2 de novembro de 2015

Vinte e três

— Está pronta?
Damen passa os dedos por meus lábios. A quase sensação de seu toque me traz a lembrança de um beijo tão real, tão tangível, que me sinto tentada arrastá-lo de volta para Summerland e começar tudo de novo.
Só que não podemos. Já nos comprometemos. E, embora nem se compare à comemoração de aniversário que Damen acabou de me dar, todo mundo está esperando, não tem jeito.
Respiro fundo e olho para a casa diante de nós. A fachada é simples, simpática, de um jeito aconchegante e acolhedor, apesar do fato de ter abrigado algumas das piores cenas de meu passado não tão distante.
— Vamos voltar para Paris — murmuro, brincando apenas em parte. — Você não precisa nem editar as partes ruins. É sério. Preferia colocar aquele vestido marrom e esfregar latrinas... Ou qualquer que seja a palavra que usavam naquela época... Do que enfrentar isso.
— Latrinas? — Ele olha para mim e balança a cabeça, o som doce de sua risada flui até mim enquanto seus olhos escuros brilham. — Desculpe Ever, mas não tinha latrina naquele tempo. Nem banheiros, toaletes ou lavabos. As pessoas usavam penicos. Um tipo, bem, de vasilha de cerâmica mantida debaixo da cama. E, acredite, esse é o tipo de lembrança que eu não quero reviver.
Faço cara feia, incapaz de imaginar como deve ter sido nojento usar tal apetrecho, mais nojento ainda esvaziá-lo. Contraio-me visivelmente quando digo:
— Está vendo? Se eu pudesse pelo menos explicar ao Muñoz que o verdadeiro motivo por eu não frequentar a aula dele é o fato de a história perder o atrativo para aqueles que realmente foram forçados a vivê-la...
Damen ri, jogando a cabeça para trás de um modo que faz seu pescoço ficar tão convidativo, tão atraente, que me seguro para não beijá-lo.
— Acredite, todos nós passamos por isso. A maioria apenas não tem a unidade de lembrar, muito menos de reviver. - Ele olha para mim sério e diz: - E, então, está pronta? Sei que é estranho, e sei que você vai demorar muito para confiar nela novamente, mas eles estão esperando, então vamos pelo menos entrar e deixar que tenham o prazer de gritar Feliz Aniversário, certo?
Ele olha para mim com o olhar caloroso, aberto, e sei que se eu falasse que não, se demonstrasse uma resistência mínima, ele concordaria comigo. Mas não farei isso. Porque a verdade é que ele está certo. Em algum momento devo enfrentá-la novamente. Sem contar como eu gostaria que ela olhasse em meus olhos enquanto tenta me convencer de sua extremamente improvável versão da história.
Faço que sim, relutante, caminhando na direção da porta quando ele diz: - Não esqueça... Aja como se estivesse surpresa. - Ele bate à porta uma vez, duas vezes, e depois faz cara de preocupação por ninguém ter vindo abrir com um bem-ensaiado coro de — Surpresa!
Ele abre a porta, levando-me pelo corredor até a cozinha amarela, onde encontramos Ava usando um vestido marrom tomara que caia e sandálias douradas, servindo-se com naturalidade de uma bebida suspeitamente vermelha. - Sangria - diz ela, balançando a cabeça e rindo ao acrescentar: - É sério, Ever. Quanto tempo vai levar para você confiar em mim de novo?
Aperto os lábios e dou de ombros, duvidando que seja capaz de confiar nela novamente algum dia, apesar do que Damen me disse. Preciso ouvir de sua boca, e só então decidirei.
— Todo mundo está lá nos fundos. — Ela diz, olhando para mim, e acrescenta: - E, então, ficou surpresa?
— Só com a falta de surpresa. — Dou um meio sorriso, que é o melhor que posso fazer, e ela tem sorte até mesmo de conseguir isso, o que tem muito menos a ver com o que acho dela pessoalmente e muito mais com o fato de ela ter assumido com prazer os cuidados com as gêmeas, permitindo que Damen e eu tenhamos nossa privacidade de volta.
— Então funcionou! — Ela ri, acompanhando nós dois até os fundos, onde todos estão reunidos. — Imaginamos que o único jeito de despistar seria fazer o oposto do que você esperava.
Vou até o quintal e vejo Romy e Rayne deitadas na grama, fazendo colares com cristais e contas que estão em uma tigela e depois enrolando-os ao redor da estátua de pedra de Buda, enquanto Jude fica recostado ao lado delas, os olhos fechados, o rosto virado para o sol, os braços novos em folha, cortesia de Summerland. E, apesar da onda de calor, amor e segurança que lateja em mim quando Damen se inclina sobre meus ombros e aperta minha mão, não consigo deixar de ficar um pouco triste ao olhar para meu suposto grupo de amigos.
Uma mulher de quem não gosto e em quem não confio; gêmeas que guardam rancor de mim, uma mais do que a outra, mas mesmo assim... e uma evidente atração amorosa do passado que, por acaso, é rival de longa data de minha alma gêmea. Só quem me faz sentir um pouquinho melhor é Miles e o fato de saber que se ele não estivesse em Florença certamente estaria aqui comigo.
Mas não Haven.
Depois que me tornei eu mesma novamente e tentei explicar o que aconteceu, ela continuou furiosa demais para fazer qualquer coisa que não fosse gritar comigo. Então praticamente não tive escolha além de lhe dar um tempo para se acalmar. Só espero que em algum momento ela caia em si e veja quem Roman realmente é.
E ali, parada, com minha triste festinha de aniversário acontecendo diante de meus olhos... bem, apenas me convenço de tê-la perdido. Sua confiança, sua amizade... E não tenho a mínima ideia de que conseguirei revê-la. Justamente quando temos mais em comum do que nunca, quando, por fim, compartilho o segredo que vinha escondendo desde que a conheci, estrago tudo de tal forma que ela me troca por meu inimigo imortal.
Suspiro baixinho, certa de que não poderia me sentir pior, quando Honor se espreme pelo vão da porta francesa e vai direto até Jude, senta-se ao lado dele e arruma o vestido de modo tão confortável e casual que fico boquiaberta. Não consigo esconder minha surpresa quando ela se vira para mim e sacode a mão para a frente e para trás, em um cumprimento estranho e fugaz.
Aceno de volta com a cabeça, incapaz de desfazer o nó na garganta e entender aquela cena.
Eles estão namorando? Ou apenas saindo juntos por compartilharem o interesse por magia? Ele realmente não entendeu quando expliquei que éramos apenas colegas de classe, e não amigas, e a enorme diferença entre as duas coisas?
Enquanto passo os olhos por eles, todos eles, não acredito que seja isso.
Que seja esse o resultado. Que depois de quase um ano nesta cidade, tentando formar algum tipo de vida, meu único relacionamento realmente duradouro seja com Damen, que, verdade seja dita, consegui pressionar além de qualquer limite razoável.
Ava limpa a garganta e nos oferece uma bebida, no que acredito ser uma tentativa de simular um pouco de normalidade, pelo bem de Honor e de Jude, já que eles são os únicos aqui que não sabem a verdade sobre Damen e sobre mim... ou pelo menos não toda a verdade.
Mas balanço a cabeça e recuso, convencendo-me de que é melhor assim, de que é realmente o único jeito. Quanto menos vínculos eu estabelecer, de menos gente precisarei me despedir. Mas, mesmo sabendo que essa é a verdade, não serve muito para preencher o grande vazio dentro de mim.
Aperto a mão de Damen, garantindo telepaticamente que ele não precisa se preocupar, só precisa ficar ali, que voltarei logo. Então entro, pensando, a princípio, em ir até o banheiro, jogar um pouco de água fria no rosto para tentar voltar a me sentir bem, mas, quando vejo aberta a porta do — espaço sagrado— de Ava, mudo de ideia e entro. Fico surpresa ao ver que as paredes roxas e a porta índigo foram transformadas em um refúgio em tons pastel e decoração pré-adolescente. Deve ser o quarto de Romy, já que Rayne nunca escolheria esse estilo.
Sento-me na beirada da cama, passo a mão pelo edredom verde-claro enquanto olho para o chão, lembrando o dia em que tudo mudou. O dia em que eu disse adeus a Damen, o dia em que fui tola o suficiente para confiá-lo aos cuidados de Ava. Estava tão convencida de que era o certo a fazer, a única coisa a fazer, que não podia imaginar que aquela pequena escolha teria repercussões tão grandes, com impacto no restante de minha vida... no restante da eternidade.
Respiro fundo e apoio a cabeça entre as mãos, dizendo a mim mesma para me levantar, voltar lá fora, tentar puxar conversa e depois encontrar uma desculpa para ir embora. Esfrego os olhos e passo os dedos pelos cabelos, depois pelas roupas, prestes a fazer exatamente o que pensei quando Ava entra e diz:
— Ah, que bom! Estava esperando para falar em particular com você. Aperto os lábios, lutando contra um ímpeto irresistível de correr em sua direção e socar todos os seus chakras, nem que seja apenas para ver, de uma vez por todas, de que lado ela realmente está. Mas nada faço. Apenas permaneço exatamente onde estou, esperando que ela comece.
— Sabe, você está certa sobre mim. — Ela faz que sim com a cabeça, encostando-se na cômoda de Romy, tornozelos cruzados, mas os braços abertos e soltos. — Eu realmente fugi com o elixir. E deixei Damen exposto e indefeso. Não posso negar.
Olho para ela com o coração batendo freneticamente; mesmo já sabendo, mesmo que Damen já tenha explicado, é totalmente diferente ouvi-la admitir isso.
— Mas, antes que tire conclusões precipitadas, acho que preciso explicar um pouco mais. Apesar do que possa estar pensando, nunca me aliei a Roman. Não estava mancomunada com ele, não era amiga dele, nem trabalhei com ele, de nenhum modo. Ele apareceu para uma leitura uma vez, sim, na época em que eu comecei. E, para ser sincera, a energia dele era tão fechada... Tão desconcertante... Que o abençoei silenciosamente e o mandei seguir seu caminho. Mas o motivo pelo qual agi assim, o motivo pelo qual não cuidei de Damen, bem... É complicado...
— Aposto que sim. — Arqueio as sobrancelhas e balanço a cabeça. Não pretendo dar nenhum desconto nem deixá-la me enrolar com alguma explicação complexa.
Ela faz um gesto afirmativo com a cabeça, determinada a continuar. Condizente com seu jeito de ser, não se deixa perturbar por minha explosão.
— A princípio, admito, fiquei um pouco absorta com as possibilidades de Summerland, com todos os dons maravilhosos que aquele lugar oferecia. Você precisa entender que vivi sozinha por muito tempo, tendo que me sustentar e trabalhar duro para conseguir tudo o que tenho sem a ajuda de ninguém e, muitas vezes, sem que ninguém se importasse...
— Está realmente esperando que eu sinta pena de você? Porque, se for isso... Nem se dê o trabalho. É sério. Não vai funcionar. — Balanço a cabeça e reviro os olhos.
— Só estou tentando mostrar a você um pouco do contexto. — Ela dá de ombros, cruzando as mãos na frente do corpo e contraindo os dedos. Não estou pedindo compaixão, pode acreditar. No mínimo, acho que aprendi uma lição importante sobre me responsabilizar pela minha própria vida. Só estou tentando explicar minha reação inicial a Summerland, como fiquei fascinada pela possibilidade de materializar qualquer tipo de coisa que eu quisesse. Sei que ultrapassei um pouco o limite e sei como isso irritou você. Depois de algum tempo, porém, percebi que poderia construir uma mansão cheia de tesouros em Summerland, mas isso não me faria mais feliz... Nem lá, nem no plano terreno. E foi quando decidi ir um pouco mais fundo, me aperfeiçoar de modos que nunca havia tentado. Claro, eu tinha meu espaço sagrado e as meditações, mas, quando me concentrei em obter acesso aos Grandes Salões do Conhecimento, bem, então fui forçada a colocar em prática todas aquelas coisas sobre as quais falava havia anos. Então, desisti de todo o restante e me concentrei somente nisso. Não levei muito tempo para conseguir entrar, e nunca olhei para trás.
Olho para ela com os olhos reduzidos a duas frestas e só consigo pensar:
Bem, parabéns pra você, Ava. Bravo!
— Sei o que você é, Ever. E Damen também. Embora não concorde necessariamente com isso, não tenho o direito de interferir.
— Por isso abandonou Damen à beira da morte? É assim que lida com o que não aprova? Soa como interferência para mim. - Olho para ela com cara feia, afundando bem o pé no tapete.
Ela balança a cabeça, a voz calma e o olhar fixo no meu.
— Eu não sabia de nada disso quando deixei Damen sozinho naquele dia. Eu pensei que tudo seria revertido... Como você também acreditava.
Você voltaria no tempo, Damen voltaria também, e, embora eu não tivesse certeza do que era o elixir, eu tinha minhas suspeitas, e pretendia tomá-lo. Mas então, por alguma razão, quando estava prestes a bebê-lo... Eu parei. Simplesmente não consegui continuar, acho que me dei conta da grandeza... Da grandeza de viver para sempre. - Ela olha para mim. - É muito sério, não acha?
Dou de ombros. Dou de ombros e reviro os olhos. Até agora, ela não disse nada que mudasse minha opinião a seu respeito. E, por sinal, ainda não estou convencida de que ela não o bebeu.
— Então, no fim das contas, eu o joguei fora, materializei o portal para Summerland e comecei a procurar respostas... E paz.
— E encontrou alguma das duas? — pergunto, deixando claro em meu tom de voz que não me importo.
— Encontrei. — Ela sorri. — Minha paz está em saber que todos nós temos nossa própria jornada... Nosso próprio destino a cumprir. E agora finalmente sei qual é o meu. — Olho para ela, vendo corno seu rosto se ilumina quando acrescenta: — Estou aqui para usar meus dons a fim de ajudar quem necessita, para viver sem medo, para confiar que sempre terei o suficiente para sobreviver e para criar as gêmeas de um modo que não consegui fazer antes. — Ela me olha como se quisesse se aproximar e me abraçar, mas felizmente se contenta em passar as mãos nos cabelos e ficar bem onde está. - Sinto muito pelo que aconteceu, Ever. Nunca pensei que acabaria desse jeito. E embora não aprove o que você e Damen são, realmente não cabe a mim julgar. Vocês têm a própria jornada a seguir.
— Jura? E qual é? — pergunto, olhando em seus olhos, surpresa pela intensidade da angústia em minha voz, esperando que ela tenha algum tipo de pista sobre o motivo de eu estar aqui. Porque até agora não tenho mínima ideia.
Mas Ava apenas dá de ombros. Seus olhos castanhos brilham olhando nos meus quando ela diz:
— Ah, não. — Ela sorri e balança a cabeça. — Acho que deve descobrir por si mesma. Mas, acredite, Ever, não tenho dúvidas de que será algo grandioso.
Quando chego em casa, já é tarde. Embora Damen se ofereça para ajudar a carregar meus presentes até o quarto, embora parte de mim fique tentada a deixá-lo fazer isso, apenas dou um beijo rápido em seu rosto e entro sozinha. Tudo o que quero é mergulhar no casulo acolhedor que é minha cama e ter a última hora do meu aniversário só para mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!