2 de novembro de 2015

Vinte e oito

Ela empurra o prato de biscoitos em minha direção, por força do hábito, sem pensar. Depois balança a cabeça e ri baixinho enquanto tenta pegá-lo de volta, mas não vai muito longe, pois estico a mão e apanho um do fundo. Redondo, com a cor creme, macio e decorado com quadrados de açúcar. Quebro um pedaço da ponta e o coloco na boca, lembrando que esse era meu tipo preferido e desejando poder desfrutar dos doces, de qualquer comida, na verdade, como antes.
— Não precisa comer por minha causa – diz ela, levando a xícara aos lábios e soprando o chá uma, duas vezes, antes de tomar um gole. — Acredite, as gêmeas já gostam deles o suficiente, então eu não vou ficar ofendida se não quiser.
Encolho os ombros, querendo contar a ela que às vezes, quando sinto falta de ser normal, começo a comer, beber e comprar coisas em lojas, em vez de materializá-las, só para provar que ainda posso. Mas em geral não dura muito, e ultimamente só acontece quando é tarde e estou cansada, e mais do que apenas um pouco perdida, como é o caso agora. Nos outros momentos, nem consigo pensar em querer ser de novo normal daquele jeito.
Em vez disso, porém, apenas olho para ela e pergunto:
— Como estão as gêmeas? — Parto outro pedaço de biscoito, lembrando-me de como o sabor costumava ser doce, saboroso, delicioso, nem um pouco insosso e parecido com papelão como estou sentindo, mas sei que fui eu que mudei, não a receita.
— Sabe é engraçado... — Ela coloca a xicara na mesa e se inclina em minha direção, movendo os dedos sobre a toalha verde de tecido como se a passasse com as mãos. — Nós nos demos tão bem e tão rápido que é como se o tempo não tivesse passado. Quem poderia imaginar? — Ela dá um sorriso tímido e balança a cabeça ao pensar. — Sei que a reencarnação trata principalmente do carma e de questões não resolvidas no passado, mas nunca imaginei que fosse tão... Literal... No meu caso.
— E a magia delas? Está voltando?
Ela respira lenta e profundamente, aproxima os dedos da xícara novamente, pega com firmeza na asa, mas para antes de levantá-la e diz:
— Não. Ainda não. Mas talvez isso não seja ruim. — Ela sacode os ombros. Olho para ela, confusa com o que pode estar querendo dizer.
— Bem, parece não ter dado muito certo com você, não é?
Deixo as mãos caírem sobre o colo, apertando, torcendo, puxando meus dedos. Ver-me curvada e nervosa basicamente responde a sua pergunta.
— E embora eu costumasse praticar magia também... bem, obviamente.
— Ela coloca a língua para fora e simula que está puxando uma corda para enforcar, depois cai no riso e aponta o dedo para mim quando me espanto — Ah, relaxe. — Ela abre um sorriso rapidamente. — Não adianta chorar por um passado que não posso mudar. Cada passo que damos nos leva ao próximo, e pela atual conjuntura, o próximo passo está bem aqui. — Ela dá um tapa na mesa. — Por causa das minhas experiências nas vidas passadas. Porque você me ajudou a ter acesso a Summerland, onde, depois de um tempo, tive acesso aos Grandes Salões do Conhecimento, sou muito mais capaz de entender coisas que antes só podia imaginar.
— É? Como o quê? — Estreito os olhos, retomando meu antigo modo agressivo de não deixá-la dizer nada sem interrompê-la rudemente.
Mas Ava, como sempre, resolve ignorar meu comportamento e prossegue como se eu nada tivesse dito.
— Aprendi que a magia, como a materialização, é apenas a simples manipulação da energia. Mas, enquanto a materialização normalmente é reservada à manipulação da matéria, a magia, pelo menos em mãos erradas... — Ela faz uma pausa e olha para mim, gritando com os olhos — em suas mãos!—, ou pelo menos foi o que me pareceu. - Bem, se não for praticada corretamente, com a intenção adequada, tende a manipular pessoas, e é aí que começam os problemas.
— Queria que as gêmeas tivessem me alertado a esse respeito — resmungo, mal podendo acreditar que coloquei a culpa nelas.
— Talvez elas tenham se esquecido de mencionar, mas certamente Damen não esqueceu. — Ela olha para mim, obviamente incrédula, como mostram o arco de sua sobrancelha e o ângulo de seu queixo. — Ever, se veio aqui em busca de ajuda, pois considerando a hora e as circunstâncias é o que suponho que tenha vindo fazer, então, por favor, deixe eu ajudar. Não precisa inventar desculpas, não estou aqui para julgar você, de modo algum. Cometeu um erro, não é a primeira pessoa e certamente não será a última. Embora eu tenha certeza de que você sente que seu erro é extraordinariamente grande, incomensurável, ao contrário do que pode pensar, esse tipo de coisa sempre pode ser desfeita, e a maioria das vezes não chega nem perto de ser tão letal quanto imaginamos. Ou, devo dizer, quanto permitimos que seja.
— Ah, então agora sou eu que estou permitindo? — Começo, e a argumentação vêm com bastante prontidão, bastante facilidade. Mas não vem do coração, então rapidamente levanto a palma das mãos em um gesto de rendição. Suspiro, e acrescento: — Sabe, para alguém que precisa de ajuda com tanta frequência quanto eu, deveria ser mais fácil aceitar. — Reviro os olhos e balanço a cabeça, dirigindo os gestos a mim mesma, não a ela.
Ela dá de ombros, tira um biscoito de aveia da pilha e coloca uma uva-passa na boca.
— Nunca é fácil para os teimosos. — Ela sorri, olhando-me nos olhos. — Mas acho que já superamos isso, certo? — Vendo meu gesto de concordância, ela continua: — Acontece, Ever, que tanto com magia quanto com materialização, a intenção é o que mais importa, o resultado em que está focando. Sua intenção é a ferramenta mais importante que tem à disposição. Conhece a lei da atração, certo? — Ela olha para mim, passando a mão na manga de seda da camisa. — Sabe que atraímos aquilo em que estamos focados? Bem, não tem diferença aqui. Quando você foca no que teme, atrai mais daquilo que teme. Quando foca no que não quer, atrai mais daquilo que não quer. Quando foca em tentar controlar os outros, acaba sendo controlada. Sua concentração em algo traz mais disso e mais coisas como isso para sua vida. Impor sua vontade aos outros, para persuadi-los a fazer algo que normalmente não fariam... Bem, isso não apenas não funciona, como também acaba voltando diretamente para você. E resulta em carma, assim como todas as ações, só que não é do tipo que age a seu favor, a não ser que esteja disposta a aprender algumas lições muito importantes, ou seja...
Ela continua falando, mas minha mente ainda está presa àquela parte do carma, sobre voltar para mim. Lembro-me de ouvir as gêmeas dizerem algo parecido, como: — É errado usar magia para fins egoístas e desprezíveis. Há um carma a pagar, e isso voltará para você multiplicado por três.
Engulo em seco e pego meu chá. Suas palavras parecem me olhar quando ela diz:
— Ever, você precisa entender que esse tempo todo tem resistido da pior forma possível. Resistindo a mim quando tentei ajudar, resistindo a Damen quando ele ficou preocupado com você, resistindo a Roman e às coisas horríveis que ele fez com você ... — Ela levanta a mão, vendo que estou prestes a refutar a última afirmação, e com o dedo erguido para me silenciar, diz: — E a ironia da resistência é que você acaba perdendo tanto tempo e energia concentrada nas coisas às quais está resistindo, nas coisas que não quer, que acaba atraindo exatamente essas coisas.
Olho para ela, sem saber se entendi. Não devo resistir a Roman? Bem... veja o que aconteceu, ou quase aconteceu, quando cheguei perto de me render a ele.
Ela endireita os ombros, coloca as mãos dos dois lados da xícara, olha em meus olhos e começa de novo. — Tudo energia, certo? Foi o que me disseram.
— Se seus pensamentos são energia, e a energia atrai, então, todos os seus pensamentos sobre todas as coisas que mais teme... bem, na verdade você está fazendo com que elas aconteçam. Está materializando a existência delas simplesmente por ficar obcecada. Ou, colocando de maneira mais simples, como disseram os alquimistas: — O que está em cima é como o que está embaixo, o que está dentro é como o que está fora.
— É isso que chama de colocar de maneira mais simples? - Balanço a cabeça e fico rodando a xícara de chá. Para mim, é como se ela estivesse falando grego.
Ela sorri, os olhos pacientes, calmos.
— Significa que o que está dentro de nós também pode ser encontrado fora de nós. Que nosso estado interior de consciência, os pensamentos nos quais focamos sempre se refletem em nossa vida exterior. Não há escapatória, Ever, é assim. Mas o que você não percebeu é que a magia não está lá fora. Não está nas mãos da deusa ou da rainha. Está aqui dentro. — Ela aponta o polegar para o peito, olhando para mim enquanto todo o seu rosto se eleva. — Roman só tem poder sobre você porque você concedeu, entregou de bandeja! Sim, eu sei que ele a enganou, e sim, eu sei que ele está impedindo você de ficar de verdade com Damen, e sim, isso deve ser inimaginavelmente horrível. Mas se você parar de resistir ao que já está Jeito, se parar de focar em Roman e nas coisas podres que ele fez, poderá romper esse terrível laço que está unindo você a ele. E então, depois de um bom tempo de meditação e purificação, ele não vai mais incomodar... não mesmo.
— Mas ele ainda terá o antídoto... ele ainda... — começo, mas não adianta.
Ava está embalada e ainda não terminou.
— Você está certa. Ele ainda terá o antídoto, e provavelmente vai relutar em entregar a você. Mas essa é uma situação que você não pode mudar. E ficar obcecada com isso, tentar todos os tipos de feitiço, também não vai mudar nada. Na verdade, só vai piorar. Ao fazer isso você permitiu que ele se tornasse o foco de seu universo, exatamente o que você não queria, e, acredite, Roman sabe muito bem disso. Ele faz de tudo para roubar sua concentração, é o que todo narcisista quer. Então, se realmente quer resolver isso e colocar sua vida de volta nos eixos, pare. Pare de focar sua energia no que não quer. Pare de colocar sua energia em Roman. Recuse-se a ir até lá e veja o que acontece.
Ela se inclina em minha direção, ajeitando os cabelos castanhos e ondulados atrás da orelha.
— Pelo meu palpite, assim que ele perceber que vocês estão se adaptando alegremente à situação, vivendo e desfrutando da companhia um do outro, apesar das limitações, ele vai se cansar do jogo e ceder. Mas assim, do jeito como você está se comportando agora, está oferecendo filé-mignon a um tigre, está apenas satisfazendo as necessidades mais primitivas dele. A fera está dentro de você, Ever, porque você a colocou aí dentro. Mas, acredite, pode se livrar dela com a mesma facilidade.
— Como? — Encolho os ombros, entendendo tudo o que ela acabou de dizer. Bem, depois que ela explicou, tudo começou a fazer sentido. Ainda posso sentir aquele pulso horrível e insistente agindo dentro de mim, e é um pouco difícil acreditar que é apenas uma questão de mudar meu foco. - Quando tentei reverter o feitiço, a situação só ficou pior. Então, quando apelei a Hécate por ajuda, pareceu funcionar por um tempo, mas depois, quando vi Roman novamente... - A cor desaparece de meu rosto e meu corpo inteiro esquenta, horrorizada ao lembrar o que quase aconteceu comigo. - Bem, digamos apenas que descobri que a fera não tinha ido a lugar algum, estava bem viva, pronta para festejar. Embora eu entenda o que está dizendo, ou pelo menos ache que entendo, não vejo como o simples fato de mudar meus pensamentos vai ajudar. Quer dizer... Hécate está no comando, não eu, não tenho ideia do que fazer para ela ir embora.
Mas Ava apenas olha para mim e diz baixinho:
— Aí é que se engana. Hécate não está no comando, você está. Você esteve no comando todo o tempo. Embora odeie ter que dizer, porque sei como as pessoas ficam incomodadas ao ouvir, o monstro não é um ser externo que encontrou um jeito de entrar em você, não é uma possessão demoníaca, nem nada desse tipo. É você. O monstro é o seu lado negro.
Encosto na cadeira e balanço a cabeça:
— Ah, que ótimo! Ótimo. Então você está dizendo que minha atração por Roman é real? Que bom, Ava, muito obrigada por isso. — Suspiro alto e reviro os olhos de forma dramática.
— Eu disse que nem sempre dá certo. — Ela dá de ombros, provando que a esta altura já está praticamente imune às minhas reações insolentes. — Mas você deve admitir que, falando superficialmente, ele é estonteante, muito bonito... - Ela sorri, praticamente me implorando para concordar. Mas quando não digo nada, apenas sacode os ombros novamente e diz: — Mas não foi isso que eu quis dizer. Conhece o símbolo yin-yang, certo?
Faço que sim com a cabeça.
— O círculo de fora representa tudo, enquanto as áreas branca e preta representam duas energias que fazem tudo acontecer. — Ergo os ombros. Ah, e cada um deles contém uma pequena semente do outro... — Estreito os olhos, sentindo de repente no que isso vai dar, sem saber se estou pronta para acompanhar.
— Exatamente — ela confirma. — E as pessoas não são diferentes dele. Por exemplo, digamos que você tenha uma melhor amiga, ela cometeu alguns erros... — ela olha em meus olhos - e está sendo tão crítica consigo mesma, se sentindo tão indigna de todo o amor e o apoio que está sendo oferecido, tão certa de que precisa passar por isso sozinha, consertar as coisas do próprio jeito e, no fim, tão obcecada com aquele que a atormenta que acaba se desligando de todos ao redor para ter mais tempo para se concentrar naquela pessoa que mais despreza, canalizando toda a atenção da pessoa para ela, até que, bem, obviamente estou falando de você, e você sabe como essa história termina... O que estou tentando deixar claro é que cada um de nós tem um lado sombrio, todos nós, sem exceção. Mas quando você se concentra tanto no lado negro, bem, voltamos à lei da atração, gostar atrai gostar, daí sua atração monstruosa por Roman.
— Um lado sombrio? - Olho para ela, lembrando-me de ter ouvido algo similar há algumas horas. — Você quer dizer, como... um eu-sombra?
— Agora você está citando Jung? — Ela ri.
Franzo o cenho, sem ter ideia de quem é.
— Dr. Carl Jung. — Ela continua rindo. — Ele escreveu tudo sobre o eu-sombra, basicamente dizendo que é nossa parte inconsciente e reprimida, as partes que nos esforçamos para negar. Onde escutou isso?
— Roman. — Fecho os olhos e balanço a cabeça. — Ele sempre está dez passos à minha frente e basicamente disse a mesma coisa que você, que o monstro era eu. Foi a última provocação dele antes de eu fugir de lá.
Ela faz um gesto positivo com a cabeça, levanta o dedo e fecha os olhos. — Deixe-me ver se eu consigo...
E, quando vejo, ela está balançando um livro antigo de couro.
— Como você...? — Olho para ela com os olhos arregalados, boquiaberta, mas ela apenas sorri.
— Tudo o que se pode fazer em Summerland também pode ser feito aqui, sabia? Não foi você mesma que me disse isso? Mas não foi materialização instantânea como está pensando, foi simplesmente telecinese... Eu evoquei o livro que estava na estante da sala ao lado.
— Mesmo assim... — Olho embasbacada para o livro, surpresa pela velocidade com que ela conseguiu pegá-lo. Surpresa ao ver que ela dominou tantas coisas e ainda assim escolheu viver desse jeito: bem, confortável, mas com bastante simplicidade para os padrões opulentos de Orange County. Estreito os olhos e a observo novamente, vendo que continua usando um pedaço de citrino bruto em uma corrente prateada simples, em vez das joias douradas e sofisticadas que sempre usou em Summerland, apesar de agora poder ter o que quiser. Não consigo parar de pensar se ela realmente mudou ou se continua sendo a velha Ava que eu conheci.
Ela se ajeita na cadeira, apoia o livro na mesa e vai diretamente à página certa, acompanhando as linhas com o dedo enquanto lê;
— Todos carregam uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela será (...) A psicologia diz que quando uma situação interna não se torna consciente, acontece externamente como destino, forma uma barreira inconsciente, anulando nossas melhores intenções.— E assim por diante. — Ela fecha o livro, olha para mim e acrescenta; — Foi o que disse o Dr. Carl G. Jung, e quem somos nós para desmentir? — Ela sorri. — Ever, conseguir ou não atingir nosso potencial completo ou cumprir nossos verdadeiros destinos depende de nós. É uma realização totalmente nossa. Lembra o que eu disse antes? O que está dentro é como o que está fora? Aquilo no que pensamos, no que nos concentramos, sempre, sempre se reflete no exterior. Então eu pergunto; no que quer se concentrar? Quem você quer se tornar daqui em diante? Como quer que seu destino se desdobre? Você tem um caminho, um propósito, e embora eu não saiba qual é, tenho a estranha sensação de que é algo poderoso e gigantesco. Embora tenha se desviado um pouco do curso, se me permitir, posso ajudar você a voltar para o caminho. Tudo que precisa fazer é dizer a palavra.
Olho para minha xícara de chá, para os pedaços do biscoito, ciente de que tudo o que fiz até agora, todas as minhas ações vergonhosas e imprudentes, trouxeram-me de volta para cá. De volta para a cozinha de Ava. O último lugar para o qual eu retornaria.
Passo o dedo várias vezes pela borda do pires, pesando minhas opções, que reconheço serem poucas, levanto a cabeça, olho para ela, sorrio e digo: — Palavra.

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