3 de novembro de 2015

Vinte e cinco

Damen me puxa para si e me abraça forte, depois me levanta no alto e gira. Meus cabelos balançam atrás de mim como uma capa dourada brilhante enquanto ele rodopia, dança e ri, olhando maravilhado quando o campo, antes árido, começa a se transformar.
Os cacos da prisão de vidro afundam no chão — que primeiro se transforma em areia, depois em um solo rico, escuro, que nutre as árvores secas imediatamente, permitindo que se ergam e cresçam, desenvolvendo uma grossa camada de folhas, ao mesmo tempo em que flores silvestres violeta e amarelas brotam a seus pés.
Ambos somos tomados pela empolgação, estamos transbordando de alegria por nosso triunfo. A voz de Damen soa como música em meus ouvidos quando diz:
— Conseguimos! Nós os libertamos, reparamos os erros, até mesmo conseguimos a receita do antídoto, e tudo graças a você! — Seus lábios encontram minha testa, minha bochecha, meu nariz e minha orelha, e ele depois se afasta e indaga: — Ever, percebe o que tudo isso significa?
Olho para ele, meu sorriso tão largo que minhas bochechas se estendem até o limite, mas ainda quero ouvi-lo dizer, quero ouvir as palavras ditas em voz alta para ambos escutarmos.
— Significa que enfim poderemos ficar juntos. — Ele para e encosta a testa na minha, a respiração rápida. — Significa que todos os nossos problemas estão resolvidos. Significa que nunca mais precisaremos visitar o pavilhão, nem mesmo como Alrik e Adelina. A menos, é claro, que a gente queira. — Ele sobe e desce as sobrancelhas e dá uma risadinha baixa. — Só precisamos voltar ao plano terreno, começar a trabalhar na mistura e... — Ele para, passa o dedo em meu rosto, depois se inclina e me beija novamente.
Retribuo seus beijos com o mesmo ardor e ansiedade, ciente do fino véu de energia entre nós que o mantém a salvo da ameaça letal que meu DNA se tornou graças a Roman e que, também graças a ele, está prestes a deixar de ser. Mal posso acreditar que os dias do que chamo de quase beijos estão contados.
Em breve, muito em breve, seremos capazes de viver como as outras pessoas. Seremos capazes de tocar um no outro aberta e livremente, sem preocupações. Como fazemos no pavilhão — só que melhor, porque será real.
Logo nos uniremos como nós mesmos — nossa versão do tempo presente —, não mais nas várias formas passadas.
Afasto-me um pouco, fecho os olhos e viro o rosto para o céu, enviando um agradecimento silencioso a Roman, onde quer que ele esteja, por nos dar esse presente maravilhoso.
E, quando estou prestes a beijar Damen de novo, sua expressão muda e ele se afasta, respondendo a meu olhar curioso com um pequeno aceno de cabeça na direção de Lótus, que está ajoelhada a certa distância.
Ela então se senta na beirada de um lago a apenas alguns metros dali, murmurando baixinho, as finas tranças grisalhas esvoaçando a seu redor, as mãos entrelaçadas e apoiadas contra o peito. A velha senhora observa uma série de botões de lótus que surgem das águas turvas e florescem na superfície. As suaves pétalas brancas e cor-de-rosa emergem, cercadas por folhas verdes recortadas e brilhantes, uma brotando após a outra, até que se torna quase impossível ver a água.
Ela permanece desse jeito por algum tempo, satisfeita em meditar diante daquela visão maravilhosa, e então se vira para nós com uma expressão que, embora não seja bem o que eu chamaria de perturbada, praticamente não combina com a sensação de conquista que Damen e eu estamos experimentando.
Os olhos de Damen se estreitam, o maxilar fica tenso, preparando-se para a má notícia que ela com certeza dará.
Nós dois nos movemos com cuidado em sua direção e estamos ambos na metade do caminho quando ela nos surpreende ao se levantar da margem lamacenta, olhar para nós e dizer:
— Parabéns.
Esperamos. Esperamos que algo aconteça. Mas, pelo menos por enquanto, aquilo parece ser tudo.
— Podem voltar ao plano terreno se assim desejarem. — Ela alterna olhar entre nós dois.
Damen aperta minha mão, sem precisar dizer mais nada. Ele está mais que pronto para partir agora mesmo, não vê motivos para perder mais um único  segundo aqui. Mas eu me mantenho firme. Cravo os pés no chão. Sinto que ainda não terminou, que Lótus quer compartilhar mais alguma informação.
— Vocês fizeram tudo certo. Está tudo florescendo. — Ela aponta para as flores, que não cessam de abrir, e para a paisagem ao redor. — Até libertaram as almas perdidas. — Ela une a palma das mãos em prece, segurando-as junto ao coração. Seu anel dourado simples brilha diante de nós. — Então estão livres para ir. Livres para voltar à sua vida imortal. Ainda assim, eu me pergunto...
Olhamos para ela, eu curiosa, Damen na defensiva, cerrando as mãos em punho.
— Eu me pergunto se vão querer voltar suas vidas depois de tudo o que aprenderam. Eu me pergunto se escolherão a imortalidade física depois de terem conhecido a verdade sobre a alma.
Damen revira os olhos, resmunga e novamente tenta me puxar. Mas eu fico bem ali, olhando para Lótus, e indago:
— Está insinuando que temos escolha?
Ela ergue sua mão velha e retorcida e afasta uma mecha de cabelo do rosto:
— Ah, sim — diz, observando-me. — Há uma escolha. Uma saída.
Torço os lábios, tentando entender o que aquilo significa, e não gosto da conclusão a que chego, não gosto nem um pouco. Digo:
— Se está se referindo à morte como uma saída... — Balanço a cabeça, em negação. Pisco algumas vezes, mal podendo acreditar que ela tenha ousado tocar nesse assunto. — Bem, pode esquecer. Isso não vai acontecer. Caso não se lembre, para pessoas como nós isso resulta em uma passagem só de ida para Shadowland. E, já que acabamos de fazer um bom trabalho colocando Shadowland em ordem, odiaríamos ver aquilo voltar a ser o que era. Sem contar que não há garantia alguma de que alguém aparecerá para nos libertar como fizemos com Roman, Drina, Haven e todos os outros.
Faço uma pausa longa o suficiente para bufar de raiva e afastar os cabelos dos olhos, mas não o bastante para que ela se intrometa.
— Também deve saber que agora temos o antídoto, ou pelo menos a receita para produzi-lo. Isso significa que ganhamos mais uma nova razão para viver, uma razão muito boa para viver. Temos um ao outro para sempre. Podemos ter a vida que sempre sonhamos. E, finalmente, bem, essa conversa sobre morte é meio irrelevante, já que não podemos mais morrer. Quando Haven me matou, eu superei meu chacra fraco. Superei minha fraqueza, tomei a decisão certa e, por esse motivo, voltei para aproveitar a vida. É impossível me matar agora.
Dou de ombros, sabendo que pode soar estranho, mas o conceito de estranho é relativo aqui.
— Sou imortal de verdade. Ficarei aqui para sempre. Não vou a lugar nenhum e gostaria muito que Damen também não fosse.
— E você? — Ela se dirige a Damen, nem um pouco abalada pelo que acabei de dizer. — Concorda com isso? Sente o mesmo que ela?
Ele franze a testa, faz cara feia, rangendo os dentes enquanto resmunga um inequívoco:
— É claro que sim! — E aperta minha mão, ansioso para ir embora. Mesmo também estando ávida por partir, a curiosidade fala mais alto, e quero ver aonde isso vai dar. Imagino se já não sei quando pergunto:
— Essa saída a que se refere é para nós ou para você? — Estreito os olhos ao lembrar o que ela disse antes, quando me implorou que a libertasse, mas nunca deixou claro do quê.
Ela está presa?
Prisioneira de Shadowland, mas sem a prisão de vidro?
Mais uma vez, a resposta vem em forma de enigma quando ela responde:
— É para você, para mim, para todos nós. Quando descobri a verdade, já estava velha e frágil demais para fazer a jornada. Mas agora você está aqui. Voltou só para isso. Posso ver em seus olhos, na luz que a cerca. Você é a escolhida. A única escolhida. O destino de muitos está em suas mãos.
— Então... basicamente está dizendo que minha jornada não está nem perto do fim? Que ainda espera que eu faça mais um zilhão de coisas? — Semicerro os olhos e tento concluir o que acho daquilo, inclinada a me opor com veemência.
Ela confirma com a cabeça, sem tirar os olhos grumosos dos meus.
— Está tão perto. É melhor continuar de onde está. No que diz respeito ao destino, cada passo leva ao seguinte.
— Ah, claro — diz Damen. O som de sua voz me surpreende, pois é ainda mais ríspido que eu esperava.
Mas Lótus não reage, não recua, não se retrai; apenas continua ali parada, observando-o com a calma de sempre.
— Claro, vamos cair nessa. — Ele faz um gesto negativo com a cabeça. — Sinto muito, Lótus, mas você terá que nos dizer um pouco mais se quiser que continuemos. Ever e eu passamos por poucas e boas e nos saímos bem, conseguimos o que queríamos, a única coisa que faltava para tornar nossa vida completa, e agora você acha que pode outro enigma e nos tirar de nossa merecida celebração de vitória para enfrentar mais problemas... problemas que você mesma criou? — Ele a encara. — Pense bem.
— É sério — acrescento, estimulada pela que Damen disse. — Por que deveríamos pensar em fazer isso? Por que não encontra outra pessoa, um dos outros imortais, talvez? Já não passamos por suficientes provações?
Mas, em vez de responder a minhas perguntas, ela inclina a cabeça na direção de Damen e questiona:
— Damen, fui mesmo eu quem criou tudo isso? Ou foi você?
Damen sustenta olhar dela, mas fecha a boca, recusando-se a falar.
Quando fica claro que não pretende conversar com ela, cutuco-o com o cotovelo e pergunta:
— Do que ela está falando? O que você está escondendo de mim?
Ele engole em seco, mostra-se embaraçado, chuta a chão, adia o máximo possível antes de respirar funda e dizer:
— Ela alega ser uma das órfãs. Diz que a salvei da peste negra há mais de seiscentos anos, quando lhe dei o elixir.
Hesita, e meus alhos praticamente saltam da órbita enquanto os observo.
Enfim encontro voz suficiente para perguntar:
— E? É verdade? — Pergunto-me por que ninguém julgou conveniente mencionar isso antes. Pergunto-me se foi isso o que ela lhe mostrou naquele dia em que se comunicaram em silêncio.
Damen dá de ombros, limpa a testa com a mão e olha em volta.
— Não. Não pode ser. Não é possível. Ela está inventando — diz, obviamente mais confuso do que deixa transparecer. Ele para um instante, tempo suficiente para organizar os pensamentos, saltar um longo suspiro e continuar: — Sinceramente? Não sei. Tenho-me martirizado desde o dia em que ela me contou, mas não consigo me lembrar. É a palavra dela contra minha memória, e não há como saber ao certo. Em geral, são os olhos que entregam, eles são a janela da alma e tal... mas os dela estão tão deteriorados que são completamente irreconhecíveis. Ela não me é nem um pouco familiar. — Ele balança a cabeça, fulminando Lótus com o olhar. Sua expressão se suaviza quando ele se vira para mim. — Ever, você tem que considerar que eu vi essas pessoas há mais de seiscentos anos. Só não mencionei isso antes porque não quis que se preocupasse sem necessidade, sobretudo quando não há como provar nada, além disso, minha única preocupação é você, nós, aqui no presente, e felizes no futuro. O passado não me importa mais. A não ser por Drina e Roman, não faço ideia do que aconteceu com os outros órfãos. Não imagino que fim tiveram...
— Mas Roman sabia — interrompo, lembrando-me do que Haven disse que Roman lhe contara, sobre as histórias que escrevia no diário.
Damen e Drina podem ter seguido em frente, mas Roman persistira, manteve contato. Mais tarde, descobriu um modo de recriar o elixir, e, cerca de cento e cinquenta anos depois, quando seu efeito começou a passar e os imortais começaram a mostrar sinais de envelhecimento, ele os procurou e lhes deu a bebida de novo, repetindo o processo a cada século e meio, até o presente.
E agora que ele se foi, não há ninguém para olhar por eles. Sem contar que não há como saber quantos ele decidiu transformar por conta própria. Se o número de almas desconhecidas que acabamos de libertar em Shadowland serve de base, é seguro afirmar que há muitos, muitos outros.
Analiso Lótus, imaginando há quanto tempo ela tomou o elixir pela última vez. Nunca vi ninguém tão velho quanto ela, sobretudo um imortal. Todos os imortais que conheci eram jovens e belos, cheios de saúde e vitalidade, fisicamente perfeitos em todos os sentidos. Enquanto ela é o extremo oposto: velha, castigada pelo tempo, com a pele fina como papel, o corpo tão frágil que parece que a mais leve brisa poderia derrubá-la, quebrá-la em um milhão de pedacinhos.
Damen e eu estamos tão perdidos em nossos pensamentos que somos pegos de surpresa quando Lótus avança e segura nossas mãos, os olhos envelhecidos iluminando-se vivamente enquanto sua mente se conecta à nossa, projetando uma série de imagens que eu nunca esperaria ver — imagens que me fazem questionar tudo.

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