3 de novembro de 2015

Um

Ever, espere!
Damen estica o braço em minha direção e segura meu ombro, tentando fazer com que eu vá mais devagar, puxar-me de volta para perto dele, mas eu continuo em frente, não posso me atrasar. Não quando estamos tão perto, quase lá.
A preocupação corre por ele como chuva em um para-brisa, não diminui nem mesmo quando ele aperta o ritmo, acompanhando minhas passadas largas, e entrelaça os dedos nos meus.
— Deveríamos voltar. Não pode ser aqui. Nada aqui é sequer parecido. — Seu olhar percorre a distância do cenário perturbador até meu rosto.
— Você está certo. Nada é parecido.
Caminho de um lado para o outro, minha respiração está muito rápida, meu coração começa a acelerar. Levo um instante para analisar o entorno antes de arriscar mais um passo à frente. Então, um pequeno passo após o outro, até que meus pés afundam tanto na lama que desaparecem por completo.
— Eu sabia — sussurro, as palavras quase inaudíveis, embora eu não precise falar para que Damen me ouça, já que podemos nos comunicar por telepatia com a mesma facilidade. — É exatamente como no sonho. É...
Ele olha para mim. Esperando.
— Bem, é exatamente como eu esperava. — Viro para o lado, meus olhos azuis encontram seus olhos escuros, e sustento o olhar, querendo que ele capte o que vejo. — Tudo isso, tudo o que está vendo aqui, é como... é como se tudo tivesse mudado por minha causa.
Ele ajoelha a meu lado, a palma da mão subindo e descendo lentamente por minhas costas em pequenos círculos, mostrando sua vontade de amenizar, de contestar o que acabei de dizer, mas, em vez disso, opta por ficar em silêncio. Não importa o que diga, não importa que seu argumento seja bom e sólido, ele me conhece. Sabe muito bem que não serei persuadida.
Eu ouvi a senhora idosa. Ele a ouviu também. Viu-a apontar o dedo, notou o olhar acusatório dela, ouviu as notas amaldiçoadas de sua canção sinistra, com letra enigmática e melodia arrastada.
O alerta destinado exclusivamente a mim.
E agora isso.
Suspiro ao olhar para aquilo — o túmulo de Haven, por assim dizer. O local onde, há apenas algumas semanas, cavei um buraco profundo para enterrar seus pertences, tudo o que sobrou dela: as roupas que usava quando mandei sua alma para Shadowland. Um local que eu considerava sagrado, intocável, agora está diferente, transformado. A terra que já fora fértil transformou-se em uma lama úmida e mole, sem sinal das flores que materializei, sem qualquer tipo de vida. O ar não cintila mais, não brilha, praticamente impossível de se distinguir da parte obscura de Summerland com que deparei antes. É tudo lúgubre e sinistro, tanto em aparência quanto na sensação que transmite. Damen e eu somos as únicas criaturas dispostas a nos arriscar por ali.
Os pássaros mantêm-se no perímetro, o tapete de grama das redondezas se encolhe sobre si mesmo. É tudo de que preciso como prova para ter certeza de que este lugar mudou por minha causa.
Como fertilizante pulverizado sobre um pequeno canteiro de ervas daninhas, cada alma imortal que enviei para Shadowland manchou e infectou Summerland, criando seu oposto, seu lado sombrio, um yin indesejável para o yang de Summerland. Um lugar tão escuro, tão triste e tão hostil que magia e materialização não podem existir nele.
— Não estou gostando disso. — A voz de Damen está tensa, e seus olhos não param. Está ansioso para partir.
Mesmo que eu também não goste, mesmo que eu esteja pronta para virar as costas e nunca mais olhar para trás, não é tão simples assim.
Faz apenas alguns dias desde minha última visita. Apesar de saber que fiz o que era preciso, que não tive escolha a não ser matar Haven, minha antiga melhor amiga, não consigo deixar de voltar aqui e pedir perdão: perdão pelo que fiz e também pelo que ela fez. E esse curto espaço de tempo bastou para que o lugar passasse da luz à escuridão, ficasse sombrio, lamacento e estéril — o que significa que depende de mim fazer algo para impedir que esse efeito se alastre ainda mais.
Que fique ainda pior.
— O que exatamente você viu no sonho? — A voz de Damen fica mais suave quando seu olhar pousa em mim.
Respiro fundo e afundo ainda mais. Os bolsos de minha calça jeans surrada mergulham na lama, mas não me importo. Posso materializar outra, nova e limpa, assim que sair daqui. As roupas são o que menos me preocupa nisso tudo.
— Não é um sonho novo. — Eu me viro e olho em seus olhos, vendo o lampejo de surpresa que toma seu rosto. — Já sonhei isso antes. Há muito tempo. Pouco antes de você decidir se afastar de mim para que eu escolhesse entre você e Jude.
Ele engole em seco e se encolhe de leve só de pensar naquela lembrança desagradável, o que faz com que eu me sinta mal, já que não era essa minha intenção.
— Na época eu tive certeza de que Riley enviara o sonho. Quer dizer, ela estava nele e parecia tão vibrante e... Viva. — Balanço a cabeça. — E, bem, talvez fosse ela, talvez fosse apenas uma ilusão provocada pela falta que sinto dela. Mas, assim que ela chamou minha atenção, percebi que era você quem ela queria que eu visse. Você era o motivo do sonho.
Ele arregala os olhos.
— E... — Ele me instiga, o maxilar tenso, preparando-se para o pior.
— E... é como se você estivesse detido nessa prisão enorme e retangular de vidro, lutando com todas as forças para escapar. Mas, independentemente de quanto se esforçava, não conseguia se libertar. Mesmo quando eu tentava ajudar, tentava chamar sua atenção para buscarmos juntos uma saída, era como... como se você não conseguisse me ver. Eu estava bem ali, do outro lado, havia apenas o vidro entre nós, e mesmo assim era como se eu fosse invisível, você não tinha noção alguma de minha presença. Não era capaz de ver o que estava bem ali na sua frente...
Ele assente com a cabeça. Movimenta-a de um jeito que me diz que seu lado racional, o que gosta de explicações claras e soluções fáceis, está ansioso para assumir.
— Um típico sonho surreal — diz, os músculos de sua fronte relaxando de alívio. — É sério. Parece que você acha que não estou lhe dando atenção suficiente, que não ouço de verdade o que você diz, ou até que...
Mas, antes que ele possa continuar, eu o interrompo.
—Acredite, não foi do tipo que aqueles livros de interpretação de sonhos para iniciantes comentam. No de hoje, assim como no que tive antes, quando você percebia que não podia vencer, quando se dava conta de que estava preso para sempre... bem, você desistia. Simplesmente deixava os braços caírem ao lado do corpo, fechava os olhos e ia embora. Ia para Shadowland.
Ele engole em seco e tenta parecer bem, mas não adianta. Claramente está tão abalado quanto eu fiquei quando tive o sonho.
— E então, logo depois, tudo despareceu. E tudo quer dizer você, a prisão de vidro, o cenário. Tudo. Só sobrou um pedaço de terra sombrio e úmido, muito parecido com o lugar onde estamos. — Comprimo os lábios, vendo a cena com tanta clareza que é como se estivesse imersa nela. — Mas a última parte foi novidade. Quer dizer, não estava no sonho original. Ainda assim, logo que acordei soube não apenas que os dois sonhos estavam interligados, mas também que tinham relação com este lugar. Eu soube que tinha que vir até aqui. Tinha que ver com meus próprios olhos. Ver se estava certa. Só sinto muito tê-lo arrastado comigo.
Passo os olhos nele, observando o cabelo despenteado, a camiseta macia e amassada, o jeans surrado — roupas pegas às pressas, segundos antes de eu materializar o véu dourado de luz que nos trouxe aqui. Sinto seus braços fortes me envolvendo, seu calor me lembrando de algumas horas antes, quando estávamos debaixo dos lençóis, os corpos unidos, prontos para dormir.
Quando nossa única preocupação imediata era Sabine, e como ela reagiria ao fato de eu não ir para casa por duas semanas seguidas.
Como ela lidaria com o fato de eu ter interpretado ao pé da letra o que me disse sobre eu não voltar até ter procurado o tipo de ajuda de que ela está convencida de que eu preciso.
E, embora eu não tenha dúvidas de que preciso de ajuda, especialmente se levar em conta o que está diante de mim, infelizmente não é o tipo de ajuda que Sabine tem em mente. Não é o tipo que pode ser encontrado em uma receita médica, no divã de um psiquiatra ou no mais novo livro de autoajuda.
Requer algo muito mais poderoso que isso.
Permanecemos algum tempo ali, ambos encarando o túmulo de Haven.
Os pensamentos de Damen se fundem cuidadosamente nos meus, fazendo-me lembrar de que quaisquer que sejam as consequências, o que quer que aconteça, ele estará a meu lado. Eu não tive escolha a não ser fazer o que fiz.
Ao matar Haven, salvei Miles. Salvei a mim mesma. Ela não conseguiu lidar com o poder, ultrapassou todos os limites. Quando a transformei em imortal, outro lado dela se revelou — um que não esperávamos.
Mas é nesse ponto que Damen e eu discordamos. Sou mais propensa a acreditar no que Miles disse pouco depois que o salvei das mãos dela. Que o lado sombrio de Haven não era novidade ou surpresa. Ele sempre existiu, ela sempre mostrou sinais dele. Mas, como éramos amigos dela, nós nos esforçávamos para ignorá-lo, optávamos por não vê-lo, por enxergar apenas a luz. E, ao encarar os olhos de Haven naquela noite, vi que brilharam vitoriosos quando ela jogou a camisa de Roman — a última esperança que eu tinha de conseguir o antídoto que permitiria que Damen e eu ficássemos juntos — no fogo. Bem, não me restaram dúvidas de que o lado negro havia exterminado a parte boa que havia nela.
Quanto à morte de Drina, bem, era matar ou morrer. Simples assim.
Roman não teve sorte, mas ainda assim foi pura e simplesmente um acidente. Um trágico mal-entendido, agora posso afirmar com certeza. Do fundo do coração, sei que foi unicamente por querer meu bem que Jude acabou interferindo tão desastrosamente. Sua intenção era boa.
Nós nos levantamos lenta e solenemente, cientes de que as respostas que procuramos não estão aqui, de que nossa melhor aposta é começar pelos Grandes Salões do Conhecimento e ver aonde isso nos leva. Estamos prestes a ir para lá quando a ouvimos. A canção que nos deixa paralisados:
Da lama se erguerá
Os vastos céus oníricos alcançará
Como você-você-você também deve fazer...
Damen agarra minha mão com mais força e me puxa para si, e nos viramos juntos para encará-la. Observamos as longas mechas de cabelo que, tendo escapado da trança que desce por suas costas, esvoaçam livremente ao redor do rosto velho e enrugado, como um sombrio halo prateado, enquanto seus olhos rugosos e cobertos por catarata fixam-se nos meus.
Das escuras profundezas
Lutará para atingir a luz
Com apenas uma vontade
A verdade!
A verdade de seu ser
Mas você permitirá?
Deixará que se levante e floresça e progrida
Ou às profundezas a condenará?
Exilará sua alma desgastada e exaurida?
Ela repete a canção, enfatizando o final de cada verso. Eleva a voz quando canta: "Erguerá — alcançará — fazer — profundezas — luz — vontade — verdade — ser — permitirá — progrida — condenará — exaurida — exaurida — exaurida...”, repete a última parte várias vezes, passando os olhos sobre mim, analisando, observando, mesmo parecendo cegos, e, enquanto ergue em concha as velhas mãos retorcidas e trêmulas diante de si, os dedos abrem-se lentamente e deixam cinzas voarem.
Damen aperta ainda mais minha mão, lançando-lhe um olhar ríspido e alertando:
— Não se aproxime.
Entra em minha frente e continua:
— Fique onde está. Não se aproxime. — Seu tom de voz é equilibrado, seguro, e contém uma ameaça implícita impossível de não ser notada.
Mas, mesmo que tenha ouvido, ela não lhe dá importância. Seus pés continuam em movimento, arrastando-se para a frente, enquanto os olhos se mantêm a encarar, e os lábios não interrompem a canção. Ela se detém bem perto de nós, equilibrando-se na beirada do perímetro — no ponto exato onde a grama termina e a lama começa —, e sua voz muda de repente, ficando mais baixa, e diz:
— Estávamos esperando por você. — Ela se curva diante de mim, dobrando-se com agilidade e graça surpreendentes para uma pessoa tão envelhecida, tão... antiquada.
— É o que você disse — respondo, para a consternação de Damen.
Não caia na conversa dela!, ele alerta mentalmente. Espere meu sinal. Vou nos tirar daqui.
Tenho certeza de que ela ouviu as palavras quando dirige o olhar para ele. O azul desbotado de suas velhas íris praticamente rola nas órbitas quando ela diz:
— Damen.
O som da palavra faz com que o corpo dele fique tenso, e ele se prepara física e mentalmente para qualquer coisa — menos para o que vem a seguir.
— Damen. Augustus. Notte. Esposito. Você é a razão. — Seus cabelos finos se elevam e se enrolam em uma brisa materializada que faz tudo girar. — E Adelina, a cura. — Ela junta as palmas das mãos e cruza o olhar com o meu.
Observo os dois, incapaz de decidir o que é mais perturbador: o fato de ela saber o nome dele — o nome completo, incluindo um sobrenome que eu não conhecia, e outro, pronunciado de um modo que nunca ouvi — ou o jeito como o rosto de Damen empalideceu e seu corpo ficou estático no momento em que ela o culpou.
Sem mencionar... quem diabo é Adelina?
Mas as respostas que giram na mente de Damen se esvaem antes de chegar aos lábios, interrompidas pela cadência da voz dela, que diz:
— Oito. Oito. Treze. Zero. Oito. É a chave. A chave de que você precisa.
Fico vendo um e outro, notando o modo como os olhos de Damen se estreitam, como ele range os dentes, sussurrando palavras indecifráveis, enquanto aperta ainda mais minha mão e tenta nos tirar da lama, nos levar para longe dela.
Apesar de me haver alertado a não olhar para trás, eu o faço mesmo assim. Viro-me e encaro aqueles velhos olhos embaçados, a pele tão frágil, tão translúcida que parece iluminada por dentro. Ela move levemente os lábios enquanto canta:
— Oito, oito, treze, zero, oito. Esse é o início. O início do fim. Apenas você pode resolver. Apenas você, você, você, Adelina...
As palavras se prolongam, assombram, provocam... e nos perseguem até sairmos de Summerland.
Até chegarmos ao plano terreno.

4 comentários:

  1. Que diabos e Adelina? Isso é de comer?!
    Ass: Bina.

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  2. UOU Acho que Adelina seria Ever neh?!

    ASS:Claudia

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