3 de novembro de 2015

Vinte e seis

Os dedos de Lótus se entrelaçam aos nossos, e sinto sua mão seca, fria, mas surpreendentemente forte, enquanto sua mente projeta uma série de imagens — como retratos em sépia — uma após a outra, transmitindo sem parar e combinando-as em sequência como um filme. Mostrando os órfãos como foram um dia, todos enfileirados, Damen e Drina em uma ponta, Lótus e Roman na outra, os demais entre eles.
Muito antes de se tornar Lótus, ela era uma criança de cabelos escuros e olhos brilhantes chamada Pia, que, pouco depois de tomar o elixir, fugiu do orfanato com os outros e foi acolhida por uma família modesta que sofria a perda de uma criança e estava ansiosa por substituí-la.
Ela viveu normalmente no início, sem imaginar em que se havia transformado. Cresceu, casou-se, mas não demorou muito para notar que era diferente. Além de não poder ter filhos, não entendia por que todos ao seu redor envelheciam enquanto ela continuava igual. Perceber isso logo a obrigou a fazer o que todos os imortais acabam fazendo quando as perguntas sutis e os questionamentos curiosos começam a aumentar e se transformam em suspeitas, histeria e um medo irracional generalizado: na calada da noite, pegou alguns pertences e fugiu para nunca mais voltar, pelo menos por vários séculos.
Ela vagou. Casou-se de novo — mais de uma vez. Estava determinada a ficar em cada lugar, com cada marido, pelo tempo que conseguisse, até que a necessidade constante de fugir se tornou tão insuportável que ela decidiu que seria emocionalmente mais fácil viver sozinha. Chegou um momento em que começou a abominar a imortalidade, procurar meios de revertê-la, querendo apenas voltar a fazer parte da ordem natural da vida, a viver como as outras pessoas.
Ela viajou. Primeiro para a Índia, depois para o Tibete, onde estudou com místicos, xamãs, gurus, uma série de religiosos e guias espirituais que lhe mostraram como purificar o corpo e limpar a alma, mas não puderam ajudar a reverter a escolha que fizera havia tantos anos, quando era jovem demais para entender as consequências. A ironia de seus estudos foi, mesmo sem perceber, ter conseguido fortalecer os chacras a ponto de se tornar completamente invulnerável, imune à única coisa que buscava acima de tudo: a liberdade que apenas a morte pode trazer.
No fim, avançou tanto nos estudos que ficou conhecida como célebre milagreira, a curandeira mais procurada. O nome que usa agora, Lótus, deriva de sua capacidade de fazer aquela bela flor brotar em suas mãos simplesmente fechando os olhos e desejando que aconteça, o que era capaz de fazer não apenas em Summerland, mas também no plano terreno.
Decidiu conformar-se com uma existência de celibato e solidão, mas o destino havia traçado outros planos, e logo ela conheceu alguém e se apaixonou. Amor real. Amor verdadeiro. Do tipo que, apesar dos vários maridos que tivera, nunca havia sentido.
Do tipo em que teve confiança o bastante para contar a verdade. Ela tentou convencer seu amado a ir até Roman, beber o elixir e se tornar alguém como ela, para que nunca tivessem que sofrer a dor de perder um ao outro.
Mas ele se recusou. Optou por envelhecer. E, quando finalmente chegou o dia em que ela se ajoelhou em seu leito de morte, mexendo na aliança simples de ouro que ele havia colocado no dedo dela, ele prometeu fazer tudo o que estivesse a seu alcance para não reencarnar. Para não voltar ao plano terreno. Expôs que preferia esperar que ela encontrasse um modo de reverter sua imortalidade para que algum dia pudesse se juntar a ele no além.
Ele a deixou sozinha para envelhecer, e depois envelhecer ainda mais. Seu corpo acabou se tornando tão decrépito que ela rezava para que a mera exaustão de mantê-lo funcionando convencesse seu pulmão a parar, o coração a não bater mais, de modo que pudesse se encontrar novamente com seu amado — mas ainda assim continuava viva.
Ela prosseguiu seus estudos, em busca de uma saída, mas só descobriu a solução quando já estava velha demais para fazer a viagem.
Ainda assim, recusou-se a desistir. Diante enfim da possibilidade de reencontrar o marido, passou o último século rastreando todos os órfãos remanescentes, revelando a verdade sobre o que aprendera, esperando convencer um deles a realizar a jornada — a trazer de volta a chance de uma nova perspectiva de vida.
Da vida como deveria ser.
Ela ofereceu a todos eles uma espécie de retorno ao início, uma segunda chance de tomar uma decisão mais consciente sobre quererem ou não continuar como estavam. Uma oportunidade que não tiveram quando eram jovens e estavam assustados demais para que se dessem conta das consequências — quando todos correram para tomar o elixir sem pensar duas vezes.
Drina recusou sem rodeios. Roman riu de sua cara. Os outros simplesmente se recusaram, olhando para ela com pena, e pediram que fosse embora.
Damen era o último de sua lista — sua última esperança.
Até que ela me viu.
— Pensei que encontrar um modo de libertar as almas e desfazer Shadowland tivesse sido suficiente, mas, no fim das contas, você ainda quer que eu faça mais. — Encaro-a, balanço a cabeça e me solto de sua mão. Meus dedos roçam a fina aliança de ouro que ela usa na mão esquerda e sinto remorso por Lótus ter perdido seu amado, sem saber ao certo o que devo fazer. — Você me fez passar por todo aquele inferno, e aquela nem era a jornada que tinha em mente. Tinha outros planos para mim desde o início!
— Cada passo leva ao seguinte — diz, sua voz muito mais calma que a minha. — Tudo pelo que você passou nesta vida, assim como nas anteriores, preparou-a para este momento. Cada decisão que tomou a trouxe até aqui. E, embora tenha obtido muitas conquistas, ainda há muito o que fazer. A jornada é longa e árdua, mas a recompensa é boa demais para ser ignorada. Há muitos que esperam por você. Esperam que os liberte. Você é a única que pode fazer isso. É por esse motivo que continua reencarnando, Ever. Você tem um destino a cumprir.
Semicerro os olhos, surpresa ao me dar conta de que é a primeira vez em que ela usa meu nome verdadeiro, ou pelo menos meu nome verdadeiro atual. Ela normalmente me chama de Adelina ou apenas aponta para mim enquanto canta aquela música maluca. E eu não consigo deixar de pensar no que mais ela ainda pode esperar que eu faça, depois de tudo pelo que já passei — depois de ter sobrevivido a uma vida passada que não conhecia, quase me afogar no Rio do Esquecimento, quase ser queimada viva no deserto com dois sóis ardentes, libertar as almas perdidas de Shadowland e devolver àquela região a aparência esplendorosa de Summerland.
Depois de tudo isso, não sei se estou disposta a enfrentar novos desafios.
Não quando tudo pelo que Damen e eu aspirávamos durante tanto tempo está finalmente a nosso alcance. Tudo o que precisamos fazer é voltar ao plano terreno, reunir os ingredientes, preparar o antídoto, dar uma chacoalhada e, então, teremos nosso final feliz.
— Só você pode trazer de volta a verdade. Só você pode encontrá-la — diz Lótus, pronunciando as palavras com clareza, de modo simples, sem implorar ou suplicar.
— Localizar o quê, exatamente? — pergunta Damen, sem se esforçar para esconder a irritação.
Mas Lótus é imune a nossas explosões. Pelo que posso ver, ela alterna apenas entre dois estados de espírito: ligeiramente desamparada ou calma e serena.
— A Árvore da Vida — ela diz, encarando, Damen. — Apenas Ever pode encontrá-la. Apenas Ever pode trazer seu fruto. A árvore é generosa. Seu fruto traz a iluminação, o conhecimento da verdadeira imortalidade, a imortalidade da alma, àqueles que a buscam, assim como reverte a falsa imortalidade física dos que foram enganados.
— E se ela não for? E se ela lhe der as costas, der as costas a tudo isso, e voltar ao plano terreno? O que acontecerá? — Damen ergue as sobrancelhas, desafiando-a.
— Será uma pena. Então eu a terei julgado mal. Eu a terei subestimado. Ela não cumprirá seu destino e muitos sofrerão. Ainda assim, a escolha é dela. Posso apenas pedir, mas ela tem a liberdade de decidir por conta própria. — Lótus me encara e continua: — Ainda tem aquela bolsinha que lhe dei?
Meus olhos se estreitam, minha boca se abre. Esqueci-me completamente da pequena bolsa de seda que ela me entregara no início da viagem e, depois de tudo pelo que passei, duvido que ainda esteja com ela.
Enfio os dedos nos bolsos e acabo encontrando-a espremida no fundo do bolso traseiro direito, o último em que procurei. Está amarrotada, totalmente esmagada e amassada, mas, mesmo assim, a pego e balanço diante de mim.
Seu rosto se ilumina com um sorriso e ela diz:
— Você se lembra de minhas palavras quando lhe dei isso? Semicerro os olhos, buscando-as na desordem de minha mente:
— Você disse: "Tudo de que acha que precisa está aqui. Você decide o significado." Ou algo parecido.
Ela confirma com a cabeça. Sorri. Minha atenção se volta para os grandes espaços entre seus dentes, e ela continua:
— Então, tendo isso em mente, qual é a coisa que mais deseja, mais que todas as outras? Agora, neste exato instante, o que você quer?
Eu hesito. Olho para um pequeno tufo de grama a meus pés. Estou ciente do olhar de Damen pesando sobre mim, de que ele está imaginando por que não digo nada, qual o motivo da demora.
Eu me pergunto o mesmo.
Imagino por que as palavras não saem — por que parece uma luta tão grande, quando é aquela a única coisa que buscamos durante todo esse tempo.
Levanto os olhos para encontrar o olhar de Lótus. Luto para que as palavras saiam de minha boca e, quando consigo, minha voz parece desajeitada, superficial, destituída de emoção:
— O antídoto. Eu... ou melhor, nós temos a receita, mas ainda precisamos reunir os ingredientes, acompanhar as fases da lua e... essas coisas... — Deixo as palavras esmaecerem. Meu coração bate forte, o estômago revira, os dedos se agitam desenfreadamente enquanto Lótus alterna o olhar entre mim e Damen.
— Que assim seja! — Ela confirma com a cabeça, como se tudo estivesse resolvido, e quando o gesto é recebido com dois olhares céticos, prossegue: — Por favor, olhe aí dentro. Vai encontrar tudo de que precisa para fazer o antídoto. Incluindo uma erva muito rara que seria difícil encontrar no plano terreno. E, sim, as fases da lua já foram consideradas.
Disposta a deixar por isso mesmo, ela começa a se afastar, parando apenas quando a chamo de volta e digo:
— Está brincando, não está? — Balanço a minúscula bolsa, sabendo que não há como conter todos os itens que Roman incluiu naquela longa lista. É muito pequena. Uma lista como aquela exigiria uma mochila lotada, ou duas.
Lótus para, junta as mãos em prece na altura do peito e diz: — Por que não esvazia a bolsinha e confere?
Franzo a testa, ajoelho na grama e puxo os cordões enquanto viro a bolsinha de lado. E, quando vejo cair uma enorme quantidade de ervas, cristais e pequenos frascos de vidro cheios de líquido, não consigo fazer nada além de prender a respiração. Não imagino de onde possam estar vindo — a bolsa contém muito mais itens do que poderia comportar.
— Está tudo aí. Tudo de que precisa para prosseguir. Basta seguir as instruções de Roman e a vida com que sonham será de vocês. — Ela para, olhando para mim quando acrescenta: — Ou não?
Engulo em seco. Luto para respirar. Fico olhando para aquela dádiva espalhada diante de mim: o monte generoso de ingredientes complexos e difíceis de encontrar que venho procurando por tanto tempo, a resposta a todos os nossos problemas, a nosso alcance.
Ainda assim, mesmo sabendo que deveria estar feliz, ou completamente eufórica, não consigo fazer suas palavras saírem de minha cabeça, não consigo refrear a dúvida que ela levantou ao questionar: Ou não?
— Há algo errado? — Seus olhos cansados estão voltados para mim. — Mudou de ideia? Preferia outra coisa?
— Ever... — Damen ajoelha a meu lado, querendo que eu olhe para ele, diga algo, dê algum tipo de explicação.
Mas não posso.
Como poderia explicar a ele se nem eu mesma consigo entender?
Ele só ficará bravo.
Não entenderá.
E, pelo menos a princípio, não posso culpá-lo.
Mas a questão é muito mais profunda. Remonta à jornada — meu destino, o principal motivo pelo qual continuo reencarnando.
E de repente eu sei. De repente, fico cem por cento convencida de que tomar o antídoto é apenas mais uma distração... Não é a resposta que eu realmente vinha procurando.
No final, nada resolverá.
Não resolverá a única questão que precisa ser resolvida mais que qualquer outra.
É certo que o antídoto permitirá que fiquemos juntos do modo como queremos — mas é só isso. É como colocar um Band-Aid em uma grande ferida aberta — não ajuda a reparar os danos que já foram feitos.
Em nada contribui para mudar o fato de estarmos no caminho errado.
Quando nos dermos conta de que trapaceamos ao nos desviarmos da vida que deveríamos ter levado, ao escolhermos a imortalidade física em detrimento da imortalidade da alma, o antídoto deixará de ser nosso foco.
Se Damen e eu realmente vamos ficar juntos, temos que ir muito, muito além disso. Temos que admitir que nossos problemas não começaram no dia em que Roman me enganou. Eles começaram vários séculos antes, quando Alrik não suportou perder Adelina, e atingiram o ápice quando ele reencarnou como Damen, aperfeiçoou o elixir e mudou a direção de nossas almas para sempre.
Se Damen e eu realmente vamos ficar juntos, precisamos nos libertar desse caminho, precisamos reverter as escolhas que ele fez no passado, precisamos pagar essa enorme dívida cármica fazendo a jornada à Árvore da Vida, colhendo seu fruto e oferecendo a todos os outros a chance de que se libertem também.
Só então estaremos livres para prosseguir.
Só então conseguiremos nosso verdadeiro final feliz.
Caso contrário, sem dúvida outro obstáculo dará um jeito de se apresentar, e assim será para sempre.
Respiro fundo, mas descubro que não é necessário. É como se eu pudesse sentir aquele brilho violeta irradiando dentro de mim novamente. Nunca me senti tão segura de mim.
— Há outra coisa que preferiria ter. — Encaro Lótus, sustentando o olhar por um tempo que parece muito longo. — Quero cumprir meu destino. Quero completar minha jornada — digo, com a voz sólida, firme, mais segura que nunca. — Quero completar a tarefa que nasci para realizar.
Posso ouvir Damen a meu lado, arfando, e mesmo sem olhar sei que em parte isso se deve a minhas palavras e em parte ao fato de os ingredientes terem desaparecido.
Mas não olho. Por enquanto, meu foco continua em Lótus. Vejo-a parada, em pé, diante de mim, fazendo um breve gesto afirmativo com a cabeça que acompanha um sorriso comedido quando ela diz:
— Como quiser.

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