3 de novembro de 2015

Vinte e dois

Acomodo-me no banco, ajeitando as almofadas de veludo em nossas costas enquanto Damen se senta a meu lado. O barco é comprido, pintado de vermelho brilhante, com espirais douradas nas laterais, estreitando-se na proa e na popa curvadas para o alto. Lembra a gôndola que Jude e eu materializamos na versão Summerland de Veneza. Mas, sem remo, sem motor, sem qualquer equipamento que nos permita conduzi-lo, estamos à mercê do rio. Sem escolha a não ser recostar e torcer pelo melhor.
O barco se afasta da margem, deslocando-se pela água apenas segundos após embarcarmos, seguindo a corrente sem dar sinal algum do que pode acontecer. Damen me envolve num abraço protetor enquanto observamos a paisagem, o modo como o rio se alarga rapidamente, até que logo ficamos cercados apenas por água escura. A margem em que estávamos foi reduzida a um pequeno ponto dourado em um horizonte distante.
Eu me recosto em Damen, desejando poder fazer alguma coisa, dizer algo para apagar a preocupação que observo em seu rosto, amenizar o arrependimento que aflige seu coração. Vejo quando seus olhos se arregalam, ele se senta ereto, totalmente alerta, enquanto analisa os arredores e diz:
— É o Rio do Esquecimento.
Semicerro os olhos, com uma vaga lembrança de ter ouvido falar deste lugar antes. Ele disse algo sobre a alma viajar pelo Rio do Esquecimento antes de renascer na vida seguinte. E que o propósito dessa jornada era não se lembrar do que veio antes — pois não devemos nos lembrar do que já vivemos, na medida em que cada encarnação oferece um novo caminho de autodescoberta, uma chance de consertar os erros do passado, equilibrar o carma acumulado, encontrar novas soluções para antigos problemas.
A vida não é uma prova com consulta.
Lembro-me do que Lótus disse ainda há pouco — que a estupidez humana, nossa tendência a cometer os mesmos erros várias vezes, é, em parte, culpa do rio — e tomo isso como prova de que Damen está certo. É exatamente o que ele pensa. Mas nenhum de nós sabe o que vai acontecer.
— Será que passaremos por todas elas? — pergunta Damen. Sua voz deixa transparecer uma profunda relutância. Ele não quer voltar aos dolorosos dias em que viveu em Florença, na Itália.
Mas, antes que se prenda muito a esse pensamento, olho para ele e digo:
— Não. É um teste. Temos que fazer o possível para não esquecer tudo o que aprendemos. Lótus veio até mim pouco antes que você chegasse. Ela disse que o conhecimento é revelado quando necessário, o que significa que devemos nos agarrar ao que acabamos de ver. Não podemos esquecer nada. Tenho certeza de que precisaremos dessas informações depois.
— É muita coisa a que se agarrar. — Ele franze o cenho. — O rio é traiçoeiro. E, tirando o fato de que estraguei as últimas centenas de anos, de que devo muito a Ava e às gêmeas por ter tirado a vida delas, em que sugere que eu me concentre? Há uma boa chance de que, ao sairmos deste barco e voltarmos à vida normal, não nos lembremos de nada por que acabamos de passar.
Demoro um instante para formular minha resposta, em parte porque ele pode não gostar e em parte porque ainda estou surpresa por ele estar recorrendo a mim. Respiro fundo, dou uma rápida olhada ao redor, volto-me para ele e respondo:
— Precisa se lembrar de que a alma é eterna. Que o amor nunca morre. E que o fato de você não ter percebido isso, seu apego ao mundo físico, nos trouxe até aqui, nos trouxe a este ponto.
Pronto, falei. A culpa é dele. Ainda assim, não há tom de acusação em minha voz. Ele não é o primeiro a cometer aquele erro. Como Lótus disse, é a estupidez humana. Damen não passa de um dos poucos que conseguiu driblar a morte física. Pelo menos por um tempo.
— Depois, quando tivermos passado por tudo isso... Bem, onde quer que terminemos, precisaremos usar esse conhecimento para encontrar um modo de reverter o que fizemos... Os erros que cometemos — eu completo. As palavras saem tão rápida e facilmente que é como se viessem de outro lugar, mas no fundo eu sei que são verdadeiras. — Essa é minha jornada — digo, confirmando com a cabeça, de repente certa de tudo. — Essa é a verdade que devo desvendar. Como? — Olho para ele, tentando responder à pergunta que marca seu rosto. — Não sei bem, mas não há dúvidas de que estou destinada a isso.
Damen olha para mim com a expressão dura, confusa, mas mantém a promessa de seguir minha orientação.
Embora eu procure um argumento melhor, uma forma mais eficiente de convencê-lo, que acabe com todas as dúvidas que ainda restam, não há tempo a perder. Não há tempo para garantir a de que seja verdade o que lá no fundo eu sei.
Não com a correnteza ficando cada vez mais rápida.
Não com o céu escurecendo de tal forma que apaga o horizonte no mesmo instante.
A linha entre o céu e a terra, a água e o ar, em cima e embaixo, de repente fica indistinta. Somos pegos por um turbilhão vertiginoso de ondas perigosas, uma maior que a outra, fazendo com que o rio se expanda e fique revolto, até que não haja nada a fazer além de nos segurarmos, evitando cair do barco, emborcar dentro do rio.
O céu é tomado por trovões tão altos que procuramos abrigo no único lugar que nos resta — um no outro, ambos tremendo sob uma tempestade, uma chuva implacável, enquanto os raios caem ao redor.
— Concentre-se! — grito, com os olhos quase fechados devido ao aguaceiro, lábios ao pé de seu ouvido. — Isto faz parte do teste. Apegue-se ao passado, recuse-se a esquecer, mesmo que tudo fique assustador!
Não sei bem de onde veio isso, mas novamente sinto que é a verdade. Conheço o poder do medo, já fui dominada por ele antes.
É o oposto da fé.
O oposto de confiar no universo.
O oposto de crer em um ser superior.
O medo deixa as pessoas suadas e trêmulas, inseguras a ponto de questionarem tudo o que sabem que é verdade.
O medo faz com que as pessoas deem as costas para o que é mais importante.
O resultado são as decisões precipitadas, os passos em falso e, depois, o peso impiedoso do arrependimento. E se Damen e eu vamos passar por isso, seguir adiante em nosso caminho, precisamos vencer este rio e superar a tempestade, fazendo o que for preciso para bloquear o medo.
As águas continuam agitadas e revoltas e o barco chacoalha e se inclina terrivelmente. Damen e eu ficamos abraçados, apegados a nossas lembranças, agarrados um ao outro, quando um raio cai na proa, partindo-a ao meio e fazendo a água jorrar para dentro do barco. O peso faz com que ele afunde, enquanto o rio sobe para nos engolir.
Nós dois lutamos pela vida, apoiando-nos um no outro, mas não adianta.
Nossa pele está molhada demais, escorregadia demais para conseguirmos nos segurar.
E, embora eu me esforce para não perder Damen de vista, para distinguir a direção de onde ele grita meu nome, está muito escuro, muito confuso, não tenho noção de tempo ou de localização, de alto e baixo. Quando vejo, estou afundando.
Acabou.
É tarde demais.
O rio me levou.

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