2 de novembro de 2015

Vinte e cinco

Quando chego à casa de Roman, faltam apenas alguns minutos. Dois, para ser mais exata, e espero que seu relógio esteja batendo o mesmo horário.
Mas, desta vez, em vez de derrubar a porta como sempre faço, bato e espero.
Porque, se realmente daremos uma trégua, como ele disse, não custa mostrar boas maneiras.
Espero, olhando para o relógio e contando os segundos. O som leve de seus passos se aproximando sinaliza que chegou meu momento. A magia deu certo.
A porta se abre e ele fica ali parado diante de mim, olhos azuis brilhantes, dentes brancos e pele bronzeada, usando um robe preto de seda, solto nos ombros, expondo uma boa área de seu peito desnudo, abdômen notavelmente definido e jeans desbotados de cintura baixa.
E não preciso de mais nada. Uma olhada rápida naquela dádiva e meu corpo começa a tremer, os joelhos perdem a firmeza e meu pulso acelera de um modo tão terrivelmente familiar que uma nova percepção lentamente toma conta de meu ser:
O monstro não está morto! Não foi expulso! Simplesmente se retirou, escondeu-se em algum lugar profundo aguardando sua hora e recobrando as forças até poder emergir novamente...
Engulo em seco, obrigando-me a acenar com a cabeça como se tudo estivesse bem. Percebo que ele está me varrendo com os olhos, sem deixar escapar nada, e sei que preciso acabar com isso. Custe o que custar, não posso fracassar quando tudo de que preciso está tão ao meu alcance.
Com a cabeça inclinada para o lado, ele faz um sinal para que eu entre.
— Fico feliz em ver que chegou a tempo — ele diz, observando-me cuidadosamente.
Eu me viro e não chego nem a metade do corredor antes de parar e reconsiderar. Vejo o olhar de divertimento que passa por seu rosto enquanto a cor some do meu.
—A tempo para quê, exatamente? —Estreito os olhos, espremendo-me contra a parede enquanto ele passa e faz sinal para eu segui-lo.
—Para seu aniversário, É claro! —Ele ri, olhando para trás e balançando a cabeça. — Aquele Damen é um idiota sentimental. Sei que ele fez de tudo para tornar seu dia especial. Mas, ouso dizer, não tão especial quanto o que estou prestes a fazer.
Fico parada, recusando-me a me mover. Apesar de minhas mãos e pernas estarem tão trêmulas que parece que as juntas vão se soltar, minha voz permanece controlada, comedida, sem deixar nada transparecer.
—Cumprir sua promessa e me entregar o que eu quero tornaria meu dia especial o suficiente. Não precisa nem me convidar para me sentar nem me oferecer Luna bebida. Por que não aceleramos e vamos direto ao ponto?
Ele olha para mim, rindo com os olhos e com um sorriso também nos lábios.
— Uau, esse Damen é mesmo um cara de sorte. —Ele balança a cabeça e passa os dedos pelos cabelos dourados. — Nada de perder tempo com preliminares. Parece que nossa pequena Ever aqui prefere ignorar a entrada e ir direto ao prato principal... e, gata, preciso aplaudi-la por isso.
Obrigo meu rosto a permanecer neutro, impassível, apesar do tanto que suas palavras me perturbaram. Sinto a dor de saber que essa chama negra queima cada vez mais forte dentro de mim, agora agitada pela presença dele.
—Você pode não querer se sentar, nem tomar uma bebida, mas eu quero. E, como sou o anfitrião esta noite, acho que você vai ter que fazer minha vontade.
Ele segue na direção da saleta como um turbilhão de seda preta, vai até o bar e enche uma pesada taça de cristal com uma boa dose de líquido vermelho. Balança a taça diante de mim, fazendo o líquido opaco borbulhar e brilhar enquanto corre no interior da taça, fazendo eu me lembrar de Haven uma vez ter dito que o elixir de Roman era mais potente do que o de Damen.
Fico imaginando se é verdade, se lhes da algum tipo de vantagem... Se funcionaria assim para mim também ou se acabaria me deixando louca e perigosa como eles.
Aperto os lábios e luto para me manter serena. Meus dedos começam a ficar inquietos, nervosos, e sei que não vai demorar muito até que eu perca o controle por completo.
— Sinto muito sobre seu probleminha com Haven — diz Roman, levantando a taça e tomando um longo gole. — Mas as pessoas mudam, sabe? Nem toda amizade é feita para durar.
— Eu não desisti. — Dou de ombros. As palavras saem com muito mais segurança do que sinto. — Tenho certeza de que vamos conseguir resolver tudo — acrescento, com o pulso estranho batendo dentro de mim quando ele inclina a cabeça e permite que a tatuagem de Ouroboros apareça e desapareça.
— Tem certeza disso, gata? — Ele me olha, passando o dedo na haste da taça enquanto seu olhar se move sobre mim daquele modo lento, vagaroso, íntimo que ele faz. Ele escolhe fixar o olhar no decote profundo em v de meu vestido e diz: - Sem querer ofender, mas preciso discordar. Minha experiência diz que quando duas garotas querem a mesma coisa... Bem, alguém corre o risco de se ferir... Ou algo pior, como você bem sabe.
Aproximo-me dele. Não o monstro, mas eu (embora o monstro certamente não se oponha) olho em seus olhos e digo:
— Mas Haven e eu não queremos a mesma coisa. Ela quer você e eu quero algo totalmente diferente.
Ele olha para mim por cima da taça, que cobre todo o seu rosto, menos o olhar azul-metálico.
— Ah, sim, e o que seria isso, gata?
— Você sabe muito bem. — Dou de ombros, tirando a mão da cintura e colocando-a para trás, para que ele não veja como treme. — Não foi para isso que me chamou aqui?
Ele confirma com a cabeça, apoiando a bebida no descanso dourado.
— Mas eu queria ouvir você dizer. Amo ouvir as palavras ditas em voz alta... Dos seus lábios para meus ouvidos. — Respiro fundo, observando seu olhar fechado, os lábios grandes e sedutores, o peito largo. Meus olhos são atraídos para seu abdômen, e ainda mais abaixo, quando digo:
— O antídoto. — Empurro as palavras para fora, imaginando se ele tem alguma ideia da batalha travada dentro de mim. — Eu quero o antídoto repito, com mais firmeza desta vez. — Como você já está cansado de saber.
Antes que eu possa impedir, ele já está parado diante de mim. Rosto contido, mãos relaxadas na lateral do corpo. O frio de sua pele emana em minha direção uma onda de alívio refrescante e doce quando ele diz:
— Quero que saiba que trouxe você aqui com a mais pura intenção. Depois de ver como sofreu nos últimos meses, estou totalmente preparado para colocar um ponto final nisso e entregar o que você quer. Mesmo tendo sido bastante divertido, pelo menos para mim. — Ele dá de ombros. — Assim como você, Ever, estou pronto para seguir em frente. Vou voltar para Londres. Esta cidade aqui é muito devagar para o meu gosto. Preciso de um pouco mais de ação.
Roman se vira, sinaliza com o dedo para que eu o siga, solta um muxoxo de reprovação à minha resistência e diz:
— Confie em mim, gata, não pretendo enganar nem arrastar você para meu quarto. — Ele balança a cabeça e ri. — Teremos muito tempo para isso depois, se quiser. Mas, por enquanto, tenho algo um pouco mais técnico planejado. Falando nisso, já fez algum teste com detector de mentiras?
Estreito os olhos, sem saber o que ele quer dizer, mas tenho certeza de que é uma armadilha. Sigo-o pelo corredor e pela cozinha, saímos pela porta dos fundos, passamos por um ofurô na lateral da varanda e entramos em um cômodo que parece uma garagem metade transformada em loja de antiguidades, a outra metade em laboratório de cientista louco.
— Odeio precisar dizer isso, gata, e, acredite, não quero ofender, mas você tem fama de mentir de vez em quando... Principalmente em ocasiões que a beneficiem. E como sou um homem íntegro, já que prometi dar o que realmente quer mais do que qualquer outra coisa no mundo, sinto que o certo é ambos sabermos exatamente o que é. Com certeza tem alguma coisa muito estranha acontecendo entre nós. Preciso lembrar a você como se jogou em cima de mim da última vez em que esteve aqui?
— Não foi... — começo a falar, mas logo paro quando vejo ele levantar a mão.
— Por favor. — Ele dá um sorriso falso. — Poupe-me das desculpas. Tenho um modo muito mais direto de conseguir as respostas que quero.
Franzo os lábios. Já vi seriados de crime na TV o suficiente para reconhecer a aparelhagem para a qual ele está me levando. E ele está muito enganado se acha que vou me ligar naquilo e consentir em passar por um teste de polígrafo. — Esqueça — digo, dando meia-volta, pronta para sair. — Vai ter que aceitar minha palavra, ou não tem acordo.
Já estou na porta quando ele diz:
— Bem, existe outra coisinha que posso tentar. — Eu paro. — E, acredite, não há como trapacear, especialmente com pessoas como nós. E por acaso tem tudo a ver com essas baboseiras metafísicas de tudo é energia e unidos em um só de que você tanto gosta.
Respiro fundo e alto, batendo o pé no chão, esperando liberar um pouco dessa energia que se forma dentro de mim, e também mostrar a ele como estou ficando impaciente.
Mas Roman não é de correr, ou se apressar, ou agir em qualquer outro ritmo que não seja o dele. Ele se distrai tirando um fio solto do robe, olha para mim e diz:
— Sabe, Ever, acontece que está provado cientificamente que a verdade sempre, sempre é mais forte do que a mentira. Que se ambas forem medidas lado a lado, uma contra a outra, por assim dizer, a verdade sempre vence. O que acha?
Reviro os olhos, o que por si só já mostra o que acho de tudo isso e de tudo o que virá em seguida.
Mas Roman está impassível, determinado a jogar do modo dele, e completa:
— Bem, há um jeito muito fácil de testar essa teoria, um jeito que não pode ser manipulado e não exige nada além de seu próprio organismo. Gostaria de tentar?
Hum, acho que não!, Começo a dizer, quero dizer, mas o monstro está acordado e não me deixa falar, o que só estimula Roman a continuar.
— Então, você diria que nós dois temos a mesma força? Que no caso de pessoas como nós não há diferenças físicas em termos de força entre homens e mulheres?
Dou de ombros. Nunca parei para pensar sobre isso e não estou nem um pouco interessada em começar agora.
— Então, levando isso em consideração, gostaria de demonstrar algo que você vai achar muito interessante. E, diga-se de passagem, garanto que não estou tentando enganá-la, não é um jogo e ninguém vai sair machucado. Estou sendo sincero ao dizer que vou lhe dar aquilo que mais quer, e essa é a melhor forma que conheço para determinar o que seria isso. Posso até ir primeiro, para você ver que não tenho nenhum truque na manga.
Ele fica parado diante de mim, com os braços abertos ao lado do corpo, paralelos ao chão de concreto. Faz um gesto afirmativo com a cabeça e diz: - Agora, vamos, coloque dois dedos sobre meu braço e empurre de leve para baixo, enquanto eu resisto e empurro para cima. Não é brincadeira nenhuma, eu juro. Você vai ver.
Olho em seus olhos, vendo seu olhar desafiador e ciente de que não tenho escolha além de ir em frente, já que ele é o único que tem a chave. Tenho que jogar seu jogo, com suas regras, a seu modo.
Olho para seu braço suspenso diante de mim, bronzeado, forte, implorando para ser tocado. Mesmo sabendo que não posso fazer isso, que não consigo me conter, ainda assim cerro os dentes e tento. Pressiono meus dedos contra ele, sentindo o frio de sua pele emanar através do tecido macio do robe, fazendo com que a chama negra que está dentro de mim fique agitada e resplandecente.
— Está sentindo? — A voz de Roman é um sussurro macio e grave em meu ouvido.
Olho para ele, ciente apenas do pulso insistente que bate dentro de mim enquanto meu corpo se enche de calor. Calor que não busca nada além de seu alívio doce e refrescante.
— Certo, agora quero que me faça uma pergunta, uma pergunta simples, para a qual já saiba a resposta, e me dê um momento para eu pensar na resposta, tanto mental quanto verbalmente, enquanto você tenta empurrar meu braço para baixo com os dois dedos.
Olho para o relógio e para ele, com os joelhos tremendo, sabendo que não tenho muito tempo.
Mas ele apenas faz um gesto positivo com a cabeça, encarando-me com um olhar encorajador.
— A verdade fortalece, a mentira enfraquece. Agora é a sua chance de testar essa teoria em mim, para depois podermos testar em você. É o único jeito de provar o que realmente quer, Ever. Então, vá em frente, faça uma pergunta, a que quiser. Vou inclusive baixar meu escudo para você poder ler meus pensamentos e ver que não estou trapaceando.
Ele olha para mim, e o peso de seu olhar faz com que meu pulso acelere e meu coração dispare até que eu não... não consiga...
— Faça uma pergunta, Ever. — Ele olha para mim atentamente. — Pergunte o que quiser. Quanto mais cedo terminarmos minha parte, mais cedo poderemos determinar o que é que você mais deseja.
Fico a seu lado, lutando para me manter estável, centrada, mas é inútil, não consigo, não posso mais participar de seu jogo.
— Prefere seguir adiante? — ele pergunta, os olhos passando por mim lenta e atentamente. — Prefere que eu teste você primeiro?
Ele espera, dando-me um tempo para me recompor, respirar fundo e fazer uma súplica silenciosa para Hécate, pedindo-lhe forças para passar por isso, para obter o que vim buscar. Mas, quando olho novamente para Roman, percebo que Hécate me deixou, estou por conta própria.
— É o antídoto que você quer, certo? — ele pergunta, virando-se para mim, tão perto que posso sentir seu hálito em meu rosto, os lábios apenas a alguns centímetros dos meus. — É essa a única coisa que você deseja, mais que qualquer outra?
É!, eu grito. A palavra vem das profundezas e minha mente a repete com tanta força que tenho certeza de que ele pôde escutar.
Só que não escutou. Porque nunca foi dito.
É apenas um som vazio que fica ecoando em minha mente até que finalmente se extingue.
E no instante em que seus olhos encontram os meus, estou perdida.
O fogo ruge dentro de mim, deixando meu corpo em chamas enquanto meus dedos, ávidos por sentir sua pele, agarram e arranham seu peito macio e bronzeado.
— Cuidado, gata. — Roman agarra meus pulsos e me puxa para perto dele, com os olhos semicerrados, os lábios úmidos. — Nunca fui fã de marcas de unha, não importa se vão desaparecer rápido. — Ele me afasta e me olha de cima a baixo, faminto, predatório. Sou seu banquete. — Além disso, não vamos usar essas baboseiras. — Ele ri, desamarrando o amuleto de meu pescoço e jogando-o do outro lado do cômodo, onde rola, quica e bate no chão.
Mas eu não me importo, não me importo com nada além da sensação de seus dedos descendo por minhas costas, o modo como ele afunda o rosto em meus cabelos e pressiona o nariz em meu pescoço, inspirando profundamente, enchendo-se de meu cheiro. Seus olhos ardentes fitam os meus quando ele me levanta e me coloca no sofá. Ele se livra do robe e desabotoa os jeans enquanto passo as mãos por suas costas e o puxo para mais perto, ávida por sentir seu beijo, seus lábios nos meus.
Respiro fundo quando ele me afasta, tira minhas mãos de seu pescoço e diz: - Pegue leve, gata. É você que não gosta de preliminares, lembra? Teremos muito tempo para isso depois, mas, primeiro, vamos logo ao que interessa. Afinal, você esperou por... quanto tempo? Quatrocentos anos?
Puxo-o de volta para mim, sedenta por mais - mais de sua pele, mais de seu gosto. Meu corpo se contorce, arqueia, desesperado por encontrar o dele, meus lábios voluptuosos, vorazes por tudo que ele possa me dar. Quero que ele me queira do mesmo modo que eu o quero, e estou disposta a fazer o que for preciso para conseguir que ele me beije. De repente, eu me lembro do que preciso fazer...
Ele encaixa o joelho entre os meus, tirando as calças e acomodando os quadris, posicionando-se enquanto diz:
— Vai doer só um pouquinho, gata, e depois...
E então ele olha para mim e tudo para - seus olhos vidrados de desejo, os lábios entreabertos de espanto, enquanto aquele olhar, o olhar que eu estava esperando, que eu desejava, assume o controle.
O olhar que mostra que ele me quer, que precisa de mim, do mesmo jeito que eu o quero e preciso dele.
Puxo-o para perto, desesperada para finalmente sentir a pressão de seus lábios, quando ele se inclina em minha direção e sussurra uma reverência abafada:
— Drina...
Recuo, confusa, olhando em seus olhos e vendo- o que ele vê - cabelos vermelhos reluzentes, pele de porcelana, olhos verde-esmeralda -, um reflexo que não pertence a mim.
— Drina... — ele murmura. — Drina, eu...
E enquanto meu corpo ainda está respondendo, estimulando seu toque e as carícias em minha pele, meu coração recua, recusando-se a representar. Há algo errado, algo muito, muito errado. Algo atrapalhando, começando a tomar forma quando ele puxa meu vestido, que logo escorrega.
Quando olho para ele e vejo aquele olhar vidrado em seus olhos, sei que está quase aqui. Meu presente de aniversário, a coisa que eu mais queria está prestes a ser minha.
Tenho uma pequena noção de que de agora em diante nada mais será igual.
Nada.
Nunca mais.
Ele afasta minhas pernas enquanto me preparo para aquele breve instante de dor. Viro-me e vejo o espelho na outra parede, mas a imagem é a de uma garota de cabelos vermelhos, pele clara e luminosa, olhos verde-esmeralda e um sorriso tão selvagem que o reconheço imediatamente.
A mesma imagem que ele vê quando olha para mim. Só que não sou eu. Não sou eu mesmo!
— Está preparada, gata? — Roman me olha com expectativa.
Embora minha cabeça diga que sim e meu corpo se levante para encontrar o dele, não sou eu de verdade quem está respondendo. O monstro pode controlar meu corpo, mas não tem nada a ver com meu coração ou minha alma.
Como Roman disse antes: — No final, a verdade sempre vence. — Por sorte, minha alma sabe o que está acontecendo.
Fecho os olhos e me concentro em meu chacra do coração, e vejo aquele círculo de energia verde emanar bem do centro de meu peito, estimulando-a a crescer, expandir-se, ficar cada vez maior, até...
Roman murmura meu nome, só que não é meu nome de fato, é o nome dela, com a voz cheia de expectativa, ansioso para começar, sem ideia do que sou capaz, de que, pelo menos por um instante, consegui ganhar.
Levanto o joelho e o acerto diretamente lá. Meus ouvidos zunem com o som de seu grito de agonia, enquanto leva as mãos ao meio das pernas e revira os olhos. Escapo de baixo dele, movendo-me apressadamente, sabendo que é apenas uma questão de segundos até que ele se cure e volte com força total.
— Onde você escondeu? — pergunto enquanto pego freneticamente minhas roupas e coloco o amuleto de volta no pescoço, sabendo que ele já me vê novamente como uma loura de olhos azuis. — Onde está? — exijo, olhando ao redor do pequeno e ordenado laboratório.
Ele abaixa a cabeça, examinando a si mesmo cuidadosamente, enquanto resmunga:
— Droga, Ever...
Mas eu não tenho tempo para isso.
— Onde está, diga logo! — grito, lutando para me concentrar no chakra do coração enquanto seguro o amuleto bem perto do peito.
— Está louca? — Ele dá de ombros e faz cara feia. — Você me apronta uma sacanagem dessa e ainda espera que eu a ajude? — Ele balança a cabeça.
— Esqueça. Você poderia estar com esse antídoto, poderia ter saído com ele há dez minutos, mas fez sua escolha, Ever. Foi justo, como nós dois sabemos. Eu estava preparado para lhe entregar, e não, não está aqui. Então não precisa se dar o trabalho de saquear o lugar em busca dele. É sério. Acha que sou idiota? - Ele veste o robe e o fecha no peito, como se quisesse impedir que eu fique tentada novamente. Mas, apesar de o monstro ainda vociferar dentro de mim, não estou mais interessada. A fera pode estar viva e bem, mas minha alma e meu coração agora comandam. - Eu estava preparado para levá-la até ele, mas você fez outra escolha. E só porque se arrependeu na última hora e resolveu seguir seu coração... — Ele franze a testa de modo que me diz que conhece a fonte de minha força. — Isso não muda nada. Você me escolheu, Ever. Eu era o que você mais queria. Mas agora, depois desse golpe, não vai ganhar nenhum dos dois. — Ele balança a cabeça. — Não tem segunda chance depois de uma sacanagem dessas.
Fico parada diante dele, a chama negra enfurecendo-se por dentro, estimulando-me a partir para cima daqueles olhos da cor do oceano, dos cabelos dourados, dos lábios úmidos, dos quadris bem-desenhados...
— Não — resmungo, dando um passo para trás. — Eu não quero você. Eu nunca quis. Não sou eu... é... é outra coisa. Não é culpa minha, não estou no controle!
Aperto os lábios, sabendo que há apenas um modo de sair daqui, mas que não deveria fazê-lo na frente dele, não deveria levantar suspeitas desse jeito. Só que não tem outro jeito, não posso confiar em minhas pernas para me levarem a outro lugar além de sua cama.
Aperto o amuleto junto ao peito e me concentro no véu brilhante e dourado. Visualizo o portal para Summerland e o vejo se abrir diante de mim. Estou prestes a entrar quando ele diz:
— Bobagem, Ever. Não percebe que não há mais diferença entre você e seu... monstro? Você é o monstro. É seu lado negro, sua eu-sombra, e agora vocês se transformaram em um só.

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