2 de novembro de 2015

Vinte e um

Imaginei que ela tentaria me evitar até a hora do almoço.
Imaginei que preferiria adiar qualquer tipo de confronto até que tivesse todas as suas tietes agrupadas a seu redor e ela pudesse me mostrar tudo de ruim que ela conquistou.
Imaginei que confundiria minha ausência de uma semana, meu desejo de pensar no que fazer em relação a Damen, com medo.
Medo dela e de tudo o que alcançou.
E é exatamente por isso que faço questão de encontra-la antes.
Aparecendo a seu lado sem avisar, me aproximo, dou um tapinha em seu ombro, olho dentro de seus olhos muito maquiados e levemente surpresos, e digo:
— Oi, Haven. — Mantenho a expressão afável, para não dizer totalmente amigável. Quero que ela saiba que estou de volta, que é hora de se controlar, mas não quero desafiá-la diretamente, já que nada de bom poderá sair disso. — Só vim avisá-la que seu carro foi removido. Precisei daquela vaga.
Ela olha para mim, entortando os lábios para um lado, obviamente mais surpresa do que brava, ridiculamente satisfeita por saber que o jogo ainda não terminou.
— Mas imagino que não deva estar surpresa, já que sabe que a vaga não é sua. Ela pertence a Damen e a mim. Já faz quase um ano.
Ela ri, provocando uma explosão de som que mal começa e logo termina. Tira o short e a camisa de malha, joga-os dentro do armário e troca pelo vestido azul-marinho, que começa a enfiar pela cabeça.
— Bem, você não estava aqui e Damen não pareceu se importar muito. Mas, pelo que vi, ele tem andado meio preocupado ultimamente.
Ela puxa o vestido para baixo, os olhos em busca dos meus, enquanto o rosto surge por entre o tecido. Depois se balança para os lados, para ajeitar a roupa. Faz uma pausa para me observar, seu olhar sarcástico percorre meu corpo da cabeça aos pés e de volta, à espera de uma reação que não desperta.
Seu comentário passa direto por mim, não me afeta nem um pouco. Damen e eu estamos entendidos quanto a esse assunto, e este confronto com ela, bem, é tudo o que venho treinando.
— Pensei que odiasse educação física. — Jogo-me no banco de madeira coberto de ranhuras, cruzo as pernas e ponho as mãos sobre o joelho. Olho para o vestiário feminino, um lugar que ela evita desde um incidente brutal em que foi humilhada no começo do primeiro ano.
— Bem, é verdade. Eu odiava. — Ela sacode os ombros, ajeitando o emaranhado de colares que usa no lugar do amuleto que lhe dei. Seus olhos resplandecem, o rosto está radiante quando ela olha para mim e diz: — Mas, como você sabe, as coisas mudam, Ever. Ou, mas especificamente, eu mudei. E, por causa disso, finalmente me dei conta de algo de que apenas poderia desconfiar. — Ela para por um instante para calçar os sapatos, passando os cadarços ao redor dos tornozelos uma, duas vezes, para depois amarrá-los no meio de sua pequena e musculosa panturrilha. — quando se chega ao topo da pirâmide, quando se é bonita, poderosa e agraciada com força e velocidade, bem, não há motivo algum para desgostar de qualquer coisa. Exceto, talvez, daqueles otários invejosos determinados a derrubar você. Mas, é sério, exceto por isso, está tudo bem. Você nem pode imaginar como me sinto agora. — Ela arruma o cabelo, passa as mãos na frente e nos lados do vestido, olha para si mesma no espelho do outro lado com admiração e garante que tudo está perfeitamente no lugar.
Ela tira por um instante os olhos de seu reflexo no espelho para me refletir, suspira fundo, alto, com o olhar cheio de pena, e diz:
— Eu quis dizer literalmente, por sinal. Você realmente não pode imaginar como me sinto. Como é estar no topo do mundo, no auge. — Ela dá um sorriso forçado e leva a mão à prateleira de cima do armário, onde guardou todos os anéis. — Sejamos realistas. Sem querer ser cruel nem nada disso, mas você praticamente passou a vida inteira como uma perdedora, e até mesmo agora, quando, tecnicamente falando, pode ter o que e quem quiser, ainda prefere ser uma grande otária. — Ela balança a cabeça e coloca os anéis nos dedos, uma tarefa que demora mais que se imagina devido à quantidade deles. — Se não fosse tão cômico, seria trágico. Mas devo admitir que ainda há uma pequena parte de mim que sente pena de você.
— E a outra parte? — Olho para ela, vendo-a arrumar o cabelo, deixando-o acomodado sobre os ombros e ao redor do rosto.
Ela ri. Satisfeita com o penteado, vasculha a bolsa em busca de gloss antes de me lançar um rápido olhar.
— Ah, a outra parte vai matar você. Mas disso você já sabia.
Faço um gesto de reconhecimento com a cabeça, tão casualmente que parece que ela acabou de fazer um comentário inofensivo e dispensável, não uma ameaça real à minha vida.
— Não me leve a mal, eu havia planejado matar Jude primeiro, sabe, machucá-lo bastante enquanto obrigava você a assistir... esse tipo de coisa. Mas depois pensei melhor e percebi que seria muito mais divertido acabar com você primeiro. Deixá-lo totalmente indefeso e sozinho, sem ninguém capaz, ou mesmo disposto a salvá-lo. Certamente Damen não se ofereceria para isso. E não apenas por estar ocupado protegendo Stacia, mas porque, bem, vamos encarar a situação, por melhor e mais nobre que ele goste de pensar que é, duvido que ficaria triste em vê-lo partir, considerando tudo o que aconteceu recentemente. — Ela dá de ombros, passando o gloss na boca uma, duas vezes, e depois esfregando os lábios um no outro, fazendo biquinho diante do espelho e forçando um riso enquanto joga o batom de volta na bolsa. — Não sei, é apenas uma ideia. O que você acha?
— O que eu acho? — ergo as sobrancelhas e inclino a cabeça, deixando os cabelos caírem na frente do vestido.
Ela olha para mim, esperando.
— Eu acho que... Pode vir.
Ela cai na gargalhada. Uma risada profunda, de doer a barriga. Luta para recuperar o fôlego enquanto alisa o cabelo novamente, joga a bolsa no ombro e continua a se olhar no espelho, balançando a cabeça de um lado para o outro e claramente admirando o que vê, quando diz:
— Você não pode estar falando sério. Quer realmente começar isso? Aqui? Agora? — Ela olha para mim com expressão de dúvida.
— O momento e o lugar me parecem tão bons quanto qualquer outro. — Dou de ombros. — Por que adiar o inevitável?
Ela fita meus olhos enquanto me levanto do banco e fico parada em sua frente sem traço algum de medo, completamente segura da superioridade de minha força. Paro para lembrar a mim mesma da promessa que fiz: que cabe a ela dar o primeiro passo. Não a provoco, nada faço além de me levantar e esperar. As consequências são muito sérias, permanentes. Não devo me precipitar. Meu único objetivo é ensinar uma lição a ela, torna-la mais humilde.
Mostrar que sou mais forte do que pensa, que é hora de recuar, bater em retirada. Espero fazer com que repense tudo isso, com que perceba que seus grandes planos não são uma tática muito sábia.
Ela balança a cabeça, revira os olhos, murmura algo indecifrável e tenta passar por mim, ignorando tudo com um aceno de mão.
— Acredite, vai acontecer quando tiver que acontecer. — Olha para trás e estreita os olhos. — Só precisa saber que não controlará, não determinará, e não saberá quando a hora estiver próxima. É muito mais divertido desse jeito, não acha?
Assim que chega até a porta, certa de que está livre, apareço diante dela, barrando sua saída.
— Escute aqui, Haven, se encostar um dedo em Miles, Jude ou qualquer outra pessoa, não gostará nada do que vai acontecer a você...
Ela curva os lábios e seus olhos escurecem, ficam mais sombrios do que jamais vi.
— E seu eu for atrás de Stacia? — Ela sorri com perversidade. — O que fará a respeito? Arriscará sua vida, sua própria alma, para protegê-la também? — Faz uma pausa longa o suficiente para que as palavras se façam entender e depois coloca a mão sobre a boca, simulando uma onda de vergonha. — Ah, deixe pra lá. Esqueci completamente que agora ela tem Damen para isso. Foi mal. — ela dá outro sorriso falso e me empurra, passando pela porta.
Fico ali sozinha. Sei que a vitória pode ter sido pequena, mas não resta duvida alguma de que consegui transmitir minha mensagem.
O próximo passo é dela.

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