2 de novembro de 2015

Vinte e sete

O som de sua voz flutua sobre mim, dentro de mim, ao meu redor. Como um zumbido vago e distante que cruza oceanos, continentes e galáxias para me alcançar.
Mas não consigo responder, não consigo reagir de modo algum. É inútil. Irreal.
Um truque da mente.
Uma zombaria de Shadowland.
Ninguém pode chegar a mim, agora que estou aqui.
Meu nome é um apelo em seus lábios quando diz:
— Ever, meu amor, abra os olhos e olhe para mim... por favor. — Palavras tão familiares que tenho certeza de que já as ouvi antes.
E, como antes, luto para encontrá-las. Ergo as pálpebras lentamente para encontrá-lo a me observar. Sobrancelhas inclinadas de alívio enquanto os olhos profundos e escuros mergulham ansiosamente nos meus.
Mas não é real. É algum tipo de brincadeira. Shadowland é um lugar cruel e solitário, e não posso correr o risco de cair nessa armadilha.
Ele passa os braços ao meu redor, envolvendo-me, aninhando-me, e eu me permito aceitar, entregar-me a suas profundezas, porque, embora não seja real, é bom demais para resistir.
Tento mais uma vez, luto para gritar seu nome, mas ele pressiona o dedo contra meus lábios, apertando suavemente.
— Não fale nada. Está tudo bem. Você está bem. Acabou — ele sussurra.
Começo a me afastar, ainda olhando para ele, não totalmente convencida. Meus dedos procuram minha garganta em busca de evidencias, explorando o local exato em que Haven me acertou.
Acabou comigo.
Lembro-me exatamente de como foi morrer pela segunda vez nesta vida.
Lembro-me de como não foi nem um pouco parecido com a primeira vez.
Meus olhos percorrem seu rosto e eu vejo a preocupação em sua fronte vincada, o alívio em seu olhar, ansiosa para que ele entenda o que realmente aconteceu.
— Ela me matou — digo a ele. — Apesar de todo o meu treinamento e prática, no final, não fui páreo para ela.
— Ela não matou você — ele sussurra. — Sinceramente, você ainda está aqui.
Esforço-me para me sentar, mas ele me puxa mais para perto. Então olho para a loja e vejo os vidros quebrados, as estantes derrubadas — como uma cena do mais exagerado filme de desastres, com terremotos, tornados, um ataque completo.
— Mas eu fui para Shadowland... Eu vi...
Fecho os olhos e engulo o nó que tenho na garganta, e faço uma pausa por tempo suficiente para que ele diga:
— Eu sei. Pude sentir seu desespero. Mas, mesmo que tenha parecido um tempo longo para você, pelo menos sei que foi assim para mim, não foi o suficiente para que o fio prateado se rompesse e seu corpo se separasse da alma. E por isso consegui convencê-la a voltar.
Embora ele fale com tanta confiança, embora confirme com a cabeça e olhe em meus olhos cheio de certeza, eu sei. Apesar de meu fio continuar preso, sei que morri. E só há um motivo para eu ter voltado.
Superei meu chacra fraco.
Assim que percebi a verdade — sobre mim, sobre nós — assim que fiz a escolha certa, de algum modo me recuperei.
— Ela acertou meu ponto fraco... Meu quinto chacra... E então... Eu vi tudo. — Olho para ele, com o desejo de que ele saiba, de que ele me ouça.
— Vi cada acontecimento, todos os instantes de todas as nossas vidas. Incluindo aquilo que se esforçou tanto para esconder de mim.
Ele respira fundo, o olhar cheio de perguntas, sobretudo uma que é muito importante para nós.
Não perco tempo respondendo. Envolvo seu pescoço com os braços e o puxo para perto de mim, quase sem notar o véu de energia que dança entre seus lábios e os meus, enquanto minha mente flui para a dele, informando-o de tudo o que vi e o que agora compreendo.
Que agora aceito a única verdade real.
Que nunca mais duvidarei dele.
Ficamos assim, com os corpos unidos, intensamente cientes do milagre que acaba de acontecer.
Sou mais que alguém que acaba de renascer — despertei renovada e verdadeiramente.
Ao me afastar no momento seguinte, meu olhar faz uma pergunta que ele responde imediatamente ao dizer:
— Senti sua aflição. Cheguei aqui o mais rápido que pude e encontrei a loja destruída e você... praticamente... Morta. Mas não demorou muito a voltar, embora tenha certeza de que pareceu uma eternidade para você. É assim que Shadowland funciona.
— E Jude? — Meu coração afunda até o estômago enquanto meus olhos percorrem o lugar, incapaz de encontrá-lo, não importa quanto procure.
Então ele afunda ainda mais quando a voz de Damen diminui e diz:
— Jude não está mais aqui.

2 comentários:

  1. Tipo eu sabia que ela tinha que voltar por ainda ter o 6º livro... Foi bom ter certeza.
    Tô triste em relação a Jude...

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  2. Ele quer dizer que Jude morreu, ou que ele não está mais na loja?
    Ass: Bina.

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