2 de novembro de 2015

Vinte e seis

Aterrisso naquele grande campo perfumado. Relutante, sinto-me culpada por saber que não devia ter feito isso. Nunca devia ter deixado Roman me ver desaparecer. Mas que escolha eu tinha?
Minha determinação estava se esgotando, reduzida paulatinamente pelo monstro interior, e apenas mais alguns segundos na presença dele certamente teriam representado o fim. O fim de mim. O fim de tudo o que estimo.
Porque Roman está certo. Total e completamente certo. O único motivo pelo qual perdi, pelo qual não consegui o que queria, é o fato de o monstro ser eu, não há diferença entre nós. Ele é responsável por toda a ação, por todas as decisões, enquanto eu apenas acompanho, sem saber como pisar no freio ou dar o fora. Estou sem opções. Não tenho ideia do que fazer. Tudo o que sei é:
O feitiço de reversão falhou, assim como o pedido a Hécate. E Damen, bem, Damen não pode me salvar.
Jamais pode ficar sabendo da coisa repugnante que quase fiz.
Não pode passar as próximas centenas de anos me salvando de mim mesma. Afundei tanto, caí tanto, que não há como me levantar. Não há como colocar minha vida de volta nos eixos. Não posso, de jeito algum, voltar ao plano terreno e pôr tudo em risco.
Então fico vagando, sem destino em mente e nenhuma ideia do que farei quando chegar. Ando ao longo do riacho que reflete as cores do arco-íris, vagarosamente, sem pressa, apenas caminhando, sem prestar atenção quando o riacho termina e o chão sob meus pés começa a ficar escorregadio, encharcado, molhado.
Mal noto que o ar esfria vários graus e que o brilho dourado fica mais turvo, denso, difícil de penetrar.
Talvez isso explique meu choque quando vejo. Quando percebo que sem querer cheguei ao lugar onde a névoa é sempre mais pesada, onde é fácil se perder e chegar a um ponto do qual não há mais volta. Observo os familiares contornos em declive, as cordas gastas e desfiadas, as tábuas de madeira lascadas, a forma entrando e saindo de foco, obscurecida pela neblina, mas ainda assim não há como negar o que é.
Sem dúvida, é a ponte que leva ao outro lado.
A Ponte das Almas.
Ajoelho-me ao lado, afundando na terra úmida, imaginando se é algum tipo de sinal, se fui levada até ali de propósito, se devo finalmente cruzá-la.
E se a oportunidade que recusei antes estiver sendo oferecida a mim novamente? Uma oferta especial do tipo — não-faça-perguntas— para clientes fiéis como eu.
Pego no corrimão, uma corda velha desfiada que parece que vai se romper a qualquer momento, e percebo que a neblina fica cada vez mais densa lá pelo meio, tão pesada que o destino final é um mistério coberto de branco. Lembro a mim mesma que essa é a ponte que incentivei Riley a cruzar, a mesma que meus pais e Buttercup usaram para chegar ao outro lado. E se eles conseguiram cruzar e chegar bem, então não deve ser tão ruim assim.
E se eu simplesmente me levantasse, limpasse a sujeira do corpo, respirasse fundo e a cruzasse?
E se o necessário para resolver meus problemas, livrar-me do monstro, apagar essa chama e ver minha família novamente é apenas um pequeno passo, seguido de outro?
Alguns passos na direção de seus braços acolhedores e calorosos.
Alguns passos para longe de Roman, Haven, as gêmeas, Ava e essa confusão terrível que criei.
Alguns passos na direção da paz que procuro.
É sério. Que mal pode haver? Certamente encontrarei minha família toda esperando por mim — como vemos naqueles programas de TV sobre a vida após a morte.
Agarro a corda com força. Minhas pernas estão trêmulas, instáveis, enquanto me levanto e me estico para tentar ver melhor. Pergunto-me até onde precisarei ir para chegar ao ponto do qual não há mais volta. Lembro-me de Riley dizendo que chegou à metade e, então, voltou para me procurar, a névoa deixando-a tão confusa que não conseguiu mais encontrar a ponte ... pelo menos por algum tempo.
Mas se eu decidisse continuar, cruzar para o outro lado, meu destino seria o mesmo que o deles? Ou seria como um trem de carga mudando repentinamente de trilhos, levando-me para o abismo de Shadowland, e não para o paraíso?
Respiro fundo e começo a me movimentar, levantando os pés do solo úmido e encharcado, prestes a agir quando de repente sou tomada por uma leve onda de calma, um impulso tranquilo que só pode ter um significado, que apenas uma pessoa pode provocar em mim. Uma calma tão oposta ao formigamento e ao calor provocado por Damen que não fico nem um pouco surpresa quando me viro e encontro Jude a meu lado.
— Sabe até onde isso leva, certo? — Ele aponta para a ponte que balança, esforçando-se para manter a voz áspera, clara; mas o tremor de nervoso o entrega.
— Sei até onde leva as outras pessoas. — Dou de ombros, olhando para ele e para a ponte. — Mas não sei aonde pode me levar.
Ele estreita os olhos, inclina a cabeça e me observa com calma e atenção, dizendo com cuidado:
— Leva ao outro lado. Vale para todos. Não há filas separadas. Segregação de nenhum tipo. Deixe esse tipo de julgamento para o plano terreno.
Encolho os ombros, nem um pouco convencida. Ele não sabe o que eu sei. Não viu o que eu vi. Como poderia saber o que se aplica ou não a mim?
— Mesmo assim — ele diz, ouvindo meus pensamentos em alto e bom som. — Não acho que seja hora de considerar a travessia. A vida já é curta demais, sabe? Mesmo nos dias em que parece muito, muito longa. Quando tudo acabar, será apenas um piscar de olhos, um lampejo para a eternidade, pode acreditar.
— Talvez para você, mas não para mim — digo, olhando em seus olhos de um modo tão aberto e sincero que fica evidente que o estou convidando a entrar. Estou pronta para falar, contar toda a história sórdida, colocar as cartas na mesa, tudo o que escondi até agora. Tudo o que ele precisa fazer é pedir, e confessarei tudo. - No meu caso, não se pode chamar de lampejo.
Ele coça o queixo e franze as sobrancelhas, claramente tentando ver algum sentido no que eu disse.
E isso basta. Seu desejo de entender, e tudo cai sobre ele. Tudo. Tudinho. Um trasbordamento de palavras que vêm com tanta força e fúria que saem todas misturadas: o primeiro dia, no local do acidente, quando Damen me deu o elixir pela primeira vez e me transformou no que sou hoje; a verdade sobre Roman, quem ele é realmente e as providências que tomou para que Damen e eu não pudéssemos mais ficar juntos; Ava e as gêmeas, e o estranho passado que as conecta; como transformei Haven em uma aberração como eu; chakras e como mirar em nossas fraquezas é o único meio de nos eliminar e, é claro, Shadowland, o eterno abismo para onde vão todos os imortais, única coisa que está me mantendo deste lado da ponte. As palavras são cuspidas com tanta rapidez que mal posso interrompê-las. Nem tento. Fico tão alivia por desabafar, encorajada por seus esforços em se manter calmo e não surtar totalmente, apenas deixando que eu continue.
E quando chego à parte sobre Roman, sobre minha horrível atração ele, sobre a insistente chama negra que continua queimando dentro de mim sobre o momento degradante do qual quase não consegui escapar, ele olha para mim e diz:
— Ever, por favor, mais devagar. Mal consigo acompanhar.
Faço um gesto positivo com a cabeça, coração acelerado, rosto queimando, braços envolvendo meu corpo num aperto. Meus cabelos grudam no rosto, nos ombros e nas costas, as longas mechas pesadas devido às gota de orvalho que caem sem cessar. Assisto a uma fila de recém-chegados se dirigindo ansiosos para o outro lado, a ponte inclinando-se e balançando enquanto eles caminham em frente, os olhos emitindo a mais miraculosa e gloriosa luz.
— Então... podemos ir para... algum outro lugar? — Ele acena com a cabeça na direção da fila, que é tão longa que me pergunto se aconteceu alguma catástrofe. - Estou um pouco assustado com tudo isso.
— Foi você quem decidiu vir até aqui. — Dou de ombros, sentindo-me inexplicavelmente defensiva, além de atormentada pelo remorso de ter confessado. Quer dizer, acabei de expor minha história, plenamente abafada e secreta acabei de mostrar tudo para que ele pudesse ver, e só o que me diz é mais devagar e ir para outro lugar? Balanço a cabeça e reviro os olhos. Esse não é o retorno que eu esperava. — É sério. Não fui eu que chamei você para me fazer companhia. Você simplesmente apareceu.
Ele olha para mim, sem desanimar com minha mudança de humor, esboçando um sorriso nos lábios e dizendo: — Bem, não exatamente...
Olho para ele, imaginando o que quer dizer.
— Ouvi seu pedido de ajuda e vim averiguar. Estava procurando por você, não ... não por isso.
Estreito os olhos, prestes a contestar quando me lembro de meu primeiro encontro com as gêmeas, um encontro que aconteceu do mesmo jeito.
— Eu não ia atravessar — digo, com a face corada de vergonha. Talvez tenha considerado, mas apenas por um segundo e não a sério, pelo nos não muito.
Estava apenas curiosa... só isso. Além do mais, conheço algumas pessoas que vivem lá e, bem, às vezes sinto falta delas.
— E achou que poderia fazer uma visita rápida? — Seu tom é leve, mas palavras saem pesadas, mais do que ele imagina. Balanço a cabeça e olho para meus pés cobertos de lama. — Bem... e então? O que a impediu, Ever?
Fui eu?
Respiro fundo, e mais uma vez preciso de um instante antes de olhar para ele.
— Eu... eu ia atravessar — digo. — Bem, fiquei um pouco tentada e tudo, mas eu teria parado mesmo se você não tivesse aparecido. - Dou de ombros, procurando seus olhos. — Em parte, porque não é certo deixar tanto por fazer, tantos erros para os outros consertarem. E, em parte, porque pelo que eu sei sobre a alma de um imortal e para onde ela vai, bem, por mais que eu ache que mereça, não posso correr na direção desse fim. Eu vi o outro lado, ou pelo menos o outro lado reservado a mim. E sinto muito dizer, mas provavelmente não é o lugar para onde foi minha família. Receio que, se quiser ver meus pais e minha irmã novamente, vou ter muito mais sorte usando você como intermediário do que cruzando aquela ponte, sem contar...
Ele olha para mim, esperando.
Eu suspiro e chuto o chão, determinada a confessar o motivo mais importante de todos, não importa o quanto faça Jude se sentir mal. Olho nos olhos dele, endireito os ombros e digo:
— Sem contar o fato de que nunca poderia fazer isso com Damen. Meus olhos encontram os de Jude, e rapidamente desvio o olhar para o outro lado. — Nunca poderia abandonar Damen assim. Não depois de... — Faço uma pausa, tentando desfazer o nó na garganta— Não depois de tudo o que ele fez por mim. — Esfrego os braços para me aquecer, embora não esteja com frio. Apenas constrangida. Constrangida e desconfortável, com certeza.
Mas Jude apenas faz um gesto positivo com a cabeça, garantindo-me que tudo ficará bem. Ele coloca a mão em minhas costas e me conduz calmamente para longe da ponte, da longa fileira de almas que saltam alegremente para o outro lado, e me leva de volta para o plano terreno.
Estou ansiosa para me afastar do rosto que paira diante de mim, para me afastar de um passado que acabou, de maneira notável, por completar seu ciclo novamente.

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