2 de novembro de 2015

Vinte e dois

É difícil me acostumar a essa nova rotina do intervalo de almoço: Haven sendo bajulada na mesa dos populares, enquanto Miles e eu nos sentamos à nossa mesa de sempre. Ambos fingimos não olhar para outra mesa, onde Damen está sentado ao lado de Stacia, mesmo encarando os dois abertamente.
Por mais que seja difícil ver a cena, Damen e eu chegamos a um novo acordo: aceitamos nossas respectivas responsabilidades no presente, enquanto eu dou um tempo para tentar aceitar os pecados de seu passado. Lá no fundo, sei que vale a pena. Vale o sacrifício de vê-lo daquele jeito — o modo como me olha, o modo como a vigia. Vale a pena porque, enquanto eu estiver aqui e Damen estiver lá, Haven estará contida.
Fora de controle, mas contida.
E ninguém se machucará.
Giro a tampa de meu elixir e tomo um bom gole. Observo o ambiente e vejo Honor esforçando-se em dobro para manter seu lugar ao lado de Haven, esforçando-se mais do que jamais teve que fazer Stacia, enquanto Craig e alguns de seus amigos parecem claramente aliviados por terem escapado ilesos, relegados a uma mesa menos importante, mas, ainda assim, poderia ser pior. Não fosse por sua ligação com Honor e o fato de ela ainda gostar dele, não duvido de que estaria na mesma situação que Stacia.
— Parece que aterrissamos em um mundo bizarro de cabeça para baixo — diz Miles ao beber seu iogurte de baunilha, percorrendo a área com olhos tão ansiosos quanto os meus. — Tudo está revirado, tudo o que eu achava que soubesse sobre essa escola, as coisas boas, ruins e completamente detestáveis, agora está totalmente diferente, e tudo por causa dela. — Ele aponta com a cabeça para nossa ex-amiga, olhando-a por um instante antes de se virar para mim. — Foi assim para você quando Roman assumiu o controle?
Arregalo os olhos, pega completamente desprevenida. Nunca falamos sobre aquela época, quando Roman hipnotizou todo mundo e os virou contra mim. Aqueles foram alguns dos dois mais sombrios de toda a minha vida. Pelo menos desta vida.
Ainda assim, confirmo com a cabeça e digo:
— É, foi bem parecido. — Meu olhar desvia na direção de Damen, lembrando como ele também se sentava ao lado de Stacia. — Muito parecido, na verdade.
Fico brincando com a tampa do elixir, abrindo e fechando a garrafa, enquanto minha mente recorda o passado, escolhendo as piores cenas e passando-as repetidas vezes, até me lembrar de que consegui superar tudo daquela vez, do mesmo modo que superarei agora. Como Ava sempre diz: “Isso também vai passar”.
Mas ela rapidamente me faz lembrar que a frase funciona em todos os casos. É verdadeira para as coisas boas, assim como também para as ruins.
Tudo passa. Tudo tem seu ciclo de nascimento e morte. A menos, é claro, que seja como Damen e eu. Nesse caso, fica-se preso á mesma dança eterna.
Livro-me do pensamento e termino de beber meu elixir, jogo a garrafa vazia de volta na bolsa, que penduro no ombro enquanto Miles para de remexer o iogurte e ergue a cabeça:
— Vai a algum lugar?
Faço que sim, e só de olhar para seu rosto vejo que ele não aprova.
— Ever... — ele começa a falar, mas eu logo o interrompo. Sei o que está pensando. Que estou indo embora porque não consigo ver Damen com Stacia, porque desconhece o acordo que ele e eu fizemos.
— Só pensei em uma coisa, algo que preciso fazer enquanto ainda posso — murmuro, sabendo que ainda não o convenci enquanto observo o desfile de Haven ao redor da mesa dos populares, rindo e flertando, claramente apreciando seu novo papel de abelha-rainha.
— Não quer ser um pouco mais enigmática? — Miles estreita os olhos.
Mas dou de ombros, ansiosa para ir, desejando que Haven não me veja sair e, Deus me livre, decida a me seguir.
— Bem, posso pelo menos ir junto? — Ele olha para mim com a colher suspensa no ar.
Nego com a cabeça, ainda de olho em Haven, e respondo:
— Não. — Nem paro para pensar, o que não soa muito bem.
— E por que não? — ele eleva a voz e franze a testa.
— Porque você tem aula. — O som de minha voz me faz recuar. Pareço mais uma professora que uma amiga.
— E você não?
Suspiro, balançando a cabeça enquanto olho para ele. É diferente. Eu sou diferente. E agora que ele sabe, eu não deveria ter que explicar.
Ainda assim, ele não pretende desistir, apenas continua a olhar para mim com aqueles grandes olhos castanhos, sustentando o olhar por tanto tempo que finalmente cedo e digo:
— Ouça, sei que você pensa que quer ir junto, mas acredite: você não gostaria. Não é que eu não queira levar você ou que esteja tentando dispensá-lo ou algo desse tipo. Apenas, bem, o que pretendo fazer não é exatamente considerado legal. Então, é sério, só estou tentando protegê-lo.
Ele olha para mim, colocando uma colherada de iogurte na boca, nem um pouco influenciado pelo que acabei de dizer. Cobre o rosto com a mão, me olha e diz:
— Está tentando me proteger de quem... Você?
Suspiro, tentando manter a expressão séria, mas é difícil quando ele me olha desse jeito. Sua sobrancelha erguida indica que está desconfiado, o cabo da colher pendendo de sua boca, balançando para cima e para baixo.
— Protegê-lo da lei — digo finalmente, contraindo os músculos ao ouvir como aquilo soou dramático, apesar de ser a verdade.
— Ceeerto... — ele pronuncia lentamente a palavra, e seus olhos se estreitam como se ele considerasse seriamente o que eu disse. — E de que tipo de ilegalidade você está falando? — ele me encara, sem intenção alguma de deixar o assunto de lado ate ter descoberto todos os detalhes — Roubo, suborno, outro tipo de ato ilegal?
Suspiro mais uma vez. Um suspiro mais longo e mais algo, mas ainda assim dou de ombros e respondo:
— Tudo bem, já que quer saber, tenho uma pequena e inofensiva invasão de domicilio a fazer certo?
— Invasão de domicílio? — Ele tenta não ficar boquiaberto, mas não consegue. — Mas do tipo inofensiva?
Confirmo com a cabeça, levanto os ombros e faço questão de revirar os olhos. O tempo está passando, o intervalo do almoço está terminando, o sinal vai tocar, e, se não fosse por ele, eu já teria ido embora.
Vejo-o lamber a colher até ficar limpa, jogá-la no lixo, levantar-se e dizer:
— Bem, então pode contar comigo. — Começo a protestar, mas ele não se abala, apenas mostra a palma da mão e continua: — E nem tente me impedir. Vou junto, goste ou não disso.
Hesito, odiando a ideia de envolve-lo nessa situação, mas também penso que seria bom ter alguma companhia para variar. Estou cansada de agir sozinha.
Estreito os olhos, analisando-o como se ainda estivesse considerando minhas opções, mesmo já tendo decidido que ele pode ir junto. Olho rapidamente para Haven, garantindo que ainda está ocupada, ainda entretida com seu pequeno mundo no Planeta Haven, e digo:
— Está bem, mas aja normalmente, certo? Aja como se estivesse juntando suas coisas porque sabe que o sinal tocará em exatos dois segundo e meio e quer chegar a aula a tempo então...
O sinal toca, interrompendo minha fala e surpreendendo Miles, que pergunta:
— Como você...?
Mas apenas balanço a cabeça e faço um sinal para que me siga, alertando-o para não olhar para a mesa de Haven, ao mesmo tempo que olho de relance para Damen.
— E lembre-se: o que quer que aconteça, foi você quem pediu — acrescento enquanto seguimos na direção do portão.
Sei que o olhar de Damen é de preocupação e questionamento. Ele não faz ideia de que o que estou prestes a tentar, bem, se der certo, pode mudar nossa vida para sempre.
Para melhor.
E se não der certo, se não conseguir o que procuro, bem, talvez isso mesmo já me dê a resposta que busco.
— É disso que estou falando. — Miles sorri, seu rosto quase brilhando de empolgação. — É assim que deve ser o ultimo ano da escola. Você sabe... Matar aulas, se divertir um pouco, se meter em algumas pequenas ilegalidades...
Olho para ele, certificando-me de que ele está sentado, e piso fundo no acelerador. Não há motivo para fingir, ele sabe exatamente o que eu sou e do que sou capaz. Após alguns momentos de silêncio ansioso enquanto ele se agarra ao banco, chegamos.
Ou quase... uma vez que decidi estacionar um pouco distante, assim como fiz da ultima vez em que estive aqui, imaginando que seria mais seguro, ou mais inteligente, completar a pé o resto do caminho. Não há necessidade de parar na entrada e anunciar minha visita.
— É sua última chance de mudar de ideia. — Olho para meu amigo, pálido e ofegante ao lado, lutando para recobrar o equilíbrio.
— Como posso mudar de ideia? — Ele respira fundo, ainda tentando recuperar o fôlego. — Se nem ao menos sei o que viemos fazer aqui.
— A casa de Roman, que agora é a casa de Haven, é no fim da rua. E nós dois vamos entrar lá.
— Vamos invadir a casa de Haven? — Ele perde o ar, finalmente começando a entender a gravidade de tudo isso. — É sério?
— É sério. — Coloco os óculos de sol na testa. — E também estou falando sério sobre você querer mudar de ideia, já que não há nenhum bom motivo para que participe disso. Por mim, tudo bem se quiser esperar aqui. Pode ser meu vigia. Não que eu ache que preciso de um, mas de qualquer forma...
Antes que eu termine, ele já está saindo do carro, decidido.
— Ah, não, você não vai me convencer. — Balança a cabeça de um modo que faz com que seus cabelos caiam sobre os olhos. — Se um dia for escalado para o papel de gatuno, um ladrão de obras de arte ou algo assim, posso usar essa experiência. — Ele ri.
— É, só que não é bem atrás de arte que estamos. — Faço um sinal para que venha enquanto sigo pela entrada que leva até a porta. Olhando por cima do ombro, continuo: — E não parece invasão de domicílio quando se chega à porta da frente ela se abre com a força da mente.
Embora tecnicamente, já não fomos convidados, o termo ainda se aplique.
Ele para de repente, a decepção no rosto.
— Espere... é sério? É só isso? Não precisamos entrar escondidos, na ponta dos pés, pelos fundos? Não precisamos pular furtivamente uma janela ou discutir quem passa pela portinha do cachorro para abrir a porta para o outro?
Faço uma pausa, lembrando-me de quando entrei às escondidas na casa de Damen praticamente desse jeito, bem no começo, quando estava tão confusa com seu modo estranho de agir que fiquei desesperada para descobrir o que ele era... Apenas para saber mais tarde que sou exatamente como ele.
— Desculpe, Miles, mas não vai chegar nem perto de ser tão empolgante assim. É uma questão bem direta. — Fico parada diante da porta, vendo a tranca abrir em minha mente enquanto prendo a respiração e espero o clique. Mas ele não vem. — Que estranho!
Franzo a testa, tentando girar a maçaneta com as próprias mãos, e surpreendo-me quando a porta se escancara. Penso que, das duas, uma: ou Haven está se sentindo ridiculamente confiante a ponto de deixar a casa destrancada ou não somos os únicos por aqui...
Olho por cima dos ombros e peço que Miles fique quieto e não saia de trás de mim, enquanto paro na soleira da porta à espera de que meus olhos se ajustem. Examino o espaço até ter certeza de que não há ninguém e sinalizo para ele se junte a mim.
Mas, assim que ele pisa no corredor, o chão range tão alto que o som parece retumbar.
Ficamos paralisados, parados no lugar instantaneamente enquanto ouvimos o som claro de vidro se quebrando, vozes sussurrando, pés se movendo e a porta dos fundos batendo tão forte que as paredes estremecem.
Corro em direção à cozinha e chego à janela a tempo de ver Misa e Marco fugindo. Marco corre desajeitado, segurando uma mochila aberta cheia de elixir, enquanto Misa segue atrás dele com sua própria mochila vazia pendurada nos ombros. Ela se vira por tempo suficiente para me encarar, sustentando o olhar até pular a cerca atrás de Marco e ambos desaparecem pela ruela.
— Que diabos... — Exclama Miles, finalmente me alcançando e entrando no cômodo. — você realmente se moveu tão rápido quanto estou pensando?
Eu me viro e vejo os cacos de vidro espalhados pelo chão e o líquido vermelho-escuro que corre pelos ladrilhos e é absorvido pelo cimento.
— O que aconteceu? O que eu perdi? — Ele pergunta, olhando para toda aquela bagunça e para mim.
Dou de ombros. Não tenho ideia do que estava acontecendo aqui. Não imagino por que Misa e Marco recorreriam ao roubo do elixir. Por que entraram em pânico a ponto de quebrar uma garrafa. Sem mencionar por que Misa pareceu tão assustada ao me ver.
Apenas uma coisa está clara: eles não foram convidados a se servir do suprimento de elixir.
De qualquer forma, nada disso tem a ver conosco ou com o motivo de estarmos aqui. Então, quando limpo a bagunça simplesmente desejando que ela desapareça, olho para Miles e digo:
— Estamos procurando uma camisa. Uma camisa branca de linho. Com uma grande mancha verde na frente.

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