2 de novembro de 2015

Vinte e quatro

Sigo para as escadas, com cuidado, em silêncio, sem querer chamar a atenção de Sabine, que está com a luz do quarto dela acesa, pelo que vejo por baixo da porta. Quando deixo os presentes sobre a escrivaninha, ela aparece no corredor e vem para o meu quarto.
— Feliz aniversário! — Ela sorri, enrolada em um robe tão macio que parece uma nuvem de chantili. Olhando para o relógio em meu criado-mudo, diz: — Ainda é seu aniversário, certo?
— Dezessete anos — confirmo. — Nem um dia a mais. — Ela se apoia na beirada de minha cama, olhando para a pilha de presentes: alguns livros metafísicos que ganhei de Ava, que praticamente li assim que toquei neles, um geodo de ametista de Jude, uma camiseta que diz NUNCA PEÇA NADA DE QUE NÃO POSSA SE LIVRAR DEPOIS, de Rayne (rá-rá), e outra com um símbolo em espiral colorido, de Romy, que provavelmente veio da mesma loja wiccana, além de um vale-presente da loja do iTunes, de Honor, que me entregou e murmurou: — Hum, porque você parece gostar muito de música, porque está sempre, sabe, conectada e tudo mais.— Ah, e vários vasos de tulipas vermelhas que Damen deve ter materializado assim que me deixou em casa.
— Você ganhou bastante coisa — diz ela enquanto eu olho tudo, tentando ver do mesmo jeito que ela, mais como uma celebração de minha existência e menos como uma lembrança daqueles que não estavam presentes.
Jogo-me na cadeira da escrivaninha e chuto minhas sandálias, sentindo que ela está aqui por um motivo, e espero que vá direto ao ponto.
— Não vou demorar... é tarde, e você deve estar cansada — ela diz, lendo direitinho meu estado de espírito.
Começo a negar, apenas por educação, mas não me empenho muito e logo paro. Por mais que seja bom ficar sozinha com ela, situação cada vez mais rara nos últimos tempos, realmente gostaria que pudéssemos adiar até amanhã. Não estou muito a fim de escutar uma de suas longas conversas cheias de rodeios.
Mas é claro que ela não percebe esse estado de espírito em particular, apenas me olha com os olhos semicerrados e pergunta:
— Então, como estão as coisas? O emprego, Damen? Quase não vi você esses dias.
Faço um gesto positivo com a cabeça, garantindo que está tudo bem, tomando cuidado para acrescentar um pouco de entusiasmo, esperando que seja suficiente para convencê-la.
Seus olhos se iluminam de alívio, e ela continua:
— Você parece bem. Ficou tão magrinha por um tempo que eu... — Ela balança a cabeça, mostrando no olhar um traço de como estava preocupada e fazendo eu me sentir péssima. — Mas parece que está ganhando peso novamente. A pele está mais limpa também... o que é bom ... — Ela aperta os lábios, como se pesasse cuidadosamente o que está prestes a dizer, e continua: — Sabe, Ever, quando eu disse que queria que você trabalhasse no verão, não imaginei que seria da forma como você entendeu. Estava me referindo mais a uma ocupação de meio período, algo para manter você ocupada por algumas horas por dia. Mas o modo como vem trabalhando... — Ela interrompe e balança a cabeça. — Bem, tenho quase certeza de que está trabalhando mais horas do que eu. E agora, faltando apenas algumas semanas para as aulas recomeçarem... bem, acho que deveria considerar pedir demissão, para aproveitar um pouco a praia, passar algum tempo com seus amigos.
— Que amigos? — Dou de ombros, sentindo meus olhos arderem e meu estômago afundar. Mas eu já disse. Admiti uma verdade tão dolorosa que ela não consegue evitar virar o rosto e olhar para o chão. Ela leva um momento para se recompor antes de levantar os olhos e olhar nos meus, apontando com a cabeça para a pilha de presentes de aniversário.
— Bem, lamento dizer, mas acho que há provas que dizem o contrário. Fecho os olhos e balanço a cabeça, batendo de leve em minhas bochechas enquanto me viro rapidamente, pensando na única amiga que não estava lá hoje e que provavelmente nunca mais estará, graças ao monstro e a mim.
— Ei, você está bem? — Ela se aproxima, querendo apenas me confortar, mas logo se afasta, lembrando-se de como fico temperamental quando sou tocada.
Respiro fundo e faço que sim, sabendo o quanto ela se preocupa e desejando que não a tivesse arrastado até esse ponto. Porque a verdade é que eu estou bem. Como ela disse, minhas roupas não caem mais, minha pele está limpa, meu relacionamento está nos eixos novamente e aquela fera horrível, aquele pulso estranho que me controlava, não é visto nem ouvido desde a noite na praia. E mesmo com o grande buraco deixado pela ausência de minha família, mesmo tendo de dizer adeus a Sabine em algum momento não muito distante, Damen sempre estará aqui. Se ele provou algo neste ano que passou, foi que está totalmente comprometido comigo... Conosco. Não importa o quanto as coisas piorem, ele nunca mudará de ideia. E, no fim das contas, isso é tudo o que posso pedir. O restante, bem, é o restante.
Olho para Sabine e faço um gesto afirmativo, com mais firmeza dessa vez, como se realmente acreditasse nisso. Tomei minha decisão há meses, comprometi-me com a imortalidade, e agora não tem volta. Agora é uma longa marcha adiante, pelo infinito.
— É só um pequeno caso de depressão de aniversário, eu acho. — Olho para ela e continuo: — Sei que está familiarizada com a dor de ficar mais velha. — Sorrio de um modo que começa nos lábios, mas sobe até os olhos. Um sorriso que a estimula a sorrir também.
— É, você tem minha solidariedade. — Ela ri. — Mas terá ainda mais quando for a sua vez de fazer quarenta anos. — Ela se levanta da cama, segue para a porta com as mãos nos bolsos do robe e diz: — Ah, quase esqueci, deixei umas coisinhas ali na sua cômoda. — Ela aponta com a cabeça. — Um é meu. Bem, acho que vai ficar surpresa quando vir. Eu fiquei quando encontrei, mas, além disso, estava esperando que pudéssemos encontrar um tempo em sua agenda lotada para almoçar e fazer compras.
Faço um gesto afirmativo.
— Eu gostaria muito — digo, percebendo logo em seguida que eu realmente gostaria. Faz tempo que não nos divertimos com coisas de menina.
— Ah, e o outro... o cartão... — Ela dá de ombros. — Chegou hoje, encontrei na frente da porta quando cheguei em casa. Não tenho ideia de quem seja, mas está aos seus cuidados.
Olho para a cômoda e vejo um pacote retangular ao lado de um grande envelope cor-de-rosa que parece quase... Brilhar... Só que de um jeito sinistro e ameaçador.
— Bem, só queria desejar feliz aniversário. — Ela olha para o relógio. — Você ainda tem uns minutos, então aproveite!
Assim que Sabine fecha a porta, vou até a cômoda e pego a caixa. Seu conteúdo se revela no instante em que a toco.
Rasgo o papel o mais rápido que posso, deixando os pedaços caírem no chão, e levanto a tampa, o que revela o álbum de fotos encadernado com couro roxo no qual estão todas as fotos que Riley tirou em nossa viagem fatídica ao lago, incluindo a que vi em Summerland. Enquanto viro as páginas, não posso deixar de imaginar se ela não foi, de algum modo, responsável por isso. Será que ela pode vê-lo, ver a mim? Mas não chamo por ela novamente, isso nunca mais deu certo. Apenas seco as lágrimas do rosto e sussurro um obrigada bem baixinho. Coloco o álbum no criado-mudo, sabendo que quero deixá-lo perto de mim, onde possa olhá-lo várias vezes. Depois, pego o envelope com meu nome escrito na frente em uma caligrafia extremamente formal. Fico sem ar quando ele brilha em minha mão e, pela fôrma como todo o meu corpo estremece, sei que é dele.
Levanto a aba com a unha, determinada a acabar logo com isso. Olho para o cartão cor-de-rosa, coberto de purpurina, antes de abri-lo, passo os olhos na mensagem que já vem impressa e depois vejo, no canto inferior esquerdo, um recado que Roman escreveu com sua letra cheia de floreios:
É hora de reivindicar aquilo que mais deseja
Hoje é seu aniversário, e uma trégua lhe darei de bandeja
Em minha casa hoje, antes da meia-noite, deve estar.
Um segundo de atraso, e a oferta vou retirar
Espero em breve vê-la chegar!
Bjs,
Roman

3 comentários:

  1. Fala sério! Estava bom de mais para ser verdade!
    Ass: Bina.

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  2. Aff...tinha que estragar tudo né Roman???😑

    Ass:Isabela

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  3. Carak eu amo o roman nem sei explicar
    Ass: jes

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