2 de novembro de 2015

Vinte e seis

Não dizem que, quando alguém morre, toda a sua vida passa diante de seus olhos?
Bem, é verdade.
É exatamente o que acontece comigo.
Não da primeira vez. Na primeira vez que morri, fui diretamente para Summerland.
Mas desta vez, desta vez é diferente.
Desta vez eu vejo tudo.
Cada momento importante e decisivo de minha vida atual, assim como as outras que vieram e se foram antes desta.
As imagens giram a meu redor enquanto caio livremente por um espaço escuro destituído de qualquer tipo de luz, dominada por um sentimento ao mesmo tempo aterrorizante e familiar, enquanto luto para lembrar quando foi que vivenciei isso antes.
E então me dou conta:
Shadowland.
Lar das almas perdidas.
O abismo eterno para imortais, como eu.
É exatamente para onde fui, e é exatamente igual a quando a experimentei por meio de Damen.
Exceto pelas imagens.
A parte que ele não me deixou ver.
Mas não demoro a perceber o motivo.
A perceber por que motivo ele ficou tão assustado depois de sua viagem a Shadowland.
Por que voltou tão diferente, tão humilde e mudado.
Em queda livre e alta velocidade, sou golpeada por um tipo de gravidade na direção contrária e sinto como se minha entranhas estivessem prestes a escapar pelos ombros e pela cabeça, enquanto as imagens se revelam à minha volta.
A princípio vêm em flashes, lampejos de mim mesma em todas as vidas passadas, mas então me acostumo à sensação, habituo-me ao movimento e à velocidade, aprendo a moderar as imagens, desacelerá-la, focá-las. Vejo uma de cada vez enquanto continuam a passar diante de mim.
Em ordem.
Sem edição.
Incluindo todas as partes que Damen não quis que eu visse.
Vamos ao início, minha primeira vida, em Paris, quando eu era uma pobre serviçal órfã chamada Evaline. Estremeço ao ver algumas das tarefas repugnantes que era obrigada a desempenhar — o tipo de coisa de revirar o estômago de que Damen definitivamente me poupou. Tudo se revela exatamente como ele me contou, ate que veio Jude, um belo e jovem cavalariço de corpo esguio e musculoso, cabelos louros e olhos castanhos e penetrantes. Vejo nós dois cercando um ao outro, no inicio lentamente, um olhar aqui, uma breve palavra ali, até ficarmos mais confortáveis e começarmos a levar um ao outro a sério... Fazer promessas. Que eu pretendia cumprir até que Damen aparece e me conquista.
Ele certamente lançou mão de alguns artifícios, reunindo todos os seus encantos de imortal e colocando-os em prática. Ele sempre conseguia aparecer na hora certa e no lugar certo.
Sempre me impressionando de algum modo grandioso e espetacular. Mas nada daquilo era realmente necessário, por que a verdade — que eu não conseguia ver com clareza até agora — é que não era a magia que fazia com que ele conquistasse meu coração. A magia nada tinha a ver com isso.
Damen me conquistou desde o princípio. Desde nossa primeira troca de olhares.
Damen me conquistou muito antes de eu saber quem ele era ou do que era capaz.
A atração por ele, a razão de eu ter me apaixonado, nada teve a ver com magia... Foi apenas porque Damen estava simplesmente sendo, bem, Damen.
Depois de assistir a todo o período em que ele me cortejou — cenas que revivemos em Summerland e algumas que eu não havia visto, como minha horrível morte nas mãos de Drina —, sigo para a próxima vida. Volto à época em que eu era uma puritana com um pai muito rígido, uma mãe falecida havia muito tempo, três vestidos sem graça e uma existência ainda mais insípida. O único ponto luminoso em todo o horizonte de minha vida cheia de tédio era um companheiro de paróquia com cabelos escuros e revoltos, um sorriso generoso e olhos gentis que reconheço imediatamente como Jude — um rapaz religioso que meu pai aprova e para o qual me empurra, até o dia em que vejo Damen sentado em um banco da igreja, e logo depois de encontrá-lo, de conhecê-lo, prometo abandonar minha vida de humildade e obediência e trocá-la por outra, muito mais glamorosa, com ele. Até, é claro, Drina acabar com ela.
Drina sempre acabava prematuramente com minha vida.
Deixando meu pai devastado, Jude traumatizado e Damen vagando pelo plano terreno em um prolongado estado de luto, à espera que minha alma encontre um novo ciclo e pudéssemos nos unir novamente.
Acompanho minhas outras vidas também. Vejo minha alma se fundir com o corpo de um bebê muito paparicado e mimado que cresceria como a filha fútil de um abastado proprietário de terras. Negligentemente abandono Jude, um conde britânico com que todos supõem que eu me casaria, para ficar com um estranho alto e moreno que chegou aparentemente do nada.
E mais uma vez, graças a Drina, minha vida termina tragicamente antes que eu tenha a oportunidade de tornar pública minha escolha, apesar de ela já ser clara para meu coração.
Depois, em Amsterdã, onde vivi como a bela, ardente e sedutora musa de um artista, com maravilhosos e longos cabelos de um dourado avermelhado, flertando com Jude da mesma forma que fiz com tantos outros que chegaram e se foram antes dele, até que Damen vem e rouba minha atenção.
Ele não recorre a nenhum tipo de artifício, nenhum encanto. Ele me conquista simplesmente sendo o que é. Nada mais, nada menos. A partir do momento em que coloco os olhos nele, ninguém mais tem chance.
Mas a vida que mais me interessa é aquela revelada por último.
Minha vida sulista.
Quando eu vivia e trabalhava como escrava.
Quando Damen me libertou à custa de minha felicidade.
Vejo toda aquela vida miserável se revelar, desde uma infância que não chegou a existir até o único momento de luz em toda aquela existência: um rápido beijo de Jude.
Nós dois escapando para nos encontrarmos atrás do celeiro assim que o sol começa a se pôr.
Sem saber o que faz meu coração bater mais forte: a empolgação do que espero que seja meu primeiro beijo ou o medo de ser pega por ter fugido do trabalho. Ciente de que o castigo por um ato desses será uma surra severa. Ou algo pior.
Ainda assim, determinada a manter a promessa de me encontrar com ele, sou tomada por um raro sentimento de alegria, uma onda inesperada de felicidade, quando vejo que ele já está lá.
Ele sorri de um jeito hesitante, e em resposta eu faço um sinal afirmativo com a cabeça, repentinamente dominada por uma onda de timidez, o receio de parecer ansiosa demais. Mas não demora até eu notar o modo como suas mãos tremem e seus olhos estão agitados e saber que não sou a única a se sentir assim.
Trocamos alguns gracejos, palavras vãs às quais nenhum de nós dois presta atenção de verdade. Então, quando estou pensando em minha ausência prolongada do trabalho, em ter que voltar antes que percebam minha falta, ele age.
Ele se inclina em minha direção, encarando-me com seus grandes olhos castanhos com tanto amor e tanta gentileza que me tira o ar. E então os fecha devagar, deixando-me com a visão de seus cílios pretos e curvos sobre a pele escura e brilhante e os lábios sedutores vindo em direção aos meus. A pressão doce e tranquila de sua boca é tão suave e familiar que faz com que uma maravilhosa onda de calma flua através de meu corpo.
Mesmo depois de ter terminado — mesmo depois que o afasto me viro abruptamente, seguro a barra da saia e corro de volta para casa — o beijo permanece.
O gosto e a sensação continuam ali, enquanto repito silenciosamente a promessa sussurrada que fizemos de nos encontrar no dia seguinte, à mesma hora e no mesmo lugar.
Mas, apenas algumas horas antes do combinado, Damen aparece.
Ele chega aparentemente do nada, assim como em todas as minhas vidas anteriores, só que dessa vez não há tempo para um cortejo prolongado, nem mesmo para alguns gracejos. Suas intenções são urgentes demais para isso.
Ele está determinado a me comprar. A me livrar de uma vida sofrida de brutalidade e servidão e substituí-la por outra tão opulenta e privilegiada, tão oposta a tudo a que estou acostumada, que me convenço de que está mentindo, de que é truque, de que é impossível que seja verdade.
Estou tão certa de que minha vida mudaria para algo infinitamente pior que grito por minha mãe, por meu pai, estico os dedos na direção de Jude, querendo que ele me abrace, me proteja, não me deixe ir para onde Damen está me levando. Estou convicta de que ele está me arrancando da única forma de felicidade que já conheci, levando-me na direção de algo muito pior. Estou aterrorizada, em um estado esmagador de confusão e medo. Suspeito intensamente desse novo senhor de fala suave, que sussurra gentilmente em meu ouvido, trata-me com respeito e me olha com um tipo de reverência que nunca vi antes e que eu sei que não é real.
Ele me instala cuidadosamente em meu próprio quarto, em minha própria ala de uma casa muito maior e mais elegante que aquela que eu era obrigada a limpar. Não espera nada de mim além de que durma, coma, vista-se e sonhe, sem nenhuma ameaça de serviços degradantes ou surras dolorosas.
Ele me acomoda, apontando as características de meus aposentos: meu próprio banheiro particular, uma cama com dossel, um guarda-roupa cheio de belos vestidos e uma penteadeira repleta com os melhores cremes e perfumes importados e escovas de cabelo com cabo de prata. Diz-me para demorar quanto precisar, pois o jantar esperaria até a hora em que eu estivesse pronta.
Nossa primeira refeição juntos é feita em silêncio absoluto. Eu me sento à sua frente com o mais belo vestido que já vi. Concentro-me na sensação suave do tecido, no modo como cai sobre minha pele sutilmente perfumada, enquanto belisco a comida e ele toma sua bebida vermelha. Ele olha para a frente, espiando-me de vez em quando, achando que não percebo, mas na maior parte do tempo está distraído por seus pensamentos. A testa está franzida; os lábios, com uma expressão austera; o olhar marcante, pesado e conflituoso o suficiente para me dizer que está lutando contra algo, contra algum tipo de escolha que precisa fazer.
E, embora eu fique o tempo todo na expectativa de que aquilo seja apenas a primeira parte e de que algo muito ruim vá acontecer em seguida, isso não acontece. Simplesmente termino o jantar, desejo-lhe boa noite e volto para a cama com os melhores lençóis de algodão, em um quarto aquecido por uma lareira bem-cuidada.
Acordo cedo na manhã seguinte e corro para a janela a tempo de vê-lo sair a cavalo. Meus olhos o perseguem ansiosos, certa de que é isso: ele me trouxe até aqui para me entregar a alguém que me espancará até a morte, em algum tipo de jogo doentio.
Mas estou errada. Ele volta naquela mesma noite. E, embora sorria ao me cumprimentar, seus olhos denunciam uma história trágica de derrota devastadora.
Dividido entre me revelar a verdade e não querer me deixar ainda mais amedrontada e perturbada, ele decide guardar as notícias para si mesmo, enterrar a terrível verdade que acabou de ver, imaginando não haver motivo para que eu saiba, pois não me fará bem algum.
Mesmo que nunca tenha descoberto a verdade naquela vida, Shadownland generosamente revela tudo o que ele não me disse.
Mostra exatamente o que aconteceu quando ele saiu aquele dia: aonde foi, quem viu, com quem falou, toda a cena sórdida.
Ele voltou à fazenda na intenção de comprar minha mãe, meu pai, Jude e todos os outros e leva-los para a casa, para que desfrutassem a liberdade. Ofereceu uma quantia exorbitante em dinheiro, uma soma de que nunca alguém havia ouvido falar, mesmo entre os mais ricos da região, mas a proposta foi recusada. Sem ao menos ser levada em consideração. E ele foi logo expulso de lá. Ficaram tão ansiosos em se livrar dele que mandaram um capataz escolta-lo para fora da propriedade.
Um capataz que, posso dizer à primeira vista, não é o que parece.
Da pra ver no modo como se move, como se porta — confiante demais, perfeito demais, em todos os sentidos.
Ele é um imortal.
Mas não um bondoso — não é como Damen. Ele é malévolo. Muito antes que Damen se desse conta de que Roman ainda existia, que havia desenvolvido seu próprio elixir e estava transformando as pessoas. Mas posso ver em seu olhar preocupado que também sente.
Sem querer causar problemas, sem querer fazer cena e piorar a situação para minha família e Jude, Damen vai embora. Sintonizando meu medo de estar sozinha na mansão, ele está ansioso para me confortar e promete a si mesmo voltar à fazenda mais tarde, sob o disfarce da noite, e tirá-los de lá.
Não há como saber que será tarde demais.
Não há como prever o que eu acompanho agora: Roman espreita ao fundo enquanto o dono das terra está fora, comandando às escondidas o show de horrores.
Não há como saber que o fogo foi iniciado de propósito depois de sua partida, quando já era tarde demais para contê-lo, tarde demais para salvar alguém.
O restante da história se desenrola do modo como Damen me contou: ele me leva para a Europa, agindo com calma, lentamente, dando-me todo o tempo e o espaço de que preciso até que aprendo a confiar nele — a amá-lo —, a encontrar a verdadeira felicidade ao seu lado, mesmo que seja fugaz.
Até que Drina descobre e rapidamente acaba comigo.
E de repente tenho consciência do que deveria saber esse tempo todo:
Damen é O Único.
Sempre foi.
Sempre Será.
Um fato que fica ainda mais claro quando revivo as cenas de minha última vida.
Vejo-o encontrar meu corpo no acostamento logo após o acidente. Não apenas testemunho, mas também sinto, vivencio o impacto total de seu luto por ter me perdido mais uma vez. Sua dor se transforma em minha dor, seu sofrimento me deixa sem ar enquanto ele implora por orientação, enquanto lida com a escolha de me transformar ou não em alguém como ele.
Completamente consumido por sua perda no dia em que gritei com ele, rejeitei-o, disse para ir embora e me deixar em paz, para nunca mais falar comigo, apenas alguns momentos após ele ter criado coragem para revelar no que havia me transformado — o que eu sou.
Damen vivenciou a confusão mental com toda a força quando se viu sob o encanto de Roman. Seu entorpecimento, a incapacidade de controlar as próprias ações, as próprias palavras, tudo cuidadosamente orquestrado por Roman, que o manipulou para ser cruel, para me magoar. Mesmo que eu já tivesse imaginado isso, aqui, em Shadowland, posso sentir, e sei agora mais que nunca não importa o que ele tenha dito ou feito, seu coração não participou.
Ele estava apenas executando movimentos programados, seu corpo e sua mente dançando conforme a música tocada por Roman, enquanto seu coração se recusava a ser controlado e nunca se desviou do meu.
Mesmo quando se afasta para me deixar escolher entre Jude e ele, Damen me ama tanto quanto antes. Tanto que não sabe se pode realmente aguentar a dor de me perder de novo, e ao mesmo tempo permanece tão convicto de suas ações, tão ciente de que está tomando a atitude certa e mais nobre, que está preparado para me deixar partir se eu quiser.
Vejo como ele se sentiu perdido, sozinho e desolado sem mim. Assombrado pelas cenas de seu passado, certo de que merece o que está acontecendo e, embora tenha claramente se enchido de alegria quando eu volto, bem no fundo ele não tem tanta certeza de que me merece.
Sinto o medo que ele precisou controlar quando fui tomada pela magia negra que joguei sobre mim mesma — assim como sinto sua ânsia de me perdoar por todas as escolhas que fiz enquanto estava sob influência dela.
Experimento seu amor de uma forma tão profunda que me sinto completamente oca e constrangida por sua abundância... Pela forma como nunca diminuiu, nunca hesitou durante todos os séculos que se passaram, durante este último e tumultuado ano.
Sinto-me constrangida por ele nunca ter questionado seus sentimentos por mim da forma que questionei os meus por ele.
E, apesar de ter me afastado dele algumas vezes, agora sei de algo que antes não percebia:
Meu amor por ele também continuou verdadeiro.
Posso ter questionado, criticado, desviando-me muito do caminho algumas vezes, mas toda aquela confusão existiu apenas em minha cabeça.
Bem lá no fundo, meu coração conhecia meus sentimentos.
E agora sei que Haven estava errada.
Nem sempre um ama mais que o outro.
Quando duas pessoas foram realmente feitas uma para a outra, elas amam igualmente.
De modos diferentes, mas, ainda assim, na mesma proporção.
A ironia é que, agora que me dei conta de tudo isso, que finalmente percebi a verdade sobre nós, sou forçada a passar o resto da eternidade suspensa no abismo, refletindo sobre tudo o que perdi.
Cercada por um manto infinito de escuridão, completamente desconectada de tudo e de todos. Assombrada pelos erros de meu passado que desfilarão diante de meus olhos eternamente. Como um programa sem fim sendo repetido para sempre, provocando-me com tudo o que eu poderia ter sido se tivesse feito outras escolhas.
Se pelo menos eu tivesse seguido meu coração, e não minha cabeça...
Uma coisa fica absolutamente clara: embora seja verdade que sempre pude contar com Jude, que ele sempre foi gentil, generoso e amoroso comigo, Damen é minha alma gêmea.
Abro a boca, desesperada por gritar seu nome, pela sensação que dará a meus lábios, minha língua, na expectativa de alcança-lo de alguma forma.
Mas nada sai.
E, mesmo que meu grito saísse, não haveria ninguém para me escutar.
É isso.
Minha eternidade.
Sem contato.
Na escuridão.
Repetidas vezes atormentada por um passado que não posso mudar.
Ciente de que Drina está em algum lugar por aí. Roman também. Cada um de nós preso em nossa própria versão do inferno, sem conseguir encontrar um ao outro e sem saída.
Então, faço a única coisa que posso: fecho os olhos e me rendo. E não penso em mais nada, só que, pelo menos agora, eu sei.
Pelo menos encontrei a resposta que busquei por tanto tempo.
Sussurrando sem voz no vazio, meus lábios se movem rapidamente, em silêncio, sem parar.
Chamando seu nome, chamando-o para mim.
Mesmo que não adiante.
Mesmo que seja em vão.
Mesmo que seja tarde demais.

2 comentários:

  1. Não! Não! NÃOO!
    Ótimo só agora ela percebe!

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  2. OMG ainda não acredito que isso aconteceu :(

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