2 de novembro de 2015

Um

Você nunca me vencerá. Nunca ganhará essa, Ever. É impossível. Você não consegue. Então, por que perder seu tempo?
Estreito os olhos e observo seu rosto atentamente. Examino seus traços pequenos e pálidos, a nuvem negra de cabelos, a ausência de luz em seu olhar cheio de ódio.
Meus dentes estão cerrados e a voz, baixa e comedida quando digo:
— Não tenha tanta certeza assim. Você corre sério risco de estar se superestimando. Na verdade, você está se superestimando. Tenho plena convicção disso.
Ela ri. Em voz alta, com desdém, e o som ecoa por todo o cômodo vazio, rebatendo no piso de madeira e nas paredes brancas e vazias, para me assustar, ou pelo menos intimidar e me confundir em próprio jogo.
Mas não funcionará.
Não pode funcionar.
Estou muito focada nesse sentido.
Toda a minha energia está concentrada em um único ponto, até que todo o resto desaparece e sobram apenas eu, meu punho preparado e o terceiro chacra de Haven — também conhecido como chacra do plexo solar: lar de raiva, do medo, do ódio e da tendência em colocar muita ênfase no poder, no reconhecimento e na vingança.
Meu olhar fixa naquela região como se fosse o centro de um alvo, exatamente no meio de seu torso vestido de couro.
Sei que um golpe rápido e bem-direcionado basta para reduzi-la a nada mais do que um triste pedacinho de história.
Um conto sobre as armadilhas do poder.
Destruído em um instante.
Sem deixar nada para trás além de um par de botas de salto alto e um pequeno amontoado de poeira — as únicas lembranças reais de que ela já esteve aqui.
Mesmo que eu nunca tenha desejado que chegássemos a esse ponto, mesmo que tenha tentado resolver tudo, argumentar com ela, convencê-la a recobrar o juízo, para que pudéssemos chegar a um entendimento — fazer algum tipo de acordo — no fim, ela se recusou a desistir.
Recusou-se a ceder.
Recusou-se a abandonar sua busca desenfreada por vingança.
Deixando-me sem escolha a não ser matar ou ser morta.
Deixando-me sem dúvidas sobre como isso terminará.
— Você é muito fraca — ela me cerca, movendo-se lenta e cuidadosamente, sem tirar os olhos de mim por nenhum instante. Os saltos altos de suas botas batem com força no chão enquanto ela diz: — Você não é páreo para mim. Nunca foi, nunca será.
Ela para e coloca as mãos nos quadris, inclina a cabeça para o lado, permitindo que uma mecha de cabelo escuro e brilhante caia sobre seu ombro e fique pendendo bem abaixo da cintura.
— Você poderia ter me deixado morrer há meses. Já teve sua chance. Mas, em vez disso, decidiu me dar o elixir. E agora se arrepende? Porque não aprova minha transformação? — Ela faz uma pausa longa o suficiente para revirar os olhos. — Bem, problema seu. Não pode culpar ninguém a não ser a si mesma. Foi você quem me fez assim. Quer dizer... Que tipo de criador mata a própria criação?
— Posso tê-la tornado imortal, mas você assumiu a responsabilidade dali em diante — digo com palavras firmes, premeditadas, apertadas em meio a dentes trincados, apesar de Damen ter me orientado a ficar quieta, focada, ser rápida e objetiva, e não entrar em combate desnecessariamente contra ela de forma alguma.
Guarde seus arrependimentos para depois, ele disse.
Mas o fato de estarmos aqui significa que não haverá depois no que diz respeito a Haven. E, apesar do que tudo isso tornou, ainda estou determinada a chegar até ela, a tocá-la, antes que seja tarde demais.
— Não precisamos fazer isso. — Olho fixamente em seus olhos, esperando convencê-la. — Podemos parar por aqui, agora mesmo. Isso não precisa ir mais longe do que já foi.
— Ah, é o que você deseja! — diz cantando, zombando alegremente. — posso ver em seus olhos. — Você não é capaz de fazer isso. Não importa quanto ache que eu mereça, não importa quanto tente se convencer, você é mole demais. Então, o que leva você a acreditar que será diferente desta vez?
O fato de agora você ser perigosa, e não apenas para si mesma, mas para todos. Desta vez é diferente, totalmente diferente. Como você logo verá...
Fecho o punho com tanta força a ponto de os nós dos dedos ficarem brancos instantaneamente. Tiro um segundo para me concentrar, encontrar meu equilíbrio e reabastecer minha luz — exatamente como Ava me ensinou — enquanto mantenho a mão baixa e firme, o olhar fixo no de Haven, a mente livre de qualquer pensamento sobre o que ocorre à minha volta, o rosto despido de qualquer pensamento sobre o que ocorre à minha volta, o rosto despido de qualquer sentimento irrelevante — como Damen me orientou.
A chave é não demonstrar nada, ele disse, agir rapidamente e com uma meta. Agir antes que ela tenha chance de se dar conta do que irá acontecer — ou que ela não perceba que foi atingida até que já seja tarde demais.
Até que seu corpo tenha se desintegrado e sua alma tenha ido para aquele lugar lúgubre e sombrio. Impedindo a ela que tenha qualquer oportunidade de fazer um movimento ou reagir.
Uma lição aprendida em um campo de batalha há muito tempo, e que eu nunca imaginei que aplicaria à minha vida.
Mas, mesmo que Damen tenha me alertado a esse respeito, é inevitável me desculpar. Não consigo impedir que as palavras me perdoe saiam de minha mente para a dela, ás quais ela responde com um lampejo de pena que abranda seu olhar, mas logo é sufocado pelo misto de ódio e desdém de sempre.
Ela ergue o punho e mira em mim, mas é tarde demais. Minha mão já esta em movimento, em plena atividade, e acerta o meio de seu plexo solar, mandando-a cambaleante — em pedaços — diretamente para o abismo infinito.
Para Shadowland.
Lar eterno das almas perdidas.
Tento recuperar o fôlego enquanto a vejo se desintegrar rapidamente, fragmentando-se com tanta facilidade que é difícil imaginar que um dia teve uma forma sólida.
Minhas entranhas se agitam, o coração bate forte, a boca está tão seca que as palavras não saem. O corpo reage como se o que acabou de acontecer diante de mim — o ato que acabei de cometer — não fosse apenas um jogo de faz de conta, mas a terrível realidade.
— Você se saiu bem. Acertou no alvo, bem na marca — diz Damen, cruzando a sala em uma fração de segundos, passando os braços calorosos e fortes ao meu redor enquanto me puxa para perto de seu peito. Sua voz soa como um canto suave aos meus ouvidos enquanto acrescenta: — Embora fosse melhor que tivesse deixado o me perdoe de lado até que ela já tivesse partido. Acredite, seu que se sente mal, Ever, e não posso culpá-la por isso, mas é como já discutimos: em um caso como esse, é você ou ela. Apenas uma pode sobreviver. E , se não se importar, eu prefiro que seja você. — Ele passa a ponta do dedo pelo meu rosto, coloca uma longa mecha de cabelos louros atrás de minha orelha e continua: — Você não pode correr o risco de dar a ela qualquer sinal do que está por vir. Então, por favor, guarde as desculpas para depois, certo?
Faço que sim com a cabeça e me afasto, ainda lutando para controlar minha respiração. Olho para trás, para a pilha de couro preto e renda no chão, tudo o que sobrou da Haven que materializei. Depois pisco e apago todos os vestígios.
Esticando o pescoço de um lado para o outro e balançando cada um dos membros em um movimento que poderia ser interpretado tanto como o de amenizar o estresse quanto o de uma preparação para o que viesse pela frente, Damen escolhe a ultima interpretação e pergunta:
— Então, pronta para outra rodada?
Mas eu apenas olho para ele e faço que não com a cabeça. Chega por hoje. Chega de fingir que mato a forma fantasmagórica e desalmada de minha ex-melhor amiga. É nosso ultimo dia de verão, ultimo dia de liberdade, e há formas muito melhores de aproveitá-lo.
Observo o movimento dos cabelos escuros, ondulados e levemente longos que caem sobre sua testa, sobre aqueles incríveis olhos castanhos, e sigo pela ponta de seu nariz, pelo ângulo das maçãs de seu rosto e pelo volume dos lábios, onde paro por tempo suficiente para me lembrar de como era maravilhosa a sensação de sua boca na minha.
— Vamos para o pavilhão — digo, e meus olhos buscam avidamente aos dele, antes de se desviarem para sua camiseta preta simples, com o cordão de seda que segura o conjunto de cristais escondidos por baixo, e descerem para os jeans desbotados e os chinelos marrons, de borracha, em seus pés. — Vamos nos divertir — reitero, parando por um instante para fechar os olhos e materializar roupas para mim.
Troco a camiseta, os shorts e os tênis que uso para treinar por uma réplica de um dos vestidos decotados com espartilho mais lindos que eu às vezes usava em minha vida parisiense.
E basta olhar uma vez para sua expressão confusa para saber que está resolvido. É quase impossível resistir ao encanto do pavilhão.
É o único lugar onde podemos nos tocar de verdade, sem o véu de energia — onde nossa pele pode se encontrar e nosso DNA se misturar sem nenhum perigo iminente à alma de Damen.
O único lugar onde podemos desaparecer dentro de outro mundo sem quaisquer dos perigos do mundo em que vivemos.
E mesmo que eu já não guarde ressentimento das limitações de nossa vida aqui, que não dê muita atenção a isso, agora que percebo que é consequência direta de eu ter tomado a decisão certa, a única possível, e que minha escolha por fazer Damen tomar o elixir de Roman é o único motivo pelo qual ele ainda está aqui comigo hoje — a única forma de salvá-lo de passar a eternidade em Shadowland — fico feliz em aceitar seu toque da forma que for possível.
Mas, ainda assim, agora que sei que há um lugar onde tudo fica ainda melhor, estou determinada a ir pra lá, e este seria um bom momento.
— Mas, e o treino? As aulas começam amanha, e não quero que seja pega desprevenida — ele diz, obviamente se esforçando para fazer o que é nobre e certo, mesmo parecendo obvio que nossa viagem ao pavilhão já está praticamente decidida. — Não temos ideia do que ela planejou então precisamos nos preparar para o pior. Além disso, ainda não chegamos ao tai chi, e acho que realmente deveríamos falar a respeito. — Você ficará surpresa ao ver como os exercícios ajudam a equilibrar nossa energia... Recarregando-a de uma forma que...
— Sabe o que mais é bom para recarregar minha energia? — Sorrio, sem lhe dar tempo de responder antes que meus lábios encontrem os dele, desejando que ele apenas concorde em irmos para um lugar onde eu possa beijá-lo de verdade.
O calor de seu olhar me enche com uma onda de formigamento e calor que só ele pode me oferecer. Ele se afasta e diz:
— Certo. Você venceu. Mas você sempre vence, não é? — Ele sorri, seu olhar dançando alegremente com o meu.
Ele segura minha mão e fecha os olhos, enquanto nós dois passamos pelo véu cintilante de luz dourada e suave.

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