2 de novembro de 2015

Vinte e quatro

Eu me viro para Jude, incitando-o correr, esconder-se, fazer o que for preciso para fugir dela.
Sei que temos apenas um segundo, no máximo dois, até que ela nos alcance — antes que seja tarde demais para ir a qualquer outro lugar.
Mas, apesar de não estar brincando, mesmo lançando-lhe um olhar que diz que estou falando cem por cento sério, ele permanece onde está. Parado bem atrás do balcão, bem atrás de mim. Achando erroneamente que nosso rápido beijo, que mal aconteceu, o obriga a ficar e me proteger.
Estou prestes a repetir, e ela já cruzou o recinto, já está diante de nós, agitada, enlouquecida, com um olhar descontrolado.
Corro para proteger Jude ao ver o modo como ela sorri, passando lentamente a ponta da língua pelos lábios enquanto olha por sobre meu ombro e diz:
— Faça um favor a si mesmo e não dê ouvidos a Ever. Está muito melhor se ficar bem aí. Nunca conseguirá correr mais rápido que eu, não importa quanto tente. Além disso, vai precisar dessa energia mais tarde. Ela dá um rápido passo para a direita, como se estivesse planejando passar por trás de mim e agarrá-lo, mas sou rápida em bloqueá-la. Olho fixamente em seus olhos, lembrando-me de nosso infeliz encontro no banheiro da escola — quando ela me dominou, segurou-me contra a parede, contra minha vontade —, e sei que, se eu mal consigo competir com ela, Jude nunca sobreviverá.
— Desculpem-me por interromper sua pequena sessão de agarramento. — ela ri, seus olhos contornados de vermelho alternando-se rapidamente entre mim e Jude. — Não tinha ideia de que vocês dois haviam se decidido por esse caminho. — Ela vem em minha direção, fura meu ombro com a unha comprida pintada de azul e depois se afasta. O frio gelado e amargo de sua energia atormenta e se prolonga, embora não haja dúvida de que foi necessário muito esforço para que sua mão se mantivesse apenas um pouco trêmula.
Ela inclina a cabeça, pega uma mecha de cabelo que cai sobre seu ombro e a enrola com o indicador. Seu olhar está focado apenas em Jude quando diz:
— Antes que se empolgue demais, você deveria saber que Ever só permitiu que chegasse tão longe porque Damen a trocou por Stacia. De novo. — ela balança a cabeça e franze os lábios, olhando rapidamente para mim e para ele, — E, bem, imagino que ela esteja precisando de alguém para consolá-la. Sabe... por assim dizer.
Olho para Jude, desejando que ele não esteja realmente dando ouvidos a isso, não esteja levando a sério, mas seu olhar parece tão confuso, tão obscuro, que é praticamente indecifrável.
— Você nunca se cansa disso? — Ela para de enrolar o cabelo e passa admirar a série de anéis que usa em cada dele. — Sabe? De Ever sempre usar você como um ombro para chorar, usar você para fazer o trabalho sujo por ela? Estou falando sério. Se parar para pensar, um beijo é, bem, o mínimo que ela pode fazer já que ela é a principal razão de sua vida estar destinada a ter um fim tão trágico.
Embora me sinta preparada para continuar, arrastar o assunto pelo tempo que quiser, eu já ouvi o suficiente. Jude já ouviu o suficiente. E eu não quero que ele fique distraído com ela, ou pior, que comece a acreditar nela.
— O que você quer? — Controlo a respiração, concentro-me e me preparo para o que ela pretende dizer.
— Ah, acho que você já sabe. — Seus olhos brilham. As íris, que costumavam ser lindas, um turbilhão de bronze e dourado, agora estão escuras, sinistras, sombrias e salpicadas de vermelho. — Acho que já fui bem clara a esse respeito. — Ela dá um sorrisinho falso. — Só não consigo decidir quem matar primeiro. Talvez possa me ajudar aqui. Qual sua preferência: você ou Jude?
Fico olhando para ela, faço o possível para acalmar e suavizar a energia cada vez mais agitada e assustadora tacada que vinha ameaçando colocar em prática há... Quanto tempo? Semanas? Meses? — Dou de ombros, como se não valesse a pena me esforçar para lembrar.
— Vai mesmo agir em uma livrariazinha de bairro? — Balanço a cabeça, como se estivesse extremamente desapontada com sua escolha trivial do local. — Preciso lhe dizer, Haven, estou um pouco surpresa. Realmente pensei que fosse optar por um lugar muito mais pomposo e teatral. Sabe? Uma ação ousada em um shopping lotado, ou algo assim. Mas você também está com uma cara um pouco... Qual era a expressão que Roman costumava usar? — Estreito os olhos, como se estivesse realmente tentando me lembrar, faço cena e bato na testa ao dizer: — Ah, é claro... faminta. Perece meio faminta ultimamente. — Olho em seus olhos. — Você sabe... Esgotada, cansada, até mesmo um pouco tensa. Como se precisasse desesperadamente de um bom prato de comida, e, bem, é, talvez de um abraço.
Ela franze a testa e revira os olhos. Dá um passo inseguro em minha direção e diz:
— Ah, tenho recebido muitos abraços ultimamente. Não se preocupe com isso. E se achar que preciso de mais um, sempre posso contar com o Jude aqui. — Ela olha para ele com segundas intenções, com o rosto tão assustador, o olhar tão predatório que sinto a energia dele se contrair atrás de mim. — Ah, e quanto à falta de pompa e teatralidade, não se preocupe, Ever, haverá bastante. Além disso, não é o palco que importa, mas a cena que desenrola nele. Mesmo sem querer revelar qualquer parte do enredo, porque, sejamos realistas, será muito mais divertido surpreendê-la, digamos que no final eu certamente farei você pagar por todas as coisas horríveis que fez comigo, inclusive a última...
Estreito os olhos, sem imaginar aonde ela quer chegar.
Mas ela franze a testa e diz:
— Dã! Acha que não sei que foi você quem invadiu minha casa e roubou meu elixir?
Eu a encaro, chocada por ela pensar que fui eu.
— Acha que não tenho controle de meu suprimento? — Ela eleva a voz, indignada. — Acha que eu não notaria que a geladeira está quase vazia? Acha que sou idiota? — Ela balança a cabeça.
— E o motivo é bem óbvio. Acredita que é o único jeito de se igualar a mim. Mas tenho uma notícia de última hora, Ever: você nunca será igual a mim. Nunca. E tomar meu elixir não vai mudar nada.
— Por que eu iria querer seu elixir se já tenho o meu? — Estreito os olhos, ciente de que Jude ainda está atrás de mim, ciente da forma como seus músculos estão tensos e sua energia oscila, dois sinais muito ruins de que está planejando algo estúpido e de que preciso impedi-lo.
Recuo, empurrando-o, tentando impedir que Haven note enquanto uso força suficiente para que ele entenda a mensagem, fique quieto e me deixe resolver a situação.
— Reconheça, Ever. — Ela desvia os olhos dos meus e seus membros começam a tremer. — O meu é melhor, mais forte e muito, muito superior ao seu. Mas isso não vai ajuda-la. Não importa quanto beba, nunca será páreo para mim.
— Por que eu desejaria toma-lo quando sei que transformou você nisso? — Minha voz é desdenhosa, mordaz. — É sério, Haven, olhe para você. — Ando na direção de seus olhos injetados, dedos agitados e rosto pálido e assustador, desenho uma linha com o dedo da cabeça aos pés de sua forma magra e encolhida e subo novamente. De repente, depois que realmente olho para ela, percebo que não posso mais fazer isso. Não posso continuar com isso, apesar das ameaçar que ela fez.
É Haven.
Minha velha amiga Haven.
Aquela com quem eu costumava andar, rir. A única além de Miles disposta a me deixar sentar com ela em meu primeiro dia de aula.
É óbvio que ela está com problemas, precisa de ajuda e depende de mim para tentar chegar a ela, ajuda-la, dissuadi-la do que está prestes a fazer antes que seja tarde demais e eu a perca para sempre.
— Haven, por favor. — Deixo as mãos à mostra, suavizando o tom de voz e a expressão dos olhos. Quero que fique claro que estou mudando o rumo, que estou sendo sincera e não tenho intenção de machucá-la. — não precisa ser assim. Você não precisa fazer isso. Podemos parar aqui e agora. O que pretende fazer apenas transformará uma tragédia terrível em algo ainda pior. Então, por favor, por favor, pelo menos pense no assunto.
Respiro fundo, enchendo-me com toda a luz que posso, e depois solto o ar devagar, enviando a luz a ela. Envolvo-a em ondas suaves e tranquilas de energia curativa verde, vejo-a pairar, tento penetrar, mas ricocheteio — repelida por seu exterior cheio de ódio e movido pela raiva.
— Não é tarde demais para uma trégua — digo com a voz baixa, firme, como se a estivesse convencendo a sair do parapeito de uma janela, esperando que funcione para acalmar Jude também, para impedi-lo de levar adiante qualquer ato suicida que esteja planejando. — Você não está bem. Perdeu o controle. Acredite nas palavras de alguém que já esteve em seu lugar.
Não precisa ser assim, há uma saída, e eu realmente gostaria de ajuda-la a encontrar, se me permitir.
Apesar de minhas palavras calmas e tranquilizadoras, ela ri de mim. O som é duro, abrasivo, e olhar dança loucamente, incapaz de ficar parado, manter-se coeso, quando ela diz:
— Você? Ajudar a mim? Ah, por favor. — Ela revira os olhos e balança a cabeça de um lado para o outro. — Desde quando você me ajuda? Tudo o que já fez até hoje foi tirar as coisas de mim. Repetidas vezes. Mas ajudar? Ah, certo. Só pode estar brincando.
— Tudo bem. — Dou de ombros, determinada a ultrapassar a barreira de suas palavras, chegar até ela impedi-la de se autodestruir. — Se sente que não pode confiar em mim, então deixe
outra pessoa ajudá-la. Você ainda tem família. Ainda tem amigos. Amigos de verdade. Pessoas que se preocupam com você, não aquelas que manipulou para se tornarem suas amigas.
Ela olha para mim, piscando rapidamente, movendo-se ligeiramente de um lado para o outro. Enfia a mão no fundo da bolsa, em busca do elixir, mas encontra apenas um suprimento de garrafas vazias que joga no chão à sua volta.
Sei que preciso me apressar e chegar ao ponto. Não temos muito tempo, ela explodirá a qualquer momento. Minhas palavras saem rápidas quando digo:
— E Miles? Ele está mais que disposto a ajudá-la. E seu irmãozinho, Austin? Você é um modelo para ele, ele depende de você. Quer saber? Aposto que até Josh ainda é louco por você. Você não disse que ele até compôs uma música na tentativa de reconquistá-la? O que significa que duvido muito que ele já a tenha esquecido. Tenho certeza de que viria até aqui em um segundo se ligasse para ele. E... — Ia falar de seus pais, as paro. Eles nunca a apoiaram muito, e isso é grande parte do motivo de estarmos aqui.
Mas hesito demais, por tempo suficiente para que ela olhe para mim e diga:
— E quem, Ever? Quem vai acrescentar à lista. A empregada? — Ela revira os olhos e balança a cabeça. — Desculpe-me, mas tem muito mais além disso. Você me roubou a única pessoa com quem realmente me importei, a única pessoa que se importou comigo de verdade. E agora vai pagar por isso. Vocês dois vão pagar por isso. Não se enganem, nenhum de vocês sairá daqui se não for em um saco funerário! Ou, em seu caso, Ever, em uma lata de lixo.
— Isso não o trará de volta.
Mas as palavras chegam tarde demais. Já a perdi. Ela se foi. Não está mais escutando. Já foi levada para as profundezas sombrias de sua mente perturbada.
Sei disso pelo modo como seu olhar se torna sombrio, todo o corpo fica imóvel e ela sintoniza na raiva vermelha que queima em seu interior.
Sei disso pelo modo como as paredes começam a tremer.
Pelo modo como os livros começam a cair das prateleiras.
Pelo modo como um grupo de estatuetas de anjo voa pelo recinto e se choca contra as paredes, estilhaçando-se no chão.
Não há como chegar a ela.
Não há volta.
Ela fica diante de mim, olhos inflamados, cabelos esvoaçantes, e seu corpo inteiro treme de fúria. Os pulsos se fecham com força enquanto ela fica nas pontas dos pés e vai atrás de Jude.
Eu tento dizer: Corra!
Tento dizer: Crie o portal e dê o fora daqui!
Mas antes que eu consiga, ele já saiu de trás de mim.
Já a atacou.
Levou em frente seu plano estúpido de me proteger em vez de assim mesmo.
Quando vou atrás dele, desesperada para impedi-lo, Haven me alcança.
Ela arranca o amuleto de meu pescoço. Seu rosto está contorcido, os olhos flamejantes, enquanto ela sorri e diz:
— Então, Ever, como vai se defender agora?

4 comentários:

  1. Aí céus... Ela só se Dana também...

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  2. que coisa...
    Jude tbm nunca coopera
    A solução agora é criar um portal

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  3. Pega Esse Damen Chegando Em 3,2,1..

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