3 de novembro de 2015

Vinte e quatro

Apesar de eu já ter estado lá três vezes contando com a última, não tenho ideia de como encontrá-la. Não imagino em que lugar existe, nem sei como localizá-la em um mapa.
Minha primeira visita foi por meio de uma experiência que Damen compartilhou comigo em sua mente. A segunda, ao mostrar telepaticamente a Roman o lugar para onde a alma de Drina fora enviada. E a terceira, quando Haven me matou, enviando-me para aquele abismo horrível por um tempo que pareceu eterno, mas não deve ter passado de alguns minutos.
É assim que Shadowland funciona.
Não foram viagens feitas a pé. Nunca saí à procura da materialização física daquele lugar.
Então, em busca de respostas, recorro a tudo o que aprendi, às lições que Ava me ensinou. E, em vez de deixar minha mente enlouquecer com perguntas e pensamentos que não ajudam em nada, que só geram pânico e incerteza, opto por me concentrar no silêncio que há dentro de mim. Confio que ele me guie, me conduza, para ver se chego aonde deveria.
Determinada a seguir meu tino, meu coração, minha intuição, a verdade oculta que vive em meu interior, mostro a mim mesma o caminho, levada somente por meus próprios instintos. Mas, quando parece que a trilha está ficando muito longa, decido acelerar o ritmo e materializo uma parceira.
Cavalgo a égua até onde ela consegue ir, e apeio quando ela para, pouco antes do perímetro, do local onde a grama vira lama e todas as árvores são secas e estéreis, apesar da forte chuva que nunca para de cair. É exatamente o que imaginei a principio: este lugar horrível é mesmo o yin de Summerland — sua parte sombria, seu lado oposto, o que forma um limite entre dois mundos, um de luz e um de sombras, dando-me a certeza de que se trata da entrada para Shadowland.
Dou um tapinha no lombo da égua, encorajando-a a seguir para os pastos mais verdes enquanto olho tudo em volta, esperando encontrar Lótus, ou quem sabe até mesmo algum tipo de guia, mas percebo que estou por minha conta e caminho com dificuldade pela lama funda. Arrasto-me pelo que parecem quilômetros extenuantes de uma paisagem lúgubre, sombria, desolada e encharcada, perguntando-me se em algum ponto ela se transformará em algo diferente, se vai deixar de ter essa aparência. E isso acontece muito antes que eu imaginava, quando deparo com uma cena totalmente distinta. Paro, esfrego os olhos e pisco algumas vezes para ter certeza de que não estou alucinando, de que estou mesmo vendo o que acho que estou vendo. E, mesmo assim, ainda tenho dúvidas.
Dou um passo à frente, girando a cabeça de um lado para outro enquanto meus olhos se esforçam para captar tudo. É surreal, com certeza uma miragem maluca criada por minha própria mente. Ainda assim, por mais que eu pisque várias vezes, respire fundo e observe fixamente, nada daquilo muda. Então não tenho alternativa além de aceitar o fato de que a paisagem que se encontra diante de mim não é apenas real, mas também uma réplica exata da que apareceu em meu sonho.
O sonho que eu tinha certeza de que Riley enviara.
O sonho que tive novamente há pouco tempo.
O sonho que achei que se tratava de mero simbolismo, algo que eu deveria analisar, dissecar, sobre o qual deveria pensar até conseguir fragmentá-lo em pedaços que fizessem sentido.
Nunca pensei que deveria entendê-lo de forma literal.
Nunca pensei que realmente pudesse existir um lugar formado por cubos — um labirinto de prisões de vidro.
Respiro fundo, dou alguns passos com cuidado e estreito os olhos. Observo uma multidão de almas atormentadas e sei exatamente como estão se sentindo, porque eu mesma passei por isso.
Sozinhas.
Isoladas.
Sem qualquer esperança.
Cercadas pelo silêncio, por uma escuridão infinita, forçadas a reviver suas piores escolhas, seus erros e enganos mais trágicos, as decisões erradas e os atos egoístas que causaram dor aos outros — forçadas a reviver seu inferno pessoal repetidas vezes. Experimentando elas mesmas a dor que causaram a outras pessoas — assim como aconteceu comigo enquanto estive no lugar delas. Sem poder imaginar que há outras almas como elas, que, ao mesmo tempo que se sentem sozinhas, estão ironicamente presas entre suas iguais. Todas elas sendo atacadas por imagens, por arrependimentos antigos, sem poder desligar as cenas, impossibilitadas de silenciar a própria mente.
E, no exato momento em que imagino o que devo fazer a partir de agora, a lembrança da voz de Lótus soa em meu ouvido.
Nós todos esperamos por você tanto tempo. É o único jeito de libertá-las. De me libertar.
E sei que foi isso o que ela quis dizer. Preciso começar aqui. Aproximo-me do primeiro cubo, observando o turbilhão de energia que pertence a uma alma atormentada e agonizante que não reconheço, mas que tenho certeza de ser alguém transformado por Roman, já que, além de mim, Damen só transformou os órfãos. Imagino quantos imortais Roman pode ter criado e me lembro da resposta que ele deu a Haven certa vez, quando ela lhe fez a mesma pergunta: Eu que sei, o mundo que descubra. Sem contar quantos não devem ter acabado aqui inadvertidamente, de forma acidental.
Fecho os olhos, pressiono a palma das mãos contra o vidro e espero por algum tipo de sinal, por alguma instrução. Espero que uma ordem seja revelada em breve, mas encontro apenas uma explosão de desespero tão sombria, um tormento tão triste, que mal posso controlar. Em seguida, vem uma onda de frio terrível tão intensa que acabo sendo empurrada para trás. Olho perplexa para minhas mãos, geladas e feridas pelo frio, sabendo que, enquanto estiver aqui, não há chance de se curarem.
Desesperada para colocar um ponto final nisso, por mim e por eles, chuto o vidro, chuto com o máximo de força possível, e, quando não funciona, desfiro socos nele com ambas as mãos. Depois de jogar meu corpo contra sua lateral sem êxito algum, enfio a mão no fundo do bolso e localizo o cristal que Ava me deu — o pequeno pedaço de cavansita, que aprimora a intuição e a cura mediúnica, estimula a reflexão profunda, inspira novas ideias, ajuda a pessoa a se livrar de crenças falhas e auxilia na indução de lembranças de vidas passadas —, na esperança de que me ajude aqui também. E, quando minha mão se ilumina e a palma fica curada, quando minha pele emite aquele tom brilhante de violeta com pontos dourados que vislumbrei antes, sei exatamente o que fazer.
Pego o lado afiado, a extremidade irregular que forma uma ponta, e arrasto-a de cima a baixo em uma face do cubo de vidro, depois horizontalmente na parte de cima, e de novo na vertical, na outra extremidade da face, encolhendo-me com o som agudo e estridente que provoco, como se alguém passasse as unhas em um quadro-negro. Mas sei que consegui quando a prisão desmorona, reduzindo-se a estilhaços, e uma onda de ar frio passa por mim no momento em que a alma aprisionada escapa.
Meu coração bate acelerado no peito quando a entidade paira diante de mim, crescendo, expandindo-se e mostrando todas as aparências que teve em suas vidas anteriores, nenhuma que eu reconheça. Emitindo um forte lampejo colorido, o ser se encolhe de volta a seu formato e levanta voo, subindo para o céu e desaparecendo rapidamente de meu campo de visão.
Faço uma pausa para recobrar o fôlego, surpresa com o que acabei de testemunhar, com o que acabei de conseguir fazer, e sigo para o próximo cubo, repetindo a sequência várias vezes. Liberto uma alma aprisionada após a outra, sem saber para onde estão indo, mas imagino que qualquer lugar certamente é melhor que este.
E então, ao seguir para o próximo cubo, eu o encontro.
Damen.
Mas não é a cena que imaginei, não é como eu esperava.
Em vez de Damen estar preso, como eu temia, está perambulando de um cubo a outro.
Os cabelos estão despenteados, os olhos, assustados e injetados, a voz, grossa, cheia de remorso, enquanto implora perdão pelo que fez.
Implora perdão por estarem aqui.
— Não é culpa sua — digo, aproximando-me dele com calma. — Você não tem nada a ver com isso. Foi Roman quem os transformou. Sabe como ele se orgulhava do elixir dele, como gostava de compartilhá-lo livremente, pelo menos com quem ele considerasse merecedor, enquanto você só dividiu o seu com os órfãos e comigo. A menos... — Engulo em seco e olho para ele. Então, sou tomada por um novo pensamento, um que rezo para que seja apenas paranoia minha, não a verdade. — A menos que tenha havido outros e você não tenha-me contado. — Respiro fundo.
Só relaxo quando seu olhar desolado encontra o meu e ele diz:
— Seis órfãos. E você. Esse é o total de meu legado. — Ele dá de ombros, respira fundo, olha ao redor e depois se volta para mim: — Ainda assim, no fim das contas não importa quem lhes deu o elixir, quem decidiu transformá-las, porque tudo isso... — Ele estica o braço, desenhando um arco à sua volta. — ...tudo o que vê aqui foi gerado por mim. Eu fui o primeiro, plantei a semente. Roman nunca teria chegado a este ponto se não fosse por mim. Então veja, Ever, a culpa é minha. É como Lótus disse: Eu sou a razão e o nosso amor é o sintoma. Não fui capaz de deixá-la partir. Não pude lidar com a dor de uma vida sem você. E ainda que você, minha doce Ever, minha querida Adelina, possa muito bem ser a cura, preciso fazer o possível para corrigir meu carma, consertar meus erros. E qual o melhor lugar para começar senão este?
Faço uma pausa, parando um instante para refletir sobre suas palavras, enquanto analiso as minhas com cuidado.
— Bem — digo com a voz baixa, calma, sem tirar os olhos dos belos traços de seu rosto. — Pela minha experiência até agora, acredito que a melhor forma de compensar tudo isso seja libertando a todos. É tudo o que podemos fazer a esta altura.
Mostro o cristal a ele, mostro como o estou usando para quebrar o vidro e libertar as almas. Faço sinal para que ele se junte a mim e o vejo colocar a palma da mão na superfície e enviar um pedido silencioso de perdão. Sua pele lateja, enche-se de bolhas, escurece e depois fica quase como se estivesse mumificada, mas ele recusa o cristal quando o ofereço para curá-lo. Prefere sofrer, está convencido de que merece, e continua a me seguir de um cubo para o outro. Nós dois repetimos a sequência: Damen expressa seus arrependimentos e eu quebro o vidro para que mais uma alma possa escapar.
Quando nos dirigimos para a próxima prisão, paramos — sentimos de imediato algo diferente. Somos alertados no mesmo instante de que algo incomum distingue este cubo dos anteriores. Mesmo que a energia interna seja tão alucinada quanto as outras, batendo com fúria, movimentando-se para cima e para baixo, de um lado para o outro com tanta rapidez que é difícil identificar, difícil ver qualquer coisa além de um borrão confuso, ainda se trata de uma energia que ambos reconhecemos.
Então eu saio do caminho. Espero ao lado.
Esta alma em especial deve ser libertada por Damen, não por mim.
Embora nós três compartilhemos um passado, uma história longa e intricada de ciúmes que sempre termina em assassinato, em meu assassinato, eles têm lembranças que não me dizem respeito, que nada têm a ver comigo — e nem todas são ruins.
Eu lhe entrego o cristal e ele chama o nome dela em silêncio, telepaticamente, mas ainda assim sou capaz de escutar. E, quando ele coloca as mãos nas laterais do cubo, tudo fica quieto.
Damen?, ela pergunta, sentindo sua presença, sua energia, ou talvez apenas iludindo-se. Talvez esteja chamando o nome dele desde o dia em que a matei e mandei sua alma para cá.
Estou aqui. Ele fecha os olhos e pressiona a testa contra o vidro, segurando nas faces do cubo. Eu falhei com você. Falhei de muitas formas. Falhei ao não amá-la do modo como você queria, do modo como precisava. E, mesmo tendo salvado sua vida, poupado você da peste negra, receio que no fim das contas tenha mexido com o que não devia, e assim a reduzi a isso.
Sua respiração embaça o vidro, fazendo Damen passar o dedo por ele, depois limpá-lo com a palma da mão machucada.
Drina Magdalena, você não é mais Poverina. Por favor, vá. Seja livre. Precisa ir a outros lugares. Eu nunca fui seu destino.
Ele bate o cristal no vidro, arrasta até embaixo em cada um dos lados e na parte superior, fazendo-o quebrar em longas faixas que caem no chão e se transformam em cacos menores, que se estilhaçam a seus pés.
Eu me preparo. Eu me preparo para qualquer coisa. Espero um turbilhão de energia e ira que, se levar em conta o histórico, provavelmente se lançará contra mim.
E é por isso que fico surpresa quando ela escolhe sair aos poucos.
Sua energia paira diante de nós, expandindo, esticando, primeiro formando a imagem de minha prima Esme, que dura apenas alguns segundos até se estabelecer em sua última encarnação como a gloriosa e bela ruiva de olhos verdes — Drina —, uma beleza tão estonteante que nem a morte conseguiu estragar.
Ela se aproxima de Damen, passa os olhos sobre ele, observando-o, enquanto uma comunicação silenciosa se estabelece entre os dois. Mesmo podendo ouvir, mesmo que nenhum deles tente escondê-la de mim, ainda assim me viro, tentando lhes dar privacidade. Escuto apenas algumas palavras, o que faz o diálogo soar como:
Sinto muito... perdoo... perdoe... errado... perdido... desorientado... arrependido — voltando ao sinto muito.
Ela vai até Damen e envolve seu rosto com os dedos, os cantos da boca torcendo-se para baixo quando ele se afasta involuntariamente ao sentir seu toque, o olhar entristecendo-se ao perceber o poço sem fundo de arrependimento nos olhos de Damen.
E, quando ela se vira para mim, não é o que eu esperava. O ódio, a provocação e as ameaças de sempre são substituídos por uma reverência suave e alegre.
Eu deveria ter percebido desde a primeira vez que matei você, ela pensa. Deveria ter imaginado naquela época que, mesmo sem sua presença ao lado dele, o amor de vocês nunca morreria. Posso ter conseguido ficar com ele por algum tempo, mas ele nunca foi meu de verdade, e não demorou muito até que começasse a procurá-la novamente. O coração dele foi tomado no momento em que a conheceu como Adelina e continuou assim por todos esses anos. Ele pertence apenas a você. Você e Damen foram feitos um para o outro. E eu fui uma tola em interferir. Ela suspira, balança a cabeça e estica a mão para me tocar. Mas, ao se lembrar da reação de Damen, pensa melhor e recolhe o braço.
Não sei quem fica mais surpreso, ela, Damen ou eu, quando dou um passo à frente e pego sua mão, logo percebendo por que Damen recuou daquele jeito. Não é tanto pelo frio, é mais pela agitação de sua energia. É difícil se acostumar com a intensidade vibrante e abrupta.
As palavras fluem para minha mente quando ela pensa: Se você for capaz de me perdoar, então logo partirei.
Fito os olhos da pessoa que me matou repetidas vezes, que tentou se livrar de mim, que tentou livrar o mundo de mim, mas descobriu que não podia. Mesmo esforçando-se muito, eu sempre voltava. Fico surpresa ao descobrir que não penso mais nela como inimiga. Agora que sei a verdade — que estamos conectadas, que faço parte dela, assim como ela faz parte de mim —, não consigo mais odiá-la. Mesmo parecendo o fim, esta despedida provavelmente é apenas temporária. Não tenho dúvidas de que voltaremos a nos encontrar. Só espero que ela consiga conservar o conhecimento que adquiriu.
Ela sorri e seu rosto se ilumina de um modo que a deixa radiante. A princípio, penso que se trata de uma resposta ao que acabei de pensar, mas a vejo passando os olhos sobre mim, fazendo um gesto para que Damen olhe também.
Veja, você está brilhando! Sua expressão fica confusa ao acrescentar: Mas... como pode? Imortais não brilham. Você nunca brilhou. Mas agora está brilhando. É tão estranho... O que acha que significa?
Damen semicerra os olhos, incapaz de enxergar o que eu enxergo — o que ela enxerga: o halo violeta fraco que emana de mim, envolvendo-me.
Ela fica à espera de uma explicação, mas, como nem sei por onde começar, apenas dou de ombros e esboço um sorriso torto.
E Roman? Você o mandou para cá também? Ela olha diretamente para mim. Paro um instante, pronta para destacar que não fui eu quem matou Roman — que, ao contrário da opinião de algumas pessoas, não sou uma doida, assassina de imortais. Mas logo percebo que ter matado dois em vez de três não é algo para se gabar, muito menos do qual possa me defender, então engulo as palavras e aponto com a cabeça na direção dos dois últimos cubos.
Assim como aconteceu quando Damen se aproximou do cubo de Drina, no instante que ela se aproxima do de Roman, ele sente sua presença, toda a atividade cessa e ele grita o nome dela. Logo que Damen quebra o vidro, Roman sai em uma onda furiosa de energia que se expande e ganha forma, permanecendo alguns segundos como o belo e libertino Rhys, até se estabelecer como o mais belo e ainda mais libertino Roman. Completo, com cabelos louros desalinhados, olhos azuis penetrantes, pele bronzeada, calça jeans desbotada de cintura perigosamente baixa e camisa branca de linho desabotoada exibindo o abdome esculpido.
E, mesmo que Damen e eu estejamos parados na frente dele — prontos para explicar, defender nossas ações, fazer o que for preciso para atenuar o que poderia facilmente se transformar em uma situação complicada —, assim como foi durante toda a vida, seu único foco é Drina.
Ela é tudo o que ele vê.
Mas, diferentemente dos últimos seiscentos anos, Drina enfim consegue enxergá-lo.
Eles são atraídos um pelo outro, olhando-se por tanto tempo que Damen agarra minha mão e começa a se afastar, aproximando-se do último cubo quando Roman grita:
— Irmão.
Seguido de:
— Amigo.
E depois:
— Inimigo.
Mas a última parte é acompanhada de um sorriso branco e deslumbrante.
Olhamos nos olhos de Roman, notando como seu sorriso ilumina o rosto, acende sua energia, fazendo-a faiscar e brilhar, enquanto ele fecha os olhos e se concentra em uma longa série de palavras que quer que escutemos.
Uma longa série de palavras que não consigo encaixar em nenhum tipo de contexto, em que não consigo ver sentido.
Uma longa e confusa lista de ervas, poções, cristais e... fases da lua... Prendo a respiração e arregalo os olhos, sem poder acreditar. Viro-me para Damen, boquiaberta, querendo saber se ele está ouvindo o mesmo que eu, se entende o que acabou de ficar claro para mim.
É o antídoto!
Roman está cumprindo voluntariamente sua parte do acordo, sem ser questionado, intimidado, manipulado ou torturado.
O acordo que fizemos minutos antes de ele ser assassinado e vir parar aqui.
O acordo em que aceitei dar o que ele mais queria em troca do que eu mais queria.
Drina pelo antídoto que permitirá que Damen e eu fiquemos juntos do mesmo modo que Alrik e Adelina — sem a necessidade de campos de energia, sem receio de que nosso DNA se misture, sem o risco de Damen morrer.
Roman está cumprindo sua palavra.
Ele aproveita para repetir a lista, certificando-se de que entendemos, tomamos nota, gravamos na memória, porque logo partirá, com Drina a seu lado, e muito provavelmente não voltará a nos ver, pelo menos por um bom tempo. Esta é nossa última chance. Não teremos outra oportunidade.
Engulo em seco, faço um gesto afirmativo com a cabeça, transbordando de gratidão, tomada por tanta felicidade que meus olhos ardem, minha garganta incha e não tenho ideia de como começar, do que dizer.
Mas não preciso dizer nada. Ele e Drina já se deram as mãos, já viraram as costas. Já seguiram para o próximo cubo, no qual, sem que precisem mais de nós, reúnem sua energia e quebram-no ao meio, permitindo que Haven saia de seu inferno pessoal.
Ela vem direto em minha direção. Uma bola irada de energia vermelha que, ao que parece, ainda está furiosa comigo.
Ainda me culpa.
Ainda pretende cumprir suas últimas palavras, sua ameaça de acabar comigo.
Damen solta um grito e pula entre nós com os braços totalmente abertos, fazendo o melhor que pode para me proteger, para me defender do que quer que ela planeje fazer.
Mas, quando chega a nós, pairando a poucos centímetros de distância, ela para, desacelera, e eu observo, arregalando os olhos de espanto, o furioso brilho vermelho se tornando um tom de cor-de-rosa muito mais suave. Ela se transforma em todas as pessoas que foi em vidas anteriores, começando por minha prima Fiona, irmã de Esme, e virando várias outras mulheres que reconheço de cenas que vi em minhas encarnações passadas. Fico impressionada ao saber que ela esteve comigo durante todo esse tempo, nunca como amiga próxima, nem mesmo irmã, mas, ainda assim, uau, eu não tinha ideia.
Começo a me desculpar, pois desejo que Haven saiba que sinto muito, mas ela está impaciente demais e faz um gesto dispensando a explicação. Ainda há mais a me mostrar, ela ainda não terminou. Vejo-a passar por todas as aparências que teve na última vida, da fase bailarina à fase patricinha que só comprava na J. Crew, da gótica de quando nos conhecemos até o curto período como aspirante a Drina que se seguiu, do momento emo que veio logo depois do visual cigana rock’n’roll, com couro preto e renda, que não durou muito e logo deu lugar à fase de bruxa imortal superassustadora — como Miles disse certa vez —, a etapa na qual sua vida chegou ao fim. Até que finalmente para em uma versão dela que eu nunca tinha visto. Uma em que seus cabelos são longos, brilhantes e bem-cuidados, os olhos estão vivos e cintilantes, as roupas levemente ousadas, ao estilo de Haven, mas que não gritam por atenção nem expressam revolta. Mas a maior mudança de todas é o sorriso radiante que ilumina seu rosto, dizendo que enfim se encontrou — enfim está em paz.
Enfim gosta de ser quem é.
Apontando o polegar para Damen, Roman e Drina, um triângulo amoroso que atravessou muitos séculos, ela balança a cabeça, revira os olhos e deixa escapar um longo e melancólico suspiro que logo se transforma em uma risada contagiante. E não consigo me segurar. Ficamos rindo de um modo que me faz lembrar os bons tempos, nós duas junto com Miles na mesa do refeitório no intervalo de almoço, enfiadas no quarto de Haven com uma pilha de revistas entre nós durante tardes preguiçosas, curtindo as noites de sexta em minha jacuzzi depois de devorarmos uma pizza inteira.
Ela volta a se concentrar em mim quando pensa: Eu não odeio você. Não vou mentir, já odiei. E não apenas na última vida, mas na maioria das outras. Mas só porque era tão infeliz comigo mesma que tinha certeza de que todos eram melhores, de que tinham o que eu necessitava. Tinha certeza de que, se pudesse tomar isso deles, eu seria feliz também. Ela balança a cabeça e revira os olhos diante daquela tolice. De qualquer maneira, você ficará feliz em saber que está tudo acabado. Estou livre em vários sentidos e ansiosa para ver o que acontecerá em seguida.
Engulo em seco e concordo. Eu estava preparada exatamente para o oposto daquelas palavras, o que as torna ainda mais agradáveis. São palavras das quais nunca me esquecerei.
Então, quando me dou conta, Drina aponta, Haven solta um grito estridente, Roman sorri e os três dão as mãos, correm na direção de algo que apenas eles veem e desaparecem em um clarão de luz branca sem olhar para trás.

3 comentários:

  1. Até q fim a Ever vai pode pegar o Damen de jeito, agora q ela tem o antidoto.

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