2 de novembro de 2015

Vinte e sete

— Vou dizer o que você vai fazer. — Ele desliga o motor e se vira para mim. — Primeiro, entre e diga a verdade. — Levanta o dedo para me silenciar assim que tento interrompê-lo. — Apenas sente e conte a ela toda a história, sem deixar nada de fora. Apesar da experiência anterior que teve com ela, pelo que vi e aprendi, está em boas mãos. É sério. Ela é mais esperta do que parece, e vem fazendo esse tipo de coisa por muitas vidas. Sem contar que é praticamente a única pessoa que conheço que realmente pode oferecer alguma ajuda verdadeira e imparcial.
— Como sabe sobre as vidas passadas dela? — pergunto, sentindo um arrepio repentino. — Quero dizer, além do que eu contei a você?
Jude olha para mim, prolongando tanto o momento que estou prestes a interromper quando ele diz:
— Estive nos Grandes Salões do Conhecimento. Sei de praticamente tudo agora.
Faço que sim, engolindo em seco, tentando não surtar. Porque, mesmo tendo acabado de fazer a maior confissão de todos os tempos, eu ainda não disse tudo.
Mas ele me ignora, sem intenção de mudar de assunto:
— Então, quando terminar aqui, precisa falar com Damen. Não me importa o que vai dizer, isso é problema seu. Mas você tem dificultado as coisas para ele ultimamente, e não importa o que eu sinto em relação a você... — Ele para e balança a cabeça. — Bem, apenas faça o que estou pedindo, certo? Você ainda não está bem. Provou isso nesta noite, e precisa dele a seu lado para superar isso. É o certo a fazer. E dê um tempo no trabalho enquanto estiver resolvendo isso. Sem brincadeira, eu consigo me virar. Além disso, Honor se ofereceu para me dar uma ajuda, então talvez dê uma oportunidade a ela.
Concordo com a cabeça, impressionada com sua nobreza, com o modo como está sendo superior e me jogando nos braços de seu rival dos últimos séculos. Estou segurando a maçaneta, certa de que terminamos e prestes a sair do carro, quando ele coloca a mão em minha perna, inclina-se em minha direção e diz:
— Tem mais uma coisa.
Eu me viro, vendo como ele está sério enquanto seus dedos longos e frios apertam meu joelho.
— Embora prometa não interferir em seu relacionamento com Damen, também não pretendo me afastar. Passar quatrocentos anos perdendo a garota dos meus sonhos não tem me feito muito bem ultimamente.
— Você... você sabe sobre isso? — Fico sem ar e levo as mãos à garganta enquanto minha voz some.
— Você está falando do cavalariço parisiense, do conde inglês, do paroquiano da Nova Inglaterra e do artista conhecido como Bastiaan de Kool? — Seus olhos encontram os meus, dois lagos azuis queimando com o desejo de quatrocentos anos. — Sei — ele diz. — Sei tudo sobre isso. E mais.
Balanço a cabeça, sem saber o que dizer, como continuar. Seus dedos passam do joelho para meu rosto quando ele diz:
— Não me diga que não sente. Sei que sente. Posso ver em seu olhar, no modo como responde ao meu toque. Droga, inclusive percebi como reagiu quando me viu com Honor... Hoje... ! — Ele olha para o pulso, mas, como não está usando relógio apenas dá de ombros e ignora. — Não importa, não estou a fim da Honor, não como você pensa. É apenas uma coisa de aluna e professor... Amizade, nada mais. — Ele inclina a cabeça enquanto seus dedos, as pontas macias de seus dedos, escorregam gentilmente por meu rosto de modo tão suave e sedutor que nem se quisesse eu poderia ter me afastado. — Não tenho interesse em mais ninguém. Sempre foi só você. Embora possa não sentir o mesmo agora, quero que saiba que não temos restrições, nada que nos separe. Nada além de você. É você quem decide no final. — Ele se afasta, mas a lembrança de seu toque permanece e seu olhar queima dentro do meu. — Mas não importa o que decidir, não há como negar que isso — ele se aproxima novamente de mim — existe.
Quando olha para mim, com a cabeça inclinada de um jeito que permite que parte dos dreadlocks caía sobre o rosto e os ombros; quando levanta de leve as sobrancelhas; quando seu sorriso faz as covinhas aparecerem, quando ele me olha assim - realmente não posso negar.
Sim, eu sinto algo quando nos tocamos. Sim, ele é inegavelmente sexy, bonito e alguém com quem posso contar. Sim, em mais de uma ocasião percebi que me sentia um pouquinho envolvida por ele. Mas, mesmo assim, não se iguala ao que sinto por Damen. Nunca se igualou. Damen é o único para mim. E, mesmo sem ter conseguido nada neste dia insano, pelo menos serei sincera com Jude, não importa o quanto ele fique magoado...
— Jude... - começo a falar, mas ele coloca o dedo em meus lábios, impedindo que as palavras saiam.
— Entre, Ever — ele diz, tirando meu cabelo do rosto e colocando-o atrás da orelha, permanecendo com os dedos ali por um pouco mais de tempo, relutando em me deixar. — Conserte as coisas, reverta o feitiço, encontre um antídoto do antídoto, faça tudo o que for necessário. Não importa como se sinta em relação a mim, não importa sua escolha, no fim das contas, só quero que seja feliz. Mas também quero que saiba que não desisti e que não pretendo desistir tão cedo. Já estou nessa há quatrocentos anos, então também posso completar o percurso. Embora nos últimos séculos não tenha ocorrido uma briga muito justa, pelo menos agora, com a ajuda de Summerland, tenho alguns recursos em quase condição de igualdade. Posso não ser imortal, provavelmente não escolheria esse caminho por conta própria, mas é como dizem por aí, conhecimento é poder, certo? Agora, graças a você e aos Grandes Salões do Conhecimento, tenho isso em grande quantidade.
Respiro fundo, abro a porta do carro e entro na casa sem nem bater.
Mesmo não tendo avisado que estava a caminho, mesmo que os ponteiros do relógio apontem para uma hora muito além do horário de visitas, não fico nem um pouco surpresa ao encontrar Ava na cozinha, preparando um bule de chá e sorrindo ao dizer:
— Ei, Ever, estava esperando você. Estou feliz por ter vindo.

2 comentários:

  1. Desde o começo o jude sempre foi encantador mais nesse capítulo ele se superou. :)

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