2 de novembro de 2015

Vinte e nove

Quando saímos de lá, não tenho ideia de quanto tempo se passou.
Como em Summerland a luz do dia é perpétua e tudo acontece em um presente eterno, é impossível saber.
Só sei que meus lábios estão macios e inchados e minhas bochechas estão rosadas e levemente arranhadas pelos pelinhos da barba de Damen — um estado que deve desaparecer em alguns segundos.
Muito mais rapidamente que a alegria triunfante de Haven por pensar que conseguiu me matar.
Ainda assim, mesmo sabendo que preciso chegar em casa e enfrentar ambas as situações, reluto em partir, reluto em abrir mão dessa magia com tanta rapidez. E, como Damen também está relutante, materializa um cavalo branco para montarmos, deixando-o vagar à vontade enquanto desfrutamos a paisagem.
Descanso o queixo no ombro de Damen e passo os braços ao redor de sua cintura enquanto cavalgamos ao longo de riachos que se movem lentamente, de vielas de pedra vazias, de grandes campos cheios de passarinhos e flores deliciosamente perfumadas, da costa de uma linda praia de areia branca e água azul-turquesa, subimos uma trilha íngreme e sinuosa que leva a um pico montanhoso com uma vista maravilhosa e depois descemos novamente e atravessamos um deserto.
Percorremos até as ruas de nossas vidas passadas. Damen materializa réplicas de Paris, Nova Inglaterra, Londres, Amsterdã, e, sim, até mesmo o Sul anterior ao período da guerra. Ele chega a me proporcionar um vislumbre do inicio de sua vida em Florença, na Itália, mostrando a casinha onde morava, a oficina de seu pai em uma rua estreita e as bancas favoritas nas quais sua mãe sempre fazia compras.
Ele materializa imagens efêmeras de seus pais, formas sem alma que ganham e perdem foco diante de nós. Ele sabe que já os vi antes, quando espiei sua vida nos Grandes Salões do Conhecimento, mas quer que eu os veja da forma como ele vê. Está ansioso por compartilhar todos os traços de sua vida, de nossas vidas juntos, até que não haja segredos entre nós, até que tudo se una — até que toda a história de nossas vidas esteja completa.
Sinto-me mais próxima dele que nunca, completamente segura de estarmos nessa jornada juntos, para o melhor e para o pior. Então decido mostrar-lhe algo que havia escondido.
Fecho os olhos e insisto que nossa montaria nos leve para aquele lugar, o lado negro de Summerland, o lado que mantive escondido, que guardei para mim. Por alguma razão que não sei bem como explicar, estou certa de que é hora de compartilhar isso com ele.
O cavalo segue minha orientação imediatamente, mudando de curso enquanto pressiono os lábios contra a orelha de Damen e digo:
— Há algo que não lhe contei. Algo que preciso que você veja.
Ele se vira para trás e seu sorriso se transforma em uma expressão de preocupação quando vê meu olhar sério.
Apenas faço um gesto de reconhecimento com a cabeça e mando o cavalo seguir em frente.
Sei que estamos chegando perto quando seu ritmo começa a diminuir e tenho que estimulá-lo a continuar. Sei pelo modo como o ar muda de repente, o céu escurece, a névoa fica mais densa e o que antes era uma floresta próspera, cheia de plantas e flores viçosas se transforma em um pântano lamacento.
Nosso cavalo para, agita o rabo de um lado para o outro e joga a cabeça para trás em protesto, recusando-se a seguir em frente. Sabendo que é inútil força-lo, desço e faço um sinal para que Damen se junte a mim.
Respondo à pergunta que vejo em seu olhar, dizendo:
— Encontrei este lugar há um tempão, quando estava em Summerland com Jude e deu de cara com você. Estranho, não é?
Ele estreita os olhos e observa para o solo lamacento e para as árvores malnutridas. Para os galhos frágeis, acinzentados, desprovidos de folhas, de qualquer sinal de vegetação ou de vida, apesar do suprimento infinito de chuva.
— O que é isso? — ele pergunta, ainda observando.
— Não sei. — Dou de ombros, balançando a cabeça. — A última vez que estive aqui foi meio por acaso. Bem, imagino que não tenha sido realmente por acaso, já que não há acaso aqui, mas não estava procurando este lugar. Estava apenas matando tempo, esperando Jude sair dos Grandes Salões do Conhecimento. Então, só para fazer hora, só para ter algo para fazer, pedi que Summerland me mostrasse a única coisa que ainda não havia visto, a única coisa sobre a qual realmente precisava saber... E minha égua me trouxe aqui. Quando tentei ir em frente e explorar um pouco mais, ela se recusou, assim como nosso cavalo fez há pouco. Então tentei prosseguir sozinha, mas a lama estava tão mole que afundei até os joelhos e acabei desistindo. Mas agora eu pensei...
Ele me olha cheio de curiosidade.
— Bem, parece que está maior que antes. Como se... — Faço uma pausa e olho em volta. — Como se estivesse crescendo ou se expandindo, ou algo do tipo. — Balanço a cabeça. — Não sei, é difícil explicar. O que acha?
Ele respira fundo e seu olhar está obscurecido a princípio, como se estivesse tentando me proteger de alguma coisa, mas logo passa. É nossa velha forma de comunicação. Não guardamos mais segredos um do outro.
Ele passa os dedos pelo queixo e diz:
— Sinceramente? Não tenho a mínima ideia. Nunca vi nada parecido com isso antes, pelo menos não aqui. Mas preciso dizer uma coisa, Ever: isso realmente não me passa uma boa impressão.
Confirmo com a cabeça, olhando para um bando de pássaros e vendo como se mantêm cuidadosamente dentro de um perímetro, recusando-se a voar para perto das áreas mais escuras.
— Sabe, Romy e Rayne me disseram uma vez, pouco depois que nos conhecemos, que Summerland abriga todas as possibilidades, e você também já me disse isso.
Damen olha para mim.
— Então, se for verdade, talvez este seja... o lado negro. Talvez Summerland seja como o yin e o yang. Sabe? Partes iguais de luz e escuridão.
— Espero que não sejam iguais. — diz ele, com uma expressão de alarme no rosto. Então suspira e acrescenta: — Eu já frequento este lugar há um bom tempo, muito tempo. E realmente pensava que já tivesse visto de tudo, mas isto... — Ele balança a cabeça. — Isto é totalmente novo. Não tem nada a ver com Summerland que estudei e sobre a qual li. Não tem nada a ver com Summerland que vivenciei. E se não era assim antes, se esta parte for realmente nova... bem, algo me diz que não pode ser um bom sinal.
— Será que deveríamos explorá-la? Dar uma olhada e ver se descobrimos algo mais?
— Ever... — Ele estreita os olhos, nitidamente nem um pouco curioso como eu. — Não estou certo de que seja uma boa...
Mas não o deixo terminar. Estou decidida e agora é só uma questão de convencê-lo também.
— Só uma olhadinha e vamos embora — digo, vendo a hesitação em seu olhar e sabendo que estou quase conseguindo. — Mas preciso avisá-lo, essa lama é traiçoeira, então se prepare para afundar até os joelhos.
Ele respira fundo, hesita por um instante, mesmo já sabendo que está decidido. Finalmente pega em minha mão enquanto nós dois nos aventuramos lentamente pelo lamaçal, olhando rapidamente por cima do ombro e vendo nosso cavalo com as orelhas caídas, pisoteando o chão, bufando e relinchando enquanto nos lança um olhar que diz: Se acham que vou segui-los, estão loucos.
Andamos sob a chuva incessante até que nossas roupas ficam ensopadas e os cabelos grudam no rosto e no pescoço. Paramos de vez em quando para olhar um para o outro, erguendo as sobrancelhas em dúvida, mas ainda prosseguindo.
A lama sobe até nossos joelhos, e eu me lembro de algo que aconteceu na última vez que estive aqui. Olho para ele e digo:
— Feche os olhos e tente materializar algo. Qualquer coisa. Rápido. Aproveite para tentar fazer algo útil, como um guarda-chuva ou uma capa impermeável.
Ele olha para mim e posso ver em seus olhos. Apesar de não ser útil, é absolutamente adorável. Uma tulipa. Uma única tulipa vermelha. Mas ela fica bem ali em sua mente, recusando-se a se materializar diante de nós.
— Achei que pudesse ser só comigo. — Lembro-me da primeira vez, sombria e macabra, que me vi aqui. — Fiquei tão confusa que cheguei a pensar que este lugar só existisse por minha causa. Como se fosse uma manifestação física de meu estado interior... Ou... Algo assim. — Dou de ombros e me sinto estúpida por ter dito aquilo.
Estou prestes a dar outro passo quando Damen estica o braço e me impede.
Sigo seu olhar e vejo para onde ele aponta com o dedo, do outro lado do pântano lamacento e acinzentado. Quase perco o ar de surpresa quando percebo uma mulher mais velha a alguns metros de distância.
Seu cabelo está molhado, são filetes brancos que passam da cintura, sobre uma fina túnica de algodão cinza que combina perfeitamente com as calças de algodão acinzentadas que usa por dentro de galochas marrons. Seus lábios se movem sem parar, murmurando suavemente para si mesma, enquanto ela cava a lama com os dedos.
Como Damen, olha para ela em silêncio, imaginando como não a tinha visto até agora.
Continuamos ali parados, sem saber o que fazer ou mesmo o que dizer caso ela nos veja.
Mas ela permanece alheia, totalmente focada no que está fazendo. Finalmente para de cavar, pega uma pequena lata prateada e começa a regar a área já alagada.
Apenas quando se vira e fica de frente para nós é que vejo como é realmente velha. Sua pele é tão fina e translúcida que praticamente é possível ver através dela; as mãos são enrugadas e trêmulas, com ossos salientes que parecem doloridos. Mas são os olhos que contam a verdadeira história — a cor lembra jeans desbotado pelo sol, parecem úmidos, membranosos, acometidos de catarata, mas, mesmo a distância, não há como negar que estejam olhando para mim.
Seus dedos soltam a lata, que cai a seus pés. As velha não parece se importar quando a lama rapidamente engole a lata. Ergue lentamente o braço com o dedo trêmulo, aponta em minha direção e diz:
— Você.
Damen instintivamente se põe à minha frente, numa tentativa de bloquear a visão que ela tem de mim.
Mas não adianta. Seu olhar permanece firme, determinado, e ela continua a apontar, e a repetir a frase várias vezes.
— Você. É você mesmo. Estamos esperando por você há tanto tempo...
Damen me cutuca, sussurrando baixinho.
— Ever, não dê ouvidos a ela, apenas feche os olhos e visualize o portal... Agora!
Mas, mesmo tentando, não funciona. Não há uma saída rápida. Nenhuma magia ou materialização funcionam por aqui.
Ele pega em meu ombro, agarra minha mão e me diz para correr, virando as costas e espirrando lama, fazendo o melhor para me puxar junto. Seguimos tropeçando, caindo, revezando-nos em ajudar o outro a se levantar. Fazemos o possível para voltar até onde está nosso cavalo, para sair dali.
Para manter alguma distância da voz que continua a nos perseguir.
A nos provocar.
Repetindo as mesmas frases varias vezes:

Da lama se erguerá
Os vastos céus oníricos alcançará
Como você—você—você também deve fazer...

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