de deixar. Mostrando Alrik ainda vivo, consumido por um luto interminável.
Ele está em pedaços, derrotado, completamente destruído, tão desorientado que só quer se vingar. Nem imagina que foi Esme a responsável e está ávido por culpar alguém, qualquer um. Ele acusa de bruxaria a mulher da vila, bem como as duas jovens aprendizes, e as três são condenadas à morte. Mas sua vingança não lhe traz paz alguma, não traz redenção, e ele logo cai em um desespero ainda maior. Seus atos não compensam sua perda, não me levam de volta para ele.
O restante de sua vida é um nevoeiro de paixões perdidas e sonhos frustrados. Seu ardor e entusiasmo são enterrados com meu corpo. Ele segue conforme o vento, faz o que é esperado dele, conforma-se com o caminho mais fácil, com a vida que seu pai havia planejado.
Casa-se com Esme. Reivindica a coroa. Cada dia que passa faz com que seu coração endureça e encolha, transformando-se em uma pequena pedra de amargura. Não ousa acreditar que me verá novamente. Não ousa acreditar em nada, nunca mais.
Fico com o coração partido ao ver aquilo, ao vê-lo mais tarde tombar em uma revolta arquitetada secretamente pelo irmão, que se volta contra ele. Rhys acaba se casando com Fiona, a irmã de Esme, e percebe que jamais deixará de desejar a esposa do irmão, a única mulher que nunca será dele.
Os quatro estão presos em seu próprio inferno particular, incapazes de encontrar uma saída.
Não conseguem entender a verdade que acabo de descobrir: quando machucamos o outro, também machucamos a nós mesmos.
— Alrik é Damen. — Desvio o olhar da água para Lótus, surpresa por me ouvir dizendo isso, mas certa de que é verdade. — E Rhys é Roman, Heath é Jude, a mulher da vila é Ava e suas aprendizes são as gêmeas Romy e Rayne, Fiona é Haven, Esme é Drina... — É claro. Franzo a testa e reviro os olhos.
— E o médico? Eu o conheço? — Mas, antes de terminar a frase, já sei. — O médico é Miles. — Balanço a cabeça, solto uma risadinha e continuo: O único sensato do grupo. O único que não quis saber de curas místicas.
Suspiro quando me dou conta de que já passei por tudo isso séculos atrás apenas para agora cair em uma armadilha parecida, recriar uma versão moderna quase idêntica àquela existência.
Olho para o rio, vendo as imagens desaparecerem rapidamente, e digo:
— Como não sabíamos disso? Por que continuamos repetindo os mesmos erros estúpidos?
Encaro Lótus. Seu olhar se estreita de um modo que faz com que várias rugas se formem em volta dos olhos. Sua voz é baixa e séria ao dizer:
— É a estupidez humana. Embora o problema esteja, em parte, no rio — ela aponta na direção das águas escuras e revoltas diante de nós —, a maior porção da culpa é da tendência do homem a prestar atenção no ruído que existe a seu redor, em vez de se concentrar na beleza do silêncio que há dentro dele.
Com suas palavras reverberando em minha cabeça, olho para o rio e percebo como as águas refletem tudo o que acabei de aprender. Passamos a vida dando atenção a todas as coisas erradas: nossa razão e nosso ego nos desviando do caminho, fazendo com que nos enxerguemos como um ser à parte dos demais, em vez de escutarmos a verdade que está em nosso coração, a verdade que diz que estamos todos conectados, estamos todos juntos.
— O universo é paciente — diz ela. — Ele nos dá muitas oportunidades para aprender, para fazer o certo, e é por isso que reencarnamos.
— Então é verdade. Damen e eu vivemos antes como Adelina e Alrik. — Olho para ela e vejo-a confirmar com a cabeça. — E imagino que ele tenha morrido naquela vida. Ele teve um fim mortal? — Passo os olhos por seus cabelos prateados, desço pela alva túnica com bordados dourados que chega até os pés, que me surpreendem por estarem descalços, embora eu logo note que a bengala de antes não está mais lá. Ela é capaz de se equilibrar sozinha.
— Ah, sim — diz ela. — Ele agora está lá, revivendo o momento. Mas deve terminar logo.
Aperto os lábios e fico mexendo na barra da blusa, pensando. Não tenho motivos para não acreditar nela, mas, ainda assim, há algo que não faz sentido, algo que ela precisa explicar.
— Mas, se tudo isso é verdade, por que nenhum de nós viu essa vida quando morremos e fomos para Shadowland? E por que Jude não viu nada em suas idas aos Grandes Salões do Conhecimento? Sinto muito, Lótus, mas, apesar de ter parecido bem real, não faz o menor sentido.
Embora eu tenha levantado a voz no final, embora tenha ficado empolgada com meu próprio argumento, Lótus continua calma, serena, completamente tranquila ao dizer:
— Conhece o ditado "Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece"?
Faço que sim com a cabeça, lembrando que Jude disse isso uma vez.
— Acontece o mesmo com o conhecimento. A verdade é revelada quando a pessoa está preparada para recebê-la, quando precisa dela para seguir em frente e dar o próximo passo da jornada ao encontro de seu destino. Você não necessitava desse conhecimento antes, nem estava preparada para ele. Por isso viu apenas o que lhe serviria, nada mais. Agora que está pronta, o conhecimento foi revelado. Cada passo que damos nos leva ao estágio seguinte. É simples assim. E o mesmo vale para Damen e Jude.
— E quanto a Jude? Ele ainda está preso naquela vida também?
Lótus confirma. Seu olhar está distante quando diz:
— Jude tem sua própria jornada. Você ficará sem vê-lo por um tempo. Mas o verá novamente. Não se preocupe.
Olho para o rio, notando que ficou mais escuro, lamacento, e me sinto feliz por não estar tão perto da margem.
— Então é isso? — Viro-me para ela. — Essa é a jornada? Terminou? Já concluí o que me pediu?
Lótus nega com a cabeça, encarando-me com aqueles olhos cansados.
— Foi apenas o início, o primeiro teste de muitos. Há muita coisa por vir. Você precisa fazer mais descobertas.
Antes que eu possa perguntar o que aquilo significa, antes que tenha a chance de pedir que explique, o chão começa a tremer, o rio começa a subir, espirrar água e a terra sob meus pés começa a se mexer e separar, lembrando-me de meu primeiro terremoto na Califórnia.
Luto para encontrar minha voz, libertar o grito preso no fundo da garganta, quando Lótus desaparece — simplesmente evapora — e tulipas vermelhas brotam a meu redor, tomando seu lugar.
Um sinal que só pode ter um significado: Damen está aqui.
Centenas de tulipas se agitam, as pétalas macias roçando nele enquanto corre em minha direção e me pega nos braços, levantando-me e girando, e encosta os lábios em meu rosto, meus cabelos, minha boca, minhas bochechas, e em seguida recomeçando o processo. Assegurando desesperadamente a si mesmo que estou aqui, que sou eu mesma — Adelina/ Evaline/ Abigail/ Chloe/ Fleur/ Emala/ Ever —, seu amor de tantas vidas, com tantos nomes, mas uma única alma. Enfim ciente da verdade, de que, apesar do que quer que ele se tenha convencido, nunca o deixei.
— Adelina! — Ele para, afasta meus cabelos do rosto, passa os olhos sobre mim com avidez enquanto ri, balançando a cabeça, dando-se conta de que ainda está preso ao passado, e se corrige: — Ever! — Ele me beija novamente, me abraça forte. — Você estava certa. Esteve certa o tempo todo. Havia uma vida anterior. Toda uma vida que eu nunca poderia imaginar. — Ele me olha, ainda um pouco dominado pelo que acabou de acontecer — Mas agora que sabemos, o que acha que significa? — pergunta, quase como se falasse consigo mesmo.
Passo os dedos em seus cabelos, sabendo que a pergunta foi séria, mas ansiosa para apagar qualquer traço de seu luto e substituí-lo por uma lembrança muito melhor.
— Bem, para começar, não fiquei virgem para sempre. — Sorrio, lembrando a noite linda que passamos juntos como Alrik e Adelina e da maravilhosa manhã que se seguiu.
Vejo-o jogar a cabeça para trás e rir, agarrando-me pela cintura.
— Esse é um momento que eu não me importaria de reviver no pavilhão.
Ele encontra meus lábios novamente, quentes, profundos, depois se afasta e indaga:
— E Jude?
— Jude ou Heath? — Ergo a sobrancelha. — Sabe que os dois são a mesma pessoa, não é?
Ele faz que sim com a cabeça, já havia notado.
Sem saber exatamente qual parte ele precisa que eu explique, digo:
— Ele insistiu em ir comigo, e, por algum motivo, Lótus permitiu. Disse que as respostas que ele procurava seriam encontradas lá.
— Ele a amava naquela época também, não é? — Damen torce os lábios e fita meus olhos.
Eu confirmo com um aceno de cabeça.
— E o restante. Você viu? Viu tudo? — pergunta ele.
Respiro fundo e confirmo novamente. Damen suspira, tenta se virar, se afastar, mas não permito. Mantenho-o abraçado a mim.
Ele fica com os olhos tristes quando diz:
— Não é de estranhar que Jude fique reaparecendo em minha vida. Ele está tentando nos separar, mas não pelo motivo que imaginei. Ele deve me reconhecer, sentir quem eu sou, algo dentro dele talvez perceba o que eu sou. Que mais tarde fui bem-sucedido onde havia falhado, assegurando minha própria imortalidade antes de ir atrás da sua. — Ele balança a cabeça. — Todo esse tempo, em todas essas vidas, não me dei conta do que ele queria impedir, de que estava tentando salvar você de mim. — Ele esfrega o queixo, olha para mim, cansado. — Achei que a dor de perdê-la me mataria. Eu quis morrer. E acredite em mim quando digo que minha morte não veio tão rápido quanto eu gostaria. Fiquei vazio, apenas uma carcaça sem você. — Ele engole em seco, passa a mão nos olhos. — Heath implorou para que eu não sentenciasse Ava e as gêmeas, ou melhor, as pessoas que elas eram naquela época. E, quando não foi capaz de me fazer mudar de ideia, implorou para que eu o acusasse no lugar delas. Nunca se perdoou por tê-las levado até mim. Nunca superou a culpa. Mas não as havia chamado apenas por mim, mas também por si próprio. Não suportaria perder você. Faria de tudo para mantê-la viva, mesmo que isso que isso significasse ter que assistir a nosso casamento. Mas, quando você morreu, ele logo aceitou a verdade que teimei em negar. O que fizemos foi errado, não era natural, era algo que seria melhor não termos tentado. Ele entendeu, eu não. Nem naquela vida, nem na outra que se seguiu, quando acabei encontrando um modo de concluir o que havia começado. — Ele fecha os olhos, refletindo a respeito da insensatez das últimas centenas de anos.
— Você viu o restante da vida dele? Viu o que aconteceu a ele?
Faço que não com a cabeça. Damen suspira, suas mãos aquecem meus braços. O olhar está distante quando diz:
— Ele se retirou para algum lugar distante, morreu sozinho, ainda jovem. Receio que meu carma seja mais complicado que eu poderia imaginar.
Sem saber o que dizer, fico calada, mas tudo bem, já que Damen fala em meu lugar:
— E agora? Esperamos aqui para ver se Jude ou Lótus aparecem? Voltamos e tentamos compensar atos das vidas passadas que não podemos mudar realmente? Você decide, Ever. É o seu destino. Sua jornada. Não duvidarei de novo.
Olho para ele, um tanto surpresa com suas palavras, pois sei quanto ele gosta de estar certo, de estar no comando, como a maioria das pessoas.
Mas ele dá de ombros e diz:
— Não é essa a questão? Não é por isso que você fica aparecendo em minha vida? Para me ensinar sobre o luto, sobre como senti-lo, aceitá-lo, sem tentar passar por cima dele? Para me tirar da escuridão e mostrar a luz, a verdade de nossa existência, mostrar que estive errado esse tempo todo e que a alma é a única parte imortal? Não foi por isso que tudo aconteceu, que não podemos encontrar a felicidade verdadeira e continuamos deparando com obstáculos impossíveis de superar? Não é por isso que estamos aqui agora? Porque entendi tudo errado e estraguei tudo em uma escala colossal?
O silêncio paira entre nós. Damen está absorto em seu passado, e eu fico sem fala diante de suas palavras. Ansiosa para acabar logo com isso, não quero ficar aqui por mais tempo, estou prestes a dizer que não tenho ideia do que acontecerá em seguida, que sei tanto quanto ele, quando vejo um pequeno barco ancorado na margem do rio, perto de nós. Um barco que apareceu do nada, que não estava ali há um segundo.
Sei que não existem acasos aqui, não existem coincidências de nenhum tipo, então agarro a mão de Damen e começo a levá-lo naquela direção, dizendo:
— Acho que devemos velejar.

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