3 de novembro de 2015

Vinte e três

Estou sufocando.
Engasgada com lama, sujeira e — que nojo — lodo do fundo do rio. Há algo duro e metálico preso em meus molares superiores e sobre minha língua, algo de que estou determinada a me livrar.
Levanto-me nos cotovelos e me ajoelho. Cuspo no chão, passo o dedo dentro da boca e tiro pedras e fragmentos, juntamente com um estranho medalhão que cai de repente e fica balançando diante de mim, pendurado no cordão de couro marrom que uso no pescoço.
Sento-me apoiada nos calcanhares, segurando a peça entre o indicador e o polegar, e olho para um pequeno círculo prateado que mostra uma cobra engolindo o próprio rabo. Acho curioso, até interessante, mas não suspeito de onde veio.
Não imagino o motivo de estar usando isso.
Não tenho ideia do que possa significar.
Caio para trás de exaustão e fecho os olhos, evitando o sol. A princípio, gosto dessa sensação, do modo como seca minhas roupas e aquece minha pele, mas não demora muito até que o prazer seja interrompido por raios tão intensos que me deixam suada, sem fôlego e tomada repentinamente por uma sede profunda que faz com que eu volte me arrastando até o rio, na esperança de beber água. Só que o rio não está mais lá. Foi substituído por uma paisagem arenosa, uma profusão de cactos e dois sóis flamejantes que emitem duas vezes mais raios quentes, pungentes e implacáveis.
Bolhas e queimaduras começam a surgir em minha pele, e meus lábios racham e sangram. Fraca demais, devido à sede, para que consiga sair em busca de um abrigo, não tenho escolha senão encolher o corpo como uma bola.
Abaixo a cabeça até o queixo ficar apertado contra os joelhos, deixo os cabelos caídos sobre mim, esperando que me protejam, mas acabo sacrificando a nuca para poupar o rosto.
Pense. Estreito bem os olhos, tentando me centrar, focar a mente.
Pense, brigo comigo mesma. Lembre-se.
Mas o calor é tão intenso que é impossível me concentrar em qualquer coisa além da pele fervendo e da extrema sede.
Abaixo as mangas até passarem dos pulsos e cobrirem a mão, até a ponta dos dedos. Tento não gritar quando o algodão roça nas bolhas, abrindo-as e deixando o líquido das feridas chiar em minha pele. Tento ignorar a dor e enfio as mãos nos bolsos, tentando diminuir, me esconder dos raios solares, ser um alvo menor, mas não adianta. Com um duelo de sóis, um à minha frente, o outro atrás, não há como escapar de sua fúria.
Meus dedos se contorcem no fundo do bolso, depois mais fundo, acabando por encontrar algo liso e duro, com beiradas ásperas — algum tipo de pedra .
Uma pedra da qual não me lembro.
Passo a mão nela, nas beiradas, na superfície fria e lisa, sabendo que preciso pensar, preciso me concentrar, lembrar-me de... Algo... mas não tenho ideia de quê.
Viro-a. Exploro cada um dos lados repetidas vezes, até que um lampejo de luz chega a minhas pálpebras inferiores, descascadas, fechadas. Um vislumbre de cor, uma miríade de tons infiltrando-se em minha visão — minha visão interna —, acompanhada de uma série de palavras que querem me tocar, me estimular, e giram com insistência dentro de mim, exigindo minha atenção. Mas não sei o que significam.
Palavras que continuam a girar e se repetir, passando várias vezes, cada sílaba bastante enfatizada, até que soam como:
Escuro... como os olhos dele.
Vermelho... como o sangue que escorreu de mim.
Azul... como o rio, como a pedra em meu bolso.
Uma pedra que preciso ver.
Deslizo-a pelo quadril, arrastando-a pela barriga até chegar aonde posso vê-la. Fico surpresa por perceber que ela está fria, apesar do imenso inferno em que me encontro. Ouso abrir um pouco os olhos, apesar de as pálpebras estarem queimando, a pele fervendo e a retina em brasas. Dou uma olhada, girando nos dedos aquele cristal brilhante azul-esverdeado, impressionada pela visão, até que noto algo ainda mais espantoso — a energia que minha pele irradia, um halo do mais brilhante e radiante violeta com pontos dourados.
A cor me lembra outra, que senti antes. Aquela que envolveu meu corpo quando eu estava em Summerland, logo após ter saído inadvertidamente da experiência como Fleur para voltar a ser eu. A sensação de cor que me convenceu de que havia algo mais em minha história com Damen. Que havíamos tido uma vida que ainda desconhecíamos.
E, de repente, sei o que significa — sei o que é.
Aquela tonalidade brilhante e reluzente que vejo é a cor de minha alma.
De minha alma imortal.
É como minha aura seria se eu tivesse uma.
A verdade me atinge com tanta força e velocidade que não deixa espaço para dúvidas em minha mente.
Não posso morrer aqui.
Não posso morrer em lugar nenhum.
Embora seja verdade que meu corpo talvez não resista ao calor, isso não importa. Minha alma sobreviverá.
Como a cobra pendurada no cordão em meu pescoço: cada vida alimenta a próxima.
No momento em que reconheço isso, que aceito como um fato, uma leve chuva de primavera começa a cair e eu me levanto, sorrindo, dando risada, enquanto inclino a cabeça para trás. Abrindo a boca o máximo possível, deixo que uma pequena poça de água se forme em minha língua. Vejo a areia desaparecendo sob mim, enquanto meus dedos dos pés se enroscam na adorável grama e nas flores que brotam para substituí-la. Sinto minha pele curando-se, regenerando-se, enquanto um sol faísca, enfraquece e apaga e o outro se transforma em um brilho caloroso, complacente, vital.
Abro bem os braços e giro pelo campo, pulando e saltando, dançando em uma chuva que, após ter-me curado, agora não passa de uma garoa cintilante.
Eu consegui! Limito-me a sorrir, sentindo-me triunfante. Venci! Fui mais esperta que o rio, lembrei o que mais importa — com uma ajudinha de meus amigos, é claro!
Amigos.
Faço uma pausa, minha respiração fica inconstante, acelerada. Olho em volta e minha alegria desaparece quando me dou conta de duas verdades de que me havia esquecido até agora:
Não sou como meus amigos. Meu corpo é imortal; minha alma, não. Damen não está aqui. O que significa que ele se esqueceu. Não conseguiu se agarrar às memórias. Deixou que o rio levasse a melhor sobre ele.
E, uma vez que ele trocou a imortalidade da alma pela imortalidade física, só há um lugar onde ele pode ter ido parar.
Está preso em Shadowland.

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