2 de novembro de 2015

Vinte e um

Quando chego à loja, espero encontrar Jude, mas a porta está trancada e a placa diz FECHADO. Depois de tentar, sem êxito, abrir a porta com o poder da mente, enfio a mão na bolsa e procuro minha chave com dedos tão trêmulos que acabo deixando-a cair duas vezes antes de finalmente conseguir entrar.
Passo voando pelas estantes de livros e prateleiras de CDs, esquecendo completamente o mostruário de estatuetas de anjo à direita, no qual esbarro com tanta força que elas se espatifam no chão, formando uma pilha de peças quebradas e cacos de vidro. Mas não paro para consertar. Nem sequer olho duas vezes. Apenas continuo seguindo em frente, na direção da sala dos fundos, onde puxo uma cadeira diante da mesa e desabo.
Fico debruçada sobre a mesa, com a testa pressionada contra a madeira, enquanto luto para estabilizar meu pulso e desacelerar a respiração. Estou aterrorizada com minhas ações, com o modo como afundei. A cena que aconteceu dez minutos atrás não para de se repetir em minha cabeça.
Fico assim por algum tempo, até minha pele começar a esfriar e minha mente clarear, e quando finalmente levanto a cabeça e dou uma boa olhada em volta, percebo que o calendário foi tirado da parede e está apoiado na mesa, diante de mim. A data de hoje está circulada em vermelho, junto com um ponto de interrogação, meu nome sublinhado bem abaixo dele e as palavras talvez funcione escritas com os garranchos de Jude.
De repente, entendo. A solução pela qual esperava está, graças a Jude, a meu alcance, agora. E é tão inacreditavelmente óbvio que não acredito que não pensei nisso antes. Fico boquiaberta olhando para o círculo torto de Jude e para o círculo menor, impresso, que ilustra a lua e suas fases. O fato de este último estar completamente preenchido assinala que hoje é dia de lua negra.
Hécate está ascendendo novamente.
E, de uma hora para outra, sei exatamente o que fazer.
Em vez de esperar que a lua fique iluminada e pedir que a deusa anule a rainha, como as gêmeas me disseram (o que, por sinal, provavelmente só serviu para irritar a rainha e por isso deu completamente errado), eu deveria ter esperado pelo dia de hoje, quando a lua ficará negra novamente, para ir direto à fonte, recomeçar de onde parei, com Hécate, rainha do mundo inferior, e fazer uma aliança com ela.
Abro a gaveta, ignoro o Livro das sombras e procuro alguns materiais de que precisarei. Prometo a mim mesma compensar Jude depois, enquanto reúno uma série de cristais, ervas e velas, coloco na bolsa e sigo para a praia - o único lugar que me vem à mente e que pode me proporcionar não apenas a privacidade que busco, como também a quantidade de água necessária para o banho ritual que preciso fazer.
Logo estou parada na beira do penhasco, com os pés sobre as rochas, olhando para um oceano tão escuro que se confunde com o céu. Lembro-me do mesmo tipo de noite que vivenciei há um mês, quando vim até aqui com Damen, certa de que não poderia acontecer nada pior do que transformar minha melhor amiga em imortal, completamente alheia ao fato de que estava prestes a me afundar cada vez mais.
Desço pela trilha, ansiosa para começar. Escolho o caminho com cuidado, desviando de pedras pontiagudas e pisos irregulares, o coração batendo forte enquanto meu corpo fica molhado de suor, ciente daquela sensação que cresce dentro de mim e de que preciso começar antes que a fera assuma o controle novamente. Afundo os pés na areia e sigo para a caverna, confiando que estará vazia, do jeito que a deixamos, sabendo que é exatamente como Damen disse:
— As pessoas raramente veem o que está diante delas.— E, certamente, nunca veem a caverna.
Jogo a bolsa no chão e pego uma vela fina e comprida e uma caixa de fósforos. O chiado do palito riscando a caixa é o único ruído que acompanha o som tranquilo das ondas. Finco a vela acesa na areia e começo a organizar as demais ferramentas sobre um cobertor. Demoro um instante para arrumar tudo antes de tirar a roupa e sair.
Aperto os braços com força ao redor do corpo, protegendo-me do frio que corta minha pele e tentando me aquecer. Decido ignorar a fileira de costelas salientes que espetam meus dedos e os ossos protuberantes de meu quadril, dizendo a mim mesma que agora tudo acabou, a cura está próxima, e ninguém, nem mesmo o monstro, pode me impedir de me recuperar.
Corro na direção das rajadas de espuma branca, rangendo os dentes por causa do choque gélido, e mergulho sob uma série de ondas, com os olhos bem fechados para evitar o sal que arde, e os ouvidos ficam tomados por aquele chiado estrondoso. Viro-me de costas assim que termina o ataque de ondas e o oceano se acalma. Meu cabelo está todo bagunçado, o corpo não tem peso, está descarregado. Levo os joelhos ao peito e olho para cima, para um céu tão escuro, tão nítido, tão vasto e misterioso que não consigo compreendê-lo. Agarro o amuleto que Damen colocou em meu pescoço e evoco a série de cristais para auxiliar e proteger, manter o monstro acuado por tempo suficiente para que eu possa fazer o que precisa ser feito. Coloco meu destino nas mãos de Hécate, acreditando que, assim como o yin e o yang, toda escuridão tem sua luz.
Afundo repetidas vezes, até estar purificada, renovada e pronta para começar. Ando até a areia com o corpo molhado, pingando, mal sentindo a pele arrepiada. O frio é contido pela confiança calorosa, a certeza total de que estou a apenas alguns segundos de distância de matar a fera e me salvar.
As paredes da caverna brilham com a luz da vela, gerando uma sucessão de sombras escuras e claras. Depois de limpar meu athame e passá-lo três vezes pela chama, ajoelho-me no centro do círculo mágico que fiz. Incenso em uma das mãos, athame na outra, recrio um ritual similar ao anterior, só que desta vez acrescento:
Apelo a Hécate, rainha do mundo inferior, da magia e da mais negra lua
Por favor, desfaça esse feitiço, essa amarração, e apague essa chama negra que aqui atua
Oh, grande protetora das bruxas, mãe amada, donzela e anciã
 Esse é meu desejo, meu pedido
Que se faça o amanhã!
Fico surpresa quando uma rajada de vento começa a girar a meu redor e um trovão ressoa no alto. Sua força causa uma vibração tão potente que derruba a pilha de cadeiras enquanto o chão começa a se mover. Um tremor sísmico ritmado, um pulso originado em algum lugar bem profundo, que vai ficando mais forte, mais violento, aumentando seu raio, fazendo camadas de rochas se soltarem das paredes e desmoronarem sobre mim.
Tudo desaba, desintegra-se, até que não sobra nada além do chão sobre o qual estou ajoelhada, uma montanha de escombros e a vastidão do céu noturno.
A terra ainda está se ajustando, ainda está se movendo quando levanto e agradeço. Faço o caminho de volta pela fumaça e pelas ruínas, passo as mãos nos cabelos volumosos e brilhantes e materializo roupas limpas com tanta facilidade que não tenho dúvidas de que meu desejo foi atendido.

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