2 de novembro de 2015

Vinte e oito

A primeira visão que tenho quando chegamos é o que menos esperava.
As gêmeas.
Romy e Rayne lado a lado. Romy vestida de cor-de-rosa dos pés à cabeça, Rayne de preto da cabeça aos pés. Elas abrem a boca em uníssono assim que me veem.
— Ever! — Romy grita e corre para me abraçar, joga seu corpo magro no meu, quase me derrubando enquanto passa os braços finos ao meu redor e me abraça forte.
— Achamos que você havia ficado presa em Shadowland — diz Rayne, balançando a cabeça e piscando para afastar o sofrimento. Ela vem para o lado da irmã, que ainda está grudada em mim. E justamente quando tenho certeza de que ela fará algum tipo de comentário sarcástico, alguma observação irônica sobre estar decepcionada por eu ter escapado ilesa, ela olha bem para mim e diz: — Fiquei muito feliz por estarmos erradas. — E sua voz falha a ponto de ela mal conseguir pronunciar essas palavras.
Sei reconhecer uma oferta de paz, portanto envolvo-a com o braço, surpresa pela forma como ela permite e se aconchega em mim. Ela não apenas retribui o abraço, como também o prolonga por muito mais tempo que eu esperava. Afastando-se alguns instantes depois, ela limpa a garganta, passa os dedos pela franja desfiada e limpa o nariz com a manga comprida de algodão.
Mesmo louca para saber como chegaram aqui, por enquanto terei que esperar. Tenho preocupações muito mais urgentes.
Mas eu nem tenho a chance de dizê-la antes que as gêmeas façam um gesto solene com a cabeça e anunciem:
— Ele está aqui. — Elas se viram e apontam na direção dos Grandes Salões do Conhecimento, bem atrás delas. — Ele está com Ava. Está tudo bem.
— Então... Ele está curado?
Minha voz falha, esperando que estejam querendo dizer exatamente isso, e me sinto instantaneamente aliviada quando elas confirmam.
— E vocês? Estão vivendo aqui novamente?
Elas olham uma para a outra com a mesma expressão sombria no rosto, que é rapidamente substituída por uma balançar de ombros e uma explosão de gargalhadas. Elas se jogam um sobre a outra, desfrutando algum tipo de piada íntima, até que Rayne se acalma o suficiente para dizer:
— Você quer que a gente volte a viver aqui? — Ela franze a testa e olha para mim, voltando a agir com sua verdadeira personalidade, bem, pelo menos com aquela que tem na maior parte do tempo.
— Só quero que sejam felizes — digo a elas, sem levar nem um segundo sequer para responder. — Onde quer que vocês se sintam assim.
Romy sorri, erguendo os ombros e dizendo:
— Ficaremos com Ava. Agora que sabemos como vir visitar este lugar sempre que quisermos, bem, não achamos que precisamos voltar a viver aqui. Além disso, gostamos muito da escola.
— É, e a escola também gosta de nós. — Rayne dá um raro e breve sorriso que faz seus olhos dançarem. — Fui eleita representante da turma.
Faço um gesto afirmativo com a cabeça, nem um pouco surpresa.
— E Romy foi aceita como líder de torcida — ela completa, revirando os olhos.
— Acho que todo aquele treino com Riley, você sabe, quando ela vivia aqui e costumava andar conosco, bem, acho que deve ter ajudado muito. — Romy dá de ombros com modéstia.
— Riley ajudou você com animação de torcida? — Estreito os olhos, bastante surpresa em ouvir aquilo, embora não tenha certeza do motivo.
Vejo Romy confirmar com a cabeça e dizer:
— Ela queria ser exatamente como você. Sabia disso, não é? Ela memorizou todas as coreografias que você fez e depois nos ensinou.
Aperto os lábios e me encosto em Damen, feliz por receber o abrigo de seu calor intenso, sua mão apertando a minha. Tenho certeza, agora mais do que nunca, de que posso ter isso a hora que quiser, no momento em que precisar. Sempre poderei contar com ele.
Concentro-me novamente nas gêmeas e digo:
— E, por falar em pessoas de quem sentimos falta...
Elas olham primeiro uma para a outra e depois para mim.
— Conheço alguém que realmente gostaria de vê-las novamente.
Lembro-me do senhor britânico com quem encontrei quando dei de cara com o chalé no qual elas costumavam viver, na época em que descobri a verdade sobre a ligação delas com minha irmã e com Ava. Envio a imagem a elas por telepatia.
— Mas ele pareceu bastante confuso. Colocou na cabeça que Romy era a menina teimosa e Rayne a boazinha, mas acho que todos nós sabemos que não é verdade...
Elas alternam o olhar entre Damen e eu e depois irrompem em mais uma série de gargalhadas. Nós ficamos ali parados, sem saber do que estão rindo, mas rapidamente deixando isso de lado e concentrando-nos um no outro.
E é assim que Ava e Jude nos encontram quando saem dos Salões e descem a íngreme escadaria de mármore.
As gêmeas rindo.
Eu me comunicando com Damen — minha cabeça em seu ombro, nossas mãos unidas.
E isso é tudo de que Jude precisa para saber que a escolha foi feita.
Para saber que Damen e eu estamos destinados a ficar juntos.
Que o que possa ter acontecido entre nós já estava acabado antes mesmo de começar.
Ele para no último degrau, permitindo que Ava passa à sua frente enquanto seus olhos se fixam nos meus. Ele sustenta o olhar pelo que parece uma eternidade, mas não troca nenhuma palavra comigo, nenhum pensamento telepático.
Mas as palavras não são necessárias quando a mensagem é clara.
Então ele respira fundo, faz uma pausa para se recompor e acena com a cabeça em reconhecimento. Ambos sabemos que é isto: minha decisão foi tomada e nunca mais será posta à prova.
Ao mudar o foco para Ava e as gêmeas, ele decide se juntar a elas em sua jornada para revisitar todos os lugares que costumavam frequentar, pelo menos para se distrair do que acredita que acabou de perder.
Eles estão prestes a sair quando me viro para as gêmeas a pergunto:
— Ei... Como vocês conseguiram? Como voltaram aqui?
Vejo o modo como Ava se ilumina de orgulho, enquanto as gêmeas olham primeiro um para a outra e depois para mim. Romy decide tomar a iniciativa.
— Tiramos o foco de nós mesmas e o colocamos em outra pessoa, para variar.
Estreito os olhos, sem entender muito bem aonde elas querem chegar.
— Estávamos aqui com Damen quando ele encontrou você — explica Rayne. — E quando vimos Jude e o estado dele... Bem, sabíamos que havia apenas um modo de salvá-lo, e era trazendo-o aqui, a Summerland.
— O que significa que todo o nosso foco em chegar aqui não era mais por nós, mas por ele.
Nosso único objetivo era ajudá-lo. — Romy sorri. — E funcionou.
— Como Ava sempre nos disse — diz Rayne, olhando para ela com admiração. — Como ela sempre diz... — Ela para de falar e caminha na direção de Ava. — Bem, você sabe como é, já que a frase é sua...
Ava ri, bagunçando os cabelos de Rayne e depois puxando-a para seu lado e Romy para o outro, fitando-me nos olhos e dizendo:
— Tudo depende da intenção. Quando se coloca todo o foco em um problema, só se consegue mais problema. Mas quando se coloca o foco em ajudar a energia se direciona para a ajuda, não para o problema. Então antes, quando as gêmeas não conseguiam voltar a Summerland, era porque estavam focando em si mesmas e em seu problema para chegar aqui. Mas dessa vez sua única preocupação era Jude, e chegaram em um instante. Basicamente, sempre que alguém busca uma solução, tem emoção positiva, e sempre olha para o problema, tem uma emoção negativa, que, como você sabe, nunca leva a lugar nenhum. Assim que tira o foco de si mesmo e de suas necessidades e o coloca na forma de conseguir algo que pode beneficiar também outra pessoa, bem, então é impossível não dar certo — ela diz com a voz suave e doce. — É a chave por trás de qualquer sucesso
Rayne dá de ombros, sorrindo e balançando a cabeça.
— Quem poderia imaginar? — diz ela.
É, quem poderia imaginar? Sorrio e lanço um olhar rápido para Ava, vendo como alterna o olhar entre Damen e eu e sabem instintivamente que aprova minha escolha. Depois muda o foco para Jude, que, graças à maravilhosa magia curativa de Summerland, voltou a ser tão forte, bonito e sexy como sempre.
Como se Haven não tivesse acabado de partir seu corpo.
Como se eu não tivesse acabado de partir seu coração.
O tipo de cara que qualquer garota teria muita sorte em namorar.
O tipo de cara que tenho a sorte de conhecer há tanto tempo.
Então fecho os olhos e materializo minha própria estrela da noite no céu de Summerland, bem acima de sua cabeça. Sei que os desejos nem sempre se realizam do modo que queremos, mas, se a gente acreditar e mantiver a mente aberta, há uma chance muito boa de que se concretizem de alguma forma. Mesmo sem ter percebido na hora, foi exatamente o que minha estrela da noite fez por mim.
Ao me enviar a Shadowland, pude encontrar a resposta de que precisava.
Antes que eles saiam e antes que minha estrela desapareça, respiro fundo e faço um pedido para Jude.
Desejo que ele permaneça aberto e esperançoso e disposto a acreditar que existe alguém no mundo que será muito melhor para ele do que jamais poderei ser.
Desejo que ele encontre uma pessoa que o ame da mesma forma que ele a amará.
Desejo que ele encontre o que encontrei em Damen.
Deixo-o com esse desejo. Deixo minha estrela brilhando no céu pelo tempo que durar. Vejo-os partirem em uma direção enquanto Damen e eu tomamos outra, passeando de mãos dadas, quietos e satisfeitos, enquanto o guio para o pavilhão.
— Tem certeza? — ele diz, parado do lado de fora, claramente em dúvida sobre tentar isso novamente.
Faço que sim com a cabeça e o puxo para dentro. Tenho certeza absoluta. Na verdade, mal posso esperar para começar.
Há muito sobre aquela vida sulista que ainda preciso explorar e, pelo que vi em Shadowland, certamente houve partes muito boas que eu adoraria rever.
Entrego-lhe o controle remoto e fico diante da tela, sorrindo para ele enquanto digo:
— Adiante para a parte boa, depois que garantiu minha liberdade, ganhou minha confiança e me levou para a Europa...

Um comentário:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkk
    Eu achei que Damen estivesse dizendo a Jude morreu! Tô bem contente agora!
    Só acho estranho ainda ter vários capítulos nesse livro, espero que não seja nada de ruim...

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