3 de novembro de 2015

Vinte e nove

— Ever.
Sua face roça meu cabelo enquanto seus lábios procuram meu ouvido, e, embora a voz seja masculina, não a reconheço.
A névoa continua a se acumular, tornando impossível que eu veja o rosto do dono da voz. Ele pressiona o corpo contra o meu, enquanto fecho bem os olhos e tento espiar dentro de sua cabeça, mas não chego a lugar algum. Seja quem for, aprendeu a levantar um bom escudo contra ataques desse tipo.
Eu me afasto, luto para me soltar, mas não adianta. Ele é extremamente forte e continua a me segurar como uma pessoa se afogando e tentando me levar junto.
— Cuidado — diz, levantando o rosto e permitindo que o hálito frio desça até meu pescoço, enquanto sinto a força de seus dedos através das roupas.
Hálito frio.
Dedos gelados.
Força extraordinária.
Pensamentos que não posso ouvir.
 Só podem ter um significado.
— Marco? — arrisco, imaginando se isso significa que Misa está aqui também, já que raramente vejo um sem o outro.
— Quase — diz, com uma risada profunda e mordaz, que parece um pouco inapropriada nas circunstâncias em que nos encontramos.
— Então quem... — Começo a pensar se é outro imortal transformado por Roman, mas ele não demora muito a responder.
— Rafe — ele responde, com a voz baixa e séria. — Talvez não se lembre de mim, mas já nos encontramos uma ou duas vezes. Porém, nunca fomos apresentados formalmente.
Engulo em seco, sem saber se isso é bom ou ruim. Ele sempre foi um enigma, mas não perco muito tempo pensando nisso. Minha principal preocupação é me livrar dele. O resto resolvo depois.
— Espero não ter assustado você. — Ele afrouxa um pouco o abraço, mas apenas um pouco, não o suficiente para que eu me liberte. — Eu escorreguei. Caí no cânion aqui embaixo. Por sorte, não cheguei a atingir o fundo, presumindo que exista um. Fiquei pendurado em umas pedras escarpadas, depois passei o que pareceu uma eternidade tentando encontrar o caminho de volta. O que, por sinal, é muito mais fácil quando dá para ver alguma porcaria. Passei por tantas estações que perdi a conta. De qualquer modo, estava prestes a desistir e montar acampamento, ou, mais precisamente, aguentar quanto pudesse até a neblina se dissipar, quando ouvi passos, ouvi sua voz, e, bem, foi o incentivo de que precisava para escalar mais rápido e encontrar o caminho para um local seguro. Foi mais fácil quando percebi que já não estava mais sozinho neste fim de mundo. Mas preciso confessar, Ever: estou um pouco surpreso por encontrá-la aqui sozinha. Tinha certeza de que estaria com Damen. Então com quem você estava falando? Estava falando sozinha?
Semicerro os olhos, achando melhor não responder à pergunta, nem mesmo deixar transparecer que estou aqui sozinha. Ele está zombando de mim. Não está sendo nem um pouco sincero. E, embora a névoa esteja fazendo um bom trabalho ao encobrir seu rosto, deixando-me ver apenas um vislumbre do contorno de seus cabelos escuros e ondulados, não preciso vê-lo de verdade para confirmar. O conteúdo de sua voz é alto e claro.
— Se quer saber, temos duas escolhas — diz, como se fôssemos dois bons amigos unindo forças, em busca de uma solução que beneficiasse e agradasse a ambos. — Podemos ficar aqui parados e esperar a neblina se dissipar ou podemos voltar lá para baixo e sair daqui. Voto por voltar, e você?
Penso em um milhão de respostas, mas fecho a boca antes de dizer qualquer palavra de que possa me arrepender. Mesmo assustada com sua proximidade, mesmo tentada a arrancar seus dedos da manga de meu casaco, não posso mais fazer isso. Não depois de tudo o que aprendi. Agora que sei que todos somos um só, que estamos conectados, as antigas reações não funcionam mais.
Mas isso não significa que eu precise ceder à provocação. Não tenho dúvidas de que suas intenções não são boas. Solto-me e dou um passo à frente, ansiosa por colocar o máximo de distância entre nós, tomando cuidado para silenciar todos os pensamentos de preocupação, paranoia ou medo gerados por sua mera presença.
Primeiro, porque não quero que ele ouça meus pensamentos e, segundo, porque preciso limpar minha mente para poder me concentrar na direção em que a árvore pode estar. Mas nada me ocorre.
Summerland já me deu tudo o que pôde. O que vai acontecer a partir daqui depende apenas de mim.
Rafe me segue com dificuldade, seus passos a uma proximidade desconfortável dos meus. Mas a necessidade de cuidado me impede de ir rápido, então sigo colocando um pé na frente do outro lentamente, testando cada passo antes de soltar meu peso. Sinto o caminho como um cego movendo-se em um cômodo desconhecido, sabendo que pode demorar muito mais que o necessário, mas tenho noção de que é melhor ir devagar, melhor ficar sem segurança que perder o equilíbrio e me arrepender para sempre.
Só espero estar seguindo na direção certa.
— Ainda acho que deveríamos voltar — diz Rafe, diminuindo facilmente a distância entre nós enquanto tropeça atrás de mim.
— Então volte. — Meus olhos varrem a área, atentos a sinais de... bem, de alguma coisa, qualquer coisa. — É sério. Eu estava me virando muito bem sozinha.
— Uau! — Rafe bufa, fazendo de tudo para mostrar como está ofendido, embora sua voz pareça muito mais jocosa que insultada. — Você sabe mesmo como fazer um cara se sentir acolhido, não é, Ever? Deveria estar feliz por eu estar aqui. Mas... é verdade... Roman me alertou a seu respeito.
— Ah, foi? E o que ele disse exatamente? — Faço uma pausa, virando-me para encará-lo, esforçando-me para tentar ver melhor, mas ainda assim... Nada. A névoa é espessa demais para que eu possa discernir qualquer coisa.
Volto a me concentrar na trilha, estremecendo ao hálito amargo e frio de Rafe, que gela minha nuca quando ele fala:
— Roman disse o bastante. Parecia ter muito conhecimento sobre quem você é. Mas receio que eu não possa explicar nada. No momento, os detalhes parecem me escapar. Eu culpo a altitude, e você?
Reviro os olhos, ciente de que o movimento é em vão, já que ele não consegue ver, mas, ainda assim, o gesto faz com que eu me sinta melhor. E no presente momento estou aceitando todas as sensações boas que puder.
— Falando em Roman... — Rafe faz uma pausa dramática, mas o que vem em seguida é óbvio. — O que aconteceu com ele? Faz um tempão desde a última vez em que nos vimos. Segundo os boatos, você o matou. Mas nunca fui de confiar em informações de terceiros, sempre que possível, gosto de ir direto à fonte. Então diga-me, Ever, é verdade? Você fez mesmo isso? Porque, mesmo sem conhecê-la tão bem, devo dizer que o boato tem cara de verdade. Você tem isso. Soube da primeira vez em que a vi. Não se ofenda, é claro.
— Não me sinto ofendida. — Fecho a cara, sentindo-me de repente muito desconfortável com o fato de Rafe estar atrás de mim, mas faço o possível para não demonstrar. — É verdade que Roman não está mais entre nós — digo, confirmando o que Rafe já sabe, mas tomo cuidado para não dar pistas do profundo remorso que sinto pela perda, nem indício de quem pode ser o culpado. Minha voz fica mais ousada quando completo: — Acontece que ele não era tão imortal assim, no fim das contas. Mas acho que você já havia percebido, certo?
A brisa fica mais forte, passando por nós e fazendo a temperatura cair a um ponto realmente incômodo. Fica tão frio que meu coração aperta, pois sei que não posso suportar outro inverno, ainda mais com Rafe aqui.
Sem querer interromper a caminhada para pegar o casaco na mochila, esfrego os braços, na tentativa de me aquecer. Minhas orelhas começam a formigar quando uma segunda rajada de vento passa. Só que dessa vez, além do estalo normal das folhas e do ruído das pedras rolando, ouve-se outro som: vindo de um animal ou de um ser humano, não consigo discernir. Só sei que Rafe e eu não somos mais os únicos aqui.
Meu cabelo é levantado e gira a meu redor enquanto tento pegar um elástico preso ao pulso. Noto que a neblina ficou mais fina, o suficiente para deixar visível o pico de uma montanha coberta de neve, além dos galhos da copa do que parece ser uma árvore muito alta (seria árvore?), até que ela volta a ficar espessa e encobre tudo novamente.
Determinada a manter Rafe concentrado em mim, esperando que não tenha visto o que eu vi, viro-me para ele e indago:
— Por sinal, o que exatamente você está fazendo aqui? Tem certeza de que é por acaso? O que pretende fazer? Está em conluio com Misa e Marco? Ou talvez seja amigo de Lótus? Ou vai tentar me convencer de que apenas saiu para dar um passeio?
Ergo uma sobrancelha, tentando observar o pouco que consigo ver dele, a altura, os cabelos escuros e ondulados, mas todo o restante é branco. Quando ele não responde, quando se movimenta como se quisesse pular em mim, alcanço a lanterna e ilumino na direção de seu rosto. O feixe de luz corta a névoa e me mostra tudo O que preciso ver — o que não é muita coisa.
Como todos os outros imortais perigosos que conheci no ano passado, Rafe se mantém incrivelmente calmo sob pressão. Seu rosto não dá sinais nem de mesmo de estar surpreso pelo feixe de luz afiado que brilha sobre ele. Para alguém que acabou de ser pego posicionando-se melhor para me atacar, ele não parece sentir um pingo de culpa. Parece apenas determinado.
Mas há mais um fato.
Algo que realmente se destaca, embora eu não deixe transparecer. Ele parece mais velho.
Bem mais velho. Na última vez que o vi, ele era apenas mais um espécime imortal superlindo e perfeito.
Mas agora, embora continue bonito, definitivamente há alguns sinais de envelhecimento e exaustão: os anos se aproximando na forma de cabelos grisalhos e rugas ao redor dos olhos. Até os dentes parecem um pouco amarelados, o oposto do que passei a chamar de branco imortal, claro e brilhante.
De repente, sei muito bem por que ele está aqui.
— Vamos parar de conversa fiada, está bem? — diz ele, percorrendo em apenas alguns segundos o pequeno espaço que nos separa. — Nenhum de nós está aqui a passeio. Você está na jornada de Lótus em busca da Árvore da Vida. Espera colocar as mãos no fruto que ela produz a cada mil anos. — Ele me encara, a voz combinando perfeitamente com seu olhar furioso. — Um fruto belo e perfeito que parece cruzamento de romã com pêssego. Um fruto que proporciona a imortalidade a quem tiver a sorte de colhê-lo e experimentá-la. E acontece que o milênio está chegando. É hora da colheita. E, embora eu tenha certeza de que você se considera digna de uma mordida, odeio lhe dizer, Ever, mas é assim que vai ser: você vai me guiar até a árvore e eu ficarei com o prêmio.
Continuo a analisá-lo, passando a lanterna por seu rosto, pensando se devo informá-lo de que o fruto não é bem o que dizem. Que a história por trás de seus poderes não deve ser interpretada de forma literal. O fruto da árvore proporciona sabedoria e iluminação àqueles que o procuram — fornecendo a verdade suprema, o conhecimento de que são a sabedoria a respeito de serem realmente imortais. Para aqueles que conseguiram a imortalidade física, bem, o efeito é reverso: transforma o corpo e a alma de volta no que deveriam ser.
Não chega nem perto de ser o tipo de imortalidade que ele procura — embora com certeza, seja o tipo de que precisa.
Mas, em vez disso, apenas pergunto:
— E por que eu concordaria com isso?
— Porque agora que Roman se foi, graças a você, devo acrescentar... — Ele faz uma pausa longa o suficiente para que as palavras me atinjam. — ...a árvore é minha última esperança. Haven tomou o que restava do suprimento de elixir dele. E, uma vez que ele presumia que viveria para sempre, nunca se preocupou em compartilhar a receita. Sem contar o fato de que gostava de ter controle sobre nós. Quase tanto quanto gostava da festa que organizava a cada século e meio, sempre no solstício de verão, na qual reunia todos nós onde quer que ele estivesse vivendo na época. Trocávamos histórias, passávamos um bom tempo juntos e brindávamos uns aos outros. Depois nos despedíamos e seguíamos com nossa vida. Era como uma reunião de amigos de colégio, mas melhor, se puder imaginar. Sem salão de baile de segunda categoria, sem necessidade de impressionar os outros com cirurgias plásticas baratas e empregos pomposos que, na verdade, nada significam ...
Eu nada digo. E com certeza não tento imaginar a cena. Só fico ali parada e deixo que ele continue:
— O mais engraçado é que, embora seu namorado Damen nunca tenha aparecido, provavelmente por nunca ter sido convidado, ele sempre foi o assunto mais comum nas conversas. — Rafe confirma com a cabeça, pensativo, como se assistisse a uma cena em sua mente. — Durante anos, ele foi como uma lenda para mim. Você precisava ter ouvido as histórias que os órfãos contavam: o primeiro dos nossos, aquele que transformou outros seis e depois desapareceu para que nunca mais o vissem ou ouvissem falar dele, pelo menos não de propósito. Sabia que ele nunca tentou encontrá-los para lhes dar o elixir novamente? Ele os abandonou, Ever. Sabia disso? Deixou-os envelhecer e definhar enquanto permanecia sempre jovem. — Rafe balança a cabeça e franze a testa de modo que um novo conjunto de rugas aparece em seu rosto. — Sinto muito, mas, se está parecendo que não gosto dele, bem, é porque não gosto mesmo. Ainda assim, isso nada tem a ver com o motivo pelo qual não permitirei que você chegue até a árvore. Não é nada pessoal, e espero que entenda quando digo que o motivo de não poder colocar as mãos naquele fruto é o fato de que ele está reservado para mim.
Respiro fundo e diminuo um pouco a intensidade da lanterna, percebendo que é melhor acalmar sua mente e deixá-lo confiante. Se ainda tenho alguma esperança de recuperar vantagem, será melhor convencê-lo a baixar a guarda, em vez de colocá-lo na defensiva. Tenho consciência de que, para me livrar dele, basta um bom empurrão na beirada. Porém, por mais tentador que possa ser, não farei isso com ele... e tenho quase certeza de que ele não faria comigo também.
Ele precisa de mim. Só eu posso realizar a jornada, posso encontrar a árvore.
O que significa que ele precisa de mim para permanecer saudável, vigoroso e, o mais importante, inteiro, se tem alguma intenção de que eu lhe mostre o caminho.
Mas o que ele não percebe é que ficarei feliz em conduzi-lo, contanto que eu chegue antes. E, quando eu chegar, quando escalar aquela árvore e alcançar o fruto, pretendo compartilhá-lo. Tenho a intenção de dar a ele, bem, talvez não a vida eterna que procura, mas certamente aquela de que precisa. Aquela que reverterá os efeitos do elixir, garantindo a verdadeira imortalidade, poupando-o do que aconteceu a Lótus.
Olho para ele, erguendo os ombros casualmente, e digo:
— Não se preocupe.
Mas, se suas sobrancelhas arqueadas e a boca retorcida servem de sinal, ele ainda não está convencido.
— É sério. Não tem problema. De verdade.
Ele me observa com os olhos semicerrados, com desconfiança, praticamente cuspindo as palavras ao dizer:
— Ah, é. E eu devo acreditar nisso? De verdade? — ele zomba, balançando a cabeça. — Certo, então me diga, Ever, se não tem interesse no fruto, por que se deu ao trabalho de fazer esta maldita jornada? Hem, pode me dizer? Por que se submeteu a tudo isto?
— Sou curiosa. — Dou de ombros. — Ouvi falar da árvore e pensei em vê-la com meus próprios olhos. Nem sabia que era hora da colheita até você dizer. — Inclino a cabeça, tentando fazer cara de quem diz a verdade. — Apesar da opinião horrível que você tem a respeito de Damen, ele sempre foi muitíssimo generoso. Teria ficado feliz em compartilhar o elixir se vocês não tivessem jurado lealdade a Roman. E, de qualquer modo, por que eu ligaria para esse fruto se ele me dá todo o elixir de que preciso?
— Porque o fruto é para sempre. — Os olhos de Rafe começam a brilhar até parecerem dois fogareiros cercados de branco.
— Damen e eu somos para sempre. — Franzo a testa, sabendo, no fundo do coração, que é verdade, embora ele não esteja aqui a meu lado para provar. — E eu gosto do elixir. Gosto tanto que bebo várias vezes ao dia. Por que iria querer substituí-lo?
Rafe continua a me analisar, ponderando, considerando. Depois balança a cabeça e abre a boca para falar, quando alguém surge do meio da névoa e se adianta a ele.

3 comentários:

  1. Pelo Amor Deus! Tem que ser Damen! Por favor que seja ele!
    Ass: Bina,

    ResponderExcluir
  2. Ai que seja Damen agora...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!