3 de novembro de 2015

Vinte e sete

Permanecemos quietos por um bom tempo depois da partida de Lótus. Damen está perdido em pensamentos de indignação e culpa enquanto eu me preparo para o momento em que terei que me explicar.
O silêncio é quebrado quando ele olha para mim e diz:
— Ever, como você pôde? — Quatro simples palavras que machucam profundamente, mas era essa a intenção. Ele faz um gesto negativo com a cabeça, aperta bem os olhos, tenta entender. — Como pôde fazer isso? — continua. — Como pôde jogar tudo fora? É sério. Precisa me explicar, porque simplesmente não faz sentido. Todo esse tempo você vem se culpando por não podermos ficar juntos. Todo esse tempo vem se culpando por ter sido enganada por Roman. Mesmo depois de minha explicação, quando lhe disse que, ao me obrigar a tomar aquilo, na verdade acabou salvando minha vida e poupando minha alma de ficar presa em Shadowland, você continuou convencida de que era a culpada. A ponto de seu único foco ser a obtenção do antídoto. Estava tão desesperada para colocar as mãos nele que chegou a se envolver em coisas que a colocaram em grande risco. E agora, agora que finalmente conseguiu o que procurou por tanto tempo... opta por jogar tudo fora para seguir a jornada de uma velha louca, em busca de uma tal árvore que, sinto dizer, não existe! — Ele me encara, os punhos cerrados ao lado do corpo, o olhar cheio de palavras que ele evita dizer. — Então, tudo o que quero de você agora, o que quero mais que qualquer coisa, é saber por quê. Por que fez isso? Em que estava pensando?
Olho para baixo, deixando suas palavras fluírem por meu corpo, rodopiarem em meu cérebro, repetirem-se diversas vezes, mas, mesmo tendo escutado a pergunta, mesmo sabendo que ele espera uma resposta, ainda estou presa à expressão uma tal árvore.
Ele a chamou de uma tal árvore.
Questionou a existência dela.
Fico surpresa com o fato de Damen não ser capaz de perceber. Surpresa por ele não ter entendido que é a árvore, não o antídoto, a responsável pela salvação real e duradoura. Que é o único jeito de reverter nossa imortalidade física.
A árvore é nossa única chance de mudar tudo.
Então talvez ele tenha entendido.
Talvez tenha entendido muito bem.
E talvez esse seja o motivo de ter uma posição contrária tão firme.
— Você está certo. — Levanto a cabeça e o encaro. — Todo esse tempo eu realmente me senti responsável. Eu de fato me martirizei com a culpa. Fiquei mesmo tão consumida pelo remorso que me envolvi com magia que não era da minha conta. Até tentei fazer acordos com pessoas de quem deveria ter mantido distância. Senti tanta culpa e tanto ódio de mim mesma e fiquei tão desesperada para reverter o que havia causado que me dispus a correr o risco que fosse necessário para reparar o que fiz a você... o que fiz a nós. Estava disposta a fazer o que fosse necessário para garantir que pudéssemos ficar juntos do modo como queremos, de forma que meu mundo se resumiu a tentar colocar as mãos no antídoto, à custa de todo o restante. Mas agora sei que estava errada. Agora sei que, em vez de me concentrar somente em conseguir o antídoto, deveria ter me concentrado em poupar nossas almas.
Ele engole em seco, mostra-se embaraçado, entende a verdade de minhas palavras — posso ver em seus olhos, mas o vislumbre termina em segundos. Sua determinação aumenta, até que ele fica menos disposto que nunca a ouvir meu lado, o que apenas me convence a continuar.
— Damen, por favor, ouça. Sei que, à primeira vista, minha decisão parece meio louca, mas ela vai muito além disso. É como se... eu finalmente entendesse. Finalmente entendesse de verdade. Se não tivesse sido Roman a tentar nos separar, teria sido outra coisa. Não podemos ficar juntos porque o universo não permite. Nosso carma não permite. Pelo menos não até fazermos o necessário para consertar esse erro imenso e terrível que foi cometido. Até mudarmos o curso de nossa vida... o caminho de nossa alma... até transformá-la de volta no que deveria ser. Você mesmo disse isso, bem antes de começarmos esta jornada, admitiu que o que somos não é natural, nem certo. Que nossa vida ia contra as leis da natureza. Que havíamos cometido um erro ao escolher a imortalidade física em vez da imortalidade da alma. São suas palavras, Damen, não minhas. Você também reconheceu que isso teve um preço muito alto para nós e que é o motivo de continuarmos deparando com obstáculos insuperáveis, o motivo de surgirem barreiras o tempo todo, de um modo que não conseguimos superar. Disse que é por isso que Jude sempre aparece e entra no caminho de nossa felicidade. Que, mesmo sem perceber, ele está cumprindo seu destino de tentar nos impedir de repetir os erros do passado.
Olho para ele, determinada a fazê-lo enxergar, determinada a fazer algum progresso com ele. Minha voz vai ficando mais aguda até quase gritar.
— Você não vê que essa é uma grande oportunidade? É uma chance bem real de ficarmos juntos de verdade para sempre, do modo como devemos. É minha chance de cumprir o destino para o qual nasci. O destino para o qual fui chamada em várias vidas, para o qual estou finalmente pronta, que estou disposta a aceitar. Só espero que você encontre um modo de aceitá-lo junto comigo.
Mordo o lábio, preparada para as palavras duras de Damen, mas ele apenas balança a cabeça e se vira. Está com tanta raiva que não consegue me encarar. As palavras saem com esforço por entre os dentes trincados quando diz:
— Não podemos ficar juntos porque você acabou de abrir mão do antídoto. — Ele engole em seco, retorcendo as mãos ao lado do corpo. — Ever, eu não entendo... Você não quer ficar comigo?
E, quando ele enfim se vira, quando seu olhar enfim encontra o meu, o que vejo faz meu coração se partir.
— Como pode pensar isso? — pergunto, com a voz e a expressão completamente transtornadas. — Depois de tudo pelo que passei na esperança de ficar com você? — Fechos os olhos, controlo a respiração, me recomponho e escolho minhas palavras. — Não ouviu o que acabei de dizer? É claro que quero ficar com você! Quero ficar com você mais que imagina! Mas não desse jeito. Não por causa do antídoto. Há outro modo, um modo melhor. Tenho certeza disso agora. Damen, enfim temos a perspectiva de reverter esse enorme e terrível mal. Enfim temos a perspectiva de levar a vida que deveríamos. E, quando conseguirmos, não precisaremos de elixires ou antídotos. Não percebe o que isso quer dizer? Não percebe como é épico?
— Épico? — ele praticamente cospe a palavra. — É sério, Ever, está escutando a si mesma? O que poderia ser mais épico que nosso amor? Não é isso que nos faz ficar juntos de novo todas as vezes?
Eu suspiro, esgotada por seu argumento, exaurida por sua teimosia sem tamanho. Ainda assim, estou determinada a fazer com que ele entenda antes que seja tarde demais, antes que seja hora de partir e ele se recuse a ir comigo.
— Isso é apenas parte do motivo — digo. — A outra parte é pelo fato de que, cada vez que volto, cada vez que reencarno, tenho uma nova chance de cumprir meu destino. De consertar o erro que você cometeu sem perceber tantos anos atrás. E consertar esse erro é o único jeito de ficarmos realmente livres para viver e nos amarmos do modo como queremos.
Ele suspira e olha para longe, permanecendo quieto por tanto tempo que estou prestes a romper o silêncio quando ele diz: — Há mais uma coisa que você precisa saber.
Olho para ele.
— A árvore é um mito. É uma lenda mística. Não existe de verdade. A lenda diz que ela dá um fruto a cada mil anos. Um fruto que proporciona imortalidade a quem pegá-lo primeiro. — Ele esboça um sorriso. — Diga, Ever, isso lhe parece remotamente real?
Respondo, recusando-me a reagir ao leve traço de ironia em seu tom de voz:
— Há um ano, um lugar como Summerland não me pareceria remotamente possível. Nem paranormalidade, fantasmas, chacras, auras, magia, viagem no tempo, reencarnação, experiências de quase morte, médiuns, materialização instantânea, o poder de cristais, elixires mágicos que proporcionam imortalidade. — Dou de ombros. — Então, quem pode dizer que essa árvore não existe também? E, considerando que exista, Damen, tem ideia do que essa jornada poderia significar? — Tento fitar seus olhos, desejando que ele pelo menos aceite algum meio-termo. — Se der certo, pode acabar com suas dívidas cármicas. Pode permitir que você conserte seu passado. Comece novamente. Passe uma borracha em tudo. Mesmo que nunca tenha forçado ninguém a tomar o elixir, bem, exceto a mim... — Faço uma pausa, aperto os lábios, reduzindo-os a uma linha fina e séria, depois balanço a cabeça e continuo: — Mesmo que fosse muito jovem, ingênuo e inexperiente para entender as consequências mais profundas do que fez, o perigo ao qual nos submeteu e a própria existência de Shadowland, que sei que você não conhecia até ser mandado para lá, ainda assim... O que estou querendo dizer é que, embora não tenha planejado condenar todas aquelas almas a um abismo terrível, no final foi exatamente o que aconteceu. No mínimo, esta é sua chance de consertar tudo. Sua chance de oferecer uma opção àqueles que transformou, ou que foram transformados por causa de seu elixir. É uma oportunidade que podemos nunca mais ter.
— Nunca quis machucá-la. — Sua voz é quase um sussurro. — Nunca tive a intenção de machucar ninguém.
Noto um inconfundível vislumbre de dor e autorrecriminação em seus olhos antes que ele vire o rosto.
— Jamais pensei que fosse me culpar dessa forma. Ou que visse uma eternidade juntos como uma maldição. Que achasse que está "condenada a um abismo terrível", como acho que disse.
— Estava falando de Shadowland, Damen, não de nosso futuro juntos.
— Mas não estamos em Shadowland. Nosso futuro é agora. Agora mesmo. Ainda temos a receita do antídoto... Não é tarde demais. Só precisamos sair daqui, voltar ao plano terreno e reunir os ingredientes. Mas você prefere partir em uma busca inútil, na esperança de reverter a maldição terrível que joguei sobre você.
— Damen... eu não quis dizer...
Ele ergue a mão e sua fisionomia está tão arrasada quanto a voz quando diz:
— Tudo bem. É sério. Acredite, Ever, não disse nada que eu já não tenha pensado milhões de vezes. É que ouvir de sua boca... Bem, foi mais difícil que eu esperava. Então, se estiver tudo bem para você, voltarei ao plano terreno... Preciso de um tempo para pensar. E, enquanto estiver por lá, reunirei aqueles ingredientes para o antídoto. Afinal, se vai ficar presa comigo pelo restante da eternidade, pelo menos o antídoto permitirá certa... Diversão para deixar sua vida infinitamente mais suportável.

2 comentários:

  1. Poxa Damen não complica neh

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  2. Acho que a Ever está sendo enganada...

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