2 de novembro de 2015

Vinte e nove

Antes mesmo de eu bater, Damen já está de prontidão. Mas, bem, ele sempre esteve. Tanto literalmente quanto no sentido figurado. Ele esteve de prontidão nos últimos quatrocentos anos, do mesmo jeito que está agora: pés descalços, robe meio aberto, cabelo despenteado de um modo extremamente charmoso, olhando para mim com os olhos semifechados, sonolento.
— Oi — ele diz, com a voz áspera, grossa, como se tivesse acabado de acordar.
— Oi para você também. — Sorrio, passo por ele e começo a subir as escadas, pegando sua mão e puxando-o para vir junto. — Você não estava mesmo brincando quando disse que sempre é capaz de sentir quando eu estou por perto, não é?
Ele aperta meus dedos e passa a outra mão no cabelo, tentando domá-lo, arrumá-lo, mas eu apenas sorrio e digo para deixar como está. É tão raro vê-lo assim, sonolento, desarrumado, um pouco desgrenhado, e devo admitir que até gosto disso.
— E então, o que está acontecendo? - Ele me acompanha até seu quarto especial, coçando o queixo enquanto me vê admirar sua coleção de objetos muito antigos.
— Bem, para começar, estou melhor. — Dou as costas para uma versão dele muito sério, pintada por Picasso, preferindo olhar para a versão real, muito mais bonita e sexy. Olho em seus olhos e digo: — Hum, posso não estar cem por cento ainda, mas definitivamente estou na direção certa. Se seguir o programa direitinho, não deve demorar.
— Programa? — Ele se apoia no canapé antigo de veludo e olha para mim, analisando-me tão cuidadosamente que acabo passando as mãos no vestido rápida e timidamente, pensando que deveria pelo menos ter reservado um tempo para materializar algo menos amarrotado, algo novo e gracioso, antes de vir correndo, como eu fiz.
Mas fiquei tão empolgada com minha conversa com Ava e com a série de meditações para cura e purificação a que ela me submeteu, que não podia esperar. Não podia esperar para contar a ele, para estar com ele novamente.
— Ava me arranjou um tipo de... Purificação rápida. — Sorrio. — Só que do tipo mental, não aquela coisa de chá verde e ramos. Ela disse que me deixaria... Bem... — Dou de ombros. — Melhor, inteira novamente, renovada e aperfeiçoada.
— Mas... eu pensei que você estivesse melhor ontem. Ou pelo menos foi o que me disse em Summerland. — Ele inclina a cabeça.
Faço um gesto positivo, determinada a focar na viagem que fiz com ele, e não naquela em que encontrei Jude, após a cena horrível com Roman.
— É, mas... agora eu me sinto ainda melhor... mais forte... como a antiga Ever. — Olho para ele, ciente de que preciso admitir que a próxima etapa faz parte do ritual de purificação: confessar, reparar. Não é muito diferente do típico programa dos doze passos, mas eu também não sou muito diferente de outro qualquer viciado lutando contra uma terrível dependência.
— Ava disse que eu sou viciada em negatividade. — Engulo em seco e olho para ele, forçando-me a não desviar o olhar. — Não era apenas a magia de Roman. Segundo ela, eu estava viciada em pensar em meus medos, em aspectos ruins da minha vida, como... Você sabe, como minhas decisões erradas e o fato de não podermos ficar juntos de verdade e, bem, coisas desse tipo. E que, ao fazer isso, ao me concentrar em tudo isso, na verdade acabava atraindo... Hum, todo tipo de obscuridade e tristeza e... Bem... Roman, e como resultado, excluí as pessoas que mais amo. Como você, por exemplo.
Engulo em seco e me aproximo dele. Parte de meu cérebro grita: Conte a ele! Conte a ele o que realmente a levou a chegar a essa conclusão. O que aconteceu com Roman... Como você ficou sombria e distorcida!
Enquanto a outra parte, a que optei por escutar, diz: Você já falou demais... é hora de mudar de assunto! A última coisa que ele gostaria de saber são os detalhes repugnantes.
Ele vem em minha direção, pega minhas mãos e me puxa para mais perto respondendo à pergunta em meus olhos ao dizer:
— Eu perdôo você, Ever. Sempre vou perdoar. Sei que admitir todas essas coisas não foi fácil, mas eu achei bom ter feito isso
Engulo em seco, sabendo que agora é minha chance, minha última chance que é melhor que ele ouça de minha boca do que saiba por intermédio. Mas quando estou prestes a revelar, ele passa as mãos por minhas costas e o pensamento se esvai, e só consigo me concentrar em seu toque, no calor do seu hálito em meu rosto, na quase sensação de seus lábios em minha orelha, o formigamento quente que percorre meu corpo, da cabeça até os dedos os pés. Seus lábios encontram os meus, apertando, pressionando, enquanto o campo constante permanece entre nós. Mas cansei de ficar me ressentindo por isso, cansei de não dar atenção. Estou determinada a aproveitar as coisas jeito como elas são.
— Quer namorar lá em Summerland? — ele sussurra, brincando apenas em parte. — Você pode ser a musa e eu posso ser o artista e...
— E você pode me beijar tanto que nunca vai terminar de pintar aquele quadro? — Eu me afasto e rio, mas ele apenas me puxa de volta para perto.
— Mas... eu já pintei você. — Ele sorri. — Minha única pintura que importa de verdade. — Depois, vendo meu olhar curioso, ele acrescenta: — Lembra? Aquela que está em algum lugar do Getty Center neste exato momento.
— Ah, verdade. — Eu rio, lembrando-me daquela noite mágica, quando ele pintou uma versão de mim tão bela, tão angelical que tive certeza de que não merecia. Mas cansei de pensar assim. Se o que Ava diz está certo, se gostar atrai gostar, e a máxima — Diz-me com quem andas que te direi quem és —se aplica, então é melhor eu andar com Damen, não com Roman, e é melhor começar agora. - Provavelmente está em algum porão sem janelas, bem-escondido, onde centenas de historiadores da arte estão reunidos apenas para estudá-lo, tentando determinar quem o pintou e de onde pode ter vindo.
— Você acha? — Ele olha para o nada, obviamente gostando da ideia.
— E então — murmuro, pressionando meus lábios em seu queixo, enquanto meus dedos brincam com a gola de seda de seu robe — quando vamos comemorar o seu aniversário? E como vou conseguir superar o presente que você me deu?
Ele vira a cabeça e suspira, o tipo de suspiro que vem de um lugar lá no fundo, não física, mas emocionalmente. É um suspiro cheio de tristeza e arrependimento. É o som da melancolia.
— Ever, não precisa se preocupar com meu aniversário. Eu não comemoro desde...
Desde os dez anos. É claro! Aquele dia horrível que começou tão bem e terminou com Damen sendo forçado a ver seus pais serem assassinados. Como eu poderia esquecer?
— Damen, eu...
Começo a me desculpar, mas ele faz um gesto com a mão de que é desnecessário, vira de costas e vai na direção de seu retrato sobre o cavalo branco com a crina grossa pintado por Velásquez. Passa os dedos no canto da enorme moldura dourada, como se precisasse ser ajustada, mesmo sendo óbvio que não.
— Não precisa se desculpar — ele diz, ainda sem querer olhar para mim.
— É sério. Acho que contar os anos não parece tão importante depois de viver tanto.
— Será que vai ser assim para mim também? — pergunto, com dificuldade em não ligar para um aniversário ou, até pior, esquecer qual é o dia.
— Não vou deixar que seja assim para você. — Ele se vira e seu rosto se ilumina ao olhar para mim. — Cada dia será uma celebração... a partir de agora. Eu prometo.
Mas mesmo que esteja sendo sincero, mesmo que tenha a intenção de fazer exatamente aquilo, ainda olho para ele e balanço a cabeça. Porque a verdade é que, por mais que eu esteja comprometida em limpar minhas energias e me concentrar apenas nas coisas boas e positivas, a vida ainda é a vida. Ainda é dura, complicada e um tanto confusa: são lições a serem aprendidas, erros a serem cometidos, triunfos e decepções, e nem todo dia foi feito para ser uma festa. E acho que finalmente percebi, finalmente aceitei que tudo bem em ser assim. Pelo que vi, até Summerland tem seu lado negro, sua própria versão do eu-sombra, um pequeno canto escuro no meio de toda a luz... ou, pelo menos para mim, foi o que pareceu.
Olho para ele, sabendo que preciso contar, perguntando-me por que não mencionei ainda, quando meu telefone toca. Olhamos um para o outro e gritamos:
— Adivinha!
É um jogo que fazemos para ver quem tem os poderes paranormais mais fortes e rápidos, e só temos um segundo para responder.
— Sabine! — digo, presumindo que ela tenha acordado, encontrado minha cama vazia e agora esteja calmamente tentando descobrir se fui sequestrada ou se saí por vontade própria.
Menos de uma fração de segundo depois, Damen diz:
— Miles. — Mas sua voz não está nem um pouco descontraída, e seu olhar fica tenso e preocupado.
Pego o telefone na bolsa e, é claro, aparece a foto que tirei de Miles usando a roupa de drag queen de Tracy Turnblad, fazendo pose e sorrindo para mim.
— Oi, Miles — digo, ouvindo uma série de zumbidos, zunidos e estática a trilha sonora normal das ligações transatlânticas.
— Acordei você? — ele pergunta com a voz baixa, distante. — Se acordei, bem, fique feliz por você não ser eu. Meu relógio biológico ficou confuso por dias. Dormi quando deveria estar comendo, comi quando deveria estar... Bem, esqueça isso, já que estou na Itália e a comida é incrível, praticamente como o tempo todo. É sério. Não sei como as pessoas aqui fazem isso e continuam tão lindas. Não é justo. Alguns dias de dolce vita e já estou gordo e inchado... mas, mesmo assim, estou amando. Estou falando super seério. Tudo aqui é incrível! Bem, e que horas são aí?
Olho em volta e não encontro um relógio, então apenas dou de ombros e digo:
— Cedo. E aí?
— Não tenho ideia, mas deve ser de tarde. Fui a uma discoteca incrível ontem à noite ... Sabia que não é preciso ter vinte e um anos para entrar em casas noturnas ou beber aqui? Quer dizer, Ever, isso é que é vida. Esses italianos realmente sabem viver! Bem, vou guardar tudo isso para depois... Para quando eu voltar... até enceno para você e tudo, prometo. Por enquanto, o custo desta ligação já está provocando uma trombose em meu pai, com certeza, então deixe eu e dizer logo que você precisa contar a Damen que eu passei naquele lugar que Roman falou e... Alô? Está me ouvindo... Está aí?
— Hum, estou, ainda estou aqui. A ligação está um pouco ruim, mas dá para escutar. — Viro as costas para Damen e me afasto alguns passos, principalmente porque não quero que ele testemunhe a horrível cara de terror que estou fazendo.
— Certo, bom, passei naquele lugar do qual Roman ficou falando. Na verdade, acabei de sair de lá... e, bem, preciso dizer, Ever, tem umas coisas muito estranhas lá. Muito estranhas. Tipo... Alguém vai ter que me dar muitas explicações quando eu voltar.
— Estranhas... Como? — pergunto, sentindo a presença de Damen bem atrás de mim, sua energia mudando de relaxada para extremamente alerta.
— Apenas... Estranhas. Vou dizer apenas isso, mas... Droga... Está me ouvindo? Está falhando de novo. Ouça, apenas... ugh... Bom, eu mandei algumas fotos por e-mail, então, haja o que houver, não apague sem olhar. Certo? Ever? Ever! Maldito... tefefo...
Engulo em seco e desligo, sentindo a mão de Damen em meu braço, enquanto ele pergunta:
— O que ele queria?
— Ele me mandou umas fotos — digo com a voz grave, olhando diretamente em seus olhos. — Algo que ele realmente quer que a gente veja.
Damen faz um gesto positivo com a cabeça, com uma expressão de aceitação determinada, como se o momento pelo qual esperava tivesse chegado, e ele agora se preparasse para a queda, para ver como reajo, para ver quanto dano foi causado.
Clico na home page, depois no e-mail, e observo a rodinha da conexão girar e girar, até que a mensagem de Miles aparece. E assim que abre, perco o fôlego... meus joelhos vacilam no segundo em que vejo.
A foto.
Ou melhor, a foto da pintura. A fotografia ainda não havia sido inventada naquela época, não seria inventada por várias centenas de anos. Mas, ainda assim, lá estava, exposta diante de mim, e sem dúvida era ele. Eram eles. Posando juntos.
— É muito ruim? — ele pergunta, com o corpo totalmente paralisado, olhando para mim. — Tão ruim quanto eu esperava?
Olho para ele, mas apenas por um segundo antes de voltar a olhar para a tela do celular, sem querer desviar os olhos.
— Depende do que você estava esperando — murmuro, lembrando-me de como me senti naquele dia em Summerland, quando espionei seu passado. Como fiquei doente e completamente louca de ciúmes quando chegou a parte em que ele se casava com Drina. Mas isso... isso nem se compara. Na verdade, nem chega perto. Ah, claro, Drina é estonteante... Drina sempre foi estonteante, mesmo em seus piores e mais cruéis momentos, ela era de tirar o fôlego. Pelo menos por fora. E tenho certeza de que, não importa a década em que estivesse, fosse a época dos saiotes ou das saias rodadas com um poodle estampado, ela também era estonteante. Mas acontece que Drina se foi. Tanto que pensar nela ou vê-la não me incomoda mais. Na verdade, não me incomoda nem um pouco.
O que me incomoda é Damen. O modo como está parado, como olha para o artista e como ... como é arrogante e vaidoso e, bem, cheio de si. E mesmo tendo um quê de fora da lei que me agrada, não é divertido, como estou acostumada. É muito menos vamos-matar-aula-e-apostar-nos-cavalos e muito mais esse-é-meu- mundo-e-você- tem- sorte-de-eu- deixá-lo-entrar.
Então, olho mais para os dois: Drina sentada discretamente em uma cadeira, com as costas eretas, as mãos dobradas harmoniosamente sobre o colo, o vestido e os cabelos adornados com tantas joias e laços e coisas brilhantes que ficariam ridículos em qualquer outra pessoa... Enquanto Damen está parado atrás dela, com uma das mãos na cadeira, a outra ao lado do corpo, o queixo inclinado a sobrancelha arqueada como a de uma pessoa esnobe. Bem, há algo nele, algo no visual, no olhar... Quase cruel, até mesmo brutal. Como se estivesse disposto a fazer o necessário, de qualquer jeito, para ter o que queria.
E mesmo que ele tenha feito muitas menções à sua personalidade anterior, a seu ex-modo narcisista de ser, sedento de poder... Uma coisa é ouvir, outra é ver nitidamente.
Mesmo havendo mais arquivos anexados, apenas olho por alto. Miles só está interessado no fato de Damen e Drina terem sido pintados há centenas de anos, de que em cada retrato, alguns pintados com séculos de diferença, segundo as placas, eles de alguma forma tenham permanecido jovens, bonitos e misteriosamente inalterados. Ele não liga nem um pouco para a conduta de Damen, para o modo como se coloca, para seu olhar... Não, essa surpresa é minha.
Entrego o telefone a Damen, vendo como seus dedos tremem ligeiramente quando o pega, e ele olha rapidamente as imagens antes de me devolver. Sua voz é grave e firme quando diz:
— Já passei por isso uma vez e realmente não preciso ver de novo. Concordo com a cabeça e guardo o telefone na bolsa, demorando um pouco demais, obviamente evitando seu olhar.
— Então, agora já viu. O monstro que eu costumava ser — ele diz, e suas palavras atingem diretamente meu âmago.
Engulo em seco e deixo a bolsa cair no tapete de lã grossa, uma antiguidade de valor inestimável que deverias estar em um museu, não sendo usada diariamente. Sua estranha escolha de palavras me faz lembrar a conversa que tive com Ava: todos têm um monstro, um lado negro, sem exceção. E mesmo que a maioria das pessoas passe a vida toda determinada a enterrá-lo, forçá-lo a ficar escondido lá no fundo, acho que se tivessem vivido tantos anos quanto Damen seriam obrigadas a confrontá-lo de tempos em tempos.
— Sinto muito — digo, percebendo de repente que sinto mesmo. Não importa muito onde estivemos. É onde estamos agora que conta mais. Eu... Eu acho que não estava esperando por isso e fiquei um pouco surpresa. Eu nunca vi você desse jeito.
— Nem em Summerland? — Ele olha para mim. — Nem nos Grandes Salões do Conhecimento?
Faço que não com a cabeça.
— Não, eu adiantei o filme nessas partes. Não suportava ver você com Drina.
— E agora?
— Agora... — Suspiro. — Drina não me incomoda mais... só você.
Tento rir, tento deixar o clima mais leve, mas não funciona muito.
— Bem, se não estiver enganado, acho que isso é o que se chamaria de progresso. — Ele sorri, puxando-me para seus braços e apertando-me contra o peito.
— E Miles? — Olho para seu rosto, para a inclinação de sua sobrancelha, o ângulo de seu queixo, passando os dedos nos pelos eriçados que surgem ali. — O que vamos dizer a ele? Como vamos explicar isso? — Minha hesitação, minha rejeição ao antigo Damen já desapareceu para sempre. Nosso passado pode fazer parte de quem somos, mas não define quem vamos nos tornar.
— Vamos contar a verdade — ele diz com a voz firme, como se realmente estivesse pensando em fazer isso. — Quando chegar a hora, vamos contar a verdade. E do jeito como as coisas vão, não vai demorar muito.

Um comentário:

  1. Daqui a Pouco o Mundo vai saber qe eles são imortais ashuashuas !!

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