3 de novembro de 2015

Vinte e oito

Vejo-o partir. Meus pensamentos percorrem um labirinto de emoções conflitantes. Parte de mim quer pular naquele véu brilhante que se apaga antes que seja tarde demais... E, assim, voltar ao plano terreno junto com ele.
Mas outra parte, a maior parte, está decidida a partir nessa jornada.
Jornada que já está atrasada.
Sinto-me encorajada ao me lembrar de algo que Riley disse quando fiz a inútil tentativa de voltar no tempo, apenas para acabar retornando à vida atual. Foi um pouco antes do acidente que me levou de novo, quando ela se inclinou no banco do carro, olhou para mim, e disse:
Nunca parou para pensar que talvez você devesse mesmo sobreviver? Que talvez não tenha sido salva apenas por Damen?
Embora eu não tivesse ideia do significado dessas palavras na época, agora eu sei.
Foi por isso que voltei.
Essa jornada é minha chance — talvez a única — de cumprir meu destino. O que significa que não posso deixar os medos de Damen me dissuadirem do que preciso fazer.
Mas não entendo sua decisão, sua recusa em procurar pela árvore. Ele se culpa por ter me dado o elixir e alterado o curso de minha vida, o caminho de minha alma, e agora insisto em encontrar a árvore que permitirá reverter esses efeitos, fazer-nos voltar a ser como deveríamos ser.
O problema é que, se não houver árvore, não haverá reversão.
Só Damen, eu e seus arrependimentos mais profundos — por toda a eternidade.
Mas eu sei algo que ele não sabe. A árvore existe. Lá no fundo, tenho certeza disso.
E, quanto mais rápido eu encontrá-la, mais rápido Damen se livrará da culpa que o oprime e da autocrítica. Culpa que nem se justifica, pois todas as coisas que fez, todas as decisões que tomou, tiveram a melhor das intenções. Ele pode ter agido com base no medo, mas a motivação sempre foi o amor.
Mas, como não posso dizer isso a ele, terei que mostrar.
E então, voltando a me dedicar ao que, no fundo do coração, sei que devo fazer, reservo um momento para materializar alguns itens que podem vir a ser necessários — antes que chegue longe demais e possivelmente acabe em um lugar no qual a magia não funciona. Materializo objetos como uma lanterna, um saco de dormir, água e comida, um casaco leve, sapatos mais robustos e uma mochila. Com isso assegurado, eu me ocupo com uma lista mental de tudo o que sei sobre a árvore até agora, coisas que aprendi com Damen e Lótus e algumas que peguei de livros, filmes e da experiência ao trabalhar na loja de Jude. Vou repetindo a lista para mim mesma enquanto sigo a trilha.
É mística... Verdade.
Alguns alegam se tratar apenas de um mito... Isso ainda precisa ser comprovado.
Dizem que dá apenas um fruto a cada mil anos, mais ou menos... Se for verdade, espero fervorosamente que seja época de colheita e que eu seja a primeira a chegar (senão, enfrentarei uma espera muito longa).
Paro, fecho os olhos e sintonizo a sabedoria de Summerland. Confio nela para me guiar na direção certa, e meus pés começam a se movimentar de novo, aparentemente com vontade própria. Olho para o chão e, quando meus pés começam a deixar para trás pequenos tufos de grama, fico feliz por estar usando as botas de caminhada que materializei. Logo os tufos de grama dão lugar a espessas nuvens de poeira, quando a vegetação termina e começa um trecho de terra solta. Sou forçada a depender do grosso solado das botas para manter a passada estável quando o terreno muda novamente, tornando-se mais duro, tomado por rochas e pedras angulosas e tão cheio de curvas fechadas e zigue-zagues que sou obrigada a ir mais devagar e depois a diminuir ainda mais o passo.
Mas não importa quanto o caminho seja traiçoeiro, não vou me dar por vencida, não desistirei, nem pensarei em voltar para o lugar de onde vim. Mesmo quando ele se torna muito estreito e íngreme, com abismos sem fim nos dois lados, estou comprometida com a jornada. Não há volta.
Esforço-me para manter a respiração estável, equilibrada, enquanto faço o possível para não olhar para baixo, Só porque não posso morrer, não significa que esteja procurando perigo. Se tiver escolha, prefiro evitar riscos enquanto puder.
A trilha fica cada vez mais alta e, quando começa a nevar, imagino se isso tem algo a ver com a altitude. Mas não importa. Saber o motivo não vai impedir que meus pés escorreguem perto do abismo escarpado que se abre até lá embaixo. Não impedirá minha pele de sentir frio, ou de ficar rígida e azul.
Sei que o casaco leve que guardei na mochila não é suficiente para uma queda de temperatura tão extrema, fecho os olhos e imagino outro — grande e acolchoado, que me fará parecer uma bolha deformada, mas dará conta do recado. E, quando nada acontece, quando nenhum casaco aparece, sei que cheguei à parte da jornada em que a magia e a materialização não funcionam mais. Terei que contar comigo mesma e com os poucos objetos que materializei antes de chegar a este ponto.
Visto o casaco, puxo as mangas para baixo até cobrirem meus dedos dormentes e congelados, mantendo os olhos na trilha e a mente em meu destino, comprometida a me virar com o que tenho, ao mesmo tempo que me lembro de todos os desafios aos quais já sobrevivi — obstáculos que há apenas um ano não pareciam possíveis.
Apesar de todo o foco, apesar das frases de estímulo e da lista de dados sobre a árvore que fico repetindo em minha cabeça, acabo chegando a um ponto em que o frio e o cansaço são grandes demais e me impedem de continuar. Então, começo a procurar um lugar onde acampar, e não demoro para perceber que não há nenhum. Esta paisagem congelante não tem muito a oferecer em termos de descanso.
Jogo a mochila no chão glacial e me sento sobre ela, envolvo o corpo com os braços e me encolho até meu nariz encostar nos joelhos, numa tentativa inútil de me aquecer e me equilibrar. Tento dormir, mas não consigo. Tento meditar, mas minha mente não desacelera. Então me ocupo de me convencer de que fiz a escolha certa. De que, apesar de meu estado de completo infortúnio, está tudo bem e exatamente como deveria ser — mas isso não chega nem perto de me consolar.
Estou com muito frio.
Muito cansada e desgastada.
Mas, sobretudo, sinto-me muito sozinha. Muito cheia de saudades de Damen e de como nosso relacionamento costumava ser.
Não importa quanto me esforce para me convencer, não há volume de pensamento positivo que substitua o verdadeiro e maravilhoso conforto que é tê-lo a meu lado.
E, no fim das contas, é isso o que me salva. Pensar nele é o que me permite fechar os olhos por algum tempo e deixar que o sono me leve para outro lugar, um lugar melhor. Um lugar onde há apenas ele e eu, onde nenhum de nossos problemas existe.
Não tenho ideia de quanto tempo durmo. Só sei que, assim que abro os olhos e limpo o rosto com a mão, vejo que a paisagem se transformou. A trilha ainda é muito estreita, ainda há um enorme precipício de cada lado, mas a estação mudou: não é mais inverno, o que significa que já não preciso me encolher por causa de uma nevasca gélida.
Em vez disso, estou debaixo de um aguaceiro, uma chuva de primavera que não dá trégua, transforma o solo em lama e não dá sinais de que vá parar.
Levanto-me com dificuldade, tiro rapidamente os braços das mangas, coloco o casaco na cabeça e o amarro sob o queixo, numa tentativa de não ficar mais ensopada que já estou. Dou um passo de cada vez na trilha, com cuidado. Deixo de lado pensamentos inspiradores, lembranças ou qualquer outra coisa, e me concentro em ficar de pé, manter-me equilibrada, não tombar para o lado. Quando a chuva se transforma em um sol escaldante que deixa o solo seco e rachado, nem pestanejo. E, quando aquele mesmo sol é resfriado por uma morna brisa abafada, sei que o verão já se transformou em outono.
O ciclo de estações se repete até que não me intimida mais, até que desenvolvo uma rotina. Eu me agasalho e hiberno durante o inverno; esquivo-me da chuvarada de primavera; tiro a camiseta de malha e fico apenas de regata quando chega o verão; depois a visto novamente quando ele se transforma em outono. E, durante todo esse tempo, continuo seguindo em frente, racionando a comida e o suprimento de água, fazendo o possível para não entrar em pânico e quase conseguindo, até que acontece algo que me deixa realmente perplexa.
Algo que nunca vi por estas partes.
Nem mesmo nas profundezas de Shadowland.
Fica tudo escuro.
Certo, talvez não seja uma escuridão total, mas ainda está escuro. Ou pelo menos está escurecendo.
Como o cair da noite, ou crepúsculo, como é chamado.
Aquele momento sinistro e melancólico em que tudo se torna apenas um contorno.
Aquele momento sinistro e melancólico em que é difícil distinguir os objetos de suas próprias sombras.
Paro. Meu pé escorrega, mandando uma rajada de pedrinhas lá para baixo, e sei que poderia ter sido eu. Meu coração bate com força enquanto me recomponho, controlo meus braços e pernas, dou uma examinada rápida em mim mesma e me asseguro de que estou bem.
— Não gosto disto — digo, quebrando o silêncio e ouvindo o eco de minha voz. Agora passo oficialmente a integrar o grupo de pessoas loucas que falam sozinhas. — Entre o escuro e aquela neblina lá em cima... — Franzo a testa, vendo o modo como a trilha de repente dá lugar a uma espessa nuvem de névoa branca e turva, que aparentemente surge do nada. Não há indícios do que possa haver além, e certamente nem sinal da árvore, tampouco alguma pista de que estou no caminho certo. — Isto não parece nada bom — completo, a voz tão sinistra que piora meu desconforto.
Olho em volta e me pergunto o que fazer agora. Observo a neblina que parece aumentar e se expandir e serpentear em minha direção, pulsando de um modo que me dá a impressão de que ela está viva. Isso me faz pensar se o melhor não seria recuar um pouco, encontrar um lugar claro e esperar a neblina passar. Mas hesito tanto que, quando vejo, já é tarde demais.
A névoa já está aqui. Já está sobre mim.
Ela avançou com tanta rapidez que sou engolida em um instante. Fico perdida no redemoinho de névoa branca e úmida enquanto meus dedos se esticam, esforçando-se desesperadamente para alcançar alguma coisa, e eu tento me localizar, enxergar pelo menos uma pequena parte do caminho.
Mas não adianta. Estou me afogando em um mar de vapor branco que me cerca por toda a volta. Suprimo um grito quando ergo as mãos na altura do rosto e não consigo ver meus próprios dedos.
Sem saber que lado é a frente, que lado é atrás, procuro a lanterna e a ligo na intensidade baixa, mas não ajuda. Não faz diferença na neblina. Estou perigosamente prestes a sucumbir a um enorme, completo e desastroso ataque de pânico quando o escuto.
Uma voz distante vem em minha direção, aproximando-se por trás. O som me estimula a gritar, chamar seu nome o mais alto que posso. Minha voz sai alta e aguda, para que ele saiba onde estou, que não vou me mover, que vou esperar que me encontre.
Dou um grande suspiro de alívio quando sinto o toque de seus dedos, sua mão na manga de minha roupa, apertando-me com firmeza, puxando-me em sua direção.
Aconchego-me em seus braços, enterro o rosto em seu peito e a testa em seu pescoço, descobrindo tarde demais que não é Damen que me abraça.

6 comentários:

  1. Fernanda Boaventura4 de dezembro de 2015 13:24

    Q-QUEM É? JUDE?

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    Respostas
    1. Judá é um surfista que ajuda a Even mas por outro lado ele a atrapalha que ela fica em dúvida se é destinada a Damen ou a Jude☺
      Espero te ajudado
      Bjs😘❤
      De Isabela

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  2. Digite seu comentário...Aiii.....

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  3. Digite seu comentário...Acompanho seu blog +- a 5anos e a primeira vez, segunda pra ser sincera, que comento. Passei mal qdo saiu 2x do ar.... Mas agradeço sua força de vontade e amor a leitura. Obrigada por vc existir e persistir !!!! Muito pai d'egua!!!! Minha série favorita é a maldição do Tigre!! Amoooooo Ren!!! Bjs Karina!!!! Continue firme e forte, que estaremos com vc!!!!:)
    Tatiane \o/

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    Respostas
    1. Aiiiiih!Somos Duas!A Maldição Do Tigre Éh A Minha Preferida Tbm!Amuh! (*_*)
      _Gabi

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