2 de novembro de 2015

Vinte e três

As semanas passam, mas nada muda muito. Jude continua a me evitar até que eu tome uma decisão, Damen permanece ajudando Stacia na escola, Miles se esforça para proteger meus sentimentos no que diz respeito a Damen defender Stacia na escola e Haven perdura no controle da escola, enquanto eu continuo tendo que ficar alerta, à espera do momento em que ela decida vir atrás de mim.
Mas isso é apenas superficial.
Porque um olhar atento revela mais que algumas rachaduras que começam a se tornar aparentes.
Para começar, não há como negar o fato de que Honor está tão infeliz por seu o número 2 de Haven quanto era sendo a de Stacia, talvez até mais.
Em segundo lugar, embora não possa ter certeza, já que não nos falamos, mas, pelo modo determinado e saudoso como Stacia ainda olha para a mesa dos populares, fica bem claro que ela está cansada de ser protegida por um cara imune a seus encantos e que só quer realmente protegê-la.
Quanto a Haven, depois de ter flertado com praticamente todos os caras que a esnobaram no passado, descartando-os depois, está nítido que esse jogo começa a entediá-la. Ela também está ficando cada vez mais irritada com a forma como todo mundo copia os vários visuais que ela se esforça tanto para criar, o que a força a inventar novos, mais escandalosos, que por fim acabam sendo copiados também.
Acho que ser fêmea alfa não é exatamente como ela pensou que seria. A realidade está começando a cansar, como um emprego do qual ela não gosta muito e para o qual não estava mesmo qualificada.
Sei disso. Pelo modo como ela bate boca com seus supostos novos amigos, revira os olhos de forma dramática, solta suspiros altos e longos e às vezes até bate os pés de raiva quando está muito, muito frustrada e quer que todos percebam.
A vida no topo a está arrastando para baixo, e pelo que vejo Honor está começando a se ressentir da própria situação, assim como eu previ.
Além disso está claro que nenhuma delas pretende deixar sua posição. Haven tem muito a provar, e Honor, bem, embora eu não saiba que nível atingiu em suas habilidades de magia agora que Jude interrompeu as aulas, ela não é páreo para Haven e certamente sabe disso, a despeito do que consegui aprender.
Mesmo que Miles e eu não discutamos o assunto — mesmo que eu mantenha a antiga rotina diária tediosa de treinar pela manhã, permanecer vigilante na escola, treinar novamente antes de dormir e depois acordar e fazer tudo de novo —, sei que não sou a única que nota.
Damen também vê.
Posso dizer pela forma como olha pra mim, seguindo-me aonde quer que eu vá. Ele está ansioso, preocupado comigo.
Preocupado com a possibilidade de que ela comece a enlouquecer, que exploda de uma hora para outra e decida vir atrás de mim.
Preocupado com a hipótese de que eu não o avise quando acontecer, mesmo tendo prometido que o avisaria.
E ele provavelmente tem bons motivos para se preocupar. Ela está fora de si. Descontrolada.
Em decadência total e completa.
Como uma bomba prestes a explodir.
Um fio muito perto de se romper.
E, quando acontecer, serei a primeira pessoa por quem ela irá procurar.
Pelo menos é o que espero.
Antes por mim que por Jude.
Voltando da escola para casa, paro na loja, apesar de Jude ter me pedido para manter distância, alegando que não suporta ter a mim por perto até que eu tome uma decisão firme.
Ainda assim, convenço-me de que é meu dever, de que tenho a obrigação de cuidar dele, garantir que esteja seguro, bem, e tudo mais.
Mas, quando me pego materializando um lindo vestido novo e sapatos que combinam, após verificar o cabelo e a maquiagem no espelho retrovisor, sei que é algo mais. Preciso vê-lo. Preciso ver se ficar perto dele acenderá alguma faísca em mim.
Algo em que possa me basear.
Algo intenso, tangível e claro o suficiente para me colocar na direção certa.
Paro diante da porta, arrumo a roupa e o cabelo mais uma vez, respiro fundo e entro. Eu meio que esperava Ava atrás do balcão, já que o dia está tão quente e bonito que o canto da sereia do surfe dificilmente seria ignorado por Jude, mas fico entusiasmada em encontrá-lo bem ali, atrás da caixa registradora. Está rindo e brincando, como se não tivesse nada com que se preocupar no mundo, o rosto relaxado; a aura, verde e tranquila, enquanto ele atende uma cliente.
Uma cliente bonita.
Uma cliente cuja aura cor-de-rosa resplandecente me diz que está ali apenas em parte pelos livros que está comprando, e principalmente para ver Jude.
Faço uma pausa, pensando se deveria simplesmente sair e voltar depois, quando a porta se fecha atrás de mim, o sino toca alto e Jude tira os olhos da cliente e me vê ali parada, a apenas alguns passos de distância. Seus olhos escurecem, o sorriso some e a aura fica trêmula e turva — praticamente o oposto do que estava ao conversar com ela.
Como se o simples fato de me ver fosse suficiente para sugar a alegria dali.
Ele enfia as compras dela em uma sacola e a despacha com tanta pressa e tão abruptamente que é impossível que ela não note a mudança. Olhando-me de cima a baixo e logo franzindo a testa como se me acusasse, ela resmunga baixinho e segue para a porta enquanto Jude se ocupa atrás do balcão, como se eu não estivesse ali.
— Ela gosta de você — digo, ao vê-lo demorar mais que o necessário para guardar sua cópia do recibo. — Ela gosta de você e é bonita — acrescento, e não recebo mais que um resmungo como resposta. — Ela gosta de você e é bonita e tem boa energia. — insisto, obrigando-o a olhar para mim enquanto caminho em sua direção. — O que faz com que eu me pergunte: qual é seu problema?
Ele para. Para de mexer nas coisas, de se fingir de ocupado, de fazer de conta que não estou bem ali, na sua frente, quando ambos sabemos que estou.
Para com tudo isso, finalmente olha para mim e diz:
— Você — declara tão claramente, com tanta simplicidade, que fico sem saber o que fazer. — Você é meu problema.
Olho para meus pés, incapaz de encará-lo, sentindo-me tola por vir até aqui desse jeito e mal arriscando respirar quando ele continua:
— Não era isso o que queria ouvir?
Confirmo com a cabeça, de leve, ele não está errado. É isso o que eu queria ouvir. Foi exatamente por isso que vim até aqui.
Ele afunda no banco e deixa os ombros caírem enquanto enterra o rosto entre as mãos, esfrega a vista com força, depois levanta a cabeça, estreita os olhos e diz:
— Ever, do que se trata? É sério! O que está fazendo aqui? O que quer de mim?
Engulo em seco, ciente de que lhe devo uma explicação, que lhe devo a verdade, em todas as suas formas. Arrisco-me a fazer exatamente isso e digo?
— Bem, primeiro eu queria ter certeza de que está bem. Não vejo você há um tempo, e...
— E...? — Ele solta, claramente sem paciência para joguinhos.
— E...eu simplesmente queria muito ver você. Precisava ver você, eu acho.
— Você acha?
Ele olha para mim de uma forma que faz com que eu me sinta exposta, inexperiente e com a estranha sensação de estar traindo Damen. Ainda assim, preciso de algo dele. Estou sem opção. Não consigo encontrar a camisa, o Grande Salão se recusa a me ajudar, o pedido que fiz à minha estrela da noite ainda não se realizou e até agora não tive presságios nem sinais de qualquer tipo — e isso tudo me trouxe até aqui, deixando-me com apenas um modo de chegar ao fundo dessa questão.
Um modo que já tentei, sem nunca ir até o fim.
Um modo que pode me levar ao caminho certo.
— Jude — começo a dizer com a voz grave, vazia... — Jude, eu...
Chego mais perto, pensando: Isso é ridículo... Isso é tudo ridículo.
Ele me ama, e eu já amei, ou, mesmo que não tenha sido exatamente amor, sei que senti algo por ele. E talvez baste um beijo para revelar. Do mesmo modo que aconteceu quando beijei Damen pela primeira vez e nos sentimos tão conectados, tão ligados, antes que todas as outras realidades cruéis acontecessem.
Dou a volta no balcão e pego sua mão, movendo-me com tanta rapidez que mal leva um segundo para meus dedos estejam pressionados contra os seus e uma onda suave de sua energia calma e tranquila corra por meus membros. Aquietando minha mente, fazendo com que meu corpo fique leve e se renda. Observo seu rosto se aproximar, os olhos me sondarem, queimando, enquanto meus dedos se enroscam em seu braço forte.
Todo o meu corpo enrubesce em expectativa quando o puxo para perto de mim, esperando pela sensação de seus lábios nos meus, precisando experimentar de uma vez por todas, precisando saber o que venho perdendo durante todos esses séculos.
Primeiro fico chocada com a sensação, a frieza inesperada, a firmeza branda de seu beijo — tão oposta à mistura perfeita de formigamento e calor do beijo de Damen. Percebo o gemido baixo que escapa de sua garganta quando ele segura a parte de trás de minha cabeça e me aperta contra seu corpo. Seus lábios se abrem suavemente, a língua procurando a minha, ao mesmo tempo que a porta se abre, bate forte na parede e arremessa o sino tocando direto para o chão.
Nós nos viramos.
O susto nos afasta.
E encontramos Haven, sombria e sinistra, cruelmente obscurecida contra a luz, bloqueando a passagem e olhando para nós.
Seus lábios se contorcem, os olhos se estreitam e, com as mãos no quadril, ela diz:
— Uau! Vejam só! Hoje deve ser meu dia de sorte. Dois coelhos com uma cajadada só, e nenhum dos dois tem a mínima chance de fugir.

Um comentário:

  1. OMG
    Ever é muito burra por ir procurar Jude. Ele já disse pra ela deixar ele em paz.

    Nossa quem diria que Haven estaria ai agora graças a ela esse beijo não aconteceu...


    Ass;Claudia

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